quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blackwater

A Blackwater USA é uma empresa norte americana dedicada a um segmento que tradicionalmente é de competência do poder público. Trata-se de uma iniciativa bem sucedida por oferecer serviços inovadores, de eficiência comprovada e a preços competitivos. Até aí nada de mais, seria apenas um entre tantos exemplos da política de privatizações. O que chama atenção nesse caso é o ramo de atuação da companhia: a guerra.

Fundamentado em uma pesquisa rigorosa, o jornalista americano Jeremy Scahill traça um minucioso panorama da trajetória da Blackwater. De sua origem, como um moderno campo de treinamento para as forças armadas dos EUA, até seu estabelecimento como a mais poderosa milícia paramilitar a serviço do governo americano, ou seja, um exército mercenário. Essa história de sucesso tem como pano de fundo a ascensão do partido republicano ao governo dos EUA e a histeria provocada pelos ataques terroristas de 11 de Setembro. A invasão e conseqüente “reconstrução” do Iraque forneceriam o ambiente ideal para a prosperidade dos negócios da Blackwater. E o lucro, neste caso, está intimamente relacionado com a execução de civis – alguns, a serviço da própria empresa.

Sem ser panfletário ou maniqueísta, o texto expõem de modo claro as manipulações por trás dos bilionários contratos da empresa. Dá uma ênfase especial aos discursos e manifestações públicas dos executivos – entre eles, ex-diretores e espiões da CIA – que beiram o surrealismo em sua retórica politicamente correta, abundante em expressões como paz, solidariedade e humanismo.

Por tratar de um assunto com tantas implicações na vida de todos – para nós, latino americanos, especialmente o interesse das empresas na “guerra contra o narcotráfico” - o livro é sem dúvida um documento imprescindível para quem quer entender o tipo de mundo em que vivemos. Ao final da leitura, a impressão que fica é de que algo parece escapar sobre a compreensão da realidade, ou talvez tentemos evitar a constatação de que, cada vez mais, vidas humanas são reduzidas a simples estatísticas.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Jogo do Anjo

Carlos Ruiz Zafón nos leva novamente a Barcelona, agora em 1920, e apresenta o jovem David Martín, cuja ambição é viver da escrita e por ela acaba vivenciando o inimaginável.

O Jogo do Anjo é surpreendente. Zafón leva o leitor calmamente em uma narrativa em primeira pessoa, fazendo-o pensar que é uma nova versão de A Sombra do Vento. Mas conforme as páginas vão passando, desejos, medos e surpresas vão se apresentando.

David é um jovem escritor de livros baratos, que atendendo ao pedido de seu grande amor, acaba reescrevendo o livro de um grande e rico amigo, responsável em apoia-lo financeiramente após a morte de seu pai. Seus sentimentos tornam-se contraditórios quando o livro escrito em nome do seu amigo se torna um grande sucesso e o que possui o seu nome é rechaçado pela crítica. Nesse momento, um editor surge em sua vida, encomendando um livro misterioso que irá mudar toda a sua vida e valores.

Ao fechar o livro, é impossível desprender da história, que chega a ser surreal. O que se é capaz de fazer por dinheiro? Até que ponto mudamos por amor? O que podemos fazer para se obter a vida eterna? O que é ter fé?

Somado a isso, temos o adorável retorno à livraria Sempere e ao cemitério dos livros esquecidos, que acabam tendo parte de seus segredos revelados, enquanto David se divide entre amizade, mistério, morte e o seu único dom: a escrita.