terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sinopse de amor e guerra


Sinopse: Theobald e Bluma estão fadados a ficar juntos desde que vieram ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito. Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro — o mais famoso da História —, adiando a promessa do primeiro beijo. Este romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no destino individual de dois amantes uma pergunta universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

No mês de junho/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Sinopse de Amor e Guerra do escritor português Afonso Cruz. A indicação foi da criadora do projeto "Vá Ler um Livro" Tatiany Leite. E o mimo foram imãs de geladeira no tema cinema brasileiro.

As famílias de Theobald Thomas e Bluma Baumann são amigas, fazendo com que os dois cresçam juntos. Temporariamente separados na adolescência pela diferença de idade — Bluma é mais velha e acaba despertando mais cedo a curiosidade por assuntos que vão além das brincadeiras da infância —, eles se reencontram na livraria do tio de Theobald. É ali que a amizade de infância começa, lentamente, a se transformar em amor.

A normalidade é de papel e estraga-se quando se manuseia, rasga-se, desfaz-se.


Um amor construído através dos livros, das histórias e dos poemas que Theobald decora para impressionar a moça que acredita, profundamente, estar destinada a ele. Quando o afeto finalmente é correspondido, Bluma passa a ocupar um lugar ainda mais importante na vida de Theobald, e os dois começam a construir uma relação em que literatura e sentimento caminham lado a lado.

Uma história que teria tudo para ser um bonito romance, quase uma comédia romântica, se não fosse por um pequeno detalhe: eles vivem na Alemanha do pós-guerra. Mais precisamente em Berlim, uma cidade que se viu dividida de um dia para o outro, em pleno verão de 1961.

Quem ama encontra o amado em tudo, um ser infinito que se revela em todos os pormenores, uma visão profana do trabalho ascético, do místico ou do santo.


Famílias, amigos e amores que até então faziam parte da mesma cidade passam a não poder mais se encontrar. Uma barreira física, criada por uma divisão política, passa a produzir consequências pessoais e profundas na vida daqueles que ficaram separados por ela — e, para alguns, a distância imposta pelo muro faz surgir a necessidade de buscar medidas cada vez mais extremas para voltar a estar perto de quem amam.

Inspirado em uma história real, Sinopse de amor e guerra integra a coleção Geografias, sendo o segundo romance de Afonso Cruz publicado nessa coleção, depois de Princípio de Karenina, que se passa no Vietnã.

Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca...


Mais do que relembrar o impacto que as divisões políticas podem causar na vida de pessoas comuns, o romance transforma a história de Theobald e Bluma em uma reflexão sobre espera, liberdade, limites e sobre até onde alguém estaria disposto a ir para viver um amor.


A escrita de Afonso Cruz

O português Afonso é um artista multidisciplinar: escritor, ilustrador, músico e cineasta, tendo trabalhado durante mais de uma década com cinema de animação. Também é integrante da banda The Soaked Lamb e, entre suas muitas atividades, produz a própria cerveja artesanal. 

Iniciou a sua carreira literária no final dos anos 2000, e desde então tem apresentado uma obra bastante diversificada, que passa por romances, contos, ensaios, teatro, literatura infantil e juvenil, livros ilustrados e até uma curiosa “enciclopédia” de história universal inteiramente inventada. 

Poderiam o ódio, a guerra, o rancor, a desumanidade surgir de um amor imenso?


Seus livros já foram publicados em mais de vinte idiomas e receberam diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka já resenhado aqui no blog e primeiro livro que eu li do autor.

Esse perfil diversificado está em suas obras, na maneira como constrói imagens, associa ideias e trabalha o ritmo das narrativas. Em uma entrevista, o próprio autor afirmou que não vê suas diferentes atividades artísticas como áreas hierarquizadas, mas como formas distintas de criação.

O fruto proibido não nos foi mostrado para que não o comêssemos, foi-nos mostrado para que transgredíssemos.


Em Sinopse de amor e guerra, essa característica aparece em uma narrativa aparentemente simples, mas construída sobre diferentes camadas. A história de Theobald e Bluma é atravessada pela literatura, pela memória e pela História, enquanto Afonso Cruz transforma o Muro de Berlim em algo que ultrapassa sua existência física. 

Com uma escrita delicada, reflexiva e muitas vezes carregada de imagens e associações, o autor conduz uma história de amor que também fala sobre separação, liberdade, escolhas e as marcas deixadas pelo tempo.


O que eu achei de Sinopse de amor e guerra

Um livro curto, de escrita fluida e envolvente, que torna a leitura fácil e rápida, mas nem por isso pouco reflexiva.

Existe a doçura do primeiro amor, o encantamento pelo sentimento correspondido, a dor da separação por motivos que parecem absurdos, parecendo mais uma ficção do que realidade. E existe também a juventude, que exige recomeços para um coração que ainda não foi desocupado.

E então Theobald nos questiona, sem frescuras ou indiretas: qual é o limite do amor? O que podemos fazer por aqueles que amamos? Foi nesse momento que me veio à cabeça uma música do Bryan Adams, [Everything I Do] I Do It for You.

O ser excepcional não passa de uma pessoa normal que, em certas circunstâncias, se porta de maneira esquisita.


Como leitora, porém, fui além do amor romântico e comecei a pensar na situação que realmente aconteceu com tantas famílias. O que fazer quando já não podemos mais ver alguém que amamos? Como lidar com as incertezas de que a vida de quem ficou do outro lado do muro pode ser pior do que a nossa?

Não é à toa que tantas pessoas se arriscaram em tentativas de fuga da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental, cavando túneis, atravessando o rio Spree a nado ou encontrando outras formas extremamente arriscadas de ultrapassar a barreira. São histórias que parecem verdadeiros pesadelos, mas que aconteceram de fato e chegaram ao conhecimento de Afonso Cruz por diferentes relatos.

E, curiosamente, foi uma história contada pelo próprio pai do escritor — sobre um casal separado pelo muro — que inspirou Sinopse de amor e guerra.

Há uma melodia estranha no retrato, vestígios de uma canção que se imiscuem na imagem e a impregnam.


Um livro que instiga o leitor ao trazer os conflitos provocados por muros que podem ser tanto físicos quanto psicológicos, principalmente quando quem entra na narrativa consegue sair do papel de juiz para vestir a pele dos personagens e tentar enxergar o mundo a partir das circunstâncias em que eles estão inseridos.

Além disso, Sinopse de amor e guerra possui bons personagens secundários, como o tio de Theobald, dono da livraria e uma presença importante ao longo das diferentes fases da vida do sobrinho.

Os pais olham para os filhos e dizem: deu um salto. Quer isto dizer que sentimos que, num período curto, houve uma progressão unusitada.


Um livro sensível e complexo, que nos desafia a pensar até onde iríamos por amor — e o que estaríamos dispostos a fazer quando uma barreira criada por outros decide o destino das nossas vidas.

Ficando aqui a minha recomendação de leitura, para quem gosta de ficção com base histórica, para quem quer uma história de amor diferente ou simplesmente por quem é apaixonado por livros.


Sinopse de amor e guerra
Afonso Cruz
TAG - Dublinense
2026 - 160 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 25 de agosto de 2026

O voo da guará vermelha



Sinopse: Rosálio, pedreiro e analfabeto, atravessa o país em busca de alguém que o ajude a ler e escrever. Irene, prostituta e soropositiva, conhece as letras precariamente, mas o bastante para ensiná-las. Do encontro desses dois personagens nascem as histórias que Rosálio não cansa de contar, e que Irene esperou tanto tempo para ouvir. O encanto da fala de Rosálio torna mais amena a luta de Irene contra a doença e transforma em realidade o desejo do pedreiro de ganhar a vida como contador de histórias. Com delicadeza e inteligência, Maria Valéria Rezende narra a trajetória desses dois personagens que, marcados por um passado difícil, descobrem o amor, a cumplicidade e a possibilidade de horizontes mais amplos.

No mês de maio/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do editor do Círculo do Livro Fernando Nunes o livro O Voo da guará vermelha da escritora brasileira Maria Valéria Rezende. O mimo foi um maravilhoso alfajor da Odara.

Rosálio foi criado em uma pequena comunidade e era chamado de ninguém, até sair pelo mundo e escolher o seu próprio nome inspirado em uma professora que admirava de longe. Em sua busca constante para deixar de ser analfabeto, ele carrega livros que deseja ler e acumula histórias.

Andando de cidade em cidade um dia é confundido como um possível cliente por uma cansada Irene, mulher que sabe ler e escrever e tem como profissão uma das mais antigas do mundo. Em estágio avançado pela AIDS, sua confusão é facilmente explicada pela baixa constante na procura por seus serviços, já que a doença suga cada dia mais a sua aparência, tornando-a pouco atraente aos olhos dos homens que frequentam o local.

Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula sem cabeça?


O encontro dos dois transforma Rosálio em uma espécie de Xerazade, onde ele retorna ao quarto de Irene sempre que o trabalho permite para contar o que viu e viveu ao longo dos anos. E ela transcreve para um caderno cada uma das histórias contadas, tornando-as fontes de aprendizado para o homem que as conta e de motivação para viver um dia a mais para a mulher antes tão desesperançosa.

Convidando a todos que o ouvem e os que leem a narrativa a ficar mais um pouco para saber qual será a próxima história.


A escrita de Maria Valéria Rezende

A educadora e freira paulistana Maria Valéria Resende estreou como escritora após os 60 anos e já ganhou prêmios como o Jabuti, São Paulo de Literatura e Casa de las Américas. Sendo também uma das criadoras do Mulherio das Letras, um coletivo feminista.

Sua escrita reflete muito de sua vivência em meio as comunidades no Nordeste, direta, leve e fluída, lembrando a forma oral de se contar histórias. Também costuma utilizar personagens de perfil simples, descrevendo suas lutas e criticando a desigualdade.

Para de pensar, mulher, pensa nada, pensa vazio como esta rua, pensa nos cotovelos doendo de estar assim apoiados na beira da janela, estou tão magra!, é da doença...


Em O voo da guara vermelha irá se encontrar estes elementos em uma estrutura semelhante a encontrada na literatura de cordel, com suas frases longas e uma cadência que lembra as poesias populares. E seus heróis são um analfabeto que sonha ler e contas suas histórias pelo mundo e uma prostituta que vive um dia de cada vez.

E como heróis são feitos de transformação, resistência e resiliência, é a comparação feita por Rosálio de uma ave que nasce cinzenta e vai se tornando vermelha com Irene em seu vestido vermelho que dá nome ao livro.


O que eu achei do Voo da guará vermelha

Logo no início da leitura a primeira coisa que me veio à cabeça foi o livro mil e uma noites. Mas diferente de Xerazade, a maioria das histórias tinham início, meio e fim no mesmo capítulo. Dando a impressão que poderia facilmente ser um livro de contos, se tirasse o casal base.

E como o foco são as histórias de Rosálio, eu achei que a vida de Irene ficou com algumas pontas soltas. Sim, eu sei que nem toda a narrativa precisa ter tudo explicadinho. Mas visto que ela introduziu o nome do livro que serviu de inspiração entre os que o personagem carregava, acredito que falar mais sobre a criança (filho?) de Irene poderia ter complementado a vida da mesma, que é colocada de uma forma mais superficial.

Conta, homem, conta mais, é cedo para ir-se embora, nem o dia clareou, enquanto durar a noite conta, conta para eu sonhar.


Aliás, ouso dizer que o verdadeiro personagem principal aqui é a educação. O saber ler e escrever como forma de ser visto, não ser enganado, conseguir fazer escolhas em plena consciência. É a educação que une uma alma quebrada a uma alma que parece sempre esperançosa. Livros são tesouros e memórias podem ser eternizadas no papel.

Em relação aos contos de Rosálio, há as mais diversas situações que podem lembrar as fofocas de qualquer cidade pequena ou de condomínios que igualam os números do interior pela quantidade de moradores. Inicialmente ele conta a própria história e da pequena comunidade que morava, depois, surgem as histórias das suas andanças. Há os homens que enganam os outros para torna-los escravos, a febre do ouro no garimpo, o marido traído e eternamente apaixonado que aceita as idas e vindas da esposa, a vivência em uma terra onde a bala corria solta, entre outras.

Nasci sem nome, como a serra que me aguardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse.


O livro no geral é curto, fácil de ler, e a história é bonitinha e sensível, e apesar de conter pautas dolorosas, incrivelmente leve. Eu gostei, mas não amei. Passados dois meses da leitura (sim, estou com as resenhas bem atrasadas) a narrativa já não ecoa fortemente na minha mente, talvez por que no meu gosto como leitora, os personagens principais, aqui mais a Irene, precisariam ser mais trabalhados para ganharem o meu coração.

Mas, como no nosso encontro mensal para discutir os livros da TAG o livro ganhou o coração da grande maioria, fica a recomendação para você "ouvir" as histórias de Rosálio e quem sabe se emocionar com todas elas.


O voo da guará vermelha
Maria Valéria Rezende
TAG - Alfaguara
2026 - 165 páginas
Publicado originalmente em 2005


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O problema dos três corpos



Sinopse: China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena à beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Em plena Revolução Cultural Chinesa a jovem Ye Wenjie vê o pai ser assassinado por não renegar conceitos básicos da Física, como a teoria da relatividade de Albert Einstein. Sua mãe, também da área, se torna submissa ao novo sistema e sua irmã se torna membro da guarda vermelha.

Enviada para um campo de trabalho forçado, ela é envolvida em uma situação perigosa por um jornalista que lhe atribuiu falsas acusações para se salvar. Mas graças ao seu conhecimento avançado em astrofísica, ela é transferida para a Base Costa Vermelha a pedido de dois oficiais, um local para entrar e não sair mais.

Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.


Neste local há uma enorme antena parabólica, e é através dela que uma desiludida Ye Wenjie irá conseguir contato com Trisolaris, o sistema solar com três sóis que orbitam entre si de forma a transformar a vida no planeta de mesmo nome em um verdadeiro caos.

Ao pular para a época atual, o mundo enfrenta uma crise nunca vista no mundo científico, intelectuais importantes estão morrendo sem explicação e seus projetos estão sendo parados, gerando atrasos em diversas áreas.

E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas.


É quando o engenheiro de nanomateriais Wang Miao começa a ver uma contagem regressiva que ninguém mais enxerga. Com medo do que pode significar, ele começa uma corrida com a ajuda do detetive Shi Qiang para entender o que está acontecendo e tentar entender o seu papel em tudo.


A escrita de Liu Cixin

Graduado em engenharia hidrelétrica, o chinês Liu Cixin começou a escrever quando ainda atuava em sua área de formação, sua paixão pelos clássicos ocidentais da ficção científica tornou-se inspiração para o seu gênero literário escolhido.

Como escritor ele venceu por oito anos consecutivo o prêmio literário chinês Galaxy Award e foi o primeiro autor asiático a vencer o Prêmio Hugo de Melhor Romance.

É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície?


Sua escrita utiliza tantos conceitos reais de tecnologia, física quântica, astrofísica e mecânica como uma visão histórica, cultural e filosófica da China.

Tudo plenamente encontrado no primeiro volume da trilogia O problema dos três corpos, que dá o mesmo nome ao livro.

Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá.


Ao ter cientistas como personagens, as explicações dadas não são banais, ali estão os conceitos e lógicas estudados pelos profissionais das áreas de uma forma que o leitor entenda.

No primeiro volume o autor também optou por uma estrutura não linear, onde os capítulos podem se alternar entre passado e presente para que se descubra com detalhes o que levou a Terra ao seu momento atual.

Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?


Dando a ficção científica um toque de suspense, com investigações, suposições e mistérios revelados.

Somado a isso há todo uma base histórica que coloca os personagens em um ambiente tenso cujos traumas são levados até o presente. Além disso, no presente, temos um olhar não ocidental em relação aos eventos globais que se apresentam, dando uma outra perspectiva dos acontecimentos se comparado a outros livros de ficção científica.

A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.


O autor também utiliza o recurso de um jogo virtual para apresentar o mundo de Trisolaris, onde os humanos participantes do jogo utilizam nome de figuras famosas como Galileu, Newton e Copérnico.

Tornando a história rica em detalhes e convidativa para seguir a leitura no segundo volume.


O que eu achei de O problema dos três corpos

Eu adorei. No momento que escrevo esta resenha, só falta o último volume para terminar a trilogia.

Meu primeiro contato foi com a série da Netflix, que eu já havia achado boa, mas cai na velha frase "o livro é melhor" após a leitura.

E não apenas porque a série resume o livro, e eu entendo que talvez todos os conceitos pudessem soar um tanto tediosos para o público, mas o que mais me pegou foi substituir o local (China) por um grupo de cinco jovens cientistas que moram em Londres.

O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica.


Pois um dos grandes charmes do livro é justamente a influência histórica e cultural que irão gerar um problema global. Embora ele não se aprofunde em questões existenciais dos personagens, o que eu vi foi como cada evento foi impulsionando os atos dos envolvidos ao longo das décadas.

E embora o coletivo se sobreponha ao individual, a ironia aqui é que a ação de um único ser humano pode gerar efeitos para os habilitantes de dois planetas.

O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.


Outro ponto que o livro ganha da série: Trisolaris. Existe um distanciamento maior na série, mas no livro não apenas o jogo dos 3 corpos é muito mais explorado, como também tive mais acesso aos habitantes deste planeta e suas diferenças.

Um ponto que pode pegar os leitores é justamente a parte dos conceitos, que são explicados de forma simples ao longo da narrativa. Eu sou da área de exatas e adorei relembrar ou conhecer novos, achei a forma como eles se encaixam na história muito bem construído.

Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.


Mas isso exige uma tranquilidade na leitura, não é uma leitura para ser feita de forma dinâmica, por tudo se conectar. As informações não são em vão, mas de certa forma tornam a narrativa um pouco mais lenta, principalmente para quem espera um ritmo mais frenético como da série.

Ao mesmo tempo é tudo muito verossímil, as discussões na ONU, as conversas entre vizinhos, o planejamento para um futuro que já estava ameaçado pelas atitudes humanas, mas precisou de uma interferência extraterrestre para finalmente ser olhado.

Tornando o sucesso da obra mais do que justificável e convidativa para quem gosta de ficção científica, de narrativas definitivamente embasadas, de históricas com uma base cultural forte, e naturalmente para quem gosta de ler. Ficando a dica para vocês.


O problema dos três corpos
The three body problem
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Suma
2016 - 316 páginas
Publicado originalmente em 2006

domingo, 9 de agosto de 2026

O que precisamos saber



Sinopse: Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. O professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?

O livro de Abril/26 foi uma indicação da própria TAG Curadoria: a distopia do escritor inglês Ian McEwan recém lançada pela Companhia das Letras O que precisamos saber. Este foi o quarto livro enviado pelo Clube aos assinantes e o segundo que eu recebo nos meus 9 anos como assinante - o primeiro foi Na praia. O mimo foi uma coletânea de humor da América Latina.

No ano de 2014, durante o aniversário da esposa Vivien, o prestigiado autor Francis Blundy lê em um jantar com amigos e parentes intelectuais o seu poema mais brilhantemente escrito, e que nunca foi publicado, gerando todo um desejo para os que não participaram em conhecer o texto.

Com exceção das compras, pouco sabemos sobre as preparações para a noite que viria a ser conhecida como o Segundo Jantar Imortal.


O que faz a busca pelo original sobreviver não só aos anos, como ao colapso climático e a guerra nuclear. Sendo uma obsessão do professor universitário Thomas no ano de 2119.

Vivendo em uma Terra em que cidades antes tão famosas estão embaixo d'água e a população reduziu fortemente. Um mundo onde a escassez faz com que os mais jovens não tenham interesse na arte, na memória e na cultura dos seus ancestrais do século XXI, havendo inclusive um desdém por aqueles que não fizeram nada para impedir o cenário brutal.

A coroa era uma empreitada formidável. Consistia de quinze sonetos. O último verso de cada um tinha que ser repetido na primeira linha do seguinte.


Afinal, se o mundo antigamente era tão bom, por que ele não foi preservado? Por que os alertas não foram levados a sério? Por que as guerras continuavam?

Mas ao buscar todas as informações possíveis sobre o poema e as pessoas que ouviram a sua leitura, não apenas Thomas como o leitor que o acompanha irão descobrir que além da beleza, os participantes do jantar possuíam muitos segredos.

Um e-mail ou uma mensagem raramente contém tanta reflexão subjetiva interessante quanto uma bem pensada carta dos séculos XIX ou XX.


Tornando O que precisamos saber dois livros em um, onde na primeira parte será encontrada uma distopia e na segunda todos os mistérios de Vivien, a presenteada com o lendário poema.


A escrita de Ian McEwan

O renomado escritor e roteirista britânico Ian McEwan já foi chamado de macabro, ganhou o Booker Prize e tem vários de seus livros adaptados para o formato cinematográfico. Sendo considerado hoje um dos autores de língua inglesa mais importantes da literatura contemporânea.

Seus livros misturam tabus, psicologia, dilemas sociais e morais, história e por consequência a figura humana diante de tudo e de todos. E sua escrita é descrita como elegante e rigorosa, o que torna os seus livros fontes de estudo em universidades, além de já ter sido traduzido para diferentes idiomas.

Os vinhos que os convidados deles beberam eram superiores aos nossos. A comida, sem dúvida, mais deliciosa e variada, vinha do mundo inteiro. O ar que respiravam era mais puro e menos radioativo.


E esta prosa elegante e fluida é encontrada em O que precisamos saber, um livro que parece dois, ao separar a narrativa em duas partes: uma em que temos o olhar investigativo e saudosista de uma época que não viveu através de Thomas e outra que temos todos os dilemas morais com Vivien.

O autor também descreve uma distopia bastante diferente, não há invenções futuristas, aliás, não há mais nem as novas invenções, focando mais nas questões existenciais, nos impactos que a combinação guerra e mudança climática irão perpetuar no planeta e as relações com a própria história.

Haviam crescido com as consequências daquilo, ouviam os avós falar sobre aquilo. O passado era povoado por idiotas. Grande coisa.


Já na parte de Vivien o autor irá encontrar também cultura e memória, mas aqui muito mais psicológico no que se trata em relações humanas e escolhas, além de instigar o leitor a desvendar os mistérios que tanto obcecaram Thomas no futuro.


O que eu achei de O que precisamos saber

No geral eu gostei do livro, principalmente da parte da distopia. Achei muito interessante ler uma visão em que tudo o que tem nos afetado atualmente nos levar de volta para um mundo que mistura anos 80 e período medieval. Sim, os problemas com as telas acabaram, e os voos de avião também.

E os alunos de Thomas nos trazem vários questionamentos muito atuais: como um período em que evoluímos tanto tecnologicamente e culturalmente não preserva adequadamente o seu planeta? Como uma população com tantas possibilidades de ir e vir ainda se extermina através de guerras injustificáveis?

As ciências humanas estão sempre em crise. Não acredito mais que se trate de um problema institucional - faz parte da natureza da vida intelectual ou do próprio pensamento.


Sim, eu sei que desde que temos o mínimo de conhecimento do nosso mundo, é assim que vivemos. Evoluímos pouco a pouco para tornar vida mais cômoda, em paralelo seguimos com níveis enormes de desigualdade social, e no que se trata de poder, vida e moralidade nem sempre importam.

Tornando o mundo de 2119 de Ian McEwan um dos mais possíveis de todas as distopias que li até agora, o que de certa forma aumentou a minha angustia ao ver as previsões do tempo aqui no Sul.

Quanta liberdade e passividade, quanto atrevimento temoroso. Eram de uma mesquinhez brilhante, briguentos além dos limites, prontos a morrer tanto pelas boas ideias quanto pelas más.


Outro ponto que achei bacana de ser abordado é o sentimento de Thomas de ter nascido na época errada, e isso não é algo incomum, ao mesmo tempo de ser um fato bastante curioso essa idealização por tempos passados. Já que somos formados pelo que vivemos, convivemos e lemos, fiquei pensando se alguém realmente se adaptaria se caísse de paraquedas em um período diferente do que nasceu, ou se o choque de realidade seria muito diferente.

Falando em idealização, Thomas também traz um fenômeno comum em todas as épocas, a admiração profunda que se tem por pessoas que não conhecemos. Eu sempre digo que prefiro não conhecer profundamente os autores de meus livros favoritos, pois de perto ninguém é normal. E na narrativa não é diferente, e o meme expectativa x realidade se faz presente.

Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.


Também observei espelhamentos da primeira e segunda parte nas relações humanas, principalmente nas chamadas românticas, o que mostra que em determinados aspectos a humanidade segue a mesma, independente da época.

O que me faz chegar na segunda parte, que conta a história de Vivien, a musa de Thomas, e um pouco mais dos personagens que estiveram no famoso jantar da declaração do poema. E confesso que não gostei tanto.

Eu estava sozinha. Sem ninguém com quem falar. Ninguém se importava.


O grupo apresentado seria digno de uma terapia de palco no formato do antigo Casos de família, onde a forma individualista de Vivien traz a narrativa para algo bem psicológico sobre suas ações e reações ao que ocorre ao seu redor.

Aliás, uma coisa que eu senti falta na segunda parte é que ela não aborda os pré-acontecimentos que levaram a todas as mudanças de 2119, pois estamos nas memórias de Vivien, e o foco nos acontecimentos que nortearam as suas decisões, seja elas pensadas ou tomadas pelo puro impulso.

Hoje desprezo essas histórias simplistas das terapias. É possível que nunca exista qualquer prova. Em vez disso, a pessoa escolhe a história que se ajusta melhor ou que lhe oferece mais consolo.


Tornando O que precisamos saber uma leitura diferente, que mexe com a curiosidade, levanta perguntas e gera reflexões sobre de que forma o presente irá impactar o futuro em todas as esferas. Ficando a dica para quem se interessar.


O que precisamos saber
What we can know
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
TAG - Companhia das Letras
2026 - 381 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.

Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.

No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020