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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Contos de Horror da América Latina



Sinopse: coletânea de clássicos do horror de autores da América Latina organizados por Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner que foi enviada aos sócios da TAG no mês de outubro/2023.

Na apresentação do livro com dez contos de autores consagrados e bem conhecidos pelos fãs do gênero, os que chegam espiando pela fechadura são apresentados as diversas qualificações que este realismo latino américa costuma ser apresentado ao grande público: mágico, fantástico e maravilhoso.

Mas não o maravilhoso de belo, com cenas românticas, laços afetuosos, frases motivacionais para colar com o post it. Maravilhoso em seu horror mais humano, pois não estamos falando de vampiros, lobisomens ou seres geneticamente modificados. Mas do que há de mais podre dentro de um ser humano. O que pode tornar a cara mais angelical, o pior monstro encontrado.

Como o sol, o calor e a calma ambiente, também o pai abre seu coração à natureza


Quem abre a coletânea é o escritor uruguaio Horácio Quiroga com O Filho, onde em um dia quente uma criança sai para caçar e não retorna na hora combinada com o seu pai.

A escritora carioca Júlia Lopes de Almeida nos apresenta Os porcos, onde o pai ao saber que a filha estava grávida lhe dá uma surra e promete dar seu neto de alimento aos porcos.

O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem.


O também carioca Lima Barreto vem com O cemitério, e uma sequência de pensamentos de um narrador que caminha pelo local.

O argentino Leopoldo Lugones nos conta sobre O homem morto, onde um homem circula por um vilarejo sendo denominado pela população como louco por um único motivo: ele acredita estar morto.

Chegara havia vários meses, sem querer informar sua procedência, e pedindo encarecida e desesperadamente que o considerassem falecido.


Já o maranhense Humberto de Campos narra O juramento feito por um senhor há trinta anos atrás ao se desiludir de amor.

A argentina Juana Manuela Gorriti com o seu Ervas e alfinetes coloca em discussão as crenças em superstições, mais especificamente as maldições, versus a ciência, após a experiência vivenciada por um médico.

Todos desejavam admirar, ou mesmo provar, os efeitos desse poder misterioso, do qual apenas tinham ouvido falar, e que preocupava os ânimos com um sentimento que misturava curiosidade e terror.


E como os autores cariocas dominam o livro de contos, quem segue é João do Rio contando uma história de carnaval em O bebê de tarlatana rosa.

Subindo a América temos o autor mexicano José Juan Tablada e o seu De além-túmulo sobre um encontro há muito esperado na madrugada.

Ao longo das ruas, úmido e frio, arrastava-se um vento de inverno que açoitava o vidro dos lampiões e fazia bruxulear os acendedores de gás.


E como não poderia faltar um dos maiores nomes da literatura brasileira, Machado de Assis vem com A causa secreta e a relação de três personagens cujos boatos percorreram o bairro.

Quem fecha é quem abriu este pequeno mundo de arrepios e calafrios. Sim, Horário Quiroga encerra a coletânea com A galinha degolada, conto que eu já havia lido a quinze anos atrás, e mesmo conhecendo, me provocaram um nó na garganta na releitura.


O que eu achei de Contos de Horror da América Latina

A coletânea possui dez contos curtos que abordam diferente situações dentro do cotidiano dos seus personagens, o que torna a leitura bastante diversificada, não dando ao leitor a sensação de mais do mesmo.

Dos contos que tem o toque do fantástico, passando pelos que parecem história de bêbado e as que me arrepiam só de relembrar por serem muito realizadas e nada impossíveis de acontecer no mundo real.

Em todo o seu aspecto sujo e desvalido, notava-se a absoluta falta de um mínimo cuidado materno.


Em comum todos despertam a curiosidade, o que torna o livro aquele curinga que você pode levar para qualquer lugar e por alguns minutos acessar um mundo paralelo um tanto sombrio.

No geral gostei bastante, como é normal, alguns contos eu amei e outros eu achei meio bobinhos, mas juntos eles conseguiram me dar a dose certa de terror.

Em verdade, o que se passou foi de tal natureza que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.


Ficando a dica para quem gosta do gênero, tem curiosidade em conhecer e claro, para os ratinhos de biblioteca.


Contos de Horror da América Latina
Vários autores
Organização: Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner
Tradução: Laura Jahn Scotte
TAG
2023 - 143 páginas

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

A Trégua



Sinopse: Publicado em 1960, A trégua é o mais famoso romance de Mario Benedetti e uma das obras mais importantes da literatura latino-americana contemporânea. Escrito em formato de diário, com um texto incisivo, muitas vezes irônico, o livro conta a história de Martín Santomé, um "homem maduro, de muita bondade, meio apagado, mas inteligente."

No mês de setembro recebi da minha assinatura da TAG Curadoria o livro indicado pela escritora Aline Bei chamado A trégua do escritor uruguaio Mario Benedetti, que já havia sido enviado pelo clube em fevereiro/19 com o romance Primavera num espelho partido. O mimo foram duas colheres de café.

É através do diário pessoal de Santomé que o leitor descobre que este homem se encontra próximo do seu aniversário de cinquenta anos e parece estar entrando na famosa crise da meia idade ao contar os dias para a sua aposentadoria de uma forma um tanto desanimada, pois não sabe o que irá fazer da vida quando ela chegar.


Digo a mim mesmo que não, que não é do ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser.


Viúvo a mais de vinte anos quando sua esposa Isabel morreu no parto do filho caçula, ele mantém uma relação um tanto distante com os três filhos agora adultos. Também não possui nenhuma relação amorosa, tendo encontros esporádicos de apenas algumas horas com algumas mulheres aos quais não procura saber maiores detalhes.

Sua rotina muda drasticamente quando ele resolve prestar a atenção em uma nova funcionária que está sob a sua supervisão, uma moça que regula de idade com a sua filha e parece bastante tímida, e também bastante atenta e competente. E aos poucos Avellaneda vai sem fazer esforço algum ganhando o seu coração, dando uma trégua em sua vida sem cor, e trazendo à tona um homem diferente até em relação aos filhos.


Mas tudo sempre foi por demais obrigatório para que pudesse me sentir feliz.


Por ser um diário, A Trégua não possui capítulos, mas dias, e assim o leitor é convidado a acompanhar a vida de Santomé do dia onze de fevereiro até o dia vinte e oito de fevereiro do ano seguinte, sem identificação do ano exato. Naturalmente é uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem expõe sem pudor os seus pensamentos em relação aos filhos, aos colegas e a sua vida em geral.

E por este motivo é um livro sobre escolhas, ironias do destino, relações familiares, relacionamentos pessoais, felicidade e tristeza, no melhor estilo a vida como ela é, sem filtros ou photoshop para deixar os acontecimentos do jeito que os personagens gostariam, pois ao contrário das redes sociais, diários são memórias lidas apenas pelo seu autor.


As pessoas me olham, me sorriem, algumas até chegam a fazer careta que precede o soluço; depois se dedicam a abrir o coração.


Ao contrário de Primavera num espelho partido, eu gostei muito de A Trégua, pois se no primeiro achei a história um pouco superficial, aqui são os pensamentos em palavras, questionando Deus, a vida e a morte. Pois Santomé é extremamente comum, e, portanto, muito humano, em sua forma de se expressar e de reagir conforme a época em que vivia. 

É interessante ver as dubiedades humanas, como a falta de ânimo que Santomé tem com a aposentadoria, e mesmo assim paga para obtê-la de forma mais rápida. O enorme amor que diz ter por Avellaneda, sem nunca perguntar a sua opinião ou usar o seu primeiro nome, Laura, em nenhum momento em que compartilham suas vidas.


A segurança de me saber capaz para algo melhor me deu o controle da postergação, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida."


Ou o fato do filho preferido não se sentir amado, e assim preferir fugir de sua família, considerando de pronto que eles não irão aceitar as suas escolhas, impressão plenamente justificada por outros comentários feitos por Santomé em outros momentos e pela reação de seu irmão.

De bônus o leitor ganha uma viagem literária por Montevideo, onde pode circular por seus cafés e praças, despertando para quem tem o espírito de sair por aí, o desejo de replicar os passos de Santomé e conhecer a capital uruguaia ao vivo e a cores.


Às vezes, penso que precisaria viver apressado, tirar o máximo partido destes anos que restam.


Um livro de fácil leitura, relativamente curto, mas que pode levar o leitor a refletir sobre a vontade de viver e de morrer, sobre sobreviver e estar vivo, sobre envelhecer e rejuvenescer, sobre relações humanas, planos, expectativas e desejos. E sobre ficar com aquela pulga de como será o dia seguinte.


A Trégua
La Tregua
Mario Benedetti
Tradução: Joana Angélica D'Avila Melo
TAG - Alfaguara
1960 - 205 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autor da resenha.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Primavera num espelho partido



Sinopse: Primavera num espelho partido é um livro arrebatador, que conta a trajetória de uma família separada pela prisão e pelo desterro, mas que sobrevive graças à esperança. O romance intercala múltiplas vozes narrativas, incluindo a do próprio Benedetti, que vivenciou a violência da ditadura e passou parte de sua vida exilado. Ao entrelaçá-las, o autor compõe um mosaico de impressões e sentimentos, num livro marcante sobre a resistência do amor em tempos sombrios.

Para o mês de fevereiro/2019 a TAG Curadoria enviou para os seus associados a obra indicada pelo escritor brasileiro Julián Fuks.

Durante a década de 1970, em plena ditadura uruguaia, uma família composta de pai, mãe, filha e avô contam a separação devido à prisão do primeiro. Completando a narrativa está um amigo e o próprio autor, que conforme é indicado na sinopse do livro, compartilha suas próprias memórias.

Sempre tem alguém que está pior, como concluía Esopo. E até pior do que o pior, concluo eu.

Santiago é o pai, que permanece preso no Uruguai e escreve cartas para a família que está na Argentina em exílio. É ele o primeiro personagem apresentado, mas não é o único responsável por toda a mudança na vida familiar, visto que a sua esposa também era militante. 

Em terras Argentinas estão os demais personagens, como a mãe Graciela e a filha Beatriz. Mesmo juntas, existe uma distância entre elas, como o fato de Beatriz só chamar Graciela de mãe quando deseja agradá-la. 

É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua para de vê-lo como um estranho.

Narrado em terceira pessoa, a parte de Graciela mostra uma mulher forte, que trabalha e agora se vê cheia de dúvidas com a longa separação. Ao mesmo tempo é a responsável pela parte mais inverossímil do livro.

Já a narrativa da menina Beatriz é uma das mais agradáveis, e ao mesmo tempo reais em relação aos personagens. Sua visão está na saudade e nas mudanças, no que ela percebe e no que ela imagina, rendendo alguns momentos cômicos na história.

As notícias do rádio não somente não eram tediosas, como nos bons tempos, às vezes chegavam a ser arrepiantes, já que em janeiro de 1975 costumavam aparecer dez ou doze cadáveres diários nas lixeiras portenhas.

O pai de Santiago, Don Rafael, compartilha com o leitor suas dúvidas, histórias e culpas. Entre a nostalgia e a atualidade, parece que as cartas acabam aproximando mais pai e filho, já que aqui também há um distanciamento parental, antes muito maior que a distância física.

Fechando o quinteto temos o amigo Rolando Asuero, o solteirão da turma que dá uma ideia de como era o antes de todos os seus companheiros se separem, sejam pela prisão, pelo exílio ou pela morte.

Eu não tirito porque sou menina e não velhinha e também porque me sento perto da estufa.

Entre os personagens, o próprio Mario divide as suas histórias do exílio, usando a narrativa em primeira pessoa e letras em itálico. E na minha opinião, junto com os capítulos de Beatriz, são os mais interessantes. Neles estão suas mudanças de país, as pessoas que encontrava pelo caminho, as mudanças que aconteciam em Cuba em uma visão apaixonada que o socialismo de Che provocava na época.

Mario Benedetti muda o estilo narrativo conforme o personagem, mais do que alterar entre primeira e terceira pessoa, está o uso de cartas – recurso que eu vi sendo utilizado por Amós OZ em seu maravilho A caixa-preta, ou apenas contando o que está acontecendo – recurso utilizado em outro livro que eu acho muito interessante chamado Meu Nome é Vermelho de Orhan Pamuk.

Mas as mulheres sempre tinham fofocas e modas e horóscopos e receitas de cozinha para trocar, pelo menos naquela época, e talvez por isso eles sempre se reuniam à parte para consertar o mundo.

O problema é que esta mistura de recursos nem sempre é muito fácil para o leitor e creio, nem para o escritor, já que a história exige uma atenção extra para seguir cada fio condutor até eles se unirem. No caso de Primavera num espelho partido, em alguns momentos fica a sensação de superficialidade, mesmo tendo um tema tão tenso e que até hoje provoca acaloradas discussões.

Um exemplo é a própria apresentação dos personagens, logo de início você não sabe sobre quem está se falando, fica-se perdido tentando encaixar as peças, tornando assim a intensidade da história secundária. Imaginei que o objetivo do autor talvez você transferir para o leitor o sentimento de estranhamento, de perda de identidade em um local estranho, mas o efeito colateral pode ser justamente um distanciamento dos fatos.

Também deve imaginar que, mesmo que ele e eu tivéssemos tido todas essas discussões em profundidade, ele teria seguido o caminho que definitivamente escolheu de qualquer maneira.

Digo pouca intensidade pelo fato de que a falta de detalhes acaba não criando laços e sim muito mais perguntas sobre eles, parecendo tudo muito ensaiado, sem paixão na escrita. Por isso assumo que apenas literaturei Primavera num espelho partido, que mesmo de leitura rápida não me provocava o desejo de saber o que viria a seguir.

Mas isso não me impede de recomendar o livro. Parece loucura? Pode ser. Mas por outro lado a escrita de Mario Benedetti é fácil, e consegue sim dar uma visão de algumas das consequências da ditadura para quem só ouviu falar sobre ela, e sem saber, vive até hoje os seus efeitos colaterais.

Primavera num espelho partido
Primavera con una esquina rota
Mario Benedetti
Tradução: Eliana Aguiar
TAG Curadoria – Alfaguara
2009 – 238 páginas

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