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terça-feira, 26 de março de 2024

Meu pai e suas apostas



Sinopse: Meu pai e suas apostas é uma história poderosa e comovente sobre a busca pela dignidade e a luta contra adversidades intransponíveis. Louise Meriwether tece uma narrativa cativante e, com elementos autobiográficos, que oferece um registro perspicaz da experiência de viver no Harlem dos anos 1930, sob o prisma de Francie, uma corajosa garotinha de doze anos. Este livro é uma jornada tocante pelas lutas e triunfos de uma família determinada a vencer as probabilidades e encontrar seu lugar no mundo.

Minha assinatura da TAG Curadoria começou o ano enviando em janeiro/2024 a indicação da jornalista Fernanda Bastos Meu pai e suas apostas da escritora norte-americana Louise Meriwether. O mimo foi um planner, como já virou tradição nos meses de janeiro para os assinantes.

Francie tem doze anos, vive com os pais e dois irmãos mais velhos em condições bastante precária no Harlem dos anos de 1930, tempos de recessão americana, e consequência direta da grande depressão que ocorreu nos Estados Unidos em 1929.

Sonhei que um bagre grande pulou do prato e me mordeu. Madame Zora dá os números cinco e catorze para peixe.


Enquanto a menina dorme em um sofá velho, o pai sustenta a família recolhendo as apostas e esperanças da vizinhança, mas o dinheiro é insuficiente para sustentar a todos e muito menos para convencer os filhos que o único caminho para melhorar de vida é a escola.

Sua melhor amiga tem explosões de violência, única forma encontrada pela menina de se libertar de tudo o que a sufoca, tornando Francie uma de suas vítimas. A vizinhança em sua volta vive em comunidade que se ajuda trocando xícaras de açúcar pela janela e tentando em meio ao sobreviver compartilhar seu apoio para as dificuldades do cotidiano. Sorrindo e sofrendo juntos conforme os obstáculos que enfrentam.

Meu pai tinha consertado o vazamento grande, mas não havia adiantado muito e, quando chovia lá fora, pingava dentro também.


O resultado são crianças criadas juntas e por conta, já que quando todos cuidam, nenhum cuida. E nisso as meninas irão vivenciar o assédio aos seus corpos, o preconceito e o abuso social sem receber as devidas explicações, enquanto decidem se os sonhos para o futuro conseguirão se manter vivos.


A escrita de Louise Meriwether

Ao optar em utilizar uma narrativa em primeira pessoa, onde o narrador é uma menina se despedindo da infância, a escritora norte-americana Louise Meriwether consegue dar leveza e fluidez em uma história onde racismo, fome, preconceito, injustiça social imperam em suas páginas.

As duas eram mais velhas que o restante de nós porque haviam repetido bastante de ano, e todos, inclusive as professoras, tinham medo delas.


Para quem vive em uma bolha como a minha, em alguns momentos chega a ser chocante a tranquilidade de como os personagens encaram as situações, sejam ela de assédio sexual, seja da desistência de sonhos, uma normalidade que nunca deveria ser considerada normal.

O fato de conter dentro da ficção momentos de autobiografia também mexerem com a minha cabeça, pois como uma boa escritora, Louise Meriwether nos coloca nas ruas do Harlem e não raro me peguei questionando em quantas ruas brasileiras não teriam meninas e famílias vivendo exatamente as mesmas situações, por mais inaceitáveis que elas sejam.


O que eu achei de Meu pai e suas apostas

Em Meu pai e suas apostas, mais do que pobreza, temos o limite com a miséria extrema, onde a família passa fome e frio, e o simples cargo de síndico para ganhar desconto no aluguel é suficiente para que eles não tenham auxílio do governo.

Eu tentava imaginar o que a havia deixado tão malvada.


Apesar dos pais de Francie desejarem que os filhos estudem, tentando acender o desejo de eles almejarem ir para uma universidade, as situações adversas desmotivam os irmãos da personagem, como nos lembrando que dependendo da situação, é mais do que querer, as vezes não sobra nada para poder.

O livro também permite que o leitor acompanhe o declínio de uma relação afetada pela fome, o marido que não aceita que a mulher trabalhe e se sente humilhado ao ter que aceitar que ela vá buscar dinheiro na rua, pode despertar conflitos de opiniões para quem vive quase cem anos depois, principalmente ao ver o cansaço e desespero diário que a mãe de Francie precisa administrar.

Simplesmente não se devia interferir nas brigas de rua do Harlem, ainda mais entre um homem e sua mulher.


No geral eu gostei bastante do livro, embora tenha alguns problemas de revisão, isto não impediu de a leitura ser fluída e chocante. Pois existe uma naturalidade latente em situações difíceis de aceitar, como de homens que trocam pão por passarem a mão no corpo das meninas. Ou na luta diária das mulheres sem rede de apoio, fazendo o possível e o impossível para garantir cada dia da sua família.

E claro o racismo pulsante, onde a violência é aplicada para admitir o que não se fez, onde sentenças injustas são proferidas, um dia-a-dia que não permite aos jovens criarem expectativas sobre qualquer futuro.

Ele só me incomodava quando eu estava sozinha, então eu sabia que ele não nos seguiria.


Um livro que não te permite finalizar a leitura de forma indiferente, seja pelo que se viveu pelas páginas, seja pelas comparações que podemos fazer com a nossa própria realidade.

Ficando a dica para quem gosta de livros com toques autobiográficos, que abordem períodos históricos, racismos e crítica social. E claro, para quem gosta de ler.


Meu pai e suas apostas
Daddy was a number runner
Louise Meriwether
Tradução: Petê Rissatti
TAG
2023 - 189 páginas
Publicado originalmente em 1970


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Mama



Sinopse: conheça Mildren Peacock: mãe, durona, engraçada e combativa que vive numa pequena cidade do Michigan, nos Estados Unidos. Uma sobrevivente que vai se desdobrar para manter a família unida. Neste romance, comparado ao aclamado A cor púrpura de Alice Walker, Terry McMillan narra a vida de uma mulher negra e seus cinco filhos com honestidade e potência dignas de uma obra-prima da literatura contemporânea.

E a minha assinatura da TAG Curadoria iniciou o ano com uma indicação do escritor Itamar Vieira Junior, e assim janeiro/2023 trouxe na minha caixinha o livro Mama da norte-americana Terry McMillan. O mimo foi um planner que tem cara de caderno, já que não possui divisão nenhuma. 

Uma curiosidade neste caso é que o livro foi totalmente pela TAG, não tendo parceria com outras editoras.

Mildren tem 27 anos, cinco filhos em idade escolar, sustenta a casa e apanha do marido bêbado chamado Crook. Um tipo ciumento que não aceita que a esposa chame a atenção, mas que também não abre mão de passar algumas noites na casa da amante de longa data.

Odiava aquela casa caindo aos pedaços, odiava aquela cidade horrenda, odiava nunca ter o suficiente de nada.


Enquanto Mildren se vira atrás de dinheiro e vai ajustando a vida amorosa, Freda cuida dos irmãos mais novos enquanto segue se dedicando aos estudos, amadurecendo rapidamente para os seus dez anos.

Tudo isso no período dos anos de 1960, quando a concorrência na produção de veículos torna a vida dos moradores da fictícia Point Haven mais difícil com as frequentes demissões e a dependência da assistência social.

Não são seus filhos, desgraçado. São meus. Talvez tenham seu sangue, mas são meus.


Convidando o leitor há não só acompanhar o crescimento das cinco crianças e da agitada vida amorosa de Mildren, como também o declínio econômico de Detroit e os anseios de toda uma época.


A escrita de Terry McMillan


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a autora Terry McMillan não precisou separar em partes ou até mesmo sinalizar no início de cada capítulo o ano e a cidade em que os Peacock estavam.

Sua escrita direta, franca, fluída faz isso sozinha. E assim assistimos pelas palavras as crianças crescerem, escolherem os seus caminhos e assim cometerem seus próprios acertos e erros. Enquanto Mildren se ver com novas indagações e sentimentos quando vê um por um deles tomarem as rédeas da própria vida.

Lavou os olhos inchados e decidiu que seria a última vez que abriria o coração de um jeito tão ansioso e generoso, só para não sentir mais como se tivesse uma ferida recém-aberta na qual algum homem havia jogado sal.


Aliás, os personagens de Terry McMillan são terrivelmente humanos em seus acertos e erros, e assim eles podem tanto irritar, quanto divertir ou sensibilizar o leitor. Tornando-os muito próximos de quem passa por suas páginas a ponto de provocar encantos e decepções. Provocando o juiz, promotor e defensor que existe dentro de cada um de nós.

E é de forma natural que a narrativa aborda assuntos como violência doméstica, alcoolismo, drogas, sexo, compulsão, depressão, pobreza, racismo, aceitação e, como já indica o título, maternidade.

Não gasta seu tempo ou seu dinheiro com coisas baratas, meu amor, porque vai acabar pagando por tudo duas vezes.


Maternidade que vai do medo da reação da mãe após determinado acontecimento, do respeitar e desafiar, de se ver enlouquecida com cinco filhos até o momento de sofrer com o ninho vazio. Uma maternidade longe dos comerciais de margarina e mais próximas das vielas que toda cidade tem.

Tudo isso em uma família que não diz eu te amo um para os outros, onde não há abraços maternos, mas há fome e superação, há tombos e a mãos para ajudar a levantar, questionando se o amor está nas palavras ou nas atitudes. 

Se um preto está tentando matar outro, os brancos nem ligam.


A escolha do fundo histórico para a história da família também torna a narrativa interessante, já que conta um pouco do que acontecia não só com a sociedade americana no período, mas também com as mudanças econômicas na indústria do país, além de abordar questões como o funcionamento da assistência social e a vida em comunidade.


O que eu achei de Mama


Mildren e Freda, mãe e a filha mais velha, foram personagens que ao mesmo tempo que me irritaram, me envolveram, com direito a torcida e vontade de entrar no livro e dar uma sacudida nas duas inúmeras vezes.

Principalmente quando elas têm tudo para se estabilizarem na vida, mas optam em ceder as suas compulsões, seja pela bebida, sejam pelas compras. Assim como a repetição de ciclos, que parecem loops eternos que ecoam de mãe para filha, me trazendo a mente a frase como os nossos pais.

Durante muito tempo me preocupei em passar pelas mudanças da vida. Então, quando vi, já tinha passado por elas.


Tornando a história as vezes familiar por lembrar aquela conhecida ou parente nem sempre distante de comportamento tão semelhante. Lembrando que algumas ações e reações as vezes independem de raça, classe social e estudo. Pois a repetição de atos maternos e paternos não são incomuns, muito pelo contrário, já que normalmente são os pais os primeiros e grandes exemplos.

E todo este conjunto fez com que a história ficasse ecoando na minha cabeça, com várias perguntas e reflexões, como o fato de até que ponto a sociedade pesa no nosso comportamento? Por que tantos não resistem em quebrar o que as vezes é tão negativamente esperado? Como não repetir ações dos nossos pais quando elas não são boas para nós? Entre tantas outras que seguem pipocando na minha mente enquanto escrevo esta resenha.

Por alguma razão, naquele momento, tudo parecia tão simples. Percebeu que tinha um monte de coisas para agradecer.


Motivo pelo qual eu naturalmente recomendo a leitura. Para que você também possa se divertir, sofrer, se irritar e ter vontade de abraçar a família Peacock.


Mama
Terry McMillan
Tradução: Petê Rissatti
TAG - Experiências Literárias
1987 - 287 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Pheby



Sinopse: Pheby Delores Brown é filha de uma mulher escravizada com o dono da fazenda onde vive. A ela é prometido que, ao completar dezoito anos, poderá ir para uma escola e viver a liberdade não reservada à mãe. Mas isso não acontece: enviada para a prisão dos Lapier - também conhecida como Terra do Diabo -, Pheby se torna a companheira do homem que comanda o local, uma posição que lhe dá aparente autoridade, mas também a obriga a se relacionar com o próprio diabo - e isso implica uma série de sacrifícios para proteger a si mesma e aqueles que ela ama.

Recebi em Julho/2022 pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Pheby da autora norte-americana Sadeqa Johnson. O mimo oficial foi o livro Os sofrimentos do jovem Werther, mas como ele foi o mesmo para as duas linhas de assinatura, eu recebi um segundo livro extra chamado Longe das Aldeias.

O ano é 1850. Pheby tem dezesseis anos, vive na plantação dos Bell no estado da Virgínia, é filha de Ruth - escrava da plantação - com o Mestre Jacob. Apaixonada por Essex, a menina foi educada pela tia Sally, irmã de Jacob, que ensinou a menina a ler, escrever e tocar piano.

Mama acreditava que a noite de lua cheia era a noite mais fértil do mês, que tudo o que a lua tocava era um receptáculo do poder de Deus.


Com a morte de outra escrava que trabalhava na casa grande, ela é chamada para substituir o atendimento a Sra. Delphina, esposa do mestre e que está grávida. Mas ao contrário dos outros, ali ela não encontra gentileza, e recebe os primeiros tapas da mulher que guarda muita raiva da filha bastarda do marido. 

Situação que Pheby tenta relevar, pois acredita na promessa do Mestre que ao completar dezoito anos será libertada e enviada para outra cidade para estudar.

Quero ela lá em cima, no Norte, onde a liberdade dela importa alguma coisa.


Mas uma sequência de acontecimentos infelizes ocorre, e invés da liberdade, Pheby é enviada para uma prisão, onde para sobreviver precisa se sujeitar aos caprichos do seu comandante, um homem cruel, ao qual nunca se sabe como irá agir. E para isso, mais do que nunca, ela vai precisar das palavras da mãe, que lhe diziam que ela era escrava no nome, mas não na cabeça, pois não era mercadoria de ninguém.


A escrita de Sadeqa Johnson

A autora norte-americana Sadeqa Johnson utiliza a narrativa em primeira pessoa para dar voz a Pheby e assim acompanhar não só os percalços da personagem, como conhecer o funcionamento do sistema escravocrata na parte sul dos Estados Unidos, a liberdade que se encontrava na parte norte e naturalmente os acontecimentos históricos.

Um fato muito interessante do livro é que apesar de ser uma ficção, a inspiração veio de personagens reais. Ao percorrer a Trilha dos Escravos de Richmond a escritora tomou conhecimento da história da cadeia dos Lumpkin, que pertencia a Robert Lumpkin, um homem conhecido como o Mercador Maligno, que foi casado com uma ex-escrava chamada Mary.

Os brancos sempre querem que a gente se deite com eles e depois deixam os problemas pros outros resolverem.


E o prisioneiro chave desta história, ao qual eu não vou revelar o nome para não estragar a sua leitura, foi inspirado em Anthony Burns, o encarcerado mais famoso da prisão dos Lumpkin.

Ao imaginar como teria sido a vida destas pessoas em um lugar tão inóspito, surgiu Pheby, um livro que mistura a face cruel da escravidão ao mesmo tempo que nos mostra o poder dos laços humanos. E isso é o grande acerto do livro, pois sem o segundo, seria muito difícil ler o primeiro.


O que eu achei de Pheby

Eu achei a escrita de Sadeqa Johnson muito envolvente, existe uma complexidade nas personagens que a tornam muito humanas. Mesmo os piores conseguem demonstrar em determinadas circunstâncias pequenos atos de amor, o que me levava a pensar no porque haver pessoas que preferem cultivar a crueldade, de se satisfazer mais com a dor do que com um sorriso, como que negando a si mesmo a ser feliz.

A personagem principal, Pheby, é muito bem construída. A resiliência em todas as situações para proteger os filhos, principalmente o primogênito, é ao mesmo tempo impressionante e dolorida.

Que todos os teus piores medos se tornem realidade, e que todo o mal provocado pela tua alma se volte contra ti multiplicado por dez.


Pois sim, ela é uma mulher diferente por tudo que absorve não só em relação aos estudos, mas as regras de uma vida que está sempre contra ela. Uma mulher inteligente, criada por uma mulher forte, que consegue ter uma visão de tudo o que está ocorrendo para assim garantir a sua sobrevivência e também de quem ela ama. 

Também gostei muito do complemento da revista, principalmente a explicação sobre o colorismo, que me ajudou a entender a visão americana na hora de classificar as pessoas, aos quais eles consideram as origens e não só a cor da pele em si, como ocorre no Brasil. O que me fez reavaliar a visão que eu havia tido ao ler A metade perdida, pois sim, agora eu compreendi todos os questionamentos do livro, que na época não fechava pra mim.

Eu sabia que aquilo não era o fim. No máximo, parecia ser o início, e eu não sabia se deveria sentir alívio pela bondade do cavalheiro ou medo mortal do que estava prestes a me acontecer.


E assim deixo a dica de um livro forte, reflexivo, de um passado bastante recente, cuja narrativa tem como efeito colateral apertar o coração enquanto não se compreende o quanto a humanidade pode ser desumana.


Pheby
Sadeqa Johnson
Tradução Davi Boaventura
TAG - dublinense
2021 - 318 páginas

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sexta-feira, 15 de julho de 2022

Luxúria

 

Sinopse: Edie tem vinte e poucos anos e está tentando descobrir quem é e o que quer ser ― tudo isso enquanto trabalha numa editora e faz as piores escolhas amorosas possíveis. Pela internet, ela conhece Eric, um homem branco de meia-idade que tem um casamento aberto e com quem inicia um relacionamento. Quando Edie perde o emprego, a esposa de Eric, Rebecca, convida a jovem para passar um tempo em Nova Jersey, onde vivem com Akila, a filha adotiva do casal ― que também é negra. Com essa nova dinâmica familiar ― marcada pelas tensões políticas, sociais, econômicas e identitárias dos tempos atuais ―, as intenções e os pontos de vista de todos os personagens estarão em xeque. E, assim, através de um emaranhado de raiva, dor, ternura e afeto, Edie talvez consiga compreender mais a respeito de si mesma, de seu talento e de seu lugar no mundo.

Existe uma frase que diz para o leitor não julgar um livro pela capa. No caso de Luxúria da escritora norte-americana Raven Leilani, nem a capa nem o título. Pois ao contrário do que um leitor desavisado possa imaginar, não se trata de um livro sexy e muito menos recheado de cenas quentes.


A História

Edie é jovem, órfã e divide um apartamento que é uma pobreza só. Enquanto sonha em fazer um curso de artes e faz as suas pinturas em casa, ela trabalha em uma editora. E entre as revisões de livros entra em sites de relacionamento ou tem casos relâmpagos com os seus colegas, sem distinção de cargo. É quando conhece Eric, um homem mais velho, branco, classe média, que foi autorizado pela esposa a ter casos. 

Mas o alinhamento dos astros não está a seu favor, e simultaneamente ela perde o emprego e recebe o aviso de sua colega que está indo embora. Sem dinheiro para pagar o aluguel sozinha, ela se vê sem eira nem beira, entrando para o serviço de entregas. E em uma delas ela encontra Rebecca, a médica legista esposa de Eric, que resolve ajuda-la levando Edie para a sua casa.

 

Da primeira vez que transamos, ambos estamos de roupa, sentados diante das nossas mesas em horário comercial, mergulhados na luz azul da tela do computador.


E assim, esposa, marido, amante e filha adotiva começam a dividir a rotina enquanto tentam encontrar os seus próprios papeis dentro da inusitada situação.


A escrita de Raven Leilani

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, toda a visão que temos da história é do ponto de vista de Edie, sendo ele recheado de referências musicais, filmes, séries, games e mundo jovem, o que podem deixar alguns leitores perdidos e buscarem serem salvos pelo Google.

Ao usar um título facilmente associado ao erotismo, a escritora entrega ao leitor uma história recheada de violência, pois Edie foi criada de uma forma a não saber lidar com o amor, e assim não tem nenhum - nem o próprio -, o racismo também é presente, principalmente na figura da adolescente Akila, a menina negra adotada por brancos que aguenta toda a pressão de morar em um bairro branco, frequentar uma escola de brancos, apenas para não ser devolvida mais uma vez.

Eu, por outro lado, tenho uma consciência aguda de todas as maneiras como posso morrer.


Por focar na rotina desta estranha família que se forma de maneira um tanto repentina, Raven Leilani tem uma história linear, com alguns momentos de atração e repulsa entre os personagens, mas sempre vivendo o momento presente, e sabendo muito pouco o que os outros personagens realmente pensam.

Em relação a parte profissional, a história de Edie na editora me lembrou muito um livro já resenhado aqui no blog chamado A Outra Garota Negra, só que neste segundo caso o foco está todo no meio empresarial. Em Luxúria, é uma etapa rápida da vida da protagonista, uma pitada para trazer a questão da diversidade dentro das empresas.

Eu e a menina que mora comigo estamos sustentando uma família de ratos há seis meses.

Outro detalhe interessante na escrita da história é que os homens são meros coadjuvantes, não havendo muito interesse sobre a sua presença ou suas opiniões, mesmo Eric é apenas uma forma de aproximar Edie e Rebecca.


O que eu achei...

Não gostei nem desgostei de Luxúria. Achei a história interessante, mas realmente não me cativou. Inicialmente achei a leitura bastante arrastada, pegando um ritmo e assim, mais fluidez, quando já havia passado das primeiras cinquentas páginas. Mas mesmo assim não foram raras as vezes que eu parei a leitura sem finalizar um capítulo, algo que eu normalmente evito fazer.

Em contrapartida ele poderia ser facilmente uma história real, onde pessoas perdidas se encontram na internet e por um período da vida se tornam uma espécie de família.

Sou boa, mas não boa o bastante, e isso é pior do que só ser ruim.


Mas isso é o eco que a leitura deixou em mim, e como ele tem como base assuntos bem relevantes, como racismo, diferença de classes - o casal é classe média e Eddie muito pobre -, passando pelo que as mulheres abrem mão no seu casamento até o próprio empoderamento feminino, ficando a dica para quem se interessar. 

Afinal, gosto não se discute, muito menos o literário, e ao contrário de mim, ele pode muito bem ganhar o seu coração.


Luxúria
Luster
Raven Leilani
Tradução: Ana Guadalupe
Companhia das Letras
2020 - 229 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Creio que um dos motivos que a leitura não me cativou foi a própria protagonista da história, aos vinte e poucos anos ela é o retrato de quem não recebeu as bases adequadas durante a infância, tornando-se uma jovem adulta totalmente perdida, que parece não buscar uma saída para ter uma vida diferente da que vive.

Bate de novo, eu digo, e dessa vez é mais forte.


Ela consegue se relacionar sexualmente com praticamente todos os homens que encontra, o que me fez pensar inicialmente se era uma busca inconsciente pelo trio amor - carinho - atenção, mas em outros momentos, devido a própria criação, ela parece não saber lidar com isso. As cenas em que ela se sujeita por vontade própria a violência física de homens me deixaram na dúvida se Edie gostava ou buscava ser punida por algo que nem ela sabia a razão. 

O que é bastante chocante para quem não gosta de nenhum tipo de violência, deixando aquelas interrogações flutuando nas páginas e um certo embrulho no estômago por ela se sujeitar a isso.

Você é a namorada, ela diz, sem ira nem julgamento, o que de certa forma é ainda pior.


Profissionalmente ela acessa sites indevidos em um computador monitorado, o que pra mim enfraqueceu o discurso de cotas de diversidade dentro de uma empresa. Assim como a fúria com o chefe, como se dormir com ele fosse um passaporte de estabilidade. 

O sentimento que fiquei em relação a Edie, já que o livro não dá um vislumbre de futuro, é se na convivência com Rebecca e Akila ela conseguiu amadurecer, se aprendeu alguma coisa depois das últimas vivências, ou se ela iria seguir vivendo a vida no ritmo do nada para lugar nenhum.

Sempre há alguma forma de documentar como conseguimos sobreviver, ou, em alguns casos, como não sobrevivemos.


Falando em Rebecca, confesso que ela foi a grande interrogação do livro pra mim, já que não se sabe o que se passa pela cabeça dela, apenas as suas atitudes, que podem ser contidas, solidarias, repletas de raiva, ou de indefinição pura.

Pois é impossível não sentir curiosidade por uma mulher que não só permitiu ao marido buscar outras mulheres como participou da escolha, que se surpreende com a juventude da amante e em um momento tenso a acolhe em casa, mesmo sabendo que ela já dormiu com o seu marido na sua cama, e não tendo nenhuma obrigação disso.

Eu acordo de manhã e por um instante penso que sou uma pessoa mais feliz, mas em seguida me lembro de onde estou.


Tem também a questão da adoção, Rebecca não tem o desejo da maternidade, e cede ao desejo de Eric ao adotar Akila, mas mesmo assim não consegue ver o que atormenta a menina. Ou, aí entra a minha teoria, a escolha de Edie não foi aleatória desde o início, e ela já via na garota uma chave para entender a própria filha?

Pois sim, é Edie que abre a caixa de pandora que são os problemas cotidianos de Akila. Do não saber cuidar os cabelos até a dificuldade de se enquadrar em um mundo que não lhe abraça.

Mas, quando vejo como ela está decidida, a facilidade com que afirma o que lhe pertence, sinto inveja.


Aliás, o que mais mexeu comigo foi a história de Akila, a menina que está no início da sua vida adolescente e já passou por várias devoluções. A cena da festa de aniversário, que ela não desejava ter e os pais insistiram em fazer é emblemática, quando apenas dois colegas comparecem gerando uma situação de constrangimento e o retrato nítido de como ela é isolada na escola.

Mesmo assim é ela que vê Edie como uma ameaça, pois se ela destruir o casamento dos seus novos pais, a chance de ser devolvida é grande, e ela não só quer, como precisa de estabilidade. Ao mesmo tempo é bonito quando ela começa a se enxergar em Edie, uma referência em um mar de pessoas tão diferentes. 

Você deveria agradecer, ela diz, a luz da TV lhe iluminando o rosto, você tem todo o tempo do mundo.


Tudo isso até o choque de ambas serem paradas na porta de casa pela polícia, sendo humilhadas só por estarem em um bairro que na cabeça dos ignorantes elas não deveriam pertencer. E aqui temos o racismo pulsante e escancarado, doentio e vergonhoso, ao qual ainda não inventaram vacina ou remédio para curar.

Ficando assim a grande interrogação de como aqueles meses impactaram na vida das três mulheres, se tudo continuaria igual ou elas teriam uma nova visão em relação as suas vidas, tanto do lado profissional quanto no pessoal.


terça-feira, 15 de março de 2022

Pesado



Sinopse: Uma memória, uma confissão, uma catarse. Entre relatos dilacerantes e sempre vigiado por uma onipresente (e rígida) mãe, Kiese Laymon disseca sua própria vida neste que talvez seja um dos livros mais sinceros dos últimos anos. Um texto escrito não só com palavras, mas também com dor, ginga, peso, subversões da língua e abundância negra. E que reverbera dentro de nós uma pergunta de difícil resposta: até onde a vida nos dobra?

Em janeiro/22 recebi como associada da TAG Curadoria a indicação da maravilhosa escritora Alice Walker chamado Pesado, livro de memórias do autor e professor Kiese Laymon. De mimo recebi um planner para o ano de 2022.

A primeira coisa a se dizer é que Pesado pode ser definido como mais do que um livro. Ele é uma carta, um desabafo, o abrir de um coração com todas as suas dores, mágoas, perdas, complexos e reflexos que levam o leitor através da escrita vestir por algumas páginas todo o peso que um homem carrega desde os primeiros anos de vida.

Eu não queria escrever para você. Eu queria escrever uma mentira.


E por este motivo Pesado entrou na minha categoria de livros que são difíceis de resenhar, apenas porque parece que não há palavras suficientes para explicar a forma como ele mexe com diferentes sentimentos, sejam eles de identificação ou de incredulidade as ações das pessoas. Mas irei tentar.

O autor e professor Kiese Laymon divide suas memórias em quatro partes, mais uma introdução e o capítulo que fecha o livro, mas não a sua história.

A palavra que me surgiu na cabeça foi "felitristeza", assim mesmo, sem espaço e sem hífen, aglutinada.


Como uma carta para a mãe, ele retorna à adolescência e compartilha segredos antes guardados da figura materna, as surras levadas que marcam sua pele, a ansiedade e tristeza que se transformam em uma compulsão por comida, os sentimentos em relação a própria família e os homens com os quais sua mãe se relaciona.

E assim, em cada parte que se inicia, é possível observar que ele cresce não só fisicamente em altura e peso, como em relação a sua visão de mundo, tendo em um primeiro momento um espírito jovem cheio de esperança e força para escolher as suas próprias lutas, nem sempre atuando da melhor maneira conforme sua mãe, até chegar à vida adulta.

Vovó gargalhava e gargalhava até a risada dela se acabar quando eu chamava aquele queijo do governo de queijo afro-americano gourmet.


E conforme ele precisa se dobrar aos que estão em sua volta e se reconstruir, é necessário engolir os próprios sapos, cair, quebrar e se levantar. E foi assim que algumas das suas reações me fizeram lembrar de uma música da Elis Regina, começou com aquela parte que diz 'Ainda somos os mesmos, E vivemos, Como os nossos pais' até na minha mente ela abraçar o próprio livro.


O que você irá encontrar...

O Pesado do título é literal e mental. Kiese Laymon é um jovem gordo e negro, vivendo em no sul dos Estados Unidos, sendo mais específica, no Mississippi, onde o racismo pulsa devido a uma parte da população querer subjugar a outra com base em critérios de puro achômetro, acreditando em uma superioridade nunca comprovada.

Desde os primeiros anos este jovem verá a violência sexual e física de meninas e mulheres enquanto lambe as suas próprias feridas após apanhar de uma mãe raivosa, que parece descontar no menino o que não consegue controlar. Enquanto o pai é uma figura muito distante, ao qual as vezes até esquecemos da sua existência.

Às vezes você me batia com toda a sua força bem no meio da minha boca com cintos, sapatos, punhos e cabides.


Este menino também irá crescer e viver com pedidos como não ande a noite, não corra, cuidado com o corte de cabelo...nunca se sabe o que a polícia irá pensar. Até chegar à universidade e ser hostilizado pelo que ousa escrever e publicar, e mais tarde ver que nem sempre terá reconhecimento, por mais que se esforce.

E assim os leitores terão uma visão realista das escolhas, da humilhação e do sofrimento imposto por tamanha desigualdade enfrentada pela comunidade negra nos Estados Unidos, mesmo eles sendo tão americanos quanto os brancos que o julgam.

Ser duas vezes mais excelente do que os brancos vai te conseguir metade do que eles conseguem.


E como é impossível se manter 100% são nestas condições, Kiese Laymon apresenta compulsão, e esta compulsão também irá se modificar ao longo do caminho, tendo outros direcionamentos enquanto ele cresce. E embora ela mude o foco, em nenhum momento desaparece de sua vida.

Mas apesar de tudo, ele não desiste, e se o jovem Kiese desperta o desejo de entrar no livro e acolher o menino em um forte abraço, o homem Kiese provoca o desejo de lhe dizer: levanta e não desiste, sua luta é justa, siga evoluindo, aprendendo e fazendo a diferença.


O que eu achei...

Eu gostei muito da leitura. Quem acompanha o Instagram do blog deve ter notado uma longa distância de tempo entre uma leitura e outra, justamente porque Pesado não é um livro para se ler rapidamente.

O tempo inteiro ele mexeu com os meus sentimentos, algo em mim doía quando ele apanhava sem motivo algum, algo em mim entendia quando ele tentava transformar o que lhe consumia em atos como comer ou fazer muito exercício. 

Eu queria o dinheiro, a segurança, a educação, as escolhas saudáveis e as segundas chances que eles nos proibiram de ter.


Ao mesmo tempo achei muito interessante o uso frequente de uma frase, que aparecia nas situações mais tranquilas e harmônicas onde ele dizia que alguém deu risada e deu risada e deu risada até que a risada acabou. Nesta hora algo era aquecido com o calor daquela gargalhada que parecia sem fim.

Um livro para sentir o racismo na prática, sem lente de aumento, sem anestesia, onde é impossível não sentir raiva com as situações diversas.

E eu sabia que o poder de cometer abusos destruía o interior dos homens tanto quanto destruía o interior e o exterior das mulheres.


De bônus há muitas referências literárias, afinal, ele além de ser professor vem da casa de uma professora, e os livros são instrumentos cotidianos de informação e educação.

Como não sei se consegui transcrever em palavras tudo o que senti, fica apenas a dica: leia. 


Pesado
Heavy, an american memoir
Kiese Laymon
Tradução: Davi Boaventura
TAG - dublinense
2018 - 288 páginas

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