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sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.



Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Blade Runner


Sinopse: Em uma Terra decadente, coberta por poeira radioativa, Rick Deckard é um caçador de recompensas. Uma missão desafiadora pode ser sua única chance de ascensão: Deckard precisa perseguir e aposentar seis androides foragidos que se passam por humanos.



Em uma São Francisco pós-apocalíptica, ter um animal de verdade é sinal de status e acreditar em Mercer um sinal de humanidade entre os que ficaram vivendo em uma Terra radioativa.

Entre os moradores está Rick Deckard, um caçador de recompensas casado com uma mulher depressiva e dono de uma ovelha elétrica sofisticada o suficiente para enganar os seus vizinhos.

Isso em vez de economizar, e assim a gente poderia comprar uma ovelha de verdade, para colocar no lugar daquela falsa e elétrica lá em cima.


Sua nova missão lhe promete dar uma boa quantia em dinheiro: aposentar um grupo de replicantes Nexus-6 fugitivos das colônias que ficam em outros planetas. Estes replicantes são particularmente perigosos, pois são androides com criação biológica avançada, sendo necessários testes de empatia para distingui-los dos seres humanos.

Mas no decorrer da missão, Deckard começa a conhecer diferentes pessoas e androides, e as relações e comportamentos começam a fazer com que surjam diferentes reflexões sobre o que ele acredita e pensa em relação a natureza de tudo, da vontade de viver até a criação de laços.

A Poeria que havia contaminado a maior parte da superfície do planeta não tinha surgido em nenhum país em particular e ninguém, nem mesmo os inimigos de guerra, havia planejado isso.


Tornando Blade Runner não só uma ficção científica, mas uma obra que nos faz refletir sobre questões existenciais a respeito da nossa própria humanidade.


A escrita de Philip K. Dick

Considerado um visionário, o autor americano nascido em Chicago Philip K. Dick é conhecido por interligar temas complexos que vão desde a natureza da realidade, passando por tecnologia até o que se entende por identidade.

Sua escrita até hoje influencia autores e cineastas, principalmente por serem inovadoras e instigantes até hoje. Mas incrivelmente este autor capaz de questionar presente passado e futuro só atingiu a popularidade após a sua morte.

Porque, em última análise, o dom da empatia ofuscava as fronteiras entre caçador e vítima, entre vencedor e vencido.


Isso se deve as adaptações de suas obras para o cinema e televisão como "Minority Report", "Total Recall", "The Man in the High Castle" e "Do Androids Dream of Electric Sheep?" que teve o nome alterado para "Blade Runner" e segue sendo cultuado até os dias de hoje, com direito a mais de uma versão. 

O livro "Do Androids Dream of Electric Sheep?" hoje muitas vezes é publicado com o nome do filme, mas sua escrita não foi adaptada para a versão cinematográfica.

De qualquer jeito é um risco, libertar-se e vir para a Terra, onde não somos sequer considerados animais.


O Blade Runner das páginas segue explorando temas filosóficos como o que define a humanidade. A narrativa em terceira pessoa é direta, com diálogos que ajudam a ambientar o mundo que os personagens vivem.

Assim como explicitar as crises existenciais, a necessidade de ter algo para acreditar, revelando angústia, depressão, necessidade de aceitação.

Senti todos os outros, em todo o mundo, todos que haviam feito a fusão ao mesmo tempo.


O que torna o livro bem diferente da sua versão cinematográfica, mas nem por isso menos interessante.


O que eu achei de Blade Runner

Primeiro tive uma sensação de estranhamento, já que as datas citadas no livro o futuro já virou passado, mas pelos eventos, parecemos estar vivendo o início de tudo o que é relatado no livro.

Encontrei nas páginas um planeta destruído, onde androides replicam perfeitamente a imagem de humanos e animais, mas há muitas outras camadas na história que são exploradas.

Estou aqui com você e sempre estarei. Vá e faça sua tarefa, mesmo que você saiba que é errado.


É curioso ver em uma sociedade em que poucos restaram e uma poeira toma conta do céu, que as aparências ainda importam. O que você tem ou deixa de ter na opinião dos outros segue aumentando ou diminuindo o seu ego, mesmo que o dinheiro gasto pudesse ter melhor uso.

A questão da fé também é muito forte. O acreditar em alguém impulsionado pela empatia, que somente a humanidade consegue sentir, desafia as máquinas, a ponto de elas também quererem um pouco das vivências humanas.

Nenhuma consciência emocional, nenhum senso de compreensão do real significado do que diz.


E é essa empatia que irá mexer com o caçador de androides, que o fará sentir dúvidas e questionar sobre suas próprias ações enquanto precisa decidir se irá ou não completar a missão.

O que geram cenas com aquele ponto de interrogação: Rick está alucinando ou temos uma ficção científica com realismo fantástico? O que estamos lendo é uma milagre ou uma alucinação movimentada pela necessidade de acreditar?

No entanto, o fogo sombrio tinha diminuído; a força da vida esvaía-se dela, como ele já havia testemunhado antes com outros androides.


Tornando a narrativa algo muito superior a uma caçada ou avanço tecnológico, onde as máquinas são apenas o gatilho para discutir sobre os eternos conflitos humanos.

Motivo pelo qual recomendo e muito a leitura, seja você fã de ficção científica, seja você fã de reflexões sobre a nossa existência.


Blade Runner
Do androids dream of electric sheep?
Philip K. Dick
Tradução: Ronaldo Bressane
TAG - Aleph
2023 - 272 páginas
Primeira publicação em 1968


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Encontro com Rama



Sinopse: Após a terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu, líderes mundiais e cientistas criaram um sistema de monitoramento para evitar que essas catástrofes voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade acompanha, alarmada, a chegada de um novo objeto de proporções inimagináveis que avança na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar o que se imagina ser um meteoro colossal, mas que se revela uma sofisticada construção, repleta de enigmas que desafiam a mente e os conceitos humanos.



A humanidade se espalhou pelos planetas do sistema solar após um evento catastrófico que tirou algumas cidades do mapa no ano de 2077. Mas principalmente investiu em sistemas de vigilância espacial para detectar e lidar com possíveis ameaças e assim evitar a ocorrência de eventos semelhantes, chamado projeto SPACEGUARD, a guarda espacial.

Um dia o que muitos achavam que era um meteoro no radar é identificado como um gigantesco objeto cilíndrico, cuja perfeição geométrica desafia a todos da vigilância. Cruzando o Sistema Solar em velocidade constante, lhe é dado o nome de Rama e uma expedição humana é enviada para uma melhor verificação.

Após o choque inicial, a humanidade reagiu com uma determinação e uma unidade que teriam sido impossíveis em qualquer época anterior.


Quando os astronautas conseguem entrar no objeto imenso e de origem desconhecida, se deparam com um mundo silencioso e artificial, cuja complexidade indicam uma tecnologia muito superior à humana, despertando uma mistura de curiosidade, prazer, receio e o sentimento de estar vivenciando algo único.


A escrita de Arthur C. Clarke

O inventor e divulgador científico inglês Arthur C. Clarke foi um dos escritores mais influentes no século XX no gênero ficção científica. Seu interesse por ciência, astronomia, inovação e tecnologia ecoam na página dos seus livros, dando verossimilhança em suas narrativas.

Encontro com Rama é um exemplo disso, e não é à toa que se tornou um dos marcos da ficção científica e inspirou outros escritores. Ao descrever uma estrutura complexa, com detalhes técnicos da espaçonave alienígena, Clarke convida o leitor a ter um novo olhar sobre como podem ser as civilizações vizinhas.

Um objeto de quarenta quilômetros de comprimento, com um período de rotação de quatro minutos - onde isso se encaixava na ordem das coisas astronômicas?


Pois em sua narrativa em terceira pessoa é possível encontrar um universo extremamente rico não apenas nos detalhes do ambiente interno e externo a espaçonave Rama, mas também filosófico, já que quando a equipe se depara com algo totalmente novo, a cada descobertas novas perguntas existenciais vão surgindo, conforme o perfil do personagem que está sendo acompanhado.

Tudo isso em uma linguagem incrivelmente fluída, onde os capítulos - todos nomeados - convidam a seguir em frente em uma história que consegue colocar o leitor junto da equipe de expedição.

O encontro, tão esperado e tão temido, finalmente ocorrera. A humanidade estava prestes a receber seu primeiro visitante das estrelas.


Uma curiosidade, no título original é utilizada a palavra francesa Rendezvous, que pode servir para enfatizar a natureza planejada e importante de um encontro, mas também pode sinalizar um encontro com o destino e mistério. Combinando perfeitamente com a história narrada.


O que eu achei de Encontro com Rama

A primeira coisa que chamou a minha atenção é que o livro escrito em 1972 informa em sua primeira página uma bola de fogo cruza o céu da Europa às 09h46 da manhã do dia 11 de setembro de 2077. E para quem viveu o 11 de setembro do início dos anos 2000, é impossível não vir esta primeira lembrança.

A segunda coisa foi a forma como a humanidade se espalhou pelo universo solar até o ano de 2130, quando ocorre o encontro com Rama. Gerando situações curiosas, como um dos personagens que possui duas famílias, uma no planeta Terra e outra em Marte. Será um sinal que os homens evoluem em tecnologia, mas não em seus hábitos?

Embora estivessem tomados por uma sensação de confiança e contido entusiasmo, após algum tempo o silêncio quase palpável de Rama começou a pesar sobre eles. 


A terceira coisa foi o nome da nave de expedição: Endeavour, uma referência ao navio carvoeiro que deu a volta ao mundo entre 1768 e 1771 comandado pelo capitão James Cook.

Mas como vocês já devem ter percebido na parte sobre a escrita, o livro realmente me envolveu. Os capítulos curtos, a forma como são finalizados com um gancho convidando a continuar, fizeram com que a leitura fosse muito rápida.

As coisas não eram o que pareciam ser; havia algo muito, muito estranho num lugar que era simultaneamente novo em folha - e tinha um milhão de anos.


Principalmente pelos sentimentos despertados. Na etapa que eles entram na nave alienígena eu já fiquei em agonia, me lembrando do filme alien. Quanto mais eles avançavam, ou quando havia momentos de tensão, mais eu queria seguir na leitura para descobrir o que iria acontecer.

Encontro com Rama é um sci-fi que explora a curiosidade científica, o de se arriscar pelo desconhecido, a superação do medo em busca de uma descoberta, de nem sempre encontrar respostas para as perguntas que vão surgindo.

Esse era um mundo estéril, segundo os testes mais sensíveis que o homem poderia aplicar. Mas agora acontecia algo que não podia ser explicado pela ação de forças naturais.


O livro também explora o lado político, em um sistema que a humanidade se dividiu entre planetas, explora o fato daqueles que acham ter o direito de tomar decisões em nome de todos, baseado na velha crença do bem versus o mal, de heróis contra vilões.

E embora o lado pessoal dos personagens seja pouco explorado, em Encontro com Rama isso não atrapalha, pois só são detalhados o que mais tem relação com a narrativa, não deixando pontos de interrogação ou necessidade de mais, já que complementa o suficiente para manter a fluidez.

Treinamento era uma coisa, realidade era outra, e ninguém podia ter certeza de que os antigos instintos humanos de autopreservação não dominariam durante uma emergência.


Eu gostei muito de Encontro com Rama, achei que a leitura estimulou a minha curiosidade, já que sempre tive interesse no assunto de outros seres fora do sistema solar, e ao mesmo tempo ela reafirma o fato de que os anos vão passando, mas a evolução na forma de pensar parece estar longe de acompanhar os avanços tecnológicos.

Ficando a dica para quem gosta de histórias de ficção científica, de histórias com questionamentos existenciais e claro, para quem não resiste a uma boa leitura.


Encontro com Rama
Rendezvous with Rama
Arthur C. Clarke
Tradução: Susana L. de Alexandria
TAG - Aleph
2023 - 288 páginas
Publicado originalmente em 1972


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

O fim da eternidade


Sinopse: Um dos livros de viagem no tempo mais divertidos já escritos e uma das principais obras de Asimov, O fim da eternidade conta uma história de amor envolta em ficção científica da mais alta qualidade. O técnico Andrew Harlan é responsável por fazer pequenas modificações na história durante suas viagens no tempo. Por menores que sejam - tirar um objeto do lugar, interromper uma conversa -, cada uma dessas mudanças altera a vida de milhares de pessoas, evitando até catástrofes séculos à frente. Em uma de suas missões, conhece Noÿs Lambent, uma mulher que abala suas convicções e o faz questionar as regras do próprio trabalho, podendo colocar em risco o rumo da humanidade.

Andrew Harlan utiliza cápsulas para viajar entre os séculos. Nascido no século 95, desde que aos 15 anos se tornara um aprendiz na Eternidade, nunca mais retornara para casa ou viu sua família. 

Hoje ele exerce a função de técnico, um perfil que exige uma estrutura mental fria e impessoal, o que o torna bastante distante das demais pessoas que circulam na Eternidade, tornando-o bastante solitário. 

Não esperava nenhum movimento; nem para cima nem para baixo, para a esquerda ou para a direita, para a frente ou para trás.


Em cada viagem pelo tempo ele precisa se adaptar a cultura do século destino para passar despercebido na realização de suas mudanças, que por menores que sejam, geram mudanças que ecoam pelos séculos futuros, impactando em nascimentos, mortes e eventos.

Mas todas as suas crenças serão colocadas a prova em uma missão no século 482. Recebendo como parceira a tempista Noÿs Lambert, que conquista o coração e a mente do até então muito frio técnico, que irá rever e começar a questionar tudo o que viveu e aprendeu até se deparar com sua primeira paixão.

Tudo funcionava perfeitamente antes, mas agora tudo estava diferente para ele, e os pedaços do que havia se quebrado não poderiam ser juntados de novo.


E para viver esta paixão ele pode colocar em risco tudo o que se entende como a organização chamada Eternidade.


A escrita de Isaac Asimov

O escritor americano Isaac Asimov utiliza a narrativa em terceira pessoa para que o leitor acompanhe a jornada de Andrew Harlan em sua jornada pelo tempo e o desafio de tomar as próprias decisões.

Optando em já o apresentar como técnico, utiliza de pensamentos para pincelar como ele foi convocado a trabalhar na organização chamada Eternidade, suas funções anteriores e sua escolha para uma função tão desafiadora. 

A história que tentam ensinar aos Tempistas muda a cada Mudança de Realidade. Não que eles se dêem conta disso. Em cada Realidade, a história deles é a única história.


No primeiro capítulo o autor optou em deixar uma pulga atrás da orelha de quem inicia a leitura, e os capítulos seguintes vão em uma crescente de acontecimentos e situações que geram reflexões não só sobre alterar os acontecimentos passados, mas sobre a humanidade em si.

A tecnologia está presente, mas como uma coadjuvante para levar o personagem principal de um século a outro, o verdadeiro foco está nas atitudes dos Homens em si.

Acima de tudo, havia desenvolvido o sentimento de poder de um Técnico. Tinha o destino de milhões de pessoas nas pontas dos dedos e, se isso era fonte de solidão, também era fonte de orgulho.


A escrita no geral é fluída, inicialmente parece mais engessada, mas ela vai ficando mais solta no decorrer dos capítulos, aos quais todos possuem um título, deixando ganchos de uma passagem para a outra.


O que eu achei de O fim da eternidade

O que dizer de um livro cujo título já é um possível spoiler?

Confesso que não o achei divertido, já que não houveram gargalhadas durante a leitura, mas sim bem interessante as reflexões que ele proporciona ao longo da leitura e após sua finalização.

Teria de falar o menos possível, fazer o menos possível, ser o mais possível somente uma parte da parede. Sua verdadeira função era ser dois olhos e dois ouvidos.


Primeiro é o machismo explícito de um grupo chamado Eternidade que viaja pelo tempo alterando eventos e assim mudando diferentes realidades que em sua maioria é composta por homens em toda a sua hierarquia.

Curiosamente ao mudarem as grandes dores de nossa história, o ser humano para de evoluir e os séculos, apesar de terem culturas diferem, tendem a uma padronização a cada mudança realizada no passado.

Era muito pior do que apenas antiético, mas há muito isso não lhe importava. No último fisiomês tornara-se, aos seus próprios olhos, um criminoso.


A verdade é que a cada mudança parece que eles apenas pioram mais o cenário. O poder do homem de ser Deus, interrompendo outras vidas, mudando caminhos, me provocou como leitura uma certa inquietação, principalmente quando se pensa no período atual, em que estamos no meio de tantas guerras espalhadas pelo mundo e outros tantos desejos de invasão.

Seria bom consertar tudo isso e vivermos tempos de paz para tentar dar uma sobrevida ao nosso planeta? Com certeza. Mas aí teríamos que colocar mulheres para participarem das análises, algo vetado na Eternidade de Harlan, e assim termos sensibilidade em relação as pessoas afetadas. Ao mesmo tempo surge a pergunta quem somos nós para decidir os caminhos dos outros?

Um juramento de posse quebrado, que não era nada no 482, era execrável na Eternidade.


Voltando a ficção, em O fim da eternidade tudo muda quando um dos técnicos mais capazes se apaixona. E aí temos uma ficção científica love story que coloca o amor na batalha contra o poder de uma organização.

Confesso que fiquei curiosa se o filme De volta para o futuro se inspirou nele, principalmente na questão de uma pessoa não poder se encontrar durante as viagens. Também me recordei do filme Efeito Borboleta e da série Dark, onde temos as pequenas alterações no tempo e um vai e volta constante.

Ninguém o questionara. Ninguém o detivera. Haveria essa vantagem, de qualquer modo, no isolamento social de um Técnico.


Em resumo eu gostei, não achei o máximo, mas no geral a leitura me agradou. Achei o início um pouco arrastado, contrastando com o final que já prende bem mais, mesmo quando as descobertas feitas são um tanto óbvias.

Ficando a dica para quem gosta de ficção científica, histórias diferentes, reflexões sobre o comportamento humano e claro, quem não resiste a um livro que já quer ler.


O fim da eternidade
The end of eternity
Isaac Asimov
Tradução: Susana L. de Alexandria
TAG - Aleph
2023 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1955