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domingo, 30 de novembro de 2025

Do amor e outros demônios


Sinopse: Durante a inspeção das criptas de um convento em Cartagena das Índias, na Colômbia, é encontrado o túmulo de uma jovem com cabelos que ainda crescem mesmo após a morte. A descoberta remete à história de Sierva María, filha de um marquês decadente, criada entre escravizados africanos e profundamente marcada por crenças e rituais sincréticos. Após ser mordida por um cão com raiva, a menina é enviada a um convento, onde é considerada possuída por demônios. Lá, conhece o jovem padre Cayetano Delaura, designado para exorcizá-la. No entanto, o que se desenvolve entre eles é uma paixão intensa, proibida e trágica, que confronta fé, desejo e as instituições da época.


No mês de agosto/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Socorro Acioli (Oração para desaparecer) Do amor e outros demônios do consagrado escritor colombiano Gabriel García Márquez. O mimo foi um chaveiro com a frase "Ler abre portas".

Na Colômbia colonial do século XVIII, uma menina de doze anos é vítima, como outras pessoas que circulavam nas ruas no mesmo momento, de um cachorro raivoso.

Chamada de Sierva María, menina é negligenciada pelos pais, o marquês Ygnacio sua esposa viciada Bernarda. Criada pelos escravos, possui um comportamento diferente do esperado pelas pessoas de sua classe social.

Devia mesmo estar muito inquieto para fazer a pergunta à esposa, e ela muito aliviada de sua bile para lhe responder sem um sarcasmo.


O que faz com que o seu pai passe a temer que ela esteja infectada pela raiva, e após realizar consultas com médicos e religiosos, interna a menina no Convento de Santa Clara, onde é mantida isolada enquanto aguarda suas sessões de exorcismo.

Mas o padre que deveria livra-la de todo mal, acaba tendo uma paixão obcecada ela menina, colocando em questão as suas próprias crenças conforme vai conquistando a atenção de Sierva.


A escrita de Gabriel García Márquez

Não é chover no molhado dizer que Gabo, ou o escritor colombiano Gabriel García Márquez, dispensa apresentações. Afinal, é um dos autores mais importantes e conhecidos do século XX, sendo um exponente do realismo mágico na literatura latino-americana.

Ganhador do Nobel de Literatura em 1982, o seu livro Cem anos de solidão virou recentemente série e é, além de uma das suas obras mais famosas, uma narrativa inesquecível que conta gerações de uma família em uma cidade fictícia.

Não eram poucos nem banais os casos de raiva na história da cidade.


No romance Do amor e outros demônios Gabo utiliza o realismo mágico de uma forma mais ambígua, onde o leitor não sabe se o escritor está utilizando elementos sobrenaturais ou se o psicológico dos personagens, somado ao seu ambiente social, explica o que está acontecendo.

A forma narrativa utilizada é a em terceira pessoa, o que permite ao leitor ter acesso a todos os personagens envolvidos, e ter uma visão mais ampla da história que mistura colonialismo, religião, laços familiares, amor, opressões, sonhos e punições.

Acreditava que a menina se sentia bem, e parecia-lhe impossível que uma coisa tão grave tivesse acontecido sem seu conhecimento,


Em Do amor e outros demônios o autor vai buscar para sua narrativa de realismo mágico a combinação de um evento vivido quando o autor era um jovem repórter, quando ao acompanhar a exumação dos restos mortais de uma jovem, a mesma ainda possuía uma cabeleira entre 16 e 22 metros de comprimento em tom de cobre intenso com uma história contada por sua avó sobre a filha de um marquês que precisou ser trancada em um convento pelo seu comportamento.

Inspirado em uma história real que Gabo cobriu durante o seu período como jornalista somada a uma lenda que sua avó lhe contava, a fusão com a ficção permitiu criar uma narrativa com toque de magia, crítica e tragédia.


O que eu achei de Do amor e outros demônios

Este é o terceiro livro que eu leio do Gabriel García Márquez. Comecei logo com Cem anos de solidão, que segue sendo o meu favorito, depois embarquei em Memórias das minhas putas tristes que me deixou desconfortável e agora embarquei em Do amor e outros demônios.

Da mesma forma que ocorre em Memórias, temos um gatilho aqui se analisado com o olhar da nossa época atual, que é o relacionamento de uma pré-adolescente, Sierva María tem 12 anos, com o Padre Cayetano Delaura, que tem 36 anos.

A primeira coisa que fez foi devolver à menina o quarto de dormir de sua avó marquesa, de onde fora tirada para dormir com os escravos.


Como mãe de menina eu precisei ser relembrada do contexto histórico. Estamos falando do período colonial e da inquisição, isto é, século XVIII, onde era comum o casamento com meninas desta idade.

Resolvida esta questão, assim como o realismo mágico é sutil, o amor também é difícil de ser encontrado. Pois não achei que a relação de Sierva e Cayetano fosse de amor, existe um desequilíbrio muito grande de liberdade, já que estamos falando de uma paixão entre exorcista e quem será exorcizado.

O coração da menina batia aos saltos enlouquecidos, e a pele soltou um orvalho lívido e glacial, com um recôndito cheiro de cebola.


Além disso, ao ficar presa, a menina acaba tendo poucas interações, podendo facilmente se apegar a quem lhe dê atenção. Já o padre tem velhas questões não resolvidas que vem à tona com a presença da menina, o que cria uma crise não só para a igreja, mas em tudo o que ele acredita.

Somado a isso, Sierva não é criada com amor nem dentro de casa, já que a menina vive com os escravos. Então a sua forma de agir, só notada após ela ser mordida por um cachorro raivoso, não vem de demônios, e sim do que ela vê, é ensinada e repete.

A cidade estupefata interpretou a tragédia como a deflagração da cólera divina por alguma falta inconfessável.


O comportamento dos pais também não é exemplar. Um casamento de fachada, onde a mãe, Bernada, buscava riqueza com o Marquês Dom Ygnacio, e encontrou a decadência. Ambos negligenciam a filha, pois enquanto a esposa se dedica aos próprios vícios, o marido vive em apatia, conservando um mínimo de respeito entre os seus pares apenas por causa do seu título. Enfim, puro suco de hipocrisia.

Tornando a leitura muito mais de relações tortas e crítica a sociedade de um período histórico, que geram situações e resultados muito mais absurdos do que qualquer realismo mágico, mostrando mais uma vez que a loucura de unir aparências e crenças já foi muito pior do que nos dias de hoje, e não, não deve voltar.

A mãe a odiou desde que lhe deu de mamar pela única vez e se negou a tê-la consigo com medo de matá-la.


E por estes motivos sim, eu gostei da leitura. Não superou Cem anos de solidão na minha preferência, mas é um livro de leitura envolvente e fluída, relativamente curto de ler, que mistura na dose certa momentos leves, podendo ser cômicos conforme o senso de humor do leitor, com questões de reflexão e surpresa.

Ficando a dica para todos que gostam de um bom livro.

Do amor e outros demônios
Del amor y otros demonios
Gabriel García Márquez
Tradução: Moacir Werneck de Castro
TAG - Record
191 páginas - 2025
Primeira publicação originalmente no ano de 1994


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Modernidade em preto e branco


Sinopse: Geralmente entendido como um movimento de elite, o modernismo brasileiro costuma ser associado a um seleto grupo paulistano. Contudo, desde as primeiras favelas das décadas de 1890 e 1900 até a reinvenção do carnaval nos anos 1930 e 1940, e atravessado pelo boom das novas mídias impressas e da fotografia, o modernismo perpassou diversas classes sociais e áreas geográficas. Neste livro, Rafael Cardoso oferece uma releitura radical do movimento, trazendo à luz elementos absolutamente centrais para seu desenrolar -- e que não se encontram somente em terras paulistas.

Com o objetivo de usar a combinação de imagens e pesquisa para guiar os leitores pela sociedade brasileira dos anos que abrangem o período de 1890 e 1945, Modernidade em perto e branco teve a sua primeira versão publicada em inglês no ano de 2021, sendo reescrito em 2022 para o público brasileiro.

Com um texto crítico a Semana de Arte Moderna de 1922 e sendo contrário a ideia de que São Paulo foi o marco inicial do modernismo no Brasil, o autor questiona a narrativa que comemorou os cem anos do Modernismo resgatando a arte de outros estados.

Nos estudos de literatura brasileira, a noção de pré-modernismo vem sendo desmontada desde o final da década de 1980.


Principalmente do Rio de Janeiro com sua boêmia, revistas e o surgimento do movimento popular que até hoje faz sucesso chamado Carnaval.

Ao buscar a cultura no período de 1890 a 1945, ele também relata as tenções nas relações raciais, a ambiguidade sobre qual seria a identidade do brasileiro.

Mesmo consagrada por estudiosos e preservada por instituições fundadas em sua memória, a importância da Semana reside principalmente em seu status como lenda.


Sendo um livro que questiona não só o modernismo, mas a cultura e os eventos de uma época.


A escrita de Rafael Cardoso

O historiador carioca Rafael Cardoso possui livros de ficção e não ficção publicados, sendo o segundo tipo a maioria.

Sendo Modernidade em preto e branco um deles, com o objetivo de contribuir como se fosse um estudo de caso, o texto possui uma série de referências bibliográficas usadas para embasar o que é apresentado.

A dialética entre regionalismos e nacionalismos é um problema conceitual imenso, muito além do escopo deste livro.


As imagens possuem descrições no texto para situar, principalmente as capas das publicações da época, o contexto do que era desenhado.

Sendo um livro que no geral mistura história, cultura e sociedade durante o período de 1890 e 1945 no Brasil, com alguma pitada do que acontecia fora dele também.


O que eu achei de Modernidade em preto e branco

Eu não consegui finalizar a leitura. Confesso. Eu literaturei o que pude, e acabei abandonando.

Embora eu goste de livros de não ficção, principalmente os que envolvem história, a escrita do Rafael Cardoso infelizmente não me cativou.

Entre 1890 e 1930, o surgimento das favelas nos morros do Rio de Janeiro atiçou discursos que promoviam uma correspondência entre negritude, barbárie e atraso.


Nos primeiros capítulos, apesar do contexto, a forma comparativa de São Paulo e Rio de Janeiro me fez pensar mais na rixa que existe entre os dois estados e qual o peso disso no desmerecimento do grupo que talvez tenha amplificado o termo Modernismo na época.

Eu já tinha conhecimento do elitismo através da leitura do livro da Carolina Casarin - O guarda-roupa modernista -, mas não acho que isso diminua um movimento que inclusive teve os seus cem anos festejados em 2022.

Desde suas origens nas festividades de entrudo, na era colonial, o Carnaval sempre operou como um mecanismo para subverter relações de poder e propriedade.


E embora tenha alguns pontos bem interessantes, a escrita no geral não me cativou. A descrição detalhada das imagens me fizeram recordar muito livros didáticos.

Ele explora bastante também a parte conceitual, o que é ótimo para quem gosta de se aprofundar, mas assumo que acabou me cansando.

Tanto em termos temáticos como formais, o Carnaval propiciou um foco para expressar ideias de modernidade.


Tentei intercalar com livros de ficção, mas acabava divagando durante a leitura. 

E como ninguém merece sofrer, aproveitei que a poucos anos aprendi a abandonar o que não me conquista, e desisti com pouco mais de duzentas páginas lidas e a conclusão que não, não era o momento ou não era pra mim.

A disseminação de revistas ilustradas em escala industrial conta-se entre os indícios mais reveladores da modernização cultural no Brasil do início do século XX.


Mas como cada leitor tem o seu gosto, pode ser que ele te conquiste, caso deseje uma visão diferente da mais divulgada sobre o modernismo.

Além de apresentar aspectos da cultura carioca que também estariam alinhados com o conceito que surgiu na Europa.

Ficando a dica para quem se interessa pelo assunto e deseja ler diferentes aspectos de uma época.


Modernidade em preto e branco
Rafael Cardoso
Companhia das Letras
2022 - 366 páginas

sexta-feira, 28 de março de 2025

O Triste Fim de Policarpo Quaresma



Sinopse: Publicado inicialmente em folhetins no ano de 1911, Triste fim de Policarpo Quaresma é um romance do período do Pré-Modernismo brasileiro. Por meio da vida tragicômica do major Quaresma, um nacionalista fanático, ingênuo e idealista, Lima Barreto revela as estruturas sociais e políticas do Brasil da Primeira República, enfocando os fatos históricos do governo de Floriano Peixoto.



Aproveitando que muitos clássicos podem ser baixados de graça para o Kindle, estava com o O Triste Fim de Policarpo Quaresma na minha lista de espera há algum tempo.

Confesso, sou uma leitora muito mais de livros físicos do que digitais. Mas nada como uma viagem longa e o desejo de não carregar muito peso para finalmente realizar a leitura.

O ingênuo Policarpo Quaresma é um major do exército extremamente nacionalista, que vive na então capital Rio de Janeiro na virada do século XIX para XX.

Não recebia ninguém, vivia num isolamento monacal, embora fosse cortês com os vizinhos que o julgavam esquisito e misantropo.


A mistura de ingenuidade e patriotismo faz com que ele tenha ideias mirabolantes, como após se dedicar ao estudo do tupi-guarani resolver torna-la a nova língua oficial do Brasil, substituindo o português.

A criação de memorandos e mal-entendidos na língua indígena fazem ele ser internado em um manicômio, para tratar a sua excentricidade.

Um violão em casa tão respeitável! Que seria?


Liberto, ele se dedica a estudar agricultura, e acaba se mudando com a irmã e seu fiel empregado para um sítio, onde a diferença entre teoria e prática irão desafiar a sua teimosia. Enquanto de bônus precisa se livrar das intrigas da política local.

E então ocorre a eclosão da Revolta da Armada, onde Policarpo retorna a capital como voluntário, sem saber que novas decepções o aguardam.

Podia-se afiançar que nem um dos autores nacionais ou nacionalizados de oitenta pra lá faltava na estante do major.


Tudo em uma escrita que mistura humor, críticas a sociedade da época, e uma dose de tristeza ao ver que há tempos o Brasil que abriga uma criatividade imensa, não tem espaço para os ingênuos e sonhadores.


A escrita de Lima Barreto

O carioca Afonso Henriques de Lima Barreto foi um renomado escritor e jornalista no período pré-modernista, cujas obras se tornaram clássicos da literatura brasileira. 

Sua escrita tem como característica retratar críticas sociais, populações marginalizadas, e outras mazelas que acompanham esta república federativa desde a chegada dos portugueses em solo brasileiro.

Errava quem quisesse encontrar nele qualquer regionalismo; Quaresma era antes de tudo brasileiro.


Algo plenamente encontrado em O Triste Fim de Policarpo Quaresma, onde as situações que as vezes parecem um tanto sem noção, revelam pelo humor situações esdrúxulas da sociedade e da burocracia do sistema.

Tornando a leitura da escrita de Lima Barreto não apenas fluída, mas que nos move não só a acompanhar seus personagens, como comparar com os dias atuais.


O que eu achei de O Triste Fim de Policarpo Quaresma

Para quem acredita que todo clássico brasileiro é chato e entediante, o livro de Lima Barreto é mais um que contraria esta fama.

Eu achei a leitura bastante fluída, as várias reviravoltas na vida do personagem me levavam a imaginar se será que era aquela nova ideia que levava ao título, pois é impossível não ficar pensando nele, para ao final realmente me sentir triste com fim dele.

Na vida, para ela, só havia uma coisa importante: casar-se; mas pressa não tinha, nada nela a pedia.


E ao mesmo tempo ficada a torcida para que o título fosse uma brincadeira, pois Policarpo Quaresma é um homem gentil e educado, que não se nega a ajudar os outros, que adora ler, e com uma ingenuidade que não o permite reconhecer todas as situações nem analisar a reação dos demais as suas ideias.

Somado a isso se tem um retrato da sociedade brasileira da época, ao qual me provocou a fazer um paralelo com os tempos atuais e pensar o que evoluiu e o que não mudou tanto assim.

A convicção que sempre tivera de ser o Brasil o primeiro país do mundo e o seu grande amor à pátria eram agora ativos e impeliram-no a grandes cometimentos.


Pois no livro é possível divagar sobre política, nacionalismo, feminismo, corrupção, injustiça, conhecimento, amizades e fidelidade ao que se acredita.

Tornando a leitura não só convidativa, mas também provocativa e bem escrita, fazendo valer a leitura. Ficando aqui a minha dica para quem gosta de bons livros.


O Triste Fim de Policarpo Quaresma
Lima Barreto
E-book Penguin-Companhia
2011 - 396 páginas
Publicação em folhetins: 1911
Publicação em livro: 1915


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Serafim Ponte Grande



Sinopse: Ao longo de 203 fragmentos, Oswald de Andrade toma como inspiração os procedimentos da colagem para criar uma obra radical, situada entre a ficção, as anotações, as memórias, a sátira e a poesia. Definido por Haroldo de Campos como "romance-invenção", o livro, publicado originalmente em 1933, foi recebido como escandaloso e se estabeleceu como um acontecimento singular na nossa literatura. A transformação industrial de São Paulo serve como pano de fundo para um retrato implacável das aspirações burguesas. Em meio ao moralismo, ao tédio e à infelicidade do casamento, os personagens de Serafim Ponte Grande não conseguem conter suas ambições comezinhas, sua obsessão pelo dinheiro e seus impulsos sexuais.



Serafim Ponte Preta é uma espécie de anti-herói. O protagonista que dá título ao livro é um funcionário público corrupto e desiludido, cujo estilo de vida se divide entre a busca desenfreada por dinheiro e pela insatisfação conjugal. Um homem comum que realiza uma busca desenfreada por prazeres e pela incapacidade de se adaptar às convenções sociais.

Casado com Lala, uma mulher inicialmente resignada que vive um casamento infeliz, já que ela não é uma personagem secundária só na história, como na própria vida do protagonista.

A obra de ficção em minha vida corresponde a horas livres, em que estabelecido o caos criador, minhas teorias se exercitam com pleno controle.


Já Pinto Calçudo, o secretário do anti-herói, é presença frequente nos encontros e desencontros de Serafim com políticos corruptos, amantes, amigos e inimigos, e inclusive em uma viagem que parece resgatar as viagens realizadas pelo próprio autor, Oswald de Andrade, nos anos de 1920.

Tudo ambientado de uma forma a levar os leitores de qualquer época para uma viagem ao passado, sob as perspectivas de quem só se preocupa com o seu cotidiano.


A escrita de Oswald de Andrade

O autor e pensador paulista Oswald de Andrade foi uma das personalidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Formado em direito, seguindo os ritos das famílias ricas e tradicionais, acabou direcionando-se a sai paixão que era a literatura. 

Viajante frequente para a Europa, viu seu estilo de vida mudar com a crise econômica de 1929. Gerando uma mudança não só no ritmo com que levava seu dia-a-dia, mas também na criação de Obras como Serafim Ponte Grande, que é uma crítica a sociedade tradicional do período.

O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda.


Serafim Ponte Grande pode causar um estranhamento inicial no leitor ao passar pelas suas páginas e ver que não temos um romance padrão. Motivo pelo qual a obra é considerada uma grande inovação. 

O escritor Oswald de Andrade utiliza uma mistura que inclui tanto a linguagem formal da época quanto a popular, ao mesmo tempo que relaciona citações eruditas e termos técnicos. 

Parece que Deus quer ver no primeiro dia deste ano inteiramente evoluída a minha transformação psíquica, tantas vezes ameaçada pelos acontecimentos.


Essa babel linguística mistura poemas, micro contos e capítulos inteiros, não sendo muito explicativa, embora pareça respeitar uma linha do tempo para contar as diferentes facetas da sociedade brasileira, especialmente a paulistana, do período do modernismo.

Recheado de ironia e humor, os caminhos tortos do seu protagonista levam a situações inusitadas e algumas vezes beiram ao irreal. Ao mesmo tempo ele também se utiliza da literatura como base de referência, completando a visão cultural da época.

Nada mais incômodo do que esse negócio de ter filhos sem querer.


O que torna a escrita bastante atemporal e um livro relativamente rápido de ser percorrido.


O que eu achei de Serafim Ponte Grande

No mínimo diferente. Inicialmente me pareceu uma espécie de diário, onde uma frase ou parágrafos podem definir o dia do protagonista Serafim. Na sequência uma espécie de crítica política e desilusão com a vida que se leva no Brasil.

O que me fez pensar que Serafim é muito louco como narrativa e também como personagem. Mas apesar de misturar poemas, romance e formatos diferentes, no decorrer da leitura comecei a achar chato e repetitivo.

Por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal.


Como eu li antes O Guarda-roupa modernista, em vários momentos levantei a hipótese de ser uma sátira do que o próprio autor tenha vivido em suas várias idas a Europa, fato depois confirmado por um dos autores dos textos adicionais sobre o livro. Mas sendo sincera, eu não achei graça.

E assim eu acabei fazendo um paralelo com a geração de hoje que acham os programas humorísticos das décadas de 80 e 90 enfadonhos, pois foi exatamente o que ecoou em mim ao ler as desventuras de Serafim.

Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só , brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos olhos, pelos lábios e pela boca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel!


Pensando em um aspecto histórico, imagino que o livro tenha horrorizado os mais conservadores de sua época com sua linguagem direta, utilizando um personagem que não leva absolutamente nada a sério. E sim, provocado graça anos depois, quando muitas coisas da sociedade já estavam sendo questionadas.

No geral nem gostei nem desgostei de Serafim Ponte Grande, embora tenha achado o início promissor e o final muito bem executado, a etapa das viagens foi o que quebrou o ritmo da minha leitura, já que achei a correria do personagem atrás dos rabos de saia muito repetitiva, o que acabou deixando as críticas, que tinham um contexto mais interessante, perdidas em segundo plano.

Sob as árvores soltas do verão, debaixo dos balões cativos das lanternas. A orquestra mistura falas, altifalantes, serrotes e gaitinhas.


Mas sim, ele pode ser um livro bem interessante para quem quer ter uma visão da burguesia paulista nos anos de 1920, para quem quer conhecer um dos principais participantes do movimento modernista no Brasil e para quem é curioso e gosta de ler de tudo.


Serafim Ponte Grande
Oswald de Andrade
Companhia das Letras
2022 - 223 páginas
Publicado originalmente em 1933

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A árvore mais triste o mundo



Sinopse: Neste romance arrebatador, Mariana Salomão Carrara — vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2023 — se reafirma como uma das escritoras mais talentosas da novíssima literatura brasileira. O centro da trama de A ÁRVORE MAIS SOZINHA DO MUNDO é ocupado por Guerlinda e Carlos, casal que vive com os filhos em uma pequena roça no Sul do Brasil e se dedica ao cultivo do tabaco. Na dura época da colheita, a mãe de Guerlinda é chamada para ajudar nos trabalhos, e sua chegada transforma os já desgastados contornos da rotina familiar.

No mês de julho/2024 a TAG completou uma década de história, e como de costume, foi a curadora na sua edição de aniversário. O livro escolhido para comemoração foi A árvore mais triste o mundo da escritora paulista Mariana Salomão Carrara. E o mimo foi super especial: uma coletânea inédita de contos de Franz Kafka.



O casal Guerlinda e Carlos vivem seus dias dedicados exclusivamente ao plantio de tabaco em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul.

Contam com a ajuda integral da filha mais velha Alice, uma adolescente que não completou os estudos, e que no pouco tempo livre alimenta suas redes sociais e sonha em ganhar uma competição de beleza.

Excecionalmente, porém, gosto de dizer que reflito muito, reflito tudo, mas reflito muito sobre esta família, que é a família que eu tenho hoje e é a que posso refletir.


Maria, a filha do meio, ainda divide o seu tempo entre frequentar a escola e trabalhar na lavoura. A menina e sonha poder estudar mais para conseguir dar uma vida melhor a família.

Já Pedro, o caçula, é ainda um bebê que aprendeu cedo a importância de ser não tranquilo e quieto e não atrapalhar os pais.

Lavam os pratos em silêncio, que no fim de contas é o mais contagioso que há aqui, o silêncio, passa depressa de uns para os outros.


O casal precisa administrar os efeitos colaterais dos venenos utilizados em suas folhas de tabaco, as dividas enormes que não param de ser geradas pela empresa que compra o resultado da lavoura, a rebeldia da filha adolescente e a falta de dinheiro até para o básico.

Gerando a necessidade de solicitar a ajuda da mãe de Guerlinda no período da colheita, trazendo um novo olhar sobre a apatia de Carlos e as relações familiares.


A escrita de Mariana Salomão Carrara

Dividindo-se entre a defensoria pública e o mundo literário, a autora Mariana Salomão Carrara possui contos, poesias e romances publicados, sendo o último o objeto desta resenha.

Em A árvore mais triste o mundo a escritora separa a história em duas partes e utiliza-se de quatro narradores: a árvore que fica no pátio em frente à casa, o espelho português que fica na sala da família, uma roupa de proteção utilizada para passar o veneno nas plantas e a caminhonete rural da família.

No final sua vida seria melhor sem um espelho, mesmo tão linda, seria mais tranquilo ser como nós da natureza, a flor não sabe de si.


Cada um deles possui uma linguagem própria, e sua visão pessoal de cada integrante da família e de suas reações em relação a situações que eles enfrentam, narrando não apenas o presente como o passado, tudo em primeira pessoa. 

O espelho tem o sotaque e alguns termos da sua origem portuguesa, é o que compartilha os segredos da casa e muitas vezes imagina o que os moradores estão pensando. A caminhonete rural me lembrou o personagem Mate do filme carros pela forma de falar. Já a árvore me fez recordar o maravilhoso livro A ilha das árvores perdidas pela sua conexão com os humanos. E a roupa, com menor participação, é a mais neutra em relação a família, ficando mais focada no efeito que causa na pessoa que a está vestindo.

Mas os humanos me parece que têm uma coisa obscura, que é saber o que é certo, o que é melhor, mas fazer o contrário.


Uma curiosidade é a origem que deu a ideia para a escrita desta história: uma reportagem sobre a epidemia de suicídios em regiões produtoras de tabaco localizadas no sul do Brasil, citando entre as hipóteses os defensivos agrícolas e os grandes endividamentos enfrentados pelas famílias. 

Situação que agora ecoa entre as páginas e convida os leitores a mergulharem em um cenário tenso e complexo desconhecido por todos, deixando claro que os malefícios do tabaco não são exclusivos dos consumidores, mas que a produção de suas folhas também cobra um preço injusto para quem aceita ser fornecedor da matéria-prima.


O que eu achei de A árvore mais triste o mundo

Eu gostei de como a narrativa de A árvore mais triste o mundo foi construída. Na primeira parte temos o ciclo do plantio, onde narradores e personagens são apresentados, assim como a rotina extenuante e os sonhos, principalmente das meninas, como uma preparação para a segunda parte, onde o cansaço e as dívidas passam a gritar, assim como os sinais de depressão de Carlos.

E essa evolução bastante desesperançosa da história permite sentir e sofrer com a família, já subjugada a pobreza pelas empresas compradoras das folhas de tabaco.

Temos um impostor de olhos vazios, que além de tudo agora deixa as cabras livres para destruírem o tabaco com as suas tropelias.


Ao mesmo tempo se identifica facilmente a origem de como eles caíram na armadilha destas empresas, já que o casal não finalizou a escola e não raro assinam documentos enviados pela empresa sem entender na totalidade os efeitos. Deixando explícito a falta de escrúpulos das empresas, aumentando o meu desprezo por este produto que não tem absolutamente nada de bom.

Então não, não é um livro feliz, mas um livro que expõe uma realidade e nos coloca para acompanhar através de inusitados narradores que me provocaram diferentes sentimentos durante a leitura. 

Eles sabem tanto de amor. Era melhor saberem menos, assim acabavam logo comigo.


Como o livro se passa no RS, confesso que sendo gaúcha senti falta de alguns termos mais regionais, já que achei a forma de falar mais parecida com o interior do Paraná e de São Paulo, mas passada as primeiras páginas, este ligeiro incômodo foi passando, me permitindo mergulhar na leitura.

E assim deixo a dica para quem gosta de histórias inspiradas em fatos reais, de livros que compartilham realidades brasileiras, para quem não quer uma história leve e para os tradicionais ratinhos de biblioteca.


A árvore mais triste o mundo
Mariana Salomão Carrara
TAG - Todavia
2024 - 205 páginas


quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Ficção 2006 - 2014



Sinopse: Alejandro Zambra é sem dúvida uma das principais vozes da literatura mundial hoje. Neste volume, estão reunidos de forma inédita Bonsai (2006), A vida privada das árvores (2007), Formas de voltar para casa (2011), Meus documentos (2013) e Múltipla escolha (2014). O livro traz ainda nove histórias dispersas, publicadas em revistas, jornais e antologias. O que há em comum aqui é o tom, cristalino, delicado, com que Zambra conduz suas tramas. "O tom é a sua grande invenção", anotou o argentino Alan Pauls, um dos que fazem parte da irmandade cada vez mais numerosa de admiradores de Alejandro Zambra.



Nesta coletânea que mistura romances mais curtos com histórias que lembram contos, é possível ter uma visão dos temas favoritos do escritor chileno Alejandro Zambra, que nos leva para o Chile dos escritores em diferentes períodos da sua história.

Quem abre é Bonsai, suas 53 páginas são divididas em cinco partes para contar a história do fim do relacionamento de Julio e Emília.

Não se escondia das mulheres, mas da seriedade, pois sabia que a seriedade era tanto ou mais perigosa que as mulheres.


Em A vida privada das árvores a história que ocorre em uma única noite intercala lembranças e pensamentos enquanto Julián cuida da sua enteada Daniela enquanto esperam o retorno da mãe da menina.

Já Formas de voltar para casa faz um vai e vem entre presente e os anos 1970/1980, onde um menino descobre o primeiro amor em plena ditadura de Pinochet e anos depois desvenda as relações familiares da menina que amava.

O caso é que não tinha, a rigor, uma melhor amiga, quer dizer, tinha muitas amigas, que sempre a procuravam em busca de conselhos, mas a confiança nunca era totalmente recíproca.


O formato começa a mudar em Meus documentos, onde são reunidos onze textos que podem ser classificados como romances curtos ou contos, todos de formação, abordando principalmente o amor.

O para tudo ocorre em Múltipla escolha, as perguntas e as múltiplas possibilidades de resposta são recheadas de ironia, cotidiano e relações pessoais, que abordam tanto passagens da história como o tempo presente, possibilitando ótimas reflexões.

Às vezes acho que sempre esteve largado ali, pensando. Mas talvez não pensasse em nada. Talvez só fechasse os olhos e recebesse o presente com calma ou resignação.


E o livro fecha de forma perfeita com os Contos dispersos, onde diferentes histórias podem facilmente envolver o leitor.


A escrita de Alejandro Zambra

Nascido em 1975 na cidade de Santiago, no Chile, o escritor Alejandro Zambra tem até o momento suas obras traduzidas para 20 idiomas, apresentando assim para o mundo a sua visão do Chile do passado e do presente.

E em Ficção 2006-2014 não é diferente. Nos seus diferentes textos, que misturam desde a escrita padrão, passado por inovações - pelo menos para mim, que não havia visto um autor utilizar o formato de questões de prova para gerar micro contos - ele explora a complexidade das relações humanas de uma forma acessível e também provocativas.

Nós, crianças, entendíamos subitamente que não éramos tão importantes. Que havia coisas insondáveis que não podíamos saber nem compreender.


O que dá um toque muito grande de realidade na sua ficção, principalmente quando explora o período da ditadura e seus efeitos, e o conservadorismo chileno que tornou a realidade de alguns direitos bastante recentes para sua população, um exemplo é a lei do divórcio, onde o Chile foi um dos últimos países ocidentais a implantar.

Tornando o Chile e seus personagens muitos próximos do leitor justamente pela sua escrita que é ao mesmo tempo simples, direta, pessoal e intimista. Tornando os seus textos um convite quase irresistível de se mergulhar e esquecer da rotina por algum tempo.


O que eu achei de Ficção 2006-2014

Eu conheci a escrita de Alejandro Zambra através do livro O poeta chileno, que me encantou e me divertiu em todas as suas páginas. O que fez a minha expectativa para o livro seguinte subir bastante a régua.

Começo confessando que tive sentimentos diversos durante a leitura deste livro que mistura romances curtos e contos.

Talvez eu possa colocar desta maneira: meu pai era um computador e minha mãe, uma máquina de escrever.


A razão para isso foi que eu achei as primeiras quatro histórias muito parecidas, a ponto de um dia mais sonolenta achar que a segunda história ainda era primeira, visto que até o nome dos personagens Julio e Julián eram semelhantes.

O perfil dos personagens principais: homem, escritor, confuso, atrapalhado se repetem, sendo o principal motivo do sentimento de déjà-vu durante parte da leitura.

Queixar-se era algo estúpido, precisávamos aguentar, sermos machos. Mas a ideia de ser macho era confusa: às vezes significava valentia, às vezes, indolência.


Em compensação, achei Múltipla Escolha sensacional, uma crítica à política, educação, relações pessoais, entre outros assuntos, onde não existe resposta certa. Com o toque certo de acidez, elas vão do bom humor a reflexão muito fácil, tornando a leitura ao mesmo tempo divertida e inteligente.

Também gostei muito dos Contos dispersos, quase todos rápidos e envolventes, abordando situações diversas, fechando com a pandemia que afetou a todos a tão pouco tempo e uma que está no nosso dia-a-dia chamada e tela.

E tampouco escreve cartas de amor, nunca o fez, talvez porque não saiba nada sobre o amor, e não goste do que sabe, pois o que sabe é monstruoso.


Para quem busca mulheres protagonistas, pode ter um certo estranhamento, já que a presença delas são como agentes de transformação do homem - no geral escritor - a ser acompanhado durante a narrativa.

Em relação ao Poeta Chileno, em Ficção 2006-2014 encontrei menos humor, e em alguns momentos senti falta de diversidade entre as narrativas, o que me fez pensar que teria sido mais interessante intercalar a leitura com outros livros, pelo menos dos quatro romances curtos, isso daria tempo de me desconectar da história anterior.

Acorda com um grito, um grito próprio. E embora saiba que não era apropriado gritar, recebe o abraço cansado de alguém e fica em silêncio.

Mas no geral gostei sim do livro, e o segundo livro me consolidou como fã do escritor Alejandro Zambra. Então sim, recomendou este livro que me levou até diferentes décadas do Chile e tem aumentado cada dia a minha vontade de conhecer este país pessoalmente.


Ficção 2006-2014
Alejandro Zambra
Tradução: Josely Vianna Baptista, José Geraldo Couto e Miguel Del Castillo
Companhia das Letras
559 páginas

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Água Funda

Sinopse: Entrelaçando diferentes tempos e personagens, inserido no universo de uma comunidade rural na Serra da Mantiqueira, Ruth Guimarães construiu uma prosa ágil e fluída, permeada de ditos populares e causos marcados pela superstição e pelo fatalismo, que antecipa em certos aspectos o realismo mágico de Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. É o caso das histórias de Sinhá Carolina, dona da Fazenda Nossa Senhora dos Olhos d'Água, e do casal Joca e Curiango, trabalhadores locais, num arco temporal que vai da época da escravização até os anos 1930. Como afirma o narrador do livro: "A gente passa nesta vida como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada".



No mês de abril/2024 recebi da minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do rapper Emicida o livro Água Funda da escritora paulista Ruth Guimarães. O mimo foi um tarô literário.

Logo de início o leitor é convidado a saber como era antigamente, o que ficou igual, mas principalmente o que era diferente, e assim a primeira personagem da narrativa aparece: Sinhá Carolina.

Ter dor de barriga é uma coisa. Pensar na dor de barriga alheia é outra coisa muito diferente. Sempre parece que a dos outros dói menos.


Com a Sinhá vem o tempo da escravatura e as relações hipócritas e exploradoras dos que comandavam as terras, pois sustentar uma sociedade mimada e egoísta exige muito suor e esforço dos que devem servir.

Mas com a fazenda virando fábrica, vamos conhecer a história de Joca e da bonita Curiango, que com eles trazem as mudanças ao longo do tempo e diferentes personagens que vão completando não apenas a vida nesta sociedade, como também as diferenças sociais e crenças populares, que tão um toque de fantasia na narrativa.


A escrita de Ruth Guimarães

A escritora brasileira Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em junho de 1920 e nos deixou em maio de 2014. Publicou 51 livros entre contos, crônicas, traduções, ensaios folclóricos e romances, entre este último Água funda.

Em Água funda ela utiliza a narrativa em terceira pessoa. A escritora paulista nos convida a entrar em um bate-papo para compartilhar vários acontecimentos que iniciam em Vale da Paraíba, local que já proporcionou todos os desejos de uma sinhá mimada até um solo que não produz mais nada e gera decadência econômica para os que ficaram.

Os olhos deles tinham outro poder, que os de nós, pecadores não tinham. Viam mais. Criança e cachorro nunca se enganam.


O livro pulicado em 1946 tem uma escrita fluída, que entre fatos concretos e crenças dos que ali vivem, conseguem colocar o leitor em dia com os principais causos, casos e acontecimentos da comunidade local. 

Mas é também uma leitura que exige atenção, pois como em uma boa conversa em que se troca fofocas da vizinhança, os assuntos vão e voltam, o que pode provocar confusão e dúvidas em alguns momentos.

Porque o homem, por mais ignorante que seja, por mais cego, por mais bruto, gosta de ser tratado como gente.


Um livro que mistura ficção e um pouco da própria história do Brasil, mais especificamente do estado de São Paulo, ao mesmo tempo que nos apresenta uma escritora brasileira que talvez passe batido por vários leitores.


O que eu achei de Água funda

A leitura me despertou lembranças de uma querida vizinha de uma das minhas moradias anteriores que estava sempre por dentro das novidades do bairro. Isto se deve ao fato que durante a leitura inteira eu imaginei várias senhoras sentadas ao redor de uma fogueira ou apoiadas nas janelas de suas casas, todas bastante próximas, lembrando de fatos ocorridos na sua volta, com mais ênfase na vida dos personagens cujo o destino não foi tão afortunado.

Pois durante a leitura não existe um aprofundamento em relação ao envolvidos, como brincou a minha mãe: a narrativa em alguns momentos lembra mais uma água rasa.

Já morreu e isso não teve importância. Quem morre não faz falta, porque quem fica se arranja.


Mas ao mesmo tempo, até pela época em que foi escrita, é interessante a abordagem utilizada em relação as mudanças nas formas de se trabalhar, com direito a golpes que continuam a serem aplicados nos dias atuais em trabalhadores de regiões mais afastadas que recebem ofertas tentadoras, a questão das doenças mentais - outro assunto discutido e estudado nos dias de hoje -, além do declínio dos donos de escravos e as diferenças sociais que gritam com mais ou menos força, variando conforme ele se afastam da sua comunidade.

Então acredito que apesar do ar de conversa de vizinhança não aparentar ser tão profunda, a comunidade deste vale pode sim trazer excelentes reflexões não só sobre o passado, mas também sobre o presente, já que em muitas situações não há muitas evoluções nos dias de hoje.

As mágoas velhas, que a gente guardou, voltam e pegam a latejar de novo, nessas noites meio claras, meio escuras, de céu limpo.


No geral eu gostei de Água funda, a forma como a narrativa é ambientada me transportou para a roda de conversa, estimulou o meu lado curioso, e me fez ter interesse em suas crenças, estimulando uma discussão entre o meu lado que gosta de literatura fantástica e o meu lado mais cético.

Ficando a dica para quem gosta de livros que contam um pouco da história e cultura brasileira, quer ler mais livros escritos por mulheres e naturalmente, para quem simplesmente quer ler.


Água funda
Ruth Guimarães
TAG - Editora 34
2024 - 199 páginas
Publicado originalmente em 1946


sexta-feira, 12 de julho de 2024

Cem dias entre céu e mar



Sinopse: Madrugada de 10 de junho de 1984, porto de Lüderitz, Namíbia. Após catorze dias de espera, o barco a remo de um brasileiro desconhecido recebe autorização para zarpar rumo ao litoral baiano. Amyr Klink partiria em sua primeira grande viagem marítima, uma travessia absolutamente incomum: mais de 3500 milhas (cerca de 6.500 quilômetros) a bordo de um minúsculo barco a remo.



Primeiro livro do navegador e explorador brasileiro Amyr Klink, Cem dias entre céu e mar é o compartilhamento de um sonho que virou realidade: fazer a travessia pelo oceano Atlântico Sul saindo da África até redescobrir o Brasil chegando na Bahia.

 O livro inicia com a memória da compra de uma canoa chamada Rosa em 1977, pulamos 7 anos no tempo para a chegada na aduana no porto de Lüderitz em 1984. E assim começa a aventura de Klink, que decidiu retornar remando em uma canoa em formato de lâmpada para o Brasil.

Suas linhas perfeitas escondiam-lhe muito bem a idade. Muito se contava a respeito. Grandes aventuras, viagens perigosas. Todos na ilha a conheciam.


Na narrativa são cem dias de muito esforço físico, onde o tempo de descanso poderia ser escolhido ou forçado por tempestades onde as ondas parecem que irão engolir a canoa.

 A solidão é interrompida pelo contato semanal via rádio, por baleias, golfinhos, tubarões, peixes-voadores e dourados, estes últimos se tornando importantes aliados.

 Tenso, andando em direção ao cais, senti que aqueles seriam os meus últimos passos em terra firme.


Levando ao leitor sentir toda as tensões e emoções do autor ao viver uma aventura inesquecível.

 

A escrita de Amyr Klink

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, o explorador, navegador e escritor Amyr Klink convida aos leitores a entrarem em sua canoa e percorrerem junto com ele não apenas os cem dias entre céu e mar que separam a África do Brasil, mas também os preparativos e diversas memórias.

Com uma escrita estritamente agradável, é possível ao se entregar as páginas sentir o cheiro do mar, o sal da água, a tensão nos músculos, o cansaço de noites maldormidas, a felicidade nas pequenas conquistas.

 Quando voltaria a ver de novo Paraty, a família, o Brasil, as pessoas queridas de quem não pude me despedir? Sim, era estranha a sensação.


Somado a tudo isso há também o compartilhamento de fatos históricos e lendas marítimas conforme os locais pelo qual a canoa passa, tornando a viagem ainda mais interessante para quem topou embarcar.

 Sendo complementado no final com um glossário de termos náuticos para os mais interessados e a biografia utilizada para elaborar a rota e o projeto.

 

O que eu achei de Cem dias entre céu e mar

Eu já havia lido em 2010 o livro Linha D’Água – EntreEstaleiros e Homens do Mar, a viagem que Amyr Klink fez em um veleiro que vai da cidade de Paraty até a Antártica, e havia gostado muito.

Cem dias entre céu e mar chegou em uma caixa de autocuidado que assinei durante a pandemia e ficou perdido na famosa pilha de leituras pendentes, ao qual foi salvo este ano e lido rapidamente.

Encaixado no fundo da popa, eu não sentia o movimento do barco e só via o horizonte e as estrelas passando rápido pela janelinha. 


Como em Linha D’Água, encontrei uma história real de superação, de alguém que não apenas sonha, mas que se planeja para alcançar os objetivos propostos em jornadas que possibilitam autoconhecimento e novas aprendizagem.

Durante a leitura adorei a participação dos dourados, e confesso que fiquei bastante aflita - embora soubesse que tudo havia dado certo - com os tubarões e baleias que eventualmente tocavam a canoa.

O cabelo pingando, as roupas encharcadas e um fiozinho de água escorrendo pela nuca e descendo as costas, por dentro da blusa, coroavam uma típica segunda-feira. 


E não raro ficava imaginando o pavor em situações como quando a canoa virava uma bola de Ping Pong em um jogo bastante animado entre as ondas.

Como comentei anteriormente, achei a escrita bastante agradável, o livro é de fácil leitura e envolvimento. Foi muito fácil se sentir dentro da canoa com o Amyr Klink, e nos momentos de maior solidão que ele refletia sobre a própria história, não raro me peguei pensando do que eu sentiria saudade se encarasse uma jornada parecida.

Eu teria, então, provado que meus planos estavam certos e que a mais importante chave para o êxito da travessia estava há muito em minhas mãos: a rota. 


Ficando a indicação para quem gosta de narrativas de viagem, histórias reais, jornadas de autoconhecimento e claro quem gosta de ler.

 

Cem dias entre céu e mar
Amyr Klink
Companhia de bolso
1995 - 159 páginas

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Contos de Horror da América Latina



Sinopse: coletânea de clássicos do horror de autores da América Latina organizados por Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner que foi enviada aos sócios da TAG no mês de outubro/2023.

Na apresentação do livro com dez contos de autores consagrados e bem conhecidos pelos fãs do gênero, os que chegam espiando pela fechadura são apresentados as diversas qualificações que este realismo latino américa costuma ser apresentado ao grande público: mágico, fantástico e maravilhoso.

Mas não o maravilhoso de belo, com cenas românticas, laços afetuosos, frases motivacionais para colar com o post it. Maravilhoso em seu horror mais humano, pois não estamos falando de vampiros, lobisomens ou seres geneticamente modificados. Mas do que há de mais podre dentro de um ser humano. O que pode tornar a cara mais angelical, o pior monstro encontrado.

Como o sol, o calor e a calma ambiente, também o pai abre seu coração à natureza


Quem abre a coletânea é o escritor uruguaio Horácio Quiroga com O Filho, onde em um dia quente uma criança sai para caçar e não retorna na hora combinada com o seu pai.

A escritora carioca Júlia Lopes de Almeida nos apresenta Os porcos, onde o pai ao saber que a filha estava grávida lhe dá uma surra e promete dar seu neto de alimento aos porcos.

O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem.


O também carioca Lima Barreto vem com O cemitério, e uma sequência de pensamentos de um narrador que caminha pelo local.

O argentino Leopoldo Lugones nos conta sobre O homem morto, onde um homem circula por um vilarejo sendo denominado pela população como louco por um único motivo: ele acredita estar morto.

Chegara havia vários meses, sem querer informar sua procedência, e pedindo encarecida e desesperadamente que o considerassem falecido.


Já o maranhense Humberto de Campos narra O juramento feito por um senhor há trinta anos atrás ao se desiludir de amor.

A argentina Juana Manuela Gorriti com o seu Ervas e alfinetes coloca em discussão as crenças em superstições, mais especificamente as maldições, versus a ciência, após a experiência vivenciada por um médico.

Todos desejavam admirar, ou mesmo provar, os efeitos desse poder misterioso, do qual apenas tinham ouvido falar, e que preocupava os ânimos com um sentimento que misturava curiosidade e terror.


E como os autores cariocas dominam o livro de contos, quem segue é João do Rio contando uma história de carnaval em O bebê de tarlatana rosa.

Subindo a América temos o autor mexicano José Juan Tablada e o seu De além-túmulo sobre um encontro há muito esperado na madrugada.

Ao longo das ruas, úmido e frio, arrastava-se um vento de inverno que açoitava o vidro dos lampiões e fazia bruxulear os acendedores de gás.


E como não poderia faltar um dos maiores nomes da literatura brasileira, Machado de Assis vem com A causa secreta e a relação de três personagens cujos boatos percorreram o bairro.

Quem fecha é quem abriu este pequeno mundo de arrepios e calafrios. Sim, Horário Quiroga encerra a coletânea com A galinha degolada, conto que eu já havia lido a quinze anos atrás, e mesmo conhecendo, me provocaram um nó na garganta na releitura.


O que eu achei de Contos de Horror da América Latina

A coletânea possui dez contos curtos que abordam diferente situações dentro do cotidiano dos seus personagens, o que torna a leitura bastante diversificada, não dando ao leitor a sensação de mais do mesmo.

Dos contos que tem o toque do fantástico, passando pelos que parecem história de bêbado e as que me arrepiam só de relembrar por serem muito realizadas e nada impossíveis de acontecer no mundo real.

Em todo o seu aspecto sujo e desvalido, notava-se a absoluta falta de um mínimo cuidado materno.


Em comum todos despertam a curiosidade, o que torna o livro aquele curinga que você pode levar para qualquer lugar e por alguns minutos acessar um mundo paralelo um tanto sombrio.

No geral gostei bastante, como é normal, alguns contos eu amei e outros eu achei meio bobinhos, mas juntos eles conseguiram me dar a dose certa de terror.

Em verdade, o que se passou foi de tal natureza que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.


Ficando a dica para quem gosta do gênero, tem curiosidade em conhecer e claro, para os ratinhos de biblioteca.


Contos de Horror da América Latina
Vários autores
Organização: Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner
Tradução: Laura Jahn Scotte
TAG
2023 - 143 páginas

terça-feira, 9 de abril de 2024

Estorvo



Sinopse: A campainha insiste, o olho mágico altera o rosto atrás da porta e o narrador, preso entre o sonho e a vigília, inicia uma trajetória obsessiva na qual se depara com situações e personagens estranhamente familiares. Narrativa brilhante. Estreia do autor na literatura.

O livro de contos Anos de Chumbo não ganhou o meu coração, mas em Estorvo o cantor, compositor e escritor Chico Buarque ganhou toda a minha atenção.

Escrito no início dos anos de 1990 o livro possui uma história atemporal e de muita ação, que pode enlouquecer o leitor pela falta de detalhes explicativos ou cativa-lo a decifrar o que está acontecendo enquanto devora as páginas.

Um toque na campainha, o reconhecimento de um rosto, e o narrador leva o leitor para um vai e vem de lugares enquanto interage com a mãe, irmã e ex-mulher.

Para mim é muito cedo, fui deitar dia claro, não consigo definir aquele sujeito através do olho mágico.


Em um sitio que herdou do pai, um militar, um mundo paralelo onde ele parece estar invadindo um lugar que é dele e hoje é ocupado por figuras estranhas, onde nem ele escapa da violência que assombra o lugar.

Tudo em uma fuga que não se sabe se de alguém, do tempo ou dele mesmo.


A escrita de Chico Buarque

O autor Chico Buarque opta em Estorvo por uma narrativa em primeira pessoa que mais do que diálogos e pensamentos é uma sequência de ações que levam o personagem principal sempre aos mesmos lugares, andando em círculos em um eterno looping.

Não há muitas explicações, o leitor precisa ficar atento aos detalhes e aos diálogos com terceiros para tentar montar a sua versão do livro, e a própria vida e personalidade de quem nos guia, já que se o narrador em primeira pessoa por si só é suspeito, neste caso aqui ele prova e comprova que não é confiável.

E ter um filho, no meu cérebro, era notícia que entrava, mexia lá dentro, e não conseguia formar uma ideia.


Sem nome, a narrativa deixa claro que o Estorvo do título é o próprio personagem principal, que foi construído de forma a ser um peso morto na vida dos poucos que são obrigados a conviver com ele.

Seu olhar em cima das outras pessoas pode ser crítico ou pejorativo, levando o leitor mais inocente a acreditar que se trata de uma crítica social a burguesia. Mas calma, pois pelo seu estilo de vida não dá para saber se o tom é real ou apenas uma visão distorcida de quem só passa pela vida em um movimento cíclico e repetitivo, procurando o próprio fim e prejudicando quem lhe estende a mão.


O que eu achei de Estorvo

Na minha visão temos um filho de militar envolvido com o tráfico que vive às custas da irmã, evita o convívio com a mãe e perturba a ex-esposa de tempos em tempos. Um nem-nem na versão mais velha, um sanguessuga de mulheres.

Em sua vida circular, frequenta um sítio, sua herança de família, que foi invadido por bandidos. Lá ele apanha, leva objetos roubados, e dá informações da própria família. Foi estas visitas aqui que me fizeram deduzir que ele era um viciado em drogas, e potencialmente um traficante, e seu olhar sobre tudo tinha potencialidade de ilusório.

Não adianta ficar aqui parado. Eu não posso me esconder eternamente de um homem que não sei quem é.


Eu gostei do livro, toda a movimentação dá um ritmo cinematográfico nele, e a forma narrativa me permitiu usar a imaginação para criar uma própria versão de fatos, o que torna a leitura interessantíssima para quem tem grupo de leitura.

E por este motivo pode desagradar quem gosta de respostas, pois ao deixar margem para interpretação de quem lê, pode gerar uma finalização com mais ponto de interrogação do que ponto final.

A dor latejante me arranca da cama de manhãzinha. A porrada da véspera, eu havia esquecido e, sem querer, perdoado.


Um livro que pode agradar principalmente quem gosta de quebra-cabeças e/ou ritmo policial, e também uma ótima opção de leitura para férias ou para intercalar com livros mais densos, pois sua leitura é rápida e dinâmica.


Estorvo
Chico Buarque
Companhia das Letras
2021 - 203 páginas
Publicado originalmente em 1991


sexta-feira, 8 de março de 2024

O guarda-roupa modernista


Sinopse: Entre 1923 e 1929, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade formaram um par icônico da cultura brasileira. O casal Tarsiwald - apelido cunhado por Mário de Andrade -- se consagrou como um símbolo tanto no campo das artes visuais quanto no da literatura. Em O guarda-roupa modernista, a professora e pesquisadora Carolina Casarin mostra como os dois se apropriaram da moda para deixar a sua marca. Inédita, esta farta pesquisa revela como os ideais modernistas e as contradições do movimento podem ser compreendidos a partir da escolha das roupas de dois notáveis intérpretes do Brasil. 

Em O guarda-roupa modernista: o casal tarsila e oswald e a moda, a escritora alagoana Carolina Casarin compartilha sua pesquisa de doutorado relacionando diferentes registros da época: vestimentas, fotografias, pinturas, obras literárias, correspondências, depoimentos e recibos, para contar não só a história de um casal que marcou época pela sua personalidade, mas do próprio Brasil que começava a conhecer o modernismo.

O primeiro ponto a se observar é que, como já cantava Cazuza: vivemos em um museu de grandes novidades. E assim podemos dizer que o poeta Mário de Andrade foi quem iniciou a moda de shippar um casal com a utilização do Tarsiwald, sem a # por conta da época, obviamente.

Poucas peças do guarda-roupa de Tarsila e Oswald foram preservadas, e nem todas as que sobreviveram estão acessíveis ao publico.


Assim como mostrar uma sociedade intelectual burguesa que bebe muitos vinhos, viaja para a Europa e não dispensa a moda francesa para transmitir a sua mensagem e realizar o seu marketing pessoal através da roupa. 

No caso de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade as cartas registram as trocas de mensagens entre viagens, além de amenidades, listas de compras e indicações de estilistas, como Poiret, o favorito do casal modernista que curiosamente já havia perdido a popularidade na Europa por não se atualizar nas suas criações.

E, para Oswald, a "passagem" do Império para a República é um deslizamento de poder percebido de forma natural, mais continuação do que ruptura.


O livro aborda principalmente o período entre os anos de 1923 e 1929, tempo de relacionamento do casal título, que terminou justamente no ano da grande recessão, afetando não só os bolsos, mas como as relações sociais e amorosas da elite paulistana. Mas possui também citações de outros anos de ambos ao comentarem suas memórias.

Uma mistura de moda, busca pelo reconhecimento, arte e poesia entre os protagonistas do grande movimento cultural chamado modernismo no início do século XX, ao qual os ecos repercutem até os dias de hoje.


A escrita de Carolina Casarin

Por ser um livro baseado em uma pesquisa e de não-ficção, confesso que a escrita da autora Carolina Casarin me surpreendeu positivamente. Pois existe fluidez nos capítulos, tornando a leitura agradável.

Fazendo um paralelo com um documentário, os capítulos são bem divididos, e os textos conseguem misturar bem a pesquisa sobre as roupas e os fatos que estavam acontecendo tanto com o casal, quanto com os outros integrantes do movimento que originou o Modernismo.

Tarsila soube desfrutar de sua rara condição de autonomia, que lhe garantiu a liberdade de mulher adulta, manteve o desejo de independência e propiciou o contato com as novidades oferecidas pela vida cosmopolita.


A inclusão das fotos permite um entendimento melhor não só do estilo de roupa optado da época, como também observar por uma fresta um pouco da vida e as próprias obras da Tarsila, ao qual confesso ser fã.

Para quem deseja saber mais, ao final do livro estão listadas todas as biografias, notas e origens das informações utilizadas.


O que eu achei de O guarda-roupa modernista

Eu ganhei estes livros em uma ação comemorativa aos 100 anos do Modernismo feito pela editora Companhia das Letras. E devido ao meu tempo livre ter se reduzido nos últimos tempos, acabei postergando a leitura. Mas confesso que foi uma grata surpresa.

Por ser um trabalho de pesquisa dedicado ao detalhamento das roupas, dei uma pulada em algumas partes por ter achado mais maçante, até porque não sou da área nem uma aficionada em moda. Mas para os fashionistas de plantão, fiquei com a impressão que pode ser bem interessante, até pelo fato de a moda ser bastante cíclica.

O movimento modernista brasileiro foi amplo, com várias fases, e englobou literatura, artes plásticas, música e literatura.


O que realmente me atraiu foram os fatos históricos, as relações interpessoais da época, as personalidades que fizeram acontecer o movimento do modernismo, principalmente de Tarsila. 

Achei muito interessante conhecer um pouco mais da artista através das cartas trocadas e de comentários retirados de antigas entrevistas. Assim como o relacionamento do casal com a escritora Pagu, e fiquei imaginando se uma parte de Parque Industrial foi inspirada no que ela viveu junto ao grupo. 

As fotografias de grupo são exemplares para conhecermos os gestos, as poses e as fisionomias apreendidas pelos retratos.


Um livro de não-ficção que conta um pouquinho de uma geração do início do século XX que pode surpreender desavisados como eu e também quem curte saber sobre a influência da moda na nossa própria história.


O guarda-roupa modernista
o casal tarsila e oswald e a moda
Carolina Casarin
Companhia das Letras
2022 - 275 páginas

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Ela se chama Rodolfo


Sinopse: Murilo acaba de se mudar para um apartamento no qual a antiga moradora, Francesca, deixou uma tartaruga. Seguindo ordens recebidas por e-mail, tenta entregar o animal por meia Porto Alegre. A peregrinação parece inocente, mas a escritora Julia Dantas sabe que não há nada mais radical e transformador do que o encontro entre pessoas quando minimamente desarmadas.

Desde a pandemia virou tradição na TAG Curadoria enviar um livro mais leve em dezembro, e 2023 não terminou diferente. Recebi Ela se chama Rodolfo da escritora gaúcha Julia Dantas. A indicação foi do também escritor Tobias Carvalho. E o mimo foi um calendário com doze projetos gráficos tanto da Curadoria quanto da inéditos que já me faz companhia na mesa de trabalho.

Murilo é um professor e escritor frustrado que hoje trabalha como porteiro noturno. Contando os dias para sair de férias e ir atrás da ex-namorada Gabbriela, que ao resolver ir para um retiro espiritual em Goiás e só deixou lembranças e dívidas no cartão de Murilo, ele resolve alugar temporariamente um apartamento.

Alugar o apartamento de uma desconhecida, sem contrato nem garantias, era o tipo de ideia que ele jamais teria levado adiante sob circunstâncias habituais.


No banheiro do local encontra uma tartaruga sofrendo por falta de água. Após lhe reacender a vida, entra em contato com Francesca, dona do apartamento, para saber com quem pode deixar o animal

Entre as idas e vindas em busca do novo dono, há os conflitos de sua irmã Lídia, cujo marido em tratamento de câncer parece suga-la até a alma e Camilo, que um belo dia Murilo encontra dentro do apartamento e acaba ficando por ali mesmo.

Todos os dias, constata que o animal está saudável. Come, move-se, esconde a cabeça, o que mais poderia fazer?


E essa convivência irá fazer com que Murilo reflita sobre os últimos acontecimentos, revelando que nem tudo é exatamente como parece.


O que eu achei da escrita de Julia Dantas

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a autora Julia Dantas coloca o leitor para acompanhar as idas e vindas, encontros e desencontros do personagem Murilo.

E embora a história seja leve, ela também é arrastada, pois falta Porto Alegre se a intenção era fazer uma road book. E quem escreve aqui é uma gaúcha que mora justamente na capital do RS.

As lembranças o deixam exausto, cansaria menos se ficasse acordado.


Falta Porto Alegre nas descrições da cidade, onde parecem saídos diretamente do Google Maps, no chimarrão que não estava presente em nenhuma mão, nos diálogos onde não se encontra nenhum Bah.

Por outro lado, isso permite que a narrativa possa ser adaptada em qualquer lugar do mundo, até mesmo em um lugar fictício, já que não há muita descrição ou referência, tornando a história adaptável ao local do leitor.

Sempre a partir do fim da tarde, os urubus se jogam das alturas e despencam em velocidade terrível até a calçada. Não precisam disputar comida. Há de sobra para todos.


No geral um livro que pincela em seus capítulos  - curtos, sem número ou nome - várias situações, que vão de uma pessoa que estuda e acaba sem objetivo na vida até aquela que precisa confrontar a família para se sentir confortável com o que vê no espelho.


O que eu achei de Ela se chama Rodolfo

É curioso como a minha régua sobe quando se trata de um livro enviado pela TAG, mesmo quando se trata de livros mais leves. Eu espero que a história tenha um diferencial, que me apresente algo novo ou tenha algo diferente na narrativa. E infelizmente não é o caso de Ela se chama Rodolfo.

Começo com as várias movimentações do personagem pela cidade com o objetivo de encontrar um dono para a tartaruga: elas não acrescentam nada a história, e eu ficava e perguntando se não era mais fácil economizar as passagens de ônibus e entrar em contato via whats. Aliás, porque a própria Francesca, que tinha acesso a um e-mail, não fazia isso?

Não há jeito. Existe uma aparente incompatibilidade irreversível entre tartarugas e agricultores.


O motivo é que tanto na descrição dos lugares como nos diálogos com os figurantes que entram e saem em uma sucessão de negativas, tornaram esta parte da narrativa bastante enfadonha para mim, pois não acrescentam nada a história.

O personagem principal é um homem que não sabe o que quer da vida. O trauma de infância que cai no colo do leitor no meio da narrativa não surtiu nenhum impacto em mim. Sendo apenas mais uma muleta para um personagem que sai do nada e vai para lugar algum.

Sou do tipo que prefere manter distância dos excessos, inclusive os excessos de gente. Não sou bom com pessoas, e essa é uma expressão perfeita.


Como a narrativa é centralizada no Murilo, não ficamos sabendo muito sobre os personagens coadjuvantes, cujas participações demonstraram ter mais possibilidades para serem explorados. Principalmente Francesca que acaba sendo uma participação especial para justificar o nome da tartaruga. Aqui sim um ponto que achei bem perspicaz.

No geral achei a primeira metade do livro arrastada e repetitiva, a segunda metade melhora, mas não o suficiente para me encantar, e assim achei o livro mais ou menos.

A ideia de trocar palavras ocas com quem ele não tinha intimidade lhe parecia um imenso desperdício de vida.


Mas como ele pode provocar uma reação completamente diferente em você, fica a dica de uma leitura nacional, onde você não vai conhecer a cidade de Porto Alegre, mas quem sabe se conectar com alguns dos pontos abordados e ter uma relação bem melhor que a minha com o livro. 


Ela se chama Rodolfo
Julia Dantas
TAG - DBA Editora
2023 - 263 páginas
Publicado originalmente em 2022

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Tudo é rio



Sinopse: Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira. Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso. A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui – ora intensa, ora mais branda – de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.

Lucy era uma menina mimada pelos pais, desde pequena dominava e manipulava a todos, principalmente os adultos. Com a morte prematura de seus progenitores, se vê como uma gata borralheira vivendo com a tia e sua família. Até que no início da adolescência encontra a profissão que lhe dará independência e permitirá receber todos os elogios que sua beleza exige: resolve ser prostituta.

Venâncio é um homem amargurado. Teve uma infância difícil junto ao seu pai, que era machista e violento. Violência que encontra eco em Venâncio quando este encontra o amor e é correspondido. Dominado por um ciúme que cega, ele vive em eterno tormento e procura eventualmente os serviços do prostibulo próximo.


Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.


Dalva vem de uma família amorosa que fornece apoio aos seus filhos. A mãe é uma apaziguadora natural, que permite aos filhos viverem as consequências das suas escolhas. O pai trata a todos com carinho e tenta proteger a todos. Com os amigos sempre a volta, Dalva tem uma leveza e uma alegria, até se apaixonar por Venâncio.

E são os encontros e desencontros deste triângulo que está longe de ser amoroso que irão desaguar nas páginas de Tudo é Rio, um livro rápido e intenso de ler.


A escrita de Carla Madeira

A autora brasileira Carla Madeira utiliza a linguagem em terceira pessoa no seu Tudo é Rio. Os capítulos são curtos - um tem apenas uma palavra - e diretos, dando um ritmo rápido e intenso de leitura.

As informações e os personagens vão entrando aos poucos. Havendo um vai e vem do passado e presente para entender não só o crescimento e amadurecimento dos personagens, como os acontecimentos que os levaram até ali. E quanto mais você os conhece, mais fácil ou difícil fica de entender as escolhas do trio.


O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidade que cabem na ciência.


O rio aqui é uma metáfora justamente para este vai e vem. Em alguns momentos ele é mais profundo, outras mais raso, podendo ganhar rapidez nas descidas e um pouco de calma nas leves subidas, o que também permitiria lhe dar o nome de Tudo é Montanha Russa.


O que eu achei de Tudo é Rio

A primeira coisa é que educadamente discordo da escritora gaúcha Martha Medeiros que o chama de uma obra-prima. O livro é bom, mas como todo livro de estreia as referências gritam e sempre vai haver aquela questão que poderia ser melhor trabalhada.

Vou começar com a personagem Lucy, cujo início da história parece uma mistura de Cinderela e Bruna Surfistinha. A menina mimada pelos pais que se sente a gata borralheira ao ficar órfã e ter que morar com a tia, o tio e as duas primas. Sem conseguir manipular a tia, usa sua sexualidade natural para atender os desejos do seu ego e narcisismo. Pois sim, Lucy sente a necessidade de ser adorada, e as suas atitudes que podem parecer confiança e empoderamento para alguns me passou justamente o sentimento contrário, de uma pessoa insegura, carente e perdida.

Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desespero, nada por vir.

Já Venâncio é um homem atormentado pelas consequências de suas ações, ao qual frequentemente tenta terceirizar a sua culpa para a figura paterna. Em seu semblante o sofrimento pela esposa, que ama de forma desmedida, não o perdoar, transformando-o em uma espécie de zumbi. Curiosamente é essa postura de morto-vivo que encanta a prostituta Lucy, cuja obsessão por Venâncio só aumenta conforme ele a esnoba. Mas ao contrário de Lucy não achei a dor de Venâncio charmosa ou digna de pena, no mínimo caso de internação.

Deixei para o fim a personagem mais complexa na minha humilde opinião: Dalva. A personagem que despertou quase todas as minhas reações durante a leitura. A única que eu gostaria de estar dentro da mente para compreender seus atos. Como seguir morando com um homem que cometeu uma das ações mais imperdoáveis que um ser humano pode cometer? Sim, sua distância física e seu silêncio maltratam Venâncio, o homem que foi de seu grande amor a algoz. Mas porque optar por sobreviver e não recomeçar em outro lugar, longe de quem te entristece? Qual o motivo de não buscar segurança para viver novamente de forma plena? Amor doentio? Vingança?

Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe.


Enfim, Dalva foi a razão por eu finalizar o livro com raiva e achar que o triângulo seriam candidatos perfeitos para habitar algum sanatório, ou quem sabe a Casa Verde de O Alienista?

Como extra falo sobre Francisca e Aurora. Duas figuras com participações mais pontuais que despertam interesse pelas suas próprias histórias e suas formas de lidarem com diferentes fatos. Francisca se doa as pessoas, sua história de vida toca em meio à loucura dos três personagens principais. Já Aurora é aquela pessoa que transmite tranquilidade e otimismo, dando espaço aos filhos para cometerem seus acertos e erros. O que torna mais complicado de entender o comportamento de Dalva.

O imperdoável, o rompimento irreversível. Nada a ser dito. Uma espécie de morte.

Mas só o fato de despertar inúmeras reações, já fez a leitura valer, e sim, é um livro que pode provocar vários debates sobre as relações humanas e sociais, desde o machismo, passando por relações que ultrapassam a definição de amor, perdas, perdão entre outras pautas que você pode encontrar.

Ficando a dica para os leitores do blog que curtem conflitos familiares, cenas apimentadas e claro, adoram ler.


Tudo é rio
Carla Madeira
Editora Record
2023 - 209
Edição original de 2014.