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domingo, 9 de agosto de 2026

O que precisamos saber



Sinopse: Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. O professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?

O livro de Abril/26 foi uma indicação da própria TAG Curadoria: a distopia do escritor inglês Ian McEwan recém lançada pela Companhia das Letras O que precisamos saber. Este foi o quarto livro enviado pelo Clube aos assinantes e o segundo que eu recebo nos meus 9 anos como assinante - o primeiro foi Na praia. O mimo foi uma coletânea de humor da América Latina.

No ano de 2014, durante o aniversário da esposa Vivien, o prestigiado autor Francis Blundy lê em um jantar com amigos e parentes intelectuais o seu poema mais brilhantemente escrito, e que nunca foi publicado, gerando todo um desejo para os que não participaram em conhecer o texto.

Com exceção das compras, pouco sabemos sobre as preparações para a noite que viria a ser conhecida como o Segundo Jantar Imortal.


O que faz a busca pelo original sobreviver não só aos anos, como ao colapso climático e a guerra nuclear. Sendo uma obsessão do professor universitário Thomas no ano de 2119.

Vivendo em uma Terra em que cidades antes tão famosas estão embaixo d'água e a população reduziu fortemente. Um mundo onde a escassez faz com que os mais jovens não tenham interesse na arte, na memória e na cultura dos seus ancestrais do século XXI, havendo inclusive um desdém por aqueles que não fizeram nada para impedir o cenário brutal.

A coroa era uma empreitada formidável. Consistia de quinze sonetos. O último verso de cada um tinha que ser repetido na primeira linha do seguinte.


Afinal, se o mundo antigamente era tão bom, por que ele não foi preservado? Por que os alertas não foram levados a sério? Por que as guerras continuavam?

Mas ao buscar todas as informações possíveis sobre o poema e as pessoas que ouviram a sua leitura, não apenas Thomas como o leitor que o acompanha irão descobrir que além da beleza, os participantes do jantar possuíam muitos segredos.

Um e-mail ou uma mensagem raramente contém tanta reflexão subjetiva interessante quanto uma bem pensada carta dos séculos XIX ou XX.


Tornando O que precisamos saber dois livros em um, onde na primeira parte será encontrada uma distopia e na segunda todos os mistérios de Vivien, a presenteada com o lendário poema.


A escrita de Ian McEwan

O renomado escritor e roteirista britânico Ian McEwan já foi chamado de macabro, ganhou o Booker Prize e tem vários de seus livros adaptados para o formato cinematográfico. Sendo considerado hoje um dos autores de língua inglesa mais importantes da literatura contemporânea.

Seus livros misturam tabus, psicologia, dilemas sociais e morais, história e por consequência a figura humana diante de tudo e de todos. E sua escrita é descrita como elegante e rigorosa, o que torna os seus livros fontes de estudo em universidades, além de já ter sido traduzido para diferentes idiomas.

Os vinhos que os convidados deles beberam eram superiores aos nossos. A comida, sem dúvida, mais deliciosa e variada, vinha do mundo inteiro. O ar que respiravam era mais puro e menos radioativo.


E esta prosa elegante e fluida é encontrada em O que precisamos saber, um livro que parece dois, ao separar a narrativa em duas partes: uma em que temos o olhar investigativo e saudosista de uma época que não viveu através de Thomas e outra que temos todos os dilemas morais com Vivien.

O autor também descreve uma distopia bastante diferente, não há invenções futuristas, aliás, não há mais nem as novas invenções, focando mais nas questões existenciais, nos impactos que a combinação guerra e mudança climática irão perpetuar no planeta e as relações com a própria história.

Haviam crescido com as consequências daquilo, ouviam os avós falar sobre aquilo. O passado era povoado por idiotas. Grande coisa.


Já na parte de Vivien o autor irá encontrar também cultura e memória, mas aqui muito mais psicológico no que se trata em relações humanas e escolhas, além de instigar o leitor a desvendar os mistérios que tanto obcecaram Thomas no futuro.


O que eu achei de O que precisamos saber

No geral eu gostei do livro, principalmente da parte da distopia. Achei muito interessante ler uma visão em que tudo o que tem nos afetado atualmente nos levar de volta para um mundo que mistura anos 80 e período medieval. Sim, os problemas com as telas acabaram, e os voos de avião também.

E os alunos de Thomas nos trazem vários questionamentos muito atuais: como um período em que evoluímos tanto tecnologicamente e culturalmente não preserva adequadamente o seu planeta? Como uma população com tantas possibilidades de ir e vir ainda se extermina através de guerras injustificáveis?

As ciências humanas estão sempre em crise. Não acredito mais que se trate de um problema institucional - faz parte da natureza da vida intelectual ou do próprio pensamento.


Sim, eu sei que desde que temos o mínimo de conhecimento do nosso mundo, é assim que vivemos. Evoluímos pouco a pouco para tornar vida mais cômoda, em paralelo seguimos com níveis enormes de desigualdade social, e no que se trata de poder, vida e moralidade nem sempre importam.

Tornando o mundo de 2119 de Ian McEwan um dos mais possíveis de todas as distopias que li até agora, o que de certa forma aumentou a minha angustia ao ver as previsões do tempo aqui no Sul.

Quanta liberdade e passividade, quanto atrevimento temoroso. Eram de uma mesquinhez brilhante, briguentos além dos limites, prontos a morrer tanto pelas boas ideias quanto pelas más.


Outro ponto que achei bacana de ser abordado é o sentimento de Thomas de ter nascido na época errada, e isso não é algo incomum, ao mesmo tempo de ser um fato bastante curioso essa idealização por tempos passados. Já que somos formados pelo que vivemos, convivemos e lemos, fiquei pensando se alguém realmente se adaptaria se caísse de paraquedas em um período diferente do que nasceu, ou se o choque de realidade seria muito diferente.

Falando em idealização, Thomas também traz um fenômeno comum em todas as épocas, a admiração profunda que se tem por pessoas que não conhecemos. Eu sempre digo que prefiro não conhecer profundamente os autores de meus livros favoritos, pois de perto ninguém é normal. E na narrativa não é diferente, e o meme expectativa x realidade se faz presente.

Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.


Também observei espelhamentos da primeira e segunda parte nas relações humanas, principalmente nas chamadas românticas, o que mostra que em determinados aspectos a humanidade segue a mesma, independente da época.

O que me faz chegar na segunda parte, que conta a história de Vivien, a musa de Thomas, e um pouco mais dos personagens que estiveram no famoso jantar da declaração do poema. E confesso que não gostei tanto.

Eu estava sozinha. Sem ninguém com quem falar. Ninguém se importava.


O grupo apresentado seria digno de uma terapia de palco no formato do antigo Casos de família, onde a forma individualista de Vivien traz a narrativa para algo bem psicológico sobre suas ações e reações ao que ocorre ao seu redor.

Aliás, uma coisa que eu senti falta na segunda parte é que ela não aborda os pré-acontecimentos que levaram a todas as mudanças de 2119, pois estamos nas memórias de Vivien, e o foco nos acontecimentos que nortearam as suas decisões, seja elas pensadas ou tomadas pelo puro impulso.

Hoje desprezo essas histórias simplistas das terapias. É possível que nunca exista qualquer prova. Em vez disso, a pessoa escolhe a história que se ajusta melhor ou que lhe oferece mais consolo.


Tornando O que precisamos saber uma leitura diferente, que mexe com a curiosidade, levanta perguntas e gera reflexões sobre de que forma o presente irá impactar o futuro em todas as esferas. Ficando a dica para quem se interessar.


O que precisamos saber
What we can know
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
TAG - Companhia das Letras
2026 - 381 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 13 de março de 2026

A hipótese do amor



Sinopse: Quando um relacionamento falso entre cientistas encontra a irresistível força da atração, as teorias de uma mulher sobre o amor, cuidadosamente calculadas, são postas à prova. Olive Smith, uma estudante de doutoramento em Biologia, não acredita em namoros duradouros. Após terminar o relacionamento com Jeremy, percebe que a sua melhor amiga, Anh, gosta dele e decide juntá-los. Para a convencer de que não se importa e de que está feliz e a namorar, Olive precisa de o provar, mas, pressionada, entra em pânico e resolve beijar o primeiro homem que vê: Adam Carlsen, um jovem professor de outro departamento. Olive acaba por ficar chocada ao perceber que este tirano do laboratório da Universidade de Stanford, conhecido por deixar os estudantes em lágrimas, aceita manter a farsa e fingir que é, realmente, seu namorado.



Para convencer sua melhor amiga Anh de que ela pode se relacionar com o seu ex-namorado, a cientista e doutoranda Olive Smith inventa que está em um relacionamento. Pressionada para apresentar o novo parceiro, ela acaba beijando o primeiro homem que aparece no corretor da universidade e assim acaba sendo vista por Anh.

O problema é que este homem é Adam Carlsen, um professor conhecido por tornar a vida dos doutorandos um verdadeiro inferno e depois de ser agarrado por Olive a lembra das regras sobre assédio.

Ela estava bem ciente de que se comprometer a encarar alguns anos trabalhando oitenta horas por semana, sendo mal paga e desvalorizada, talvez não fosse bom para sua saúde mental.


Mas após boatos de que o professor estaria analisando uma possível troca de universidade, Stanford opta por bloquear o seu financiamento de pesquisa. Gerando a Adam a necessidade de mostrar para a universidade que possui vínculos com o local e não está pensando em ir embora. E assim surge um acordo para que eles representem na frente de todos terem um relacionamento amoroso.

Proporcionando assim uma leitura que mescla risadas, romance e reflexões dos desafios que as mulheres ainda enfrentam, aqui representadas pela ciência e o mundo acadêmico.


A escrita de Ali Hazelwood

A autora italiana e doutora em neurociência utiliza o pseudônimo Ali Hazelwood para escrever romances protagonizado por mulheres que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Sua carreira na escrita começou com outro pseudônimo Ever so Halo, que ela utilizava para escrever fanfics com os personagens de Star Wars. A boa recepção destas histórias de fãs transformou as fics em romances publicados e um deles é justamente A hipótese do amor, que se tornou um fenômeno no TikTok.

Aquele beijo estava parecendo uma cabeçada meio desengonçada, e ela foi ficando ansiosa, achando que não ia conseguir levar a coisa toda adiante.


Seu estilo se caracteriza por comédias românticas em ambientes acadêmicos ou de pesquisa científica. Suas protagonistas são mulheres fortes que precisam superar o machismo e a desvalorização entre os pares de sexo oposto.

Ela se utiliza de alguns temas recorrentes, como "enemies to lovers" e namoros de mentirinha que acabam em relacionamentos românticos.

Era a única mulher na sala, basicamente sozinha num mar de homens brancos que já conversavam sobre barcos, qualquer jogo com bola que tinha passado na Tv na noite anterior e os melhores lugares para viajar de carro.


Sua escrita é bastante fluída e leve, com um ritmo que convida a virar mais uma página enquanto se envolve com as tensões e cenas um pouco mais apimentadas dos personagens. Com uma narrativa em terceira pessoa, o foco está todo na personagem principal Olive, incluindo os seus pensamentos.


O que eu achei de A hipótese do amor

Encontrei a indicação do livro por acaso, como uma leitura leve para distrair a cabeça. Como havia lido uma sequência de livros mais reflexivos e tensos, acabei comprando A hipótese do amor para realmente relaxar.

E sim, o livro é leve, com aqueles clichês de comédia romântica que eu adoro, em uma escrita que realmente me envolveu, já que o término de um capítulo já me despertava a vontade de ler o próximo.

Havia algo especial no jeito com que ele falava. Talvez fosse um sotaque, talvez apenas uma característica de sua voz.


Como uma profissional da área de tecnologia, onde não raro convivo mais com colegas do sexo masculino do que com o do feminino, não foi difícil lembrar de algumas situações de quando iniciei na profissão, em que a capacidade das mulheres ainda levantava dúvidas e sobrancelhas. Algo que felizmente tenho me deparado cada vez menos, embora saiba que a luta não só pelo espaço profissional, mas também de locais livres de assédio indesejado está longe de terminar.

E essa é uma reflexão interessante no livro, as dúvidas, a necessidade de se superar, o medo de ser uma impostora apresentados pela protagonista Olive Smith é ainda muito recorrente entre as mulheres. Pois existe uma autocobrança forte onde não basta ser boa, precisamos sempre sermos ótimas em tudo o que nos propomos, o que gera um stress maior.

Precisava de um laboratório melhor se quisesse produzir conhecimento científico decente. Equipamentos melhores. Reagentes melhores. Culturas de bactérias melhores. Tudo melhor.


Pois estamos sempre precisando provar que temos capacidade de estar ali, que temos direito a ocupar aquele espaço, que merecemos ser reconhecidas pelo nosso desempenho.

Mostrando que mesmo na leveza é possível gerar reflexões importantes, principalmente em um mês que temos o Dia Internacional da Mulher, onde o 8 de março nos lembra do que já conquistamos e de tudo o que ainda precisamos lutar para abranger ainda mais mulheres.

Porque nem por milhões de dólares em fundos de pesquisa valeria a pena ter uma garota aleatória que você nem conhece direito sentada no seu colo no auditório mais lotado da história dos auditórios lotados.


Sobre o par romântico. o Dr. Adam Carlsen não foge do estereótipo de gatão, e apesar da postura inicialmente fechada, foi me conquistando junto com a Olive, tornando um casal fácil de torcer para um happy end.

Também há amizade com Anh e Malcolm, amigos leais que apoiam Olive. Sendo Anh a responsável direta por colocar Olive nas situações mais diversas e, mais importante, ser a causa do início do falso namoro. A interação entre os personagens é muito legal e divertida, trazendo aqueles pequenos grandes dramas e histórias engraçadas que se vive durante o período acadêmico.

Só sei que você sabe não ser um babaca e não entendo por que é tão diferente comigo.


No geral adorei a leitura, mas confesso que apesar de adorar a escrita, não me aventurei a comprar outro livro da autora, com medo de encontrar mais do mesmo. Então se alguém já leu outro título e achar que vale a pena, pode me recomendar aqui nos comentários.

E eu deixo de dica A hipótese do amor, lembrando que é um livro 18+ devido a descrição de dois capítulos do livro, que pode conquistar os corações de quem adora um romance fofo, curte mulheres fortes em histórias leves ou quem quer um vira página para relaxar.


A hipótese do amor
The Love Hypothesis
Ali Hazelwood
Tradução: Thaís Britto
2022 - 336 páginas
Publicado originalmente em 2021


sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O desabamento


Sinopse: Fruto do primeiro casamento de sua mãe, o irmão de Louis é o mais velho dos cinco filhos. Logo nas primeiras linhas deste romance, que é considerado um dos mais sombrios do autor, o narrador afirma não ter sentido nada ao saber da morte do irmão. “Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo”, diz, a determinada altura. É tomando essa distância ― física e afetiva ― que o narrador esmiúça a existência de seu irmão, entrevistando pessoas próximas de seu convívio, como uma professora e algumas ex-companheiras, e relembrando momentos decisivos da relação fraternal. Para reconstruir esse personagem, o narrador se vale das ciências sociais, da literatura, da psicologia e da memória, resultando em um romance único e inesquecível, de força e sensibilidade inigualáveis.



No mês de Julho/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da própria TAG, que estava de aniversário: o livro do escritor francês Édouard Louis chamado O desabamento. O mimo foi um livro extra de poesias do chileno Pablo Neruda.

O romance de auto ficção O desabamento tem o próprio autor Édouard Louis como narrador da morte precoce do seu irmão mais velhos aos 38 anos, causada pelo seu alcoolismo, vícios e o conjunto de violência e fugas acumuladas em seu curto período de vida.

Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer.


Ao tentar reconstruir a história de vida do irmão, o autor precisa lidar com os seus próprios fragmentos de memória que o farão retornar a infância e adolescência em uma vila operária no norte da França, em um ambiente que combina pobreza e violência familiar e social.

Outro recurso utilizado é através de depoimentos e conversas com mulheres próximas do irmão, que entram como um fator a mais para analisar não só o que levou o seu irmão mais velho para um caminho de autodestruição, como das suas próprias feridas nesta relação que combina amor e desprezo.


A escrita de Édouard Louis

Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, o escritor e sociólogo francês Édouard Louis ficou conhecido por usar a sua história familiar para escrever romances de auto ficção.

Em seus romances temas como classe social, homofobia, pobreza, violência, busca por ascensão social e naturalmente, laços familiares são componentes frequentes em suas narrativas.

Ele disse que ia aprender uma nova profissão, com técnicas muito especificas, um saber que não é qualquer um que aprende, mas que ele, ele aprenderia.


O desabamento lançado recentemente faz parte de uma sequência de livros iniciados pelo seu primeiro romance "O Fim de Eddy", que conta a sua história, passando por narrativas que abordam também a figura da sua mãe e do seu pai.

Por ser auto ficção, a narrativa utilizada em O desabamento é em primeira pessoa, os capítulos são curtos e alguns questionamentos internos aparecem com frequência em alguns capítulos, lembrando um fluxo de consciência.

Meu irmão morreu. Eu resolvia essa frase na cabeça.


Também é utilizado a ênfase em determinadas frases, que além de serem a única informação, podem se repetir por mais de uma página, como uma forma de compartilhar o que martela na cabeça do escritor também na do leitor.


O que eu achei de O desabamento

Não são raras as vezes que junto com a morte são enterradas (ou queimadas) todas as dores e mágoas que a pessoa provocou em vida. 

Só que existem exceções, e em O desabamento o autor, na minha opinião, parece revisitar estas memórias para de certa forma entender a dor que permaneceu, apesar do irmão não poder mais feri-lo.

Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo: uma noite, nossos corpos se aproximaram por circunstâncias alheias á nossa vontade, e então entendi quem ele era, e o odiei.


E ao se recordar das mágoas, inevitavelmente também vem as boas lembranças, tornando tudo ainda mais confuso para quem não apenas busca o ombro dos amigos para saber se está correto, como divide toda essa carga psicológica nas páginas de um livro, dividindo com quem se deparar com ela.

No geral, eu achei a leitura boa, não havia lido nada do Édouard Louis antes, e em alguns momentos me solidarizei com a sua dor, pois outra coisa que desaparece com os mortos pelos quais os nossos sentimentos são controversos, são as respostas do por que não ser aceito? por que ser alvo de determinadas agressões? Entre tantos outros porquês que talvez só irão desaparecer com o tempo.

Será que escrevo porque essa dor faria com que eu me sentisse normal, um irmão como todos os outros irmãos, que chora a morte do outro?


Não achei ótimo pelo fato de em alguns momentos acha-lo repetitivo, o que também é natural, pois ao colocar todo o foco no que já foi, a mente tende a andar em círculos, o que é facilmente identificado no decorrer das páginas.

Por outro lado, esta repetição me fez pensar se existe culpa por não conseguir se livrar de toda a dor provocada. De não ser como muitas pessoas e só divulgar o que houve de bom, santificando quem muitas vezes nos infernizou. Tornando o livro também um desabafo de quem ficou e não sabe mais o que fazer com a carga emocional nuca resolvida.

Às vezes tenho a impressão de que a história do meu irmão é a história de uma Ferida lançada no mundo e sempre reaberta.


Já me disseram que o livro se torna ainda mais claro se for lido o primeiro romance do autor, O Fim de Eddy. E confesso que isso me despertou a curiosidade, para ver se terei os mesmos sentimentos em relação ao Desabamento, ou se o meu entendimento se ampliaria.

Ficando a dica para quem gosta de auto ficção, narrativas que envolvem conflitos familiares, ou que procura um livro rápido para ler.


O desabamento
L'effondrement
Édouard Louis
Tradução: Marília Scalzo
TAG - Todavia
2025 - 165 páginas
Publicado originalmente em, 2024

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Se adaptar


Sinopse: “UM DIA, NUMA FAMÍLIA, NASCEU UM MENINO INADAPTADO”. Assim começa a história do menino de olhos negros que flutuam para o nada, eternamente deitado, e dos seus três irmãos. Em meio à natureza poderosa das montanhas, são as pedras do muro da velha casa da família que testemunham suas trajetórias. O amor absoluto e protetor do mais velho, a rebeldia que a do meio assume para rejeitar a dor, a chegada do mais novo que cresce à sombra das memórias. Um livro magnífico e luminoso, sobre o laço infinito entre irmãos e a inesgotável capacidade humana de se adaptar.



No mês de maio/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da editora Ana Lima Cecílio, que foi o livro Se adaptar da escritora francesa Clara Dupont-Monod. O mimo foi uma obra inédita produzida em família de Rafael Coutinho e Laerte.

No sul da França, em uma região que a natureza e as montanhas se fazem presente, uma família tem sua vida totalmente alterada após o nascimento do terceiro filho.

Um dia, numa família, nasceu um menino inadaptado. Ainda que de uma crueldade degradante, é esse termo que dá a real dimensão de um corpo mole, de um olhar móvel e vazio.


O menino que nasce com uma condição não nomeada que o impede de se movimentar e interagir com o humano, gerando sentimentos diversos em seus pais e seus dois irmãos.

E é sobre esta necessidade de se adaptar a quem nasceu inadaptado que irá gerar relações complexas e diferentes do irmão mais velho e da irmã do meio.

Há milhares de anos, temos sido as testemunhas. As crianças são sempre as esquecidas das histórias.


Tudo em meio em uma narrativa sensível, que ao mesmo tempo que nos coloca no lugar do outro, nos enche de perguntas.


A escrita de Clara Dupont-Monod

A escritora e jornalista francesa Clara Dupont-Monod é conhecida por suas críticas literárias e a escrita sensível de seus livros, que tiveram como resultado duas premiações, inclusive o Prix Femina em 2021 por Se adaptar.

Em Se adaptar ela coloca as pedras para contarem a história do menino inadaptado e seus irmãos. Dividido em três partes, o foco está totalmente nos irmãos, sendo necessário estar atento aos detalhes para perceber o impacto sofrido também pelos pais.

Muito lhe disseram que o tempo cura. Na verdade, ele o mede durante essas noites, e o tempo não cura nada, muito pelo contrário.


As mudanças naturais no local onde a família são outro ponto de atenção, servindo tanto como um anúncio do que está por vir como uma metáfora de todas as transformações que ocorrem com os personagens que começam crianças e chegam à idade adulta na narrativa.

A escrita é ao mesmo tempo delicada, poética e real. Existe uma humanidade latente em cada um dos seus personagens, provocando o leitor sobre de que forma ele se adaptaria se vivesse situação semelhante.


O que eu achei de Se adaptar

Ao contrário do que é dito, não me pareceu que eram as pedras que estavam contando a história. Só me lembrava que eram elas quando as mesmas eram nominalmente citadas. Como se faltasse algo para gerar essa conexão, dando a impressão de ser uma narrativa simples em terceira pessoa.

No geral achei a narrativa uma mistura de tristeza, resiliência e revolta com todo o peso físico, financeiro e emocional de criar uma criança que não irá interagir com o mundo conforme o esperado.

Os primeiros enfrentavam, o segundo foi se fundindo. Para ela, não sobrava nada, nenhuma energia para sustentá-la.


O resultado de tudo isso é silêncio, solidão, negação e como diz o título, adaptação. Motivo pelo qual apesar do livro ser curto, aos poucos ele foi me gerando um cansaço, principalmente quando cheguei na última parte.

Cansaço semelhante ao encontrado muitas vezes nesta visão do que se passa dentro de uma família que tem as ilusões quebradas por algo que torna o seu filho inadaptado para a vida em sociedade.

Um senso de dever as guia. Elas vão estar sempre ali, vigias na noite escura, vão se virar para não sentir nem frio nem medo.


E são os filhos que acabam representando as diferentes reações. Começando pelo irmão mais velho que abdica de tudo para dar suporte e sente a dor de forma mais latente a ponto de se fechar para o mundo. E os pais simplesmente parecem não ter tempo de ver isso.

A irmã do meio é quem se envergonha e acaba por se revoltar por não ter mais a mesma rotina de antes. Mas seus atos já conseguem atrair mais os olhares tão ocupados com as dificuldades do dia-a-dia.

Sentia que não devia ser esse o seu papel, mas sentia também que o destino gosta de bagunçar os papéis e que era preciso se adaptar.


E por fim, tem o irmão que nasce depois e por influência da própria imaginação acaba indo parar a sombra do menino inadaptado. O que me gerou mais dúvidas e curiosidade do motivo pelos pais permitirem ou não perceberem isso. Para logo em seguida me lembrar que quando se trata de seres humanos quem está de fora enxerga melhor do que quem está dentro.

No geral é um livro que mexeu com a minha empatia ao mesmo tempo que gerava questionamentos e reflexões. Motivo pelo qual deixo a dica de leitura aqui. 


Se adaptar
S'adapter
Clara Dupont-Monod
Tradução: Diego Grando
TAG - Dublinense
2025 - 160 páginas
Publicado pela primeira vez em 2021


terça-feira, 27 de maio de 2025

O perigo de estar lúcida


Sinopse: Com base na sua experiência pessoal e na leitura de inúmeros livros sobre psicologia, neurociência, literatura e memórias de grandes escritores, pensadores e artistas, Rosa Montero oferece aqui um estudo fascinante sobre as ligações entre criatividade e instabilidade mental. E o faz compartilhando curiosidades surpreendentes sobre como nosso cérebro funciona na hora de criar, decompondo todos os aspectos que influenciam a criação e reunindo-os diante dos olhos do leitor enquanto escreve ― como uma investigadora pronta para combinar peças avulsas para solucionar um caso misterioso. Ensaio e ficção andam de mãos dadas nessa exploração das conexões entre o criar e a loucura. 



Em A Louca da Casa, a escritora espanhola Rosa Monteiro já havia listado aos leitores o conjunto de ingredientes que levam um autor a conquistar a mente de quem vira suas páginas de forma a não largar o livro até chegar à última página.

Em O perigo de estar lúcida ela explora ainda mais a relação um tanto complexa entre a criatividade e a instabilidade mental. E exemplos de escritores famosos com seus fins nada felizes não faltam para nos fazer refletir sobre este sofrimento.

Isso é algo que acontece com frequência: você vai crescendo e um belo dia descobre que aquilo que acreditava firmemente na infância era uma falácia ou uma bobagem.


Sofrimento que pode servir de inspiração artística, ou que busca através da escrita um alívio para as dores pessoais que atormentam o dono das palavras.

Ao utilizar a sua própria vivência compartilhando suas crises de pânico, ela consegue equilibrar as explicações teóricas sobre fatores químicos e situacionais com os sentimentos de quem sentiu na pele. Em um texto que fala de criatividade, envelhecimento, funcionamento do cérebro, escolhas e tempestades.

Os fantasmas de um escritor são aqueles temas ou detalhes que se repetem constantemente em seus livros sem que, de modo geral, ele ou ela tenha consciência disso.


Ao falar sobre a tempestade perfeita, que pode resultar em um surto de criatividade ou em um último ato, ela aproxima a todos que de alguma forma convivem com isso ao mesmo tempo que dá luz a um assunto em que nem todos aceitam conversar pelo preconceito que ainda existe.

O único porém é que o livro pode fornecer alguns gatilhos para quem talvez esteja mais sensível no momento. E mesmo a autora solicitando que se aguente um pouco mais e espere a tempestade passar, talvez nestes casos, a leitura também deve ser deixada para um momento em que os pensamentos intrusivos não tragam ideias que possam nos ferir naquele momento.


A escrita de Rosa Monteiro

A espanhola Rosa Monteiro estudou jornalismo e psicologia, e com suas obras que abrangem desde romances, passando por ensaios, crônicas e literatura infantojuvenil. O que tornou a escritora uma das mais influentes jornalistas e escritoras contemporâneas da Espanha.

Seus livros tem por característica uma narrativa introspectiva, as vezes feministas, frequentemente autobiográfica, e sempre muito sensível, tornando-a envolvente para os leitores.

Se você realmente acha que não sente nada, isso significaria que não ama ninguém. E, se não ama, será que você não é o maior impostor do universo?


E é essa mistura junto com os temas morte, memória, loucura, vida, morte  e arte que são encontradas nas páginas de O perigo de estar lúcida.

Ao misturar relatos de sua própria vida, ficção e um pouco da vida de grandes nomes da literatura como Sylvia Plath, Virginia Woolf e Janet Frame de uma forma direta, simples e sensível, sua escrita nos leva a encarar de frente os desafios psicológicos enfrentados enquanto a arte segue sendo criada por mentes inquietas.

Se você tirasse o córtex cerebral da cabeça e o passasse a ferro, ele poderia chegar a medir meio metro quadrado.


Nos levando a várias reflexões sobre o funcionamento complexo da mente humana, passagem do tempo e sobre o ato de viver.


O que eu achei de O perigo de estar lúcida

Logo no primeiro parágrafo sou remetida para uma memória de infância. Rosa Monteiro tinha um objeto em casa que a mãe precisava esconder para ela dormir. Nas inúmeras casas que eu morei, havia o rosto de um chinês pendurado cujos olhos, independentemente de onde eu estava, pareciam estar me observando. Toda vez que eu ficava sozinha, tirava o objeto e deixava de rosto virado para o sofá, para ter paz.

Seguindo a leitura, parecia estar andando em um caminho aparentemente inocente, criatividade, cérebro que funciona diferente e então o sombrio. As várias vidas que se foram por não conseguirem esperar a tempestade perfeita passar.

Mesmo o romance mais experimenta e desconexo tem um começo e um fim, e domestica de algum modo essa algazarra absurda em que vivemos.


Internações, sofrimentos, obsessões, mulheres subjugadas. Não há ninguém para salvar pessoas de cérebro inquieto? Cujas vozes parecem narrar histórias, teorias e até mesmo pesadelos grande parte do dia? Ninguém para ver os sinais?

E embora eu tenha achado o livro muito semelhante ao Louca da casa, a ponto de precisar dar uma pausa por um breve momento estar achando a leitura enfadonha. Ao final me dei conta que é um livro que mexeu com o meu íntimo. Viver, morrer, envelhecer, sonhar, ter medo da loucura, da depressão ou de simplesmente adoecer. 

Não consigo me enxergar na minha idade real. Não entendo como cheguei a isso. 


Tudo muito próximo neste nosso mundo bastante insano, que parece testar o nosso limite em diversas situações e áreas. Onde resistência e resiliência podem ser exigidas todos os dias até te levar a lágrimas de exaustão.

Exigindo uma coragem extra para a tempestade perfeita passar. Exigindo uma proteção nos olhos para buscar uma luz em meio a escuridão. Exigindo sensibilidade para encontrar uma mão de apoio próxima que perceba sinais e te ajude a esperar por mais um dia. Exigindo uma respirada mais funda ao se dar conta de quanto tempo passou.

Não importa o quão maluco você pareça: sempre há um punhado de gente no mundo que sente, pensa e age como você.


Motivo pelo qual eu gosto tanto da escrita da Rosa Monteiro, ela consegue ao contar as histórias de grandes nomes da literatura mostrar a humanidade de sentimentos tão complexos da nossa mente. Sem julgamentos, somente com fatos e uma gentileza com aqueles que mereciam um abraço.

Ficando a indicação para quem gosta de livros que tratam de temas psicológicos, sobre a arte da escrita, sobre autores de renome, ou que simplesmente gostam de ler.


O Perigo de estar lúcida
El peligro de estar cuerda
Rosa Montero
Tradução: Mariana Sanchez
todavia
2023 - 270 páginas
Primeira publicação em 2022

sexta-feira, 7 de março de 2025

Uma travessia por perturbações


A coletânea com vinte contos foi elaborada pela TAG Experiências literárias e enviada como mimo em seu mês de aniversário. Todos os contos são curtos, alguns curtíssimos, mas com uma dose grande de crítica, reflexão e densidade. Abaixo relaciono cada um deles.


O povoado vizinho: um micro conto sobre o tempo, a vida, suas expectativas e a morte.

Um relato a uma academia: Peter é um macaco que após ser capturado, aprende a se comportar como um ser  humano. Cinco anos depois, ele apresenta um relatório para a Academia para relatar a sua transformação.

Essa realização teria sido impossível se eu tivesse me agarrado teimosamente às minhas origens, às memórias da juventude. 


Um artista da fome: um homem se torna uma das principais atrações em circos e feiras por sua habilidade de jejuar por longos períodos. Mas o tempo passa e a curiosidade do público também, fazendo com que o artista busque formas de atrair novamente o interesse.

O novo advogado: neste conto Bucéfalo, o cavalo de Alexandre, o Grande, se torna um advogado para se adaptar as constantes mudanças do mundo.

 Ele faz muitas tentativas de ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos.


Diante da lei: publicado inicialmente como parte de O Processo, conta a história de um homem do campo que deseja passar por um portão que guarda a lei, mas um porteiro o impede de entrar e assim ele passa a esperar.

O passageiro: em uma plataforma para pegar um bonde elétrico um passageiro que se encontra incerto de seu lugar no mundo começa a divagar sobre uma moça que se prepara para descer do bonde que está chegando.

 Estou de pé na plataforma do bonde elétrico e totalmente incerto em relação a meu lugar neste mundo, nesta cidade, em minha família.


Volta ao lar: um filho retorna a casa do pai, mas antes de bater porta começa a levantar inúmeras questões sobre as relações que possui com os que ali estão.

Na galeria: uma bela amazona se apresenta no circo e um dos expectadores começa a especular as reações e percepções sobre o que ocorre e como elas seriam em um cenário diferente.

 Cheguei. Quem me receberá? Quem espera atrás da porta da cozinha?


A partida: um homem tem pressa em sair do lugar onde está.

O timoneiro: após uma noite inteira ao timão, um homem é questionado por um estranho sobre se aquela é realmente a sua função. Sem o apoio da tripulação, ele se sente confuso.

Que tipo de gente é essa? Pensam também ou se arrastam sem razão de ser pela Terra?


O silêncio das sereias: Odisseu acredita ter tomado as medidas necessárias para se proteger do canto das sereias, mas o que ele não sabia era que o silêncio é muito mais poderoso.

Poseidon: o famoso deus grego encontra-se entediado e sobrecarregado de inúmeras tarefas burocráticas.

 Dessa fria arrogância, você sabe, não surgem quaisquer fagulhas de entendimento.


Chacais e árabes: um europeu está acampando com os árabes em pleno deserto, e ao esquecer de abastecer a fogueira é cercado por chacais que tem um estranho pedido a fazer.

O abutre: um homem tem os seus pés atacados por um abutre e não consegue se livrar do animal, sentindo-se indefeso.

 Nem tudo se cumpre, nem todo sonho em flor amadurece, seus terríveis restos jazem aqui, já indiferentes ao pontapé. 


O fratricídio: em um conto de suspense temos o assassinato de Wese por Schmar, um homem frio que estava determinado a praticar o crime, e a testemunha que assistiu a tudo

Um sonho: Josef K. sonhou que queria passear em um dia bonito, mas logo se viu caminhando em um cemitério.

 Que se veja o poder persuasivo do ar depois da tempestade.


Desista!: ao se descobrir atrasado, o narrador não sabe mais qual caminho tomar.

O caminho para casa: durante uma caminhada noturna de volta para casa, o narrador sente a escuridão e o silêncio ampliando a sensação de isolamento que ele tem.

 Eu havia dito até então tantas saídas e, então, mais nenhuma.


Pequena fábula: um rato sente o seu medo mudar, se antes era a amplitude do mundo, agora é o seu estreitamento.

Desejo de se tornar índio: o narrador vê na figura do índio a liberdade que ele anseia.

 

A escrita de Franz Kafka

Um dos maiores nomes da literatura, Franz Kafka (1883-1924) nasceu na cidade de Praga em uma família judia classe média. Sofreu de tuberculose por quase toda a sua curta vida, mas isto não o impediu de transformar a opressão paterna, a angústia existencial, e suas críticas a burocracia e a alienação do ser humano em histórias.

Em suas obras Franz Kafka questiona as regras e expectativas que temos ao viver em sociedade, e a solidão e o isolamento que isto pode nos impor. Muitas vezes expondo contradições e hipocrisias.

Sobre os seus protagonistas, não raro se identifica o seu desconforto, a busca por sobrevivência, validação ou admiração. Sentimentos como angústia e frustração também estão presentes em suas páginas, assim como a busca de um propósito de difícil acesso, dando um aspecto entre o sombrio e melancólico em seus contos.

O escritor também utiliza de metáforas e parábolas em alguns momentos , seja para criar comparações entre passado e futuro, seja para escreve sobre um mundo que está em constante mudança desde sempre, ou simplesmente para deixar que o leitor dê a as próprias interpretações.

Outra constante é a lei, como em seu livro O Processo, ela está presente em mais de um conto, sendo uma crítica a sua burocracia e a dificuldade de acesso a ela pelas pessoas que precisam.

Tudo usando uma linguagem mais ácida que convida o leitor mais atendo a reflexão sobre o que é ser humano, em textos que vão do existencialismo ao questionamento sobre o funcionamento da sociedade.

E para isso nem os mitos serão poupados de enfrentarem situações diferentes das que encontramos nas lendas e literatura.

 

O que eu achei de Uma travessia por perturbações

O primeiro livro que li de Franz Kafka foi O Processo, que já havia chamado a minha atenção por toda crítica ao sistema como um todo. Recentemente tive a oportunidade de ler A metamorfose em uma versão quadrinhos, onde o fantástico entra cheio de simbolismo.

Dos contos listados eu só conhecia Um artista da fome, ao qual segue me impacto cada vez que leio e que segue muito atual, só que agora as coisas mais absurdas para chamar a atenção acontecem nas redes sociais, e não mais no circo.

Algo que se reflete também nos demais dezenove contos deste livro. Já que a escrita atemporal de Kafka nos mostra que a nossa evolução é muito mais tecnológica do que humana.

Um fato curioso sobre os contos de Franz Kafka é que eles podem ser curtos, até mesmo curtíssimos - ocupando menos de uma página em alguns casos-, mas não podem ser descritos como leves e fáceis.

 Alguns, como A partida, deixam mais dúvidas do que respostas, exigindo um tempo para reflexão ou até mesmo uma pequena pesquisa para uma melhor compressão das palavras do autor.

 Não sendo exatamente um livro para se devorar um conto atrás do outro, já que não raro algumas coisas precisavam de tempo para serem melhor assimiladas. Pelo menos no meu caso.

 E como eu gosto muito do autor, e gosto mais ainda de contos, deixo essa dica para vocês. Como não sei se foi colocado à venda, fica naquele acaso para quem frequenta sebo e se deparar com o exemplar.

 

Uma travessia por perturbações - 20 contos
Franz Kafka
Organização e tradução: Bruno Gambarotto
TAG - 2024
125 páginas

 

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Luzes do Sul




Sinopse: Depois do sucesso de A livraria mágica de Paris, O maravilhoso bistrô francês e O livro dos sonhos, Nina George nos presenteia com uma história mágica, encantadora e emocionante em Luzes do Sul, o “livro dentro do livro” A livraria mágica de Paris. Mais uma bela homenagem a livros e leitores.


No mesmo dia em que a Morte leva sua avó, a bebê Marie-Jeanne, que já era órfã de pai e mãe, toca o Amor em um momento que este está distraído. Um ato que mudara para sempre a vida da menina.

Ambientado nos anos de 1960 em Nyons no sul da França, Luzes do Sul conta a história de Marie-Jeanne Claudel, uma jovem com o poder de ver o amor literalmente, assim como as ligações das pessoas que combinam entre si, o que poderíamos talvez chamar de almas gêmeas. 

Houve anos em que duvidei de mim mesmo, do sentido e da força das minhas ações; foi aí que quase perdi as esperança.


Adotada por um comerciante e uma cozinheira, ela só irá descobrir o seu dom quando o seu pai monta uma biblioteca itinerante, chamada de Philis, cuja intenção é fazer com que livros cheguem aos moradores dos campos, que pela distância não possuem fácil acesso a biblioteca ou livrarias.

Ao ajudar o pai a percorrer diferentes caminhos e levar os livros onde até aquele momento eles não chegavam, ela irá conhecer outras pessoas, e assim, uma jornada de compartilhamento e descobertas se inicia.

O coração se parte, uma, duas vezes, repetidamente, e vocês se esforçam ao máximo para colar a xícara com cuidado, para viver as feridas, embelezá-las com esperança e lágrimas.


E ao mesmo tempo que Marie-Jeanne tenta descobrir como usar o seu dom, ela também precisa administrar as suas consequências.


A escrita de Nina George

A autora e jornalista alemã Nina George já publicou diversos romances, mistérios e também obras de não ficção. Sua obra mais conhecida é a Livraria mágica de Paris, traduzida em várias línguas, se tornou um best-seller.

Tem como característica nas suas narrativas abordar temas como amor, perda, autodescoberta e literatura. Tudo em uma escrita meio poética, meio intimista, que convida o leitor a se apaixonar pelos seus personagens e viver junto com eles cada página.

Nunca antes uma pessoa foi capaz de segurar o Amor. Muito menos me viu, meu ser, minha personalidade, meu rosto, minha forma.


No caso de Luzes do sul há um detalhe especial. Pois é o livro citado dentro da Livraria mágica de Paris e escrito com o pseudônimo de Sanary. Mas como ocorrem em outras obras de outros autores, este livro não existia na vida real.

E foi atendendo ao pedido de diversos leitores que Nina George tornou o livro real, com o nome dela como escritora, naturalmente. e tendo o Amor como o narrador onisciente da história, sendo responsável por mostrar o caminho a ser percorrido pelas páginas e as conexões.

Não são os livros o último lugar no planeta onde se encontram pessoas e épocas, paisagens e sentimentos que, de outra forma, raramente se encontrariam?


Por ser o amor, a narrativa acaba tendo um toque poético e também filosófico, já que as relações, principalmente as românticas, são bastante discutidas.

O realismo mágico também é utilizado para criar a atmosfera das conexões entre as pessoas, conexões essas que são enxergadas apenas pelo Amor e pela protagonista da história Marie-Jeanne.

A Paixão e o Medo olharam os livros em chamas, e neles havia um ar de submissão.


No geral é uma escrita bastante leve, que possibilita ao leitor refletir sobre os seus próprios sentimentos em relação as pessoas próximas e as suas atitudes.


O que eu achei de Luzes do Sul

Eu sou uma das fãs de Livraria mágica de Paris, a escrita e a história ganharam o meu coração e me fizeram procurar outros livros da autora.

Mas as Luzes do sul não me encantou tanto, o que me deixou em um primeiro momento um pouco triste, já que a minha expectativa era bastante alta.

A escrita nunca se mantém igual, ela é um reflexo da vida. Nossa escrita sofre conosco.


Narrado pelo Amor, a história começa triste e envolvente, mas com o tempo, as seções que vinham indicadas por uma mãozinha, me lembravam longas notas de rodapé.

E isso, para mim, tirou a fluidez da leitura. E mesmo quando explicava o passado, por irromper o presente muitas vezes, tornava a leitura, na minha opinião, um pouco mais arrastada, as vezes quase superficial.

Assim, os livros eram a última magia antiga: tornavam visíveis realidades ocultas.


Por outro lado, a ideia no geral é muito boa. Primeiro por tornar real o livro citado no maravilhoso A livraria mágica de Paris. Segundo, porque temos todos os tipos de amor romântico. O que não se permite expor, o jovem, o de espera, o após viver muitas coisas, e também o não amor.

Após o término, quando são incluídas partes escritas que ficaram fora da história, fiquei pensando se a narrativa não ganharia um plus a mais se outros narradores como lógica, coragem e destino não travassem discussões sobre os acontecimentos.

O brilho não fazia distinção entre quem era simpático ou antipático, bonito ou feio, bom ou mau. 


Eu finalizei a leitura com um misto de sentimentos e reflexões de como tenho lidado com o amor. E por isso deixo a recomendação aqui.


Luzes do Sul
Südlichter
Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora Record
2022 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2019


segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Mau hábito



Sinopse: Nesta estreia literária que se tornou um fenômeno mundial, acompanha a formação de uma criança que cresce num bairro operário devastado pela heroína, na Madri dos anos oitenta. Com crueza e poesia, Alana S. Portero cria um romance sobre as alegrias e os conflitos envolvidos na experiência de uma pessoa que decide experimentar livremente o gênero. A partir da sua escrita terna e feroz, caminhamos entre mitologias diversas, construídas com santos católicos, divas pop, travestis e referências literárias.



No mês de outubro/2024 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Carla Madeira o livro Mau hábito da escritora espanhola Alana S. Portero. O mimo foi uma ecobag para garrafinha de água.

Nas décadas de 1980 e 1990, artistas como Madonna, Rick Astley, Whitney Houston, U2 explodiam nas paradas de sucesso. Fazendo a trilha sonora de crianças e jovens espalhados pelo mundo inteiro, que externavam ao cantar as músicas muitos dos sentimentos que guardavam.

Vi uma geração inteira de rapazes cair como anjos em estado terminal. Adolescentes com a pele cinza, faltando dentes, cheirando a amoníaco e urina.


Inclusive em Madrid, que vivia uma transição política - após a ditadura de Franco estavam retornando a democracia -, cultural - sendo celeiro de novos talentos -, social - com uma sociedade mais aberta e tolerante -, além de um grande desenvolvimento urbano que mudaria a cara da cidade.

E é no meio destas transformações que uma criança, vivendo no bairro operário de San Blas, se depara com o primeiro desafio de sua vida: não se identificar com o gênero que nasceu.

A droga foi a última fora de execução sumária de dissidentes de um regime que encontrara a forma de se perpetuar.


Imitando a postura de seus parentes do sexo masculino em público – a forma de um primo sentar, de um tio comer e do pai de se expressar -, é no banheiro e ouvindo música que ela tenta se transformar no que gostaria de ser, invejando os grupos de mulheres que se juntam para conversar e fazer compras, em uma aliança muito mais antiga do que o imaginado.

E é essa criança que narra Mau hábito, compartilhando cada fase de sua vida, da infância, passando pela adolescência até a vida adulta. Onde divide com o leitor suas dúvidas, sua própria aceitação, seus amores e horrores em uma escrita sensível e delicada.


A escrita de Alana S. Portero

Mau hábito é o romance de estreia da escritora espanhola Alana S. Portero, que assim como a narradora da sua história, é uma mulher transgênero que nasceu em um bairro operário de Madrid. Iniciou a carreira no teatro e hoje ocupa um papel de destaque na literatura espanhola contemporânea.

Em Mau hábito a narrativa ocorre em primeira pessoa, onde experiências e pensamentos são compartilhados com o leitor, tendo características de um romance de formação, já que a história se inicia ainda na infância e prossegue por cerca de trinta anos.

Era insuportável, e se alguma vez a violência extrema teve uma rotina cômoda foi naquela casa.


O ambiente escolhido é uma mescla de cuidados familiares, criação de laços com quem compartilha as mesmas vivências e a violência em um bairro mais pobre, que pode vir tanto na forma física quanto na psicológica. 

Trazendo à tona assuntos como drogas, aids, preconceito, primeiro amor, e a cultura popular, seja por música, moda, cinema e bairros. Ao mesmo tempo que mostra de forma sutil a transformação de uma cidade após um período de muita restrição.

No mundo das portas abertas, não havia espaço para o rebolado nem para o choro, só para os machões.


Tudo em uma escrita bastante sensível, que encaminha a personagem da história de forma gentil, mesmo nas situações mais difíceis, sendo muito fácil para o leitor sentir carinho e vontade de ajuda-la.


O que eu achei de Mau hábito

Estive em Madrid em 2015 e ler Mau hábito foi dar um passeio por algumas ruas, além de me permitir fazer um antes e depois entre o que estava escrito e o que eu vi durante a minha viagem, ao qual curiosamente pegou o dia da parada gay na cidade.

Como fã das músicas dos anos 80 e 90 adorei as referências musicais, não raro ficava com algumas das músicas citadas na cabeça (Papa don't preach), e me sentia no quarto da personagem com vontade de dançar junto.

Meu pai era assim. Sempre nos dizia a verdade, sem muitos rodeios, e considerava que tínhamos direito às respostas.


Também achei que a escrita me permitiu entender um pouco do sofrimento sentido por quem sofre de disforia, termo utilizado pela própria autora, me fazendo refletir que se já é difícil para muitos lidar com o espelho quando inicia o processo de envelhecimento, o quão duro deve ser em momento nenhum da vida se sentir bem na própria pele.

Existem vários eventos marcantes na história, que tem personagens secundários muito interessantes como as vizinhas Margarida e Peruca, o grupo de travestis que me lembrou o livro O parque das irmãs magníficas, o dono do bar Antônio com suas memórias em forma de fotos de quem foi vítima da aids, o primeiro amor Jay e o conhecido torcedor de futebol ao qual é bom manter distância.

Cibele era a guardiã dos emasculados, dos hermafroditas e dos eunucos, a mãe dos que renunciavam à masculinidade grotesca e abraçavam a ferocidade das mulheres.


Aliás, achei muito interessante a abordagem sobre o assunto, pois em um momento havia o primeiro amor sem consciência do risco, e depois a lembrança do vírus na época mortal que estava sempre à espreita.

Mas é justamente quando este personagem cujo nome só aparece uma vez parece estar se encontrando que ocorre uma virada e surgem os poucos pontos que me incomodaram na leitura.

Acabei entendendo isso, as dobras da memória são traiçoeiras e podem soltar lembranças tão vivas que corremos o risco de ficar presas em lugares que prometemos nunca mais pisar de novo.


Pois como acompanhamos a vida da personagem por um longo período, eu senti falta de uma conversa franca com a família. O motivo é justamente por ser uma família amorosa, estruturada, cujos pais explicavam dúvidas sem preconceito ou enviesados.

E para mim foi um sentimento que ficou latente mesmo após encerrar a leitura, pois em todas as partes que entrava mãe, pai e irmão, era possível sentir como eles eram uma base. Como eles pareciam saber que havia algo diferente pelo cuidado que todos tinham com a personagem, e como talvez essa conversa tenha feito falta para ela não ser tão perdida.

Tudo que tinha a ver com minha identidade, quando ensaiava as possibilidades de contá-la, soava como a confissão de um crime ou de um pecado imperdoável.


Como há uma passagem de tempo, também senti falta de explorarem a mudança na mentalidade da sociedade madrilena, como foi a mudança de tornar todas as ruas mais seguras para todos, não sendo mais necessário se esconder ou frequentar apenas bairros específicos.

Mas no geral gostei da história, concordo com o adjetivo que a minha mãe usou de ser um livro delicado, ao qual a escrita torna fácil compartilhar o misto de sentimentos da criança/jovem que acompanhamos crescer. 

Eu me esforço muito para me adaptar ao que se espera de mim, interrompo meus sonhos me dando uma bofetada.

Uma coisa que eu achei muito legal na edição da TAG, e ficou na torcida para ter na edição comercial também, é a playlist da autora para o livro. No meu livro, fica na última página.

Ficando a dica de leitura para quem curte romances de formação, que fazem o leitor caminhar pelas ruas de outras cidades, que gostam de refletir sobre a sociedade, ou que simplesmente gostam de ler uma boa história.


Mau hábito
La mala costumbre
Alana S. Portero
Tradução be rgb
TAG - Amarcord
2024 - 231 páginas
Publicado originalmente em 2023

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime



Sinopse: Nesta coletânea de contos de romances inusitados, Agatha Christie mostra como o amor pode impulsionar as pessoas a diversos tipos de loucuras. A Rainha do Crime te levará a testemunhar o lado obscuro desse sentimento, longe do romantismo e da paixão, em uma trilha intensa de enigmas a serem descobertos. Crimes passionais, jogos sentimentais e relacionamentos (que deram um pouco... errado) serão investigados pelos heroicos e tão queridos detetives Hercule Poirot e Miss Marple, o mestre das charadas Parker Pyne, o misterioso Mr. Quin e o audacioso casal Tommy e Tuppence.



Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime é uma edição especial da TAG experiências literárias, composto de 13 contos, um texto sobre assuntos do coração escrito pela Agatha Christie e a sua biografia. Abaixo um breve resumo de cada conto:


O Rei de Paus: durante um jogo de cartas familiar, uma mulher coberta de sangue invade a casa e grita assassinato antes de desmaiar. Para desvendar o mistério, o famoso Hercule Poirot que não deixa nenhum detalhe escapar entra em cena.

A realidade não é apenas mais estranha que a ficção, é mais dramática.


O rosto de Helena:
em uma ópera Sr. Satterthwaite se encanta pela bela cabeça de uma mulher e acaba se aproximando da mesma, e descobre que ele não é o único a se encantar pela moça.

Morte no Nilo: Parker Pyne está em um luxuoso cruzeiro pelo rio Nilo quando a tranquila viagem de férias é interrompida pela morte de uma herdeira. Personagem não muito simpática, que torna todos a sua volta suspeitos em potencial.

É uma coisa notável quando se pensa nisso, como poucas pessoas têm cabelos que de fato combinam com elas.


Morte por afogamento: uma jovem é encontrada morta em um rio próximo em uma pequena vila inglesa. Todos da comunidade acreditam que o afogamento foi causado pela própria jovem, mas Miss Marple observa detalhes que a fazem acreditar na possibilidade de assassinato.

A pista dupla: um conhecido colecionador de joias tem rubis e esmeraldas furtados. Pistas falsas são deixadas para enganar a polícia, mas não são o suficiente para o detetive Hercule Poirot e seu fiel companheiro, Hastings.

Sofria desde os dezesseis de um problema de dinheiro em excesso.


Uma finesse com o rei: o casal de detetives Tommy e Tuppence tiram uma noite para dançar e se divertir quando sem querer viram testemunhas e investigadores de um assassinato.

Um domingo frutífero: um casal sai de carro para aproveitar o dia, mas o que era para ser um domingo tranquilo, torna-se um quebra-cabeça com vários acontecimentos inesperados e relacionados.

Sua anfitriã tinha temperamento plácido, pouco dada a destemperanças ou aflições. 


O vespeiro: Hercule Poirot resolve visitar um homem para discutir sobre um assassinato que ainda não aconteceu.

O caso da Zeladora: Miss Marple está deprimida por ter que ficar em casa para se curar de uma gripe, é quando seu médico lhe dá uma carta com um intrigante caso, um quebra-cabeça sobre o desaparecimento de uma zeladora.

A seu modo, ele era uma espécie de celebridade, e a vida elegante era sua profissão.


O homem na neblina: Tommy e Tuppence estão decepcionados por não terem solucionado seu último caso quando se deparam com um novo mistério a caminho da estação de trem.

O caso da ricaça: Parker Pyne recebe uma missão inusitada, uma mulher rica e sozinha não sabe mais como gastar o seu dinheiro busca orientação de como fazê-lo em algo que realmente valha a pena.

Todas as esposas que conheço estão ansiosas para sair e dançar, e chorando seus maridos usam pantufas e vão para a cama às 21h30.


Flor de magnólia: uma jovem mulher casada resolve ir embora com o seu amante, mas durante a fuga descobre que o marido foi à falência e as descobertas que virão são totalmente inesperadas.

Os detetives do amor: a morte súbita de um homem rico e solitário identificada inicialmente como natural desperta a intuição de Sr. Satterthwaite sobre as coisas não serem exatamente o que parecem.


A escrita de Agatha Christie

A escritora britânica nascida em 1890 foi responsável pela revolução no gênero policial, tornando Agatha Christie a rainha dos romances do gênero. Em 1920 ela publicou O Misterioso Caso de Styles, seu romance de estreia com detetive belga Hercule Poirot, o primeiro de 66 romances, fora os contos e as peças de teatro. O que a tornaram uma das autoras mais vendidas.

Seu estilo de escrita encanta pelas reviravoltas que surpreendem o leitor, as soluções que ninguém havia imaginado, a personalidade observadora de seus detetives, os locais diversos que mexem com a curiosidade e a escrita que captura da primeira à última página.

Ele agora preferia a lei do menor esforço, seguindo atrás de qualquer carro que estivesse à frente sem pensar sempre que uma escolha de vias se apresentasse.


O que torna a coletânea de contos Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime uma espécie de amostra com vários de seus conhecidos detetives, quase um convite para as novas gerações descobrirem mais de sua obra e uma forma de lembrar os já leitores que as obras da rainha são atemporais.


O que eu achei de Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime

Eu particularmente gosto de romances policiais, e embora não tenha começado no gênero pelos livros da Agatha Christie, sempre que posso ler algum de seus livros já sei que a diversão com o quebra-cabeça literário é diversão garantida.

Mas confesso que não foi algo que encontrei na coletânea de contos. Por serem histórias bem curtinhas, não há informações suficientes para criar teorias ou pensar quais peças se encaixam, pois em um piscar de olhos o caso já foi solucionado.

Em um minuto, uma expressão de absoluto espanto surgiu em seu rosto, pois a figura engomada que subia o caminho era a última que ele esperava ver nesta parte do mundo.


O interessante dele aqui está na visão que se tem dos relacionamentos, sejam sociais, sejam amorosos, sejam de casal, ou de comunidade. Pois se tem um desenho tanto das famílias abastadas, com algumas críticas sutis e outras mais diretas, como de comunidades do interior fechadas a estrangeiros.

E nestes ambientes ocorrem intrigas, obsessões, desejo de vingança, traições, cumplicidades, dias inusitados e questionamentos existenciais.

Não consigo deixar de pensar o quão melhor teria sido se eu simplesmente tivesse morrido.


Tornando a leitura leve e fácil, que combina tanto com chocolate quente no inverno como com areia de praia no verão. Ficando a dica de leitura para quem gosta de livros que ajudam a desopilar nas férias ou para intercalar após uma narrativa especialmente difícil.


Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime
A Deadly Affair
Agatha Christie
Tradução: Samir Machado de Machado, Jim Anotsu, Petê Rissatti
TAG - Harper Collins
2022 - 271 páginas
Contos escritos entre os anos de 1923 e 1942.