sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.

No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

sexta-feira, 20 de março de 2026

O segredo final


Sinopse: Robert Langdon, respeitado professor de Simbologia, vai a Praga para assistir a uma palestra revolucionária de Katherine Solomon – uma proeminente cientista e intelectual com quem ele recentemente iniciou um relacionamento. Katherine está prestes a publicar um livro explosivo que contém descobertas espantosas sobre a natureza da consciência humana e que ameaça desestabilizar séculos de crença estabelecida. Quando um assassinato brutal transforma a viagem em caos e Katherine desaparece junto com o manuscrito de seu livro, Langdon se vê na mira de uma poderosa organização e perseguido por um adversário assustador saído da mitologia mais antiga de Praga. À medida que a trama se estende até Londres e Nova York, Langdon tenta desesperadamente encontrar Katherine – e desvendar o que está acontecendo. Em uma corrida eletrizante pelos mundos opostos da ciência futurista e das tradições místicas, ele descobre a verdade chocante sobre um projeto secreto que mudará para sempre o que a humanidade sabe sobre a mente humana.

O sexto livro da série protagonizada pelo simbologista de Harvard Robert Langdon levou sete anos entre escrita e pesquisa. Como nos demais livros, O segredo Final é um thriller que combina mistério intelectual, perseguições e reflexões sobre a mente humana, onde o foco está principalmente em consciência e identidade.

Desta vez o local escolhido é a histórica e enigmática cidade de Praga, onde Langdon vai acompanhar sua namorada Katherine Solomon em um evento que ela é uma palestrante convidada. Katherine  é uma cientista conhecida por suas pesquisas inovadoras sobre a consciência humana e que promete revelar em seu livro uma visão diferente de como compreendemos a mente e a relação entre ciência e espiritualidade.

Eu sou uma neurocientista, garantiu si mesma. Estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais. 


Só que quando Langdon está entre os participantes, nada ocorre de maneira simples, e logo ele está envolvido em um mistério que novamente irá trazer símbolos ocultos e referências filosóficas em um verdadeiro tour pela cidade de Praga, enquanto as certezas de quem é confiável ou não se perdem no caminho, já que as descobertas relatadas no livro impactam em pessoas muito mais poderosas que Langdon ou Katherine poderiam imaginar.


A escrita de Dan Brown

O autor norte-americano Dan Brown cresceu em meio ao ambiente acadêmico, e se a música e a sala de aula não se tornaram a sua profissão, como escritor ele obteve reconhecimento mundial com O código da Vinci, livro que apresentou aos leitores o personagem Robert Langdon e mais tarde se tornou filme.

Sua escrita se caracteriza principalmente por trazer temas complexos de forma envolvente, seus thrillers sempre misturam um assunto acadêmico, perseguição, cidades cheias de história, mistério e assassinato. Tudo em uma escrita com várias reviravoltas e explicações que tornam o tema de fácil entendimento para o leitor.

Desde a aurora dos tempos, nós buscamos respostas para os mistérios persistentes da mente humana... a natureza da consciência e da alma.


Em O Segredo final isso não é diferente, e o tema pode ser tão provocativo quanto os descendentes de Jesus Cristo, já que aqui abordamos uma teoria que envolve consciência e vida após a morte. 

Começando pelo fato de que logo no início o leitor é avisado do que é realidade no livro, e não, não é pouca coisa, já que o livro irá apresentar para os mais desavisados, como eu, a existência da ciência noética, que realiza o estudo da consciência humana.

Ele já estava acostumado a essa reação dos desconhecidos. Ela o fazia lembrar que tinha uma forma física, mesmo ninguém conseguindo ver o que ele era de verdade.


E mais uma vez temos a questão religiosa, onde os símbolos religiosos se entrelaçam com os estudos da consciência e porque não dizer, da própria alma.

Tornando uma narrativa que te leva facilmente para o google para saber mais ou servindo como apenas um livro relaxante para testar se algumas das teorias imaginadas ao longo da leitura estará certa.


O que eu achei de O Segredo Final

Eu gosto muito destes livros que parecem um quebra-cabeça, e sou fã do estilo do Dan Brown que sempre usa de tema algo que mexe com a minha curiosidade e me faz ter vontade de viajar para cada cidade que ele envia o Robert Langdon. 

Mas que O Segredo Final não me prendeu tanto assim no seu início. E neste caso foi bom que eu não desisto fácil de um livro.

Certa vez ele havia se pegado igualmente sozinho no Louvre com a Mona Lisa, mas em circunstâncias bem menos agradáveis do que as de agora.


Confesso que tirando bem o início, quando o caos começa e nem Langdon e nem o leitor sabem o que está acontecendo, eu achei a leitura um tanto arrastada até a página cem, quando os ganchos começaram a estimular a minha curiosidade. 

O que eu achei arrastado neste início foi a apresentação de diversos personagens em sequência, parecendo mais centrado na entrada deles do que no desenvolvimento da narrativa em si.  Mas como eu queria saber o que levou a CIA realizar uma movimentação tão grande para que um livro não fosse publicado, eu segui adiante, e sim, na metade final, junto com as explicações, o livro ganhou força para mim.

Sua consciência não é uma criação do seu cérebro. Na realidade, a sua consciência nem sequer está localizada dentro da sua cabeça.


Como em outros livros do autor, há a questão ciência versus religião, aqui é a existência ou não de vida após a morte quando associado a localização da nossa consciência. Um assunto que sim, está sendo debatido cientificamente e daria um novo sentido não só a morte como também a doenças como epilepsia e múltiplas personalidades.

Um ponto interessante em O segredo final é que Katherine não é uma simples coadjuvante na história, a mulher que conhece o professor Langdon há anos é também uma protagonista ao mostrar um outro tipo de cientista, o que estimula vários debates entre os dois e me deixou curiosa em saber se ela será um personagem permanente na série.

A maioria dos livros publicados chegava e partia sem deixar rastro, mas uns poucos ativavam a mente dos leitores e se transformavam em best-sellers.


Aliás, achei que neste livro existem menos enigmas e mais discussões sobre o provar e o acreditar dentro da ciência. No quesito curiosidade tem o resgate da disputa EUA versus Rússia, uma brincadeira com o logotipo de uma famosa rede de cafés e uma homenagem ao próprio editor, que de certa forma virou personagem do livro mostrando o lado editorial.

No geral eu gostei, mesmo não tendo achado o mais empolgante dos livros de Dan Brown, o tema abordado despertou e muito a minha atenção, fazendo a leitura valer a pena e me gerando questionamentos até hoje, principalmente no que se relaciona a doenças que afetam a memória.

O rabino batizou sua criação de golem, "matéria-prima" em hebraico: uma referência ao barro com o qual o monstro fora criado.

Um livro para quem gosta de realizar pesquisas durante e depois da leitura, que gosta de descobrir curiosidades acadêmicas, científicas e de simbologia, para quem curte desvendar mistérios, para quem não se importa de encarar leituras longas e para quem gosta é de ler o que tiver em mãos.


O Segredo Final
The secret of secrets
Dan Brown
Tradução Fernanda Abreu
Arqueiro
2025 - 560 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 13 de março de 2026

A hipótese do amor



Sinopse: Quando um relacionamento falso entre cientistas encontra a irresistível força da atração, as teorias de uma mulher sobre o amor, cuidadosamente calculadas, são postas à prova. Olive Smith, uma estudante de doutoramento em Biologia, não acredita em namoros duradouros. Após terminar o relacionamento com Jeremy, percebe que a sua melhor amiga, Anh, gosta dele e decide juntá-los. Para a convencer de que não se importa e de que está feliz e a namorar, Olive precisa de o provar, mas, pressionada, entra em pânico e resolve beijar o primeiro homem que vê: Adam Carlsen, um jovem professor de outro departamento. Olive acaba por ficar chocada ao perceber que este tirano do laboratório da Universidade de Stanford, conhecido por deixar os estudantes em lágrimas, aceita manter a farsa e fingir que é, realmente, seu namorado.



Para convencer sua melhor amiga Anh de que ela pode se relacionar com o seu ex-namorado, a cientista e doutoranda Olive Smith inventa que está em um relacionamento. Pressionada para apresentar o novo parceiro, ela acaba beijando o primeiro homem que aparece no corretor da universidade e assim acaba sendo vista por Anh.

O problema é que este homem é Adam Carlsen, um professor conhecido por tornar a vida dos doutorandos um verdadeiro inferno e depois de ser agarrado por Olive a lembra das regras sobre assédio.

Ela estava bem ciente de que se comprometer a encarar alguns anos trabalhando oitenta horas por semana, sendo mal paga e desvalorizada, talvez não fosse bom para sua saúde mental.


Mas após boatos de que o professor estaria analisando uma possível troca de universidade, Stanford opta por bloquear o seu financiamento de pesquisa. Gerando a Adam a necessidade de mostrar para a universidade que possui vínculos com o local e não está pensando em ir embora. E assim surge um acordo para que eles representem na frente de todos terem um relacionamento amoroso.

Proporcionando assim uma leitura que mescla risadas, romance e reflexões dos desafios que as mulheres ainda enfrentam, aqui representadas pela ciência e o mundo acadêmico.


A escrita de Ali Hazelwood

A autora italiana e doutora em neurociência utiliza o pseudônimo Ali Hazelwood para escrever romances protagonizado por mulheres que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Sua carreira na escrita começou com outro pseudônimo Ever so Halo, que ela utilizava para escrever fanfics com os personagens de Star Wars. A boa recepção destas histórias de fãs transformou as fics em romances publicados e um deles é justamente A hipótese do amor, que se tornou um fenômeno no TikTok.

Aquele beijo estava parecendo uma cabeçada meio desengonçada, e ela foi ficando ansiosa, achando que não ia conseguir levar a coisa toda adiante.


Seu estilo se caracteriza por comédias românticas em ambientes acadêmicos ou de pesquisa científica. Suas protagonistas são mulheres fortes que precisam superar o machismo e a desvalorização entre os pares de sexo oposto.

Ela se utiliza de alguns temas recorrentes, como "enemies to lovers" e namoros de mentirinha que acabam em relacionamentos românticos.

Era a única mulher na sala, basicamente sozinha num mar de homens brancos que já conversavam sobre barcos, qualquer jogo com bola que tinha passado na Tv na noite anterior e os melhores lugares para viajar de carro.


Sua escrita é bastante fluída e leve, com um ritmo que convida a virar mais uma página enquanto se envolve com as tensões e cenas um pouco mais apimentadas dos personagens. Com uma narrativa em terceira pessoa, o foco está todo na personagem principal Olive, incluindo os seus pensamentos.


O que eu achei de A hipótese do amor

Encontrei a indicação do livro por acaso, como uma leitura leve para distrair a cabeça. Como havia lido uma sequência de livros mais reflexivos e tensos, acabei comprando A hipótese do amor para realmente relaxar.

E sim, o livro é leve, com aqueles clichês de comédia romântica que eu adoro, em uma escrita que realmente me envolveu, já que o término de um capítulo já me despertava a vontade de ler o próximo.

Havia algo especial no jeito com que ele falava. Talvez fosse um sotaque, talvez apenas uma característica de sua voz.


Como uma profissional da área de tecnologia, onde não raro convivo mais com colegas do sexo masculino do que com o do feminino, não foi difícil lembrar de algumas situações de quando iniciei na profissão, em que a capacidade das mulheres ainda levantava dúvidas e sobrancelhas. Algo que felizmente tenho me deparado cada vez menos, embora saiba que a luta não só pelo espaço profissional, mas também de locais livres de assédio indesejado está longe de terminar.

E essa é uma reflexão interessante no livro, as dúvidas, a necessidade de se superar, o medo de ser uma impostora apresentados pela protagonista Olive Smith é ainda muito recorrente entre as mulheres. Pois existe uma autocobrança forte onde não basta ser boa, precisamos sempre sermos ótimas em tudo o que nos propomos, o que gera um stress maior.

Precisava de um laboratório melhor se quisesse produzir conhecimento científico decente. Equipamentos melhores. Reagentes melhores. Culturas de bactérias melhores. Tudo melhor.


Pois estamos sempre precisando provar que temos capacidade de estar ali, que temos direito a ocupar aquele espaço, que merecemos ser reconhecidas pelo nosso desempenho.

Mostrando que mesmo na leveza é possível gerar reflexões importantes, principalmente em um mês que temos o Dia Internacional da Mulher, onde o 8 de março nos lembra do que já conquistamos e de tudo o que ainda precisamos lutar para abranger ainda mais mulheres.

Porque nem por milhões de dólares em fundos de pesquisa valeria a pena ter uma garota aleatória que você nem conhece direito sentada no seu colo no auditório mais lotado da história dos auditórios lotados.


Sobre o par romântico. o Dr. Adam Carlsen não foge do estereótipo de gatão, e apesar da postura inicialmente fechada, foi me conquistando junto com a Olive, tornando um casal fácil de torcer para um happy end.

Também há amizade com Anh e Malcolm, amigos leais que apoiam Olive. Sendo Anh a responsável direta por colocar Olive nas situações mais diversas e, mais importante, ser a causa do início do falso namoro. A interação entre os personagens é muito legal e divertida, trazendo aqueles pequenos grandes dramas e histórias engraçadas que se vive durante o período acadêmico.

Só sei que você sabe não ser um babaca e não entendo por que é tão diferente comigo.


No geral adorei a leitura, mas confesso que apesar de adorar a escrita, não me aventurei a comprar outro livro da autora, com medo de encontrar mais do mesmo. Então se alguém já leu outro título e achar que vale a pena, pode me recomendar aqui nos comentários.

E eu deixo de dica A hipótese do amor, lembrando que é um livro 18+ devido a descrição de dois capítulos do livro, que pode conquistar os corações de quem adora um romance fofo, curte mulheres fortes em histórias leves ou quem quer um vira página para relaxar.


A hipótese do amor
The Love Hypothesis
Ali Hazelwood
Tradução: Thaís Britto
2022 - 336 páginas
Publicado originalmente em 2021


sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016