Sinopse: A sensação de isolamento é a única companhia da protagonista enquanto ela atravessa a experiência de um aborto no seu dormitório universitário. E é a presença desse sentimento que a conduz às memórias da infância, do processo solitário de se diferenciar dos pais, vizinhos e frequentadores do café-mercearia da família, onde ela já não cabia mais.
No mês de julho/2026 a TAG Curadoria completou mais um ano de vida, e coube a aniversariante escolher o livro a ser enviado, no caso a primeira obra da escritora francesa Annie Ernaux intitulada Os armários vazios. O mimo foi outro livro: Cartas a um jovem poeta.
Denise Lesur tem vinte anos e é a primeira pessoa de sua família a chegar ao ensino superior. Filha de donos de um pequeno café-mercearia, ela cresce em um ambiente cujo olhar infantil não permite enxergar a pobreza de uma casa que nem banheiro próprio tem.
Mas isso muda quando ela é matriculada em uma escola particular. Se para muitos a educação representa uma possibilidade de transformação de sua vida, aqui ao se deparar com a realidade burguesa acaba também provocando um afastamento progressivo de suas origens.
Rádio esportiva na cozinha, passa um avião no céu, depois de se lavar minha mãe joga a água fora.
Aquilo que antes fazia parte de seu cotidiano passa a despertar vergonha e repulsa, enquanto a jovem tenta encontrar seu lugar em um mundo no qual nem sempre se sente pertencente.
A narrativa começa em um momento de sofrimento físico e emocional, quando Denise aguarda as consequências de um aborto clandestino. A partir daí, suas lembranças conduzem o leitor pela infância, pela adolescência e pelas experiências que marcaram sua formação, revelando conflitos relacionados à família, à sexualidade, à condição feminina e às diferenças sociais.
Quando foi que comecei a ter um pavor insano de parecer com eles, meus pais... Não foi de um dia para o outro, não foi um corte grande... Os olhos abrindo... as besteiras.
Publicado originalmente em 1974, Os armários vazios foi o primeiro romance de Annie Ernaux e já apresenta questões que retornariam mais tarde em sua produção literária, sendo muito relacionado ao livro O acontecimento da autora.
A escrita de Annie Ernaux
Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na Normandia, França. Filha de comerciantes de origem popular, estudou Letras e construiu uma obra marcada pela investigação das relações entre memória, experiência individual e contexto social.
Ao longo de sua trajetória, a autora abordou temas como as diferenças de classe, as relações familiares, a sexualidade, a condição feminina e as transformações sociais. Sua escrita frequentemente parte de experiências pessoais para explorar questões que ultrapassam a história individual, aproximando literatura, memória e sociologia.
E então todas aquelas críticas, aquele escárnio, não, as coisas do meu mundo não tinham valor na escola.
Em 2022, a escritora Annie Ernaux recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, com reconhecimento à maneira como aborda as raízes, os estranhamentos e as repressões coletivas presentes na memória pessoal. Entre suas obras mais conhecidas estão O lugar, Uma mulher, Os anos e O acontecimento.
Em Os armários vazios a autora já aborda esse conjunto de questões com uma diferença: ela não narra como uma experiência pessoal, mas utiliza a personagem Denise Lesur em uma narrativa em primeira pessoa, sem utilizar capítulos, simulando o fluxo contínuo na mente de uma pessoa que não sabe se irá sobreviver as próprias ações.
Os livros, por sua vez, não me criticam por nada, a vida clara e transparente das minhas heroínas não me faz lembrar dos torrones que roubei na loja perfumada, das saias que levantei na frente do espelho, das zombarias que lancei a qualquer velho bêbado.
Possibilitando ao leitor acompanhar os pensamentos e as lembranças da personagem, que se sucedem em um fluxo que acompanha a agitação da protagonista, misturando acontecimentos, sensações, julgamentos e recordações sem a preocupação de organizar tudo de maneira linear.
A autora também utiliza o recurso das repetições para mostrar a mudança no olhar da personagem em relação ao mundo que lhe cerca. Além disso, como são memórias de uma jovem mulher de 20 anos, acabam também compartilhando as lembranças que permanecem presentes e como o significado atribuído a elas podem se transformar com o tempo.
Não falava disso para ninguém, mas na escola, ao passear na frente das lojas no centro, ao ler, eu tinha aprendido a fazer comparações. Existiam as pessoas bacanas e os outros.
O cotidiano ocupa um lugar importante na construção da história. Os produtos vendidos no estabelecimento da família, as roupas, os cheiros, os hábitos dos clientes e as conversas aparentemente banais ajudam a compor o ambiente em que Denise cresceu. Esses elementos também revelam as diferenças entre o mundo de sua infância e aquele ao qual ela tenta pertencer.
É uma escrita que não procura suavizar os sentimentos da protagonista. A raiva, a vergonha, o desejo e o ressentimento aparecem de maneira direta, fazendo com que o leitor acompanhe seus conflitos mesmo quando suas atitudes provocam desconforto ou incompreensão.
O que achei de Os armários vazios
Os armários vazios é o tipo de livro que você termina e pode sentir vários sentimentos contraditórios em relação a escrita e a sua protagonista.
Começando pelo fato que Denise é uma personagem complexa e o seu fluxo de pensamento inicia durante um aborto clandestino. Um golpe duro para alguém que tem em sua personalidade traços como a arrogância e um sentimento de superioridade desde a infância, algo que me parece ter sido espelhado do comportamento da própria mãe em relação aos seus clientes.
Achei muito interessante o uso do recurso da repetição para acompanhar a mudança no olhar da Denise. Quando pequena ela enxerga uma grande fartura em meio a pobreza, como se ao ter um pouco mais em relação aos que estão a sua volta gerasse um grande abismo.
E o tio peculiar, sei muito bem o que isso significa, engraçado, mas não maluco, adequado, espirituoso, mas não pinguço que nem os meus, um tio peculiar só existe no mundo bacana.
Mas ao ser enviada para uma escola particular, a educação, os colegas pertencentes a uma classe média e os livros a levam para uma realidade muito diferente. E aqui temos a quebra da ilusão, a humilhação por diferença sociais, e todo o efeito psicológico de descobrir que não, ela não era a bolacha mais recheada do pacote.
E assim temos a vergonha, o julgamento e um círculo vicioso que a leva até o presente, quando tudo o que foi investido para ela se confirmar superior as suas origens é ameaçada por uma gravidez indesejada.
Gravidez que tem a sua origem em uma sexualidade precoce também derivada do próprio meio. E talvez o ponto que gere a maior interrogação, já que ela se deixa levar fácil pelos rapazes, como se com eles ela despisse não só as roupas, mas também toda a imagem interna que ela parece ter construído de si.
Histórias que me espreitam, exibem meu possível futuro: casada com um canalha, gorda, cercada de moleques com bunda pra limpar.
O que me fez enxergar uma certa ironia neste ciclo da personagem: Denise é o orgulho dos pais, que fazem sacrifícios para lhe proporcionar oportunidades que eles próprios não tiveram. Entretanto, quando se vê diante de uma gravidez indesejada, ela parece reconhecer em si mesma algo que associa às jovens de seu antigo meio social, como se sua trajetória de ascensão estivesse ameaçada por aquilo que tanto desejava deixar para trás.
Confesso que não consegui sentir simpatia por Denise. Em alguns momentos, senti falta de elementos que me ajudassem a compreender melhor a relação com os pais e que justificassem a intensidade de seu desprezo por eles, o que me fez pensar se era só a pobreza ou se existem fatos que não foram revelados. Assim como suas relações amorosas, em que ela se deixar ludibriar facilmente por qualquer um, conferindo aos seus pares uma superioridade que na prática não existe.
Mas isso não significa que eu não tenha sentido empatia. Denise é jovem e está atravessando uma experiência difícil em uma época na qual as possibilidades de escolha das mulheres eram bastante limitadas, o que era ainda mais acentuado pelo contexto da pobreza.
Um calor estranho se espalha imediatamente, como uma flor, em alguma parte baixa da barriga. Meio roxa, podre.
Algo que cá entre nós ainda ocorre entre os países considerados não desenvolvidos, como o nosso, onde uma gravidez indesejada afeta e muito a vida de uma mulher, e quando ela vive em uma situação adversa, a dificuldade é triplicada.
Não achei a leitura difícil, mas o recurso da repetição ficou, pra mim, em uma linha tênue entre o interessante para ver a mudança de olhar e o tedioso, pois o nível de detalhes em certo ponto começou a me cansar.
O que eu gostei, e isso ocorre justamente por ser inspirado na própria vida da autora, é que a narrativa não tenta resolver as contradições da protagonista ou de oferecer respostas definitivas sobre suas escolhas. Mas sim um retorno intenso às lembranças, como se revisitar o passado fosse uma maneira de atravessar o sofrimento do presente e de dar algum sentido à própria trajetória.
Ficando a dica para quem gostam de livros com muita realidade, de narrativas que inspiram outros autores e claro, para quem gostou de O desabamento do também francês Édouard Louis, e claro para quem não pode ver um conjunto de letras que já quer sair lendo.
Os armários vazios
Les Armoires vides
Annie Ernaux
Tradução: Mariana Delfini
TAG - Fósforo
2026 - 142 páginas
Publicado originalmente em 1974






