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terça-feira, 25 de maio de 2021

A garota que não se calou



Sinopse: A garota que não se calou conta a história de Adunni, uma jovem que, mesmo tendo crescido em uma vila rural nigeriana, almeja por estudar e ser ouvida. Após ser vendida pelo pai para ser a terceira esposa de um homem ansioso para que ela lhe dê um herdeiro, Adunni foge, buscando transpor os obstáculos da pobreza, do machismo e de uma sociedade arcaica. Corajosa, Adunni vai contra todos aqueles que dizem que ela não pode sonhar.

No mês de abril a TAG Inéditos enviou para os associados a inspiradora história A garota que não se calou, da escritora nigeriana Abi Daré. Como mimo, um pequeno copo de vidro, eu recebi A Hora da Saideira da Clarice Lispector, uma referência a conhecida obra A Hora da Estrela, já resenhado por aqui.


Pra dizer a verdade, o dia que eu parei de ir pra escola e o dia que minha mãe morreu são os piores da minha vida.


A mãe de Adunni sempre incentivou a filha a estudar, dizendo que esta é a forma de tornar sua voz mais alta e se fazer ouvir pelas pessoas ao seu redor. Antes de morrer, ela faz o marido prometer que não irá casar a menina de quatorze anos e seguirá pagando os estudos da filha, para que ela tenha um futuro diferente das outras meninas que a cercam.

Mas o pai de Adunni não cumpri a promessa. Em meio à pobreza extrema, ele opta em ficar com os dois filhos meninos e em troca do dote da filha aceita o pedido de casamento de Morufu, um homem mais velho que trabalha como motorista de táxi da aldeia onde eles moram.


Eu não quero chorar na frente desse homem. Eu nunca, nunca quero mostrar para ele nenhum sentimento meu.


Morufu já possui duas esposas, e com elas só teve filhas mulheres, e assim ele consome a relação sem dó e piedade com essa menina-criança, em busca do filho homem. Enquanto se adapta a uma rotina longe dos estudos, Adunni acaba se envolvendo em uma situação perigosa, que a faz fugir e assim romper os laços com a família.

Levada para trabalhar como empregada doméstica em Lagos, o que no início parecia salvação, vira servidão. Mas Adunni nunca desiste do seu sonho, e entre as diferentes situações que ela enfrenta, é isso que a mantém em pé, mantendo a esperança dela e de quem lê as suas palavras.


Pra que fazer do mundo um lugar grande, triste e silencioso porque todas as crianças não têm voz?


A escrita Abi Daré nos presenteia com um livro forte e ao mesmo delicado sobre a importância da educação, o papel das mulheres em todas as idades, e o forte machismo em todas as classes sociais da Nigéria, onde a mulher, por mais sucesso que tenha, não possui os mesmos direito dos homens.

Sua forma narrativa pode causar um estranhamento inicial, como ela utiliza primeira pessoa, nos colocando dentro da mente de Adunni, nós a lemos com todos os erros de linguagem, já que ela não teve uma educação completa. 


Eu sei o significado de abandonar. Eu sei que significa que é quando alguém te deixa sozinha. Que é quando você não tem utilidade pra pessoa. Um desperdício desperdiçado.


No meu caso, o efeito deste estilo de narrativa foi uma leitura foi mais lenta, pois o meu cérebro insistia em corrigir as palavras. Ao mesmo tempo tornou Adunni muito real para mim, pois não teria como uma menina que frequentou poucos anos na escola narrasse de forma perfeita, deixando apenas para os diálogos a diferença de linguagem.

Reais também são as suas descrições, que despertam os sentidos como se por um momento eu estivesse dentro do corpo fictício de Adunni, sentindo os cheiros, tendo a mesma visão, a mesma sensação ao toque e até um milésimo do eco da sua dor.


Você sou eu. Eu sou você. Nossas patroas são diferentes, mas elas são iguais.


Como efeito colateral, esta menina que não tem vergonha de perguntar, que muitas vezes coloca em voz alta questionamentos que são verdadeiros dedos na ferida, nos impulsiona a novos questionamentos sobre o mundo que nos cerca, principalmente quando quem o lê é uma mulher.

Pois os questionamentos de Adunni são globais entre todas as mulheres, e não possuem resposta, já que eles são o olhar do absurdo, do machismo, de uma estrutura que ainda não foi quebrada, mostrando que há ainda muito a conquistar em relação a respeito e igualdade.


Quero perguntar, gritar, por que as mulheres na Nigéria estão sofrendo por tudo muito mais que os homens?


Finalizei a leitura achando a história muito bonita, sendo um sopro de esperança mesmo em meio a tanta violência. Ao unir os ensinamentos de uma mãe forte e com uma visão diferente sobre a criação de sua filha com a importância de não desistir, e somar a isso o apoio de pessoas que são verdadeiros anjos com o aspecto cultural de um país, o resultado foi de uma leitura que ficou ecoando mesmo após fechar a última página.

Por isso ouso dizer que A garota que não se calou é o tipo de livro que a leitura se torna essencial pra refletir sobre temas bases para a criação de nossas meninas.


A garota que não se calou
The girl with the louding voice
Abi Daré
Tradução: Nina Rizzi
TAG - Verus Editora
2020 - 352 páginas

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Nascido do Crime



Sinopse: A história impressionante, inspiradora e divertida da infância e juventude de um dos maiores comediantes da atualidade, ambientada durante os anos finais do apartheid e os dias tumultuosos de liberdade que se seguiram. Como as peças de um quebra-cabeça, as histórias de vida de Trevor Noah formam o retrato de um mundo em desordem, onde os atos mais banais eram considerados crime se você não tivesse a cor certa.

Conforme a Lei da Moralidade de 1927, na África do Sul era proibido a junção carnal ilícita entre europeus e nativos. Trevor Noah é resultado do crime cometido por Patricia Noah, que é negra, juntamente com o suíço/alemão Robert, que é branco. Ambos pais do menino em pleno regime de apartheid.

Em uma escrita fluída, o comediante, apresentador, ator e sim, escritor, conta a história da sua infância, ao mesmo tempo que explica a divisão racial, as diferentes tribos e como isso enfraquece um povo. Além disso aborda de forma direta as relações do dia-a-dia, a forma como foi criado e até as diferenças de surra entre as que ele levava e a de seus primos.


Basta segregar as pessoas em grupos e fazê-las se odiar para tornar possível o controle de todos.


Dividido em três partes, logo de início somos apresentados a devoção cristã da sua mãe, que durante boa parte da sua infância o fez passar o domingo inteiro dentro de igrejas, mais precisamente três, uma com perfil racial misto, outra de brancos e uma de negros. A África do Sul, assim como o Brasil, adotou, de livre e obrigada vontade, a religião de seus colonizadores. 

A seguir vamos descobrir sobre o seu nascimento, o que permaneceu a cultura original mesmo após a colonização - como o fato dos negros sul-africanos associarem gato a bruxaria, a forma de distribuição dos grupos pela tonalidade de cor onde chineses são considerados negros e japoneses brancos, e como ele transitava enquanto tentava descobrir com quais grupos mais se identificava. Além do fato de que em casa não podia brincar na rua, para que o governo não descobrisse que era resultado de um crime e assim o separasse de sua mãe.


O apartheid era um Estado policial, um sistema de vigilância e de leis criadas para manter a população negra sob total controle.


Na adolescência Trevor nos apresenta a área pobre da África do Sul, dos bailes a pirataria, a corrupção, o fracasso dos primeiros amores e a prisão. A diferença de ensino conforme a classe, e o fato de sua mãe investir em sua educação. Também aborda a violência doméstica, o descaso da polícia quando o marido bate na esposa, o sentimento de para onde ir quando o machismo impede um homem de aceitar o filho da própria mulher. Motivo que levaram a sua mãe a ensina-lo sobre ser homem e ser mulher.


Ser um homem não depende do que você tem, mas de quem você é. Para ser um homem, a sua mulher não precisa ser inferior a você.


Durante a leitura muitas vezes me senti sentada em algum lugar ouvindo as suas histórias, que em alguns momentos se assemelham a contos, já que possuem início, meio e fim, embora elas se alimentem com nomes e situações com ligações tanto em fatos passados quanto nos futuros que ainda vamos ler. A narrativa cria uma grande proximidade com Trevor e as pessoas as suas voltas, o que faz com que se compartilhe impressões e questionamentos no decorrer das páginas.


Adotamos a religião de nossos colonizadores, mas a maioria também se agarrava aos costumes ancestrais, só para garantir.


Não foram raras as vezes que eu gargalhei, que me choquei, ou simplesmente li mais um capítulo para saber as consequências de determinado ato. Ao mesmo tempo que acelerar a leitura era reduzir o tempo junto a história.

Sim, Trevor foi um menino bastante espoleta, e um adolescente que se virou em diferentes situações, e isso torna ainda mais grandioso o fato dele deixar tanta pobreza para trás, o que muito também vem da força de caráter de sua mãe, ao qual o livro é dedicado e por quem aprendi a ter um grande carinho, a ponto de ficar curiosa de como ela está.


Muitos homens crescem sem a presença do pai e passam a vida com a falsa impressão de quem é o pai deles e de como um pai deve ser.


Um livro que mistura história pessoal e de um país, que fala de racismo, laços familiares e oportunidades. Com uma escrita que te permite aprender, se divertir e se emocionar. Um livro para ler, curtir e depois recomendar.


Nascido do Crime
Histórias da minha infância na África do Sul
Born a Crime
Trevor Noah
Tradução: Fernanda de Castro Daniel
TAG - Verus Editora
2016 - 334 páginas

quarta-feira, 22 de julho de 2020

A Rede de Alice



Sinopse: Neste romance histórico hipnotizante, duas mulheres - uma espiã recrutada para a Rede de Alice, esquema real que ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, e uma universitária americana que busca sua prima ao final da Segunda Guerra - são unidas em uma história de coragem e redenção.

Para escrever este livro sobre mulheres, Kate Quinn foi buscar inspiração em um real esquema de espionagem montado em 1915 chamado A Rede de Alice. Composto em sua maioria por mulheres, o grupo de oito pessoas coletava informações sobre tropas e ocupações alemãs na Bélgica, França e Holanda para os ingleses durante a I Guerra Mundial.
A primeira pessoa que encontrei na Inglaterra foi uma alucinação.

Na versão de Quinn, a Europa tenta colar os seus cacos em 1947 após o final da 2 Guerra Mundial quando a jovem Charlie faz escala na Inglaterra com a mãe. A estudante de matemática está sendo levada a Suíça para um compromisso especialmente delicado para uma família americana endinheirada: realizar o aborto de uma criança sem pai.

Mas a escala não é por acaso, pois o pequeno problema como Charlie chama o seu bebê não é a maior das suas preocupações, contrariando tudo o que dizem as investigações do seu pai, que acredita que a sua prima francesa Rose está morta, ela tem esperanças contrárias e quer descobrir a verdade. Sua certeza é tanta, que ela enxerga a prima em todos os lugares, tornando a busca uma obsessão para ela. Afinal, ela acabou de perder o irmão, ao qual se culpa por não ter conseguido salvar, e isso acentua a necessidade de reencontrar a sua companheira nas melhores memórias da infância.

Uma dama não joga baralho.

Realizando as suas próprias investigações ela chega em um nome e em um endereço. O que a faz fugir da mãe e ir para Londres encontrar Eve Gardiner. A mulher é muito diferente das pessoas com quem está acostumada a conviver: bêbada, com as mãos deformadas e desbocadas, Eve aponta uma arma para a cabeça de Charlie a noite, mas a luz do dia acaba aceitando a oferta do serviço de iniciar as buscas a Rose.

Eve é quem irá levar o leitor através de suas lembranças a 1915, quando é convidada pelo capitão Cameron - personagem baseado em uma pessoa real - para integrar a rede. Acompanhamos o seu treinamento e sua ida a França, quando os desafios da vida de espiã vão exigir o corpo e a alma de Eve, que agora atende ao pseudônimo de Marguerite.

O senhor não precisa do consentimento de ninguém a não ser do meu.

Quem leva estas duas mulheres para percorrer a França é Finn Kilgore, um ex-soldado apaixonado por carros que virou um faz tudo de Eve. Perseguido por suas experiências na guerra, ele também terá a oportunidade de repensar muitas coisas durante a busca de Rose, que acaba se tornando a busca por si para cada um deles.

Dividido em quatro partes, misturando narrativa em terceira e primeira pessoa, conforme a visão que Quinn deseja dar aos seus leitores, A Rede de Alice foi um livro que me encantou. Os obstáculos enfrentados pelas mulheres, começando pela dificuldade de Charlie em sacar o dinheiro da própria conta por não estar acompanhada de um marido, passando pelo desdém de homens que poderiam ter encerrado a primeira guerra muito antes se tivessem acreditado nas informações repassadas por suas espiãs, mostram a força e paciência das mulheres na primeira metade do século XX.

A maioria das mulheres é entediada, porque ser mulher é um tédio.

O livro provoca um misto de sentimentos, principalmente na parte que se refere a Eve e suas companheiras. E isso se torna mais forte ao descobrir que, com exceção da personagem Eve, tanto Louise de Bettignies - a rainha das espiãs - quanto Léonie Van Houtte eram reais. Assim como a tragédia que se abateu na vila de Oradour-sur-Glane, tornando a guerra demasiadamente real para quem nasceu depois dela.

E como um bom livro de espionagem, não poderia faltar um vilão, René Bordelon é um personagem de ficção, mas sua persona sintetiza os aproveitadores e informantes franceses que agradavam os alemães para enriquecer enquanto o restante da população empobrecia. Um homem sem escrúpulos, como muitos que percorreram as ruas na Europa durante as duas grandes guerras.

Somos soldados de vestido, não damas, e precisamos de um maldito cigarro.

E é René que traz a reverência literária mais forte do livro, ao utilizar os poemas de Charles Pierre Baudelaire, o autor parisiense que foi processado por atentado aos bons costumes nos anos de 1800 e um dos percursores do simbolismo e da poesia moderna. Durante a leitura, é muito fácil ter uma relação de curiosidade e ódio pelo poeta, já que ele quase sempre antecede cenas de tensão para Eve.

Um livro forte e envolvente, que leva o leitor pela França referenciando locais, músicas e poesias. E também pelas escolhas de guerra e as cicatrizes que elas deixam no corpo e na alma. O conjunto é uma leitura realmente prazerosa, e para ser ainda mais completa, não deixe de ler as notas da escritora ao final da história.

A Rede de Alice
The Alice Network
Kate Quinn
Tradução: Rogério Alves
TAG - Verus Editora
2017 - 527 páginas