Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição?
No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.
Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.
Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.
Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.
Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.
Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.
Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.
A escrita de Maria José Silveira
Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.
As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.
Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.
Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.
Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.
O que eu achei de Maria Altamira
Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.
E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.
Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.
Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.
Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.
O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?
Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.
Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.
E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.
Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.
Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020






