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terça-feira, 15 de junho de 2021

Medicina Macabra



Sinopse: Medicina Macabra é uma leitura para pessoas de estômago forte e humor peculiar. Remédios irremediáveis, relatórios verídicos, curas extraordinárias, cirurgias que tinham tudo para dar errado, casos insólitos e lamentáveis embaraços: está tudo aqui. Você está pronto para dissecar as excentricidades do nosso passado?

Durante uma pesquisa para um artigo, Thomas Morris se deparou com uma chamada promissora de um caso médico de 1829, um artigo que tinham toques de terror e fascínio, e assim nasceu uma coletânea de histórias médicas que vão do início do século XVII até a virada do século XX.

Dividida em sete partes, todas com um texto introdutório, fica claro que ficar doentes em séculos anteriores era para os fortes, já que os próprios tratamentos são impensáveis nos dias de hoje. O que mostra a evolução da medicina e o quanto as pesquisas e a tecnologia se tornaram aliados para tratamentos com mais conforto do paciente.


Não demorei muito para perceber que é quase impossível folhear uma revista médica antiga sem encontrar pelo menos um relato irresistivelmente nojento, hilário ou bizarro.


A primeira incisão, isto é, a primeira parte, é o que incontestavelmente o autor chama de Vergonha Alheia. Algo ainda comum nos dias de hoje, conta os casos de paciente que chegam em situações constrangedoras, como um homem que resolveu usar um garfo para sanar a sua prisão de ventre, o marinheiro que resolveu engolir todos os canivetes do navio ou o menino que ficou engasgado com uma laringe de ganso.

Aqui alguns casos estão mais para arte infantil do que vergonhosos, mas fiquei pensando se casos absurdos, que estão ocorrendo neste exato momento nas salas de pronto-atendimento, poderão vir a público para a diversão de futuras gerações.


Boa parte dos casos médicos bizarros de que se tem registro cabe numa categoria que podemos chamar de "coisas inacreditavelmente estúpidas feitas por rapazes".


Na segunda incisão nos deparamos com a Insólita Medicina, onde logo na introdução somos informados da dificuldade de diagnosticar doenças raras, ainda mais sem recursos para uma investigação completa, onde os efeitos da doença só eram observados após a morte, durante a autópsia.

Entre os relatos estão um rapaz com uma substância carnosa, cuja semelhança lembrava uma serpente, em seu coração. A família que foi contaminada por uma estranha doença que gangrenava braços e pernas e os dentes que explodiam na boca das pessoas.


De acordo com a teoria humoral, as doenças seriam causadas por desequilíbrio entre os quatro fluídos corporais ou humores: sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra.


Já na terceira incisão temos os Remédios Irremediáveis, onde são relatados alguns dos tratamentos bem estranhos. Aliás, durante a leitura inteira fica bastante claro o quanto os médicos dos séculos passados gostavam de sangrias e laxantes. Se houvesse um aplicativo para dizer qual era o tratamento naquela época, todos os casos retornariam os dois.

Além dos dois tratamentos de base, neste capítulo há coisas impensáveis, como soprar fumaça de cachimbo em diferentes partes do corpo - incluindo os pulmões do pobre doente -, pomada de ópio com suco gástrico de corvo, inalação de cigarro de mercúrio, além do uso bizarro de animais.


Se há algo que a maioria das pessoas sabe sobre a história da medicina é que os médicos de antigamente costumavam indicar alguns tratamentos bem estranhos.


Em uma época que não havia anestesia, a quarta incisão tem como sugestivo título Cirurgias Macabras relata cirurgias ousadas para o período, onde o paciente ficava acordado durante todo o tempo, independentemente do local do corte.

Entre elas nos deparamos com a cirurgia de um homem que engoliu uma faca, a autocirurgia para remover um cálculo renal, amputações e até uma cesariana realizada por um açougueiro.


A primeira transfusão de sangue humano bem-sucedida foi conduzida por James Blundell, no ano de 1818, também para tratar uma hemorragia pós-parto.


Para amenizar todo o pavor do capítulo anterior, a quinta incisão relata as Curas Extraordinárias, onde na introdução descobri que o Museu da Caça da Faculdade Real de Cirurgião da Inglaterra é uma das maiores coleções médicas do mundo - para quem curte muito o assunto, lugar para colocar no roteiro em uma viagem para Londres.

Entre as curas milagrosas relatadas estão algumas histórias de guerra, com pessoas que sobreviveram a tiros que aparentemente seriam fatais, um homem que teve o braço arrancado e não sentiu nada e um adolescente que caiu sobre uma foice, atravessando-a em seu peito.


Uma das mudanças mais surpreendentes na área de cuidados da saúde é o turismo médico, que se expande cada vez mais.


Nos aproximando do fim, temos a sexta incisão com Histórias Macabras, onde temos aquelas histórias em que existe um ponto de interrogação sobre o que é real e o que é ficção.

Aqui temos histórias de pessoas que diziam ficar semanas embaixo da água, o homem que dizia ter 152 anos, a mulher que entrou em combustão espontânea e as crenças traumáticas no período da gravidez, entre outras.


Ainda que muitos editores tivessem nobre intenções de publicar apenas a verdade pura e simples, e nada mais, suas publicações algumas vezes se perdiam no campo da completa ficção.


A sétima e última incisão trata dos Perigos Escondidos, afinal de contas, o mundo é um lugar perigoso, e situações de vida e morte estão em todos os cantos, como nos lembram nossas mães desde os primeiros anos de vida.

Nos casos relacionados pelo Thomas Morris, temos congestão por consumo exagerado de pepinos - os vegetais, deixando bem claro -, a indicação de que crianças não deveriam usar chapéus e mulheres não deveriam andar de bicicleta ou o não uso de fornos de ferro fundido.


Os médicos do século XIX eram especialmente adeptos a procurar situações de vida ou morte em qualquer lugar para onde olhassem.


Terminei a leitura convencida de que, em termos médicos, os séculos passados não eram exatamente um lugar fácil para se viver. Ao mesmo tempo observei que esta loucura em ações e palavras que observamos em todos os meios de comunicação nos dias atuais não são nenhuma novidade.

Em relação ao texto, apesar de naturalmente ter alguns termos técnicos - visto que são retirados de artigos de publicações médicas - o autor sempre as explica, deixando tudo claro o que se trata, além de sempre se ter uma contextualização histórica de quem eram e onde atuavam os autores dos relatos. 


Tirando o fato de a vida do garoto estar em perigo, é preciso admitir que eu não perderia a chance de ouvir uma criança fazendo barulhos de ganso.


A única coisa que me incomodava ocasionalmente no texto é o senso de humor um tanto peculiar de Thomas Morris. Confesso que nem tudo achei tão engraçado, e alguns comentários me parecessem um tanto desnecessários. Mas nada que atrapalhe a leitura.

Então mesmo para quem não é da área médica, o livro se torna muito fácil de ler. E super recomendo para quem, como eu, tem essa curiosidade sobre a área, não só no presente, como também em relação a como funcionava no passado. Ou simplesmente para quem quer ficar feliz de ter nascido no nosso século.


Isso mesmo: a leitura de livros (e a escrita também) não só causaria a queda de cabelo, como também poderia criar a ilusão de que seu corpo se transformara num delicioso derivado do leite.


O livro Medicina Macabra faz parte de uma série, mas não são todos ligados a medicina. Na época eram três livros e eu no impulso comprei todos. Os outros são Vitorianas Macabras, com contos de terror escritos por mulheres da era vitoriana e Antologia Macabra, que reúne contos contemporâneos de terror, todos já resenhados aqui no blog. Se ficou curioso, basta clicar nos títulos para conferir.


Medicina Macabra
The mystery of exploding teeth and other curiosities from the history of medicine
Thomas Morris
Tradução Carlos Norcia
Macabra - DarkSide
2018 - 432 páginas

terça-feira, 4 de maio de 2021

O Morro dos Ventos Uivantes



Sinopse: Único romance da escritora inglesa Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes retrata uma trágica história de amor e obsessão em que os personagens principais são a obstinada e geniosa Catherine Earnshaw e seu irmão adotivo, Heathcliff. Grosseiro, humilhado e rejeitado, ele guarda apenas rancor no coração, mas tem com Catherine um relacionamento marcado por amor e, ao mesmo tempo, ódio. Essa ligação perdura mesmo com o casamento de Catherine com Edgar Linton.


O vídeo fala da leitura e da última versão cinematográfica do livro


Há muitos anos eu tinha curiosidade de ler O Morro dos Ventos Uivantes, primeiro por tudo o que se comenta sobre a história - sendo referência em outros livros e citado por vários leitores-, segundo por ser escrito por uma mulher nos anos de 1800 e terceiro por ser um clássico. E já adianto aqui que a história não me decepcionou.


"Wuthering" é um adjetivo local que descreve a violência atmosférica ao qual o morro fica exposto durante as tempestades e que pode ser traduzido como "ventos uivantes".


A edição escolhida para esta aventura literária foi a publicada pela DarkSide, que além de ser muito bonita, possui todo um complemento primoroso sobre a história, críticas da época e um pouco da biografia das irmãs Brontë, tornando a imersão completa. Organizada pela Marcia Heloisa, me proporcionou o mesmo sentimento de realização pós leitura, como ocorreu com o Vitorianas Macabras.

Na história de Emily Brontë, temos duas vozes em primeira pessoa narrando os fatos: o Sr. Loockwood e a Sra. Dean. Fugindo do alvoroço das cidades grandes, o Sr. Loockwood resolve alugar uma casa no interior da Inglaterra. Seu senhorio, o Sr. Heathcliff, não é exatamente uma simpatia, limitando as suas tentativas de conversa.


Tinha uma maneira própria de interpretar cada frase e, ao que parecia, cada fiel cometia uma infinidade de pecados diversos a cada deslize.


Em sua curiosidade sobre o homem, Loockwood insiste em retornar à casa de Heathcliff e fazer uma visita em um dia de péssimo tempo. Sem a possibilidade de ir embora, ele acaba dormindo no local, o que lhe permite conhecer os demais integrantes da casa, e inevitavelmente também acaba comparando o cuidado com a casa onde está hospedado, chamado de Thrushcross Grange e o péssimo estado da que mora Heathcliff, chamada Wuthering Heights.

Loockwood acaba ficando doente após retornar o mais cedo que conseguiu em plena neve para Thrushcross Grange, e assim é cuidado pela empregada do local, Sra. Dean, que ao lhe fazer companhia acaba lhe contando a história das duas famílias por trás das propriedades.


Torcia encarecidamente para que ela gostasse de uma boa intriga e esperava que pudesse me entreter ou me fazer pegar no sono com seu falatório.


A Sra. Dean cresceu junto com os filhos do Sr. Earnshaw em Wuthering Heights, pai de Hindley e Catherine. Quando eles ainda eram crianças o homem foi viajar a trabalho e ao retornar ele tem como companheiro um menino que encontrou nas ruas de Liverpool, seu nome é Heathcliff. 

Apesar da cara feia dos familiares e a nítida vontade que sua esposa tem de expulsar o menino, ele justifica não ter encontrado família ou quem poderia ter ficado com a criança. Assim, passa a tratá-lo como filho.


Nunca fiquei tão exausto na vida, mas penso que deva aceitá-lo como um presente de Deus, embora seja escuro como se viesse do diabo.


Heathcliff encontra o ódio com Hindley e o amor com Catherine, como uma dupla inseparável eles acabam crescendo juntos e tornando-se companheiros de travessuras. Mas o tempo passa, e quando a bela moça atinge a adolescência, faz amizade com os jovens da família Linton, filho dos proprietários de Thrushcross Grange, cujo olhar é de censura em relação ao comportamento e aparência de Heathcliff. 

Mesmo com todo comportamento nem sempre considerado adequado da jovem, Edgar Linton a pede em casamento, e ela surpreendentemente o aceita. O sim de Catherine faz com que as expectativas de Heathcliff se quebrem, e as consequências disso serão sentidas por todos, incluindo a nova geração.


Não cultive esta expressão de um vira-lata perverso que parece saber que os chutes que recebe são merecidos e, mesmo assim, odeia não só quem o agride como também o mundo inteiro.


Acompanhando as três gerações da família Earnshaw, não é difícil em concordar com não só os personagens, mas também o local, foram muito impactadas pelo menino trazido pela bondade, moldado pelo bullying e comandando por sentimentos que o tornam praticamente um monstro, com seus dentes afiados, sua violência e a sua frieza.

Apesar de muito se referenciar o romance de Heathcliff e Catherine, o romance de Emily Brontë não tem nada de Love story, os ventos, o ambiente escuro, dão um ar gótico que combina com a personalidade amarga e vingativa de quem determina o destino dos dois pequenos núcleos. E como bem observa a tradutora Marcia Heloisa, a escrita de Emily Brontë está muito mais para Edgar Allan Poe do que para o estilo de Jane Austen. 


Não sei definir em palavras, mas certamente você, como todo mundo, crê que existimos em alguém para além da nossa própria existência.


Com poucos personagens, e todos extremamente humanos em suas qualidades e defeitos, o leitor se depara com sonhos desfeitos, um toque de realismo fantástico, traições, egoísmo, bondade, violência e toque de loucura. Curiosamente também se depara com personagens que representam os mais diversos gêneros, condição social, crenças, moral e educação. 

Com reações pesadas, as relações descritas são sombrias. Raras são as boas intenções e muito são as perguntas de porque alguns dos personagens se mantiveram presos naquele lugar, como se Catherine Earnshaw mantivesse todos presos em seu centro gravitacional, tornando sua presença marcante até para quem não a conhece. 


O tirano explora seus escravos, mas eles não se voltam contra ele; eles descontam naqueles que são ainda mais inferiores.


A leitura também permite conhecer um pouco das relações sociais da época, a questão com a religião, e até mesmo uma grande interrogação sobre a cor da pele de Heathcliff, que várias vezes é comparado com um cigano, e não raro é usada de forma pejorativa pelos que o descrevem.

Uma leitura cativante, que acompanhada de um bom chá, praticamente me transferiram para junto da lareira ouvindo a Sra. Dean, para no final lamentar ser este o único romance de Emily Brontë. E se ainda não leu, fica a minha indicação, e prepare-se para a tensão psicológica que apenas os livros que se utilizam do terror, mesmo que com sutileza, podem proporcionar.


O Morro dos Ventos Uivantes
Emily Brontë
Tradução: Marcia Heloisa
DarkSide - Darklove Classics
1847 - 416 páginas


terça-feira, 6 de abril de 2021

Vitorianas Macabras


Sinopse: Vitorianas Macabras é uma poderosa antologia que presta homenagem a todas as mulheres da Era Vitoriana que abriram novos caminhos na arte. Estas treze escritoras livres e transgressoras ecoam suas vozes ao longo das décadas e suas histórias assustadoras ressaltam  beleza do Horror em todas as suas formas.

O segundo livro lido da linha Macabra da Editora Darkside simplesmente ganhou o meu coração, e já abro o post dizendo: leia, vale muito a pena. Relembrando que o primeiro foi o Antologia Macabra, já resenhado aqui no blog.

Mais do que contos, é uma aula de história e uma amostra do talento das mulheres em contos atemporais, que causam arrepios, reflexões e até mesmo lembranças das histórias de fantasmas que ouvimos na infância.

A organização e tradução da Marcia Heloisa proporcionam um verdadeiro presente para o leitor. Primeiro porque antes de tudo ela nos faz um resumo, situando o que é considerado o período vitoriano, quem era a rainha Vitória e qual a influência desta mulher em escritas após o seu período no poder.

Com isso é possível ter um pouco mais da compreensão da época em que essas escritoras nasceram e cresceram, e como uma era de crenças e aspectos mais sombrios, onde incluímos figuras como Jack, O estripador, geraram ótimos contos de suspense e terror.

Cada conto contém uma apresentação da escritora, onde sabemos seu ano de nascimento e morte, número de livros escritos, um pouco de sua vida e uma fotografia. A seguir listo um a um, prepare-se, que são vários.


A Porta Sinistra - Charlotte Riddell

Narrado em primeira pessoa, um homem conta uma história vivida em sua juventude, quando na necessidade de conseguir dinheiro para pagar as contas de sua família, aceita o emprego de tentar manter uma porta fechada na casa de um homem milionário. 


Existem pessoas que não acreditam em fantasmas. A bem da verdade, existem pessoas que não acreditam em nada.


O Mistério do Elevador - Louisa Baldwin

Um ex-soldado do exército conta o motivo pelo qual ele e um colega abandonaram bons empregos em um hotel em Londres, após uma noite misteriosa.


Soldados são educados e eficientes e, depois dos marinheiros, são os favoritos do público.


Mortos em Mármore - Edith Nesbit

Homem conta a trágica história vivida junto com a sua esposa ao alugar um chalé em uma região que teria sido amaldiçoada, ao qual teve que pagar um preço alto por não acreditar nas lendas que lhe contaram.


Hoje em dia, exige-se uma "explicação racional" para que uma crença seja considerada possível.


A Prece - Violet Hunt

Quando uma esposa recebe a notícia de que o amor da sua vida está morto, ela se agarra a ele e reza desesperadamente pelo seu retorno. Mas ao ter o seu pedido atendido, sua vida muda completamente.


A esposa soltara um grito de gelar o sangue dos presentes e depois se atirara na cama sobre o marido morto.


O Coche Fantasma - Amelia B. Edwards

Um jovem recém-casado se perde durante a caça às perdizes, caminhando a esmo, ele conseguira a muito custo informação para retornar aos braços da esposa. Mas o frio irá atrapalhar a sua jornada para encontrar o transporte apropriado.


Tenho minha opinião formada sobre os assuntos e, podendo me fiar no testemunho dos meus próprios sentidos, prefiro ser guiado por eles.


Napoleão e o Espectro - Charlotte Brontë

Napoleão se prepara para dormir, mas antes que possa fechar os olhos, os gemidos de um espectro o alertam, fazendo ele seguir o espírito.


A ameaça não produziu mais do que uma rápida risada sarcástica seguida de um silêncio absoluto.


O Conto da Velha Ama - Elizabeth Gaskell

Uma ama que acompanha gerações da mesma família conta para as crianças os acontecimentos que ela viveu junto com a mãe dos pequenos em uma antiga mansão, quando a menina se tornou órfã.


Eu era apenas uma menina na escola do vilarejo quando, um dia, sua avó entrou e perguntou para a professora se havia alguma aluna que daria uma boa ama.


A Sombra da Morte - Mary Elizabeth Braddon

Em uma casa com fama de maldita, onde ninguém quer ficar próximo após o anoitecer, casal de empregados buscam uma órfã de outra região para trabalhar no local, acomodando a menina em um quarto que suga sua vitalidade.


E existem ou não provas, eu não sei, mas os moradores da região acreditam nisso piamente, tanto quanto creem nos evangelhos.


A Janela da Biblioteca - Margaret Oliphant

Uma adolescente passa as férias na casa da tia, quando escuta os amigos da mesma discutindo se uma janela da biblioteca que fica em frente à casa é verdadeira ou apenas uma pintura. A partir daquele momento, a janela vira uma obsessão para a jovem, que não sabe se suas visões são verdadeiras ou não.


No início, eu não fazia a menor ideia do quanto já se especulara sobre aquela janela.


A Verdade, Somente a Verdade, Nada mais do que a Verdade - Rhoda Broughton

Narrado através de troca de cartas, Elizabeth encontra a casa perfeita para a amiga Cecilia em Londres, mas não pode ficar na cidade para recebe-la. Por correspondência, descobre que a beleza esconde dor e tristeza.


Quando pus os pés na casa, achei que tinha entrado por engano em um pedaço do céu.


A Maldição da Morta - H.D. Everett

Jovem viúvo explica ao amigo dos tempos de escola os motivos de continuar seguindo as regras da sua falecida esposa dentro de casa e pelo qual não pode se casar novamente, se mantendo em uma tensa solidão.


Talvez, após tantos anos de casado, tivesse passado a depender de uma mulher que cuidasse dele.

 

Amor Dure - Vernon Lee

Narrado em ordem cronológica conhecemos um jovem historiador que ganha uma bolsa de pesquisa na Itália. Em suas pesquisas nos arquivos sobre a história da Urbania, ele se depara com Medea da Carpi, uma mulher belíssima, cujo poder remete a outras figuras poderosas como Bianca Cappello e Lucrécia Bórgia. 

Quanto mais o historiador descobre, mais obcecado por esta mulher, já morta, ele se torna, a ponto de tudo em sua vida girar em torno dela. 


A história da Urbania não é de todo desprovida de romance, embora tal romance tenha sido (como sempre) desprezado por nossos pedantes eruditos.


Onde o Fogo não se Apaga - May Sinclair

Após viver algumas decepções amorosas uma mulher vive um longo romance com um homem casado, e mesmo quando a paixão acaba, descobre que o seu inferno é aturar quem não mais suporta pela eternidade.


Agora se perguntava por que, se o mandara embora no dia anterior, deixara que voltasse.


Depois dos contos, há algumas páginas com curiosidades sobre a Londres do período vitoriano, como as lutas de cães e ratos, o uso do ópio, os hospícios, a imundície que o Rio Tâmisa já foi, as assassinas de bebês entre outros.

O que eu não gostei tanto na edição: nas primeiras páginas observa-se diferenças na impressão, algumas páginas saíram com a tinta mais escura, meio borrada, que dão a impressão as vezes de estarem desfocadas. Proposital para falar de uma rainha casada com um fantasma por quarenta anos ou um erro? Eis mais um mistério. 

Mas isso não conseguiu reduzir o quanto fiquei admirada com a edição, onde toda uma era é contada na visão feminina através de contos que deixam os pelos do braço arrepiados, além de abrir ainda mais a visão sobre a cidade de Londres, o que permite facilmente criar um roteiro bem diferente do tradicional.

Recomendo de olhos fechados, pois mesmo quem não curte o gênero, provavelmente irá se interessar por toda história, assim como a própria visão cultural do período.


Vitorianas Macabras
Várias autoras
Organização e Tradução: Marcia Heloisa
Macabra - Darkside
2020 - 384 páginas


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Antologia Macabra



Sinopse: Organizada por Hans-Åke Lilja — editor do Lilja’s Library, um dos principais sites do mundo dedicados às obras de Stephen King, no ar desde 1996 —, a coletânea reúne o medo e o horror de treze almas macabras selecionadas a dedo para exaltar o que há de mais sombrio na literatura.

Embora seja raro entre as resenhas do blog, eu adoro um terror, o que tornou esta antologia de contos que celebram um site dedicado justamente a um dos mestres do gênero um dos livros que eu queria ler logo em 2021.

São 12 contos escritos por 13 autores, um deles é escrito em parceria, e vão do psicológico ao terror clássico.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro conto é justamente do homenageado Stephen King. Em O Compressor de Ar Azul temos um escritor que aluga uma casa de uma mulher que logo chama a atenção pelo seu tamanho. 


"Estou sempre com a pena a postos", retrucou, rindo para disfarçar a pena que sentiu de si mesmo depois daquela resposta ridícula.


O conto possui algumas curiosidades, existe a história escrita em terceira pessoa, existem anotações que parecem ser do escritor, e existem intervenções do próprio Stephen King. Então não, você não vai saltar da cadeira nem ficar com medo de dormir à noite após ler, mas tem uma ideia de como funciona a criação de uma história.

O segundo conto é resultado da parceria entre Jack Ketchum e P.D. Cacek. Nomeado A Rede, conta a evolução de uma conversa em uma sala de bate-papo da internet entre Andrew e Cassandra. Não sabemos nada sobre eles, somente o que dizem um ao outro, até o clímax da possibilidade de se encontrarem pessoalmente.


E você está certo... às vezes a gente passa meses conversando com uma pessoa sem nunca saber muito bem quem - ou o que - ela é.


Confesso que achei o mais fraco dos doze contos, o tema é super atual, e serve mais como um alerta dos cuidados que devemos ter ao dividirmos informações privadas com estranhos.

O terceiro conto de Stewart O'Nan chama-se O Romance do Holocausto, um escritor que sobreviveu aos campos de concentração e criou uma ficção sobre o assunto. Chamado para ser entrevistado por Oprah, na narrativa em terceira pessoa o leitor pode acompanhar o paralelo entre o que foi real, o que é parte do romance, além dos sentimentos e comportamentos do personagem.


Está acostumado à vida tranquila que leva, enterrando os sentimentos pelo mundo em seus escritos.


Não há um terror trash no conto, aqui ele está no passado, em uma vida diferente do que poderia ter sido, e existe algo mais assombroso do que aquilo que não se viveu ou que se perdeu?

Bev Vincent traz o seu Aeliana no quarto conto. Uma criatura que assume tanto a forma humana quanto a de um ser que fica à espreita, esperando um assassino desovar corpos e assim ela se alimentar. Quando uma mudança ocorre em sua rotina, ela experimenta novos sentimentos.


Ela ama sair para a rua quando a lua está alta no céu, explorando o mundo enquanto procura alguma comida.


Aeliana é um misto de terror sutil e psicológico, cujo andamento da história desperta a curiosidade e até mesmo uma certa torcida em relação ao desfecho. 

No quinto conto temos Clive Barker e seu Pidgin & Theresa, um papagaio e uma tartaruga que são transformados em humanos após um anjo cometer um erro ao levar a alma de Raymond, seu dono, considerado naquele momento um santo.


Primeiro banhou o quarto sem graça com tamanho esplendor de luz beatífica que as testemunhas foram obrigadas a cobrir os olhos e recuar para o corredor encardido.


Enquanto os dois saem para descobrir o mundo em sua nova forma, Raymond passa por uma análise celestial cuidadosa, onde os seus pecados começam a ser revelados, expondo um segundo erro na ação. 

Eu achei a ideia do conto muito interessante, aqui o terror está no comportamento dos personagens, onde o real e o fictício são separados por uma linha tênue.

O sexto e mais dolorido de todos os contos, na minha opinião, é o Fim de Tudo de Brian Keene. Aqui temos um personagem que todos os dias acorda desejando o fim do mundo, as causas para o acontecimento mudam todas as manhãs, mas a dor que o faz desejar que tudo se acabe, não muda em nenhum momento.


Só existe um outro jeito de chegar lá, mas ainda sou covarde demais para ir em frente.


O terror aqui está no que muitos chamam de destino, ou de um infortúnio da vida, situações fatídicas que podem acabar com as motivações de alguém. 

A Dança do Cemitério de Richard Chizmar é o sétimo conto e nos coloca em outro tipo de terror. Aqui temos Elliott Fosse, um homem aparentemente comum, entrando em um cemitério após a meia-noite. Existe um túmulo especifico ao qual ele quer chegar, e aqui são compartilhadas memórias passadas, onde o terror passa pela psicopatia.


O céu estava sem estrelas, cobrindo o cemitério como uma enorme tenda de circo preta.


O oitavo conto nos leva para o clássico do terror, em Atraídos para o Fogo, Kevin Quigley leva o leitor a acompanhar a escapada de três meninos, que desobedecem aos seus pais, para irem em um parque de diversões novo em sua cidade. Ao chegar no local, um estranho os atraí, e que o era para ser diversão e competição de coragem vira uma busca pela sobrevivência.


"Chip, Bobby e Johnny, três rapazes robustos! Será que aguentam alguns sustos?"


É um dos contos mais longo, com direito a sentir o coração bater mais forte se você se deixa envolver facilmente pela leitura.

Seguindo na linha de parques, no nono conto chamado O Acompanhante de Ramsey Campbell o leitor é apresentado a Stone, um homem que em suas férias busca conhecer feiras. No momento ele está decepcionado, por não ter encontrado exatamente o que o guia dissera. Apesar de ser adulto, ele se sente atraído por brinquedos, e isso acaba fazendo com que procure uma velha feira e se interessar por seu trem fantasma.


Por um momento, Stone teve a impressão de estar trancado num quarto empoeirado onde os brinquedos, como nos contos infantis, adquiriam vida.


Puxando para a linha psicológica, somos levados junto a Stone por diferentes caminhos, conhecendo-o ao mesmo tempo que não temos ideia do que irá acontecer.

Como não poderia faltar, o décimo conto é o clássico O Coração Delator de Edgar Allan Poe. Um cuidador pega implicância por um dos olhos do senhor que acompanha e diz amar. Comparando a um abutre, ele começa a elaborar um plano para se livrar do homem.


A doença apurou meus sentidos, não os destruiu, não os amorteceu.


Loucura pura que me fez sentir arrepios, mesmo não sendo a primeira vez que o leio.

Já na reta final, o décimo primeiro conto tem o singelo nome de Amor de Mãe, de Brian James Freeman. Aqui temos Andrew, um filho que ama muito a sua mãe, mas não consegue dar pessoalmente os cuidados que ela necessita, o que lhe traz uma imensa aflição.


A mãe estava só, e Andrew odiava não ficar ao lado dela a cada minuto, mas estava fazendo o seu melhor.


Como um bom filho ele sai em busca de uma clínica de repouso recomendada, da espera para abrir uma vaga, ao parcelamento das taxas de internação, ele é consumido pela proximidade da morte de sua mãe.

Uma história de terror que poderia facilmente estar como notícia real em uma página de jornal.

Para fechar a Antologia Macabra, John Ajvide Lindqvist e o seu O Companheiro do Guardião. Utilizando os jogos de RPG, associado aos famosos bullyings que ocorrem nas escolas, o sobrenatural irá entrar na vida de um mestre nato quando ele brinca com as palavras.


Tinha autoridade, tinha a imaginação. E tinha linguagem.


Sendo um dos mais longos, Lindqvist nos coloca na vida de Albert, de forma que possamos conhece-lo mais intimamente do que os outros, seu egoísmo e dificuldades estão expostos, como grandezas e fraquezas de um jogo.

A edição é muito bonita, da encadernação as ilustrações, a edição da DarkSide me impressionou. A única coisa que achei um pouco incomoda foram as páginas grudadas, que fui soltando conforme evoluía na leitura, como se estivesse folheando algo muito antigo.

A antologia é uma verdadeira amostra de que o terror está além de serras elétricas e apocalipse zumbi. De maneira sútil, ele pode decorrer de uma fatalidade, impulso, lembranças, arrogância e instintos ainda não bem explicados.

Como fã tanto de histórias de terror quanto de contos, eu gostei bastante de quase todos os contos, confesso que apenas A Rede não me conquistou. Ficando a recomendação para quem compartilha o gosto comigo.

Para quem ficou curioso sobre outros títulos da linha Macabra, convido a ler a resenha das Vitorianas Macabras.

Antologia Macabra
Shining in the Dark
Diversos autores
Organização: Hans-Åke Lilja
Tradução: Paulo Raviere
DarkSide
2017 - 242 páginas