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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O desabamento


Sinopse: Fruto do primeiro casamento de sua mãe, o irmão de Louis é o mais velho dos cinco filhos. Logo nas primeiras linhas deste romance, que é considerado um dos mais sombrios do autor, o narrador afirma não ter sentido nada ao saber da morte do irmão. “Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo”, diz, a determinada altura. É tomando essa distância ― física e afetiva ― que o narrador esmiúça a existência de seu irmão, entrevistando pessoas próximas de seu convívio, como uma professora e algumas ex-companheiras, e relembrando momentos decisivos da relação fraternal. Para reconstruir esse personagem, o narrador se vale das ciências sociais, da literatura, da psicologia e da memória, resultando em um romance único e inesquecível, de força e sensibilidade inigualáveis.



No mês de Julho/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da própria TAG, que estava de aniversário: o livro do escritor francês Édouard Louis chamado O desabamento. O mimo foi um livro extra de poesias do chileno Pablo Neruda.

O romance de auto ficção O desabamento tem o próprio autor Édouard Louis como narrador da morte precoce do seu irmão mais velhos aos 38 anos, causada pelo seu alcoolismo, vícios e o conjunto de violência e fugas acumuladas em seu curto período de vida.

Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer.


Ao tentar reconstruir a história de vida do irmão, o autor precisa lidar com os seus próprios fragmentos de memória que o farão retornar a infância e adolescência em uma vila operária no norte da França, em um ambiente que combina pobreza e violência familiar e social.

Outro recurso utilizado é através de depoimentos e conversas com mulheres próximas do irmão, que entram como um fator a mais para analisar não só o que levou o seu irmão mais velho para um caminho de autodestruição, como das suas próprias feridas nesta relação que combina amor e desprezo.


A escrita de Édouard Louis

Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, o escritor e sociólogo francês Édouard Louis ficou conhecido por usar a sua história familiar para escrever romances de auto ficção.

Em seus romances temas como classe social, homofobia, pobreza, violência, busca por ascensão social e naturalmente, laços familiares são componentes frequentes em suas narrativas.

Ele disse que ia aprender uma nova profissão, com técnicas muito especificas, um saber que não é qualquer um que aprende, mas que ele, ele aprenderia.


O desabamento lançado recentemente faz parte de uma sequência de livros iniciados pelo seu primeiro romance "O Fim de Eddy", que conta a sua história, passando por narrativas que abordam também a figura da sua mãe e do seu pai.

Por ser auto ficção, a narrativa utilizada em O desabamento é em primeira pessoa, os capítulos são curtos e alguns questionamentos internos aparecem com frequência em alguns capítulos, lembrando um fluxo de consciência.

Meu irmão morreu. Eu resolvia essa frase na cabeça.


Também é utilizado a ênfase em determinadas frases, que além de serem a única informação, podem se repetir por mais de uma página, como uma forma de compartilhar o que martela na cabeça do escritor também na do leitor.


O que eu achei de O desabamento

Não são raras as vezes que junto com a morte são enterradas (ou queimadas) todas as dores e mágoas que a pessoa provocou em vida. 

Só que existem exceções, e em O desabamento o autor, na minha opinião, parece revisitar estas memórias para de certa forma entender a dor que permaneceu, apesar do irmão não poder mais feri-lo.

Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo: uma noite, nossos corpos se aproximaram por circunstâncias alheias á nossa vontade, e então entendi quem ele era, e o odiei.


E ao se recordar das mágoas, inevitavelmente também vem as boas lembranças, tornando tudo ainda mais confuso para quem não apenas busca o ombro dos amigos para saber se está correto, como divide toda essa carga psicológica nas páginas de um livro, dividindo com quem se deparar com ela.

No geral, eu achei a leitura boa, não havia lido nada do Édouard Louis antes, e em alguns momentos me solidarizei com a sua dor, pois outra coisa que desaparece com os mortos pelos quais os nossos sentimentos são controversos, são as respostas do por que não ser aceito? por que ser alvo de determinadas agressões? Entre tantos outros porquês que talvez só irão desaparecer com o tempo.

Será que escrevo porque essa dor faria com que eu me sentisse normal, um irmão como todos os outros irmãos, que chora a morte do outro?


Não achei ótimo pelo fato de em alguns momentos acha-lo repetitivo, o que também é natural, pois ao colocar todo o foco no que já foi, a mente tende a andar em círculos, o que é facilmente identificado no decorrer das páginas.

Por outro lado, esta repetição me fez pensar se existe culpa por não conseguir se livrar de toda a dor provocada. De não ser como muitas pessoas e só divulgar o que houve de bom, santificando quem muitas vezes nos infernizou. Tornando o livro também um desabafo de quem ficou e não sabe mais o que fazer com a carga emocional nuca resolvida.

Às vezes tenho a impressão de que a história do meu irmão é a história de uma Ferida lançada no mundo e sempre reaberta.


Já me disseram que o livro se torna ainda mais claro se for lido o primeiro romance do autor, O Fim de Eddy. E confesso que isso me despertou a curiosidade, para ver se terei os mesmos sentimentos em relação ao Desabamento, ou se o meu entendimento se ampliaria.

Ficando a dica para quem gosta de auto ficção, narrativas que envolvem conflitos familiares, ou que procura um livro rápido para ler.


O desabamento
L'effondrement
Édouard Louis
Tradução: Marília Scalzo
TAG - Todavia
2025 - 165 páginas
Publicado originalmente em, 2024

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Se adaptar


Sinopse: “UM DIA, NUMA FAMÍLIA, NASCEU UM MENINO INADAPTADO”. Assim começa a história do menino de olhos negros que flutuam para o nada, eternamente deitado, e dos seus três irmãos. Em meio à natureza poderosa das montanhas, são as pedras do muro da velha casa da família que testemunham suas trajetórias. O amor absoluto e protetor do mais velho, a rebeldia que a do meio assume para rejeitar a dor, a chegada do mais novo que cresce à sombra das memórias. Um livro magnífico e luminoso, sobre o laço infinito entre irmãos e a inesgotável capacidade humana de se adaptar.



No mês de maio/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da editora Ana Lima Cecílio, que foi o livro Se adaptar da escritora francesa Clara Dupont-Monod. O mimo foi uma obra inédita produzida em família de Rafael Coutinho e Laerte.

No sul da França, em uma região que a natureza e as montanhas se fazem presente, uma família tem sua vida totalmente alterada após o nascimento do terceiro filho.

Um dia, numa família, nasceu um menino inadaptado. Ainda que de uma crueldade degradante, é esse termo que dá a real dimensão de um corpo mole, de um olhar móvel e vazio.


O menino que nasce com uma condição não nomeada que o impede de se movimentar e interagir com o humano, gerando sentimentos diversos em seus pais e seus dois irmãos.

E é sobre esta necessidade de se adaptar a quem nasceu inadaptado que irá gerar relações complexas e diferentes do irmão mais velho e da irmã do meio.

Há milhares de anos, temos sido as testemunhas. As crianças são sempre as esquecidas das histórias.


Tudo em meio em uma narrativa sensível, que ao mesmo tempo que nos coloca no lugar do outro, nos enche de perguntas.


A escrita de Clara Dupont-Monod

A escritora e jornalista francesa Clara Dupont-Monod é conhecida por suas críticas literárias e a escrita sensível de seus livros, que tiveram como resultado duas premiações, inclusive o Prix Femina em 2021 por Se adaptar.

Em Se adaptar ela coloca as pedras para contarem a história do menino inadaptado e seus irmãos. Dividido em três partes, o foco está totalmente nos irmãos, sendo necessário estar atento aos detalhes para perceber o impacto sofrido também pelos pais.

Muito lhe disseram que o tempo cura. Na verdade, ele o mede durante essas noites, e o tempo não cura nada, muito pelo contrário.


As mudanças naturais no local onde a família são outro ponto de atenção, servindo tanto como um anúncio do que está por vir como uma metáfora de todas as transformações que ocorrem com os personagens que começam crianças e chegam à idade adulta na narrativa.

A escrita é ao mesmo tempo delicada, poética e real. Existe uma humanidade latente em cada um dos seus personagens, provocando o leitor sobre de que forma ele se adaptaria se vivesse situação semelhante.


O que eu achei de Se adaptar

Ao contrário do que é dito, não me pareceu que eram as pedras que estavam contando a história. Só me lembrava que eram elas quando as mesmas eram nominalmente citadas. Como se faltasse algo para gerar essa conexão, dando a impressão de ser uma narrativa simples em terceira pessoa.

No geral achei a narrativa uma mistura de tristeza, resiliência e revolta com todo o peso físico, financeiro e emocional de criar uma criança que não irá interagir com o mundo conforme o esperado.

Os primeiros enfrentavam, o segundo foi se fundindo. Para ela, não sobrava nada, nenhuma energia para sustentá-la.


O resultado de tudo isso é silêncio, solidão, negação e como diz o título, adaptação. Motivo pelo qual apesar do livro ser curto, aos poucos ele foi me gerando um cansaço, principalmente quando cheguei na última parte.

Cansaço semelhante ao encontrado muitas vezes nesta visão do que se passa dentro de uma família que tem as ilusões quebradas por algo que torna o seu filho inadaptado para a vida em sociedade.

Um senso de dever as guia. Elas vão estar sempre ali, vigias na noite escura, vão se virar para não sentir nem frio nem medo.


E são os filhos que acabam representando as diferentes reações. Começando pelo irmão mais velho que abdica de tudo para dar suporte e sente a dor de forma mais latente a ponto de se fechar para o mundo. E os pais simplesmente parecem não ter tempo de ver isso.

A irmã do meio é quem se envergonha e acaba por se revoltar por não ter mais a mesma rotina de antes. Mas seus atos já conseguem atrair mais os olhares tão ocupados com as dificuldades do dia-a-dia.

Sentia que não devia ser esse o seu papel, mas sentia também que o destino gosta de bagunçar os papéis e que era preciso se adaptar.


E por fim, tem o irmão que nasce depois e por influência da própria imaginação acaba indo parar a sombra do menino inadaptado. O que me gerou mais dúvidas e curiosidade do motivo pelos pais permitirem ou não perceberem isso. Para logo em seguida me lembrar que quando se trata de seres humanos quem está de fora enxerga melhor do que quem está dentro.

No geral é um livro que mexeu com a minha empatia ao mesmo tempo que gerava questionamentos e reflexões. Motivo pelo qual deixo a dica de leitura aqui. 


Se adaptar
S'adapter
Clara Dupont-Monod
Tradução: Diego Grando
TAG - Dublinense
2025 - 160 páginas
Publicado pela primeira vez em 2021


sexta-feira, 27 de junho de 2025

O Amante



Sinopse: Prêmio Goncourt em 1984, com mais de 2 milhões e meio de exemplares vendidos apenas na França, este romance autobiográfico acompanha a tumultuada história de amor entre uma jovem francesa e um rico comerciante chinês na Indochina pré-guerra. Com uma prosa intimista e certeira, Duras evoca a vida nas margens de Saigon nos últimos dias do império colonial da França e relembra não só sua experiência, mas também os relacionamentos que separaram sua família e que, prematuramente, gravaram em seu rosto as marcas implacáveis da maturidade.



Na Indochina francesa, uma adolescente de 15 anos órfã de pai mora com a mãe e dois irmãos. Filha de colonos franceses pobre, ela conhece em uma travessia de balsa sobre o rio Mekong um jovem com o qual terá um relacionamento intenso que envolve benefícios financeiros.

Filho de um rico empresário chinês, o homem de 27 anos, mesmo sendo mais velho, acaba sofrendo psicologicamente dos mesmos problemas que a menina, no que envolve tabus raciais e morais dos anos de 1920.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.


O que a empurra precocemente para esta relação é a sua família desestruturada, com um irmão extremamente violento e uma mãe que o defende, ao mesmo tempo que possui uma busca constante por dinheiro.

Um livro sobre memórias e traumas transferidos para as páginas em um romance curto, cuja densidade se alterna, e virou um filme não aprovado pela autora.


A escrita de Marguerite Duras

Considerada uma das escritoras mais importantes da literatura francesa do século XX, a autora Marguerite Duras nasceu na Indochina e no final de sua adolescência retornou a França para estudar.

Sua escrita tem por característica ser fragmentada, conseguindo ser emocionalmente contida e ao mesmo tempo profundamente sensível. O que fez com que fosse uma das figuras-chaves do movimento literário "Nouveau Roman" (Novo Romance francês) que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960.

A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha.


E este rompimento com as formas tradicionais de narrativa é encontrado em O Amante, sua obra mais conhecida que venceu o prestigiado prêmio de literatura francesa Goncourt.

O Amante é uma mistura de ficção com autobiografia, tendo como base a sua infância na Indochina e o caso amoroso que teve na adolescência com um homem mais velho.

Tudo começou assim assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à "experiência".


A narrativa é semelhante a um fluxo de consciência, com presente, passado e futuro dividindo o mesmo espaço sem ordem cronológica nem capítulos definidos. Como alguém que se senta no divã e conforme vai puxando o novelo de lã que é a sua vida, começa a trazer memórias, reflexões e pensamentos.

Dando um tom introspectivo na narrativa em primeira pessoa, onde nem tudo é explicito e não raro há situações que ficam mais na sugestão no que no detalhamento para o leitor.


O que eu achei de O Amante

Esta foi a segunda vez que leio o livro de Marguerite Duras. Havia recebido o livro em capa dura em uma coletânea de clássicos que o jornal do meu estado vendeu tempos atrás.

E acabei relendo por causa do encontro com outros assinantes da TAG Curadoria, já que a obra foi o livro de abril, ao qual pulei para não ficar com dois livros iguais.

Sei que não são as roupas que fazem a mulher mais ou menos bela nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos adornos.


Quando abri o livro já não tinha lembranças de sua narrativa, apenas a famosa base de que era o caso de amor de uma adolescente com um homem mais velho.

Ao reler, me deparei com uma família desestruturada, que apesar da pobreza tem empregados, da mãe que cobra postura da filha, mas permite que ela chegue em qualquer horário na escola após os encontros com o amante. De um irmão mais velho que inspira medo nos que convivem com ele e deixa para a mãe pagar as dívidas dos seus vícios.

Resta aquela menina que começa a crescer e que talvez um dia venha a saber como trazer dinheiro para casa.


Também é uma narrativa que expõe a colonização, onde a cor da pele ou o dinheiro não impede que ocorra racismo ou preconceito.

E por fim é um livro bem psicológico, pois não foram raras as vezes que me vinha o jargão "fale-me mais sobre isso" durante a leitura. Ficando a dúvida se era ficção, algo que deveria ficar subentendido ou traumas que não conseguem ser revelados.

Sente subitamente uma angústia até então apenas pressentida, uma fadiga, a luz apagando-se levemente no rio.


Mas apesar de todas as suposições, de ser um livro bem curto, eu segui não gostando.

A mistura de pedofilia e prostituição foi algo que me incomodou ainda mais nesta segunda leitura. Pois o relacionamento não é iniciado por amor, paixão ou uma atração física na minha opinião, mas pelo que o dinheiro dele poderia proporcionar.

Quer a apanhem, quer a levem, quer a maltratem, quer a corrompam, eles não devem saber mais nada.


Também me peguei achando que se o nome do livro fosse O irmão mais velho, combinaria mais. Pois o amante é uma figura secundária em meio a todos os conflitos que as relações familiares causaram em todas as etapas da vida da narradora, sendo uma ferida ainda não curada mesmo após tantos anos.

Sendo o amante apenas mais um a acelerar o seu sentimento de envelhecimento precoce, de mudança na imagem que via no espelho ainda tão jovem. Me parecendo o resultado de quem se sentia usada por todos ao redor sem nunca ter sido realmente amada.

Ele lamenta o que ocorreu comigo, digo-lhe que não deve, que não devo ser motivo de lamentação, ninguém deve, exceto minha mãe.


E apesar de tanta complexidade, em muitos momentos ela me pareceu superficial. Como se a narradora tivesse uma borda a ser respeitada, e justamente ao respeitar estes limites, ela não me ganhou como leitora.

Pois o vai e vem de tempos e lembranças me parecia mais um disfarce para não explorar o que era realmente importante para a menina frágil e a mulher já idosa que manteve tudo muito vivo em sua memória.

Só que esta é a minha leitura, a sua pode ser completamente diferente, e assim deixo a indicação deste clássico para que você possa tirar suas próprias conclusões.


O Amante
L'amant
Marguerite Duras
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
2003 - 95 páginas
Publicado originalmente em 1984



terça-feira, 16 de maio de 2023

Coisas Humanas



Sinopse: Os Farel são um casal poderoso. Jean, aos setenta anos, é um famoso jornalista político francês; sua ex-esposa, Claire, é conhecida por seus ensaios e compromissos feministas. Juntos, eles construíram uma reputação e tiveram um filho, Alexandre, estudante de Stanford, prestigiosa universidade americana. Claire está feliz em um novo relacionamento com Adam, um homem simples, professor de uma escola judaica e pai de Mila, uma garota tímida, que orienta a vida sob preceitos religiosos. Tudo muda na noite em que Alexandre e Mila vão juntos a uma festa. Uma acusação de estupro vai abalar a construção social perfeita da família Farel, ao mesmo tempo em que o drama irrompe com múltiplas e extremas implicações midiáticas e jurídicas no auge absoluto do debate #metoo.

No mês de Março/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Tatiana Salem Levy: Coisas humanas o décimo primeiro romance da escritora francesa Karine Tuil. O mimo foi um objeto de decoração.

Jean Farel é um famoso apresentador de TV, de origem pobre e marcado pela tragédia, que se tornou um homem obcecado pela juventude – a ponto de negar a si mesmo viver com a mulher que realmente diz amar - e orgulhoso de seu próprio poder no meio político francês. Mas apesar de todo o seu prestígio, sente o perigo bater à porta com o novo diretor da emissora que está há tantos anos.

Sua ex-esposa Claire é vinte sete anos mais jovem. A acadêmica feminista que foi estagiária de Bill Clinton se vê em meio a ataques após acusar os imigrantes em um artigo sobre os ataques em massa em Colônia, ao mesmo tempo que se vê retornar as sombras ao abandonar o marido em troca de uma nova paixão.

A extrema deflagração, a combustão definitiva, era o sexo, nada mais - fim da mistificação.


Sua nova paixão é o professor judeu Adam, pais de duas filhas, rompe com as tradições para viver um grande amor. O que faz com que a mãe, ainda traumatizada do atentado a escola judaica em Toulouse, se volte ainda mais para a religião, provocando um rompimento com a filha Mila, que busca no pai uma alternativa.

E nesta busca que os caminhos de Mila acabam cruzando com o do herdeiro dos Farel. Alexandre é o garoto de ouro com ótimas notas, estudante de Stanford, parece destinado ao sucesso, embora a pressão já o tenha levado a tentar suicídio. Mas mesmo um típico modelo da elite parisiense pode se colocar em uma situação perigosa ao misturar drogas e bebida alcóolica, combinação que não apenas colocara a vida de todos os envolvidos de cabeça para baixo, como os transformará em personagens de um espetáculo midiático.


A escrita de Karine Tuil

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a autora Karine Tuil divide o seu Coisas Humanas em três partes nomeadas de Difração, O território da violência e Relações humanas. Tendo como base não só a elite parisiense, como diversos ataques sexuais que se tornaram famosos, os movimentos que se levantaram contra eles, como também a relação com os imigrantes e os ataques terroristas que assombram os franceses até os dias de hoje.

Mas acima de tudo, e esse é a grande sacada do livro, ela torna o leitor parte de um júri de acusação de estupro.

A política e o jornalismo tinham constituído os propulsores de sua existência: vindo do nada, sem diploma, sem contatos, ele escalou todos os degraus;


Após uma breve apresentação dos personagens envolvidos, que terão a sua história complementada no decorrer da narrativa, somos colocados no grande tabuleiro que um tribunal se transforma ao colocar réu e vítima frente a frente, confrontando as suas versões.

E isso torna a leitura ao mesmo tempo densa e instigante, pois está tudo lá, a desmoralização da vítima, a inversão dos papeis, as diferenças sociais e a violência em suas diferentes formas. Tudo descrito de uma maneira a provocar dúvidas em quem está lendo, como ocorre em um júri real.

No meio judeu conservador, o casamento permanecia um ato supremo, valorizado e sacralizado.


Em paralelo a isso ela aborda as diferentes faces dos personagens que são atingidos não apenas em seu âmbito pessoal, como também na necessidade de gerenciar isso nas diferentes mídias. Ampliando a narrativa para um olhar tanto sobre a sociedade moderna como o papel da mulher ao trazer diferentes gerações sejam em confronto sejam a sombra de homens poderosos.

Tudo isso tendo fatos reais misturados a ficção, cujo até o tema central foi inspirado em um caso verídico. Tornando assim a leitura ainda mais próxima da realidade.


O que eu achei de Coisas Humanas

Vou iniciar com o que eu não gostei: a falta de revisão, revelada em capítulos seguidos com palavras repetidas ou sem separação, erros que gritavam na virada das páginas em uma edição que não merecia essa falta de cuidado. 

Em relação a narrativa eu gostei muito da história e dos conflitos apresentados. Sendo um retrato atual da época que vivemos de cancelamentos, desafios dos imigrantes, ataques terroristas, machismo e claro, a questão do estupro.

Sempre tivera relações particulares com seus pais, uma mistura de sincera afeição e desconfiança.


Os personagens são bem elaborados, compondo em suas escolhas, erros, diálogos todo o sentindo do título dado. Confesso ter sentido um pouco de falta do lado da vítima, mas creio que a ideia era justamente essa, o silenciamento indica a diferença de classes, onde os mais simples são invisíveis. Eles não têm voz, seu sofrimento não possui o mesmo tamanho dos das grandes castas, mesmo quando eles são as vítimas.

Motivo pelo qual achei genial a ideia de colocar o leitor como um jurado nesta história, fazendo com quem se entrega a leitura refletir sobre os seus próprios conceitos. Diante do desconhecido, qual é a sua base pessoal para definir o que é verdade? O que o outro precisa ser, ter vivido e como deve ter se comportado para que você acredite na versão dele?

Seus argumentos seriam deformados, truncados, mal interpretados, ela receava o impacto que teriam sobre a opinião pública.


Pois ao autorizar o leitor a julgar, inevitavelmente os detalhes saltam mais aos olhos, lhe é permitido julgar sem se esconder cada um dos personagens, podendo revelar mais dos próprios conceitos do que dos próprios julgados.

De bônus deixo para quem procura por livros com temas semelhantes, a personagem Claire me fez lembrar da mãe de um dos personagens de Eu não sei quem você é, que também aborda estupro e feminismo, mas por outro olhar.

Ele a apagou, contudo, o mal já estava feito, a captura de imagens na tela circulava na internet.


Ficando a recomendação de leitura para quem gosta de temas contemporâneos, de história de tribunal e claro, para quem simplesmente gosta de ler.


Coisas Humanas
Les choses humaines
Karine Tuil
Tradução: Mauro Pinheiro
TAG - Paris de Histórias
2022 - 319 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Quem finaliza a leitura sabe que apesar do veredito de acusado, não existe uma frase que afirme com todas as letras que Alexandre estuprou Mila. Há apenas as provas que cada um apresenta, assim como as acusações verbais e exposição do passado de Mila.

Confesso que se eu não tivesse acesso ao antes de tudo e aos detalhes nos pós através do próprio Alexandre, eu poderia ficar em dúvida sobre que decisão tomar. Pois sim, ele é apresentado como um bom rapaz com ótimas notas nos estudos, com o depoimento da ex-namorada, amigos, com os seus traumas e pressões vindo da relação dos pais.

Nascíamos, morríamos; entre os dois, com um pouco de sorte, amávamos, éramos amados, isso não durava muito, cedo ou tarde acabávamos sendo substituídos.


E temos Mila, uma jovem que não queria seguir as regras da religião da mãe, que nesta situação teoricamente estaria livre, que viu o pai ir embora para viver um amor enquanto a mãe se fechava mais. Sendo necessário que se observe seu estado físico e psicológico para analisar que aquilo não é uma armação.

Por isso achei a situação do tribunal bastante complexa e fiquei imaginando as situações da vida real, quando você não se depara com um antes e depois, o quão grande é o risco de se cometer um erro quando as interrogações são lançadas, o quanto se precisa de calma, atenção e se despir de qualquer preconceito prévio para não julgar equivocadamente.

Em dois anos, tudo o que tinha construído se desintegrara sem que ela pudesse fazer qualquer coisa a fim de interromper o processo devastador.


No livro eu acredito que Alex é culpado, logo após o episódio identifiquei um breve momento de culpa e remorso, ao qual ele logo joga para o lado enquanto antecipa a sua saída do país usando os pais como justificativa. Assim como as ações dos amigos indicam que não deve ter sido a primeira vez.

E isso é uma das coisas que faz o livro ser bom de ser discutido, porque a leitura é individual, e cada um pode finalizar com outra percepção. Então se você leu e passou por aqui, me diga, qual o seu veredito em relação ao Alex? Inocente ou culpado? Me conte as suas alegações, adoro ter novas visões neste tipo de narrativa.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

As Vitoriosas



Sinopse: O cliente de Solène, uma bem-sucedida advogada parisiense, não dera indício algum de que, ao ouvir sua sentença, atentaria contra a própria vida. Ela tampouco poderia imaginar que testemunhar a cena causaria o colapso de algo dentro de si. Paralisada, Solène sabe que a base que mantinha sua vida de pé ruiu. O médico atesta burnout e recomenda: “trabalho voluntário”. Mas, ao mesmo tempo que retomar a rotina confortável vivida até então não faz mais sentido, ela não tem ideia de como criar para si uma nova realidade. Quando um anúncio inusitado no jornal a leva até o abrigo conhecido como Palais de La Femme, Solène encontra um grupo diversificado de mulheres, vindas de universos muito distantes do seu, e, aos poucos, começa a redescobrir um senso de propósito ao dedicar algumas horas semanais à função de escriba: no saguão do Palais, coloca-se à disposição das residentes para redigir cartas. Ela perceberá, no entanto, que, tanto quanto a de escrita, sua habilidade de escuta será crucial ali.

Recebi em Julho/2022 pelo hoje já inexistente clube intrínsecos o livro As Vitoriosas da escritora francesa Laetitia Colombani. Os mimos foram um passaporte para anotar leituras e uma bonita placa com o desenho do Palais de La Femme, local central na trama.

Solène é uma parisiense solteira, sem filhos, bem sucedida como advogada. Ao sair da última audiência, não favorável ao seu cliente, ela se prepara para conversar com o mesmo para tranquiliza-lo. Mas não houve tempo, e ao ver ele suspenso no vazio, ela mesmo entra em colapso e acorda em um quarto de paredes brancas.

Em todos os cantos, as mulheres lutam para ter a identidade reconhecida. Exigem seu direito de existir.


Diagnosticada com burnout, a mulher que era totalmente focada na carreira se vê sem chão. A sugestão é que ela realize um trabalho voluntário para afastar os olhos de si e ser útil para alguém ou alguma coisa. E é assim que ela acaba respondendo um anúncio para escriba no Palais de La Femme, um dos maiores abrigos para mulheres da Europa, onde vai descobrir a vida de das suas moradoras e retornar o olhar para si.

E assim, em paralelo retornamos a Paris de 1925 e conhecemos Blanche Peyron, a idealizadora na transformação de um hotel para homens solteiros em um abrigo para as mulheres em situação de rua na Europa. Importante integrante do Exército da Salvação, acompanhamos a vida desta mulher incrível que colocava os outros seres humanos como foco principal de sua vida.

Está em pane, como um carro sem gasolina parado na calçada. Em pane, aos quarenta anos.

 

A escrita de Laetitia Colombani

Utilizando a narrativa em terceira pessoa tanto no tempo presente quanto no passado, a autora Laetitia Colombani mistura ficção e realidade em uma história curta com uma escrita fluída e impactante.

Através da personagem de ficção Solène a escritora aborda temas atuais que pressionam as profissionais todos os dias, ao mesmo tempo que nos relatas histórias que são vividas todos os dias por mulheres no mundo inteiro, sejam elas sem teto, refugiadas ou fugitivas da violência doméstica.

É preciso se afastar de si, se voltar para os outros, encontrar um motivo para acordar de manhã. Ser útil para alguma coisa ou alguém.


Fazendo um link das proibições dos séculos passados, como o simples ato de andar de bicicleta - que só foi permitido as mulheres no século XIX - ter uma conta bancária e fazer um empréstimo, ou algo tão banal nos dias de hoje como usar uma calça. E naturalmente a violência, que segue deixando marcas no decorrer dos séculos em suas diferentes formas em mulheres de todas as nacionalidades.

Outro ponto que achei muito interessante na forma abordada pela escritora foi a relação e reação entre voluntários e os que estão recebendo suas ações. É preciso entender que nem sempre palavras de agradecimento serão proferidas, mas que o coração deve ser aquecido pela ação em si, e pelos laços que aos poucos cada uma delas vão construindo.

Uma profissão séria. Ninguém liga se ela não faz você feliz.


O que eu achei de As Vitoriosas

Eu gostei muito de As Vitoriosas, logo de início eu já desconfiei que Blanche fosse real, confirmação que eu tive ao ler a revista que acompanhou o livro e estava bem completa. E foi um livro que a história me envolveu de tal forma que rapidamente eu estava chegando a última página com inúmeras reflexões me acompanhando.

Como do óbvio viver um dia de cada vez, passando pelo fato de que muitas pessoas acabam seguindo carreiras por razões financeiras ou pelos pais terem mandado e não conseguirem ser felizes nela, e assim abrirem as portas para o burnout e a depressão.

A constatação da pesquisa é alarmante: as mulheres são as principais vítimas da pobreza e as principais beneficiárias dos serviços de assistência social.


Também gostei da forma como ela aborda de maneira bem crítica como as mulheres são as mais afetadas pelas diversidades econômicas. Sejam por ganhar menos, pelo número de mães solo que acabam dependendo de abrigos e bancos de alimento, por serem as mais afetadas quando regimes ditatoriais são implantados. E de como são invisíveis perante a sociedade, por mais expostas que estejam.

O que leva a questão de que deveríamos nos dedicar com afinco no que realmente acreditamos, em nos perguntar o que fazemos para melhorar o mundo que vivemos além de reclamar nas redes sociais e não ceder em nada, nem abrir os olhos para o que está ali, a poucos metros de você.

Uma escolha necessária, indispensável e insana. A escolha que vai assombrá-la por toda a eternidade.


Pois o livro As Vitoriosas consegue despertar um desejo de fazer mais pelos outros e também por si mesmo, o que talvez seja a melhor combinação para melhorar tudo ao nosso redor. Razão que por si só já vale a leitura.


As Vitoriosas
Les victorieuses
Laetitia Colombani
Tradução: Carolina Selvatici
intrínseca
2019 - 199 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro - era pago integralmente pela autora. 

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Apocalipse Bebê



Sinopse: Valentine desapareceu. Filha de uma família abastada porém disfuncional, ela some no caminho da escola e deixa todos desesperados. A jovem detetive Lucie Toledo é contratada para encontrar a adolescente, e pede ajuda a sua amiga mais experiente do ramo, a Hiena. Juntas, as duas começaram um périplo vertiginoso. A busca as leva de Paris a Barcelona, em uma viagem na qual encontram um mosaico de personagens que tiveram algum contato com Valentine. Um submundo sombrio é descortinado, expondo os desejos e os medos da juventude de uma geração.

Em outubro/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro da escritora francesa Virgine Despentes Apocalipse Bebê, uma indicação da escritora Scholastique Mukasonga. O mimo foi um pacotinho de café, acho que para aguentar o tédio do que eu considero um dos piores livros enviados pelo clube desde que comecei assinar em 2017.

Lucie trabalha em uma agência de detetives em Paris, sua missão é seguir a adolescente Valentine, uma menina de quinze anos filha de pais separados, que agride a madrasta e se relaciona com qualquer menino que se depara. Mas um dia Lucie se distrai, e agora no lugar de seguir Valentine ela precisa encontrar a menina.

Não faz muito tempo, eu ainda tinha trinta anos. Tudo podia acontecer.


É um dono de um bar que apresenta Lucie a Hiena, uma detetive particular conhecida no meio, que aceita o caso apesar da baixa remuneração oferecida pela avó da adolescente.

Assim começam as conversas com parentes próximos e conhecidos, o que leva a dupla até Barcelona, em busca da mãe que abandonou a menina muito cedo e não manteve contato com a filha. 

A diferença entre os verdadeiros durões e aqueles que optam pela redenção: uns têm escolha, outros não.


Enquanto em paralelo Lucie que até então se declarava heterossexual vai conhecendo os detalhes do mundo lésbico da Hiena e encontrando o amor.


A escrita de Virgine Despentes

O uso de primeira ou terceira pessoa vai conforme a personagem escolhida como central no capítulo, que com exceção de Lucie, já são identificadas no nome do mesmo. 

No caso da narrativa em primeira pessoa, quem assume a voz é Lucie, que aparece em vários capítulos e é uma das protagonistas da história, sua visão distraída dos acontecimentos é dividida com o leitor.

Me interessam mais o estado das baterias do meu material e os arranhões na lente do que a pessoa que estou seguindo.


Quando muda para os capítulos únicos, a visão passa a ser em uma terceira opinativa, que faz um breve resumo do que as personagens viveram até chegar ao momento do desaparecimento de Valentine, assim como quais são os seus sentimentos em relação a menina, que desperta os diferentes tipos de reações entre as pessoas que a conheceram.

Despentes usa uma linguagem mais debochada, ácida, recheada de clichês e termos grosseiros, que usados a exaustão perdem força e se tornam palavras comuns no texto. E o que parece ser escrito para chocar, acaba dependendo muito do perfil do leitor, que pode achar muito louco e de uma verdade nua e crua, até uma história entediante que parece não ir para lugar nenhum.

Eu me abstenho de contar que também cresci com uma madrasta, o que me faz ter simpatia por qualquer pirralha que espanque a sua. 


Mas ao contrário do que se imagina na sinopse, o livro de Despentes não é um suspense onde as duas detetives, junto com o leitor, montam um quebra-cabeça. Pelo contrário, com o andar da leitura ele se mostra mais uma crítica ao estilo de vida dos ricos franceses e a cidade de Barcelona, ao mesmo tempo que aborda a descoberta do homossexualismo pela detetive Lucie.

Sendo muito mais um livro sobre a personalidade das pessoas do que sobre o mistério de um desaparecimento. Sobre pré-julgamentos e preconceitos. Não podendo deixar de fora as escolhas que cada um faz sobre como viver a sua vida, concessões, ônus e bônus.


O que eu achei de Apocalipse Bebê

Uma ideia de base ótima, uma execução que deixa a desejar, com um capítulo final ótimo que poderia até mesmo ser um conto. Assim eu resumiria Apocalipse Bebê, um livro em que é possível pular tranquilamente todos os capítulos do meio que não irá se perder nada, já que o forte da trama está nos capítulos iniciais e finais, onde outros personagens, que não as duas detetives, entram na história. E o final sim, é muito bom, mas ao mesmo tempo acentua todas as falhas da narrativa conforme o perfil do leitor.

O livro foi comparado com Todos nós adorávamos caubóis - já resenhado por aqui - pelo fato de também serem duas mulheres lésbicas viajando, no caso do livro brasileiro pelo interior gaúcho, no caso do francês entre Paris e Barcelona. Eu colocaria a semelhança pelo fato de as personagens dos dois livros serem péssimas companheiras de viagem, pois como reclamam, é muita amargura ao passar por locais maravilhosos.

Todos que são honestos, ou que têm honra, ou que são gentis, foram exterminados.


Por outro lado, faltou desenvolvimento em relação a personagem Valentine. Suas motivações não são bem trabalhadas, apesar de ser a personagem com maior carga para se aprofundar. Já que definitivamente a conhecida frase pobre menina rica não se aplica como justificativa suficiente para suas ações.

Ao contrário do que ocorre com Lucie e a Hiena as duas personagens cujos os umbigos recebem o foco total da história, pois tanto as ações quanto os diálogos são fracos.

Nunca durma com alguém que está abaixo de você, essa é a condição primeira do respeito à sua feminilidade.


Eu particularmente achei o livro chato, apesar de ter uma boa base de início, não me incentivando a ler aquela página a mais, ficando quatro dias de um feriadão parado em um cantinho. E no retorno comecei a aplicar a boa leitura dinâmica nos capítulos que não acrescentavam em nada a história.

Mas como eu sempre digo, gosto literário cada um tem o seu, então como sempre ocorre, independente de eu ter literaturado a história, deixo a dica para quem curte livros com protagonistas LGBTQIA+, para quem gosta de livros envolvendo estrada, para quem quer uma outra visão de Paris e Barcelona, ou para quem ficou curioso com tudo o que eu escrevi.


Apocalipse Bebê
Apocalypse Bébé
Virgine Despentes
Tradução: Natalia Borges Polesso
TAG - Companhia das Letras
2010 - 319 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.


terça-feira, 19 de abril de 2022

Água Fresca para as Flores



Sinopse: Os dias de Violette Toussaint são marcados por confidências. Para aqueles que vão prestar homenagens aos entes queridos, a casa da zeladora do cemitério funciona também como um abrigo diante da perda, um lugar em que memórias, risadas e lágrimas se misturam a xícaras de café ou taças de vinho. Com a pequena equipe de coveiros e o padre da região, Violette forma uma família peculiar. Mas como ela chegou a esse mundo onde o trágico e o excêntrico se combinam?

No mês de janeiro/22 recebi da minha assinatura da Intrínsecos o livro da escritora francesa Valérie Perrin chamado Água Fresca para as flores. O mimo foi um bloquinho de anotação em formato de um passaporte para avaliar e fazer breves observações sobre os livros que os assinantes irão receber.

Basta que um único ser nos falte para que tudo pareça vazio.


Violette Toussaint nasceu morta e sem amor, cresceu passando por várias famílias temporárias sem pertencer a nenhuma, mentiu a idade para trabalhar em um bar, foi vigia ferroviária e agora, próxima aos cinquenta anos, é zeladora de cemitério.

Neste local ela cultiva e vende suas flores, tem um espaço na sua casa onde ouve histórias e lamentos daqueles que tentam entender a própria perda, tem um caderno onde anota tudo que é dito nos funerais e com tranquilidade, cuida da limpeza do local.

Será que um homem que não ama mais sua mulher olha para ela como se ela tivesse enlouquecido?


Mas um dia ela recebe a visita de Julien Seul, um homem que tenta entender o último desejo de sua falecida mãe, que é ter as cinzas jogadas no túmulo de um homem que ele nunca ouviu falar. A atenção de Violette atrai o seu interesse, e usando o seu cargo de delegado, ele acaba remexendo em um passado indesejado para ela, trazendo várias emoções à tona.


Os personagens

Existem os mais diferentes perfis na história, o que traz um equilíbrio entre momentos de risada, tristeza e reflexão. Eu vou listar os principais, mas a verdade é que os pequenos personagens, aqueles que muitas vezes estão só para se despedir de um ente querido também são peças fundamentais na história.

Em Água Fresca para as Flores cada pétala tem sua importância, não estando ali por estar, não são um mero acaso. Mas vamos aos principais, que irão interagir com boa parte delas.

Ninguém nunca diz que podemos morrer de tantas vezes que nos sentimos chegar ao nosso limite.


Violette Toussaint é o fio condutor desta história, o bebê que nasceu morto e ressuscitou ao ser colocado em cima de um aquecedor passou por diversas famílias sem ser verdadeiramente acolhida. Sua carência e tristeza não se refletem para quem não consegue prestar atenção. 

A mulher gentil que acolhe dores, usa roupas coloridas por baixo das de cores sóbrias, e sempre tem um chá ou uma taça de vinho para os que precisam desabafar. Assim como uma memória para saber a moradia de cada um dos seus vizinhos.

Todas as profissões que têm a ver com a morte parecem suspeitas.


Philippe é o ex-marido que nunca esteve presente, filho mimado que não tem responsabilidade e muito menos amor para compartilhar. Parte deste comportamento eternamente infantil é justamente dos seus pais, principalmente de sua mãe, que como boa sogra não perde oportunidade de criticar ou humilhar a nora.

Desde homem machista, cujo tratamento gentil do início era apenas um disfarce, o único presente recebido por Violette foi Léonine, um verdadeiro raio de sol em forma de filha para quem sempre foi solitária.

Gosto da beleza das coisas porque não acredito na beleza das almas.


Mas o que a família do marido tem de negativo os amigos Célia e Sasha tem de anjo quando abrem suas asas para acolher Violette nos anos mais doloridos de sua vida. Demonstrando o que pode haver de mais belo em uma amizade.

Nono, Elvis e Gaston são os coveiros do cemitério, juntos com o Padre Cédric e os irmãos Lucchini - donos da funerária local - são as pessoas que travam os mais diferentes diálogos na sala da casa de Violette, colocando o leitor na rotina e mostrando como o trabalho em um cemitério é igual ao qualquer outro, embora com algumas situações mais inusitadas.

Por muito tempo, eu me perguntei o que havia feito de ruim para merecer aquilo.


O Delegado Julien Seul chega com suas próprias questões e ao tentar agradecer a recepção gentil, acaba trazendo à tona através de uma investigação parcial todo um passado que a própria Violette desejava esquecer. E sem querer, um acaba entrando na vida do outro.


A escrita de Valérie Perrin

Em Água Fresca para as Flores a autora Valérie Perrin consegue misturar diferentes estilos narrativos. Tem a voz de Violette em primeira pessoa que é a narrativa mais utilizada, tem narrativa através de diário e discurso fúnebre - lembre-se, a personagem principal é a zeladora de um cemitério - e tem a narrativa em terceira pessoa quando se trata em nos mostrar outros personagens aos quais Violette não tem proximidade.

A escrita é direta, sensível e ao mesmo tempo íntima, pois conforme as páginas vão sendo viradas, vamos descascando as camadas da vida de Violette ao mesmo tempo que ela se confronta com dúvidas e descobertas no presente.

A maldade é como esterco. O cheiro fica grudado no ar por muito tempo, mesmo depois que o recolhemos.


E tudo isso é complementado com pequenos detalhes, como os animais de pessoas falecidas que escolhem ficar no cemitério, ou os gatos batizados com nomes que são músicas do cantor Elvis. Ou os simbolismos que estão na quantidade de pessoas, nos discursos de despedida, e até mesmo no colorido escondido pelo escuro nas roupas da personagem.

Desta forma, para mim, foi quase como se muitas vezes eu sentisse o cheiro das flores e temperos que a rodeiam, escutasse o apito dos trens, o calor do abraço da sua filha, e o vazio que a quase sufocou tantas vezes.


O que eu achei...

Eu adorei a história, já sendo uma das minhas leituras favoritas do ano. É sobre morte e perda, mas também sobre encontrar e viver.

Sobre buscar paz após anos de sofrimento sem se entregar a amargura. Sobre amores imortais, ações impensadas, sogras peçonhentas e maridos que traem.

Cada um faz o que quer. Não. A vida dos outros também conta.


Tudo em uma escrita sensível, gentil, envolvente e fluída. O que me fez classifica-lo como um livro para chorar e sorrir, mas principalmente lembrar de valorizar o tempo e os nossos amores.


Água Fresca para as Flores
Changer l'eau des fleurs
Valérie Perrin
Tradução: Carolina Selvatici
Intrínseca
2018 - 479 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A Vida Secreta dos Escritores



Sinopse: em 1999, após publicar romances cultuados pelo público e crítica, Nathan Fawles anuncia que vai abandonar a carreira literária e a vida pública, juntando-se ao rol de escritores reclusos que ocupa a mente dos fãs de literatura. No auge da carreira, ele se refugia em Beaumont, ilha paradisíaca na costa do Mar Mediterrâneo. Duas décadas depois, Raphaël Bataille, aspirante a escritor e fã de Nathael Fawles, chega a Beaumont para descobrir o paradeiro do seu ídolo. Também desembarca no local Mathilde Monney, uma jornalista suíça que está determinada a desvendar os segredos do autor, por que, afinal, Nathan Fawles parou de escrever histórias? Ao mesmo tempo, ocorre um assassinato misterioso na ilha, que coloca os três personagens em lados opostos de um enredo repleto de mentiras, crimes, traições, paixão e muita escrita.

A edição da TAG Inéditos de Outubro/2020 traz o título A Vida Secreta dos Escritores do autor francês Guillaume Musso, que já vendeu cerca de 35 milhões de cópias e foi traduzido para 44 línguas. O livro é fino, mas não o julgue pelo tamanho, pois ele é garantia de uma leitura extremamente envolvente, sem exageros. 

Eu sempre conseguia me convencer de que os fracassos preparavam a vitória.

O mapa da Ilha Beaumont abre a leitura, e ao final dá um aperto no coração ao pensar que ela é fictícia, tendo como inspiração outros quatro lugares, estes sim, reais: a cidade litorânea de Bolinas na Califórnia, e as ilhas Skye na Escócia, Porquerolles na França e Hidra na Grécia. O que possibilita o leitor montar um roteiro de viagem para o pós pandemia.

Raphaël é um jovem de 24 anos formado na área de comércio para tranquilizar os pais, mas que tem o sonho de ser escritor como profissão. Há dois anos se dedicava a escrita do seu romance, que já havia sido recusado por uma dezena de editores. O que o fez aceitar um emprego temporário em uma livraria na ilha de Beaumont, onde teria tempo para escrever uma nova história.

E aquela maneira de se erigir em juiz para decidir o que era e o que não era literatura me parecia de uma pretensão sem limites.

A ida para a ilha tem um bônus para Raphaël, encontrar o famoso escritor Nathan Fawles, ao qual possui muita admiração e já leu os livros diversas vezes. Nathan Fawles vive isolado na ilha, em uma casa construída grudada a um rochedo, com seu próprio caminho para o mar, é um local sem sinal de internet, um ambiente rústico, perfeito para escrever, mas o seu morador não quer colocar mais uma palavra no papel.

Só que não é apenas Raphaël e seu manuscrito que estão atrás de Nathan. A misteriosa jornalista Mathilde Monney também está interessada no autor, a ponto de utilizar artimanhas para conseguir se relacionar com ele. Bonita e jovem, em um primeiro momento Nathan sente-se atraído por ela, mas logo ele passa a se sentir perseguido.

O livro não tivera repercussão na imprensa e não se podia dizer que os livreiros o respeitassem, embora tivessem acabado seguindo a onda.

Além disso, estão todos presos na ilha após o assassinato de uma mulher, que é encontrada pregada a árvore chamada de Imortal, um antigo eucalipto que deixa todos os moradores da ilha em estado de tensão, já que o seu isolamento também passa a ser questionado.

O detalhe da história de Guillaume Musso começa no Sumário, que pode deixar o leitor em dúvida se o livro é uma ficção ou sobre como escrever? E eu ouso dizer que ele trata das duas coisas. Em um mistério leve, mas ao mesmo tempo envolvente, ele vai dando dicas de como um livro é construído. Abordando com seus personagens desde cursos de escrita, passando pela dificuldade de um livro ser aceito pelas editoras, até como um autor passa a ser visto quando alcança o sucesso.

Em relação ao estilo, o texto estava cheio de brilhantismo, de figuras de linguagem audaciosas, de alusões bíblicas.

Abaixo do título de cada capítulo temos frases e observações de outros autores - como Umberto Eco, Milan Kundera, Marcel Proust - sobre escritores, livros e escrita. E eles não estão ali por acaso, sendo uma introdução sobre o que está por vir, então não as ignore, elas não estão ali por acaso.

A narrativa se utiliza tanto da primeira quanto a terceira pessoa, sendo envolvente, irônica e questionadora. Com cutucões nos intelectuais, achei muito inteligente por parte do autor utilizar um suspense em estilo romance policial para nortear o que leva alguém escrever e também a se afastar das letras.

Mas os romancistas costumam ver histórias em tudo.

Eu particularmente adorei o livro, ele capturou a minha atenção, achei bem construído e ao final fiquei com pena de terminar.


A Vida Secreta dos Escritores
La vie secrète des écrivains
Guillaume Musso
Tradução: Julia da Rosa Simões
TAG Inéditos - L&PM
2019 - 222 páginas


Outros livros sobre escritores e a escrita resenhado nos blogs:

A Louca da Casa
A Velocidade da Luz
Autobiografia
Sobre a Ficção - Conversas com romancistas

terça-feira, 12 de maio de 2020

Ponto Cardeal



Sinopse: Dentro de um carro, num estacionamento, Mathilda retira com cuidado a maquiagem do rosto, o vestido apertado, o sapato de salto altíssimo. Veste um abrigo de ginástica e então já não é Mathilda, mas Laurent, marido de Solange e pai de dois filhos. Quando percebe que incorporar uma persona feminina uma vez por semana já não é mais suficiente, decide completar a transição. E abrir o jogo para a esposa e os filhos é só o começo dessa busca por sua verdade interior.

A indicação do mês de abril da TAG Curadoria foi feita pelo psiquiatra e psicanalista Contardo Calligaris, que indicou a obra da parisiense Léonor de Récondo, romance premiado pelos estudantes France Culture-Télérama. Como tem ocorrido em todos os livros de 2020, o projeto gráfico é muito bonito, atraindo imediatamente os olhos.

Ponto Cardeal conta a história do francês Laurent, que desde criança gosta de se vestir com roupas femininas. Já adulto, ele mente todas as sextas-feiras que irá para a academia, mas na verdade ele muda suas roupas adotando um personagem feminino chamado Mathilda para frequentar um bar. 

Solange sabe, Solange encontra soluções.

No restante do tempo ele vive um casamento tranquilo com Solange, que organiza toda a rotina da família e cuida do casal de filhos adolescentes. No trabalho possui uma amiga que o usa como confidente, que em uma das conversas questiona inclusive o seu casamento perfeito.

Laurent mantém uma rotina comum, casa-trabalho, assim como o seu relacionamento com a esposa, ao qual parece amar. Tudo muda quando os outros membros da família fazem uma viagem e ele fica sozinho em casa. Tendo todo o espaço só para si, ele mistura os itens de Mathilda e de Solange, passando dias vestidos como mulher. E agora, apenas algumas horas de um dia não são o suficiente.

Interiormente eu sou como ela, tenho certeza.

Narrado em terceira pessoa, com letras relativamente grandes e capítulos curtos, é um livro de leitura rápida e bastante fácil, e bastante leve se você não resolver analisar vários pontos no detalhe.

O curador justificou sua escolha por achar que a obra possibilita entender a complexidade de uma experiência que não é vivenciada por muitos. E eu ouso discordar dele e dos estudantes franceses ao achar que a obra explora a questão da transexualidade de uma forma bastante superficial, onde dois pontos acabam tirando a empatia que se pode ter pelo personagem.

Ser homem significava, entre outras coisas, gostar de futebol.

Em contrapartida, um personagem muito interessante chamado Cynthia, que realiza um apadrinhamento das pessoas que não se sentem bem dentro do próprio corpo, é sub aproveitada, não sendo trabalhado com profundidade todas as angustias e dúvidas que devem ocorrer quando alguém resolve mudar radicalmente o seu corpo e o seu nome.

E neste momento para conseguir expor meu ponto de vista, entrarão spoilers, então quem não quer saber detalhes, sugiro abandonar a leitura desta resenha aqui.

Que educação, que valores eu lhe transmiti?

A primeira questão que me incomodou bastante durante a leitura foi a figura da mulher. Laurent utiliza o estereótipo do que uma conhecida minha diria ser de um típico macho escroto patriarcal. Ao ligar o ser feminino com calcinhas de seda, vestidos, salto alto e seios, temos uma visão bastante limitada a apenas o aspecto físico. Muitas vezes me peguei pensando que se fosse possível um transplante de útero, Laurent não aguentaria um mês, e no caso de ter que assumir a maternidade ou ele pediria para ser homem de volta ou iria se livrar da criança.

Já Solange, apesar de ser a pessoa que organiza tudo não acredita na possibilidade de recomeçar, mesmo com toda a estrutura familiar ruindo, ela não quer se separar para não ter que vender a casa. Parecendo surtada, ela arruma um garoto de programa para resolver a questão do sexo, como se fosse a coisa mais urgente entre todos os fatos que ocorrem a sua volta. 

O cuidado havia pulado uma geração, e ninguém tinha avisado Solange.

E enquanto os adultos olham apenas para si mesmo, os filhos do casal ficam jogados sem suporte nenhum. Embora o livro faça uma comparação de atendimento de psicólogos – o primeiro trata como uma doença reversível, e o segundo preta apoio para a transformação de Laurent, nem mesmo o especialista em mudanças de gênero recomendou um acompanhamento para os dois adolescentes. Laurent simplesmente se transformou em mulher e impôs a sua figura aos dois, com isso o filho mais velho se transferiu para um internato e a filha mais nova criou um mantra para se proteger dos olhares dos demais.

A forçação de barra final foi a amiga que vinha de uma família chamada tradicional, que dizia se sentir melhor ali do que com os gritos em casa. Sendo que na casa de Claire o silêncio apenas maquiava o cada um por si.

A vida nos apressa, nos molda, nos empurra, nos mata.

Talvez tudo seja culpa da superficialidade, tudo ocorre rápido demais, de forma egoísta demais, o que no meu caso gerou empatia pelos filhos e não pela figura principal da narrativa. Ao não dar tempo para os filhos, que vivem a fase mais delicada, conturbada e confusa de todas, faltou cuidado, jeito e tempo. Faltou a Laurent ser mulher.


Ponto Cardeal
Point cardinal
Léonor de Récondo
Tradução Amilcar Bettega
TAG – Dublinense
2017- 172 páginas

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Memórias de Adriano


Sinopse: Já velho, o imperador Adriano escreve uma longa carta ao jovem Marco Aurélio, na qual recorda sob uma aura de melancolia e profunda perturbação os fatos de sua própria vida pública e privada, questionando-se sobre seu sentido e destino. Dono do mundo, mas consciente da transitoriedade das coisas humanas, Adriano pergunta a si mesmo quais as condições do ser - tão trágico, por não poder evitar a morte e a ruína, quanto extraordinário e proeminente o acaso quis que fosse. Também a paixão e o amor, que ao menos uma vez haviam iluminado sua existência graças ao encontro com o jovem grego Antínoo, transformam-se logo em luto devido ao silencioso suicídio do amado. E a Adriano não resta senão continuar vivendo para cumprir seu altíssimo dever, contemplando com angústia o "rosto disforme" das coisas.

Com o avançar da idade o imperador Adriano decide escrever suas memórias ao jovem Marco Aurélio em uma carta que se divide em seis partes. 

O que inicia com a descrição de uma consulta médica e os exames desagradáveis que se seguiram, logo ganham a companhia de histórias familiares, sua escalada até se tornar imperador, as grandes lutas por território, nomeações de pessoas para ficarem ao seu lado, as grandes paixões e naturalmente as perdas que o imperador viveu.

O olho clínico não via em mim senão um amontoado de humores, tristes amálgama de linfa e sangue;

O destinatário não é uma escolha aleatória, pois ele não irá receber apenas uma carta, todas essas memórias são de certa forma um treinamento teórico para Marco Aurélio, que seria nomeado seu filho, para herdar o seu imperio.

Memórias de Adriano é uma ficção biográfica que mistura fatos históricos, filosofia e amor à arte, publicado em 1951, essa releitura se tornou uma das obras-primas da literatura francesa contemporânea.

Era o homem da tribo, a encarnação de um mundo sagrado e quase terrível, de que encontrei, por vezes, vestígios junto aos necromantes etruscos.

Marguerite Yourcenar, que no período da publicação utilizou o pseudônimo de Marguerite Crayencour, escreve em seu romance os anseios, opiniões e divagações de um homem poderoso, mas já velho, que se prepara para a morte e, após iniciar a procura por um herdeiro, encontra em um jovem, a quem conhece desde menino, um de seus sucessores. 

Por ser uma carta, a narrativa ocorre toda em primeira pessoa, o que torna os momentos humanos de Adriano mais próximos do leitor, como o seu choro por perder uma paixão que só se torna inesquecível porque o rapaz procurou a morte, tornando um relacionamento fadado à acabar em eterno. 

Meu primeiro consulado foi ainda um ano de campanha, uma luta secreta, mas contínua, em favor da paz.

Entre as passagens que trazem a realidade mais forte na sua mistura com a ficção estão os desafios nas obras construídas em Jerusalém e os conflitos (tão antigos) que afetam a região. 

De bônus, a autora conta os eventos e notas que resultaram no livro, assim como a bibliografia utilizada, sendo um complemento para quem deseja se aprofundar na leitura.

Se nada disse ainda sobre beleza tão definitiva, não se deve ver nessa omissão a espécie de reticência do homem irremediavelmente conquistado.

Um livro que pode agradar principalmente os fãs de clássicos e fatos históricos, e podendo fascinar os que ainda não se preocupam com a passagem dos anos, suas limitações e muito menos a morte.

Memórias de Adriano
Memoires d'Hadrien
Marguerite Yourcenar
Tradução: Martha Calderaro
RBS Publicações
1951 - 286 páginas