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sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 18 de julho de 2025

Outra autobiografia




Sinopse: Rita Lee pode ter tido de tudo, menos uma “vidinha besta”. E os últimos anos foram, sim, desafiadores. Ao mesmo tempo que o mundo passava por uma pandemia, ela foi diagnosticada com câncer no pulmão. Em um texto franco, ora cru e chocante, ora cheio de ironias, ora sutil e amoroso, Rita Lee não poupa detalhes de seu tratamento. Fala também da rotina, dos avisos do Universo, de seres de luz e dos caminhos que a vida tomou.



 Em Autobiografia Rita Lee compartilhou com fãs e leitores em geral a sua infância, a relação com a música, com os Mutantes, seus perrengues, suas histórias em geral, passando de forma rápida e leve a sua vida, mesmo quando as cenas descritas eram muito mais complexas que o tom utilizado para as contar.

 Já em Outra autobiografia irá se encontrar uma espécie de diário sem data, onde ela compartilha seus últimos anos de vida quando descobre em plena pandemia que está com câncer.

 Mas é aquela velha história: enquanto a gente faz planos e acha que sabe de alguma coisa, Deus dá uma risadinha sarcástica.


E com isso ela relata os detalhes do seu tratamento, seus ataques de pânico no hospital, as mudanças que precisa fazer por estar mais fraca, as relações com seus bichos de estimação, enfermeiras e claro, família.

Ela demostra o seu lado mais místico e nos momentos de maior sofrimento não se nega descrever vulnerável, mostrando que a nossa rainha do rock sempre foi muito real em expor o que estava rolando pela sua cabeça, seja por música ou páginas.

 

A escrita de Rita Lee

A paulista Rita Lee Jones de Carvalho, mesmo após a morte, segue sendo uma das mais espetaculares cantora e compositora do Brasil. Inteligente, com um humor que brinca com a ironia, ela se tornou uma escritora que atende grandes e pequenos através de livros infantis, de crônicas, contos e os autobiográficos.

Como é o caso de Outra biografia, onde a eterna ovelha negra escreve em tom de luta e ao mesmo tempo de despedida de todos que a amaram e a acompanharam durante toda a sua carreira.

A "massa" como eles se referiam ao troço, precisava ser melhor investigada para fecharem o diagnóstico e terem mais detalhes.


E como não poderia faltar, há também crítica política, algo que ela sempre fez nos shows, está ali presente em um dos momentos mais tristes que o mundo viveu. A ponto de nomear um de seus tumores de Jair.

O bom humor também anda por ali, como colocar o nome de Leonor na máscara de proteção ao tratamento de câncer, e a comparação e convívio com as duas enfermeiras que a cuidavam.

Minha família e meus amigos me mimavam, me tratando como rainha. 


Há também fotos do período, de sua visita a exposição organizada pelo filho e claro, a participação do Phantom. Tudo distribuído em capítulos curtos nas menos de duzentas páginas que são totalmente insuficientes para quem ficou órfão de Ritinha.

 

O que eu achei de Outra autobiografia

Eu adoro a Rita Lee, suas músicas, suas ironias e a forma engraçada e inteligente de expressar a sua opinião desde banalidades até sobre assuntos mais complexos.

Motivos que me levaram a ler Autobiografia para entrar conhecer um pouco mais da sua história, e ao qual senti falta de mais detalhes, o que me levaram a ler Outra autobiografia.

Quando você fala que está com câncer, a pessoa geralmente fica séria e não sabe o que dizer; eu também agia assim.


E eu achei o livro triste, a ponto de finalizar a leitura chorando, pois em minha mente vinha a imagem da mulher ativa que tive a sorte de ver algumas vezes no palco, e ficava o sentimento de ela não merecer ficar tão limitada.

 Sim, quando há sentimento envolvido, não temos muita racionalidade ao acompanhar os fatos. Mas se por um lado achei injusto ela passar por todo o sofrimento descrito, por outro fiquei feliz por ela estar rodeada de pessoas amorosas.
 

Já meu quê Beauvoir tem a leveza de ser sempre uma persona grata e um cabelo que não lhe faz falta: ela adora seus turbantes.


Durante a leitura também me lembrei do livro do David Coimbra Hoje eu venci o câncer, outra pessoa que eu admirava e também foi levado por esta doença maldita.

Comparando os dois livros autobiográficos que li da Rita, se o primeiro é voltado para o seu passado, no segundo o foco está na doença que ela enfrenta e no fato de tudo ter ocorrido durante a pandemia de Covid, não faltando assim "elogios" a criatura que dizia não ser coveiro. 

Mas como bom coringa que sou, escolho a cara do tarô que mais me representa: o Louco.

Me parecendo uma espécie de carta de despedida para todos o que acompanharam a rainha do rock. Ficando as páginas e as músicas como forma de matar a saudade desta mulher incrível.

 

Outra autobiografia
Rita Lee
Globo livros
2023 - 192 páginas

 

 

 

 

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Vida desinteressante



Sinopse: Nesta reunião de textos escritos entre 2014 e 2017, Victor Heringer entremeia literatura, filosofia, poesia, filosofia e política para refletir sobre si mesmo, mas também sobre as transformações do mundo ao seu redor. Com um estilo que mistura memórias, ensaios, anotações e crônicas, o escritor se consagrou como uma das mentes mais brilhantes da sua geração.

Com organização e apresentação de Carlos Henrique Schroeder, Vida desinteressante são os textos escritos no período de 2014 a 2017 por Victor Heringer em sua coluna "Milímetros" para o site da revista Pessoa. E de certa forma uma homenagem a este jovem escritor que faleceu em 2018.

Misturando diferentes estilos, que continham desde fragmentos de memória, entrevistas com outros escritores, ensaios e crônicas, no livro de 262 páginas encontrei uma mistura de muitas coisas boas em uma escrita fluída, que convida a passear pela mente e pelas opiniões do escritor.


Existem livros nos quais eu gostaria de viver. Em outros, só passaria férias - e alguns são países tão distantes que me contento em ver fotos.


Dividido pelos anos de publicação, por serem colunas são rápidos de ler, duas, quatro páginas, um pouco mais nos textos de entrevistas, sendo perfeito para intercalar com outros livros ou para aquela folguinha rápida em que se ficou com vontade de ler algo para desopilar e refletir sobre outras visões.

De dicas literárias - eu sai com vários títulos anotados -, passando por lugares, histórias e estórias, vivências, sentimentos e opiniões, por um momento me parecia que Victor Heringer estava sentado no sofá compartilhando boas conversas.


Somos finitos no infinito e temos o infinito escrito na nossa carne perecível. Mortais e imortais, simultaneamente. Isso é profundamente irônico, e, como se pode perceber, não muito hilariante.


Boas conversas que iam do campeonato da Beija-flor em 1978, passando por H.G. Wells - onde não falta a citação da famosa transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos -, uma explicação para leigos sobre crítica literária, até sobre em que livros se gostaria de viver. E aqui se Victor Heringer cita Finnegans Wake do Joyce como uma não opção, eu deixo a Guerra dos Tronos como a minha.

Também conhecemos mais sobre ele, o motivo pelo qual opta em trocar o Rio de Janeiro por São Paulo, sobre a morte do pai e o uso de roupas que herdou dele, sobre o fim de tudo, do mundo, das alegrias, das tristezas, e até mesmo da Black Friday. Com a tranquilidade e sinceridade que só um amigo de longa data tem.


A vontade de não morrer não é propriamente o desejo de viver para sempre em carne e o osso. Isso, podemos suspeitar, seria insuportável.


E que bom amigo ele devia ser, conclui isso pelas respostas longas, cheias de intimidade, que outros escritores davam para as suas perguntas em entrevistas com perguntas de quem respeitava e gostava do entrevistado. E isso gerou respostas com alma, como os poetas Matilde Campilho e Ismar Tirelli Neto, dadas somente por quem acredita que a pessoa que está do outro lado é de grande confiança.

Confiança que pode fazer o leitor facilmente também sair da leitura categorizando algumas coisas como Ismar depois de conhecer um pouco mais suas histórias, onde só falta o caneco de chopp para acompanhar o papo. 


A máquina da memória não é muito bem-feita. A taxa de desperdício é assustadora - 40% de tudo o que registramos sai direto pela bandeja de descarte, desaparece em poucos minutos.


Talvez por isso, em algumas das crônicas eu me lembrei de outro grande cronista e escritor que perdemos recentemente: o David Coimbra. E o motivo foram justamente as inúmeras dicas de livros que fazem aquela lista de desejos aumentar, e as crônicas de ambos te convencem a comprar.

Ou pela maneira de exporem suas visões de vida, como se emprestassem por um momento aos seus leitores um óculos onde é possível enxergar o que viveram e os sentimentos que ali pulsaram.


Gosto muito dos erros de percepção que acabam abrindo espaços para novos jeitos de enxergar.


Mas diferente do gaúcho do IAPI, o carioca nem sempre tinha tanta leveza. Existe uma sombra de preocupação nas suas palavras, que podem ser mínimas em alguns momentos e bem expostas em outros. Como na pequena antologia de comentários, que provocam um misto de sentimentos ao reforçar o atestado de como estamos longe de ser uma sociedade realmente evoluída, se é que um dia seremos.

Confesso que fiquei decepcionada ao chegar na última página e descobrir que ele havia morrido tão jovem, com tanto futuro pela frente. Para quem como eu, gostou da escrita de Victor Heringer, restou as obras publicadas.


Vida desinteressante
Fragmentos de memórias: crônicas da revista Pessoa (2014-2017)
Victor Heringer
Organização e apresentação: Carlos Henrique Schroeder
Companhia das Letras
2021 - 262 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Lili novela de um luto



Sinopse: Ao trazer a morte da mãe para o centro deste relato, Noemi Jaffe, uma das principais vozes da literatura brasileira, expõe de forma brutal as feridas do luto e o que é possível fazer para vivê-lo.

A escritora paulista Noemi Jaffe conseguiu transformar todos os sentimentos que a envolveram quando ela perdeu a figura materna em um livro dolorido, real e bonito sobre o luto.

Utilizando uma narrativa direta, ela nos apresenta a Dona Lili, uma mulher que sobreviveu ao holocausto, que teve três filhas com um marido pelo qual não era apaixonada, que com a viuvice mudou de endereço e passou a viver pelos próprios conceitos, que no final da vida ficou doente e conviveu com sua doença por anos até uma simples infecção nos pés a levar aos 93 anos.

Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo,


E é com delicadeza que vemos a própria Noemi Jaffe utilizar a escrita como forma de reação ao luto de uma das pessoas mais importantes de sua vida, onde mistura a parte prática da perda com desabafos sobre os sentimentos que a percorrem com o passar dos dias, sejam eles de saudade ou de culpa.

Tudo se inicia justamente com a perda, o último beijo, a última imagem, os conflitos internos que surgem quando se acompanha uma pessoa se esvair aos poucos, onde muitas vezes se imagina preparado para a morte do outro ou se vê até como forma de descansar, e quando acontece a pessoa simplesmente se dá conta que o destino poderia ter esperado um pouco mais, que bem poderia haver mais um dia, qual era a pressa afinal?

Esse nunca mais, como no poema "O corvo", é a grande dor.


Então entra a parte prática, os preparativos do funeral, os ritos de despedida - aqui no caso é a cultura judaica, onde a autora descreve a shiva, com visita de amigos e parentes e rezas na sinagoga -, além da dita divisão dos bens, quem fica com o que, o que se torna doação.

Até que entra o impalpável e inestimável, que são as lembranças. E são as memórias evocadas pela saudade que Noemi Jaffe sente pela mãe que permitem conhecer um pouco da Dona Lili, sejam os seus hábitos, seja a sua personalidade, suas receitas, sua sinceridade e até mesmo a sua cara de pau.


O que eu achei...

É um livro tristemente bonito, em que a filha escritora imortaliza a mãe através de palavras, enquanto tenta expressar e administrar toda a saudade que sente.

Para quem como eu nunca viu uma perda de tamanho significado, é possível entender minimamente o quanto existem dores que não podem ser medidas, que não há palavra ou circunstância que amenize quando parece faltar um pedaço de si.

Quero continuar tendo, mesmo com a rotina quase normalizada, intervalos de concentração na dor e na lembrança física da presença dela.


E imagino que para quem passou por tamanha perda, algo que com a pandemia se tornou dolorosamente comum, esta breve novela de um luto talvez permita compreender os próprios sentimentos que se atropelam, enquanto se tenta recuperar o equilíbrio para seguir em frente.

Ao mesmo tempo a autora nos lembra que entre as lágrimas do vazio também há as gargalhadas das lembranças, aquela voz que te deu força e seguira ecoando internamente, como reforçando que ela segue ali com você em mais um belo dia para se viver.


Lili novela de um luto
Noemi Jaffe
Companhia das Letras
2021 - 107 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 15 de março de 2022

Pesado



Sinopse: Uma memória, uma confissão, uma catarse. Entre relatos dilacerantes e sempre vigiado por uma onipresente (e rígida) mãe, Kiese Laymon disseca sua própria vida neste que talvez seja um dos livros mais sinceros dos últimos anos. Um texto escrito não só com palavras, mas também com dor, ginga, peso, subversões da língua e abundância negra. E que reverbera dentro de nós uma pergunta de difícil resposta: até onde a vida nos dobra?

Em janeiro/22 recebi como associada da TAG Curadoria a indicação da maravilhosa escritora Alice Walker chamado Pesado, livro de memórias do autor e professor Kiese Laymon. De mimo recebi um planner para o ano de 2022.

A primeira coisa a se dizer é que Pesado pode ser definido como mais do que um livro. Ele é uma carta, um desabafo, o abrir de um coração com todas as suas dores, mágoas, perdas, complexos e reflexos que levam o leitor através da escrita vestir por algumas páginas todo o peso que um homem carrega desde os primeiros anos de vida.

Eu não queria escrever para você. Eu queria escrever uma mentira.


E por este motivo Pesado entrou na minha categoria de livros que são difíceis de resenhar, apenas porque parece que não há palavras suficientes para explicar a forma como ele mexe com diferentes sentimentos, sejam eles de identificação ou de incredulidade as ações das pessoas. Mas irei tentar.

O autor e professor Kiese Laymon divide suas memórias em quatro partes, mais uma introdução e o capítulo que fecha o livro, mas não a sua história.

A palavra que me surgiu na cabeça foi "felitristeza", assim mesmo, sem espaço e sem hífen, aglutinada.


Como uma carta para a mãe, ele retorna à adolescência e compartilha segredos antes guardados da figura materna, as surras levadas que marcam sua pele, a ansiedade e tristeza que se transformam em uma compulsão por comida, os sentimentos em relação a própria família e os homens com os quais sua mãe se relaciona.

E assim, em cada parte que se inicia, é possível observar que ele cresce não só fisicamente em altura e peso, como em relação a sua visão de mundo, tendo em um primeiro momento um espírito jovem cheio de esperança e força para escolher as suas próprias lutas, nem sempre atuando da melhor maneira conforme sua mãe, até chegar à vida adulta.

Vovó gargalhava e gargalhava até a risada dela se acabar quando eu chamava aquele queijo do governo de queijo afro-americano gourmet.


E conforme ele precisa se dobrar aos que estão em sua volta e se reconstruir, é necessário engolir os próprios sapos, cair, quebrar e se levantar. E foi assim que algumas das suas reações me fizeram lembrar de uma música da Elis Regina, começou com aquela parte que diz 'Ainda somos os mesmos, E vivemos, Como os nossos pais' até na minha mente ela abraçar o próprio livro.


O que você irá encontrar...

O Pesado do título é literal e mental. Kiese Laymon é um jovem gordo e negro, vivendo em no sul dos Estados Unidos, sendo mais específica, no Mississippi, onde o racismo pulsa devido a uma parte da população querer subjugar a outra com base em critérios de puro achômetro, acreditando em uma superioridade nunca comprovada.

Desde os primeiros anos este jovem verá a violência sexual e física de meninas e mulheres enquanto lambe as suas próprias feridas após apanhar de uma mãe raivosa, que parece descontar no menino o que não consegue controlar. Enquanto o pai é uma figura muito distante, ao qual as vezes até esquecemos da sua existência.

Às vezes você me batia com toda a sua força bem no meio da minha boca com cintos, sapatos, punhos e cabides.


Este menino também irá crescer e viver com pedidos como não ande a noite, não corra, cuidado com o corte de cabelo...nunca se sabe o que a polícia irá pensar. Até chegar à universidade e ser hostilizado pelo que ousa escrever e publicar, e mais tarde ver que nem sempre terá reconhecimento, por mais que se esforce.

E assim os leitores terão uma visão realista das escolhas, da humilhação e do sofrimento imposto por tamanha desigualdade enfrentada pela comunidade negra nos Estados Unidos, mesmo eles sendo tão americanos quanto os brancos que o julgam.

Ser duas vezes mais excelente do que os brancos vai te conseguir metade do que eles conseguem.


E como é impossível se manter 100% são nestas condições, Kiese Laymon apresenta compulsão, e esta compulsão também irá se modificar ao longo do caminho, tendo outros direcionamentos enquanto ele cresce. E embora ela mude o foco, em nenhum momento desaparece de sua vida.

Mas apesar de tudo, ele não desiste, e se o jovem Kiese desperta o desejo de entrar no livro e acolher o menino em um forte abraço, o homem Kiese provoca o desejo de lhe dizer: levanta e não desiste, sua luta é justa, siga evoluindo, aprendendo e fazendo a diferença.


O que eu achei...

Eu gostei muito da leitura. Quem acompanha o Instagram do blog deve ter notado uma longa distância de tempo entre uma leitura e outra, justamente porque Pesado não é um livro para se ler rapidamente.

O tempo inteiro ele mexeu com os meus sentimentos, algo em mim doía quando ele apanhava sem motivo algum, algo em mim entendia quando ele tentava transformar o que lhe consumia em atos como comer ou fazer muito exercício. 

Eu queria o dinheiro, a segurança, a educação, as escolhas saudáveis e as segundas chances que eles nos proibiram de ter.


Ao mesmo tempo achei muito interessante o uso frequente de uma frase, que aparecia nas situações mais tranquilas e harmônicas onde ele dizia que alguém deu risada e deu risada e deu risada até que a risada acabou. Nesta hora algo era aquecido com o calor daquela gargalhada que parecia sem fim.

Um livro para sentir o racismo na prática, sem lente de aumento, sem anestesia, onde é impossível não sentir raiva com as situações diversas.

E eu sabia que o poder de cometer abusos destruía o interior dos homens tanto quanto destruía o interior e o exterior das mulheres.


De bônus há muitas referências literárias, afinal, ele além de ser professor vem da casa de uma professora, e os livros são instrumentos cotidianos de informação e educação.

Como não sei se consegui transcrever em palavras tudo o que senti, fica apenas a dica: leia. 


Pesado
Heavy, an american memoir
Kiese Laymon
Tradução: Davi Boaventura
TAG - dublinense
2018 - 288 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 30 de novembro de 2021

Casa de Alvenaria - Volume 1: Osasco



Sinopse: Neste primeiro volume, Carolina narra os meses em que morou em Osasco, entre agosto e dezembro de 1960. Por meio deste testemunho precioso, acompanhamos a repercussão de seu primeiro livro, as viagens de divulgação e o contato frequente com a imprensa e com os políticos. Dessa narrativa do cotidiano, e entremeadas às contradições de seu tempo, emergem digressões e reflexões que permanecem mais atuais do que nunca.

Casa de Alvenaria faz parte dos conjuntos de diários de Carolina Maria de Jesus, que é considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Mineira de nascimento que morou quase toda a vida em São Paulo, alcançou sucesso nacional e internacional ao revelar como era a sua vida morando na favela no livro Quarto de despejo. Sucesso que desagradou seus vizinhos e a fizeram ir junto com os seus três filhos para Osasco, em uma casa alugada provisoriamente até ela ter condições de comprar sua própria moradia.

Em plena divulgação e atendendo a um pedido do repórter Audálio Dantas que descobriu a sua escrita e passou a ser seu agente literário, ela passou a escrever um diário de sua nova vida, agora morando em uma casa de alvenaria, com comida na mesa e muitas viagens.


Ela diz: agora nós somos ricos porque temos o que comer até encher a barriga.


O volume um se refere justamente a este tempo que Carolina e seus filhos moraram em Osasco, narrando o período de 30 de agosto de 1960 até 20 de dezembro de 1960, véspera de natal.

Eu desconhecia a escrita de Carolina, ainda não li Quarto de despejo, e a primeira coisa que me chamou a atenção foi a desenvoltura em escrever tendo frequentado apenas dois anos a escola regular, e tendo se desenvolvido através da leitura, em muitos casos, através dos livros encontrados nas casas em que trabalhava. Tornando-a autodidata.


Pensei: ah dinheiro... invenção diabólica e enigmática que escraviza o homem e liberta o homem.


O diário que começa com a saída conturbada da favela, logo nos mostra uma Carolina ora deslumbrada ora exausta com sua nova vida. É recorrente ela comentar com os outros que tem dinheiro, e isso acaba atraindo todo o tipo de pessoa na sua porta, tentando tirar algo dela.

É gente querendo comprar casa, comprar carro, montar um negócio. E ao ver os valores em reais é fácil para o leitor identificar que sim, ela estava muito melhor de vida do que na época da favela, mas longe de ser rica para atender a todos os urubus que batiam em sua porta.


Não me preocupei com as confusões porque a humanidade é tão nojenta que é melhor silenciar-se diante de certas atitudes.


Também pela sua escrita se nota o racismo pulsante, seja através da empregada branca que sente raiva de ter uma patroa negra e se nega a beber em um copo da sua casa, seja de um homem que corrigi as vírgulas da sua dedicatória, seja nas mesas chiques em que ela se senta nos conceituados restaurantes ou nos hotéis em que se hospedou na época. Ou até mesmo em sua nova vizinhança, onde os filhos são espancados durante a sua ausência, em uma clara rejeição de sua presença no local.

Em contrapartida ela é vista como um amplificador de voz para negros e pobres, que com frequência pedem para que ela inclua determinado relato em seu diário, com a expectativa de que o fato seja conhecido e reconhecido por aqueles que tem algum poder e assim solucionado as questões que vão da fome, da falta de condição básica ao fechamento de uma banca de livros.


O mundo é bom só até os trinta anos. E Jesus morreu com trinta e três.


Como qualquer ser humano, Carolina também expõe suas contradições, como alguns comentários machistas e generalistas - embora ela seja facilmente um exemplo de mulher independente que toca a vida sem um marido do lado -, ou as vezes que exagera no que acredita saber, como no caso da visita aos doentes de câncer em que diz já existir remédio. 

Mas o que mais me chocou durante a leitura foi o agito que transformaram a vida dela, como uma boneca de pano ela é jogada de um lado para o outro, podendo estar em três estados em um mesmo dia. Ninguém pergunta se ela está de acordo com a agenda, se precisa se organizar com os filhos, que devido à mudança nem estão mais frequentando a escola. 


A minha vida está confusa. Eu não tenho tempo para ler, e eu tenho tantos livros.


O trabalho de divulgação do seu livro Quarto de despejo foi no mínimo extenuante, onde além das sessões de autógrafos, havia encontro com empresários, políticos, entrevistas na TV e publicidade. Não sendo raro ela sentir o impacto do sono e do cansaço.

Para o leitor é acompanhar um pedaço da história do Brasil sob o olhar de Carolina, que opina livremente sobre o que admira e o que discorda no comportamento apresentado pelos poderosos. Opinião esta que a faz temer um pouco a publicação do novo diário, pois se o primeiro gerou pedrada, os agora criticados podem lhe atirar balas.


Comparando os políticos da atualidade com o saudoso Dom Pedro, ele foi mais distinto.


Um livro para quebrar a bolha de quem vive longe da pobreza e entender como o país funciona para quem não tem nada, para admirar toda a persistência e superação que Carolina atinge usando uma caneta, para refletir como tudo é mais amplo que o nosso umbigo.

Deixo ao final uma observação, a edição da Companhia das Letras mantém a grafia original da autora, isto é, não fez nenhuma correção gramatical. Como sei que alguns leitores se incomodam com isso, optei em incluir esta informação, embora ache que em nada desabone o livro, pelo contrário, torna Carolina ainda mais viva para os leitores.

Casa de Alvenaria - Volume 1: Osasco
Carolina Maria de Jesus
Companhia das Letras
2021 - 220 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sonhos em tempo de guerra


Sinopse: Em Sonhos em tempo de guerra, uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea africana registra com delicadeza um passado que ainda tem muito a dizer ao presente. Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em uma região rural do Quênia, e cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. No cotidiano da família formada por seu pai, as quatro esposas - a terceira delas sua mãe - e os muitos irmãos, Ngũgĩ localiza as origens do futuro narrador: histórias contadas ao redor do fogo e uma sede insaciável de aprendizado após o primeiro contato com a escola.


No mês de agosto/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor brasileiro Jeferson Tenório o primeiro livro do projeto autobiográfico do escritor, pensador e professor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o chamado Sonhos em tempo de guerra. O mimo foi um jogo para formar palavras, que já foi para as mãos da minha filha - e cá entre nós, uma ótima forma de estudar a escrita das palavras.

Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em 1938 em um país que ainda era colônia britânica. Quinto filho de sua mãe, e um dos vinte quatro de seu pai, vivia circulando entre as cinco cabanas posicionadas em forma de círculo, onde cada uma pertencia a uma das esposas e a principal era do seu pai.


Minha mãe era muito boa em fazer aparecer uma refeição por dia, mas quando se tem fome, é melhor encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para afastar a mente das lembranças de comida.


A convivência familiar era de muitas histórias e contrastes de personalidade. O pai começa como um homem rico para a comunidade e reservado, de pouco contato com seus numerosos filhos, mas por ações dos colonizadores vê suas conquistas escaparem por seus dedos, mudando sua forma de lidar com os familiares ao se entregar a bebida. Já as mulheres sempre foram muito agitadas, fazendo rodas para compartilhar lendas e fatos passados, cozinhando e tratando com afeto todas as crianças que circulam pelo local, vivendo em uma harmonia talvez inesperada para tantas esposas.

Sua mãe sempre incentivou os estudos, algo que os seus irmãos mais velhos não deram sequência. Uma das melhores frases da história vem dela, que sempre perguntava ao filho quando este lhe falava dos seus aprendizados, provas e conquistas: "Foi o melhor que você conseguiu fazer?", mas não em tom de cobrança, e sim se ele havia se esforçado para aquilo. O resultado é um menino que adora aprender e sempre está buscando o seu melhor nas situações mais adversas. 


As esposas de meu pai, ou nossas mães, como as chamávamos, revezavam-se para levar comida à sua cabana.


É ela também a responsável por uma mudança na vida do garoto, quando após um episódio de violência doméstica decide retornar para a casa do próprio pai. O avô materno, ao qual o garoto herdou o nome,  acaba se tornando uma referência masculina, fazendo com que Ngũgĩ sinta muito orgulho de virar seu escriba particular e ter permissão para compartilhar de sua mesa.

E é acompanhando o crescimento do menino Ngũgĩ que o leitor entender como os quenianos viraram soldados para defender a Inglaterra durante a segunda mundial, os riscos que eles corriam por fazer fronteira com territórios pertencentes a Mussolini e as diferenças na distribuição de recompensa quando tudo terminou.


Todos, os professores, os estudantes, parecem esplêndidos em sua estranheza.


Assim como conhecer a Revolta dos Mau Mau, conflito presente em grande parte da sua adolescência, durante os anos de 1952 e 1960 que lutava pela independência do Quênia, citando personagens históricas do país como Jomo Kenyatta, que foi referência do grupo e o primeiro presidente do Quênia.

Neste ponto temos o irmão mais velho por parte de mãe largando a carpintaria para se juntar a luta pela independência, o Bom Wallace é uma referência forte ao menino Ngũgĩ, pois ele também frequentou a escola e apoia o garoto no aprendizado, demonstrando sentir orgulho ao dar importância a todas as etapas e conquistas do irmão mais novo.


A crença em si mesmo é mais importante do que intermináveis temores acerca do que os outros pensam de você.


Narrado em primeira pessoa, o escritor Ngũgĩ wa Thiong'o compartilha em Sonhos em tempo de guerra as primeiras memórias da infância até a sua entrada no ensino médio. Entre pequenos acontecimentos familiares, que vão de brincadeiras, comidas, o primeiro uniforme e os homens que admirava, passando por momentos históricos do período.

Para o leitor pode ser bastante perturbador ver a necessidade que os colonizadores tinham de se adonar dos bens das famílias, em uma enorme falta de respeito com os povos que ali estavam quando eles chegaram. Ao mesmo tempo se entende há não compreensão que estes novos habitantes sentiram em relação à cultura, como o costume da circuncisão, algo que ainda hoje é muito discutido, principalmente a feminina. Embora isso não justifique a tentativa de apagar toda a história de vários povos, como ocorreu em quase todos os países colonizados.


Uma conversão bem-sucedida era medida a partir de quão rápida, profunda e completamente alguém se despojava de sua cultura e adotava novas práticas e valores.


Também me chamaram a atenção a busca por manter as próprias tradições por meio da escola, onde o autor frequenta tanto a estrutura organizada pelos missionários quanto as criadas pelos quenianos que completaram os seus estudos. Contando os leitores as diferenças encontradas nas duas formas de ensino, que vai das disciplinas - com ênfase especial para o ensino da língua inglesa-  até o aspecto comportamental que inclui as atividades extracurriculares. 

Eu gostei do livro, mas confesso que apesar de eu adorar livros históricos, confesso que a forma como ela foi abordada na narrativa pesou um pouco na fluidez da leitura. Não, não estou dizendo que é ruim, mas existe nitidamente uma pausa para explicar o contexto histórico, dando uma sensação de explicação de sala de aula - como ele é professor, talvez isso explique o estilo -, quebrando muitas vezes o fluxo narrativo nesta troca de visão pessoal, contexto histórico e retorno as memórias.


Talvez sejam os mitos, tanto quanto os fatos, que mantenham os sonhos vivos mesmo em tempo de guerra.


E apesar do livro ser o primeiro de uma série autobiográfica o seu final não exige obrigatoriamente a leitura em sequência do próximo livro, já que ele fecha de forma redonda. Ficando a opção de procurar os demais para quem quer saber como Ngũgĩ wa Thiong'o e sua família, em paralelo com o próprio Quênia, seguiram durante os seus próximos anos e conquistaram a sua independência, e no que este marco influenciou a vida deles.

Ficando a dica de leitura para quem gosta de biografias, de fatos históricos ou anda na busca de livros que permitam conhecer melhor o continente africano.


Sonhos em tempo de Guerra - Memórias de Infância
Dreams in a time of war: A childhood memoir
Ngũgĩ wa Thiong'o
Tradução: Fábio Bonillo e Elton Mesquita
TAG - Biblioteca Azul
2010 - 248 páginas

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Nascido do Crime



Sinopse: A história impressionante, inspiradora e divertida da infância e juventude de um dos maiores comediantes da atualidade, ambientada durante os anos finais do apartheid e os dias tumultuosos de liberdade que se seguiram. Como as peças de um quebra-cabeça, as histórias de vida de Trevor Noah formam o retrato de um mundo em desordem, onde os atos mais banais eram considerados crime se você não tivesse a cor certa.

Conforme a Lei da Moralidade de 1927, na África do Sul era proibido a junção carnal ilícita entre europeus e nativos. Trevor Noah é resultado do crime cometido por Patricia Noah, que é negra, juntamente com o suíço/alemão Robert, que é branco. Ambos pais do menino em pleno regime de apartheid.

Em uma escrita fluída, o comediante, apresentador, ator e sim, escritor, conta a história da sua infância, ao mesmo tempo que explica a divisão racial, as diferentes tribos e como isso enfraquece um povo. Além disso aborda de forma direta as relações do dia-a-dia, a forma como foi criado e até as diferenças de surra entre as que ele levava e a de seus primos.


Basta segregar as pessoas em grupos e fazê-las se odiar para tornar possível o controle de todos.


Dividido em três partes, logo de início somos apresentados a devoção cristã da sua mãe, que durante boa parte da sua infância o fez passar o domingo inteiro dentro de igrejas, mais precisamente três, uma com perfil racial misto, outra de brancos e uma de negros. A África do Sul, assim como o Brasil, adotou, de livre e obrigada vontade, a religião de seus colonizadores. 

A seguir vamos descobrir sobre o seu nascimento, o que permaneceu a cultura original mesmo após a colonização - como o fato dos negros sul-africanos associarem gato a bruxaria, a forma de distribuição dos grupos pela tonalidade de cor onde chineses são considerados negros e japoneses brancos, e como ele transitava enquanto tentava descobrir com quais grupos mais se identificava. Além do fato de que em casa não podia brincar na rua, para que o governo não descobrisse que era resultado de um crime e assim o separasse de sua mãe.


O apartheid era um Estado policial, um sistema de vigilância e de leis criadas para manter a população negra sob total controle.


Na adolescência Trevor nos apresenta a área pobre da África do Sul, dos bailes a pirataria, a corrupção, o fracasso dos primeiros amores e a prisão. A diferença de ensino conforme a classe, e o fato de sua mãe investir em sua educação. Também aborda a violência doméstica, o descaso da polícia quando o marido bate na esposa, o sentimento de para onde ir quando o machismo impede um homem de aceitar o filho da própria mulher. Motivo que levaram a sua mãe a ensina-lo sobre ser homem e ser mulher.


Ser um homem não depende do que você tem, mas de quem você é. Para ser um homem, a sua mulher não precisa ser inferior a você.


Durante a leitura muitas vezes me senti sentada em algum lugar ouvindo as suas histórias, que em alguns momentos se assemelham a contos, já que possuem início, meio e fim, embora elas se alimentem com nomes e situações com ligações tanto em fatos passados quanto nos futuros que ainda vamos ler. A narrativa cria uma grande proximidade com Trevor e as pessoas as suas voltas, o que faz com que se compartilhe impressões e questionamentos no decorrer das páginas.


Adotamos a religião de nossos colonizadores, mas a maioria também se agarrava aos costumes ancestrais, só para garantir.


Não foram raras as vezes que eu gargalhei, que me choquei, ou simplesmente li mais um capítulo para saber as consequências de determinado ato. Ao mesmo tempo que acelerar a leitura era reduzir o tempo junto a história.

Sim, Trevor foi um menino bastante espoleta, e um adolescente que se virou em diferentes situações, e isso torna ainda mais grandioso o fato dele deixar tanta pobreza para trás, o que muito também vem da força de caráter de sua mãe, ao qual o livro é dedicado e por quem aprendi a ter um grande carinho, a ponto de ficar curiosa de como ela está.


Muitos homens crescem sem a presença do pai e passam a vida com a falsa impressão de quem é o pai deles e de como um pai deve ser.


Um livro que mistura história pessoal e de um país, que fala de racismo, laços familiares e oportunidades. Com uma escrita que te permite aprender, se divertir e se emocionar. Um livro para ler, curtir e depois recomendar.


Nascido do Crime
Histórias da minha infância na África do Sul
Born a Crime
Trevor Noah
Tradução: Fernanda de Castro Daniel
TAG - Verus Editora
2016 - 334 páginas

segunda-feira, 2 de março de 2020

Ainda estou aqui



Sinopse: Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Beyrodt Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, viu-se obrigada a cria-los sozinha quando, em janeiro de 1971, Rubens Paiva foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor e ás incertezas, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. “Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, escreve Marcelo Rubens Paiva neste relato emocionante sobre o passado, as perdas e a volta por cima.
Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, ele fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento sombrio da história recente brasileira para contar – e tentar entender – o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.

Primeiro livro de autor brasileiro que leio no ano de 2020, também é o primeiro livro que leio de Marcelo Rubens Paiva, que nesta obra se utiliza da própria vida como enredo para nos contar as suas histórias, algo que ele já havia feito no conhecido e ainda não lido Feliz ano Velho.

Já temos MEMÓRIA desde o primeiro dia em que nos deram à luz.

Em Ainda estou aqui o leitor é situado primeiro em um fórum, o objetivo é interditar sua mãe Eunice, cujo Alzheimer a impede de saber em que dia ela está. Este é o ponto de partida para que memórias da sua infância retornem, em um antes, durante e depois do desaparecimento do seu pai, Rubens Paiva, durante a ditadura militar.

Não confiava cegamente, nunca confiou em ninguém cegamente.

Por ser autobiográfico também é uma história de “se’s”, assim como qualquer pessoa, é impossível que os membros da família Paiva não pensem em um destino diferente se certas escolhas fossem diferentes: se eles tivessem se exilado no exterior como outras famílias, se os recém-exilados no Chile não tivessem enviados cartas para Rubens Paiva e assim impulsionado a sua prisão, se os superiores tivessem tomado alguma providencia quando comunicados que a tortura do ex-deputado estava além dos limites. Enfim, os vários “se’s” que poderiam mudar o destino de qualquer pessoa, mas que servem apenas para torturar o psicológico de quem os imagina.

A intensidade de uma lembrança é diretamente proporcional á sua antiguidade.

A leitura é muito interessante por misturar também uma visão da infância com os dias de hoje, ao correlacionar momentos de sua família com fatos históricos do Brasil, que vão da própria ditadura, passando pela anistia até o direito de ter o atestado de óbito de quem nunca mais foi encontrado. 

Entre as lembranças há também algumas referências ao acidente que deixou Marcelo tetraplégico, mas estes não são detalhados, já que a história é contara em Feliz ano velho.

A cara de Eunice continuou molhada e salgada durante muito tempo, tal como naquela manhã de Búzios.

A escrita de Marcelo Rubens Paiva é fácil e fluída, sem maiores sentimentalismos, ele narra desde momentos cômicos até os mais tensos sem pesar no drama, é possível sentir a preocupação, o medo e a força com que eles enfrentaram cada situação, existe o sofrimento, mas não há paralisia. A base de tudo é Eunice, que não era uma típica mãe italiana e a quem me parece de certa forma libertada em meio a tragédia.

Família Rubens Paiva não chora na frente das câmaras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista.

Talvez seja estranho escrever isso, mas foi o sentimento que eu tive. Eunice é uma mulher forte e inteligente, tranquila e lutadora. Mas enquanto esteve ao lado de Rubens Paiva era apenas uma esposa que cuidava da casa e dos filhos. E embora acredite que não seja um demérito a segunda opção, fica claro que esta não era a escolha natural dela, até ser jogada em um redemoinho e dar um novo rumo a sua vida, e de seus filhos.

Era prática, culta, magra, sensata e workaholic.

Na terceira e última parte do livro o foco acaba indo para a própria doença. Usando como base explicações do doutor Drauzio Varella, discute desde a origem do Alzheimer até os seus estágios, situando o comportamento de sua mãe nos já enfrentados. Dos pequenos esquecimentos até o não poder mais viver sozinha, os desafios de viver com mudanças nada sutis e o sorriso de lembranças que surgem na forma de um bebê trazem a tona toda a dificuldade nesta etapa para as famílias que precisam enfrentar o problema.

Lutou para descobrir a verdade, para denunciar a tortura, os torturadores.

Um livro sobre as lembranças de um filho em relação aos seus pais, da força e coragem de uma mulher que soube recomeçar. Um livro para gostar de ler e refletir.

Nos almoços de domingo, ela fica onde queremos que ela fique.

Uma observação: o livro finaliza no outono de 2015, e Eunice Paiva veio a falecer em dezembro de 2018.

Ainda estou aqui
Marcelo Rubens Paiva
Editora Alfaguara
2015 – 295 páginas

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Catarina, A Grande



Sinopse: Catarina, a grande, foi a última mulher a governar a Rússia e deixou marcas sem precedentes no país. Biógrafo premiado, Robert K. Massie recorre a trechos de cartas e diários pessoais da czarina, recriando um mundo de mudanças políticas, arte, guerra, amores e um capítulo fascinante da história russa.

Filha do príncipe Cristiano Augusto de Anhalt-Zerbst com a princesa Joana Elizabeth, Sofia era uma princesa alemã de um reino pequeno em comparação aos grandes impérios da época. Sua vida sofre a primeira mudança quando a imperatriz Elizabeth, filha de Pedro, o Grande, chama a moça com então 14 anos até a Rússia. Prima de segundo grau de Pedro, a jovem parecia ter a docilidade necessária para ser a esposa do futuro Czar.

Ela se sentou no trono de Pedro, o Grande, e governou um império, o maior do mundo.

Em São Petersburgo ela muda de religião, apesar dos apelos paternos, troca o nome para Catarina e se casa com Pedro III, um menino órfão, de ideias perdidas, escolhido para ser o herdeiro do trono simplesmente por ser sobrinho de Elizabeth. Em um casamento infeliz, a segunda mudança de sua vida ocorre após a morte da imperatriz, quando após decisões equivocadas do jovem imperador, ela dá o golpe que a torna a última imperatriz da Rússia.

Fui para o meu quarto ainda chorando e pensando que a morte era preferível a essa vida de perseguição.

O biografo Robert K. Massi nos conta a história de uma menina triste, criada sem amor materno, afastada do afeto mais próximo que era o pai, e colocada a mercê de uma imperatriz e seu sobrinho que tão pouco lhe dão atenção. 

Mas também descreve uma mulher forte, inteligente, leitora voraz, carismática e atenciosa com os demais. Encantando facilmente os que a conhecem, o que abre caminho para que muitas das suas ideias sejam colocadas em prática durante o seu reinado.

Em paralelo temos as guerras por domínios, alianças são feitas e desfeitas em um grande jogo de interesses, jogo este que Catarina aprende rápido, a ponto de se tornar mais russa que o marido imperador ao qual derruba, ganhando o amor do seu povo.

Ficou tão desagradável à vista que meus olhos se encheram de lágrimas, pois naqueles dias eu tentava esconder ou disfarçar tudo o que era repreensível em meu marido.

O livro dividido em sete partes, sendo que a inicial tem a colaboração das memórias da imperatriz, aos quais ela aparentemente não deu seguimento durante o seu reinado (ou não foram a público), e a várias cartas trocadas com intelectuais da época, amantes, e impressões de outros monarcas sobre a forte figura de Catarina.

Particularmente eu achei o início do livro um tanto cansativo, algumas descrições e episódios parecem se repetir, alongado situações que não precisam de tanto reforço. Por outro lado muitas vezes me peguei pensando quem realmente era essa mulher.

A realidade de sua vida diária era diferente, cheia de frustrações, contrariedades e rejeições.

Uma mulher que se sujeita a inúmeras humilhações, que não consegue criar os próprios filhos, que é subjugada, e mesmo assim tem sangue frio e poder de manipulação para virar o jogo e se tornar uma das maiores imperatrizes da história. 

Confesso que durante a leitura me ficou a dúvida se a tomada de poder de Catarina foi movida pela própria sobrevivência, já que seu casamento aparentemente nunca foi consumado, seus filhos eram de amantes e Pedro III já anunciava que outra mulher seria a imperatriz, com direito a ameaçar a jovem esposa com prisão. Ou se seus anos de leitura somado a sua inteligência, fizeram com que o plano já estivesse sendo elaborado antes da morte da imperatriz Elizabeth.

Conseguir aliados contra Pedro III não era difícil, ele nunca deixou de ser germânico, sua admiração pelo imperador Frederico II da Prússia, a quem favoreceu durante o seu curto reinado, o tornou bastante impopular entre pessoas da nobreza, militares e aliados. 

Aliás, nesta biografia, a visão que se tem de Pedro não é exatamente positiva, fazendo crer que ele era um homem mimado, grosseiro e que não havia crescido. Existem pesquisas de historiadores que tentam abrir uma nova página sobre este personagem da história, alegando que era um soberano culto e aberto a reformas democráticas, mas a visão que temos aqui é a de Catarina. 

Sua conclusão era que Pedro, assim como Ivan VI, teria que ficar prisioneiro na Rússia.

Um ponto interessante do livro, é que ele não é apenas uma biografia só de Catarina, mas da própria Rússia. E retornando aos anos de mil e setecentos, nos deparamos com a corrupção de todos, sem exceção, para atingirem os seus objetivos, que vão da conquista de um país a construção de um castelo.

O dinheiro comprava amizades, lealdades e tratados.

O poder aqui não encontra limites, a ponto de a própria imperatriz Elizabeth ter condenado o legítimo herdeiro ao trono desde o início da sua infância a prisão. Os mais fortes venciam, os mais frágeis eram manipulados ou simplesmente tirados do caminho.

Algo que eu desconhecia totalmente e me surpreendeu bastante foi descobrir que a vida dos servos russos era muito semelhante as dos escravos negros na América. Os servos russos não possuíam nenhuma liberdade, pertenciam ou ao Estado, ou a Igreja, ou a indústria, ou a senhores de terra ou a nobres. Eram comprados e vendidos, eram espancados e não possuíam escolhas. A diferença aqui é que a escravidão não ocorria pela cor, mas por serem de origem pobre e analfabeta. 

No livro existe todo um capítulo, justamente chamado de Servidão, que conta a história destas pessoas. Catarina era uma discípula de Montesquieu e Voltaire, conhecia as ideias iluministas dos direitos do homem, e era contra a escravidão. Mas neste ponto, ao estar em uma posição que poderia mudar isso, ela se dobrou. Quem assinou o decreto de emancipação dos servos russos foi o seu neto Alexander II em 1863.

Apesar das crenças pessoais e apreensões de Catarina quanto à servidão, dadas as reações dos nobres presentes na assembleia, ela se absteve de maiores confrontações.

Outro fato que me chamou bastante a atenção foi ver a Revolução Francesa do ponto de vista dos que estavam no poder. Luís XVI é descrito como um homem amável, bem-intencionado, desajeitado e com dificuldade de tomar decisões. A morte do Rei e de Maria Antonieta tiveram efeitos em Catarina. Se antes as notícias circulavam livremente pela Rússia, agora a imperatriz temia que a revolução se alastrasse até o seu império. Gerando assim uma significativa mudança sobre sua crença na liberdade de expressão e pensamento.

A título de curiosidade, o livro também aborda o funcionamento da arma preferida dos franceses durante a revolução: a guilhotina. Em um debate sobre ela ser mais humana ou não em relação as demais armas, e a pergunta se haveria algum traço de consciência segundos depois da cabeça ser separada do corpo.

A biografia é feliz em mostrar desde a infância até a sua morte a vida da imperatriz. Catarina entrou para a história ao trazer da Europa para a Rússia diferentes tipos de arte, construir hospitais e escolas, e de ser exemplo para o seu povo da importância de tomar a vacina contra a varíola. Sendo realmente uma legítima sucessora de Pedro no crescimento da Rússia, e se tornando uma das maiores imperatrizes da história.

Um livro de leitura muito interessante, principalmente para os fãs de história, já que durante um tempo literalmente o leitor se sente vivendo entre os palácios, cidades e ruas do que já foi um dos maiores impérios do mundo.


Catarina, A Grande
Retrato de uma mulher
Catherine the great – Portrait of a woman
Robert K. Massie
Editora Rocco
211 - 639 páginas

quarta-feira, 13 de março de 2019

Primavera num espelho partido



Sinopse: Primavera num espelho partido é um livro arrebatador, que conta a trajetória de uma família separada pela prisão e pelo desterro, mas que sobrevive graças à esperança. O romance intercala múltiplas vozes narrativas, incluindo a do próprio Benedetti, que vivenciou a violência da ditadura e passou parte de sua vida exilado. Ao entrelaçá-las, o autor compõe um mosaico de impressões e sentimentos, num livro marcante sobre a resistência do amor em tempos sombrios.

Para o mês de fevereiro/2019 a TAG Curadoria enviou para os seus associados a obra indicada pelo escritor brasileiro Julián Fuks.

Durante a década de 1970, em plena ditadura uruguaia, uma família composta de pai, mãe, filha e avô contam a separação devido à prisão do primeiro. Completando a narrativa está um amigo e o próprio autor, que conforme é indicado na sinopse do livro, compartilha suas próprias memórias.

Sempre tem alguém que está pior, como concluía Esopo. E até pior do que o pior, concluo eu.

Santiago é o pai, que permanece preso no Uruguai e escreve cartas para a família que está na Argentina em exílio. É ele o primeiro personagem apresentado, mas não é o único responsável por toda a mudança na vida familiar, visto que a sua esposa também era militante. 

Em terras Argentinas estão os demais personagens, como a mãe Graciela e a filha Beatriz. Mesmo juntas, existe uma distância entre elas, como o fato de Beatriz só chamar Graciela de mãe quando deseja agradá-la. 

É somente quando alguém chega a perceber que uma rua não lhe é estrangeira que a rua para de vê-lo como um estranho.

Narrado em terceira pessoa, a parte de Graciela mostra uma mulher forte, que trabalha e agora se vê cheia de dúvidas com a longa separação. Ao mesmo tempo é a responsável pela parte mais inverossímil do livro.

Já a narrativa da menina Beatriz é uma das mais agradáveis, e ao mesmo tempo reais em relação aos personagens. Sua visão está na saudade e nas mudanças, no que ela percebe e no que ela imagina, rendendo alguns momentos cômicos na história.

As notícias do rádio não somente não eram tediosas, como nos bons tempos, às vezes chegavam a ser arrepiantes, já que em janeiro de 1975 costumavam aparecer dez ou doze cadáveres diários nas lixeiras portenhas.

O pai de Santiago, Don Rafael, compartilha com o leitor suas dúvidas, histórias e culpas. Entre a nostalgia e a atualidade, parece que as cartas acabam aproximando mais pai e filho, já que aqui também há um distanciamento parental, antes muito maior que a distância física.

Fechando o quinteto temos o amigo Rolando Asuero, o solteirão da turma que dá uma ideia de como era o antes de todos os seus companheiros se separem, sejam pela prisão, pelo exílio ou pela morte.

Eu não tirito porque sou menina e não velhinha e também porque me sento perto da estufa.

Entre os personagens, o próprio Mario divide as suas histórias do exílio, usando a narrativa em primeira pessoa e letras em itálico. E na minha opinião, junto com os capítulos de Beatriz, são os mais interessantes. Neles estão suas mudanças de país, as pessoas que encontrava pelo caminho, as mudanças que aconteciam em Cuba em uma visão apaixonada que o socialismo de Che provocava na época.

Mario Benedetti muda o estilo narrativo conforme o personagem, mais do que alterar entre primeira e terceira pessoa, está o uso de cartas – recurso que eu vi sendo utilizado por Amós OZ em seu maravilho A caixa-preta, ou apenas contando o que está acontecendo – recurso utilizado em outro livro que eu acho muito interessante chamado Meu Nome é Vermelho de Orhan Pamuk.

Mas as mulheres sempre tinham fofocas e modas e horóscopos e receitas de cozinha para trocar, pelo menos naquela época, e talvez por isso eles sempre se reuniam à parte para consertar o mundo.

O problema é que esta mistura de recursos nem sempre é muito fácil para o leitor e creio, nem para o escritor, já que a história exige uma atenção extra para seguir cada fio condutor até eles se unirem. No caso de Primavera num espelho partido, em alguns momentos fica a sensação de superficialidade, mesmo tendo um tema tão tenso e que até hoje provoca acaloradas discussões.

Um exemplo é a própria apresentação dos personagens, logo de início você não sabe sobre quem está se falando, fica-se perdido tentando encaixar as peças, tornando assim a intensidade da história secundária. Imaginei que o objetivo do autor talvez você transferir para o leitor o sentimento de estranhamento, de perda de identidade em um local estranho, mas o efeito colateral pode ser justamente um distanciamento dos fatos.

Também deve imaginar que, mesmo que ele e eu tivéssemos tido todas essas discussões em profundidade, ele teria seguido o caminho que definitivamente escolheu de qualquer maneira.

Digo pouca intensidade pelo fato de que a falta de detalhes acaba não criando laços e sim muito mais perguntas sobre eles, parecendo tudo muito ensaiado, sem paixão na escrita. Por isso assumo que apenas literaturei Primavera num espelho partido, que mesmo de leitura rápida não me provocava o desejo de saber o que viria a seguir.

Mas isso não me impede de recomendar o livro. Parece loucura? Pode ser. Mas por outro lado a escrita de Mario Benedetti é fácil, e consegue sim dar uma visão de algumas das consequências da ditadura para quem só ouviu falar sobre ela, e sem saber, vive até hoje os seus efeitos colaterais.

Primavera num espelho partido
Primavera con una esquina rota
Mario Benedetti
Tradução: Eliana Aguiar
TAG Curadoria – Alfaguara
2009 – 238 páginas

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sábado, 29 de dezembro de 2018

Hoje eu venci o câncer



Sinopse: O jornalista, romancista e cronista David Coimbra se dedica aqui a provar que o otimismo e a vontade de viver podem ser uma prescrição eficiente no conjunto de medicamentos com que se enfrenta uma doença grave. Em primeiro lugar, não se deve nunca abdicar do direito de (con)viver com seus afetos e se dedicar aos bons amigos e à família; depois, é valorizar o dia a dia naquilo que ele tem de mais trivial, seja um nascer do sol ao lado do filho ou a singela aquarela de um poente tímido. Você pode estar em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em Dubai ou em Massachusetts, não importa. O essencial é viver o presente da melhor maneira possível, um dia após o outro, comemorando cada vitória.

Câncer é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento desordenado de células, que invadem tecidos e órgãos.

Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que podem espalhar-se para outras regiões do corpo.

Os diferentes tipos de câncer correspondem aos vários tipos de células do corpo. Quando começam em tecidos epiteliais, como pele ou mucosas, são denominados carcinomas. Se o ponto de partida são os tecidos conjuntivos, como osso, músculo ou cartilagem, são chamados sarcomas.

Outras características que diferenciam os diversos tipos de câncer entre si são a velocidade de multiplicação das células e a capacidade de invadir tecidos e órgãos vizinhos ou distantes, conhecida como metástase.” Fonte: Inca 

Também conhecida como doença ruim, termo com o qual a própria avó do David chamava, o seu diagnóstico leva qualquer pessoa a nocaute. Durante muitos anos foi sinônimo de sentença de morte. Sua origem pode ser genética, pode ser por hábito, alteração do ambiente, local de trabalho ou apenas uma ironia do destino.

Quando descobri que ia morrer, decidi escrever esse livro.

O escritor e colunista David Coimbra conta a sua história em um livro rápido e envolvente, mas ao contrário do que o título possa induzir, não é sobre morte, mas sobre vida. Para quem o acompanha aqui no Sul do Brasil sabe que ele se mudou para Boston para ser cobaia em um tratamento que o faz vencer a cada dia esta doença tão temida. Mas ao contrário do que se possa imaginar, não é um livro que deixara o leitor depressivo, mas sim, reflexivo.

Originalmente o livro foi iniciado para o filho de David, Bernardo, na época com 5 anos, para que ele tivesse recordações do pai, visto que o câncer do escritor estava em um estágio bastante agressivo. O mesmo foi adaptado conforme os meses se transformaram em anos, e o que lemos é vida, família, amizade e lealdade.

Você não é necessariamente culpado pelas coisas ruins que lhe acontecem, nem necessariamente merecedor das boas.

O livro é uma mistura de várias etapas da sua vida e colunas escritas para o jornal Zero Hora em dias especialmente marcantes para ele. É curioso ver que no mesmo dia em que David descobriu a doença que estava instalada em seu corpo a cerca de 10 anos ele escreveu a espirituosa coluna O que o homem gosta na mulher, em que ele finaliza com frases de belas mulheres, sendo talvez a que mais combine com o autor a da atriz Sharon Stone “O humor é uma forma de ser valente”.

Naturalmente existem momentos tristes, ali está descrito a dor a cada cirurgia, as reações do pequeno Bernardo, o baque de descobrir outro amigo com câncer, lembranças de um pai que o abandonou. Mas tudo equilibrado com a força de uma mãe guerreira, da esposa Marcinha, e dos amigos. E os amigos rendem os capítulos mais divertidos, dando a leveza e a valentia necessária ao se falar de um tabu.

Um dia bem vivido, sem dores físicas importantes, em que você agiu com correção e que termina em paz é um dia plenamente feliz.

Há também a questão da adaptação nos Estados Unidos, que vai da língua aos itens do dia-a-dia, do que parecia breve e se tornou permanente. E como ele correu atrás para participar de um programa de pesquisa, indo de um médico a outro em uma corrida contra o tempo.

E talvez este seja o grande mérito, ao juntar nas mesmas páginas humor, ironia, tristeza, abandono, superação, dor e saudade, a vida realmente pulsa. Não houve conformismo, apenas vontade de viver e ser feliz. 

Atualização 27/05/2022: é com muita tristeza que incluo esta nota na resenha, para dizer que David Coimbra resolveu no dia de hoje contar as suas histórias em outro lugar. Fica a saudade para os seus leitores, que como eu, admiravam a sua inteligência, humor, ironia, força, suas dicas de filmes e séries, sua gentileza ao autografar um livro.

Hoje Eu Venci o Câncer
David Coimbra
L&PM
2018 – 204 páginas