Mostrando postagens com marcador Clube de Livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Clube de Livro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de maio de 2023

O Passeador de Livros



Sinopse: Uma fábula moderna e atemporal sobre o poder que a conexão entre pessoas e livros tem de transformar a realidade. Do alto de seus 72 anos, ainda é com bastante vigor e alegria que, todas as tardes, Carl Kollhoff sai para entregar os livros encomendados por seus clientes mais especiais. Tão fiel à tarefa quanto os ponteiros de um relógio, o livreiro da tradicional Ao Portão da Cidade percorre as pitorescas ruas da região e, como nas páginas de seus preciosos livros, observa o mundo real e seus habitantes também por uma ótica lúdica e imaginativa.

Foi em Setembro/2023, no mês em que completava quatro anos, que o Clube intrínsecos enviou a sua última caixinha. O livro escolhido para encerrar este projeto da editora intrínseca foi O Passeador de Livros do escritor alemão Carsten Henn. O mimo foi um outro livro da editora e a saudade que eu fiquei das belas edições.

Aos 71 anos Carl Kollhoff não se imagina longe do seu trabalho como vendedor de livros. Solteiro, possui a sua própria coleção em casa. Na livraria dá dica certeiras, treina funcionários e faz um serviço de entrega domiciliar para clientes que não desejam, por diferentes motivos, sair de casa.

Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho.


Vivendo entre a ficção e a realidade, ele faz uma correlação entre as pessoas que encontra e personagens literários. Então ele faz suas entregas para o sr. Fitzwilliam Darcy e a Sra. Píppi Meialonga, compra suas maças da Rainha da Branca de Neve, aceita o chá do Hércules, e assim por diante. Se perguntarem os nomes reais, ele precisa de um tempinho para ligar os personagens as pessoas.

Mas sua vida começa a mudar com a internação do seu chefe, que é substituído por sua filha, uma mulher que tem ciúmes de Carl, e o aparecimento de Schascha, uma menina esperta, órfã de mãe, que lhe dá o apelido de Passeador de livros.


A escrita de Carsten Henn

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, o escritor alemão Carsten Henn conta com muita delicadeza a relação de amor de um leitor e seus livros através da figura de Carl.

Com inúmeras referências literárias, O Passeador de Livros aborda também a questão do envelhecimento, da perda, do uso da literatura para fugir da solidão ou do próprio mundo, de relacionamentos abusivos, de mágoa e de como pequenos atos podem mudar tudo na vida de uma pessoa.

Sou como os ponteiros de um relógio. Parece triste, pois eles sempre percorrem o mesmo caminho e sempre retornam ao ponto de partida.


Pois como uma boa fábula, a jornada do herói Carl e de sua assistente Schascha narrada pelo autor Carsten Henn possui os seus obstáculos, mudanças de rumo, segredos e momentos a serem comemorados. O que faz com que a sua escrita seja leve ao mesmo tempo que instiga o leitor a saber mais sobre os personagens.


O que eu achei de O Passeador de Livros

O Passeador de Livros é o tipo de história que defino como bonitinho, sendo uma mistura de fábula e homenagem a literatura, tornando-o um bom candidato para aquela leitura tranquila de férias.

Com inúmeras referências literárias, que vão do nome dos capítulos, os apelidos dados aos moradores da cidade e os autores citados, é quase impossível não sair com um acréscimo na lista de leituras futuras com as indicações listadas.

Leio para o meu prazer egoísta, por amor às boas histórias, e não para compreender o mundo.


Sobre a história em si, achei triste a dependência do trabalho que Carl tem para dar sentido a sua vida. Assim como eu achei que a relação do Passeador com a filha do melhor amigo - e agora chefe - poderia ser melhor trabalhada. Pois ela claramente não o suporta. É só ciúmes e inveja? Ou existe algo mais?

Também achei que em alguns momentos o livro era um pouco arrastado, mas em compensação ele também é muito sensível, o que conquistou o meu coração, principalmente a Schascha, que me dava vontade de abraçar.

Não estava no clima para uma acompanhante lhe fazendo todo tipo de perguntas erradas - ou, pior ainda, de perguntas certas.


E naturalmente tudo ficou mais sensível por ser a caixa de despedida, pois ao finalizar a leitura, me vi despedindo deste clube de edições caprichadas, que me apresentaram livros que talvez eu não desse atenção ou nem visse ao rolar a página de um site ou em uma livraria. 

Ficando a dica para quem gosta de histórias leves e sensíveis que podem aquecer o seu coração.


O Passeador de Livros
Der Buchspazierer
Carsten Henn
Tradução: Kristina Michahelles
intrínseca
2020 - 208 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro/2022 - era pago integralmente pela autora. 

terça-feira, 30 de agosto de 2022

A Pequena Loja de Venenos



Sinopse: em 1791, em um beco escuro de Londres, se esconde um pequeno boticário, onde Nella aguarda sua próxima cliente. Uma curandeira respeitada no passado, ela agora usa seu conhecimento para um propósito mais obscuro: vender venenos disfarçados para mulheres desesperadas que fariam de tudo para se libertar dos homens em suas vidas. Mas quando sua nova cliente acaba por ser uma adorável menina de doze anos, Eliza Fanning, e uma amizade surge entre elas, o mundo de Nella muda por completo, e as mulheres cujos nomes estão escritos em seus registros correm risco de ser expostas. Na Londres atual, a vida de Caroline Parcewell parece estar desmoronando. Em uma viagem de aniversário de casamento, agora feita sozinha, sua história parece tomar um rumo há muito tempo escondido. Porém, em um beco sem saída pode estar o recomeço de que ela tanto precisa.

No mês de maio recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro A Pequena Loja de Venenos, da escritora norte-americana Sarah Penner. O mimo foi o mesmo de Casas Vazias enviado pela TAG Curadoria, o acesso a Mubi - que eu não utilizei - e a pipoca de caramelo e flor de sal da Mais Pura que eu devorei.


A história

O ponto de partida ocorre na Londres de 1791, onde Nella sente uma preocupação sem explicação à espera da sua desconhecida cliente. Surpreendentemente que aparece é uma menina de doze anos a serviço de sua senhora. Eliza gosta de um bom papo, e o local logo se torna objeto de sua curiosidade. E por mais que Nella a mande embora, a menina não se cansa de voltar.

Nella é filha de uma boticária que sempre fez tudo para ajudar as mulheres, ao assumir o negócio da mãe, ela acaba, após uma grande desilusão, incluindo um serviço especial para suas clientes, possibilitando através de elementos naturais se livrar de companheiros nada agradáveis.

Ela viria ao alvorecer - a mulher cujas cartas eu segurava nas mãos, a mulher cujo nome eu ainda não sabia.


Mas um pedido que vai contra as regras, seguido de ameaças e uma desatenção acaba colocando todas em perigo, e nesta tentativa de sobreviver ao caos um dos vidros com a marca da loja vai parar no Rio Tâmisa.

Ele será encontrado nos dias atuais por Caroline, uma mulher que abandonou vários sonhos para se dedicar ao marido e ao projeto de formar uma família. Na véspera de sua viagem para comemorar as bodas de zinco ela descobre uma traição, e para não desperdiçar o presente dado pelos seus pais, encara uma viagem solitária dos Estados Unidos para a Inglaterra.

Meu caderno estava lá dentro, as páginas cobertas de tinta de caneta azul e corações desenhados com um esboço do nosso itinerário de dez dias.


Buscando o que fazer, acaba recebendo o inusitado convite de participar de uma caça ao tesouro no Rio Tâmisa. O que era um passatempo, acaba se tornando o objetivo da viagem quando ela encontra o frasco azulado com um símbolo de urso. E ao mesmo tempo que ela tenta desvendar a história do objeto, ela acaba confrontando as próprias escolhas e tendo uma oportunidade de escolher o que ela Caroline deseja realmente para a sua própria vida.


A escrita de Sarah Penner

Dois tempos, duas narradoras que dividem os seus pensamentos na primeira pessoa, a mesma cidade. Esta é a base da história da autora Sarah Penner, que com uma escrita fluída e uma história envolvente, tornam o leitor uma segunda Eliza, querendo saber mais sobre as duas mulheres que estão sendo desvendadas.

Utilizando o universo feminino, está a sonoridade, a questão vida profissional x vida social, a maternidade, os relacionamentos tóxicos, o que são escolhas das personagens e o que é manipulação de terceiros.

Como eram tolos - todos eles, exceto as mulheres, a quem era dito onde encontrar suas amigas, suas irmãs, suas mães.


Para quem gosta de viajar dentro e fora dos livros, a autora também nos apresenta uma visão menos turística de Londres, com descrições que me fizeram sentir caminhando junto com a personagem.

Também é muito interessante as descrições dos elementos utilizados para a criação de cada veneno, assim como a descrição detalhadas no final, um acréscimo pós história.


O que eu achei...

Não existe veneno mais poderoso que uma traição, ela corrói, amarga, desestabiliza o traído. E isto é muito forte em A Pequena Loja de Venenos. As consequências que isso pode trazer na vida de cada uma das personagens.

Eu gostei muito da história, o vai e volta entre presente e passado, que fazem o leitor preencher o quebra-cabeça mais rápido que Caroline, ao mesmo tempo que se vive um dilema ético ao torcer por Nella. Me fisgando da primeira à última página.

Eu soube, ali, que não podia confiar em mais nada que ele me dissesse.


A leitura é uma imersão nas dores e dúvidas femininas, aos quais curiosamente não mudaram tanto assim, apesar dos mais de duzentos anos que separam uma época da outra. Quase como um lembrete do quanto ainda precisamos quebrar barreiras, sejam elas externas e internas.

Minha personagem favorita aqui foi a jovem Eliza e sua grande dose de otimismo. Por estar recém descobrindo a vida, ao qual ela tem muita curiosidade, permitem que ela sempre pense em soluções e acredite fielmente que elas darão certo. Contrastando com Nella, sempre tão triste e negativa.

O trabalho da minha mãe tornou-se o meu, e nossas tinturas eram tudo o que eu conhecia do mundo.


Também gostei da capa, existe uma mistura de delicadeza e força que convidam a entrar na história. E assim deixo a dica para quem quiser se aventurar a conhecer os diferentes tipos de veneno que podem atingir o corpo ou a alma.


A Pequena Loja de Venenos
The Lost Apothecary
Sarah Penner
Tradução Isabella Pacheco
TAG Inéditos - Harper Collins
2020 - 318 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu o mimo do mês.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Achei interessante como a distância do tempo não muda os problemas. A traição, ou melhor, o ser traída, é o que inicia o movimento das três personagens, com diferentes níveis de gravidade.

No passado Nella é traída duplamente por seu amor, ato agravado com a perda da filha, e a faz acrescentar o serviço especial em sua loja. Aliás, achei interessante o padrão ético de Nella, que só aceita envenenar homens e em nenhum momento se vê como sendo uma assassina em série.

Agora aquilo seria um sonho; por causa do meu erro, talvez eu tenha condenado a ela e a todos nós dentro das páginas do livro de registros.


Suas clientes são mulheres que buscam se livrar de homens que as fazem infelizes de diferentes formas. E aí entra a personagem Eliza, que embora encaminhada pela patroa, na verdade também está buscando a própria libertação das mãos do patrão que começa a descobrir e tocar o seu corpo jovem.

Só que tudo vira de cabeça de baixo devido a uma série de traições, começando pela esposa que quer matar a amante e não o marido, até o frasco do veneno ser entregue para a polícia pela empregada que entrega a patroa.

A verdade dele permaneceria sendo o único segredo que eu não dividiria com ninguém.


E aí pulamos para o presente onde encontrei Caroline, uma mulher que se deixou manipular pelo marido até ser apenas uma sombra do que sonhou um dia. E confesso que fiquei bastante agoniada quando ele resolve procurar por ela, e ao mesmo tempo que admite a culpa também transfere para ela. O respiro de alívio veio junto com o dela quando a menstruação chega e se vê que ela tem possibilidade de realmente recomeçar.

No geral é triste ver como as mulheres ainda se enterram por causa das atitudes masculinas. Como são consumidas por dentro, como é difícil não arrumar desculpas para os atos do outro, mesmo que isso a destrua. Mas são anos de criação machista que precisa ser quebrada também no universo feminino, tanto na literatura quanto na vida real.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

A última coisa que ele me falou



Sinopse: Proteja ela. Essa foi a mensagem que Owen Michaels deixou para a esposa antes de desaparecer. Apesar da confusão e do medo, Hannah Hall sabe exatamente a quem aquelas palavras se referem: Bailey, sua enteada de dezesseis anos, que perdeu a mãe de forma trágica e gostaria de poder ignorar por completo a nova madrasta. Em pouco tempo, a situação sai totalmente do controle de Hannah: Owen não atende suas ligações cada vez mais desesperadas, o FBI prende o chefe dele, e agentes federais surgem na sua porta, fazendo-a questionar não apenas por que o marido desapareceu, mas também quem ele realmente é. Mesmo querendo respeitar aquele último pedido, Hannah precisa de respostas. E talvez a enteada seja a chave de todas elas.

No mês de Abril/2022 recebi pela minha assinatura da intrínsecos o romance que irá virar série A última coisa que ele me falou, livro da escritora norte-americana Laura Dave. O mimo foi um jogo de cartas Quem Sou Eu literário, com personagens de livros ou elenco de adaptações de livros publicados pela editora Intrínseca.


A História

Hannah foi criado pelo avô, que lhe transmitiu não só amor, mas também a arte de lidar com a madeira. E ao entender a matéria-prima ela virou uma marceneira de prestigio, construindo pelas únicas. E foi assim que ela conheceu Owen, uma visita ao seu atelier com o chefe que gerou um encontro, que se seguiu de outro até o casamento dos dois, que não foi bem aceito por Bailey, a filha de Owen.

Mas um dia uma menina estranha bate na porta da casa barco em que eles moram com um bilhete para Hannah onde o seu marido havia escrito apenas uma palavra: Proteja-a.

Eu tinha mesmo uma tendência a colocar as coisas no lugar errado. A me distrair. A esquecer.


Logo vem a notícia de que a empresa de tecnologia ao qual Owen tinha um dos cargos principais está sendo investigada por uma grande fraude financeira, com prisões que levam um misterioso delegado federal e agentes do FBI até ela.

Sem saber em quem confiar, Hannah e Bailey são obrigadas a ficar unidas, enquanto tentam decifrar quem realmente é o homem que amam, em quem devem confiar e principalmente quais escolhas devem fazer.


A escrita de Laura Dave

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora Laura Dave coloca o leitor sobre a perspectiva de Hannah, que não nos apresenta apenas o momento atual, mas também o passado conforme tenta juntar as peças do quebra-cabeça.

Dividido em três partes, os títulos dos capítulos não são números, mas frases ou expressões, como pequenas pistas do que está por vir. E como um bom suspense, eles vão te convidando a seguir em frente, apenas mais uma página para ver se as personagens descobriram algo a mais, ou te deixarão ainda mais em dúvida sobre o que aconteceu.

Escutamos uma batida na porta da frente. E, do outro lado, alguém está esperando para nos dar uma notícia que vai mudar tudo.


Há também um jogo sobre conversas e memórias, que estão presentes o tempo inteiro, e norteiam os caminhos das duas protagonistas, o que é verdadeiro, o que é falso, é possível mentir o tempo inteiro?

Para um leitor mais experientes, as teorias podem começar desde o primeiro capítulo, permitindo aquele jogo de adaptações e confirmações para saber se acertou o contexto no final.

Fecho os olhos e tento pensar em diversos cenários que consigam explicar o que está acontecendo.


Somado a tudo está a lenta construção dos laços da madrasta - que aqui está longe de se parecer com as dos antigos contos de fadas - e a adolescente que viu seu mundo invadido por outra figura feminina. As duas sozinhas no mundo, precisando equilibrar todo o desconhecimento e dúvidas enquanto resgatam memórias que possam servir de luz no mistério que parece mudar completamente a vida de ambas.


O que eu achei

Abordando temas como o desaparecimento de pessoas, fraude financeira, o desconhecimento sobre o outro, confiança, laços familiares e a figura da madrasta boa como base para o suspense, somado a uma leitura rápida e fluída, faz a narrativa em seu todo ser de fácil envolvimento.

E assim eu fiquei presa na leitura, que foi realizada em menos de três dias, enquanto eu desenrolava o fio e me via revelando o início de tudo. Confesso que só achei o desfecho final um pouco acelerado, mas nada que me fizesse deixar de gostar da história.

As pessoas se esquecem de fazer as perguntas óbvias que deveriam fazer se não soubessem de nada sobre a situação.


Ficando a dica para quem adora um suspense, afinal, nada como brincar de detetive para relaxar a mente e nos distrair por um breve momento de dias tensos.


A última coisa que ele me falou
The Last Thing He Told Me
Laura Dave
Tradução: Ana Rodrigues
Intrínseca
2021 - 318 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

Eu finalizei o livro categorizando o mesmo como um suspense romântico, pois é preciso ter muito amor para a atitude de Hannah. Não só em relação ao Owen, mas também a Bailey.

É assim que se preenche as lacunas - com histórias e lembranças de pessoas que ama você.


O motivo é como ela acaba abraçando Bailey, substituindo a presença do pai, que ao desistir das duas para não ser morto nem colocá-las em perigo, também acaba exigindo de certa forma que Hannah abra mão de recomeçar a própria vida.

Pois ela é uma mulher ainda jovem, de quarenta anos, que faz um trato com até então desconhecida família materna de Bailey para que a menina não precise entrar no programa de proteção às testemunhas, e assim tenha que mudar novamente de nome, cidade, enfim, ter a vida virada de cabeça para baixo. Se tornando assim a mãe de Bailey.

Há certas coisas que não podemos apagar, certas coisas que revelamos às pessoas mais próximas de nós, tendo consciência disso ou não.


O que me fez terminar o livro com dúvidas e teorias. A primeira é se Owen era chantageado pelo chefe? Como ele teria descoberto o segredo? E o mais importante, estava utilizando para que ele finalizasse o seu trabalho sem denunciar a empresa?

E isto abre o leque para a próxima pergunta, teria Owen casado com Hannah como uma forma de encontrar suporte para a filha e assim evitar que ela retornasse para os braços da família materna? 

A gente esquece várias coisas quando ninguém nos ajuda a lembrar.


Ao contrário de Hannah, esta relação não teria evoluído de forma tão natural, tendo sido ela avaliada para tal papel? Pois como ele conhecia a fraude, e sim tentou de todas as formas terminar o sistema em tempo hábil para que tudo retornasse à normalidade, era um risco que ele estava correndo o tempo todo: com quem ficaria a filha se algo lhe acontecesse?

É caros leitores do blog, quem iria imaginar que até mesmo um leve suspense pode ser finalizado com tantos pontos de interrogação, dando espaço para a imaginação.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os Abismos



Sinopse: Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas e rodeado por precipícios físicos e metafóricos. O ambiente, exuberante e bem-cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente que está em conflito com os caminhos escolhidos e impostos para a própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm a previsibilidade do cotidiano.

No mês de março/2022 recebi pela minha assinatura da intrínsecos o romance vencedor do Prêmio Alfaguara 2021 Os Abismos, livro da escritora colombiana Pilar Quintana. O mimo foi um poster e 5 imãs de mulheres latinos americanas.


A história

Em um grande apartamento, que muitas vezes parece uma floresta, moram a Claudia mãe, a Claudia filha e o pai e marido Jorge. 

A Cláudia mãe sonhava em sua juventude em cursar direito, sonho devido enterrado por seu pai. Após ficar órfã, com grande apoio da mãe, acabou casando com um homem bem mais velho e sendo sustentada por ele. E embora tenha o desejo de oferecer uma educação bem diferente da que recebeu para a sua filha, passa os seus dias na cama lendo revistas de celebridades, dando uma atenção maior para as que tiveram um desfecho trágico, como Grace Kelly.

Havia tantas plantas no apartamento, que nós o chamávamos de a selva.


Ela passa a se sentir mais alegre quando sua cunhada Amelia aparece do nada casada com um homem mais jovem. Gonzalo é vendedor de roupas masculinas, bonito, de corpo definido, e não demora em trocar olhares com ela, enquanto Jorge se dedica quase integralmente ao supermercado, negócio que possibilita a boa vida de todos.

Com a descoberta do caso, Cláudia se entrega nos braços da depressão, o que é acentuado pelo suicídio de uma amiga próxima. O que gera uma mudança de local e uma nova visão para Claudia filha do que é vida e morte, e entre a preocupação e a curiosidade, novos instintos irão aflorar nesta criança de oito anos.


A escrita de Pilar Quintana

Utilizando a narrativa em primeira pessoa quem nos conta os abismos familiares é a menina Claudia de apenas oito anos. A visão infantil exibe o lado mais cruel de uma casa sem amor, onde é comentado que a menina era a bebê mais feia da maternidade, ou é pedido que a mesma se afaste quando esta apenas deseja dar carinho.

Dividido em quatro partes, ela marca mudanças na vida da família, sejam elas grandes ou que exigem atenção. Lá estão a tristeza, o abandono, a depressão e a solidão. O conjunto disto tudo resulta em abismos não só na paisagem, mas entre as pessoas que moram na mesma casa.

Minha mãe sempre estava em casa. Ela não queria ser como a minha avó. A vida inteira me disse isso.


Tudo em um círculo vicioso que faz a menina, ainda tão jovem, ter uma série de preocupações com os pais, ao mesmo tempo que entre as tantas tragédias ouvidas, passa a se interessar ora com medo, ora com curiosidade, pela morte. Levando o leitor mais sensível a uma agonia permanente sobre os atos de todos da família.


O que eu achei do livro...

A escrita fluída e rápida de Pilar Quintana capturou a minha atenção logo nas primeiras páginas, assim como a base do romance. Pois apesar de termos uma narradora criança, a pauta é séria e exige mais do que cuidado e atenção.

Escondida embaixo de sonhos destruídos e uma falta de vontade de fazer qualquer coisa, existe a depressão, que somada ao alcoolismo, pode passar uma falta impressão de apenas uma pessoa que não quer nada com nada. Fica evidente desde as páginas iniciais como a mãe precisa de tratamento para que isso não afete ainda mais a filha no futuro.

Você precisa ficar em cima de mim o tempo todo?!


Achei muito curioso a escolha do mesmo nome para mãe e filha, embora seja comum entre meninos no Brasil, em ambos os casos me faz pensar em algo que oscila entre o ego e a própria continuidade, como se fosse uma forma de se imortalizar. Ao mesmo tempo existe uma dificuldade grande da mãe em compartilhar tempo e atenção com a filha, como se em muitos casos a menina fosse mais um estorvo do que uma maternidade desejada.

É uma leitura que prende do início ao fim, possibilitando ler de forma rápida, no meu caso, pelo menos, os ganchos de um capítulo para o outro me incentivavam a sempre virar mais uma página, para saber o que vai acontecer, já que eu passei a história inteira com um sentimento de desastre iminente.

Saiu roxa. Horrorosa. Colocaram ela no meu peito e eu, tremendo e chorando, pensei: meu esforço foi para isto?


Um alerta importante, por se tratar de depressão, o livro possuí vários gatilhos em relação a suicídio, então se você se sente mais sensível ao tema no momento, talvez a recomendação seja colocar na famosa lista de compras futuras, até estar mais confortável em relação ao assunto.

Se não for o caso, fica a dica para quem gosta de livros que mexem com o psicológico, que colocam as escolhas femininas na roda, que querem conhecer mais escritoras latinas-americanas, ou que simplesmente querem ler.


Os Abismos
Los abismos
Pilar Quintana
Tradução: Elisa Menezes
Intrínseca
2021 - 272 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

É interessante como a tensão do livro cresce sutilmente, quebrando percepções e me fazendo rever opiniões sutilmente. Se tudo começa com a descrição cuidadosa do apartamento lotado de plantas até um final totalmente aberto, que me fez ficar remoendo o que aconteceria com mãe e filha.

Baixinha, magrinha, moreninha, conforme minha mãe dizia que ela era quando criança, mas igualzinha ao meu pai. Uma menina feia.


Confesso que inicialmente achei que Cláudia mãe era apenas uma madame preguiçosa, do tipo que nada precisa fazer e não se esforça o mínimo para mexer o mindinho, situação cômoda proporcionada pelo marido, que trabalha feito louco todos os dias da semana, o que explica um pouco da sua falta de atenção com o que acontece dentro de casa.

Esta opinião de certa forma foi fortalecida pelo caso com Gonzalo, pois ela do dia para a noite ganhou vida, passou a levar a filha em passeios para possibilitar os encontros com o amante. Até que tudo foi descoberto e acabou.

Quem é que no meio da noite, de pijama e sem sapato, ia ter a ideia de sair em um bote inflável para dar um passeio pelo mar escuro e revolto?


Se por um lado a tia Amélia mantém o carinho pelo irmão e pela sobrinha, ela se distância da família, enquanto Cláudia filha espera para saber se os pais irão se separar. E aqui Claudia mãe começa a mostrar os sinais da depressão, ao ficar em um quarto escuro, passar a beber mais e se desligar de tudo e a palavra suicídio passa a ser uma decorrência ao longo dos capítulos.

E foi isso que eu achei interessante, conforme novas histórias de mulheres que optam em acabar com tudo encerrando a própria vida se tornam comum, eu esperava, com a mudança de mãe e filha para um lugar recheado de abismos, que Claudia mãe fizesse uma loucura.

Ficar embaixo da cascata era como gritar em uma terra solitária, em um deserto frio, em um páramo.


Mas o que me quebrou foi a Claudia filha jogando a sua boneca preferida no precipício, como se a criança fizesse um teste sobre o que poderia acontecer se ela mesma optasse por aquele caminho, que no início causava apreensão e agora parece seduzi-la.

O episódio parece fazer os pais acordarem e por um breve período direcionarem a devida atenção a filha, mas logo tudo retorna ao normal, já que nem para a mãe e muito menos para a filha é buscado uma avaliação ou iniciado algum tratamento.

Os pezinhos para cima, a cabeça para baixo e os cabelos espalhados, longos e movendo-se como asas.


Ficando realmente para a imaginação até onde as duas iriam em relação ao fascínio que a morte despertava em ambas, principalmente no que se refere a menina, cujas cobranças estéticas já ocorriam de forma nem sempre muito sutil, enquanto tudo ao seu redor era desprovido de apoio.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

O Parque das Irmãs Magníficas



Sinopse: O romance O Parque das Irmãs Magníficas é um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora argentina Camila Sosa Villada. Nestas páginas convergem duas facetas da comunidade trans, as quais fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti.

No mês de Março/22 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O Parque das Irmãs Magníficas da autora argentina Camila Sosa Villada, indicação da escritora Amara Moira. O mimo foi uma espécie de revista que lista 30 personalidades brasileiras pertencentes à comunidade LGBTQIA+.

No Parque Sarmiento, localizado no coração da cidade de Córdoba, na Argentina, quando a lua substitui o sol, um grupo de travestis espera os seus clientes protegidas pelas árvores.

Eles chegam em seus automóveis e reduzem a velocidade para fazer a sua escolha, com um gesto chamam uma e assim ela embarca para o desconhecido. Desconhecido pois os perfis de quem está atrás do volante são dos mais diversos, do jovem ao velho, do solteiro ao casado, do pobre ao rico, do viciado ao escondido, do violento ao que apenas busca satisfazer os seus desejos.

Minha mãe, por sua vez, dizia que desde o meu nascimento precisava tomar Lexotan para dormir. Essa teria sido a razão de sua relutância, de sua passividade diante da vida do seu filho.


Este grupo orbita ao redor de Tia Encarna e é ela quem encontra em uma vala um bebê, que deixado para morrer encontra nos seus braços calor e amor. Fazendo com que todas corram em debandada para leva-lo até a casa que as acolhe, a casa de Tia Encarna.

E todo o amor que este grupo destina ao bebê reflete em seu olhar, fazendo com que recebesse o nome de O Brilho dos Olhos. Mas não se engane, caro leitor do blog, não estamos falando de uma história leve.

As porradas, acima de tudo, as porradas que o mundo nos dá, às escuras, no momento mais inesperado.


Enquanto O Brilho dos Olhos cresce, Camila nos revela o pesado dia a dia do grupo. De quem se traveste de homem durante o dia para estudar, das surras e abusos que elas enfrentam nas mãos dos clientes, da rejeição familiar que aperta no peito e segue nos ombros mesmo após ter abandonado a vida anterior.


A escrita de Camila Sosa Villada

O Parque das Irmãs Magníficas mistura a autobiografia da autora Camila Sosa Villada - que nasceu Cristian Omar na cidade de La Falda, também na Argentina -, com ficção, onde há pitadas de realismo fantástico em personagens como Maria, a muda que se torna uma mulher pássaro ou a que foi o sétimo filho e se torna lobo nas luas cheias e passa estas noites trancada em um quarto.

Em momentos assim, alguém deseja ser capaz de recordar. Em momentos assim, alguém encomenda a própria memória.


No retorno ao passado fui apresentada ao pai machista de Camila, que passou do orgulho de ter um filho homem para a vergonha do comportamento do menino que gostava de se vestir e maquiar como menina. A mãe silenciosa, que aceitava todos os desmandos do marido, e nada fez para melhorar a situação.

E o menino que se escondia em um mundo próprio através da escrita se transformou em uma autora de escrita direta, sem frescura, que usa as palavras para desnudar um universo onde a festa, o acolhimento, a solidariedade, o egoísmo, a solidão e o sofrimento se mesclam.

Tão desoladas, acres, secas, perversas, ruins, sozinhas, ladinas, bruxas, inférteis corpos de terra.


Usando a narrativa em primeira pessoa, eu me senti como se estivesse sentada em algum lugar, com uma caneca de chá, escutando as histórias de Camila, que deixou claríssimo para mim o sofrimento que é para quem tem coragem de fugir do esperado e seguir os seus anseios, pois não basta não se encontrar no próprio corpo, é quase obrigatório ser humilhado e despedaçado a cada dia por aqueles que não aceitam a tua escolha, embora possam procurar por semelhantes escondidos pela sombra da noite.


O que eu achei de O Parque das Irmãs Magníficas

Definitivamente não existe nada mais perigoso para um ser humano do que as outras pessoas ao seu redor. Ao contrário de uma arma, eles te destroem aos poucos, através do olhar, das palavras, do dedo apontado, das surras, dos castigos, das negações, das proibições.

Os raios de sol nos enfraquecem, revelam as indiscrições de nossa pele, a sombra da barba, os traços indomáveis do homem que não somos.


E por Camila ter esta escrita direta, objetiva e ao mesmo tempo fluída, os personagens por ela apresentados se tornaram muito reais para mim, a ponto de ser muito fácil ser transportada tanto para o parque quanto para a casa de Tia Encarna, de sorrir com os momentos descontraídos e de sofrer quando não se consegue entender determinadas ações, se sentindo um pouco na pele delas por 205 páginas.

Pele que lida com prostituição, a sentença de morte da Aids, violência, roubo, assassinato, suicídio, solidão, injustiça, mas também amizade, amor, apoio, sonhos e descobertas.

Eu mentia para meus clientes e mentia na universidade e mentia quando voltava para a casa dos meus pais, a quem só importava uma coisa, o sonho de todos os pais: ter um filho profissional


E por isso deixo a sugestão para quem procura livros que misturam ficção e autobiografia, para quem deseja conhecer mais da realidade das travestis, ou para quem simplesmente quer ler um bom livro e ser tocado por ele.


O Parque das Irmãs Magníficas
Las Malas
Camila Sosa Villada
Tradução: Joca Reiners Terron
TAG - TusQuets Editores
2019 - 205 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 31 de maio de 2022

A Camareira



Sinopse: Molly Gray tem dificuldade com interações sociais. Aos 25 anos, a jovem muitas vezes entende errado as intenções das outras pessoas, e sua avó costumava interpretar o mundo para ela, criando regras simples segundo as quais a neta poderia viver. Certo dia, ao entrar na suíte do infame e riquíssimo Charles Black, a vida organizada de Molly vira de cabeça para baixo: além de encontrar os cômodos em completa desordem, a jovem se depara com nada menos que o próprio Sr. Black morto na cama. Antes mesmo que entenda o que está acontecendo, no entanto, seu comportamento incomum levanta suspeitas da polícia, e a camareira, acostumada a passar despercebida, logo se vê presa em uma teia de mentiras e mal-entendidos que não faz ideia de como desfazer. Felizmente para Molly, amigos que ela nunca soube que tinha se unem em busca de pistas sobre o que realmente aconteceu com o Sr. Black. Mas eles serão capazes de encontrar o assassino antes que seja tarde demais?

No mês de fevereiro/22 recebi pela minha assinatura da Intrínsecos o livro A Camareira da escritora canadense Nina Prose. Não confundir com o livro de mesmo título do escritor alemão Markus Orths, que também já foi resenhado aqui no blog. O mimo foi um quebra-cabeça com a cena do crime.

Molly é uma camareira cuidadosa que busca deixar os quartos perfeitos. Ela tem dificuldade para entender ironias e ler expressões faciais, sendo literal em suas interpretações ao interagir com outras pessoas. O que a faz viver com o bullying desde cedo, nunca se livrando desse, mesmo na vida adulta.

Sou sua camareira. Sei muita coisa sobre você. Mas, afinal, o que você sabe sobre mim?


Abandonada pelos pais, foi criada com muito amor e cuidado pela avó materna, ao qual perdeu recentemente e precisa aprender a conviver sem o apoio e conselhos.

 Profissionalmente é extremamente cuidadosa e tem orgulho do trabalho que realiza. Mas tem uma vida bastante solitária, sem amigos ou namorado, enquanto sonha em um dia realizar um curso que a ajude a ser promovida dentro da área de hotelaria.

Sou tão grata pelo meu trabalho que acho que estou sonhando todos os dias.


A soma de todos estes fatores a tornam uma vítima perfeita para pessoas que não possuem boas intenções, transformando Molly rapidamente de testemunha a suspeita de assassinato de um cliente costumeiro e rico do hotel.


Os personagens


Molly é a personagem principal, que desperta nos leitores mais sensíveis o desejo de poder entrar na história e protegê-la. Organizada, esforçada, focada e aplicada, sua forma diferente de raciocinar e ver o mundo é ao mesmo tempo envolvente e também um alerta de respeito em relação aos que fogem ao que denominamos de padrão.

A avó, apesar de falecida, é uma personagem onipresente nas lembranças de Molly, já que foram os seus conselhos e as lembranças de muitas conversas que a fazem seguir em frente, aliás, é justamente toda a força que a avó transmitiu a neta que mantém a jovem inteira por mais difícil que seja a situação. 

Cometo erros de etiqueta com uma regularidade preocupante, ofendo quando minha intenção é elogiar, interpreto errado a linguagem corporal das pessoas, digo a coisa errada na hora errada.


As senhoras Black são o lado B da riqueza, quando o Sr. Black morre, começa uma guerra pela herança que envolve a Sra. Black atual e a filha do primeiro casamento. Mais do que descobrir o assassino, o que importa aqui é o dinheiro.

Juan Manuel, Sunitha e Sunshine são exemplos de pessoas que saem do seu país de origem para buscarem oportunidades melhores, e assim como Molly, ficam sujeitos aos diferentes tipos de tratamento por parte dos que o rodeiam.

Tantas pessoas que merecem ser punidas nunca são e, enquanto isso, pessoas boas, decentes, são acusadas dos crimes errados.


Já a detetive Stark representa a pressa na resolução, o despreparo em se comunicar com quem é diferente. Algo que abre portas para injustiças terríveis não só na ficção como no mundo real.

Preston e Charlotte são os bons amigos que todo mundo quer ao lado independente se o evento é feliz ou triste, pois eles estão ali para acreditar em você e te apoiar no que der e vier.

Está me olhando como se eu fosse a idiota quando é evidente que ela não é capaz de compreender minha lógica muito simples.


Rodney é o malandro bonito e sem vergonha, que sem escrúpulos envolve e manipula, um perigo para todos que nele acreditam.

Outra de índole bastante duvidosa é Cheryl, a chefe das camareiras que não tem vergonha de entrar antes nos quartos para roubar a gorjeta destinada as colegas e usa o mesmo pano para limpar a pia e a privada dos banheiros dos hóspedes.

Não tem por que ficar sofrendo pela perda de alguém que você nunca conheceu. Já é difícil sofrer a perda de quem a gente conheceu, alguém que nunca vamos ver de novo e que faz uma falta horrível.


E por fim Alexandre Snow, o gerente do hotel que trata Molly com educação e demonstra confiança e satisfação no trabalho que ela realiza com tanto orgulho.


A escrita de Nina Prose


É a própria camareira Molly quem conta a sua aventura em uma narrativa em primeira pessoa, em uma história que a autora Nina Prose optou em dividir pelos dias da semana.

Com escrita fluída, achei interessante que no Prólogo se tem uma ideia da invisibilidade que parece vestir as pessoas que trabalham no hotel, para logo no primeiro capítulo a personagem principal conseguir me levar por um tour descritivo do local escolhido para a cena do crime, onde fui apresentada para um a um dos personagens que participariam do mistério.

Um dia pode ser chocante, e o seguinte também. Mas os dois choques podem ser tão diferentes um do outro quanto a noite do dia, o preto do branco, o bem do mal.


Um ponto muito interessante sobre Molly é que Nina Prose apenas a identifica como uma pessoa que tem dificuldades com situações de socialização. Não há um diagnóstico ou rótulo da personagem, apenas um fluxo que não era igual ao meu de compreender e interagir com os demais.

Para quem gosta de brincar de detetive, a atenção extra é para os detalhes de cena, as lembranças e os diálogos que Molly tem. Pois é muito fácil perceber que ela está sendo enganada, o grande mistério aqui é por quem e como ela irá descobrir.


O que eu achei...


A Camareira é muito mais do que um mistério policial, o livro é sobre as pessoas invisíveis. Exatamente aquelas que cruzam o nosso dia-a-dia prestando os mais diversos serviços e sendo ignoradas por muitos, como se não tivessem importância e tudo se resolvesse magicamente.

Muitas vezes tenho medo de não acreditarem em mim, de descartarem meus pensamentos e opiniões como se fossem lixo. Sou só uma camareira, não sou ninguém.


E por isso muito mais do que descobrir o assassino a minha agonia era em relação ao que faziam com a Molly, a sua solidão, os golpes que ela recebe sem que consiga se defender. Demonstrando uma mistura de fragilidade e força na personagem, tornando-a muito real.

Eu realmente gostei do livro, da escrita, do desenrolar da história. Acho que todas as peças vão se encaixando muito bem e o final não decepciona, fazendo valer muito a leitura. 


A Camareira
The Maid
Nina Prose
Tradução: Julia Sobral Campos
intrínseca
2022 - 336 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Água Fresca para as Flores



Sinopse: Os dias de Violette Toussaint são marcados por confidências. Para aqueles que vão prestar homenagens aos entes queridos, a casa da zeladora do cemitério funciona também como um abrigo diante da perda, um lugar em que memórias, risadas e lágrimas se misturam a xícaras de café ou taças de vinho. Com a pequena equipe de coveiros e o padre da região, Violette forma uma família peculiar. Mas como ela chegou a esse mundo onde o trágico e o excêntrico se combinam?

No mês de janeiro/22 recebi da minha assinatura da Intrínsecos o livro da escritora francesa Valérie Perrin chamado Água Fresca para as flores. O mimo foi um bloquinho de anotação em formato de um passaporte para avaliar e fazer breves observações sobre os livros que os assinantes irão receber.

Basta que um único ser nos falte para que tudo pareça vazio.


Violette Toussaint nasceu morta e sem amor, cresceu passando por várias famílias temporárias sem pertencer a nenhuma, mentiu a idade para trabalhar em um bar, foi vigia ferroviária e agora, próxima aos cinquenta anos, é zeladora de cemitério.

Neste local ela cultiva e vende suas flores, tem um espaço na sua casa onde ouve histórias e lamentos daqueles que tentam entender a própria perda, tem um caderno onde anota tudo que é dito nos funerais e com tranquilidade, cuida da limpeza do local.

Será que um homem que não ama mais sua mulher olha para ela como se ela tivesse enlouquecido?


Mas um dia ela recebe a visita de Julien Seul, um homem que tenta entender o último desejo de sua falecida mãe, que é ter as cinzas jogadas no túmulo de um homem que ele nunca ouviu falar. A atenção de Violette atrai o seu interesse, e usando o seu cargo de delegado, ele acaba remexendo em um passado indesejado para ela, trazendo várias emoções à tona.


Os personagens

Existem os mais diferentes perfis na história, o que traz um equilíbrio entre momentos de risada, tristeza e reflexão. Eu vou listar os principais, mas a verdade é que os pequenos personagens, aqueles que muitas vezes estão só para se despedir de um ente querido também são peças fundamentais na história.

Em Água Fresca para as Flores cada pétala tem sua importância, não estando ali por estar, não são um mero acaso. Mas vamos aos principais, que irão interagir com boa parte delas.

Ninguém nunca diz que podemos morrer de tantas vezes que nos sentimos chegar ao nosso limite.


Violette Toussaint é o fio condutor desta história, o bebê que nasceu morto e ressuscitou ao ser colocado em cima de um aquecedor passou por diversas famílias sem ser verdadeiramente acolhida. Sua carência e tristeza não se refletem para quem não consegue prestar atenção. 

A mulher gentil que acolhe dores, usa roupas coloridas por baixo das de cores sóbrias, e sempre tem um chá ou uma taça de vinho para os que precisam desabafar. Assim como uma memória para saber a moradia de cada um dos seus vizinhos.

Todas as profissões que têm a ver com a morte parecem suspeitas.


Philippe é o ex-marido que nunca esteve presente, filho mimado que não tem responsabilidade e muito menos amor para compartilhar. Parte deste comportamento eternamente infantil é justamente dos seus pais, principalmente de sua mãe, que como boa sogra não perde oportunidade de criticar ou humilhar a nora.

Desde homem machista, cujo tratamento gentil do início era apenas um disfarce, o único presente recebido por Violette foi Léonine, um verdadeiro raio de sol em forma de filha para quem sempre foi solitária.

Gosto da beleza das coisas porque não acredito na beleza das almas.


Mas o que a família do marido tem de negativo os amigos Célia e Sasha tem de anjo quando abrem suas asas para acolher Violette nos anos mais doloridos de sua vida. Demonstrando o que pode haver de mais belo em uma amizade.

Nono, Elvis e Gaston são os coveiros do cemitério, juntos com o Padre Cédric e os irmãos Lucchini - donos da funerária local - são as pessoas que travam os mais diferentes diálogos na sala da casa de Violette, colocando o leitor na rotina e mostrando como o trabalho em um cemitério é igual ao qualquer outro, embora com algumas situações mais inusitadas.

Por muito tempo, eu me perguntei o que havia feito de ruim para merecer aquilo.


O Delegado Julien Seul chega com suas próprias questões e ao tentar agradecer a recepção gentil, acaba trazendo à tona através de uma investigação parcial todo um passado que a própria Violette desejava esquecer. E sem querer, um acaba entrando na vida do outro.


A escrita de Valérie Perrin

Em Água Fresca para as Flores a autora Valérie Perrin consegue misturar diferentes estilos narrativos. Tem a voz de Violette em primeira pessoa que é a narrativa mais utilizada, tem narrativa através de diário e discurso fúnebre - lembre-se, a personagem principal é a zeladora de um cemitério - e tem a narrativa em terceira pessoa quando se trata em nos mostrar outros personagens aos quais Violette não tem proximidade.

A escrita é direta, sensível e ao mesmo tempo íntima, pois conforme as páginas vão sendo viradas, vamos descascando as camadas da vida de Violette ao mesmo tempo que ela se confronta com dúvidas e descobertas no presente.

A maldade é como esterco. O cheiro fica grudado no ar por muito tempo, mesmo depois que o recolhemos.


E tudo isso é complementado com pequenos detalhes, como os animais de pessoas falecidas que escolhem ficar no cemitério, ou os gatos batizados com nomes que são músicas do cantor Elvis. Ou os simbolismos que estão na quantidade de pessoas, nos discursos de despedida, e até mesmo no colorido escondido pelo escuro nas roupas da personagem.

Desta forma, para mim, foi quase como se muitas vezes eu sentisse o cheiro das flores e temperos que a rodeiam, escutasse o apito dos trens, o calor do abraço da sua filha, e o vazio que a quase sufocou tantas vezes.


O que eu achei...

Eu adorei a história, já sendo uma das minhas leituras favoritas do ano. É sobre morte e perda, mas também sobre encontrar e viver.

Sobre buscar paz após anos de sofrimento sem se entregar a amargura. Sobre amores imortais, ações impensadas, sogras peçonhentas e maridos que traem.

Cada um faz o que quer. Não. A vida dos outros também conta.


Tudo em uma escrita sensível, gentil, envolvente e fluída. O que me fez classifica-lo como um livro para chorar e sorrir, mas principalmente lembrar de valorizar o tempo e os nossos amores.


Água Fresca para as Flores
Changer l'eau des fleurs
Valérie Perrin
Tradução: Carolina Selvatici
Intrínseca
2018 - 479 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 15 de março de 2022

Pesado



Sinopse: Uma memória, uma confissão, uma catarse. Entre relatos dilacerantes e sempre vigiado por uma onipresente (e rígida) mãe, Kiese Laymon disseca sua própria vida neste que talvez seja um dos livros mais sinceros dos últimos anos. Um texto escrito não só com palavras, mas também com dor, ginga, peso, subversões da língua e abundância negra. E que reverbera dentro de nós uma pergunta de difícil resposta: até onde a vida nos dobra?

Em janeiro/22 recebi como associada da TAG Curadoria a indicação da maravilhosa escritora Alice Walker chamado Pesado, livro de memórias do autor e professor Kiese Laymon. De mimo recebi um planner para o ano de 2022.

A primeira coisa a se dizer é que Pesado pode ser definido como mais do que um livro. Ele é uma carta, um desabafo, o abrir de um coração com todas as suas dores, mágoas, perdas, complexos e reflexos que levam o leitor através da escrita vestir por algumas páginas todo o peso que um homem carrega desde os primeiros anos de vida.

Eu não queria escrever para você. Eu queria escrever uma mentira.


E por este motivo Pesado entrou na minha categoria de livros que são difíceis de resenhar, apenas porque parece que não há palavras suficientes para explicar a forma como ele mexe com diferentes sentimentos, sejam eles de identificação ou de incredulidade as ações das pessoas. Mas irei tentar.

O autor e professor Kiese Laymon divide suas memórias em quatro partes, mais uma introdução e o capítulo que fecha o livro, mas não a sua história.

A palavra que me surgiu na cabeça foi "felitristeza", assim mesmo, sem espaço e sem hífen, aglutinada.


Como uma carta para a mãe, ele retorna à adolescência e compartilha segredos antes guardados da figura materna, as surras levadas que marcam sua pele, a ansiedade e tristeza que se transformam em uma compulsão por comida, os sentimentos em relação a própria família e os homens com os quais sua mãe se relaciona.

E assim, em cada parte que se inicia, é possível observar que ele cresce não só fisicamente em altura e peso, como em relação a sua visão de mundo, tendo em um primeiro momento um espírito jovem cheio de esperança e força para escolher as suas próprias lutas, nem sempre atuando da melhor maneira conforme sua mãe, até chegar à vida adulta.

Vovó gargalhava e gargalhava até a risada dela se acabar quando eu chamava aquele queijo do governo de queijo afro-americano gourmet.


E conforme ele precisa se dobrar aos que estão em sua volta e se reconstruir, é necessário engolir os próprios sapos, cair, quebrar e se levantar. E foi assim que algumas das suas reações me fizeram lembrar de uma música da Elis Regina, começou com aquela parte que diz 'Ainda somos os mesmos, E vivemos, Como os nossos pais' até na minha mente ela abraçar o próprio livro.


O que você irá encontrar...

O Pesado do título é literal e mental. Kiese Laymon é um jovem gordo e negro, vivendo em no sul dos Estados Unidos, sendo mais específica, no Mississippi, onde o racismo pulsa devido a uma parte da população querer subjugar a outra com base em critérios de puro achômetro, acreditando em uma superioridade nunca comprovada.

Desde os primeiros anos este jovem verá a violência sexual e física de meninas e mulheres enquanto lambe as suas próprias feridas após apanhar de uma mãe raivosa, que parece descontar no menino o que não consegue controlar. Enquanto o pai é uma figura muito distante, ao qual as vezes até esquecemos da sua existência.

Às vezes você me batia com toda a sua força bem no meio da minha boca com cintos, sapatos, punhos e cabides.


Este menino também irá crescer e viver com pedidos como não ande a noite, não corra, cuidado com o corte de cabelo...nunca se sabe o que a polícia irá pensar. Até chegar à universidade e ser hostilizado pelo que ousa escrever e publicar, e mais tarde ver que nem sempre terá reconhecimento, por mais que se esforce.

E assim os leitores terão uma visão realista das escolhas, da humilhação e do sofrimento imposto por tamanha desigualdade enfrentada pela comunidade negra nos Estados Unidos, mesmo eles sendo tão americanos quanto os brancos que o julgam.

Ser duas vezes mais excelente do que os brancos vai te conseguir metade do que eles conseguem.


E como é impossível se manter 100% são nestas condições, Kiese Laymon apresenta compulsão, e esta compulsão também irá se modificar ao longo do caminho, tendo outros direcionamentos enquanto ele cresce. E embora ela mude o foco, em nenhum momento desaparece de sua vida.

Mas apesar de tudo, ele não desiste, e se o jovem Kiese desperta o desejo de entrar no livro e acolher o menino em um forte abraço, o homem Kiese provoca o desejo de lhe dizer: levanta e não desiste, sua luta é justa, siga evoluindo, aprendendo e fazendo a diferença.


O que eu achei...

Eu gostei muito da leitura. Quem acompanha o Instagram do blog deve ter notado uma longa distância de tempo entre uma leitura e outra, justamente porque Pesado não é um livro para se ler rapidamente.

O tempo inteiro ele mexeu com os meus sentimentos, algo em mim doía quando ele apanhava sem motivo algum, algo em mim entendia quando ele tentava transformar o que lhe consumia em atos como comer ou fazer muito exercício. 

Eu queria o dinheiro, a segurança, a educação, as escolhas saudáveis e as segundas chances que eles nos proibiram de ter.


Ao mesmo tempo achei muito interessante o uso frequente de uma frase, que aparecia nas situações mais tranquilas e harmônicas onde ele dizia que alguém deu risada e deu risada e deu risada até que a risada acabou. Nesta hora algo era aquecido com o calor daquela gargalhada que parecia sem fim.

Um livro para sentir o racismo na prática, sem lente de aumento, sem anestesia, onde é impossível não sentir raiva com as situações diversas.

E eu sabia que o poder de cometer abusos destruía o interior dos homens tanto quanto destruía o interior e o exterior das mulheres.


De bônus há muitas referências literárias, afinal, ele além de ser professor vem da casa de uma professora, e os livros são instrumentos cotidianos de informação e educação.

Como não sei se consegui transcrever em palavras tudo o que senti, fica apenas a dica: leia. 


Pesado
Heavy, an american memoir
Kiese Laymon
Tradução: Davi Boaventura
TAG - dublinense
2018 - 288 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 1 de março de 2022

Na estrada com o ex



Sinopse: Dylan e Addie se apaixonaram há alguns verões, sob o sol da Provença, na França. Quase dois anos atrás, porém, o relacionamento acabou, e eles pararam de se falar. Às vésperas do casamento de uma amiga em comum, os caminhos dos dois se cruzam novamente. Ou melhor, colidem. Quando, logo no início da viagem para a festa, o carro em que Dylan vai com um amigo bate no que Addie está com a irmã e um sujeito que pediu para ir junto, os planos mudam. Addie se vê obrigada a oferecer carona para a dupla, e, espremidos no carrinho, os cinco retomam a jornada. Com muitos imprevistos no trajeto e seiscentos quilômetros pela frente, Dylan e Addie serão forçados a confrontar as escolhas que os separaram e refletir se ter colocado um ponto-final no relacionamento foi a melhor decisão.

O clube de assinatura da intrínsecos encerrou o ano de 2021 com o novo livro de Beth O'leary chamado Na estrada com o ex. De mimo veio um livro do Neil Gaiman e decorações para a árvore de natal com citações dos livros enviados no ano de 2021, ao qual achei muito fofo.

Dylan está dirigindo a Mercedes do pai do seu amigo Marcus para irem em um casamento quando reconhece a motorista do Mini a sua frente, o que o impede de evitar uma colisão com o outro carro, onde estão sua ex Addie, a irmã e um colega da noiva Cherry, pois eles também vão ao mesmo casamento.


A estrada da amizade nunca flui suavemente, escute o que estou dizendo.


Ironicamente o Mini é o carro que sobrevive a batida, e com a Mercedes sendo rebocada para conserto, cabe a boa educação superar as mágoas e apertar os cinco passageiros dentro do carro e assim trazer todas as lembranças do passado.

Passado em comum que começa no sul da França, quando Addie está de caseira da casa de campo de Cherry, a noiva que os uniu. Entre os hóspedes que vem e vão, um dia no lugar de uma família inteira quem chega é o jovem Dylan.


Ele é tão familiar que, por um momento, tenho a sensação de estar olhando para o meu próprio reflexo.


O que começa com um papo, rapidamente evolui para o beijo até chegar a declarações de amor. Só que a diferença dos dois vai além do dinheiro. Enquanto ela já definiu o que deseja para o futuro, ele ainda se encontra perdido, sem coragem de enfrentar a própria família. 

Só que este amor não termina bem, e agora após dois anos do término eles se reencontram em um espaço apertado em um longo caminho pela frente, tendo muito mais a dizer um ao outro do que pensavam.


Os personagens


Tem famílias e personalidades para todos os gostos em Na estrada com o ex, e como o núcleo é pequeno, assim como o tamanho do carro, eles se revelam em seus diálogos e brigas ao longo do caminho.

Dylan é o cara que faz o tipo rapaz bonzinho, sempre atento, disposto a ajudar, no passado ele demonstra ser bastante inseguro e facilmente influenciável. Possui um grande medo de seu pai, um homem preconceituoso que deserdou o filho mais velho quando este se assumiu homossexual e agora cobra a escolha de uma carreira aceitável do filho mais novo.


Estou o quê? O que eu estou? Uma bagunça.


Adeline, chamada pelo apelido de Addie, é uma jovem que escolheu ser professora por profissão, vem de uma família bastante equilibrada e amorosa, que apoia tanto ela quanto sua meia-irmã Deb. O que as fez se tornarem mulheres bastante independentes e conscientes de suas escolhas.

Marcus é o amigo inconveniente de Dylan, como outros do ciclo de amizade dos dois, é rico, gasta horrores de dinheiro em bebida e drogas, além de ter uma vida sexual bastante ativa com diferentes parceiros. A questão aqui é que ele seria um amigo de infância do personagem principal, mas suas ações nos deixam em dúvida se ele é apaixonado por Addie ou Dylan, ou se vive em constante competição com Dylan por uma inveja inexplicável. O que torna o tipo de amigo do amigo insuportável de aturar.


É como se... houvesse uma música de fundo tocando, ou como se a saturação das cores estivesse mais forte.


Deb que também está no carro e também estava na França no início de tudo, foi quem segurou a barra durante a separação da irmã e agora sai pela primeira vez para uma festa após abraçar uma maternidade independente. É ela que garante boas risadas na história junto com Rodney.

Rodney é aquele cara da música dos Paralamas do Sucesso "entrei de gaiato no navio..." que em um grupo entre os convidados para o casamento consegue carona com as duas irmãs e se vê em uma viagem muito maluca.


Ela é como uma ninfa das águas, com o cabelo escuro e molhado e os olhos azuis feito um rio.


Cherry é a noiva amiga de todos que liga de tempos em tempos desesperada para as irmãs querendo saber quando é que elas vão chegar, tão apavorada com coisas bobas que até surpreende os que a conhecem de longa data.


A escrita de Beth O'leary


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Beth O'leary utiliza o mesmo recurso que eu havia visto em A Troca: dois narradores contando os seus pontos de vista, com a diferença que temos um antes e depois.

Com isso o leitor vai descobrindo os motivos de cada reação ou palavra no agora ao ser transportado para o antes e entender como os personagens viveram a situação ou lembrança que vem a toma através de diálogos ou pensamentos. 


Algum dia vai aceitar uma única coisa boa que eu digo sobre você?


Ao mesmo tempo que acompanhamos as mudanças de cada um, suas evoluções e novos comportamentos em relação as situações encontradas, o que pode ser surpreendente após dois anos de afastamento.

E assim como em A Troca, há um grupo para colocar os dois personagens principais em diferentes situações, embora no Antes a história logo de início acaba sendo muito mais focada no relacionamento físico de Dylan e Addie.


O que eu achei...


Eu amei A Troca, então estava dando pulos de alegria quando vi que receberia outro título da autora no final do ano. Mas as vezes criar muita expectativa não é bom, e confesso que me decepcionei com Na estrada com o ex.

Achei o começo bem chato, talvez a palavra correta seja arrastado, sendo que quando faltava cerca de um terço para finalizar a história deu uma melhorada com o acréscimo de cenas mais engraçadas e maior dinâmica nos capítulos, com os desenlaces finais.


Explica muito sobre várias atitudes irracionais cometidas ao longo da história: todo homem que já foi à guerra deve ter gostado muito de alguém.


O curioso é que a narrativa trouxe vários assuntos bem interessantes que poderiam ser abordados além da superfície, e mesmo de forma leve, ter tornado o livro muito mais envolvente, como questões de confiança em um casal, o preconceito hipócrita que vem de dentro da família, desvios psicológicos que precisam ser tratados e o desejo de maternidade.

Só que eles não foram desenvolvidos, ficando apenas fragmentos a serem explorados enquanto eram disponibilizadas muito mais páginas para as cenas quentes dos personagens principais.


Para ser verdadeiro consigo mesmo, antes de mias nada é preciso ter uma noção clara de quem se é.


Mas sim, posso estar sendo chata, e meu espírito não estar no ritmo de leveza ou obviedade que a escritora propôs. Então como sempre, deixo a dica literária, principalmente para quem gosta de um romance romântico bem leve, pois com certeza pode ganhar o seu coração e ainda garantir aquela torcida pelo happy end da última página.  


Na estrada com o ex
The road trip
Beth O'leary
Tradução: Ana Rodrigues
Intrínseca
2021 - 416 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Igualzinho a você



Sinopse: Seu par romântico é igualzinho a você: mesmas origens, mesma idade, mesmos interesses. O casal perfeito. Juntos, porém, são uma catástrofe. Então, quando você menos espera, surge outro em sua vida. Vocês parecem não ter nada em comum e ainda assim, de algum jeito, tudo faz sentido. Com perspicácia, ternura e muito humor, este romance de Nick Hornby explora a fundo o que significa entrar de cabeça num relacionamento com a melhor pessoa possível - e que não tem nada a ver com você.

TAG Inéditos encerrou o ano enviando em Dezembro/22 o romance inglês Igualzinho a você do escritor Nick Hornby. O mimo foi um calendário de mesa para 2022 - é dele as imagens que uso para indicar o mês dos livros lidos no Instagram.

Lucy tem quarenta e dois anos, é professora, mãe de dois meninos, e se divorciou quando viu o alcoolismo de Paul aumentar a cada dia, assim como o impacto que a bebida estava tendo em suas ações. Mas a separação não impediu que os dois mantenham uma relação que podemos considerar amigável, visto que eles possuem filhos pequenos em comum. Para diminuir a solidão, ela se relaciona com homens de aplicativo e conhecidos apresentados pelos amigos.

E é justamente quando precisa de uma babá para um jantar que ela acaba se aproximando de Joseph, um rapaz negro, de 22 anos, que entre seus vários empregos, é atendente aos sábados em um açougue localizado no bairro onde Lucy mora.


Como alguém podia ser capaz de dizer com alguma certeza o que mais odiava no mundo?


Os períodos como babá acabam aproximando Joseph dos meninos, que adoram alguém que jogue vídeo game com eles, rapidamente ele e Lucy viram amigos e logo vem um relacionamento íntimo, mas sem o rótulo de relacionamento fixo. 

Mais do que gerações diferentes, eles não possuem nem mesmo gostos em comum, ela gosta de livros e peças de teatro, e ele revira os olhos para isso. Ela acompanha política, para ele tanto faz tanto fez. Ela tem liberdade de ir e vir, ele está sujeito a revistas policiais.

Mas mesmo assim as horas vão se tornando dias, semanas, meses, em uma relação que se vive o momento e não existem planos futuros.


A disputa agora era com o resto do mundo, e o resto do mundo era ao mesmo tempo grande e bom de bola.


Os personagens


A história é centralizada em Lucy e Joseph, que são colocados como opostos. Ela é branca, adora ler, é mais velha, contra o Brexit, seu círculo de amizade é uma bolha com as mesmas ideias e ideais, e sua situação financeira é estável, com uma boa casa e emprego. 

Joseph está saindo da adolescência, é negro, indiferente ao Brexit, seus amigos são jovens e o seu negócio é fazer música e quem sabe um dia ser Dj. É um rapaz que não deseja ter relacionamento sérios e ainda mora com a mãe, que não controla os seus ir e vir. Financeiramente sua vida é bem mais simples, o que o faz dividir o tempo em diferentes trabalhos.


Talvez acreditasse que Deus criara o universo, mas não sabia como aquilo o afetava.


Fazendo figuração em volta do casal estão os vizinhos caricatos de Lucy, como Emma, uma mulher casada que frequentemente tenta flertar com Joseph no açougue, a mãe de Joseph que não aprova o relacionamento, o ex-marido que se sente no direito de fazer várias perguntas, moças jovens e bonitas que podem dar perspectiva de família futura para Joseph, além dos amigos de ambos os lados que aparentemente não se importam com as diferenças dos dois, sejam ela de idade, classe ou de raça.


A escrita de Nick Hornby


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Hornby inicia a sua história na primavera de 2016 e percorre em longos capítulos os nuances deste relacionamento em detalhes no período aproximado de seis meses, até dar um salto no tempo e finalizar na primavera de 2019.


Anos e anos de vida adulta tinham lhe presenteado com pistas totalmente inibidoras sobre o que se passava na cabeça das pessoas.


Sua escrita coloca o leitor dentro da cidade de Londres, e como eu já havia lido em A segunda vida de Missy, o assunto principal é a forte discussão que polarizou opiniões a respeito do Brexit. No caso de Igualzinho a você o foco se amplia ao entrar em discussão os diferentes lados sobre a saída do Reino Unido do bloco europeu conforme idade, raça e classe social. As visões são muitas, assim como as opiniões dos personagens em relação aos políticos ingleses que ainda são figurinhas fáceis nos telejornais.

E aqui também entra o fato de Londres ser uma cidade muito cara, a disputa de empregos com imigrantes, aos quais muitos locais acusam de roubar as suas vagas e veem no Brexit a oportunidade de recupera-las.


Ele estava querendo fazer sexo com uma pessoa da idade da mãe dele!


E naturalmente também é abordado o racismo, como a reação de um vizinho que chama a polícia ao ver Joseph batendo na porta de Lucy em uma noite. É através de Joseph que ele também levanta questão de frases e conceitos pré-estabelecidos em vários diálogos.


O que eu achei...


Eu particularmente achei o livro muito chato. O sentimento que eu tive durante a leitura era que Lucy estava com Joseph para não ficar sozinha, pois ele é um guri do tipo babaca, que tem vergonha dela e frequentemente a compara mentalmente com a própria mãe, e cuja dinâmica me fez acha-lo tão tóxico para ela quanto o ex-marido. Pois Lucy parece eternamente pisando em ovos com ele, tendo que ter cuidados na forma de se expressar e agir que ele não tem.


Estava em forma para seus quarenta e dois anos, mas, de qualquer modo, tinha um corpo de quarenta e dois anos.


E ao mesmo tempo o comportamento dele me parecia algo natural, pois ele é um cara muito jovem ainda em formação, suas ideias de mundo ainda não ganharam amplitude, ao mesmo tempo em que ele já encarou situações que ninguém deveria ter que enfrentar, fazendo com que ele esteja em um processo de amadurecimento entre extremos.

Além do seu mundo ser muito mais adolescente do que adulto. E é isso que o relacionamento com Lucy oferece a ele, sexo sem compromisso ou responsabilidade. 

E ao contrário do que é indicado na orelha da página, não acho que Lucy fosse igual a Paul - seu primeiro marido -, seu círculo social talvez, sua cor com certeza, mas existe algo chamado personalidade, que nos torna únicos em relação aos outros. E no caso de Lucy ela se molda aos pares, o que possibilita que seus relacionamentos durem até as situações ficarem extremamente desconfortáveis para ela. 


E, se você acha mesmo que eu sou racista, talvez você não devesse estar aqui.


E talvez por ela repetir um comportamento tão comum entre as mulheres de ser a pessoa que cede, espera e precisa tomar as decisões, que eu não tenha conseguido sentir a leitura fluir. O que me fez pensar que Lucy merecia ter um dedo melhor para os seus relacionamentos.

Naturalmente talvez a narrativa faça muito mais sentido para quem já viveu ou tem um relacionamento inter-racial, ou com essa diferença em que um está chegando na vida adulta enquanto o outro já está na fase da estabilidade e maturidade, possibilitando maior identificação.

Pois como são realidades distante pra mim e o livro não é movido a grandes ações ou acontecimentos, mas sim descrevendo a rotina de um casal, que mesmo sendo de polos tão distintos, consegue conviver em relativa harmonia. Para quem viveu ou está vivendo as mesmas situações o impacto causado pela leitura pode ser muito maior.


O referendo dava a grupos de pessoas que não se gostavam, ou ao menos que não se compreendiam, uma oportunidade de brigar.


E como já citei no texto, a visão ampliada do Brexit também me ajudou a aprender mais um pouquinho sobre o que causou toda a disputa e até mesmo encontrar semelhanças com a polarização que enfrentamos aqui no Brasil. 

Então mesmo literaturando fica a dica de leitura para que você leia e descubra se concorda ou discorda de mim, afinal, a literatura é muito semelhante a gastronomia, cada um tem os seus gostos e preferências.

Igualzinho a você
Just Like You
Nick Hornby
Tradução: Christian Schwartz
TAG - Companhia das Letras
2020 - 415 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu o mimo do mês.