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domingo, 9 de agosto de 2026

O que precisamos saber



Sinopse: Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. O professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?

O livro de Abril/26 foi uma indicação da própria TAG Curadoria: a distopia do escritor inglês Ian McEwan recém lançada pela Companhia das Letras O que precisamos saber. Este foi o quarto livro enviado pelo Clube aos assinantes e o segundo que eu recebo nos meus 9 anos como assinante - o primeiro foi Na praia. O mimo foi uma coletânea de humor da América Latina.

No ano de 2014, durante o aniversário da esposa Vivien, o prestigiado autor Francis Blundy lê em um jantar com amigos e parentes intelectuais o seu poema mais brilhantemente escrito, e que nunca foi publicado, gerando todo um desejo para os que não participaram em conhecer o texto.

Com exceção das compras, pouco sabemos sobre as preparações para a noite que viria a ser conhecida como o Segundo Jantar Imortal.


O que faz a busca pelo original sobreviver não só aos anos, como ao colapso climático e a guerra nuclear. Sendo uma obsessão do professor universitário Thomas no ano de 2119.

Vivendo em uma Terra em que cidades antes tão famosas estão embaixo d'água e a população reduziu fortemente. Um mundo onde a escassez faz com que os mais jovens não tenham interesse na arte, na memória e na cultura dos seus ancestrais do século XXI, havendo inclusive um desdém por aqueles que não fizeram nada para impedir o cenário brutal.

A coroa era uma empreitada formidável. Consistia de quinze sonetos. O último verso de cada um tinha que ser repetido na primeira linha do seguinte.


Afinal, se o mundo antigamente era tão bom, por que ele não foi preservado? Por que os alertas não foram levados a sério? Por que as guerras continuavam?

Mas ao buscar todas as informações possíveis sobre o poema e as pessoas que ouviram a sua leitura, não apenas Thomas como o leitor que o acompanha irão descobrir que além da beleza, os participantes do jantar possuíam muitos segredos.

Um e-mail ou uma mensagem raramente contém tanta reflexão subjetiva interessante quanto uma bem pensada carta dos séculos XIX ou XX.


Tornando O que precisamos saber dois livros em um, onde na primeira parte será encontrada uma distopia e na segunda todos os mistérios de Vivien, a presenteada com o lendário poema.


A escrita de Ian McEwan

O renomado escritor e roteirista britânico Ian McEwan já foi chamado de macabro, ganhou o Booker Prize e tem vários de seus livros adaptados para o formato cinematográfico. Sendo considerado hoje um dos autores de língua inglesa mais importantes da literatura contemporânea.

Seus livros misturam tabus, psicologia, dilemas sociais e morais, história e por consequência a figura humana diante de tudo e de todos. E sua escrita é descrita como elegante e rigorosa, o que torna os seus livros fontes de estudo em universidades, além de já ter sido traduzido para diferentes idiomas.

Os vinhos que os convidados deles beberam eram superiores aos nossos. A comida, sem dúvida, mais deliciosa e variada, vinha do mundo inteiro. O ar que respiravam era mais puro e menos radioativo.


E esta prosa elegante e fluida é encontrada em O que precisamos saber, um livro que parece dois, ao separar a narrativa em duas partes: uma em que temos o olhar investigativo e saudosista de uma época que não viveu através de Thomas e outra que temos todos os dilemas morais com Vivien.

O autor também descreve uma distopia bastante diferente, não há invenções futuristas, aliás, não há mais nem as novas invenções, focando mais nas questões existenciais, nos impactos que a combinação guerra e mudança climática irão perpetuar no planeta e as relações com a própria história.

Haviam crescido com as consequências daquilo, ouviam os avós falar sobre aquilo. O passado era povoado por idiotas. Grande coisa.


Já na parte de Vivien o autor irá encontrar também cultura e memória, mas aqui muito mais psicológico no que se trata em relações humanas e escolhas, além de instigar o leitor a desvendar os mistérios que tanto obcecaram Thomas no futuro.


O que eu achei de O que precisamos saber

No geral eu gostei do livro, principalmente da parte da distopia. Achei muito interessante ler uma visão em que tudo o que tem nos afetado atualmente nos levar de volta para um mundo que mistura anos 80 e período medieval. Sim, os problemas com as telas acabaram, e os voos de avião também.

E os alunos de Thomas nos trazem vários questionamentos muito atuais: como um período em que evoluímos tanto tecnologicamente e culturalmente não preserva adequadamente o seu planeta? Como uma população com tantas possibilidades de ir e vir ainda se extermina através de guerras injustificáveis?

As ciências humanas estão sempre em crise. Não acredito mais que se trate de um problema institucional - faz parte da natureza da vida intelectual ou do próprio pensamento.


Sim, eu sei que desde que temos o mínimo de conhecimento do nosso mundo, é assim que vivemos. Evoluímos pouco a pouco para tornar vida mais cômoda, em paralelo seguimos com níveis enormes de desigualdade social, e no que se trata de poder, vida e moralidade nem sempre importam.

Tornando o mundo de 2119 de Ian McEwan um dos mais possíveis de todas as distopias que li até agora, o que de certa forma aumentou a minha angustia ao ver as previsões do tempo aqui no Sul.

Quanta liberdade e passividade, quanto atrevimento temoroso. Eram de uma mesquinhez brilhante, briguentos além dos limites, prontos a morrer tanto pelas boas ideias quanto pelas más.


Outro ponto que achei bacana de ser abordado é o sentimento de Thomas de ter nascido na época errada, e isso não é algo incomum, ao mesmo tempo de ser um fato bastante curioso essa idealização por tempos passados. Já que somos formados pelo que vivemos, convivemos e lemos, fiquei pensando se alguém realmente se adaptaria se caísse de paraquedas em um período diferente do que nasceu, ou se o choque de realidade seria muito diferente.

Falando em idealização, Thomas também traz um fenômeno comum em todas as épocas, a admiração profunda que se tem por pessoas que não conhecemos. Eu sempre digo que prefiro não conhecer profundamente os autores de meus livros favoritos, pois de perto ninguém é normal. E na narrativa não é diferente, e o meme expectativa x realidade se faz presente.

Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.


Também observei espelhamentos da primeira e segunda parte nas relações humanas, principalmente nas chamadas românticas, o que mostra que em determinados aspectos a humanidade segue a mesma, independente da época.

O que me faz chegar na segunda parte, que conta a história de Vivien, a musa de Thomas, e um pouco mais dos personagens que estiveram no famoso jantar da declaração do poema. E confesso que não gostei tanto.

Eu estava sozinha. Sem ninguém com quem falar. Ninguém se importava.


O grupo apresentado seria digno de uma terapia de palco no formato do antigo Casos de família, onde a forma individualista de Vivien traz a narrativa para algo bem psicológico sobre suas ações e reações ao que ocorre ao seu redor.

Aliás, uma coisa que eu senti falta na segunda parte é que ela não aborda os pré-acontecimentos que levaram a todas as mudanças de 2119, pois estamos nas memórias de Vivien, e o foco nos acontecimentos que nortearam as suas decisões, seja elas pensadas ou tomadas pelo puro impulso.

Hoje desprezo essas histórias simplistas das terapias. É possível que nunca exista qualquer prova. Em vez disso, a pessoa escolhe a história que se ajusta melhor ou que lhe oferece mais consolo.


Tornando O que precisamos saber uma leitura diferente, que mexe com a curiosidade, levanta perguntas e gera reflexões sobre de que forma o presente irá impactar o futuro em todas as esferas. Ficando a dica para quem se interessar.


O que precisamos saber
What we can know
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
TAG - Companhia das Letras
2026 - 381 páginas
Publicado originalmente em 2025


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime



Sinopse: Nesta coletânea de contos de romances inusitados, Agatha Christie mostra como o amor pode impulsionar as pessoas a diversos tipos de loucuras. A Rainha do Crime te levará a testemunhar o lado obscuro desse sentimento, longe do romantismo e da paixão, em uma trilha intensa de enigmas a serem descobertos. Crimes passionais, jogos sentimentais e relacionamentos (que deram um pouco... errado) serão investigados pelos heroicos e tão queridos detetives Hercule Poirot e Miss Marple, o mestre das charadas Parker Pyne, o misterioso Mr. Quin e o audacioso casal Tommy e Tuppence.



Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime é uma edição especial da TAG experiências literárias, composto de 13 contos, um texto sobre assuntos do coração escrito pela Agatha Christie e a sua biografia. Abaixo um breve resumo de cada conto:


O Rei de Paus: durante um jogo de cartas familiar, uma mulher coberta de sangue invade a casa e grita assassinato antes de desmaiar. Para desvendar o mistério, o famoso Hercule Poirot que não deixa nenhum detalhe escapar entra em cena.

A realidade não é apenas mais estranha que a ficção, é mais dramática.


O rosto de Helena:
em uma ópera Sr. Satterthwaite se encanta pela bela cabeça de uma mulher e acaba se aproximando da mesma, e descobre que ele não é o único a se encantar pela moça.

Morte no Nilo: Parker Pyne está em um luxuoso cruzeiro pelo rio Nilo quando a tranquila viagem de férias é interrompida pela morte de uma herdeira. Personagem não muito simpática, que torna todos a sua volta suspeitos em potencial.

É uma coisa notável quando se pensa nisso, como poucas pessoas têm cabelos que de fato combinam com elas.


Morte por afogamento: uma jovem é encontrada morta em um rio próximo em uma pequena vila inglesa. Todos da comunidade acreditam que o afogamento foi causado pela própria jovem, mas Miss Marple observa detalhes que a fazem acreditar na possibilidade de assassinato.

A pista dupla: um conhecido colecionador de joias tem rubis e esmeraldas furtados. Pistas falsas são deixadas para enganar a polícia, mas não são o suficiente para o detetive Hercule Poirot e seu fiel companheiro, Hastings.

Sofria desde os dezesseis de um problema de dinheiro em excesso.


Uma finesse com o rei: o casal de detetives Tommy e Tuppence tiram uma noite para dançar e se divertir quando sem querer viram testemunhas e investigadores de um assassinato.

Um domingo frutífero: um casal sai de carro para aproveitar o dia, mas o que era para ser um domingo tranquilo, torna-se um quebra-cabeça com vários acontecimentos inesperados e relacionados.

Sua anfitriã tinha temperamento plácido, pouco dada a destemperanças ou aflições. 


O vespeiro: Hercule Poirot resolve visitar um homem para discutir sobre um assassinato que ainda não aconteceu.

O caso da Zeladora: Miss Marple está deprimida por ter que ficar em casa para se curar de uma gripe, é quando seu médico lhe dá uma carta com um intrigante caso, um quebra-cabeça sobre o desaparecimento de uma zeladora.

A seu modo, ele era uma espécie de celebridade, e a vida elegante era sua profissão.


O homem na neblina: Tommy e Tuppence estão decepcionados por não terem solucionado seu último caso quando se deparam com um novo mistério a caminho da estação de trem.

O caso da ricaça: Parker Pyne recebe uma missão inusitada, uma mulher rica e sozinha não sabe mais como gastar o seu dinheiro busca orientação de como fazê-lo em algo que realmente valha a pena.

Todas as esposas que conheço estão ansiosas para sair e dançar, e chorando seus maridos usam pantufas e vão para a cama às 21h30.


Flor de magnólia: uma jovem mulher casada resolve ir embora com o seu amante, mas durante a fuga descobre que o marido foi à falência e as descobertas que virão são totalmente inesperadas.

Os detetives do amor: a morte súbita de um homem rico e solitário identificada inicialmente como natural desperta a intuição de Sr. Satterthwaite sobre as coisas não serem exatamente o que parecem.


A escrita de Agatha Christie

A escritora britânica nascida em 1890 foi responsável pela revolução no gênero policial, tornando Agatha Christie a rainha dos romances do gênero. Em 1920 ela publicou O Misterioso Caso de Styles, seu romance de estreia com detetive belga Hercule Poirot, o primeiro de 66 romances, fora os contos e as peças de teatro. O que a tornaram uma das autoras mais vendidas.

Seu estilo de escrita encanta pelas reviravoltas que surpreendem o leitor, as soluções que ninguém havia imaginado, a personalidade observadora de seus detetives, os locais diversos que mexem com a curiosidade e a escrita que captura da primeira à última página.

Ele agora preferia a lei do menor esforço, seguindo atrás de qualquer carro que estivesse à frente sem pensar sempre que uma escolha de vias se apresentasse.


O que torna a coletânea de contos Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime uma espécie de amostra com vários de seus conhecidos detetives, quase um convite para as novas gerações descobrirem mais de sua obra e uma forma de lembrar os já leitores que as obras da rainha são atemporais.


O que eu achei de Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime

Eu particularmente gosto de romances policiais, e embora não tenha começado no gênero pelos livros da Agatha Christie, sempre que posso ler algum de seus livros já sei que a diversão com o quebra-cabeça literário é diversão garantida.

Mas confesso que não foi algo que encontrei na coletânea de contos. Por serem histórias bem curtinhas, não há informações suficientes para criar teorias ou pensar quais peças se encaixam, pois em um piscar de olhos o caso já foi solucionado.

Em um minuto, uma expressão de absoluto espanto surgiu em seu rosto, pois a figura engomada que subia o caminho era a última que ele esperava ver nesta parte do mundo.


O interessante dele aqui está na visão que se tem dos relacionamentos, sejam sociais, sejam amorosos, sejam de casal, ou de comunidade. Pois se tem um desenho tanto das famílias abastadas, com algumas críticas sutis e outras mais diretas, como de comunidades do interior fechadas a estrangeiros.

E nestes ambientes ocorrem intrigas, obsessões, desejo de vingança, traições, cumplicidades, dias inusitados e questionamentos existenciais.

Não consigo deixar de pensar o quão melhor teria sido se eu simplesmente tivesse morrido.


Tornando a leitura leve e fácil, que combina tanto com chocolate quente no inverno como com areia de praia no verão. Ficando a dica de leitura para quem gosta de livros que ajudam a desopilar nas férias ou para intercalar após uma narrativa especialmente difícil.


Um caso mortal - Histórias de amor inesperadas da rainha do crime
A Deadly Affair
Agatha Christie
Tradução: Samir Machado de Machado, Jim Anotsu, Petê Rissatti
TAG - Harper Collins
2022 - 271 páginas
Contos escritos entre os anos de 1923 e 1942.


quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Encontro com Rama



Sinopse: Após a terrível colisão de um meteorito contra o continente europeu, líderes mundiais e cientistas criaram um sistema de monitoramento para evitar que essas catástrofes voltassem a acontecer. Quase cinquenta anos depois, a humanidade acompanha, alarmada, a chegada de um novo objeto de proporções inimagináveis que avança na direção de nosso Sol. Uma expedição é enviada para explorar o que se imagina ser um meteoro colossal, mas que se revela uma sofisticada construção, repleta de enigmas que desafiam a mente e os conceitos humanos.



A humanidade se espalhou pelos planetas do sistema solar após um evento catastrófico que tirou algumas cidades do mapa no ano de 2077. Mas principalmente investiu em sistemas de vigilância espacial para detectar e lidar com possíveis ameaças e assim evitar a ocorrência de eventos semelhantes, chamado projeto SPACEGUARD, a guarda espacial.

Um dia o que muitos achavam que era um meteoro no radar é identificado como um gigantesco objeto cilíndrico, cuja perfeição geométrica desafia a todos da vigilância. Cruzando o Sistema Solar em velocidade constante, lhe é dado o nome de Rama e uma expedição humana é enviada para uma melhor verificação.

Após o choque inicial, a humanidade reagiu com uma determinação e uma unidade que teriam sido impossíveis em qualquer época anterior.


Quando os astronautas conseguem entrar no objeto imenso e de origem desconhecida, se deparam com um mundo silencioso e artificial, cuja complexidade indicam uma tecnologia muito superior à humana, despertando uma mistura de curiosidade, prazer, receio e o sentimento de estar vivenciando algo único.


A escrita de Arthur C. Clarke

O inventor e divulgador científico inglês Arthur C. Clarke foi um dos escritores mais influentes no século XX no gênero ficção científica. Seu interesse por ciência, astronomia, inovação e tecnologia ecoam na página dos seus livros, dando verossimilhança em suas narrativas.

Encontro com Rama é um exemplo disso, e não é à toa que se tornou um dos marcos da ficção científica e inspirou outros escritores. Ao descrever uma estrutura complexa, com detalhes técnicos da espaçonave alienígena, Clarke convida o leitor a ter um novo olhar sobre como podem ser as civilizações vizinhas.

Um objeto de quarenta quilômetros de comprimento, com um período de rotação de quatro minutos - onde isso se encaixava na ordem das coisas astronômicas?


Pois em sua narrativa em terceira pessoa é possível encontrar um universo extremamente rico não apenas nos detalhes do ambiente interno e externo a espaçonave Rama, mas também filosófico, já que quando a equipe se depara com algo totalmente novo, a cada descobertas novas perguntas existenciais vão surgindo, conforme o perfil do personagem que está sendo acompanhado.

Tudo isso em uma linguagem incrivelmente fluída, onde os capítulos - todos nomeados - convidam a seguir em frente em uma história que consegue colocar o leitor junto da equipe de expedição.

O encontro, tão esperado e tão temido, finalmente ocorrera. A humanidade estava prestes a receber seu primeiro visitante das estrelas.


Uma curiosidade, no título original é utilizada a palavra francesa Rendezvous, que pode servir para enfatizar a natureza planejada e importante de um encontro, mas também pode sinalizar um encontro com o destino e mistério. Combinando perfeitamente com a história narrada.


O que eu achei de Encontro com Rama

A primeira coisa que chamou a minha atenção é que o livro escrito em 1972 informa em sua primeira página uma bola de fogo cruza o céu da Europa às 09h46 da manhã do dia 11 de setembro de 2077. E para quem viveu o 11 de setembro do início dos anos 2000, é impossível não vir esta primeira lembrança.

A segunda coisa foi a forma como a humanidade se espalhou pelo universo solar até o ano de 2130, quando ocorre o encontro com Rama. Gerando situações curiosas, como um dos personagens que possui duas famílias, uma no planeta Terra e outra em Marte. Será um sinal que os homens evoluem em tecnologia, mas não em seus hábitos?

Embora estivessem tomados por uma sensação de confiança e contido entusiasmo, após algum tempo o silêncio quase palpável de Rama começou a pesar sobre eles. 


A terceira coisa foi o nome da nave de expedição: Endeavour, uma referência ao navio carvoeiro que deu a volta ao mundo entre 1768 e 1771 comandado pelo capitão James Cook.

Mas como vocês já devem ter percebido na parte sobre a escrita, o livro realmente me envolveu. Os capítulos curtos, a forma como são finalizados com um gancho convidando a continuar, fizeram com que a leitura fosse muito rápida.

As coisas não eram o que pareciam ser; havia algo muito, muito estranho num lugar que era simultaneamente novo em folha - e tinha um milhão de anos.


Principalmente pelos sentimentos despertados. Na etapa que eles entram na nave alienígena eu já fiquei em agonia, me lembrando do filme alien. Quanto mais eles avançavam, ou quando havia momentos de tensão, mais eu queria seguir na leitura para descobrir o que iria acontecer.

Encontro com Rama é um sci-fi que explora a curiosidade científica, o de se arriscar pelo desconhecido, a superação do medo em busca de uma descoberta, de nem sempre encontrar respostas para as perguntas que vão surgindo.

Esse era um mundo estéril, segundo os testes mais sensíveis que o homem poderia aplicar. Mas agora acontecia algo que não podia ser explicado pela ação de forças naturais.


O livro também explora o lado político, em um sistema que a humanidade se dividiu entre planetas, explora o fato daqueles que acham ter o direito de tomar decisões em nome de todos, baseado na velha crença do bem versus o mal, de heróis contra vilões.

E embora o lado pessoal dos personagens seja pouco explorado, em Encontro com Rama isso não atrapalha, pois só são detalhados o que mais tem relação com a narrativa, não deixando pontos de interrogação ou necessidade de mais, já que complementa o suficiente para manter a fluidez.

Treinamento era uma coisa, realidade era outra, e ninguém podia ter certeza de que os antigos instintos humanos de autopreservação não dominariam durante uma emergência.


Eu gostei muito de Encontro com Rama, achei que a leitura estimulou a minha curiosidade, já que sempre tive interesse no assunto de outros seres fora do sistema solar, e ao mesmo tempo ela reafirma o fato de que os anos vão passando, mas a evolução na forma de pensar parece estar longe de acompanhar os avanços tecnológicos.

Ficando a dica para quem gosta de histórias de ficção científica, de histórias com questionamentos existenciais e claro, para quem não resiste a uma boa leitura.


Encontro com Rama
Rendezvous with Rama
Arthur C. Clarke
Tradução: Susana L. de Alexandria
TAG - Aleph
2023 - 288 páginas
Publicado originalmente em 1972


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

O cão dos Baskerville



Sinopse: Em O cão dos Baskerville, Sherlock Holmes e o dr. Watson investigam a morte de sir Charles Baskerville, numa história eletrizante que se tornou um clássico da literatura policial. Em meados do século XVII, um lendário cão do inferno matou Hugo Baskerville na charneca da propriedade familiar, em Dartmoor, e nunca mais parou de assombrar a família. Séculos depois, quando sir Charles Baskerville morre em circunstâncias misteriosas, seu herdeiro, sir Henry, recebe uma ameaçadora carta anônima. Alarmado, Henry Baskerville aciona Sherlock Holmes. O detetive encarrega seu assistente, o dr. Watson, de acompanhar sir Henry enquanto se instala em segredo num povoado próximo para descobrir quem teria interesse em eliminar o último dos Baskerville e, assim, apoderar-se de sua herança. 



O Cão dos Baskerville é um dos romances mais conhecidos do detetive Sherlock Holmes, publicado pela primeira vez em 1902, a trama se passa na Inglaterra rural e é marcada por mistério e suspense, em uma atmosfera que consegue se alternar entre o dia e à noite, intensificando as sensações dos personagens.

A história tem como base uma antiga lenda familiar dos Baskerville, que afirma que todos os herdeiros da propriedade Dartmoor estão amaldiçoados. Segundo a lenda, um cão escuro, gigante e espectral teria surgido pela primeira vez ao matar Hugo Baskerville, um homem impetuoso, profano e herege que raptou uma jovem donzela, e o desfecho deste ato não foi um final feliz para nenhum dos dois.

Algumas pessoas, mesmo não possuindo genialidade, têm um poder notável de estimulá-la.


Este mesmo cão teria sido responsável no tempo presente pela morte de Sir Charles Baskerville, o penúltimo herdeiro da família Baskerville. O romance começa justamente com o óbito de Sir Charles Baskerville, encontrado morto em sua propriedade com uma expressão de terror e marcas de patas de cachorro ao redor do corpo. 

O jovem e último herdeiro, Sir Henry Baskerville, recebe uma carta anônima o que se torna um indicativo que ele também está em perigo, e para protegê-lo, o médico de Devonshire o leva até o detetive Sherlock Holmes para solicitar ajuda. 

Também não se pode negar que muitos membros da família tenham enfrentado mortes trágicas: súbitas, sangrentas e misteriosas.


E assim Dr. John Watson, fiel amigo do famoso investigador, acompanha os dois homens até a propriedade familiar e dar início a uma investigação conforme as orientações de Sherlock Holmes , o que irá revelar uma série de pistas e segredos ocultos que despertam a curiosidade do leitor.


A escrita do autor Arthur Conan Doyle

O escritor britânico Arthur Conan Doyle (1859-1930) é conhecido por criar um dos mais famosos detetives do mundo literário: Sherlock Holmes. Formado em medicina, não raro utiliza o seu conhecimento e interesse pela ciência em suas histórias. Além dos romances de Holmes e de seu fiel amigo Dr. Watson, Doyle escreveu outras obras de ficção histórica, aventuras e literatura científica.

Em O Cão dos Baskerville o autor mescla elementos de romance policial com o gênero de horror gótico, utilizando uma abordagem detalhada e metódica, característica mais do que conhecidas nas histórias que envolvem Sherlock Holmes. Há também mescla na escolha narrativa, que utiliza tanto a primeira pessoa quanto a terceira pessoa através dos relatos do Dr. Watson, que ocupa tanto o papel de narrador como o de alguém que compartilha o próprio ponto de vista conforme vivencia os acontecimentos da história.

Todos concordaram que era uma criatura enorme, luminosa, medonha e fantasmagórica.


Para criar uma atmosfera sombria e inquietante, Doyle utiliza a técnica de mesclar descrição de paisagens desoladas, ambientes escuros com a própria lenda do cão. O equilíbrio vem através das análises de Holmes e Dr. Watson que utilizam análises lógicas e dedutivas, e o natural raciocínio analítico.

Tornando o livro O cão dos Baskerville intrigante e bem estruturado, mantendo durante toda narrativa o equilíbrio do mistério tradicional com uma atmosfera gótica que não só envolve, como mexe com a imaginação dos leitores.

É o uso científico da imaginação, mas sempre temos alguma base material na qual fundamentar nossa especulação.


Uma curiosidade, originalmente a história foi publicada em fascículos mensais no periódico Strand Magazine entre os anos de 1901 e 1902.


O que eu achei de O cão dos Baskerville

Este é o segundo livro que eu li do escritor Arthur Conan Doyle, o primeiro Um estudo em vermelho eu já havia achado legal, mas O cão dos Baskerville mexeu mais com a minha curiosidade, o que tornou a leitura fácil e leve.

Começo pelo ambiente, cujo sol torna não só o ambiente externo como a própria casa mais iluminada e agradável, enquanto a noite transforma tudo em um ambiente escuro e cheio de mistérios, perfeito para lendas fantasmagóricas e para quem quer usar o sobrenatural para ações nada gentis.

Se são inocentes, seria uma injustiça cruel e, se são culpados, estaríamos perdendo qualquer chance de desmascará-los.


Cada personagem que entra na história tem um momento só dele, o que para mim os torna mais marcantes. Seja o casal de empregados que cuida da casa da família, seja o prisioneiro foragido anunciado pelas notícias, ou o curioso casal de irmãos que são vizinhos recentes dos Baskerville e logo se tornam amigos dos herdeiros.

No geral achei a história bem costurada, inicialmente encontrei os fios soltos, mas aos poucos, junto com Sherlock Holmes e o caro Dr. Watson, comecei a formar as minhas teorias e impressões, levantando os meus suspeitos até a confirmação nas páginas finais.

Os lambris escuros brilhavam como bronze aos raios dourados, e era difícil acreditar que aquele era realmente o mesmo cômodo que, na noite anterior, enchera nossas almas de tanta melancolia.


Tornando a história bastante agradável de ler, a leveza da narrativa conseguiu estimular a minha curiosidade ao mesmo tempo que me incentivava a virar mais uma página. O que justifica perfeitamente ele estar entre os títulos mais conhecidos das aventuras do famoso detetive.

Ficando a dica para quem gosta de quebra-cabeças literários, onde o leitor gosta de juntar e investigar junto com os personagens, para quem busca uma leitura leve e vira página, e claro, para quem não resiste uma boa história.


O cão dos Baskerville
The hound of the Baskerville
Arthur Conan Doyle
Tradução: Ana Carolina Oliveira
TAG - autêntica
2018 - 238 páginas
Publicado originalmente entre agosto de 1901 e abril de 1902

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Na praia



Sinopse: "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite." Assim começa a história de Edward e Florence num quarto de hotel na praia para sua noite de núpcias, em 1962. O premiado autor britânico Ian McEwan mergulha na complexa mistura de desejo e pudor que marca o grande momento dos recém-casados, entrelaçando dramas íntimos, plenos de silêncios e mensagens nas entrelinhas, com impasses históricos e culturais, em uma narrativa envolvente até o seu desfecho.

No mês de março/2024 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, autor de livros como Uma tristeza infinita, o livro Na praia do autor inglês Ian McEwan. O mimo foi um tipo de quebra-cabeça poético, muito semelhante ao recebido no kit Uns e outros contos espelhados enviado em julho de 2017.

Edward e Florence estão sentados na sala de seu quarto, após a cerimônia de seu casamento, aguardando os garçons servirem o jantar em meio a conversas artificiais. Ao lado o quarto com uma cama de dossel os aguarda, provocando expectativas em um e angústia no outro.

Os pais dela não trataram os dele com ares de superioridade, como os dois chegaram a temer, e a mãe dele não cometeu nenhuma gafe significativa, nem sequer se esqueceu do propósito da ocasião.


Os motivos são apresentados em memórias conforme vamos acompanhando a sequência de ações e conversas de um jovem casal que acredita se amar, mas não se conhece na totalidade. E cuja falta de intimidade em situações mais tensas irão mostrar um outro lado de cada um, acentuando ainda mais a dificuldade de comunicação entre personagens que vivem na Inglaterra de 1962. 

Somado a isso, cada um com 22 anos de idade, precisam seguir seus rumos profissionais, sejam por escolha, seja pela oportunidade conveniente ao qual se precisa confirmar.

Chegara à descoberta fortuita de que mesmo o sucesso lendário trazia pouca felicidade; só inquietação redobrada e o tormento da ambição.


Tornando o romance ao mesmo tempo delicado e forte, sutil e triste ao aprofundar as relações humanas quando estas tentam se manter na tênue linha do equilíbrio.


A escrita de Ian McEwan

O escritor britânico Iam McEwan optou pela narrativa em terceira pessoa para contar a história do relacionamento do casal Edward e Florence. Transformando a lua de mel em um hotel à beira-mar o local para descascar as várias camadas de um relacionamento que deveria seguir o padrão da sociedade tradicional da época.

No presente ele vai aumentando a tensão conforme a noite parece se desenrolar e o momento de maior intimidade se aproxima, contrabalanceando com passagens do passado, permitindo ao leitor conhecer não apenas mais profundamente os personagens como o ambiente que o cerca.

O namoro deles foi uma pavana, um desdobramento solene, demarcado por protocolos nunca acordados ou ditos, apesar de geralmente cumpridos.


E neste ponto começa as diferenças sociais, familiares e de expectativa, mostrando que a distância entre os dois não está apenas na pouca comunicação.

Somado a isso existem algumas sutilezas que permitem gerar diferentes opiniões, principalmente em relação ao comportamento de Florence, no qual a causa vai da percepção do leitor em captar os pequenos detalhes.


O que eu achei de Na praia

Achei a narrativa de Na praia bastante envolvente, a escrita fluída, e de rápido leitura. Sendo muito fácil não apenas compreender, mas sentir todos os conflitos que afetam os dois.

E apesar de falar em amor, ele trata muito mais das frustrações, dos traumas, mágoas e histórias que cada pessoa leva para as suas relações. E no caso do casal protagonista, tudo se torna ainda mais grave, pois é fácil observar que eles chegam na noite de núpcias sem serem amantes e muito menos melhores amigos. 

Como costumava acontecer sempre depois que ela passava um tempo fora, seu pai despertava nela emoções conflituosas.


Embora, sendo justa, existem segredos que dependendo da gravidade, as pessoas não contam a ninguém, devido a tudo que eles podem desencadear.

Tornando a questão da comunicação uma consequência desta falta de intimidade, o que naturalmente impacta muito mais Florence do que Edward, que vai sendo levado pela maré, inclusive na escolha profissional.

A pílula era um rumor nos jornais, uma promessa ridícula, mais uma daquelas bravatas sobre a América.


Sendo na minha opinião um livro muito rico não só sobre os relacionamentos humanos, mas de como o ser humano lida com o inesperado, com feridas não curadas e rupturas dolorosas.

O projeto gráfico da TAG ficou bem bonito, ao mesmo tempo que sintoniza o leitor com o local dos protagonistas, o detalhe da luva com a simulação das conchas deram um toque especial.

Ficando a dica para os leitores do blog que gostam de livros que tratam de relacionamentos humanos, que possuem abertura para suas próprias teorias e para quem lê até bula de remédio.


Na praia
On Chesil Beach
Ian McEwan
Tradução: Bernardo Carvalho
TAG - Companhia das Letras
2023 - 137 páginas
Publicado originalmente em 2007


sexta-feira, 15 de março de 2024

Arte importa



Sinopse: Uma emocionante ode de Neil Gaiman à criatividade, à imaginação e ao poder transformador da arte. “O mundo sempre se ilumina quando você faz algo que não existia antes”, diz Neil Gaiman na epígrafe de Arte importa, uma reunião de quatro textos breves e inspiradores do escritor sobre o fazer artístico. Com artes de Chris Riddell, ilustrador renomado e parceiro de longa data de Gaiman, o livro explora como ler, imaginar e criar livremente podem ser elementos revolucionários capazes de mudar o mundo. Com leveza e humor, Arte importa é um livro emocionante e necessário, um apelo inspirador à imaginação e à coragem de criar diante de momentos difíceis. “Seja valente. Seja rebelde. Escolha a arte. Ela importa.”

Em um livro curto, onde ilustração e texto se conectam de forma que o leitor não imagina um sem o outro, o escritor britânico Neil Gaiman explica os motivos de porque a imaginação de cada ser humano pode mudar o mundo em quatro partes, cujos títulos já despertam a curiosidade.

 Em Crença o autor nos convoca a refletir sobre ideia, da dificuldade de eliminar uma pela sua invisibilidade, sobre não censurar os que discordam de uma ideia, desde e não permitir que isso se transforme em violência para calar os que a defendem.

 
Creio que é difícil matar uma ideia, pois ideias são invisíveis, contagiosas e se disseminam rápido.

 

Violências como o ataque terrorista ocorrido no Charlie Hebdo, onde o jornal francês e seu conteúdo viraram notícias no mundo inteiro. Se a ideia do ataque era calar, o efeito foi exatamente o contrário, disseminando aos quatro cantos do mundo.

 Porque corretas ou incorretas, o autor acredita no direito de existir de cada ideia. Conectando a sua existência a liberdade de expressão, onde as únicas saídas permitidas é o debate ou virar as costas e ignorar, sem jamais censurar.

 As ideias já se propagaram, escondendo-se atrás dos nossos olhos, espreitando nossos pensamentos.


Em Porque nosso futuro depende de bibliotecas, leituras e devaneios o autor nos lembra de um dos melhores hábitos que podemos ter: ler por prazer. A ficção, com a ajuda de bibliotecas e bibliotecários pode fazer com que qualquer pessoa se apaixone pela leitura em uma relação mais eterna que a maioria dos relacionamentos.

 E pessoas que leem são mais capazes de - atenção para o link com o primeiro texto - trocarem ideias, argumentarem com as que são contrárias, sem desejar costurar a boca de quem a pronunciou.

 O modo mais simples de criar crianças leitoras é ensiná-las a ler e mostrar como a leitura é uma atividade prazerosa.


Motivo pelo qual um livro não teria faixa etária, tendo como função despertar que as crianças busquem mais e mais livros. Alimentando assim não só a imaginação, mas a empatia que cresce quando você se solidariza com cada um dos personagens.

Em Fazendo uma cadeira entre a montagem de uma cadeira de escritório há vários devaneios entre os passos que ele precisa executar e comparações com a escrita de um livro e que tipo de instruções ele deveria ter.

Bibliotecas representam liberdade. Liberdade de ler, liberdade de expressar ideias, liberdade de se comunicar. 


Quem fecha é Faça boa arte que começa falando da relação do autor com a escola, sua necessidade de escrever e os melhores conselhos que ele não seguiu ao escolher o mundo da arte como profissão.

Seguido pelos motivos dele ter escolhido determinados caminhos, de não pensar nas dificuldades, das indecisões que vão surgindo, da necessidade de equilíbrio entre sonhos e vida real.

 E naturalmente fazer uma boa arte, pois tudo é motivo para criar uma.

 

A escrita de Neil Gaiman

Escrito em primeira pessoa, Arte Importa parece uma conversa do escritor Neil Gaiman com os leitores. Ao refletir sobre assuntos ligados a ideias, imaginação, livros e escritas, ele compartilha experiências pessoais e opiniões.

As ilustrações de Chris Riddell complementam a experiência, tornando o bate-papo quase real, como se o leitor estivesse sentado em um sofá ouvindo o autor falar e gesticular, mostrar fotografias ou simplesmente acompanhando a montagem da cadeira.

 A ficção é a mentira que nos conta a verdade. Todos nós temos a obrigação de fantasiar. Temos a obrigação de imaginar.


O que torna o livro não só rápido de ler, mas também reflexivo.

  

O que eu achei de a Arte importa

 Recebi o livro Arte Importa como mimo na minha assinatura da Intrínsecos (que não existe mais) e ficou na fila para ser encaixado entre as leituras mais densas. E foi assim que ele entrou nas leituras de verão.

Achei a leitura bastante agradável, e nesta conversa em que apenas um fala concordei e discordei de algumas opiniões. O que, como o próprio livro diz, é saudável para seguirmos evoluindo. Compartilho abaixo os dois pontos cujas questões ainda estão martelando na minha cabeça.

Fazer um livro é um pouco como fazer uma cadeira. Talvez devesse vir acompanhado de alguns avisos, como nas instruções da cadeira.  


Em Crença Neil Gaiman defendeu a liberdade ampla das ideias após um ataque covarde a sede de um jornal, eu, por outro lado, lendo após sobreviver a uma pandemia onde ideias antivacinas completamente tortas contribuíram para milhares de mortes, me peguei pensando se realmente pode ser ampla para tudo. O que fazer quando uma ideia se transforma em desinformação e passa a prejudicar os outros, tornando sua disseminação tão mortal quanto um vírus?

E se por um lado eu concordo plenamente que nenhuma ideia é justificativa para ato de violências - aliás, não existe absolutamente nada que justifique um ato de violência - por toda a experiência pós-pandemia eu sigo com uma pergunta na minha cabeça: deve ou não haver limites legais para as ideias?

Se você não sabe que é impossível, fica mais fácil fazer.  


Já no texto sobre leituras, me fez lembrar de um livro que a minha filha pediu para ler e eu disse para ela esperar um pouco mais. O autor diz não haver livro impróprio, eu como leitora concordo que os livros instigam a imaginação e o conhecimento, proporcionando uma visão do cotidiano que muitas vezes não é discutido em casa ou sala de aula.

 Mas será que realmente não devemos levar em conta a idade de uma criança ou adolescente antes de lhe dar um livro para abrir? 50 tons de cinza ou a série Game of thrones são leituras para uma criança de 10 anos? E neste ponto eu discordo e acho que sim, como tudo na vida, a tipos de leitura para cada fase, conforme o amadurecimento do ser humano que estamos criando para o mundo.

Os problemas do fracasso são problemas de desencorajamento, desencanto, necessidade. Você quer que tudo aconteça, e quer na hora, e as coisas dão errado. 


De forma geral o livro foi uma grata surpresa, ao qual combina perfeitamente com o início de ano, já que ele de certa forma nos faz repensar não só a arte, mas a própria vida e de como podemos fazer o novo ano ser melhor. Afinal, todo dia é dia para usar a imaginação, buscar a própria sorte e escolher caminhos.

 

Arte Importa - Porque sua imaginação pode mudar o mundo
Art Matters: Because your imagination can change the world
Neil Gaiman
Ilustração: Chris Riddell
Tradução: Augusto Calil, Ângelo Lessa e Editora Intrínseca
intrínseca
2021 - 112 páginas
Primeira publicação na Grã-Bretanha em 2018

 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Gênio e Nanquim


Sinopse: Uma brilhante coletânea de ensaios críticos escritos anonimamente para o Times Literary Suplement entre as duas guerras mundiais, Gênio e Nanquim une os maiores nomes da literatura com a escrita e a análise impecáveis de Virginia Woolf. A obra nos apresenta uma Woolf ensaísta, que expõe a estranheza das peças elisabetanas, o prazer de revisitar seus romances prediletos e o brilhantismo dos clássicos de Charlotte Brontë, George Eliot, Henry James, Thomas Hardy e Joseph Conrad. Mais do que isso, nos revela uma Virginia Woolf leitora, cujo entusiasmo pela literatura nos inspira até hoje.

Com prefácio da tradutora e mestre em estudos literários Emanuela Siqueira, Gênio e Nanquim reúne quatorze textos que podem parecer ensaios, uma crítica literária ou aquele momento fofoca onde Virginia Woolf compartilha detalhes da vida de determinado escritor publicados entre os anos de 1916 e 1935, tanto na TLS quanto na The Common Reader.

O primeiro texto é sobre Charlotte Brontë, inicialmente temos o centenário do nascimento da escritora, mas de forma delicada ele evoca ao mesmo tempo morte e memória em um belo tributo a autora nascida em 1850. Ao mesmo tempo Woolf nos lembra que Charlotte Brontë não possuía espaço no terreno literário, e apesar de não ter amigos para preservar sua memória na área profissional, seus livros conseguiram romper barreiras, despertando interesse em quem vê o seu nome, situação que permanece atual para qualquer uma das irmãs Brontë.

Desses cem anos, ela não viveu mais que trinta e nove, e é estranho refletir sobre a imagem diferente que faríamos dela se tivesse vivido uma longa vida.


Analisando tanto o que define como limitações profundas, como a sua sensibilidade e tenacidade, ao finalizar a leitura do texto eu fiquei com vontade de ler um livro da escritora e observar com mais atenção tudo o que ela havia descrito.

O segundo texto é Horas numa biblioteca, aqui Woolf nos leva para um dos lugares favoritos de todos os leitores e a relação do leitor com o objeto do seu desejo: os livros. Da juventude que se mantém através da curiosidade alimentada por inúmeras páginas até as listas de livros a serem lidos e os realmente lidos (e muitas vezes relidos).

Para começar, convém esclarecer a velha confusão entre o homem que ama aprender e o homem que ama ler, e salientar que não há qualquer ligação entre os dois.


Este foi o texto que me evocou lembranças das primeiras leituras, das idas a biblioteca da escola para procurar novos amigos, o cartão de leitura que chegava cheio no final do ano. 

Também achei o texto muito atual ao citar as comparações entre livros clássicos versus contemporâneos, e a disputa leitor versus intelectual, já que o leitor juiz - aquele que se sente no direito de dizer o que deve ser lido ou não, o que deve ser considerado boa literatura ou não, segue ativo e forte, principalmente nas discussões literárias.

O terceiro texto é sobre George Eliot, pseudônimo da romancista britânica Mary Ann Evans, ao qual eu não conhecia e fui para internet pesquisar, e assim achei ainda mais interessante o paralelo que Woolf faz entre as heroínas das histórias e a própria escritora.

Ela se tornou motivo de riso para os jovens, símbolo conveniente de um grupo de pessoas sérias, todas culpadas pela mesma idolatria e passíveis de desprezo com o mesmo escárnio.


Aliás, só a vida da própria escritora já chama atenção por si, uma mulher que usa um nome masculino para ter liberdade de escrita - precisamos lembrar que em 1850 mulheres deveriam escrever livros leves - passando por seus relacionamentos, cujas escolhas, olha que surpresa, poderiam causar alvoroço ainda nos dias de hoje.

O misto de solidão e tristeza, o transbordamento de energia e calor de seus livros, me deixaram curiosa para ler algumas de suas obras.

O quarto texto tem o charmoso título de As cartas de Henry James, misturando textos do autor com o seu ponto de vista em relação a fama e as críticas, a relação das cidades/países com a literatura e o fato de Henry James ser, na opinião de Woolf, um homem sem raízes, um andarilho que anda a dar suas voltas.

Contudo, ele foi a todos os lugares e conheceu todo mundo, como atesta a farta chuva de nomes célebres e grandes ocasiões.


O quinto texto é sobre John Evelyn, ao citar o diário do autor que estaria completando cem anos no momento do seu ensaio, ela faz um paralelo entre a sociedade, comportamento e um toque de crítica ao autor, ao qual considera a escrita opaca e sem profundidade.

O sexto texto é Sobre reler romances, tendo como base o lançamento de novas edições de escritoras reconhecidas, Woolf nos fala desde a origem do título de um livro até os sentimentos que atingem o leitor durante uma leitura. As diferentes formas narrativas, as críticas, tornando a crônica atemporal ao entender a alma dos leitores de qualquer época.

Para começo de conversa, é óbvio que colocamos na cabeça que existe um jeito certo de ler, que consiste em ler tudo e compreender o livro na íntegra.


O sétimo texto é Aos olhos de um contemporâneo, onde os críticos literários voltam a ser citados, agora com um foco no que é dito sobre os escritores contemporâneos de Woolf, que chega a fazer uma rápida comparação com os clássicos. Sua lista que relata tantos defeitos para os escritos de sua época nos lembra que a vida dá voltas, inclusive na literatura, já que muito dos citados, como Ulisses, hoje são clássicos.

O oitavo texto é sobre Montaigne e o seu texto que é pura filosofia sobre a vida, a morte, a beleza, a sanidade, a alegria... o que permite a Woolf falar da dificuldade que temos de nos expressar e de ser quem se é, até retornar ao próprio Montaigne que define como um homem sutil, meio sorridente, meio melancólico, com seus olhos caídos e seu semblante onírico e perplexo.

Afinal, em toda a literatura, quantas pessoas deram conta de se desenhar com uma pena?


O nono texto é sobre Joseph Conrad, ao qual Woolf abre falando da sua morte sem adeus - ele morreu de um ataque cardíaco súbito aos 96 anos de idade - e lista os livros do autor que ela acredita que irão virar clássicos, a relação com os navios, os grandes títulos na sua opinião.

O décimo texto é Notas sobre o teatro elisabetano, como não poderia deixar de ser, começa citando Shakespeare, e chega aos não tão conhecidos, mas tão perturbadoras quanto o do autor mais reconhecido. Da sensação de quem assiste as peças a uma comparação interessante com um clássico da literatura russa, Woolf nos coloca por algumas páginas em uma poltrona de um teatro inglês, enquanto explica o funcionamento das peças.

Pois tendemos a esquecer, quando lemos as obras-primas de um passado remoto, como é grande o poder que tem um corpo literário para se impor!


O décimo primeiro texto é Os romances de Thomas Hardy, a quem Woolf define como um mestre, ao qual espera que a grandiosidade seja reconhecida com mais justiça pelos críticos do futuro. A admiração que a escritora sente por Thomas Hardy é latente nas páginas, e eu que já li Jude, O Obscuro do autor - e gostei - fiquei com ainda mais vontade de conhecer outras obras do escritor.

Dezessete obras que Virginia Woolf nos apresenta desde o primeiro, publicado em 1871, com suas primeiras dificuldades, mas muita imaginação, seguido do segundo livro e contorno das dificuldades e assim listando, livro a livro a evolução. Há também comparação com o estilo de outros escritores, como Henry James, Flaubert e Dickens. Sempre confirmando a genialidade de Hardy.

Sua força era de caráter espiritual: ele fazia parecer honroso escrever e desejável escrever com sinceridade. 


O décimo segundo texto é A meia-irmã de Fanny Burney, onde temos uma espécie de fofoca literária. No momento do texto havia uma nova edição do livro Evelina e a revelação de que a história era baseada na vida da meia-irmã da autora: Maria Allen, ao qual Woolf define como insensata e desafortunada.

E como em um chá da tarde, o leitor fica sabendo desde como a família foi formada, a mistura da moça rústica, simplória, audaz e impetuosa com a família Burney cujos membros eram cosmopolitas, cultos, tímidos e reservados. E naturalmente vários detalhes das trocas de confidências de Fanny e Maria Allen que inspiraram o livro.

Eram tão cultos, tão inocentes; sabiam tanta coisa, e no entanto não sabiam metade do que ela sabia sobre a vida.


O décimo terceiro texto é Aurora Leigh, o livro de Elizabeth Barret Browning, cujo cachorro de estimação se tornou um livro da própria Virginia Woolf misturando fatos reais com ficção. Mais do que falar sobre o amor que os Browning provocavam nas pessoas até o livro em si, novamente o leitor vai para a poltrona ouvir sobre como a Aurora fictícia parece trazer à tona a Elizabeth real.

E assim mergulha na história da escritora que perdeu a mãe ainda na infância, quando a política não era um assunto feminino e a escrita como forma de vida.

Não havia dúvida de que os longos anos de reclusão haviam lhe causado um dano irreparável enquanto artista.


O décimo quarto texto é O leito de morte do capitão, o último texto de Virginia Woolf é sobre o escritor inglês e oficial da Royal Navy Frederick Marryat e começa juntamente com os últimos textos escritos quando estava perto da morte, tendo referência a uma de suas filhas que lhe trazia suas flores favoritas.

E aos poucos ela vai retornando no tempo, misturando diferentes momentos da vida de Frederick Marryat, dos seus diários de bordo aos dezesseis anos aos demais detalhes de sua vida pública, já sua vida particular não teve tantos detalhes, apenas algumas observações que corriam entre amigos, familiares e conhecidos.


O que eu achei de Gênio e Nanquim

A primeira coisa que me encantou foi a edição de Gênio e Nanquim, o cuidado e as cores deixaram a edição da TAG com a Harper Collins belíssima.

A segunda foi a surpresa com a leveza de alguns textos da Virginia Woolf, ao qual só havia lido Rumo ao Farol - hoje chamado Ao Farol - e achei bastante arrastado na época, me afastando de futuras leituras da escritora.

Mas quem era esse homem moribundo cujos pensamentos se voltaram para amor e flores enquanto jazia entre seus espelhos e pássaros pintados?


Tanto que demorei um certo tempo para abrir os ensaios literários, mas que ao final me surpreenderam positivamente e me abriram a mente para ler outros livros da autora.

Gostei principalmente dos textos finais, onde ela deixou o lado mais técnico e colocou uma leveza e em alguns casos o próprio coração - como no texto do Thomas Hardy - tornando a leitura muito mais envolvente e despertando em mim a curiosidade em conhecer os livros de alguns dos escritores citados.

Ficando a recomendação não apenas para quem é fã da Virginia Woolf, mas como uma alternativa para quem quer começar a ler a autora, para quem gosta de ler textos sobre literatura, para quem busca novos títulos para sua lista de desejos e naturalmente para os ratos de biblioteca que não resistem a virar páginas.


Gênio e Nanquim - Ensaios Literários
Genius and Ink: Virginia Woolf on How to Read
Virginia Woolf
Tradução: Stephanie Fernandes
TAG - Harper Collins
2021 - 175 páginas

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Greenwich Park



Sinopse: Quando Helen chega para a primeira aula do curso pré-natal, espera que seu belo marido arquiteto surja logo depois, seguido por seu charmoso irmão Rory e pela esposa dele - a naturalmente linda, e também grávida, Serena. Mas, por Rachel, Helen não esperava. A extrovertida, impetuosa e inquietante Rachel, prestes a se tornar mãe solo, que só quer ser amiga de Helen. Que só quer se aproximar de Helen, de seus amigos e de sua família. Que só quer saber tudo sobre eles. Cada um de seus segredos.

No mês de junho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Greenwich Park da autora inglesa Katherine Faulkner. O mimo foi um marcador de página em formato de pingente.

Helen vive em uma bolha onde idealiza a própria vida. Casada com um arquiteto, mora na casa que foi de seus pais, uma mansão vitoriana próxima ao Greenwich Park, na cidade de Londres.

Mas você precisa saber a verdade, mesmo que, depois de todo esse tempo, ainda se recuse a ouvir.


O marido é sócio do seu irmão Rory, que herdou a empresa de arquitetura de seu pai. Sua cunhada Serena também está grávida, e assim ela imagina que todos gostariam de participar juntos do curso de gestantes. Mas nenhum dos três aparecem, e com todos os demais casais completos, lhe resta como companhia a jovem Raquel, igualmente sozinha no curso, mas expansiva e falante, ela é exatamente o oposto de Helen.

Aos poucos ela vai aparecendo em todos os lugares que Helen está, e em sua solidão, a jovem gestante sem nenhum instinto maternal se torna uma distração que a faz rir e esquecer por alguns momentos os próprios medos.

Eu sei que ele estaria aqui se pudesse, que está arrasado por me deixar na mão. Que essa reunião de última hora foi um simples inconveniente.


Mas o que era divertido se torna mais intenso, e quando Helen pisca, Rachel invadiu não só a sua vida, mas de todos da sua pequena bolha. Só que ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de um suspense no estilo Stalker, e sim de um quebra-cabeça muito mais complexo do que se imagina no início da leitura.


A escrita de Katherine Faulkner

Logo de cara o leitor se depara com um depois e uma carta ao qual não se identifica a autoria, apenas que ela foi escrita com o desejo de revelar a verdade do remetente e que a destinatária deste desabafo é Helen.

Em seguida retrocedemos no tempo, onde as partes da história são identificadas em semanas, as semanas de gestação de Helen, e alguns finalizam com uma rápida narrativa em terceira pessoa. Nos demais capítulos temos narrativas em primeira pessoa das seguintes personagens: além da própria Helen, contam a história Serena e Katie, esta última é a melhor amiga de Helen e uma espécie de namorada do considerado irmão ovelha negra da mesma.

Tentei marcar encontros, mas de alguma forma eles nunca parecem caber muito bem na agenda das pessoas.


Entre as figuras femininas principais, a única que não é narradora é Rachel, mantendo a sua personalidade e seus reais interesses um verdadeiro mistério para os leitores.

Já na narrativa de Helen a autora, que se inspirou justamente quando realizava um curso pré-natal para escrever sua trama, aborda o lado solitário da maternidade. Os colegas de trabalho que não se interessam em marcar um café, o marido que não tem tempo para acompanha-la no curso. Uma mulher sem nenhuma rede de apoio, sem ter ninguém de confiança para desabafar.

Não sei por que ela insiste em falar disso sem parar, por que parece ter muito mias importância para ela do que para nós.


Além das mudanças físicas que as mulheres passam, o que pode ou não ser consumido - e só quem já engravidou sabe a lista enorme de cuidados neste ponto, incluindo também a questão das perdas gestacionais. 

Mas não pense que só se fala em maternidade não, tem depressão - que não é a pós parto -, pessoas que enganam as outras para viverem de aparências, falta de escrúpulo, a forma como o estupro é lidado quando envolve pessoas de diferentes classes sociais, e traição, porque neste mundo encantado, não poderia faltar este toque com os machos escrotos que compõe a trama.

As pessoas estão ocupadas, ocupadas demais para mim, pelo menos. Já fui esquecida.


Tudo isso junto e misturado em uma escrita fluída e envolvente, que transformam Greenwich Park em um vira páginas.


O que eu achei do livro...

Gostei muito da narrativa da escritora Katherine Faulkner. As peças do quebra-cabeça são bem espalhadas pelos capítulos, não existe informação em vão, sendo necessário para o leitor detetive se manter atento as reações de cada personagem e as situações passadas citadas constantemente por Helen para fazer as conexões e tentar descobrir o mistério antes de chegar ao fim.

Eu particularmente discordo da revista da TAG quando chamam Helen de ingênua. Sim, ela é solitária. Mas também é invejosa. Pois existe um misto de inveja e admiração em relação a Serena, ao qual ela tenta imitar como se assim fosse ter um pouco da luz que ela vislumbra na outra. 

Tudo naquele ambiente está começando a me incomodar: o carpete estampado, horroroso e de má qualidade, as tomadas imundas, o cheiro de mofo, a poeira no parapeito das janelas.


E é isso que a cega, a faz se proteger em uma bolha de perfeição facilmente removível para quem vem de fora. E aqui entra Rachel, a personagem que você não sabe ao longo da narrativa se é ingênua, malandra, golpista ou muito mais do que aparenta ser.

E assim deixo a dica para quem gosta de um bom mistério, um legítimo vira página que irá fazer a sua mente formar diferentes teorias.


Greenwich Park
Katherine Faulkner
Tradução: Marina Vargas
TAG - Record
2021 - 417 páginas

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terça-feira, 1 de novembro de 2022

À beira-mar



Sinopse: Do vencedor do prêmio Nobel de literatura de 2021, uma história arrebatadora de amor e traição protagonizada por dois homens que dividem um turbulento passado em comum.

No mês de Julho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro à beira-mar, do escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah. A indicação foi da própria TAG, que completou oito anos e enviou uma edição ainda mais caprichada para cantar parabéns junto com os seus assinantes. O mimo foi o livro Os sofrimentos do jovem Werther, primeiro romance do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Saleh Omar chega ao Gatwick Airport na Inglaterra como um refugiado em busca de asilo. Ao contrário de muitos que fazem o mesmo caminho, ele já não é jovem, o que surpreende todas as pessoas que ele encontra pelo caminho.

Estava acostumado com funcionários que fulminam e cospem em você pela menor das faltas, que brincavam com você e o humilhavam pelo puro prazer de brandir sua sagrada autoridade.


Sua esperança consiste no fato do governo britânico conceder asilo a qualquer um que diga estar sofrendo risco de morte. Seguindo as orientações recebidas ainda na sua terra natal, ele finge não saber falar inglês, pronunciando apenas as palavras Refugiado e Asilo. E assim ele escuta todo o monólogo preconceituoso do policial que o atende – ironicamente um descendente de refugiados da Romênia-, para no final ter que aceitar de boca fechada o policial roubar o seu ud-al-qamari, um objeto de inúmeras lembranças.

Quem lhe presta assistência é Raquel Howard, a conselheira jurídica de uma organização de refugiados. É ela que o encaminha para as primeiras moradias - de um centro de refugiado, passando pela casa de uma senhora que ganha para recebe-los até ter um espaço só seu -, e faz visitas para acompanhar a sua adaptação. Por inicialmente fingir não falar inglês, Raquel providencia um interprete: Ismail Latif Mahmud.

Mas o mundo todo já havia pagado pelos valores da Europa, mesmo se durante boa parte do tempo tivesse pagado repetidas vezes sem usufruir deles.


Latif, assim como Omar, é um fugitivo de Zanzibar. Mas sua fuga ocorreu há muito mais anos, quando fugiu da Alemanha Oriental, ao qual foi enviado para estudar. Só que o país de origem não é a única coisa em comum entre os dois, pois como o destino gosta de brincar, é hora de retornar a um passado que nenhum dos dois esqueceu.

Um acontecimento em comum os une, não só como memória, mas como fator determinante para que estejam novamente frente-a-frente, ambos fugitivos, ambos marcados por inúmeras tristezas.

Agora nos continham, um incômodo casual e sem valor que precisava ser mantido sob vigilância.


O encontro destes dois homens irá desenterrar velhas lembranças, e enquanto eles enfrentam os próprios fantasmas, o leitor descobre não só sobre as suas vidas, como toda a cultura e mudança política do seu lugar de origem.


A escrita de Abdulrazak Gurnah

À beira-mar possui dois narradores: Saleh Omar e Latif, que contam a sua história sob o seu ponto de vista, o que em muitos momentos servem para complementar ou deixar em dúvida o leitor em relação ao comportamento e caráter de um dos personagens.

Assim como o mar, o autor Abdulrazak Gurnah convida página a página a mergulhar mais fundo na história, com momentos de calmaria, outros de contradição, de alegria e também muita dor. 

Ninguém capaz realmente de me ver, gente sofrendo a pressão de seu próprio trabalho e conhecendo incontáveis histórias e descrições de mendigos como eu.


Da religião mulçumana com suas regras, passando pela mulher casada que se utiliza do sexo para obter vantagem e vingança de homens poderosos, o homossexualismo conhecido, mas não escancarado. Até chegar as regras de um país que muda conforme quem está no poder, trazendo a população muitas incertezas.

Por explorar a história dos dois muito além da superfície, e por sabermos como ele estão no presente, é um livro que explora muito da memória, não só dos homens que compartilham as suas experiências pessoais, mas de um país inteiro.

Esta é a casa em que vivo, pensei, uma linguagem que late e me menospreza atrás de cada esquina.


E por isso mesmo também de escolhas e caminhos escolhidos, sobre como cada palavra ou atitude podem mudar um destino. Ao qual pode determinar inclusive a solidão por vontade própria.


O que eu achei de à beira-mar

Eu gostei muito da narrativa do escritor Abdulrazak Gurnah. Se no momento presente temos dois narradores ainda vivendo as perdas de um passado e tentando recomeçar do zero em um lugar totalmente novo. O antes é recheado de dúvidas, trapaças, mesquinharias e muita vingança.

Vingança que ganha ainda mais espaço quando entra a parte da história política de Zanzibar, uma ilha pequenina da África que viveu uma revolta sangrenta em 1964, com prisões arbitrárias, assassinatos e perseguições. O que motivou pessoas como o próprio autor a fugirem para o Reino Unido e recomeçarem.

Houve tanta crueldade em sua vida que hesito em julgá-lo com severidade, mas era negligente.


Motivo pelo qual Abdulrazak Gurnah pode narrar com propriedade de quem sentiu na pele o tratamento recebido pelos exilados, em como é abandonar tudo o que você conhece para recomeçar em um local novo, onde nem todos os habitantes desejam a sua presença.

Ficando assim a minha recomendação para quem gosta de livros mergulhados em memórias, com recomeços após perder tudo, e em que a história é construída com base em acontecimentos e vivencias reais. 


à beira-mar
By the Sea
Abdulrazak Gurnah
Tradução: Jorio Dauster
TAG Curadoria - Companhia das Letras
2001 - 365 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Influencer


Sinopse: Narrado sob a perspectiva de três vozes nada confiáveis, o romance de Ellery Lloyd ― pseudônimo do casal britânico Paul Vlitos e Collette Lyons ― prende a atenção do leitor até a última página. Há uma diabólica conspiração em curso, pontos de vista diferentes para os mesmos fatos e, claro, mágoas que não podem ser resolvidas. Ao explorar o lado sombrio do universo dos influenciadores e os perigos da hiperexposição da vida privada, A influencer surpreende ao demonstrar nossa necessidade quase desesperada de sermos vistos e validados nas redes sociais e questiona até onde somos capazes de ir em busca de likes.

No mês de Maio/2022 recebi da minha assinatura da intrínsecos o livro A influencer, thriller de estreia dos escritores ingleses Collette Lyons e Paul Vlitos, que utilizam o pseudônimo Ellery Lloyd para transformar dois em um. Os mimos foram uma fita salva-celular e um porta-cartão.

 Emmy Jackson era uma editora de moda, namorava um escritor de relativo sucesso e nem sabia se um dia seria mãe. Mas em meio as mudanças editoriais da era digital ela precisava se reinventar. Seguindo a sugestão da sua agente ela passa a investir nos próximos grandes mercados. E quando se descobriu grávida, ela se tornou uma Instamãe, mas não qualquer uma, a @mama_semfiltro possui milhares de seguidores e transformou isso em profissão. 

Já faz um tempo, em todo caso, que sinto como se estivesse vendo um filme da minha vida se desenrolar diante dos meus olhos.


Dan, o marido, de autor celebrado se torna uma sombra de Emily. Enquanto tenta escrever um segundo romance, demonstra se sentir incomodado em administrar a vida artificial que parece invadir a vida real da família, gerando dúvida se com ele a esposa é sincera ou apenas mente, engana e manipula como faz com os demais.

Mas ter um perfil de sucesso exige esforço de todos – inclusive das crianças -, principalmente quando este se torna a sua principal fonte de renda. É necessário dar atenção aos seguidores, postar fotos com quem lhe impulsiona, dar entrevistas, se renovar, dar ares de naturalidade para produtos patrocinados, e sempre ter resposta a todas as perguntas, mesmo quando você não tem ideia ou nunca passou por determinada situação. 

Mas, afinal, quem pode falar de verdade que as coisas aconteceram exatamente como tinham imaginado?


E enquanto Emily se preocupa com haters e trolls, risco de cancelamento, formas de expandir o seu negócio e crise conjugal, uma de suas respostas aleatórias terá consequências.

Estas consequências tem um único início, uma personagem em busca de vingança por um retorno de Emily que se tornou fatal para alguém que ela amava. E a vingança neste caso exige um planejamento frio e calculado.


A escrita de Ellery Lloyd

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, os autores Collette Lyons e Paul Vlitos utilizam três narradores para contarem a história, sendo um sem nome e sem número de capítulo.

Logo no Prólogo sabemos que Emily se encontra em uma situação delicada, de extremo perigo, para a seguir retornar seis semanas no tempo e acompanhar o dia a dia de Emmy e Dan.

Minha mulher, é muito fácil de se identificar com ela. As pessoas gostam dela. De pessoas como ela.


Emmy é muito convincente em contar sua história, mas é justamente Dan que coloca aquela pulga atrás da orelha sobre os atos da esposa. O que é real? O que é deliberado? Qual o preço que Emily está disposta a pagar para atingir suas ambições?

Tudo isso em um ambiente que utiliza a face real de maternidade, com todas as suas dúvidas, os grupos de mães, das lágrimas e desafios, transformando isso em marketing, separando os acontecimentos em dias cinzentos e dias coloridos.

Pensei que, de algum modo, se eu visse você, ajudaria. Me ajudaria a te odiar menos. Me ajudaria a deixar a raiva ir embora.


Quem dá a tensão a tudo isso é justamente o terceiro narrador, a princípio sem nome, que pouco a pouco vai revelando acontecimentos passados até compartilhar os seus planos no presente. O que faz com que a cada personagem que se aproxime da família um possível vingador nos olhos do leitor.


O que eu achei...

Confesso que me surpreendi positivamente com o livro, achei que seria algo bobo e comecei a ler sem pretensão nenhuma. Mas não, por trás do suspense há uma grande crítica a exposição extrema, as mentiras inventadas para ganhar mais likes, os personagens devidamente desenhados para encantar o público.

Em relação aos personagens, nenhum dos três narradores conseguiram ganhar a minha empatia. Achei a postura do casal um tanto nojenta, e fiquei com muita pena das crianças, que são os mais vulneráveis neste paraíso instangrável criado pelos pais e equipe do perfil.

É para esse momento que programo meus posts, aparentemente pensados na hora e improvisados, mas na verdade pré-fotografados e já escritos.


Pois para ele absolutamente tudo vira negócio, por mais dor que isso possa provocar, por mais traumas que isso traga aos seus próprios filhos, beirando o absurdo. Ao mesmo tempo que serve de alerta para quem é viciado em redes sociais: não é porque você admira alguém que deve levar todas as opiniões e conselhos de um influencer ao pé da letra. Existem profissionais muito mais qualificados para ajudar em diferentes situações.

Em relação ao personagem que busca vingança, senti e compreendi a sua dor conforme ela era revelada, mas não consegui aceitar a forma como se buscou ameniza-la. A perda acrescida da necessidade de vingança a destroem por dentro, tornando claro o quando precisa de ajuda.

Com um pouco de pesquisa, você percebe que a rede social proporciona um entendimento muito simples daquilo com que as pessoas em todo mundo se identificam.


Em contra partida, gostei da forma como abordaram a maternidade, das relações pessoais, passando pelas imperfeições até o fato de que não, nem tudo é tão drástico assim. embora quando você tem uma média de duas horas de sono por dia acredite que é.

A escrita fluída e a tensão que vai crescendo junto com a passagem do tempo convidam o leitor, como em todo bom suspense, a virar mais uma página e ser surpreendido pelos acontecimentos. Com direito a frio no estômago conforme me aproximava do desfecho.

Tenho total ciência de que cada decisão que tomo agora, cada decisão incorreta, está me custando tempo. 


Ficando a recomendação para quem curte um bom suspense, e sim, as seis semanas irão passar voando. E se você gostar da dica, deixa um like, só para entrar no clima.


A Influencer
People Like Her
Ellery Lloyd
Tradução: Luciana Dias e Maria Carmelita Dias
intrínseca
2021 - 304 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro - era pago integralmente pela autora.