Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.
Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.
Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.
A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.
Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.
Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.
Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".
Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?
Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.
A escrita de Natacha Appanah
A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.
Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.
Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.
Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.
Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.
Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.
Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.
Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.
O que eu achei de Trópico da violência
Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.
O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.
Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.
Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.
Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.
Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.
E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.
E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel.
Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.
Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.
Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016

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