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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Crime e Castigo




Terminei finalmente de ler Crime e Castigo de Dostoiévski. Depois de várias pausas, retomei e, com algum esforço, consegui acabar. Não é digamos uma leitura de férias, pois o livro é denso ao extremo, cansativo, cheio de detalhes. 

Conta a história de um rapaz que comete um duplo assassinato - ele mata uma velha agiota para roubar seus bens e acaba matando também a irmã que aparece no local - e depois vive um drama psicológico devido ao sentimento de culpa e arrependimento. Tanto que não consegue usufruir do que rouba e acaba enterrando sob uma pedra em algum lugar em via pública. 

O mérito da obra, na minha opinião, está justamente nos fluxos de consciência dos personagens, seus medos, desejos e apreensões. O leitor vive intensamente o drama e a loucura do assassino e o peso de seu ato e acaba até torcendo por ele, por verificar que, no fundo, não é má pessoa, é um doente que cometeu um erro fatal.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu Guri - David Coimbra




Li “Meu Guri” do David Coimbra. Me rendi, o livro é ótimo. Digamos que eu gostaria de tê-lo escrito, mas com a visão materna. Quem sabe? 

Quando uma amiga me recomendou, fiz bico e disse que não gostava do que o autor escrevia. Mas tem razão quem redigiu as orelhas do livro ao dizer que o filho transformou-o e que o assunto “paternidade” passou a ser o melhor assunto do David. 

Eu mesma já tinha constatado isso nas crônicas “pós-parto” do autor, antes mesmo de ter minha percepção confirmada por mais alguém nas orelhas do livro. Dá para ver que o livro foi escrito com amor de pai, recém descoberto. 

É cheio de pequenas histórias que vão desde o espermograma, passam pela gravidez da mulher, o nascimento e a sequência de meses de vida do gurizinho. Têm algumas narrativas de chorar de tanto rir, como aquela em que a mulher inventa de fazer um book fotográfico nua e a que ele narra sua primeira troca de fraldas. 

Em compensação, também dá para se emocionar com o autor descobrindo o amor pelo filho quando de seu nascimento e ao falar da avó em seus últimos dias, comparando o amor da senhora pelo autor com aquele que ele sente pelo filho: é incondicional. 

Ainda assim, basta um sorriso daquele pequeno ser para tudo ser recompensado. A conclusão a que se chega é que qualquer ser humano, por mais insensível, não resiste a um bebê, não tem como não se apaixonar por um filho.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cordilheira




Anita é uma jovem e talentosa escritora. Ela acaba de levar um fora de seu namorado. Para piorar seu momento, uma de suas melhores amigas resolve se suicidar. 

E é neste espaço de tempo, que a escritora decide ir à Buenos Aires para o lançamento da tradução argentina de seu romance. Ainda sob o impacto do fim do relacionamento e da perda da amiga, Anita conhece José Holden - também escritor e seu fã. 

A partir do momento que os protagonistas vão se conhecendo, eles vão se envolvendo - apesar de ambos relutarem. Anita quer realizar seu sonho: engravidar e regressar para o Brasil (já que não pôde ter um filho com Danilo, decide engravidar de José). E José é daqueles escritores que encarna o personagem - essa é a sua prioridade. Aliás, seus amigos- também escritores, fazem o mesmo.

Cordilheira é o terceiro romance de Daniel Galera. A obra faz parte da coleção Amores Expressos - projeto no qual autores brasileiros escrevem romances ambientados nas mais diversas cidades do mundo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Por que sou gorda, mamãe? - Cíntia Moscovich




Neste livro, a escritora gaúcha, misturando drama e humor, conta sua trajetória para perder peso depois de ter acumulado vinte e dois quilos extras, ou cento e dez tabletes de manteiga, como ela mesma refere. 

Procurando as causas de seu tamanho, faz um reencontro com seu passado, vivido no seio de uma família judaica de pai e mãe, onde comida não podia faltar jamais, era acompanhamento para alegria ou tristeza. 

As lembranças da infância da autora-personagem e de seus parentes desfilam divertidas pelos capítulos, alternados com a narrativa do sacrifício para emagrecer, considerando o histórico de comilança de uma vida inteira e a predisposição genética às formas arredondadas. 

O truncado relacionamento com a mãe é abordado com humor um pouco ressentido: nenhum filho sai imune às marcas do convívio materno – seja para o bem ou para o mal. Ainda mais quando o amor de um filho nunca é suficiente para uma mãe judia, a menos que ele, dentre muitas outras exigências, telefone e a visite, no mínimo, todos os dias da semana, bem como dê mais atenção à vida da mãe judia que à sua própria. 

A autora brinca com seu passado e seu presente, de forma irônica e engraçada, mas não deixa de emocionar quando fala da perda do pai e das dificuldades de lidar com a mãe. A leitura é agradável e fluente de capa a capa, permitindo que o todo responda à pergunta que intitula o livro.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Brida - Paulo Coelho




A obra Brida pode ser caracterizada como um texto de auto-ajuda de esoterismo, pois narra a trajetória de uma jovem que procura a compreensão de si mesma através do descobrimento de conhecimentos de magia. 

Como os demais textos do gênero, em geral, apresenta-se como um guia, uma metodologia para a conquista do sucesso material ou realização pessoal, que no caso consubstancia-se através da história da personagem e seu crescimento pessoal, descobrindo-se como feiticeira. 

O autor, utilizando-se da fórmula da auto-ajuda, aproveita-se da constante busca do ser humano por poder, status, felicidade, etc, para apresentar soluções fáceis, baseadas em uma filosofia rasa, que vai seduzir as camadas médias urbanas – principal consumidora dessa literatura. 

No primeiro capítulo de Brida, já se percebem os primeiros elementos característicos do livro de auto-ajuda: o autor quer ensinar algo. Por meio da experiência da personagem na floresta escura sozinha, o autor quer mostrar que a fé pode fazer a pessoa sentir-se protegida e vencer o próprio medo. A evocação de Deus naquele momento, de trechos da bíblia que a avó da moça costumava recitar para ela, bem como de outras lembranças de sua infância fazem com que se sinta calma e vença o medo de estar sozinha na floresta à noite, tanto que consegue relaxar e adormecer. 

Quer o autor ensinar que as pessoas também, a exemplo de Brida, se tiverem fé em Deus, ou em algo que acreditem, vencerão seus medos. Para ilustrar, transcreve-se o seguinte trecho, retirado da página 24: “Tinha fé. E a fé não deixaria que a floresta fosse de novo povoada por escorpiões e cobras. A fé manteria seu Anjo da Guarda acordado e velando. Recostou-se de novo na rocha e dormiu sem perceber.” Na medida que a personagem vai aprendendo e tirando lições dos acontecimentos é que se percebe a intenção do autor de que o leitor também tire lições. 

Brida é o leitor, que está sendo ensinado. Está, também, visível, no texto, outro elemento da literatura de auto-ajuda, que é a ilusão da onipotência, isto é, promessa de apresentar algo que vai mudar a vida do leitor, que vai fazê-lo superar o que o aflige. No caso, o autor apresenta um tipo de crença, ligada à magia, que vai preencher a lacuna deixada pela religião na busca pela solução dos problemas existenciais das pessoas. 

Essa crença vai sendo apresentada no livro na medida em que vai se dando o aprendizado da personagem a esse respeito. Geralmente é uma solução mais fácil e imediatista ,que seduz o leitor a aceitá-la, pois responde aos seus anseios. 

O autor se utiliza também da repetição, outro elemento característico da auto-ajuda, para desenvolver a história. Recorre a todo tempo às lições que Brida angariou de suas experiências de magia com o Mago e com Wicca, sua mestre, e vai acrescentando outras. Verifica-se essa retomada em vários trechos do livro, quando a personagem relembra a experiência na floresta, e associa com fatos cotidianos, dizendo que “a vida é uma noite escura” e refere-se às revelações da lua para interpretar outros fatos que lhe acontecem. 

A presença de elementos do imaginário popular (crenças) como filosofia espiritual estão em todo o texto como linha norteadora. No caso, ele explora a crença de que certas pessoas possuem um determinado dom para a magia que as permite entender e interpretar o mundo de maneira diferente e aqueles que dominam o dom podem ajudar os outros que não têm. 

Conforme ensina RÜDIGER , os textos de auto-ajuda utilizam-se, também, de relatos de pessoas que aplicaram as técnicas para a solução de seus problemas, atuando como modelos para os leitores, que acabam se convencendo de que, se outras pessoas conseguiram, eles também conseguirão. É uma maneira de aproximar a realidade ao leitor, para que não fique apenas absorto na teoria demonstrada. 

O autor apresenta a teoria e a comprova com o testemunho de alguém que teve sua vida modificada pela auto-ajuda. Os relatos podem ser místico, egoísta ou ascético. No relato místico, o interelocutor utiliza-se dos exemplos de pessoas que encontraram a solução para seus problemas no seu “eu interior”. O remédio para os seus males reside no controle da mente e no contato com o eu superior. 

A felicidade e a paz de espírito requerem a superação dos desejos egoístas, encontram-se no caminho contínuo e insistente do conhecimento. Já no relato egoísta, a exploração ordenada dos recursos interiores e do potencial humano não objetiva de maneira imediata a solução dos conflitos morais que vitimam nosso eu, mas se relaciona antes com o desejo de “fazer com que as pessoas não apenas o estimem”, mas também “realizem aquilo que você deseja”, nos vários campos da vida social. 

No relato ascético, o entendimento terapêutico combina o crescimento pessoal e a prática do pensamento positivo. Determinada pessoa conta para o leitor como, através de uma atitude mental positiva, atingiu o sucesso. Partindo da máxima de que o pensamento é a forma mais potente de sugestão, relata como o subconsciente transforma um desejo ardente em realidade quando o indivíduo acredita que pode alcançá-lo, fazendo com que aja para conquistar seus objetivos. 

Essa experiência apresenta um elemento a mais que os relatos anteriores, consubstanciada na atitude positiva na direção do que almeja. Na obra Brida, verifica-se a utilização de um tipo narrativa que se aproxima do relato místico. 

Apesar de ser uma obra de ficção, a história de Brida funciona como uma parábola, em que há espaço para a interpretação do leitor, no sentido de que busque em sua crença pessoal a solução de seus problemas. Explica-se o sucesso da literatura de auto-ajuda pelo fato de que a própria mídia estimula a busca da realização pessoal, por meio da divulgação de novos fenômenos que propiciam o crescimento do ser humano e, então, nomenclaturas comumente relacionadas a esoterismo, pensamento positivo, etc., passam a fazer parte do dia-a-dia e a serem exploradas pelos autores. 

Daí que podemos afirmar que o público-alvo dessa literatura é a classe média urbana, sedenta por resolver seus problemas por meio das “receitas de sucesso” apresentadas, especialmente por autores intitulados “magos” como é o caso de Paulo Coelho. A linguagem utilizada, como no caso de Brida, vai estar relacionada com termos e assuntos esotéricos ou do pensamento positivo. 

O leitor, diferentemente do self-made man do passado, que precisava trabalhar para atingir seus objetivos, será estimulado a simplesmente aplicar as técnicas esotéricas ou mentais ensinadas para obter sucesso. Basta seguir a fórmula ali indicada, e a pessoa alcançará o que almeja. 

Os livros de auto-ajuda pretendem ocupar a lacuna deixada pela religião, oferecendo soluções fáceis de bem-estar. Há uma promessa, que é apresentada no texto de resolver os anseios do leitor, onde, ao final, será demonstrada “a fórmula”, “a solução” de como fazê-lo. Geralmente convencem o leitor de que a técnica já foi amplamente testada e comprovada, tornando o caminho mais fácil, pois o leitor não precisa entender como e por que ela funciona, basta acreditar nos seus efeitos para provar seus frutos.

No caso de Brida, o autor não chega a apresentar uma fórmula pronta, mas conduz o leitor à crença de que é possível resolver seus próprios problemas com sua força interior e que será feliz quando encontrar sua outra metade. Essa “receita" de como apreender o real através da força da mente ou força interior (ao invés do trabalho, estudo, etc.) é que faz com que os livros de auto-ajuda sejam amplamente consumidos atualmente, pois em conformidade com a velocidade das transformações de um mundo globalizado, onde o imediatismo regula as relações e as pessoas não tem tempo para esperar os resultados, querem as respostas imediatas.

sábado, 11 de julho de 2009

Quem nasceu para cintilante nunca chega a francesinha- Magali Moraes




O livro é tão divertido quanto o título sugere. A leitura simples e engraçada permite uma rápida identificação de nós mulheres com as situações vivenciadas pela personagem Marcela, uma mulher comum que se pune por não ter tempo de fazer as unhas. 

Como disse o Luís Augusto Fischer na apresentação do livro, é uma “crônica espichada” ou uma “novela cronicada”. Permite-nos refletir sobre o universo feminino e tudo que envolve entre a escolha de um impensável esmalte cintilante e uma chiquérrima unha à francesinha, passando por dificuldade para fazer dieta, falta de tempo para a academia, análise psicológica dos donos de cachorro de apartamento, um sutiã azul esquecido no banheiro do trabalho, as insuportáveis festas de aniversário de criança, o marido e sua saída à francesa das responsabilidades, além, é claro, da falta de tempo para fazer as unhas. 

 A história de Marcela é narrada com humor e leveza e prende até o final. Quando você vê, leu o livro numa assentada. Leitura de férias, anti-stress!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Onde andará Dulce Veiga?



Nesse romance de Caio Fernando Abreu, o narrador é o próprio protagonista que procura por Dulce Veiga, uma cantora da década de sessenta, que desaparecera misteriosamente. 

O leitor embarca com o narrador nessa busca frenética, vinte anos depois do desaparecimento da cantora, que vira uma fixação para o protagonista, revelando-se uma procura por ele mesmo, mais do que isso, confunde-se com a do próprio autor. 

A narrativa começa demonstrando a apatia do personagem principal perante a vida, mesmo tendo conseguido um emprego como jornalista, que poderia tirá-lo do marasmo e da falta de dinheiro. No decorrer da trama, entende-se a razão daquele torpor: uma paixão intensa por outro homem, Pedro, que apareceu e desapareceu de sua vida misteriosamente, deixando-o desnorteado, tira-lhe o prazer e o gosto de viver. 

O homossexualismo, caracterizado em muitos contos de Caio Fernando Abreu, transpassa toda a obra, bem como o medo da AIDS, que aterroriza o jornalista e a roqueira Márcia, que não têm coragem de procurar um médico quando caroços sintomáticas da doença começam a aparecer no pescoço e outras partes do corpo. 

A dúvida em saber se seriam ou não soro positivo atormenta os personagens e faz pensar se não seria reflexo do mesmo tormento que assolava o autor e que ele deixa transparecer no romance. Há, ainda, o fantasma de Igor, namorado da roqueira Márcia, que teria morrido de AIDS, retratando a realidade difícil da perda de pessoas, na época, vítimas da enfermidade, quando ainda não se sabia direito o que era essa doença. 

O romance foi escrito entre 1985 e 1990. Daí explica-se o tema da ditadura, também recorrente, pois ainda presentes seus efeitos, remetendo os leitores a um período em que as pessoas desapareciam por questões políticas, dando a entender que Dulce Veiga teria sumido por se envolver com pessoas ligadas a assuntos contrários aos interesses de quem estava no poder na época. 

Outras questões também são tratadas pelo autor, como a violência urbana, as drogas, o desencanto com o movimento das “diretas já”, que não atingiu seu objetivo. 

Embora haja uma seqüência cronológica - cada capítulo tem o nome de um dia da semana –, há vários flashbacks, pois o narrador lembra de vários fatos do passado, dele com Pedro e de quando teria entrevistado Dulce Veiga. 

Não deixa de ser um tempo psicológico, pois o romance em muitos momentos é intimista, há o pensamento do personagem, e esse não é linear, não corre de acordo com andamento cronológico dos fatos. O narrador está completamente confuso e perdido na vida, e, por isso deixa transparecer várias ambigüidades: mostra-se inseguro para lidar com seu homossexualismo ou heterossexualismo (não sabe se gosta de homem ou mulher); a busca por Dulce Veiga se confunde com a própria busca por si mesmo. 

Há uma tentativa do personagem desesperada de se encontrar e por isso ele começa a enxergar Dulce Veiga em vários locais, como uma alucinação, que ele segue como um louco, numa alusão à perseguição da compreensão que ele visa a atingir sobre o seu eu. 

Ao final, o encontro com Dulce Veiga revela um eu egoísta, que abandona tudo para buscar a si mesmo. No caso, Dulce Veiga deixou de lado a filha pequena, o marido, os amigos, a própria carreira, como se, para encontrar a si mesma, fosse necessário renunciar a todo o resto. As pessoas sofrem sua ausência - principalmente a filha Márcia, mas também os fãs e o amante Saul, que enlouquece – porém ela parece não se importar, porque ela própria está feliz, em um lugar distante, e isso lhe basta. 

As semelhanças com a vida do autor não são por acaso, visto que ele vivia uma situação de conflito, pela descoberta da AIDS e toda a angústia e sofrimento pela incerteza e percepção da efemeridade da vida que isso acarreta. Talvez o desaparecimento de Dulce Veiga significasse o seu próprio desaparecimento precoce em virtude da AIDS, onde deixaria tudo e todos para trás, porém com a recompensa (ou esperança?) de ir para um lugar melhor, onde dor e medo não existiriam, apenas a felicidade alcançada pela compreensão do significado da própria existência.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Homem Comum




Philip Roth - premiado por diversas de suas obras como Pastoral Americana(1997), em que ganhou o Pulizer Prize, a National Medal of Arts(1998) e a mais alta premiação da American Academy of Arts and Letters, a Gold Medal for Fiction (2002); e Complô contra a América, que foi premiado como o melhor romance histórico de tema americano, pela Society of American Historians em 2005 - recebeu mais três premiações, desta vez por O Homem Comum: o PEN Nabokov Award (2006), o PEN Saul Below Award (2007) e o PEN Faulkner Award. 
Na obra, O HOMEM COMUM, deste renomado autor da literatura americana, encontramos uma profunda e tocante reflexão sobre a vida e a luta pela sobrevivência, construída partir das memórias do personagem sem nome, um homem comum, que tantas vezes enfrentou a morte. 

Na retomada das lembranças passadas, por meio de um exercício mental do personagem, que faz um balanço da própria vida e das dificuldades que enfrentou, o autor nos leva pensar sobre questões que podem acometer a todos nós. Isso se dá, por exemplo, quando ele discorre sobre os problemas cardíacos do personagem principal ou de saúde dos seus vizinhos de condomínio, a dificuldade de envelhecer e não mais conseguir fazer o que fazia antes, os laços construídos ao longo da vida, para depois morrer doente e sozinho. 

Utilizando-se de uma narrativa retrospectiva, que foca diversas passagens da vida do personagem, para frente e para trás, como o movimento de uma câmera, permite-nos viajar nas mesmas preocupações e anseios que acometem o protagonista, na luta pela sobrevivência, após já estar aposentado e morando sozinho, em um condomínio de aposentados: a solidão, o medo da morte, o arrependimento por erros cometidos, a angústia e a culpa por achar que é tarde demais para corrigi-los. 

O leitor vê-se plenamente familiarizado com os conflitos psicológicos e físicos enfrentados pelos idosos, caracterizados pela luta contra a dor, a doença e o próprio corpo, que não acompanha seus desejos e a juventude de seus cérebros, o que pode causar grande desconforto, dada a percepção da própria finitude. 

O horror do personagem de ver morrer os amigos, também de idade, à sua volta, faz com que se questione quando será a sua vez e traduz todo o emaranhado de sentimentos e dúvidas quanto a vontade de viver e o preço a pagar, quando não se tem saúde. Lutar por mais um dia ou resignar-se? 

Uma história que emociona, pelo realismo de suas cenas. Até os mais jovens vêem-se forçados a fazer um balanço de suas vidas, refletindo sobre o seu próprio processo de envelhecimento e morte e o de seus pais. Chega-se a certeza de que ninguém está preparado para envelhecer, muito menos para morrer.

Quando isso acontece, abandona-se tudo sem resolver. Mal entendidos ficam sem esclarecimentos; brigas, sem reconciliação; e o doloroso arrependimento, de parte dos que sobram, por não ter corrigido os erros no tempo certo. Somos obrigados a deixar tudo como está, arrumado ou de pernas para o ar, não dá tempo de fazer as malas. A única coisa que levamos são os laços que formamos com as pessoas, por meio das quais poderemos ou não nos perpetuar.