sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra



Sinopse: O termo “Antropoceno” foi proposto para designar a era geológica atual, em que os seres humanos remodelaram o planeta e sua biodiversidade de maneira profunda, para o bem e para o mal. A humanidade é cheia de facetas contraditórias e invenções intrigantes, e John Green se propõe a avaliá-las de forma nada imparcial. Afinal, no Antropoceno, não há observadores desinteressados, apenas participantes. Como o próprio autor reconhece, esses ensaios também são, de certa forma, uma autobiografia. Escrito em parte durante o turbulento período de pandemia global e baseado em seu podcast de sucesso, Antropoceno: notas sobre a vida na Terra nos guia pelas sutilezas dessa nova realidade e nos dá a segurança de que podemos até desconhecer o caminho que estamos seguindo, mas com certeza estamos em boa companhia.



Em Antropoceno, o autor norte-americano John Green explora suas memórias e as complexidades e implicações do que estamos vivendo, com pandemias, mudanças climáticas, perda de biodiversidade e os avanços tecnológicos constantes, o que gera muitas reflexões do escritor sobre cada assunto abordado.

Entre essas reflexões estão a relação da humanidade com a natureza que a cerca, incluindo o impacto dos avanços tecnológico no uso e preservação do meio ambiente, tópico que se torna cada vez mais urgente como vimos nos últimos desastres naturais.

Através da empatia, sentimos coisas que talvez nunca pudéssemos sentir. Através do rico mundo da imaginação, vimos apocalipses grandes e pequenos.


Há também textos com questões mais existenciais, como a busca por significado em um mundo que se reinventa todos os dias, questionamento sobre as escolhas que realizamos em diferentes fases do nosso amadurecimento, assim como a valorização da vida e da própria esperança.

Mas não, não é um livro de autoajuda, mas sim de reflexões e de memórias, já que o autor compartilha várias histórias pessoais e divide sua opinião sobre diferente assuntos que vão de ciência a vídeo game.


A escrita de John Green

Conhecido autor norte-americano por escrever romances para jovens adultos como A culpa é das estrelas, que teve uma versão para o cinema. E também possui um canal no youtube com o seu irmão, o vlogbrothers, onde eles abordam muitos dos assuntos listados no livro, além do já citado podcast.

Em Antropoceno, Green mescla opiniões e reflexões pessoais com artigos científicos e referências literárias de uma forma bastante fluída e de fácil leitura, explicando termos não tão comuns seja através de linguagem clara ou metáforas e analogias.

A história, como a vida humana, é ao mesmo tempo incrivelmente rápida e penosamente lenta. 


Ou trazendo algumas curiosidades, como no caso do livro O grande Gatsby que ele compartilha a popularização do mesmo após ser indicado dentro das forças armadas, sendo um dos impulsos para torná-lo um clássico.

Não raro ele se dirige diretamente ao leitor, como se o mesmo estivesse sentando em algum lugar e pudesse interagir com ele nestas conversas que misturam papo sério com momentos de humor, ciência, e histórias pessoais que permitem conhecer mais de quem está do outro lado das páginas.

Maravilhando-me com a perfeição daquela folha, fui lembrado de que a beleza estética depende tanto de como e se você olha quanto do que vê.


Resultando em um livro muito agradável de ler, e que pode fazer o leitor prestar atenção um pouco mais em si e no mundo em sua volta, além de algumas indicações de leitura extra.


O que eu achei de Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra

Antropoceno foi um livro que recebi de mimo na antiga assinatura da Intrínseca e foi uma adorável surpresa.

Me diverti com ele dando estrelas para os assuntos abordados em cada texto, como se fosse uma avaliação da Amazon. Concordei com algumas teorias, como o ar condicionado nos escritórios ser sexista e adorar deixar a mulherada passando frio o dia inteiro.

A especificidade radical do cheiro é parte do que o conecta de maneira particular á memória. Também é parte do que o torna tão difícil de imitar, mesmo quando se trata de odores artificiais.

E me encantei com a escrita pessoal de Green. Entre Disney, Mario Kart, viagens e comparativos de pandemia, há leveza, sorrisos, vontade de abraça-lo quando relata o bullying sofrido na infância e reflexão.

É como uma conversa de assuntos variados, só que com vários embasamentos compartilhados caso você queria se aprofundar depois. Mas com um detalhe fundamental: não é uma referência pedante do tipo olha o que eu sei, mas do tipo: olha que legal o que eu li, pesquisei ou encontrei.

Para mim, essa é a maravilha e o terror de imagens geradas por computador: se elas parecem reais, meu cérebro não é nem de longe sofisticado o suficiente para entender que não são.


Na parte que ele fala das pandemias, me lembrei do livro Os vulneráveis, já que ele compara os casos onde os ricos fugiram das grandes cidades, seja pela peste, seja pela Covid. E como a sua posição social irá lhe colocar com maior ou menor chance de morrer. E há também o outro lado da moeda, aqueles que se doam para não deixar ninguém sozinho.

Mas estes são apenas pequenos exemplos de como Antropoceno é um livro que pode ser lido enquanto se bebe uma taça de vinho ou uma xícara de chá. Pois seus textos me provocaram conversas mentais, despertaram memórias, tudo em uma escrita que me convidou a refletir, sorrir e ter a curiosidade alertada.

Lembro-me de ter pensado que nunca mais seria criança, não de verdade, e foi a primeira vez que senti aquela intensa saudade de um eu que nunca mais voltaria.


Afinal estamos em constante mudança, e a Terra tem nos mostrado de forma cada vez mais forte que não existe causa sem consequência, e repensar muitas de nossas ações se faz mais do que necessário.

Deixando a dica para quem curte livros que compartilham opiniões e lembranças sobre música, jogos, filmes, poesias, viagens, descobertas, amores, vida, morte, ecologia, ciência, tecnologia, depressão, crise existencial, presente, passado e futuro.

Para Antropoceno eu dou 5 estrelas.


Antropoceno: Notas sobre a vida na Terra
The anthropocene reviewed: essas on a human-centered planet
John Green
Tradução: Alexandre Raposo e Ulisses Teixeira
intrínseca
2021 - 384 páginas


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A voz que ninguém escutou



Sinopse: A voz que ninguém escutou é a de Maria que decide fugir da miséria e violência levando dois filhos para a capital na esperança do tão desejado emprego. É a voz de Inácio, um menino sequestrado e escravizado por um fazendeiro inescrupuloso, em busca de uma família para si. É a voz de Inês, a filha da empregada doméstica que sobrevive nos fundos da mansão de um poderoso banqueiro vivenciando cotidianamente as diferenças de classe, sonhando com um Brasil mais justo. É a voz de Vânia uma jornalista que acaba de assistir à tragédia de sua mãe e após uma grande revelação tenta reconstruir sua história ao mesmo tempo em que encontra novas formas de amar. É a voz deste que escreve estas palavras. É a voz de um país que esqueceu de lembrar do passado.

No mês de setembro/2024 a TAG não foi curadoria e enviou o vencedor do prêmio kinder de literatura de 2024 chamado A voz que ninguém escutou do escritor carioca Renan Silva. O mimo chamado de kit biblioteca era composto de pequenas fichas destacáveis e post-its.



Não suportando mais viver uma relação abusiva e uma vida de miséria, Maria decide abandonar o marido e os filhos mais velhos, fugindo com os dois mais novos, Inês e Inácio, para a cidade do Rio de Janeiro.

No caminho uma ida ao banheiro lhe custa caro, já que o motorista do transporte clandestino ao qual ela está viajando vende Inácio para um fazendeiro que explora crianças, levando-o para longe, antes que a mãe tenha tempo de resgatá-lo.

Sirene rodopiando como carrossel. Sons de alerta e um eco interminável.


No Rio de Janeiro Maria encontra um emprego como empregada doméstica em uma casa de família rica, onde Inês irá conviver com as diferenças sociais ao mesmo tempo que terá oportunidade de estudar, e fazer uma sólida amizade com a filha do casal.

Tudo em um Brasil que vive a construção de Brasília e o início da ditadura militar, onde o resultado de tudo cabe em uma ambulância em 2005 em que Vânia, uma jornalista, leva a mãe Inês em estado grave para o hospital.


A escrita de Renan Silva

A voz que ninguém escutou é o primeiro livro do historiador Renan Silva. Na narrativa foi optado em utilizar na maior parte do tempo a voz em terceira pessoa, mas em alguns momentos surge a voz em primeira também, ambas para acompanhar quatro personagens: Maria, Inês, Inácio e Vânia. Todos membros da mesma família.

O livro acompanha a vida destas pessoas de 1945 a 2005, dividido em duas partes, a primeira aborda trabalho escravo, sequestro de crianças, violência familiar, poliamor, assédio sexual, questões lgbt, exploração de trabalho doméstico, diferenças sociais, construção de Brasília, ditadura entre outros assuntos.

Os filhos foram concebidos com pouco tempo de espera entre um e outro. A exceção era justamente aquela que agora vinha ao mundo.


Na segunda parte temos uma mistura de tempo mais próximo ao presente com o passado, já que Vânia começa a investigar o que levou a mãe em um ato tão extremo e acaba se dividindo em entender o passado da mãe e a busca de sua própria identidade, ao mesmo tempo que sua vida parece ser uma espécie de espelho da vida da mãe.

A quantidade de assuntos abordados seria o suficiente para criar uma saga familiar, mas por estar tudo compactado em quase trezentas páginas, pode levar o leitor a dois sentimentos. Agradando aquele que gosta de ler versões resumidas, e por outro lado angustiando o que deseja uma história mais arredondada.


O que eu achei de A voz que ninguém escutou

Para quem assiste o programa Masterchef do Brasil, a frase "menos é mais" utilizada pelo Fogaça para opinar sobre os pratos de alguns participantes, consegue resumir o sentimento que tive ao ler este livro.

E aqui faltou aquele editor amigo para dizer vamos focar mais nisso, quem sabe no lugar de colocar mais personagens vamos trabalhar mais esta cena? Que tal melhorarmos a passagem de tempo e tiramos a parte dos 50 tons de ditadura, já que as cenas de sexo parecem um Ctrl c + Ctrl v e o seu detalhamento não acrescenta em nada a história?

O menino percebeu o silêncio absoluto que reinava no interior da carroceria do caminhão. Tinha pelo menos mais cinco crianças além dele.


Pois na minha opinião a ideia do livro é muito boa, e seu início é envolvente e estimula a curiosidade, mas a narrativa vai decrescendo, a ponto que a primeira parte é muito melhor que a segunda. Sendo um daqueles casos em que a execução deixa e muito a desejar. 

Assim como a parte gráfica, que faz os leitores imaginar que os integrantes da família são negros, mas na descrição de Vânia ela é uma mulher branca. Falha de continuidade ou de quem elaborou a capa? Eis uma das perguntas que ficaram após a finalização do livro.

Às vezes, fantasiava invadir a biblioteca, gritar com o patrão, chamá-lo de lixo, ameaçar ir até a polícia.


Uma coisa que me incomodou muito na leitura é que ela parecia didática, não havendo uma narração da cena para que eu visualizasse o que estava acontecendo, mas um parágrafo explicando resumidamente os acontecimentos.

O que torna tudo muito rápido, e em alguns momentos, inverossímil, como a sequência em que Vânia busca os papeis da prisão da mãe no período da ditadura.

Os brasileiros começaram a se acostumar com a possibilidade de escolher livremente o presidente. Já era a quarta vez após o Estado Novo.


Outro ponto foi a mistura de eventos dos anos 80 e 90, como por exemplo acontecimentos do período Sarney (remarcação mais do que diária dos preços) que é citada na era Collor - que ficaria muito mais forte se tivesse sido relacionado ao ato mais traumático do seu governo: o confisco das poupanças. Tudo em um parágrafo que mistura presidentes, Senna, Mamonas e Sílvio Santos.

O livro cita o diário de Inês, mas a narrativa se perde na forma como a história é conduzida, parecendo um resumo do resumo feito pela filha Vânia, que talvez fosse um personagem que não precisaria estar ali.

Os ideólogos da nova capital pensavam que as diversas classes sociais poderiam viver em conjunto, em superquadras nas Asas Norte e Sul. Na prática, isso não ocorreu.


Em compensação nada é dito sobre os outros filhos de Maria, assim como um período de tempo de Maria, Inês e Inácio e termina de forma fraca, sem maiores impactos. Então sim, as páginas gastas com Vânia poderiam ter sido ocupadas principalmente como Inês e Inácio.

O que me fez finalizar a leitura com a ideia de que a mesma precisava ser refinada, tanto nas vozes utilizadas como no foco. Pois perde-se páginas em sequências que não acrescentam nada e se passa voando pelas que poderiam tornar a história mais rica.

O andar cada vez mais curvado e as constantes reclamações de dores nas costas também eram as marcas de vinte anos de trabalho ininterruptos.


Fazendo uma contrapartida, já que não, eu não gostei da escrita do livro, a minha mãe já gostou, pois como cita jovem guarda e outros momentos da época de 60 e 70, fez com que ela buscasse as próprias memórias daquele período, que ao contrário dos personagens, são lembranças felizes. Um poder especial que os livros possuem de resgatar nossa própria história pessoal enquanto acompanhamos outras.

Como livro é igual a gosto, e cada um tem o seu, e naturalmente pode haver outros leitores que assim como a minha mãe possam gostar da narrativa, fica a dica de um livro brasileiro que aborda a história de uma família nordestina em meio a um dos períodos mais tumultuados da história do Brasil.


A voz que ninguém escutou
Renan Silva
TAG - José Olympio
2024 - 302 páginas