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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.

Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 20 de março de 2026

O segredo final


Sinopse: Robert Langdon, respeitado professor de Simbologia, vai a Praga para assistir a uma palestra revolucionária de Katherine Solomon – uma proeminente cientista e intelectual com quem ele recentemente iniciou um relacionamento. Katherine está prestes a publicar um livro explosivo que contém descobertas espantosas sobre a natureza da consciência humana e que ameaça desestabilizar séculos de crença estabelecida. Quando um assassinato brutal transforma a viagem em caos e Katherine desaparece junto com o manuscrito de seu livro, Langdon se vê na mira de uma poderosa organização e perseguido por um adversário assustador saído da mitologia mais antiga de Praga. À medida que a trama se estende até Londres e Nova York, Langdon tenta desesperadamente encontrar Katherine – e desvendar o que está acontecendo. Em uma corrida eletrizante pelos mundos opostos da ciência futurista e das tradições místicas, ele descobre a verdade chocante sobre um projeto secreto que mudará para sempre o que a humanidade sabe sobre a mente humana.



O sexto livro da série protagonizada pelo simbologista de Harvard Robert Langdon levou sete anos entre escrita e pesquisa. Como nos demais livros, O segredo Final é um thriller que combina mistério intelectual, perseguições e reflexões sobre a mente humana, onde o foco está principalmente em consciência e identidade.

Desta vez o local escolhido é a histórica e enigmática cidade de Praga, onde Langdon vai acompanhar sua namorada Katherine Solomon em um evento que ela é uma palestrante convidada. Katherine  é uma cientista conhecida por suas pesquisas inovadoras sobre a consciência humana e que promete revelar em seu livro uma visão diferente de como compreendemos a mente e a relação entre ciência e espiritualidade.

Eu sou uma neurocientista, garantiu si mesma. Estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais. 


Só que quando Langdon está entre os participantes, nada ocorre de maneira simples, e logo ele está envolvido em um mistério que novamente irá trazer símbolos ocultos e referências filosóficas em um verdadeiro tour pela cidade de Praga, enquanto as certezas de quem é confiável ou não se perdem no caminho, já que as descobertas relatadas no livro impactam em pessoas muito mais poderosas que Langdon ou Katherine poderiam imaginar.


A escrita de Dan Brown

O autor norte-americano Dan Brown cresceu em meio ao ambiente acadêmico, e se a música e a sala de aula não se tornaram a sua profissão, como escritor ele obteve reconhecimento mundial com O código da Vinci, livro que apresentou aos leitores o personagem Robert Langdon e mais tarde se tornou filme.

Sua escrita se caracteriza principalmente por trazer temas complexos de forma envolvente, seus thrillers sempre misturam um assunto acadêmico, perseguição, cidades cheias de história, mistério e assassinato. Tudo em uma escrita com várias reviravoltas e explicações que tornam o tema de fácil entendimento para o leitor.

Desde a aurora dos tempos, nós buscamos respostas para os mistérios persistentes da mente humana... a natureza da consciência e da alma.


Em O Segredo final isso não é diferente, e o tema pode ser tão provocativo quanto os descendentes de Jesus Cristo, já que aqui abordamos uma teoria que envolve consciência e vida após a morte. 

Começando pelo fato de que logo no início o leitor é avisado do que é realidade no livro, e não, não é pouca coisa, já que o livro irá apresentar para os mais desavisados, como eu, a existência da ciência noética, que realiza o estudo da consciência humana.

Ele já estava acostumado a essa reação dos desconhecidos. Ela o fazia lembrar que tinha uma forma física, mesmo ninguém conseguindo ver o que ele era de verdade.


E mais uma vez temos a questão religiosa, onde os símbolos religiosos se entrelaçam com os estudos da consciência e porque não dizer, da própria alma.

Tornando uma narrativa que te leva facilmente para o google para saber mais ou servindo como apenas um livro relaxante para testar se algumas das teorias imaginadas ao longo da leitura estará certa.


O que eu achei de O Segredo Final

Eu gosto muito destes livros que parecem um quebra-cabeça, e sou fã do estilo do Dan Brown que sempre usa de tema algo que mexe com a minha curiosidade e me faz ter vontade de viajar para cada cidade que ele envia o Robert Langdon. 

Mas que O Segredo Final não me prendeu tanto assim no seu início. E neste caso foi bom que eu não desisto fácil de um livro.

Certa vez ele havia se pegado igualmente sozinho no Louvre com a Mona Lisa, mas em circunstâncias bem menos agradáveis do que as de agora.


Confesso que tirando bem o início, quando o caos começa e nem Langdon e nem o leitor sabem o que está acontecendo, eu achei a leitura um tanto arrastada até a página cem, quando os ganchos começaram a estimular a minha curiosidade. 

O que eu achei arrastado neste início foi a apresentação de diversos personagens em sequência, parecendo mais centrado na entrada deles do que no desenvolvimento da narrativa em si.  Mas como eu queria saber o que levou a CIA realizar uma movimentação tão grande para que um livro não fosse publicado, eu segui adiante, e sim, na metade final, junto com as explicações, o livro ganhou força para mim.

Sua consciência não é uma criação do seu cérebro. Na realidade, a sua consciência nem sequer está localizada dentro da sua cabeça.


Como em outros livros do autor, há a questão ciência versus religião, aqui é a existência ou não de vida após a morte quando associado a localização da nossa consciência. Um assunto que sim, está sendo debatido cientificamente e daria um novo sentido não só a morte como também a doenças como epilepsia e múltiplas personalidades.

Um ponto interessante em O segredo final é que Katherine não é uma simples coadjuvante na história, a mulher que conhece o professor Langdon há anos é também uma protagonista ao mostrar um outro tipo de cientista, o que estimula vários debates entre os dois e me deixou curiosa em saber se ela será um personagem permanente na série.

A maioria dos livros publicados chegava e partia sem deixar rastro, mas uns poucos ativavam a mente dos leitores e se transformavam em best-sellers.


Aliás, achei que neste livro existem menos enigmas e mais discussões sobre o provar e o acreditar dentro da ciência. No quesito curiosidade tem o resgate da disputa EUA versus Rússia, uma brincadeira com o logotipo de uma famosa rede de cafés e uma homenagem ao próprio editor, que de certa forma virou personagem do livro mostrando o lado editorial.

No geral eu gostei, mesmo não tendo achado o mais empolgante dos livros de Dan Brown, o tema abordado despertou e muito a minha atenção, fazendo a leitura valer a pena e me gerando questionamentos até hoje, principalmente no que se relaciona a doenças que afetam a memória.

O rabino batizou sua criação de golem, "matéria-prima" em hebraico: uma referência ao barro com o qual o monstro fora criado.

Um livro para quem gosta de realizar pesquisas durante e depois da leitura, que gosta de descobrir curiosidades acadêmicas, científicas e de simbologia, para quem curte desvendar mistérios, para quem não se importa de encarar leituras longas e para quem gosta é de ler o que tiver em mãos.


O Segredo Final
The secret of secrets
Dan Brown
Tradução Fernanda Abreu
Arqueiro
2025 - 560 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A era da inocência


Sinopse: Um clássico para devorar, A era da inocência é o livro que tornou a irreverente Edith Wharton a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção. A narrativa concentra as mais altas qualidades literárias da autora, que projetou um olhar crítico às entranhas de sua origem social na elite nova-iorquina do século 19. Do instigante triângulo amoroso atravessado por dinâmicas de poder e interesse, saltam questões que ressoam com leitores de todos os tempos, o dilema entre dever e desejo, os silêncios tácitos e a proteção das aparências na estrutura familiar burguesa, o papel social da mulher, a coragem de transgredi-lo e o sentido de uma existência plena.



Em setembro/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora brasileira Renata Belmonte (Mundos de uma noite só) A era da inocência da escritora norte americana Edith Wharton. O mimo foi um diário de leitura.

Na Nova York de 1870 existe uma bolha onde poucas famílias elitistas vivem em um círculo fechado, com valores tradicionais, convenções sociais e muita hipocrisia para ocultar atos e segredos.

Newland Archer é um desses aristocratas norte-americanos, um jovem advogado que namora May, também integrante de uma das famílias tradicionais, que é o retrato da beleza, inocência e tudo o que se espera de uma futura esposa.

Então a luz caiu sobre ele e, com ela, um ímpeto momentâneo de indignação.


O mundo de Archer treme com a chegada da prima de May, a Condessa Ellen Olenska, uma mulher que retorna da Europa após ousar se separar de um conde polonês que era abusivo. 

A liberdade e os desejos que ela inspira fazem com que o jovem Archer antecipe seu noivado e casamento com May. Mas o que era uma escapatória, acaba aproximando ainda mais da condessa, gerando em Archer a vontade de mudar o seu próprio mundo e se entregar em um novo relacionamento.


A escrita de Edith Wharton

A escritora e especialista em design de interiores e paisagismo Edith Wharton usou de seu privilégio para mostrar através da escrita todas as regras sociais e hipocrisia da era vitoriana e da era dourada. Ao receber uma educação que lhe deu domínio de outros idiomas além do inglês e da cultura europeia, foi impossível a jovem mulher não vivenciar conflitos entre o que o seu intelectual exigia e o que era pedido as mulheres da sociedade da elite de Nova York na época. Tendo a sua carreira reconhecida só após os seus quarentas anos.

Sua escrita é reconhecida pelas descrições detalhadas dos ambientes, o que transporta os seus leitores para cada local descrito, pela sua ironia e a complexidade psicológica de seus personagens. Entre os muitos livros publicados está o que a fez ser a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção (1921), chamado de obra-prima a Era da inocência ou A época da inocência, foi publicado em 1920 e segue tendo uma história arrebatadora.

Todos nós temos nossa gente comum de estimação...


Por conhecer as regras do jogo, em à Era da inocência Edith Wharton utiliza uma paixão para de certa forma dissecar o funcionamento da elite de Nova York, apresentando não apenas as suas regras, mas o seu tribunal próprio, a ignorância forjada, a necessidade de manter as aparências, a covardia, as manipulações e os conflitos pessoais.

Narrado em terceira pessoa, a perspectiva está centralizada no personagem Newland Archer, cuja educação permite a escritora brincar com as diferenças entre o que se sente e pensa com o que se diz, tornando os conflitos internos tensos e aparentes apenas em gestos e comportamentos, já que palavras nunca devem ser ditas.

Sua própria exclamação "as mulheres devem ser livres... tão livres quanto nós", tocava na raiz de um problema que o mundo dele concordava em considerar inexistente. 


O fato da paixão ser apenas um recurso para demonstrar a rigidez da sociedade daquela época, existe uma lentidão nos acontecimentos, no mesmo ritmo das mudanças nos paradigmas que norteiam os personagens, em uma escrita de linguagem cuidadosa, onde cada detalhe é importante para se deixar envolver e adentrar em um mundo onde dedos não são diretamente apontados, mas os que não atendem o perfil são simplesmente julgados e excluídos.

E para quem preferir assistir ao filme primeiro, antes de entrar na história, Martin Scorsese fez a sua versão cinematográfica em 1993 com o título de A época da inocência.


O que eu achei de A era da inocência

A forma narrativa utilizada pela escritora Edith Wharton me transportou para os Estados Unidos dos anos de 1870. A riqueza dos detalhes permite ao leitor que se deixa envolver pelas páginas sentir os cheiros, as temperaturas, as texturas do que está na volta.

As personagens femininas transmitem pela sua personalidade as diferenças geracionais da época, o que envolve tradição, a bolha social e a coragem de se libertar de relacionamentos que não lhe fazem bem ou não agregam em nada.

A etiqueta exigia que ela esperasse, imóvel como um ídolo, enquanto os homens que desejavam conversar com ela se sucedessem ao seu lado.


No quesito relacionamento, a paixão fulminante de Archer ressuscita o eterno dilema do Se, e se ele não houvesse se assustado com a presença de uma mulher tão diferente? E se neste medo do desconhecido, ele não tivesse corrido tanto para antecipar o casamento com o que era seguro, mas não arrepiava sua pele nem tomava conta dos seus pensamentos?

O tipo de casamento que curiosamente segue atemporal, já que falamos de uma rotina que mata sonhos e tira vontades. Que faz engolir o orgulho a seco e aguentar humilhações com um suave sorriso no rosto. Assim como a construção de estranhas parcerias para manter as aparências dentro de um mundo fechado onde ninguém evolui.

Ele não se importava de ser irreverente em relação a Nova York, mas se incomodava ao ouvir qualquer pessoa assumir o mesmo tom,


Tornando cada personagem muito rico e complexo na forma como lidam com os seus sentimentos. Ao serem retratados de uma forma extremamente humana, seus dilemas e escolhas não possuem retorno, tornando-se parte da sua própria personalidade ao apresentar os caminhos que a porta escolhida abriu.

Ellen Olenska me conquistou pela coragem de enfrentar uma sociedade conservadora e não ceder aos seus pedidos. Ao mesmo tempo que ela transmite liberdade, ela também tem respeito pela prima May, apesar de todo o desejo que ela sente por Archer, ela consegue delimitar os próprios limites e não se prender a um amor dominado por incertezas.

Original! Nós somos tão iguais uns aos outros quanto aquelas bonecas cortadas da mesma pilha de papel.


Em relação a May, ela foi a personagem que mais me surpreendeu. Suas muitas camadas são desvendadas ao longo do livro, mostrando que ela também era forte, por mais que Archer e o leitor pensem o contrário.

Já Archer foi o personagem que me provocou um misto de sentimentos. Sendo o protagonista da história, algumas vezes me fez revirar os olhos, chamá-lo de idiota e mesmo assim, admirar a sua evolução durante a narrativa, o que me deixou de coração apertado ao chegar na última página.

A era da inocência pode agradar quem gosta de histórias de época, onde a sutileza da paixão é transmitida nos pequenos gestos com capacidade de gerar toda uma tensão em um parágrafo. Também irá agradar quem gosta de imergir nas páginas através de detalhes que te deslocam para outra época. E claro, também irá agradar aqueles que gostam de uma boa história.


A era da inocência
The age of innocence
Edith Wharton
Tradução: Isadora Sinay
TAG
316 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1920.


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Corregidora



Sinopse: Ambientado entre o fim dos anos 1940 e 1970, Corregidora conta a história da personagem Ursa Corregidora, mulher negra, cantora de blues, no Kentucky. Ao mesmo tempo que busca conquistar espaços para desenvolver sua carreira e viver de sua arte, Ursa atravessa relacionamentos tumultuados e ocasionalmente violentos. Em uma das agressões sofridas, passa por uma histerectomia e precisa lidar com a frustração e a angústia por não ser capaz de atender ao apelo de suas antepassadas para “dar à luz novas gerações”, o que seria fundamental para continuar a tradição oral que evitaria o apagamento da realidade da vida sob a escravatura.



No mês de junho/25 recebi da minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor Jeferson Tenório: Corregidora da escritora norte-americana Gayl Jones. O mimo foi doce e saboroso, pois vieram mini alfajores da Odara que eu adoro.

Após uma violenta briga com o marido, Ursa Corregidora não apenas sofre um aborto como passa por uma histerectomia devido à gravidade dos danos sofridos. Fazendo com que ela não possa gerar descendentes e assim repassar a história dos seus antepassados, conforme foi tão pedido por sua avó.

Passado que atende por um homem chamado Corregidora e tem como profissão ser traficantes de escravos no Brasil. Um português que assombrou a vida de sua bisavó e avó, cuja memória dos atos interferem até hoje em Ursa e em sua mãe.

Eu dizia que não cantava apenas pra me sustentar. Dizia que cantava porque era algo que devia fazer, mas ele nunca entenderia isso.


Afetando suas amizades, relações familiares e também as amorosas. Onde os traumas e a dor parecem aprisionar a personagem principal em um clico vicioso eterno.

E é esta mistura de escravidão, violência contra a mulher e transmissão da história familiar que irão conduzir o leitor ao ritmo do blues no decorrer das páginas.


A escrita de Gayl Jones

A autora norte-americana Gayl Jones é conhecida como uma das figuras centrais na literatura afro-americana é conhecida pelo seu trabalho como escritora, poetisa e professora universitária.

Corregidora é justamente o seu primeiro romance, publicado em 1975 e editado por Toni Morrison (O olho mais azul), e já apresenta o estilo literário pelo qual ela seria conhecida, com a exploração de temas como violência, loucura e opressão sofrido pelas mulheres negras.

O velho Corregidora, um português que reproduzia escravizados e era cafetão.


Durante suas pós-graduações surgiu o interesse pelo Brasil, o que se reflete no livro Corregidora e em um livro recente chamado Quilombo dos Palmares.

No geral sua escrita é bastante direta, em Corregidora a autora utiliza muito o recurso dos diálogos, o que pode exigir mais atenção do leitor para não se perder sobre quem está dizendo o que.

Agora não é hora de se agarrar a nada. Qualquer mulher se agarra a qualquer coisa. Por medo. 


Pela metade da história, há mais parágrafos descritivos, amenizando assim o cansaço inicial de acompanhar todas as discussões, e também reduzindo assim possíveis desentendimentos sobre o que está ocorrendo na narrativa.


O que eu achei de Corregidora

Corregidora foi um livro que me causou vários estranhamentos. Começando pela citação da escravidão no Brasil, que em um primeiro momento eu achei que fosse uma mudança na tradução e depois descobri que havia sido realmente uma escolha da autora.

Só que essa brasilidade acabou me gerando o tempo todo a dúvida: como é que a avó dela foi parar nos Estados Unidos em um pós escravidão, se eram tão pobres? Confesso que este ponto mais me atrapalhou do que acrescentou, me parecendo que o uso da escravidão americana seria mais adequada, ou esta parte da história também poderia ser contada.

Era como se eu quisesse que vissem o que ele tinha feito, que ouvissem. Todos aqueles sentimentos tristes.


O segundo estranhamento foi em relação as relações do círculo social da personagem principal, o que de certa forma demonstra que sofrer e ser empático não são características que necessariamente andam juntas. Principalmente o seu comportamento em relação a amiga que a ajudou, e depois ela se afastou por um preconceito bobo.

Também fiquei com o sentimento de que a escravidão mais trabalhada na narrativa não é primeira que nos vem à mente e citada na contracapa, mas sim do ciclo vicioso de relacionamentos abusivos e violência contra a mulher. Sendo neste ponto uma narrativa ainda muito atual, já que ainda temos muitas Ursas ao nosso redor, independente de cor e classe social.

Tenho tudo o que elas tiveram, menos os descendentes. Não posso criar descendentes.


Fazendo com que várias vezes eu me perguntasse afinal qual o motivo da personagem querer ter um filho só para repassar todos os traumas que carrega? É uma espécie de terapia não aprovada? Só passando para a próxima geração a pessoa irá se sentir mais leve?

Por outro lado, achei interessante como ela aborda as figuras femininas, seja através da competição por um mesmo homem, a forma como lidar com a própria sexualidade, as relações familiares que não garantem liberdade de comunicação.

Como se agora ele não fosse exigir as mesmas coisas. Seriam exigências diferentes. Mas ainda teria exigências.

Assim como os caminhos escolhidos pela Ursa, que a tornam próximas de tantas mulheres que não conseguem sair do lugar, que apenas acumulam situações e sonhos, sem nunca os realizar ainda nos dias de hoje.

No geral achei a narrativa de Corregidora interessante, embora longe de ser a melhor leitura feita no ano, ela propõe reflexões que podem gerar debates pós leitura, principalmente no que envolve o universo feminino, tornando uma leitura que não some da mente no dia seguinte após fechar a última página.


Corregidora
Gayl Jones
Tradução: Nina Rizzi
TAG - Instante
2025 - 175 páginas
Publicado pela primeira vez em 1975

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Blade Runner


Sinopse: Em uma Terra decadente, coberta por poeira radioativa, Rick Deckard é um caçador de recompensas. Uma missão desafiadora pode ser sua única chance de ascensão: Deckard precisa perseguir e aposentar seis androides foragidos que se passam por humanos.



Em uma São Francisco pós-apocalíptica, ter um animal de verdade é sinal de status e acreditar em Mercer um sinal de humanidade entre os que ficaram vivendo em uma Terra radioativa.

Entre os moradores está Rick Deckard, um caçador de recompensas casado com uma mulher depressiva e dono de uma ovelha elétrica sofisticada o suficiente para enganar os seus vizinhos.

Isso em vez de economizar, e assim a gente poderia comprar uma ovelha de verdade, para colocar no lugar daquela falsa e elétrica lá em cima.


Sua nova missão lhe promete dar uma boa quantia em dinheiro: aposentar um grupo de replicantes Nexus-6 fugitivos das colônias que ficam em outros planetas. Estes replicantes são particularmente perigosos, pois são androides com criação biológica avançada, sendo necessários testes de empatia para distingui-los dos seres humanos.

Mas no decorrer da missão, Deckard começa a conhecer diferentes pessoas e androides, e as relações e comportamentos começam a fazer com que surjam diferentes reflexões sobre o que ele acredita e pensa em relação a natureza de tudo, da vontade de viver até a criação de laços.

A Poeria que havia contaminado a maior parte da superfície do planeta não tinha surgido em nenhum país em particular e ninguém, nem mesmo os inimigos de guerra, havia planejado isso.


Tornando Blade Runner não só uma ficção científica, mas uma obra que nos faz refletir sobre questões existenciais a respeito da nossa própria humanidade.


A escrita de Philip K. Dick

Considerado um visionário, o autor americano nascido em Chicago Philip K. Dick é conhecido por interligar temas complexos que vão desde a natureza da realidade, passando por tecnologia até o que se entende por identidade.

Sua escrita até hoje influencia autores e cineastas, principalmente por serem inovadoras e instigantes até hoje. Mas incrivelmente este autor capaz de questionar presente passado e futuro só atingiu a popularidade após a sua morte.

Porque, em última análise, o dom da empatia ofuscava as fronteiras entre caçador e vítima, entre vencedor e vencido.


Isso se deve as adaptações de suas obras para o cinema e televisão como "Minority Report", "Total Recall", "The Man in the High Castle" e "Do Androids Dream of Electric Sheep?" que teve o nome alterado para "Blade Runner" e segue sendo cultuado até os dias de hoje, com direito a mais de uma versão. 

O livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" hoje muitas vezes é publicado com o nome do filme, mas sua escrita não foi adaptada para a versão cinematográfica.

De qualquer jeito é um risco, libertar-se e vir para a Terra, onde não somos sequer considerados animais.


O Blade Runner das páginas segue explorando temas filosóficos como o que define a humanidade. A narrativa em terceira pessoa é direta, com diálogos que ajudam a ambientar o mundo que os personagens vivem.

Assim como explicitar as crises existenciais, a necessidade de ter algo para acreditar, revelando angústia, depressão, necessidade de aceitação.

Senti todos os outros, em todo o mundo, todos que haviam feito a fusão ao mesmo tempo.


O que torna o livro bem diferente da sua versão cinematográfica, mas nem por isso menos interessante.


O que eu achei de Blade Runner

Primeiro tive uma sensação de estranhamento, já que as datas citadas no livro o futuro já virou passado, mas pelos eventos, parecemos estar vivendo o início de tudo o que é relatado no livro.

Encontrei nas páginas um planeta destruído, onde androides replicam perfeitamente a imagem de humanos e animais, mas há muitas outras camadas na história que são exploradas.

Estou aqui com você e sempre estarei. Vá e faça sua tarefa, mesmo que você saiba que é errado.


É curioso ver em uma sociedade em que poucos restaram e uma poeira toma conta do céu, que as aparências ainda importam. O que você tem ou deixa de ter na opinião dos outros segue aumentando ou diminuindo o seu ego, mesmo que o dinheiro gasto pudesse ter melhor uso.

A questão da fé também é muito forte. O acreditar em alguém impulsionado pela empatia, que somente a humanidade consegue sentir, desafia as máquinas, a ponto de elas também quererem um pouco das vivências humanas.

Nenhuma consciência emocional, nenhum senso de compreensão do real significado do que diz.


E é essa empatia que irá mexer com o caçador de androides, que o fará sentir dúvidas e questionar sobre suas próprias ações enquanto precisa decidir se irá ou não completar a missão.

O que geram cenas com aquele ponto de interrogação: Rick está alucinando ou temos uma ficção científica com realismo fantástico? O que estamos lendo é uma milagre ou uma alucinação movimentada pela necessidade de acreditar?

No entanto, o fogo sombrio tinha diminuído; a força da vida esvaía-se dela, como ele já havia testemunhado antes com outros androides.


Tornando a narrativa algo muito superior a uma caçada ou avanço tecnológico, onde as máquinas são apenas o gatilho para discutir sobre os eternos conflitos humanos.

Motivo pelo qual recomendo e muito a leitura, seja você fã de ficção científica, seja você fã de reflexões sobre a nossa existência.


Blade Runner
Do androids dream of electric sheep?
Philip K. Dick
Tradução: Ronaldo Bressane
TAG - Aleph
2023 - 272 páginas
Primeira publicação em 1968


sexta-feira, 25 de abril de 2025

Era uma vez em Hollywood


Sinopse: A aguardada estreia de Quentin Tarantino na literatura é uma leitura de fôlego, com ritmo de humor e recheada de pérolas sobre a era de ouro do cinema. Em Era uma vez em Hollywood, Tarantino oferece uma vasta gama de detalhes que ampliam o universo dos personagens, criando desfechos inovadores, novos cenários e diferentes possibilidades para o filme vencedor de duas categorias do Oscar 2020 — uma delas, a de Melhor Ator Coadjuvante para Brad Pitt (Cliff Booth).



Rick Dalton já foi muito famoso por protagonizar uma série de faroeste para a TV, mas o seu ego o fez acreditar que conseguiria papeis muito melhores, e na Hollywood dos anos de 1960 ele é um ator em declínio que precisa da ajuda de um agente especializado para sair das participações especiais, o que pode significar fazer filmes em qualquer lugar.

Quem o acompanha é Cliff Booth, amigo, funcionário e dublê de Rick quando este consegue colocá-lo nos filmes. Ex-combatente de guerra, foi de herói da nação para um sujeito que nem sempre avalia bem as suas ações, além de ser suspeito de um crime que não o torna bem-vindo a todos os lugares.

Continue interpretando o saco de pancada para todo novato arrogante que surgir na emissora, e isso vai surtir um efeito psicológico na maneira como a audiência enxerga você.


Ambos acompanham a chegada de seus novos vizinhos, a bela e jovem atriz Sharon Tate e o famoso diretor de o Bebê de Rosemary Roman Polanski. Tate se divide entre a emoção de ver o seu rosto nos cartazes dos cinemas e os inúmeros eventos que é obrigada a comparecer junto com o marido.

No caminho dos dois também passam Charles Manson e seus seguidores, trazendo a memória um dos eventos que ajudaram a marcar a transição da era de ouro do cinema americano para uma série de mudanças.

Por outro lado, quando assistia a filmes estrangeiros, via nos atores um grau de autenticidade que simplesmente não existia no cinema de Hollywood.


Tudo no melhor estilo Tarantino, onde ficção e realidade se misturam, sem poupar o leitor de ironia, humor e crítica.


A escrita de Quentin Tarantino

O cineasta, roteirista, produtor, ator e sim, escritor norte-americano Quentin Tarantino é conhecido por seus filmes que misturam violência, cultura pop, diálogos recheados de críticas, ironias e verdades diretas, além é claro de humor negro.

E tudo isso se encontra no primeiro livro de Tarantino, baseado no filme roteirizado pelo próprio. Com a liberdade que só a escrita dá, ele se utiliza de uma narrativa não linear, onde é possível ter no presente vislumbres do passado e também do futuro, seja através de longos diálogos ou de fluxos de pensamentos dos personagens.

E ele gostou dela também, e não só porque ela era bonita. Ela era muito inteligente também - isso ficou evidente apenas com uma conversa casual.


Por ser um livro baseado nos anos de ouro de Hollywood, as páginas são recheadas de referências dos anos 1960, seja pelo de atores e filmes, seja através das músicas, dos locais e dos próprios acontecimentos.

Como em seus filmes, temos diálogos e detalhes que levam o leitor para junto dos personagens, tornando a narrativa tão vibrante e empolgante quanto os seus filmes, tornando a leitura das quase seiscentas páginas muito mais rápidas que alguns livros com menos de duzentas.


O que eu achei de Era uma vez em Hollywood

Ao pegar o livro com quase seiscentas páginas, jurava que ia levar uns três meses para ler o livro por completo, e já me preparava para intercalar com as leituras do grupo que faço parte.

Doce ilusão. A escrita de Tarantino é como seus filmes, difícil de abandonar. Cada capítulo convidava para ler mais um, em uma leitura que consegue não apenas levar para uma época que só ouvi falar, como me encantar com Sharon Tate e sentir calafrios com a trupe de hippies que deu fim ao seu sonho, mesmo o livro não descrevendo o terrível crime. 

A parte ruim de vomitar em si mesmo ao acordar de manhã é que você se sente um porco nojento e um patético derrotado.


A dupla Rick Dalton e Cliff Booth também facilitaram muito a minha vida, se Dalton me levou para dentro dos cenários cinematográficos ao mesmo tempo que mostra um lado muito humano ao ter que se adaptar as dificuldades atuais. Booth já tem uma dualidade e uma frieza que remetem as cenas mais violentas dos filmes de Tarantino.

E o detalhe de tudo é que não havia assistido ao filme, e após postar no Instagram do blog as leituras do mês de março, recebi uma pergunta justamente perguntando a relação dos dois. A curiosidade aumentou, eu segurei a publicação da resenha e fui procurar o filme.

É um dever do ator se esforçar para atingir cem por cento de eficácia. Naturalmente, nunca conseguimos chegar lá, mas essa busca é o que importa.


Depois de assistir ao filme, eu digo que os dois se complementam. Existem coisas no filme que não tem no livro e vice-versa, tornando as duas formas de arte interligadas, já que se por um lado o livro explica muito mais os personagens, por outro o filme dá toda a referência visual. E o final de ambos é diferente. E ambos muito bons.

No filme eu senti muita falta de maior participação da personagem Trudi/Mirabella, cujas cenas com Rick Dalton mostram todo o trabalho e esforço de ser um bom ator/atriz. 

Você está agindo como se eu fosse acordar amanhã de manhã e ir para uma escolinha. Eu vou trabalhar com você.


E achei curioso que como alguns detalhes são mais explorados no livro, como a política de recepção do ator principal de uma série aos atores convidados, estratégias utilizadas por diretores para provocar diferentes reações e o preconceito com o que é feito fora de uma bolha.

Então coloque a pipoca na panela, prepare o seu chá e faça uma sessão dupla pela tela e pelas páginas para retornar pelo olhar de Tarantino a Hollywood dos anos de 1960. Existe grandes chances de você gostar.


Era uma vez em Hollywood
Once upon a time in Hollywood
Quentin Tarantino
Tradução: André Czarnobai
intrínseca
2021 - 560 páginas
Primeira edição publicada em 2020

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Proclamem nas montanhas


Sinopse: Harlem, Nova York, década de 1930. John Grimes acorda no dia do seu aniversário de catorze anos e ninguém ao redor parece se lembrar da data. Apesar do entorno apático e por vezes violento, o protagonista não abandona seu otimismo. É então que ele percebe que a fé pode dar um novo rumo para a sua vida e decide mergulhar em uma profunda jornada espiritual.


A minha assinatura na TAG Curadoria em 2025 iniciou em janeiro com uma indicação do escritor brasileiro Itamar Vieira Junior, que escolheu Proclamem nas montanhas do autor norte-americano James Baldwin. Como mimo o já tradicional planner.

Proclamem nas montanhas se divide entre o presente e o passado. No tempo atual, ele cobre as 24 horas do dia do aniversário de John Grimes, onde nem todos parecem lembrar que o jovem está completando quatorze anos, enquanto ele mesmo, ao ser obrigado a ajudar na organização da igreja frequentada pela sua família, que terá uma cerimônia religiosa mais tarde, tem dúvidas quanto as próprias crenças.

Além disso há o seu irmão mais novo Roy, que com sua rebeldia e constante busca por problemas, sempre chama atenção do seu pai, Gabriel, que não esconde a preferência pelo filho, mesmo quando este faz coisas erradas.

Foi só na manhã do dia em que completou catorze anos que realmente começou a pensar nisso, e àquela altura já era tarde demais.


Nos flashbacks descobrimos a origem da família que é ao mesmo tempo muito religiosa e um tanto disfuncional, principalmente pelas atitudes do patriarca. Ao qual amores, hipocrisias e uma pitada de história é relatada por Gabriel, Elizabeth - mãe de John - que se abraçou a igreja após uma grande perda, e Florence, a irmã de Gabriel e uma mulher que é ao mesmo tempo muito independente e ressentida pela forma como foi se encaminhando a sua vida.

Tudo em um romance que explora principalmente o papel da religião nos laços familiares, nos conflitos internos, no perdão dos erros, na sexualidade e dentro da comunidade negra nos anos de 1930 nos Estados Unidos.


A escrita de James Baldwin

O norte-americano James Baldwin nasceu no Harlem em 1924, reconhecido por seus romances e ensaios, foi bastante participativo no movimento dos direitos civis, sendo considerado hoje um dos maiores escritores norte-americanos do século XX.

Através da escrita ele abordou assuntos como sexualidade, racismo, identidade, amor, injustiça social, religião e tudo o que cerca e determina a figura do ser humano.

Aquela longa estrada, sua vida, que ela seguia havia sessenta dolorosos anos, a levara por fim ao ponto de partida de sua mãe, o altar do Senhor.


E eles são a base de Proclamem nas montanhas, que além de ser o seu primeiro romance possui um toque autobiográfico, já que assim como John, James Baldwin não conheceu o pai, e seu padrasto era um membro constante da igreja, e conforme ele crescia, se distanciava das crenças.

Em relação à forma narrativa, em Proclame nas montanhas ele opta em utilizar a terceira pessoa com foco em quatro personagens. O que permite ao leitor uma visão ampliada da dinâmica familiar, assim como dos segredos e traumas que levaram os personagens até aquele dia.

Logo alguém voltaria a gritar, e as vozes recomeçariam; haveria música, e brados, e o som dos pandeiros.


Para esta última parte, o uso de flashbacks e de retorno do tempo foram fundamentais para entender principalmente os três personagens adultos, que inclusive possuem capítulos próprios para contarem um pouco da sua trajetória.

Em comum entre os quatro está a religião, que é uma mistura de quinto personagem e base do livro, já que sim, tudo se desenrola através das relações com ela, seja por conflitos espirituais, descrença ou orações e sermões.

Pensava nele agora, enquanto a cantoria e o choro prosseguiam a sua volta - e pensava o quanto o pai gostaria do neto, que era parecido com ele sob tantos aspectos.


O resultado deste conjunto é que o leitor será colocado vivenciando aquelas horas dentro da comunidade, permitindo assim que ele tenha as próprias ideias e opiniões sobre o que estava ocorrendo.


O que eu achei de Proclamem nas montanhas

Já havia ouvido falar sobre o escritor James Baldwin, mas não havia lido nada ainda. E isso me fez ter uma grande expectativa em relação ao livro que seria enviado.

Mas confesso que achei a parte do John bastante arrastada, a forma como os sermões, citações e experiências religiosas apareciam em sequência não me convidavam a ler mais uma página.

Terra balançava, transformando o espaço num vazio absoluto, levando o caos à ordem, ao equilíbrio, ao tempo.


Como a parte do John é autobiográfica, fiquei pensando se não foi isso que pesou um pouco na escrita, já que as vezes é mais fácil falar do que é ficção do que é real. Ou tenha sido uma forma do autor expurgar o que consumia sua mente a muito tempo. Enfim, minhas teorias, que de fato não tem nada. 

Em compensação os capítulos do Gabriel, da Elizabeth e da Florence eu achei muito mais interessante, a escrita também me parecia mais fluída e convidativa a entrar no passado dos três, cujas escolhas levaram todos até aquele dia.

Apavorado, começou a chorar e gemer - e esse som foi engolido, e, apesar disso, amplificado pelos ecos que enchiam a escuridão.


Também gostei da forma como Baldwin abordou o critério de algumas religiões de abraçar a todos, independente dos seus pecados, para que estes se tornem puros. Mas sem deixar de mostrar a hipocrisia dos que se intitulam escolhidos de seguirem praticando suas maldades, e achar que basta orar para tudo ser esquecido.

Na parte histórica, ele aborda no romance o fim da escravatura, a mãe de Gabriel e Florence foi uma escrava e é uma recém liberta, assim como o surgimento de grupos discriminatórios e a raiva que se sentia pelas pessoas de cor branca.

Pelo visto, não tem uma mulher neste mundo que não foi passada pra trás por um homem que não presta.


Em relação à parte familiar, ele aborda diferentes tipos de relação e seus conflitos, onde há o filho preferido, o filho abandonado, a rivalidade entre irmãos, a mágoa da mãe, o seguir caminhos que não se sente como seu.

Então sim, ele aborda inúmeros assuntos que são muito interessantes, mas infelizmente, no meu caso, o estilo narrativo não me conquistou. Mas como ele pode ganhar o seu coração, ou levar a várias reflexões - como aconteceu comigo - deixo aqui a dica.

Proclamem nas montanhas
Go tell it on the Mountain
James Baldwin
Tradução Paulo Henrique Britto
TAG - Companhia das Letras
2025 - 271 páginas
Publicado originalmente em 1953

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Este Lado de Providence



Sinopse: Arcelia Perez fugiu de Porto Rico para escapar de um casamento fracassado e de um histórico de abusos, mas em vez de encontrar seu pedaço do "sonho americano", acabou do lado errado de Providence. Apesar dos três filhos pequenos, Arcelia segue um caminho que a leva à prisão e a uma agonizante abstinência de drogas. Mas o verdadeiro desafio surge quando ela é libertada e deve descobrir como permanecer limpa e reunir a família que se desfez em sua ausência. Esta poderosa história de esperança e redenção revela o lado obscuro de uma cidade simpática, onde mesmo as realidades mais sombrias não podem destruir os laços entre mãe e filhos. 

No mês de novembro/24 recebei pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Julia Dantas (que já apareceu aqui no blog com seu livro Ela se chama Rodolfo) Este Lado de Providence da escritora norte-americana Rachel M. Harper. O mimo foi um delicioso alfajor.



Arcelia Perez vive em um bairro pobre de Providence com os seus três filhos: Cristo, Luz e Trini. Viciada em drogas, só consegue ficar limpa ao ser presa, deixando as crianças sozinhas.

Cristo é o mais velho, com comportamento rebelde, tem as professoras, em especial Srta. Valentín, que junto com um homem apelidado de Snowman, que atuam como anjos da guarda do menino. Cada um, a sua maneira, busca formas de estimular o menino, que cedo precisa arrumar dinheiro para casa, a se motivar a estudar e aproveitar um pouco da infância.

Não sou uma arma, mas às vezes me sinto como uma bala. Rápida. Imparável. Mortal.


Luz é a do meio, menina dedicada aos estudos, adora ler e sonha em ter um futuro melhor. apesar da pouca idade, não é mais inocente a ponto de não enxergar a toxidade de viver com a sua mãe.

Quem completa o trio é a bebê Trini, uma criança sorridente e a única com um pai vivendo na mesma cidade que ela.

Ouço muitas histórias na rua, mas vou contar esta porque é minha e é a única que sei de cor.


E é neste misto de maternidade, pobreza, racismo, vícios, medo, violência, esperança e até mesmo resistência que Este lado de Providence convida o leitor a conhecer a família Perez sem romantizar nenhum dos assuntos.


A escrita de Rachel M. Harper

Conhecida por explorar temas como família, raça e identidade, a autora norte americana Rachel M. Harper tem três romances aclamados pela crítica e se tornou uma das vozes de referência na literatura contemporânea.

Indicado o Ernest J. Gaines Award for Literary Excellence, um prestigioso prêmio literário que reconhece obras de ficção excepcionais de autores afro-americanos, Este lado de Providence aborda os três temas de forma sensível, sem julgamento, permitindo que cada personagem conte a sua história e conquiste, ou não, a empatia de quem o lê.

Se você tem imaginação e já viveu o bastante, vai acabar quebrando uma regra ou outra.


Pois ela utiliza uma narrativa multifocal com primeira pessoa, permitindo ao leitor ter a perspectiva por diferentes olhares, saber os conflitos e impactos das ações e acontecimentos na vida de cada um, tornando a história complexa e próxima ao mesmo tempo.

Tudo utilizando uma linguagem clara e sensível, podendo em alguns momentos ser quase poética e em outros crua e direta. Mas sem clichês ou apontar se o personagem está certo ou errado.

Uma boa professora não deve ter queridinho, por isso acho que não tenho sido uma boa professora.


O questionamento fica para o leitor, o que torna a leitura uma experiência particular para cada um que abrir o livro.


O que eu achei de Este lado de Providence

Achei livro Este lado de Providence triste, mas longe de ser irreal.

Quando os adultos erram além dos limites normais, entregando-se aos seus vícios e paixões, quem paga o maior preço por suas faltas são justamente os filhos. Uma verdade absoluta nas ruas e nas páginas.

Saio da cozinha e tento esquecer a fome. O sol bate com força no quarto, então nem preciso acender a luz.


Então sim, foi doloroso acompanhar a vida das crianças desta história, principalmente de Cristo e Luz, que possuíam mais consciência do que estava acontecendo. Gerando em mim uma angústia constante de quem iria socorre-los.

A forma como eles encaram cada situação, como se protegem, e suas reações em relação as escolhas da mãe surpreendem. Pois apesar de tudo, são crianças amorosas, cuja maturidade chega cedo demais e ao mesmo tempo dão um toque de esperança a narrativa.

Estou bonita, como uma modelo de revista, e pareço quase crescida. Afinal, desde hoje cedo tenho 10 anos.


O que tornou para mim muito difícil ter empatia pela personagem Arcelia. Sim, há situações adversas na vida desta mulher, mas também a escolhas, e ela insiste em repetir os mesmos erros a cada nova chance. Mais do que precisar de ajuda, ela precisa querer ser ajudada.

Uma mãe que coloca crianças no mundo, mas não assume nenhuma responsabilidade. Agarrada ao passado sombrio, deixa abertas as portas para que os filhos sofram o mesmo tipo de violência e acabem no mesmo mundo que ela.

Em algum momento de julho, uma mentora diz que faz quarenta e cinco dias que estou limpa. Pergunto se isso vale alguma coisa, já que não foi por escolha.


Falando em escolhas e responsabilidades, gostei muito dos personagens que não são tão secundários assim e preenchem justamente o vazio de Arcelia. 

A Srta. Valentín, uma professora que está sempre de olho em Cristo, que também tem um passado que lhe provoca dor e compulsão pela comida, despertando o ciúmes na mãe das crianças, por achar que a outra mulher se intromete demais.

Mesmo com sol algumas coisas passam despercebidas. Mesmo no verão, quando os dias são longos, algumas coisas simplesmente não são iluminadas.


E tem o ambíguo Snowman, um negro albino que se movimenta pelo bairro a princípio como o dono dos imóveis locados na região, que mostra como todo o ser humano pode ser bom e ao mesmo tempo não ser uma pessoa correta.

No geral eu gostei muito do livro, achei a história bem pesada, ao mesmo tempo que nos lembra, pelo menos quem tem filhos, como as nossas escolhas impactam de forma absurda na vida de quem é dependente de nós.

Não gosto de deixar minhas irmãs trancadas, mas não quero que nada aconteça com elas. Principalmente quando saio e não posso proteger as duas.


O que fez com que a minha leitura fosse bem irregular, em alguns momentos era levada a ler capítulos seguidos, as vezes precisava parar para digerir a história.

Ficando assim a minha dica para quem gosta de livros fortes, que querem ler histórias com conflitos familiares, maternidade, violência contra mulher, vícios, mas que tenham um toque de esperança.


Este lado de Providence
This side of Providence
Rachel M. Harper
Tradução: Lígia Azevedo
TAG Experiências Literárias
2024 - 397 páginas
Publicado originalmente em 2016


sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O chamado de Cthulhu e outros contos



Sinopse: O Chamado de Cthulhu é um conto do norte-americano H.P. Lovecraft que logo se tornou um clássico do terror. Foi escrito em 1926 e publicado pela primeira vez na revista estadunidense Weird Tales em fevereiro de 1928. Cthulhu é um deus que nas primeiras páginas do conto aparece como um ídolo de argila quase indescritível, possuindo um culto multimilenar dedicado a trazê-lo de volta, o seu retorno desencadearia o fim da humanidade. Neste livro, encontramos esse clássico e mais nove contos consagrados do autor na literatura de terror.

Há alguns anos atrás me foi indicado ler o autor H.P Lovecraft com a justificativa que ele seria um dos mestres dos livros de terror e mistério. Para tirar a prova, aproveitei um cupom que ganhei para usar em uma livraria online e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos, para ter uma amostra do trabalho do autor.



No livro encontrei dez contos, aos quais irei fazer um breve resumo abaixo:

Dagon: Um marinho viciado em morfina compartilha a sua história após sobreviver a um naufrágio e chegar a um lugar desconhecido. A fragilidade do personagem coloca um ponto de interrogação se tudo é real ou alucinações de alguém que está perdendo a razão.


Estou escrevendo isto sob considerável esforço mental, uma vez que hoje à noite não existirei mais.


Nyarlathotep: parte dos mitos que constroem Cthulhu, o conto apresenta uma criatura que sai do Egito e vaga pela Terra. Um ser ambíguo e aterrorizante, capaz de causar a loucura e o caos ao poder assumir diversas formas e manipular a mente de quem encontra pelo caminho.

A cidade sem nome: um explorador se desloca para uma cidade cercada de lendas em um dos desertos da Arábia. Com uma atmosfera que se altera conforme o horário, ele encontra uma arquitetura macabra, símbolos estranhos e templos subterrâneos que o convidam a esquecer todos os cuidados.

Quando cheguei à cidade sem nome, vi que era um lugar amaldiçoado.


Azathoth: um conto curto que conta a história de um homem que viaja atrás dos sonhos perdidos.

O cão: dois amigos compartilham um hobby atípico: violar tumbas antigas em busca de artefatos. Em uma de suas expedições eles encontram uma escultura de jade em forma de um cão com asas. Ao carregar o objeto com eles, eventos misteriosos e aterrorizantes passam a assombra-los.

Não se trata de um sonho - nem mesmo, receio, loucura -, pois já me aconteceu muita coisa para eu ter essas dúvidas apaziguadoras.


O Festival: convocado por familiares para participar de um antigo festival, o personagem/narrador retorna a sua cidade natal. Mas o que deveria ser um retorno às origens acaba se tornando uma experiência bem diferente da imaginada.

O Chamado de Cthulhu: após a morte de um tio-avô o professor Francis Wayland Thurston se depara com a história de um estranho ídolo de argila, que teria relação com um antigo culto dedicado a uma criatura monstruosa que teria vindo das estrelas: Cthulhu. Conforme se aprofunda nas investigações, ele descobre não só uma conexão psíquica entre algumas pessoas e a entidade, como que o retorno de tal criatura significaria o fim da humanidade.

A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos.


A Cor Vinda do Espaço: um meteoro cai em uma fazenda localizada a oeste da cidade de Arkham e uma estranha cor começa a surgir no local do impacto. Sua queda não gera nenhum dano momentâneo, mas com a passagem dos dias uma terrível transformação ocorre na localidade conforme a estranha coloração passa a corroer tudo o que toca.

História do Necronomicon: pequeno conto que conta a origem do livro fictício citado em diversos contos de H.P. Lovecraft, onde o autor Abdul Alhazred, conhecido como "o Árabe Louco" teria descrito uma série de feitiços e rituais para invocar entidades antigas e poderosas, como Cthulhu.

São figuras tão caladas e furtivas que ele se sente de certa forma confrontado com coisas proibidas, com as quais seria melhor não ter nenhuma relação.


O Horror de Dunwich: Dunwich é uma pequena cidade de Massachusetts onde a estranha família Whateley, que combina cultos antigos e casamento endogâmicos, mora. Mas todas as atenções se voltam para eles quando nasce Wilbur Whateley, um menino que cresce em uma velocidade espantosa e apresenta características que lembram animais e conforme cresce cria uma obsessão por livros antigos, em particular o Necronomicon.


A escrita de H.P. Lovecraft

O escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, popularmente conhecido como H.P. Lovecraft, é considerado como o autor que revolucionou no século XX o gênero de terror, principalmente no que denominamos terror psicológico e cósmico.

Além da psicologia, o escritor que teve uma infância marcada pela solidão, mistura ficção científica, fantasia em histórias obscuras que podem perturbar os leitores nesta mescla de insanidade e criaturas que não se sabe se vem do cosmo ou de universos paralelos.

Não lembro com precisão quando começou, mas já faz meses. A tensão geral estava horrível.


E foi isso que gerou o Mito de Cthulhu, onde vários contos compartilham o terror cósmico dos impactos do despertar de uma criatura antiga e poderosa que afetaria a Terra como um todo. Não à toa, existe mais de um livro de contos do autor publicado com o mesmo título: O chamado de Cthulhu e outros contos

Em O chamado de Cthulhu e outros contos que eu li existe aquele misto de terror, mistério e dúvida. Ao utilizar a narrativa em primeira pessoa com personagens que ou não confiáveis ou se colocam em situações que podem alterar a sua percepção, o autor mexe com o sentimento de ética e empatia do leitor, pois é imaginação ou eles são realmente vítimas de algo que chamaríamos de sobrenatural?

Sobre o nome e a residência desse homem pouco se escreveu, pois serviam apenas para o mundo da vigília, embora se diga que eram ambos obscuros.


Ao mesmo tempo ele nos carrega para civilizações perdidas, onde o antigo e o avanço tecnológico se misturam, mas habitadas por forças malévolas, ligadas aos muitos mistérios que ainda hoje tentamos desvendar.

Isso é acentuado pelo conjunto de contos que forma os mitos de Cthulhu, onde entidades cósmicas são capazes de causarem horrores que a humanidade não possui preparo e muito menos compressão para enfrentar.


O que eu achei de O chamado de Cthulhu e outros contos

A sensação que eu tive lendo este livro de contos era de estar subindo uma montanha, a cada história o terror aumentava, e não raro, também o número de páginas para imergir em um mundo onde os horrores estão completamente conectados por um livro fictício e por uma criatura.

Várias vezes me peguei lembrando da série Alienígenas do passado, onde cidades antigas e cheias de lendas são mostradas e suas construções questionadas sobre se realmente usaram mão de obra humana ou se seres do espaço o construíram.

Parecia haver ali uma umidade indefinida e opressiva, e me espantei com o fato de o fogo não estar aceso.


Mas nos contos de H.P. Lovecraft eles não constroem nada, e não estão vindo do espaço em uma espaçonave. O mais perigoso está dormindo em águas profundas, e os demais parecem vir atender chamados de rituais ou através de portais escondidos em várias partes da Terra.

Motivo pelo qual não raro é fácil duvidar da história do narrador, pois em algumas situações enfrentadas por eles não seria difícil confundir com alucinações ou pesadelos. 

Não é um lugar bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes à noite.


Em outros casos está mais escancarado, embora não haja uma comprovação total da lenda, existem fatos para deixar as orelhas em pé e os pelos dos braços arrepiados.

O que tornou o universo de H.P. Lovecraft aprovado por mim, uma fã do gênero, que só agora conheci o mestre e deixo a dica para quem também curte este misto de terror, psicologia e mistério.


O chamado de Cthulhu e outros contos
H.P. Lovecraft
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora Nova Fronteira
2023 - 200 páginas
Contos publicados originalmente no final dos anos de 1800