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terça-feira, 24 de agosto de 2021

A Biblioteca da Meia-Noite



Sinopse: Aos 35 anos, Nora Seed é uma mulher cheia de talentos e poucas conquistas. Vendo pouco sentido em sua existência, ela coleciona tristezas e arrependimentos. Quando Nora se vê na Biblioteca da Meia-Noite, ganha uma oportunidade para fazer tudo de novo. Como em um passe de mágica, os livros na Biblioteca da Meia-Noite permitem que Nora experimente as vidas que teria vivido se tivesse tomado outras decisões. Com a ajuda de uma velha amiga, ela agora pode reverter cada uma das ações das quais se arrepende, até chegar à vida ideal. Mas nem sempre as coisas correm como o esperado, e o novo rumo que sua vida toma coloca em risco tanto a biblioteca quanto a própria Nora. Antes que o tempo acabe, ela deve responder à pergunta mais importante de todas: O que faz a vida valer a pena?



No mês de Julho/21 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro A Biblioteca da Meia-Noite do escritor inglês Matt Haig. Como mimo uma ecobag da rainha do crime Agatha Christie.

Nora foi o tipo de criança e adolescente prodígio. Ótima nadadora, poderia ser uma futura atleta olímpica. Excelente estudante, parecia que poderia ser o que quisesse e teria muito sucesso. Criando muita expectativa em todos a sua volta e naturalmente nela mesma.

Mas a realidade aos seus 35 anos é que ela se formou em filosofia e trabalha como vendedora em uma loja de instrumentos musicais que está indo mal das pernas. Mora sozinha, seus pais faleceram, tem pouco contado com irmão e sua única amiga, tendo assim como companhia um gato.


Mesmo quando não estava chovendo, ela passava o recreio da tarde inteiro na pequena biblioteca.


Tudo transborda em poucas horas quando ela é avisada que o seu gato está morto na rua e que ela perdeu o emprego. Sentindo-se totalmente inútil, e acreditando piamente que só torna a vida das pessoas que estão à sua volta pior, ela resolve dar fim a tudo ao juntar os seus antidepressivos e bebida alcóolica.

Em uma linha tênue que separa a vida e a morte, a sua mente vai parar em um prédio antigo junto à bibliotecária que a apoiava nos tempos da escola. Nas estantes todos os "se's" da sua vida e um livro muito pesado, onde constam todos os seus arrependimentos.


Enquanto olhava fixamente para a expressão calma e tranquila de Voltaire - aquela total ausência de dor -, um sentimento inevitável começou a tomar forma nas sombras.


Usando dois fatores muito comuns na vida de qualquer ser humano, que são escolhas e culpas, o autor Matt Haig nos leva em uma leitura que consegue ser fluída e ao mesmo reflexiva na forma como o ser humano muitas vezes encara a vida. O livro possui muitos clichês? Sim. Mas a verdade é que as questões existenciais são muito comuns em nosso cotidiano, e quando abordadas, não há muito como fugir.

Pois quase todas as pessoas, aqui isento os psicopatas, carregam a sua dose de culpa e arrependimentos. E se eu tivesse feito isso no lugar daquilo? E se eu tivesse ficado quieto? E se eu tivesse falado tudo o que está entalado? Se eu tivesse dito sim? Se eu tivesse dito não? Se eu simplesmente tivesse dobrado uma rua antes? Se eu tivesse...?


O universo tende ao caos e à entropia. Essa é uma lei básica da termodinâmica. Talvez seja uma lei básica da existência também.


E é justamente este leque que o escritor explora. A cada livro que Nora abre, ela para exatamente no momento de vida que estaria vivendo naquele instante. E logo de início a primeira coisa que observamos é que os problemas simplesmente não desaparecem, principalmente quando as suas raízes são mais profundas do que imaginamos.

Em contrapartida, ao ter uma visão diferente de si, ela também se permite compreender que nem tudo era motivo para sentir culpada, que nem tudo era motivo para ter ficado remoendo arrependimentos. E conforme ela vai se isentando e se perdoando, o livro que antes exigia muita força vai ficando mais leve, e a vida ganhando novos contornos.


Cada movimento tinha sido um erro; cada decisão, um desastre: cada dia, um afastamento de quem ela havia imaginado que seria.


Como eu comentei nos parágrafos iniciais, este livro tem nas primeiras páginas um gatilho muito forte para quem sobre de depressão, pois sim, o que leva Nora para a linha tênue é justamente o desejo de acabar com a própria vida, de não ver solução para o que está em sua volta, enfim, de não ter mais esperanças de que nada pode ser diferente.

Colocando a luz sobre as pessoas que sentem vontade de sumir, seja fugindo de tudo ou de todos ou dando fim a própria existência. Muitas alimentadas pela crença de que só atrapalham, de que as pessoas ao redor ficariam muito melhor sem a sua presença, creditando tudo o que acontece de ruim em sua conta. O que torna a sua vida ainda mais difícil e dolorosa, principalmente por algumas parecerem invisíveis aos olhos dos que estão ao seu redor, onde os pedidos silenciosos de ajuda não encontram quem os escute.


Quando você fica muito tempo num lugar, esquece como o mundo é grande e vasto. Não tem noção da extensão de suas longitudes e latitudes. Assim como, supôs ela, é difícil ter noção da vastidão dentro de qualquer pessoa.


A Biblioteca da Meia-Noite foi um livro que li em dois dias, e que sim, mexeu comigo, pois foi inevitável que eu não remexesse no meu próprio livro de arrependimentos e repassasse alguns "se's" que são tão presentes que nunca se tornaram memória. Um encontro ao qual sigo digerindo questões enquanto escrevo esta resenha.

Por isso foi muito interessante pra eu ver através da ficção que muitas vezes os problemas não mudam de lugar, que os sonhos e desejos alheios não são escolhas nossas, que é apenas ilusão acreditar que o que não foi vivido tornariam o presente mais feliz. Afinal, não existe vida perfeita.


E a gente passa tanto tempo desejando que a vida fosse diferente, se comparando com outras pessoas e com outras versões de nós mesmos, quando, na verdade, a maioria das vidas contém um certo grau de coisas boas e um certo grau de coisas ruins.


E ao mesmo tempo eu tive um sentimento de compartilhar a leveza e a felicidade quando cada arrependimento de Nora se desfaz, ou quando ela se dá conta que determinado 'se' não era a solução dos seus problemas, permitindo que o livro me desse a chance de refletir sobre as situações que me acompanham sem considerar uma medida tão extrema quanto de Nora.

Pois a verdade tanto na ficção e na vida real é que do passado devemos guardar as boas lembranças e o aprendizado, para que cada dia a gente possa decidir por aquilo que realmente é o que desejamos. Que cair, levantar, errar e acertar fazem parte, e não devemos nos colocar nos banco dos réus por cada leite derramado. E para quem já está feliz da vida sem se preocupar com nada disso, fica a leveza da escrita para mergulhar nas muitas vidas de Nora.


A Biblioteca da Meia-Noite
The Midnight Library
Matt Haig
Tradução: Adriana Fidalgo
TAG - Bertrand Brasil
2020 - 319 páginas

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quinta-feira, 7 de março de 2019

Alfabeto dos Ossos



Sinopse: O poeta Archie Lunan queria ser escritor de ficção científica. Por causa da vida desregrada e da personalidade polêmica, tudo o que conseguiu foi publicar um pequeno livro de poesias. Depois que se mudou para a remota ilha Lismore, na Escócia, as coisas nunca mais entraram nos eixos. Acabou desaparecendo no mar, sem deixar rastro, e sob fortes suspeitas de suicídio. Morreu sem ter seu talento reconhecido. Quando ainda era adolescente, Murray Watson se encantou pela obra de Archie e se tornou seu maior admirador. Hoje, porém, como professor universitário, sua carreira está tão conturbada e fadada ao insucesso quanto a do poeta. Sua única satisfação é pesquisar a fundo a história de seu autor preferido.

Na sua juventude Murray Watson encontra a única obra de Archi Lunan e se apaixona pela escrita do poeta que sonhava em ser escritor de ficção científica. Anos depois, como professor universitário, escolhe a biografia do escritor como a tese do seu doutorado para colocar o nome de Archi na história da literatura.

Conforme ele tenta pesquisar em bibliotecas ou entrar em contato com antigos conhecidos se depara com uma escuridão, onde nem a morte do escritor é clara, já que ele desapareceu no mar. O silêncio e as informações selecionadas não lhe fornecem nem uma base para começar, e nesta busca ele acaba tendo que enfrentar os seus próprios demônios.

Algumas totalmente escritas com uma letrinha miúda, como as cartas de um condenado para a família.

Identificado como um livro que mistura suspense e romance policial, inicialmente Louise Welsh me fez lembrar de um escritor dizendo que todo livro neste estilo precisa ter cenas de sexo. Só que este clichê nesta história em especifico acaba mais atrapalhando do que ajudando.

Aqui me refiro a um capítulo que poderia ser chave, mas acaba na superficialidade total: Murray vai até a casa da viúva do sociólogo Alan Garret que também estava pesquisando sobre Archi, mas não em relação a sua obra, mas o seu possível suicídio. Garret morre em um acidente de carro sem explicação na mesma ilha onde o poeta desaparece. Toda a pesquisa descrita poderia situar o leitor da base da obra, se não fossem as páginas de sedução forçada seguida de sexo com a viúva.

Como podia guardar tantas datas, aspectos e versos, e esquecer uma mulher bonita?

Somado a isto há toda a questão da relação familiar com o irmão mais novo e um trauma/culpa não resolvido em relação ao pai que não fica muito claro de início e se perde em meio a descrições superficiais, tornando a história um tanto desconexa em alguns momentos. E com isto o foco acaba mais nas discussões familiares e desilusão amorosa de Murray do que nas poucas pistas que vão surgindo no decorrer do livro.

Mas é quando Murray chega à ilha Lismore na Escócia, última moradia de Archi e atual de sua viúva que a minha ficha como leitora cai: não estamos falando de um romance policial e muito menos de suspense. É um livro sobre a psicologia humana, e um ciclo que envolve mentiras, vaidade e suicídio, onde ouso dizer principalmente o que leva ao último.

Era isso o que eles estavam fazendo, desafiando águas perigosas, e nenhum deles possuía um par de nadadeiras.

Neste momento o tédio abre uma brecha para a curiosidade, e entre conversas e descobertas observa-se a rivalidade acadêmica, onde um talento que foge do tradicional é colocado à sombra pelos seus colegas ao escolher o tumulo como altar. A mesma rivalidade se vê entre os professores da instituição onde Murray leciona, cujo troféu é representado por uma mulher.

A morte aqui tem dois papeis: a de desafiar e a de libertar dos fantasmas que perseguem os personagens, mesmo que para um caminho que se desconhece. E somente quando você a entende como personagem, a presença, mesmo que rápida, dos secundários começa a ter sentido. Abrindo assim para Murray e quem o acompanha a vida do próprio Archi.

Talvez pudesse abordar o assunto mencionando sua própria experiência em vasculhar os detritos que os mortos deixaram para trás.

Terminei este livro sem uma opinião definitiva. Quando estava no final, achei as páginas faltantes muito poucas para o leque que havia se aberto. E talvez seja isso o que me incomode no livro: quando a essência dele apareceu, já era o seu final, e ele possuía potencial para ser bem mais explorado.


Alfabeto dos Ossos
Naming the Bones
Louise Welsh
Tradução: Bruna Hartstein
Bertrand Brasil
2010 – 460 páginas

domingo, 2 de agosto de 2009

Gomorra


Sinopse: As mercadorias "frescas", logo que nascem - objetos de plástico, roupas de grife, videogames, relógios -, desembarcam diariamente no porto de Nápoles para serem armazenadas e escondidas em prédios propositalmente esvaziados de tudo. Já as mercadorias "mortas", vindas de toda a Itália e de boa parte da Europa, sob a forma de resíduos químicos, material tóxico e até mesmo cadáveres e esqueletos humanos, são clandestinamente "despejadas" nas terras da região da Campânia. E lá contaminam, dentre toda a população, os próprios boss da Camorra, que constroem, sobre aqueles terrenos, suas mansões luxuosas e nababescamente absurdas - datchas russas, villas hollywoodianas, verdadeiras catedrais de cimento ornadas com os mais preciosos mármores -, que não servem somente para demonstrar a conquista do poder, mas também para revelar utopias delirantes, pulsões messiânicas e obscurantismo milenares.

O que um contêiner com homens e mulheres chineses mortos, a roupa que a atriz Angelina Jolie usou em uma cerimônia do Oscar, mulheres ocupando cargos elevados, pessoas mortas por balas perdidas, o IVA - Imposto Sobre Valor Agregado, tráfico de droga, disputa de território e corrupção tem em comum? 

Não, não é o morro do Rio de Janeiro, nem um dos filmes de mafiosos distribuídos por Hollywood, apesar dos integrantes dos clãs, pertencentes ao sul da Itália, imitarem a ficção. 

Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair.

Roberto Saviano descreve no seu livro de estreia algo que se tornou mais globalizado que o próprio capitalismo: o poder dos criminosos, nesse caso específico, a Camorra. 

Não é uma ficção, o jornalista se infiltrou na máfia napolitana para entender o que ela é, o seu modo de operação, seus tentáculos pelo mundo e as consequências disso.

Na tevê, Angelina Jolie pisava a passarela da noite do Oscar, vestindo um terno de seda branca, belíssimo. Aquela roupa tinha sido costurada por Pasquale numa fábrica clandestina de Arzano.
O primeiro lugar que somos apresentados é justamente ao porto de Nápoles, é neste ponto que chegam milhares de containers, com produtos de todos os tipos, e também os registros e as classificações para cobrança de impostos, onde o caro para o consumidor pode ser extremamente barato para a alfândega, até o descarregamento de mercadoria clandestina.

Na sequencia vamos para o funeral de um rapaz de quinze anos morto por policiais ao assaltar casais com arma de brinquedo, para depois ser apresentados para os estranhos leilões realizados pelas grandes grifes. E assim, página a página, vamos descobrindo mais e mais de como o sistema de uma organização realmente impressionante funciona.

Afinal, um império não se divide com um aberto de mão, mas cortando-se uma delas com um cutelo.

Gomorra não poupa detalhes. Em algumas páginas o leitor precisa realmente ter estômago, enquanto Saviano descreve as torturas ou os teste de novas drogas que são feitas em viciados. Não existe escapatória, pode ser pobre, padre, político ou arrependido, a única certeza para os que contrariam a Camorra é a morte. 

A Camorra são vários clãs criminosos, chefiada na sua maioria por homens jovens que acabam reféns do seu próprio poder. Debocham da velha máfia, pois são politicamente independentes. Suas fontes de dinheiro são variadas, podem vir da venda de armas para países em guerra ou de roupas fabricadas sob medida para populares atrizes desfilarem. 

Na guerra já não é possível ter relações de amor, ligações, relacionamentos, pois tudo pode se tornar um elemento de fraqueza.

Gomorra não é um romance. É um tapa na cara em um texto jornalístico narrado em primeira pessoa, onde depoimentos pessoais se misturam a investigações e histórias do passado. 

A narrativa de Saviano é forte, sua escrita tem fluidez e detalhes que nos fazem não só compartilhar o seu olhar, como sentir os acontecimentos. Desde a primeira página, quando o manobreiro conta num misto de pavor e incredulidade sobre os corpos com crachás pendurados no pescoço que caiam de um contêiner, o estômago aperta como um aviso, o que vem a seguir não é brincadeira.

Ser atingido na cabeça evita tremer de medo, mijar ou soltar fedor do interior dos buracos na barriga. 

Também é um banho de água fria nos que adoram uma grife e anunciam para toda imprensa que colaboram para a construção de um mundo melhor. Pois eles também contribuem, indiretamente ou por simples ignorância, para a máfia italiana. 

A propósito: Gomorra é uma das cidades destruídas por Deus, conforme é descrito no Gênesis, uma cidade, como muitas na Itália e em outros locais do mundo, onde a destruição, por uma escolha, um celular ou uma palavra, se tornam banais. Onde os honestos não têm vez e apenas os imorais possuem o poder sobre a vida e a morte.

São rapazes, mortes falantes, mortos vivos, mortos que se movem... Belos ou não, te pegam e te mantam, mas a vida já está mesmo perdida...

Um livro para quem quer entender mais o que consome, para quem leu a Série Napolitana da Elena Ferrante e quer saber mais, um livro para compreender como as organizações criminosas funcionam e são mais resistentes que qualquer governo. Um livro que eu simplesmente recomendo a leitura.

Gomorra
Roberto Saviano
Tradução: Elaine Niccolai
Bertrand Brasil
2006 - 349 páginas