segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dez (quase) amores

Amei! E foi amor completo. Com direito a idealização, vivência e desconstrução do mito. O livro de estréia de Cláudia Tajes, “Dez (quase) amores”, trás em suas pouco mais de 100 páginas muito humor e irreverência. Narrando as aventuras – e desventuras – amorosas de Maria Ana, a autora consegue a simpatia dos leitores tanto pelas engraçadíssimas situações em que a personagem se encontra, como também pelo fato de estes enredos remeterem a pelo menos um capítulo da vida amorosa de qualquer mulher.


Os amores se passam em capítulos, um a um. Começa no namoradinho de infância e vai até o hilário mágico eslavo, que tem pouco de mágico e menos ainda de eslavo. Desfazendo todas as teorias que levariam qualquer mulher a crer que a protagonista de uma história de amor acabaria nos braços de um Don Juan, Tajes faz de Maria Ana uma mulher muito real. Tão real, que é impossível não ler o livro sem pensar que a autora está escrevendo algum tipo de biografia.


Página por página, é fácil ver as mulheres de carne, osso e cérebro se identificarem com o pavor de ter aparecido na televisão em seu pior ângulo, de encontrar aquele paquera no dia em que o cabelo não toma jeito, ou ainda, a frustração de não cumprir o juramento de nunca tomar para homem de sua vida alguém chamado Dejair.


Os processos? A primeira vista a identificação com o tema toma proporções de idolatria. Depois, a leitura leve pode deixar o leitor mais desconfiado com a impressão de que o livro é um pouco absurdo demais. Mas, como todo amor que se preze, ao final se percebe que a obra foi feita para se gostar assim mesmo, como a uma amiga: com simplicidade, sintonia, muita criatividade e um tremendo de um bom-humor.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Mãos de Cavalo

O segundo romance de Daniel Galera, Mãos de Cavalo, apresenta algumas semelhanças com o primeiro, Até o Dia e que o Cão Morreu, começando pelos personagens jovens e universo tão particular que caracteriza esse período da vida. No entanto, algumas diferenças afastam as duas obras e revelam um maior aprofundamento temático uma vez que, no segundo, a juventude aparece como narrativa paralela, fator nostálgico que interfere no presente do protagonista, um cirurgião plástico atormentado por suas opções existenciais.

O corpo é o principal elemento da história. Toda ação parece motivada por uma possibilidade de mutilação, seja uma corrida de bicicleta ou um jogo de futebol. Essa agressão constante também possui o significado de fuga de um cotidiano saturado onde as angústias existenciais - ou as feridas interiores - não podem ser corrigidas com um bisturi. E eis a ironia, o menino que fantasiava com a dilaceração, e por vezes a concretizava, vai dedicar-se profissionalmente a interferir no corpo alheio talvez como paliativo pelas deformações que julga carregar na alma.

O cenário da história é Porto Alegre, mais precisamente a zona sul da cidade, num bairro que nasce mais ou menos junto com o grupo de amigos que centralizará um dos focos narrativos. O desenvolvimento do lugar, as transformações provocadas pelo tempo espelhará o amadurecimento do protagonista, e da mesma forma que os corpos, o espaço é constantemente operado até a descaracterização. No entanto, apesar das modificações físicas, o bairro ainda – tal como o corpo – guardará alguma essência do passado permitindo uma tentativa de conserto – artificial ? – de antigas amarguras.

A trama inicia com uma aparência fragmentada que, aos poucos, revela sua estrutura contínua. A linguagem utiliza apropriadamente expressões coloquiais e as descrições pormenorizadas de equipamentos técnicos e de bens de consumo como automóveis etc.. parecem – ao contrário de alguns autores contemporâneos que parecem fazê-lo para exaltar a condição financeira dos personagens – carregadas de ironia, a julgar que funcionam como tentativas de mascarar as cicatrizes impostas pelo destino.

O principal atrativo do livro é a contemporaneidade, a identificação, ou pelo menos compreensão do ambiente e das questões colocadas. As diferentes fases da vida retratadas na mesma narrativa são uma brincadeira com o tempo, coisa que, como a própria história indica, não é nada aconselhável se fazer na vida real.




terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Travessuras de menina má

A menina má de Mario Vargas Llosa é uma personagem do tipo que conquista o leitor pela repulsa. Por ser irritantemente sincera no seu desamor. Por fazer de gato e sapato o seu par protagonista, Ricardo Socomurcio. E por deixar o leitor ciente de toda a sua canalhice, abandonando aquele que a ama e voltando apenas nos momentos em que mais está precisando.

A santíssima bondade do personagem Ricardo irrita da mesma forma. Ama incondicionalmente a menina má, desde a sua mais tenra juventude, e aceita todas as idas e vindas daquela mulher, embora prometa, a cada vez que é abandonado, nunca mais sucumbir.

A história contada apenas sob essa ótica de romance frustrado em nada tem a ver com a rica narrativa composta por Vargas Llosa. A relação da menina má com o tradutor e intérprete da UNESCO, Ricardo Socomurcio é apenas um detalhe dentro da narrativa, um fio condutor. Dele o autor se vale para apresentar um panorama completo das sociedades francesa, inglesa e, principalmente, peruana, com todos os seus levantes e problemas, nas décadas de 60, 70, 80.

O Peru é o início de tudo, onde ocorre a infância dos protagonistas e seu primeiro desventurado encontro. A França, especificamente Paris, no auge de sua influência cultural, foi escolhida pelo protagonista como um objetivo de vida, um lugar ideal para se viver. Depois, no momento em que a Inglaterra assume o posto de irradiadora de cultura, com a revolta hippie, com o rock inglês e tudo o mais, passa a ser o lugar onde mais um reencontro entre Ricardo e a menina má acontece. O oriente, a cidade de Tóquio, com sua ascensão tecnológica é outro cenário. O Peru e seu contexto político encaminha o final da narrativa; há ainda uma passagem pela Espanha, e a trama encerra-se na França.

As pequenas histórias e personagens que circundam esse eixo principal são, da mesma forma, muito interessantes: o cozinheiro que recrutava guerrilheiros pra lutarem nas montanhas do Peru; o hippie peruano que foi adotado por uma nobre lady inglesa; o japonês depravado, insano, voyeur; o casal que adotou um filho vietnamita, mudo, que volta a falar; o construtor de quebra-mares peruano, a cuja ciência oculta os engenheiros mais experientes sucumbiam; a italiana cenógrafa que trabalhava quase que gratuitamente somente por amor à arte.

Há pessoas que consideram a obra uma alegoria das posições políticas do autor (relacionando o japonês sádico ao ex-presidente do Peru, Fujimori), ou um desabafo sentimental de Llosa, ou, ainda, uma representação da vida do autor no personagem Socomurcio. São todas leituras válidas, que eu fui descobrir após ler o livro e depois mesmo de ter escrito este post. Entretanto, o registro que fiz aqui é apenas de leitora, comprometida com a obra, sem tentar fazer uma análise extra-texto.

Nesse sentido, a obra vale a pena do início ao fim. Para aqueles que querem conhecer esse amplo panorama histórico, para quem quer revoltar-se com um relacionamento que parece não ter conserto, para quem quer se encantar com as histórias de vida de personagens muito distintos de nós e distintos entre si, ou para quem quer tudo isso condensado numa obra literária de qualidade. E também para quem quiser ir além, tentar extrapolar a barreira do literário e incursar numa leitura política, ideológica e histórica.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Nós

Andrea, Karen, Kelli, Marcelo, Rodrigo e Teresa.

Nós somos um grupo, acima de tudo. Um grupo que se encontrou num livro, um grupo que é difícil de reunir pessoalmente, um grupo que gosta de escrever, um grupo com muitas diferenças e talvez poucas afinidades. Mas somos, para além de tudo isso, leitores. Não queremos, contudo, instaurar um grupo de leitores críticos literários (com letra maiúscula). Não. Queremos escrever e pensamos em - por que não? - escrever sobre aquilo que lemos. Essa é a nossa proposta.

Sejam todos bem-vindos ao nosso universo literário.