domingo, 25 de janeiro de 2009

A Sombra do Vento

Primeira ficção adulta do escritor Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento tornou-se uma agradável surpresa, finalista de prêmios literários espanhóis e traduzido para onze idiomas, é considerado uma mistura de Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe e Victor Hugo.

Como base para a sua história, Zafón utiliza-se da santíssima trindade da literatura (o autor – a obra – o leitor), e conforme os anos transcorrem, o suspense, a comédia, o drama e o policial vão se mesclando, assim como o narrador vai mudando, permitindo ao leitor uma visão completa quando cada personagem se revela. Isso exige atenção redobrada para acompanhar o crescimento de Daniel, pois ao mesmo tempo em que a curiosidade é instigada através de muitas pistas, no final, irá se perceber que nem todas eram verdadeiras.

A história começa em 1945, na cidade de Barcelona, quando Daniel, no seu aniversário de onze anos, acorda atormentado por não lembrar do rosto de sua falecida mãe. O pai, dono de um sebo, leva o filho ao misterioso e fascinante Cemitério dos Livros Esquecidos. Caminhando pelo labirinto de suas prateleiras, Daniel encontra um livro chamado A Sombra do Vento, ao qual leva para casa e não resiste em iniciar a leitura.

Preso a história, Daniel não consegue esquece-la mesmo após a última página. Desejando ler mais, ele sai em busca de outros títulos do então desconhecido Julián Carax, e dados sobre a vida do próprio autor. Conforme Daniel vai obtendo informações, sua vida passa a ser um espelho, refletindo no seu dia-a-dia o conturbado passado de Carax.

Entre a decepção do primeiro amor e o aparecimento de um homem misterioso, que queima todos os livros de Carax, personalidades interessantes e cheias de mistérios, além de um policial violento, irão entrar e interferir na vida do jovem Daniel, fazendo com que sentimentos como a amizade, culpa e covardia, aflijam o coração do rapaz.

Andando de bonde, caminhando pelas ruas sombrias de Barcelona ou entrando em antigas mansões, o leitor ficará preso em A Sombra do Vento assim como Daniel ficou no exemplar encontrado entre milhares de outros livros. No caso dos ratos de biblioteca, esses poderão ver sua paixão refletida em muitos personagens, cujo mundo das letras é parte fundamental de suas vidas.

A melhor descrição para a história vem do próprio Daniel, que resume o seu A Sombra do Vento assim: À medida que avançava, a estrutura do relato fez-me lembrar daquelas bonecas russas que contém em si mesmas inúmeras miniaturas. Passo a passo, a narrativa se estilhaçava em mil histórias, como se o relato penetrasse em uma galeria de espelhos, e sua identidade produzisse dezenas de reflexos díspares e ao mesmo tempo um só.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O Amor Esquece de Começar

Fabrício Carpinejar dispensa apresentações. Dispensa porque usa uma linguagem única. Ou quase. O estilo de escrita usado por Carpinejar, já era usado pelos mestres: Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Nacionalmente reconhecido, o poeta, Fabrício optou por, também, escrever outro gênero: crônicas. E se deu bem. Em O Amor Esquece de Começar - sua estréia na prosa, o lírico está inserido na prosa com uma significância magistral. Cada crônica presente na obra foi redigida por um indivíduo que presta atenção em tudo a sua volta: desde as situações mais banais do dia-a-dia até as que exigem um olhar mais apurado, ou seja, crítico.

O padrão estético usado por Fabrício Carpinejar é sutil e irônico mas, ao mesmo tempo, pode-se afirmar que há humor na sua prosa. Um humor leve, assim como as crônicas de Antônio Maria. "Solidão não é prejudicial à saúde", "Leveza" e "Deixe-me dançar a sua vida" são apenas algumas das crônicas onde se percebe o talento nato de Carpinejar com a escrita. O leitor só precisa se permitir duas coisas: ser levado pela sensibilidade e emoção a flor da pele que certamente estarão mais expostos após a leitura desta obra singular. Até os leitores menos nostálgicos irão se render.