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quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A melhor história está por vir


Sinopse: Um furacão acaba de passar pela vida da professora espanhola Blanca Perea: o que parecia um casamento feliz de vinte anos termina bruscamente quando seu marido lhe abandona por uma mulher mais jovem, e logo ela é avisada de que, além da nova união, o novo casal também espera um filho. Incapaz de continuar vivendo do mesmo jeito enquanto seu coração está despedaçado, ela aceita uma proposta de emprego nos Estados Unidos para organizar os arquivos esquecidos do falecido professor Andrés Fontana. mais do que um recomeço, é a chance de Blanca se reencontrar, descobrir o que existe dentro de si e reconstruir sua felicidade. O trabalho, que no começo parece simples, se mostra cada vez mais suspeito e, entre documentos e novos colegas, como o charmoso Daniel Carter e o rígido diretor Luis Zárate, Blanca começa a perceber que algumas coisas não são esquecidas por acaso.

Escrito pela espanhola María Dueñas, a mesma autora de O Tempo Entre Costura, o título dado para a versão brasileira definitivamente não representa a narrativa. O título original de Misión Olvido representa muito melhor essa história que na verdade é três, já que podemos dizer que o livro é composto de três personagens principais.

Blanca Perea é uma professora universitária, na casa dos quarenta anos, com dois filhos iniciando a vida adulta, tentando administrar um divórcio recente após uma vida se colocando em segundo lugar para evolução profissional do marido. 

De qualquer maneira, antevia que meu trabalho não seria nem estimulante nem enriquecedor, mas, por ora, bastava-me ter conseguido, graças a ele, fugir da minha realidade com a pressa que do diabo fugindo da cruz. 


Precisando de um tempo, ela pede ajuda para uma transferência temporária. Entre as bolsas ainda disponíveis os destinos são Lituânia, Portugal e Estados Unidos. Em um primeiro momento ela cogita Portugal, onde ela estaria longe e perto ao mesmo tempo.

Enquanto decide o seu destino ela recebe mais uma notícia bomba, seu marido vai ser pai novamente, agora de uma menina. A menina que ele lhe negou tentar mesmo após inúmeros pedidos. E na necessidade de se afastar ainda mais, ela decide colocar um oceano de distância e pega uma bolsa na Califórnia.

Aquela pequena mudança de planos no calendário desviou irremediavelmente seu destino: por conta dos maus passes da história, nunca voltou.


O objeto da sua pesquisa é o professor espanhol Andrés Fontana, falecido em 1969, teve toda a sua documentação esquecida e armazenada de forma desorganizada em um porão da universidade.

Inicialmente o trabalho é feito de forma mecânica, mas logo a história que os inúmeros papeis escondem atraem a atenção de Blanca, fazendo com que ela dê a devida atenção ao homem que saiu da pobreza na Espanha e nunca mais voltou a ver os seus devido à guerra mundial e a ditadura que assolou o seu país.

Nessas circunstâncias, decidi comemorar a data, talvez para provar a mim mesma que a vida, apesar de tudo, seguia em frente.


Mas além da sua própria história, há os papeis falando das missões jesuíticas em território americano que despertam a atenção em outras pessoas. Principalmente as que lutam pela não instalação de um shopping em um agradável ponto da cidade de Santa Cecília.

Como o professor e escritor Daniel Carter, que além de estar na defesa do local foi um aluno orientado pelo próprio Andrés, tendo vivido as suas próprias aventuras na Espanha, as quais mudaram a sua vida para sempre.


A escrita de María Dueñas


A autora mescla narrativa em primeira e terceira pessoa, conforme o personagem escolhido para o capítulo. Por se tratar muito mais de passado do que presente, aos poucos ela vai nos revelando o cotidiano de Blanca, o caminho percorrido por Andrés e o motivo pelo interesse de Daniel nas missões tão pesquisadas pelo seu mestre.

E apesar da sinopse dar um ar de suspense, o mesmo não se reflete na escrita. Não há perigos físicos, apenas os mentais quando os personagens são obrigados a enfrentar os próprios fantasmas. Seja Blanca tendo que superar a própria mágoa com o fim de um relacionamento ao qual ela tanto se doou, seja Daniel tendo que abrir a sua própria caixa de pandora.

Uma vida que, de repente, quase de um dia para o outro, havia exigido que me reinventasse e começasse a dar voltas incertas.


Os personagens secundários complementam a história, como Rebecca que já passou pela mesma situação de Blanca e se torna sua primeira amiga nos Estados Unidos, a funcionária da universidade Fanny que foi recomendada por Andrés e vive com uma mãe amargurada, dona Antonia que recebe os jovens estudantes tão bem em sua casa na Espanha, a irmã de Blanca que quer ver fogo no parquinho e o diretor bonitão.

Como cenário há guerra, ditatura espanhola e os efeitos em sua sociedade enquanto os personagens vão construindo o que Blanca só irá descobrir anos depois, quando organizar os papeis de Andrés.


O que eu achei de A melhor história está por vir


Eu gostei muito do início da narrativa, a sequência de fatos que fazem Blanca trocar a Espanha pelos Estados Unidos para fugir de suas tristezas já mexeram comigo. Afinal, quantas pessoas já não desejaram pelo menos uma vez na vida deixar todos os problemas para trás e recomeçar do zero sem a sombra do passado? Mesmo que por um curto período de tempo.

E o livro captou de vez a minha atenção quando a vida do professor André Fontana passa a ser contada, aliás, o primeiro ponto negativo na leitura para mim foi parar de explorar a vida do personagem, que se apresentou tão rico e teve a sua narrativa interrompida do nada para entrar um terceiro personagem.

Mas atingir certa idade tem seu lado positivo. Você perde algumas coisas pelo caminho, mas ganha outras também. Aprende a ver o mundo de outra maneira, por exemplo, desenvolve sentimentos estranhos.


E quando a história passa a ser do Daniel Carter meu ritmo de leitura passou a diminuir, apesar de instigar a procura por uma conexão que vá além do fato de ele ser um aluno do Andrés enviado para a Espanha, tendo contato com pessoas do passado do professor, senti falta de mais exploração disso.

E não só dos contatos como do escritor que ele vai pesquisar, pois aqui, dando um spoiler - pule o parágrafo se não quiser nenhum - acaba sendo uma história de amor de início proibida que dá um toque de comédia na narrativa quando ganha apoio da missão americana em solo espanhol, mas ao mesmo tempo cansa um pouco, devido a pausa total que dá no restante da história.

Dizem que a compaixão é um sintoma de maturidade emocional; não é uma obrigação moral nem um sentimento que nasce da reflexão. 


O que me fez achar o tempo presente parecer um tanto superficial, ficando um tanto corrido e pouco explorado e as demais histórias com a sensação de que havia muito mais para ser explorado.

Mas no geral eu gostei, achei super interessante a questão das missões jesuíticas, que eu não tinha conhecimento nenhum, e me fez recordar as que temos no sul do Brasil e nos países vizinhos.

Ficando a dica para quem ficou curioso, gosta da escrita da autora, curte narrativas com fundo histórico ou simplesmente para quem gosta de ler.


A melhor história está por vir
Misión Olvido
María Dueñas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Planeta - 352 páginas
Originalmente publicado em 2012


terça-feira, 28 de setembro de 2021

Os cem anos de Lenni e Margot



Sinopse: Lenni é uma adolescente de dezessete anos, dona de uma personalidade especial e de muito carisma. Pode-se dizer que é uma garota cheia de via... exceto que, segundo os médicos, ela está à beira da morte. Como um modo de preencher seus dias no hospital em que está internada e sozinha - e de cumprir uma aposta feita com o padre da capela -, Lenni começa a frequentar aulas de arte terapêutica. E é então que conhece Margot, uma senhora de oitenta e três anos, doce e de coração rebelde como o de Lenni. A conexão entre elas é intensa e imediata, e as duas percebem uma peculiaridade: juntas, têm um século de via! Para celebrar esses cem anos que compartilham, decide montar uma exposição de cem pinturas. Em cada uma, retratam uma memória importante dos anos que viveram. Histórias de paixão, juventude, amadurecimento, alegria, afeto, de quando se encontra em alguém o amor de sua vida. Histórias que merecem, sempre, ser compartilhadas.

No mês de agosto/21 recebi da minha assinatura da TAG Inéditos o livro de estreia da escritora inglesa Marianne Cronin Os cem anos de Lenni e Margot. De mimo veio um livro de colorir com trechos e desenhos que remetem o livro, além de uma caixinha com seus lápis de cores. Mas se junto viesse uma caixa de lenço, não teria sido demais.

Lenni é uma jovem de dezessete anos de mente e língua afiada, curiosa e inteligente, como toda adolescente se sente entediada ao ter que ficar muito tempo em um mesmo lugar. E no caso dela isso é rotineiro, pois ela mora no Hospital Princess Royal, na cidade de Glasgow na Escócia. É uma paciente da Ala May, onde ficam crianças e adolescentes com doenças limitantes da vida, mais popularmente chamadas de doenças terminais.


Quando as pessoas dizem "terminal", penso em aeroporto.


A jovem cansada de ficar na cama que se tornou seu lar resolve aproveitar uma obrigação prevista em lei para as pessoas que possuem crenças religiosas e assim passear até a capela do hospital, e assim ela conhece o Padre Arthur, um senhor que muitas vezes me pareceu quase um anjo que aparecia de tempos em tempos na história.

Da mesma forma ocorre com a Sala Rosa, local onde a arte é utilizada como meio terapêutico e logo chama a sua atenção. Os responsáveis até tentam deixa-la em uma turma de adolescentes cujo diagnóstico é bem mais simples que o de Lenni, mas como ocorria antes de sua internação, ela não consegue interagir com pessoas de sua idade. Diferentemente do que ocorre na turma da terceira idade, onde logo ela se sente à vontade e encontra Margot, que está internada por um problema cardíaco.


Dizem que quando alguém morre é porque Deus chamou a pessoa de volta para ele, então pensei em me apresentar logo de uma vez.


A conexão com esta jovem senhora de 83 anos é imediata, e conforme elas conversam, surge a ideia de somar suas idades e fazer uma exposição com desenhos que retratam situações que marcaram suas vidas. Se por um lado Margot desenha muito bem, por outro, Lenni registra tudo o que ocorre e que ela descobre em um caderno. 

E é desta forma que o leitor irá conhecer aos poucos a história destas duas personagens e entende-las um pouco mais. Como o fato de Lenni não se conectar com pessoas de sua idade há muito tempo, não receber visitas de nenhum familiar - o que inclui seus pais -, questionar Deus e não se sentir pronta para morrer. 


Em alguma parte do mundo lá fora estão as pessoas que nos emocionaram, que nos amaram ou que fugiram de nós.


Ou a intensidade de Margot, com seus amores, os anos de guerra e paz, sua avó paterna mesquinha, sua mãe tão forte e presente, suas fugas e procuras.

Narrado em primeira pessoa pelo que Lenni vive e escuta, Os cem anos de Lenni e Margot é uma leitura muito sensível, principalmente trazendo a memória das personagens os diferentes tipos de acontecimentos, dos mais comuns, passando pelos muitos felizes até aqueles que as fizeram cair, para depois se levantarem e seguirem suas caminhadas.


De qualquer modo, não sou boa em perdoar as pessoas porque acho difícil esquecer.


Não poderia deixar de falar dos personagens secundários, como o Padre Arthur que sempre respondeu de maneira muito sincera as perguntas de Lenni, por mais diferentes e provocativas que elas fossem. Da enfermeira nova que não tem o seu nome revelado na história, mas participa ativamente dos acontecimentos. Da moça que tem a ideia de criar a Sala Rosa e encontra perdas e ganhos nos corredores do hospital.

Eu gostei da história, seus diálogos são interessantes, existe uma ironia as vezes direta, as vezes sutil. Como que provocando o leitor a buscar as suas próprias imagens, o que ele desenharia para representar cada ano de sua própria vida, quais os símbolos pessoais que ela carrega.


E agora eu podia dizer com sinceridade que havia experimentado o bolo de meu centésimo aniversário.


Mas não achei o livro de todo leve, por ter a presença constante da morte, principalmente em uma menina tão jovem, com tantas possibilidades e escolhas a serem feitas. Para os mais sensíveis ele pode ser um pouco difícil em alguns momentos, ao mesmo tempo que instiga a dar mais valor em aproveitar este bem tão preciso chamado Vida. 

Na edição da TAG Inéditos há ainda uma entrevista com a autora, com perguntas dos livros favoritos de Marianne Cronin até detalhes da própria Lenni e Margot, sendo um complemento pós leitura.

Os cem anos de Lenni e Margot
The One Hundred Years of Lenni and Margot
Marianne Cronin
Tradução: Flávia Souto Maior
TAG - Planeta
2020 - 351 páginas

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terça-feira, 3 de agosto de 2021

Espelho Partido


Sinopse: Espelho Partido é um livro de bastidores. As antigas criadas contam às mais jovens as lendas e os mistérios que envolvem a família Valladaura, mas o quadro completo pertence ao leitor, senhor dessa teia de segredos. Nas palavras da autora Mercè Rodoreda, expoente da cultura catalã do século XX, "Espelho partido é um romance em que todo mundo se apaixona por quem não tem de se apaixonar e quem sente falta de amor procura obtê-lo seja como for: no intervalo de uma hora ou no intervalo de um momento". O passado surge como os tentáculos de um polvo negro e viscoso: um suicídio em Viena, um filho perdido e rejeitado, uma amante cançonetista e uma filha bastarda. Fratricídio. E é com cores intensas que a autora salpica essa narrativa dolorida, que vai do cruel ao comovente, cujo fim se dá um pouco após a Guerra Civil Espanhola.


No mês de junho/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Espelho Partido, da escritora catalã Mercè Rodoreda, indicação de uma outra autora espanhola, cuja escrita eu adoro: Rosa Montero, e tem o seu livro A Louca da Casa foi publicado resenhado aqui no blog. O mimo foi um bonito álbum de fotos com frases sobre memórias.

Teresa é uma jovem muito bonita, que ao ficar órfã recebe o pedido de casamento de um senhor velho e rico. Assim ela abandona a vida como vendedora de peixes, entrega o seu filho ainda bebê, junto com um bom valor em dinheiro, para ser criado pelo seu amante e a esposa. E assim ela recomeça uma nova vida, se adaptando ao novo meio social.


Era um dia encoberto; de vez em quando, entre duas nuvens, aparecia um raio de sol pálido que não durava tanto.


Após ficar viúva é apresentada por amigos a Salvador Valldaura, um homem traumatizado pela perda abrupta de um amor inocente e idealizado. Mas ao ver Teresa, ele se apaixona por ela e a pede em casamento, e assim começa a história da família no impressionante palacete em Sant Gervasi, onde terão uma única filha e mais tarde seus netos como moradores.

Mas ao contrário do que é indicado na sinopse, a história aqui não é contada apenas pelas criadas, e apesar de haver alguns personagens mais explorados, não existe exatamente um principal, pelo menos na minha opinião.


Aqueles olhos aveludados e aquele riso contagiante o deixaram apaixonado.


Narrado em terceira pessoa, cada capítulo traz o olhar de um personagem, sendo que Teresa é a que mais se repete, pois, o leitor a acompanha da juventude até a sua velhice. Mas além dela estão seus amores, seus filhos, seus netos, as criadas, fantasmas e animais.

Em comum tudo está centralizado no palacete, com seu enorme jardim, o seu loureiro, as torres, e no interior seus armários, livros, fotos, cortinas, papeis de parede. Cada móvel uma lembrança, uma memória, que pode ser guardada ou simplesmente destruída. Sendo uma forma simbólica de união, separação, ostentação, degradação, e sobretudo, passagem do tempo.


Tinha-o à frente, estranho, distante de sua vida de mulher rica, quase como se fosse algo encostado...


São três gerações que passam por baixo do enorme teto, entre alegrias e tristezas, há naturalmente as diferenças de opiniões, objetivos e caráter, afinal, família não se escolhe, simplesmente se nasce nela, assim como os sentimentos que corroem cada ser humano, o que provoca indiferença, o que gera arrependimento, o que pode consumir a alma e o que nos devolve a vida.

Eu já havia lido A Praça Diamante de Mercè Rodoreda, também resenhado aqui no blog, e gostei muito do estilo de escrita da autora, de colocar o leitor na rotina de seus personagens, de dar a visão do todo, nos permitindo formar as nossas próprias opiniões e nos sentir extremamente junto a eles, compartilhando o sobe e desce das escadas, os cheiros nas cozinhas ou tendo os olhos ofuscados pelas joias.


Se, em vez de ter nascido para servir, tivesse nascido para ser uma senhora, não teria usado joias - ou teria pouquíssimas.


O que me fez encontrar algumas semelhanças entre os dois livros, como o uso dos pássaros, se na Praça Diamante tínhamos as pombas agora em Espelho Partido são as rolinhas, e eles nunca estão à toa na história. Assim como uma leve pitada de fantástico, que sutilmente nos arrepiar a nuca e nos levar além das paredes literárias. Além é claro de ambos proporcionarem uma viagem por Barcelona, cenário que sempre mistura o colorido e o gótico em suas ruas e prédios.

Em relação a Guerra Civil Espanhola, ao contrário da Praça do Diamante cujos personagens a vivem com força, em Espelho Partido é tudo muito sutil, pois todo o seu impacto e consequências são evidenciados muito mais no próprio palacete do que na vida dos que ali viveram.


Não tenho palavras, não posso dizer o que acontece comigo, minhas palavras não estão em lugar nenhum.


De bônus, para quem gosta de ir além da história, há um Epílogo onde a escritora fala sobre a criação de um romance, inspirações, suas obras, e o que há em comum em seus livros, como anjos e metamorfoses. Um verdadeiro presente para quem admira Mercè Rodoreda e tinha curiosidade em saber mais.

Um leitura que eu recomendo para quem gosta de viajar por outras cidades sem sair do lugar, para quem gosta de acompanhar gerações de famílias, para quem quer conhecer livros de outras culturas, para quem simplesmente gosta de ler.


Espelho Partido
Mirall Trencat
Mercè Rodoreda
Tradução: Luis Reyes Gil
TAG - Planeta
1974 - 315 páginas

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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Escola de contos eróticos para viúvas



Sinopse: Filha de imigrantes indianos, Nikki passou a maior parte de seus vinte e tantos anos distanciando-se da tradicional comunidade sikh, preferindo uma vida mais independente e, em outras palavras, ocidental. Quando a morte de seu pai deixa a família desestruturada, Nikki se habilita a dar aulas de escrita criativa em um centro comunitário no coração da comunidade punjabi em Londres. Logo no primeiro dia de trabalho, Nikki descobre que, na verdade, as viúvas sikh que aparecem para o curso estão esperando aprender alfabetização básica em inglês, e não a arte de escrever contos. Nikki está prestes a desistir da tarefa quando um livro erótico cai no colo das alunas e causa um furor na sala de aula. A jovem professora percebe que, por baixo de seus sáris brancos, elas têm uma riqueza de fantasias e memórias. Ansiosa por libertar essas mulheres, Nikki as ensina a escrever suas histórias não contadas, desencadeando um processo criativo inesperado - e perigoso.

Nikki vive uma vida de uma garota ocidental, morando sozinha e trabalhando em um bar no período da noite, carrega a culpa de o pai ter falecido sem ter perdoado a sua decisão de parar com o curso de direito. A jovem mulher ainda busca um caminho para a sua vida quando se depara com a necessidade de ajudar sua mãe financeiramente.


O Marido ideal tinha emprego estável e até três hobbies que lhe trouxessem crescimento mental e físico.


O destino começa a mudar o rumo de tudo quando sua irmã lhe pede para colocar um anúncio no centro comunitário em que procura um marido. Apesar de Nikki não concordar com a ideia de casamento arranjado, ela vai até o local e na procura por um espaço, vê a chance de um segundo emprego ao ler um o anuncio onde procuram uma professora de escrita criativa.

O anúncio foi colocado por Kulwinder Kaur, uma mulher indiana que além de vive com a dor de ter perdido a filha tem que conviver com uma constante ameaça de não poder exigir da polícia uma melhor investigação sobre a morte, cuja forma a impede de aceitar.


Aquelas eram suas alunas, mas também eram senhoras punjabi e ela teria que se dirigir a elas da maneira correta.


No centro comunitário ela busca melhorar as opções para as mulheres que estão à sua volta, buscando verba entre líderes machistas. O curso para ensinar as mulheres lerem e escreverem em inglês parece um grande passo. Mas por também não dominar a língua inglesa, acaba copiando um anúncio errado, o que faz com que o seu caminho acabe cruzando com o de Nikki.

Este foi um livro que comprei pelo título, lembro de ver a chamada no qual dizia que era uma indicação do clube de livros da atriz Reese Witherspoon e criei uma grande expectativa, mas antecipo aqui que ela não foi plenamente correspondida.


Ela nunca havia visto alguém tão ofendido por uma cabeça descoberta próxima ao templo. Quem era ele para ficar lhe dando ordens?


A escritora Balli Kaur Jaswal explora três pontos em paralelo no seu livro: a cultura e tradições de imigrantes da Índia e do Paquistão que moram em território londrino, o erotismo no universo feminino e um suspense-policial em relação a morte da filha da personagem Kulwinder Kaur.

Vou começar com o erotismo, o chamariz do título, onde as mulheres de diferentes idades narram de forma oral, lembrando uma antiga tradição, histórias eróticas que podem se revelar frutos de sua imaginação ou influência de séries e filmes. Os contos aqui lembram muito aqueles romances de banca, onde o foco da história são as relações físicas. Ao mesmo tempo é interessante como algumas histórias quebram totalmente o conceito conservador que essas mulheres carregam, tendo um que particularmente me surpreendeu.


Aquelas mulheres são tímidas e amedrontadas. Não recebiam atenção nenhuma dos maridos - pelo menos não do tipo que gostariam...


Sobre a parte cultural, ela aborda bem a questão da ocidentalização versus os que mantém a cultura viva. Da necessidade de fazer as próprias escolhas a saudade da terra, das vestimentas ao machismo, é possível ter diferentes olhares sobre uma mesma situação. Junto com a personagem, acompanhamos a quebra de vários conceitos pré-estabelecidos por ela.

Ao mesmo tempo se tem aquela visão antiga do que uma mulher pode ou não em relação ao seu corpo, relacionamento, sexualidade e escolhas. Me levando a refletir como leitora como isso é comum em todas as culturas, algumas em grau maior, em outras menores. Quando na realidade as únicas que deveria poder determinar o que pode ou não são as próprias mulheres.


Esse é o problema de se ter muita imaginação, Nikki. As garotas começam a desejar demais.


O que pra mim não agregou foi justamente o mistério da morte, o que poderia ser uma tensão extra me parece sobrar na história, já que não tem espaço suficiente para um desenvolvimento completo, o que gera uma solução bem rápida. Ao mesmo tempo esta parte me pareceu ocupar páginas que poderiam ter sido explorado talvez de forma mais interessante pelos outros dois assuntos pautados.

Mas mesmo não tendo toda a expectativa atendida, eu dei boas risadas com a história, o que combinou perfeitamente com o clima de verão. É uma leitura leve, de escrita fácil, que horas me cativou a virar várias páginas, horas me permitiu adotar um ritmo mais lento.


Escola de contos eróticos para viúvas
Erotic stories for Punjabi widows
Balli Kaur Jaswal
Tradução: Flávia Souto Maior
TAG - Planeta
2017 - 348 páginas

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O dia em que Selma sonhou com um ocapi

 


Sinopse: Todos os habitantes da pequena Westerwald, uma cidadezinha no interior da Alemanha, sabem que Selma tem um dom muito especial: quando ela sonha com um ocapi, é sinal de que alguém está prestes a morrer.

Selma já havia sonhado três vezes com um ocapi - um bicho com pernas de zebra, ancas de tapir, torso vermelho-ferrugem de girafa, olhos de cervo e orelhas de rato - e em todas as vezes alguém morreu. Assim toda a comunidade ficou em polvorosa por vinte quatro horas, alguns com medo e outros prontos para se despedir, já que eles estavam certos que alguém iria morrer, mas não se sabia quem.

Bastava alguém lhe dizer duas coisas que não tinham qualquer relação entre si para ele criar uma analogia.

Cartas cheias de sempre e nunca foram escritas, revelando verdades e segredos até então impronunciáveis, lotando a caixa de correspondência da cidade. Quando as vinte e quatro horas passaram, estavam todos vivos, e correram para buscar as declarações feitas em um momento de despedida, sepultando os pensamentos revelados antes da hora. Mas naquela vez a morte chegou com atraso, e leva quem eles menos esperavam. 

A história, dividida em três partes, é narrada por Luise, neta de Selma. E pela história acompanhamos a sua infância, início da vida adulta e o período dos seus trinta anos. Através dela conhecemos as histórias da pequena comunidade, começando com Selma, que ficou viúva muito cedo e está sempre atenda a todos. 

Evidentemente eu não sabia que não haveria um amanhã para comprar sapatos na capital.

Também conhecemos os pais de Louise, sua mãe é dona de uma floricultura e vive pensando se deve se separar ou não, questão que fica mais forte quando o seu marido, filho de Selma, resolve sair pelo mundo sozinho para conhecer diferentes culturas, aparecendo lá de vez enquanto, criando um abismo na relação.

Entre os amigos de Selma, há o oculista, que é apaixonado por ela e já iniciou várias cartas se declarando, mas nunca finalizou e muito menos entregou alguma. Tem também Elsbeth e suas soluções para os diferentes males, além de Palm que no momento de maior dor trocou a garrafa por uma bíblia. E por fim a triste Marlies, uma moça que passa os dias em casa de calcinha e pulôver e só sabe reclamar.

Selma sempre achava um transtorno excessivo pedir ajuda.

E por fim, o amor da vida de Luise, que entre tantos personagens comuns e ao mesmo tempo peculiares, não poderia ser algo que muitos chamariam de normal, sendo um monge que vive no Japão, ao qual ela troca cartas semanalmente.

A escritora alemã Mariana Leky utiliza-se do realismo fantástico para aproximar os seus leitores desta pequena comunidade, onde as relações são movidas pelo afeto, prevalecendo com o outro muito mais a gentileza e a preocupação do que qualquer outro sentimento mesquinho.

De todo modo, eu havia colocado um pé na fresta da porta.

Através de seus personagens ela nos conta uma história sobre a rotina de uma pequena comunidade, onde há perdas, mortes, dor, saudades, mas também muita vida e amor. E os eventos extraordinários só servem para fortalezes os laços dos que ali tudo compartilham, ensinam e aprendem.

Por algum motivo, que eu ainda não consegui decifrar, a história me causou um estranhamento bom. A minha leitura não foi rápida, pois eu tinha a impressão de ser transportada para dentro do livro, e me via pensando, respondendo e realizando novas perguntas aos personagens.

Durante muito tempo ninguém tinha pisado naquele lugar. Tanto tempo que o lugar no chão nem sabia o que era isso.

Quando terminei a última página, fiquei com saudades de todos. Cheguei a pensar em escrever uma carta usando o mesmo endereço do monge Frederik para ter notícia da comunidade. Mas concluí que era hora de me despedir em definitivo, antes que começasse a sonhar com ocapi ou a derrubar coisas também.


O dia em que Selma sonhou com um ocapi
Was man von hier aus sehen kann
Mariana Leky
Tradução: Claudia Abeling
TAG - Editora Planeta
2017 - 315 páginas

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A Única Mulher


Sinopse: Hedy Kiesler sempre se destacou por sua beleza. Ainda jovem, interpretou o papel principal de um filme polêmico e se casou com um magnata austríaco da indústria armamentista. Mas, longe de ser apenas um rosto bonito, a protagonista foge do marido controlador e da sua Áustria natal após entender os planos do nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Refugiada em Hollywood, ela se torna uma grande estrela de cinema - ao mesmo tempo em que desenvolve uma ferramenta capaz de acabar com o conflito entre eixos e aliados.

Misturando realidade e ficção, a autora e historiadora Maria Benedict mostra aos seus leitores outras faces da famosa atriz Hollywoodiana dos anos de 1940 e 1950 chamada Hedy Lamarr. Considerada a mulher mais bonita da sua época, foi inspiração para o rosto da Branca de Neve. Mas Hedy era muito mais do que um rostinho bonito.

Nascida Hedwig Eva Maria Kiesler, era a filha única de uma família de classe alta judia na cidade de Viena, na Áustria. Após crescer com inúmeras críticas da mãe e muitos incentivos para alimentar a sua inteligência pelo pai, a jovem Hedwig acaba tendo o seu primeiro reconhecimento por um filme pelo qual ela se arrependeu de fazer. No filme Êxtase ela se torna a primeira mulher a realizar uma cena de orgasmo feminino.

Cidadãos alemães judeus não só foram vítimas de ataques violentos, como foram privados dos direitos de cidadania.

Tentando recuperar sua imagem de boa moça ela aceita o papel de Sissy, a imperatriz, no teatro e assim conquista um fã, o magnata austríaco da indústria armamentista Friedrich Mandl. Inicialmente ela não deseja aceitar a sua companhia, mas Hitler e seu desejo de unificação da Áustria com a Alemanha fazem seu pai a convencer de que não é uma boa ideia rejeitar quem pode lhe salvar em uma guerra iminente.

O ano é 1933, e o chanceler austríaco Dofffuss se tornou uma espécie de ditador em um país cercado de vizinhos governados por nazistas e fascistas. Mandl é amigo e parceiro de negócios do exército austríaco, não sendo apenas um vendedor de armas, mas também um homem envolvido com as estratégias políticas da Áustria. Motivo de aflição e aceitação de seu pai para que tal homem entre em sua casa.

Em geral gosto de escolher eu mesma, mas neste caso é aceitável.

Fritz se mostrou encantador para Hedy, parecendo respeitar não só a sua inteligência como a sua opinião. Mais do que lhe levar para um mundo cheio de luxo com pratos banhados a ouro, ele lhe mostrou ser muito diferente dos garotos com os quais ela estava acostumada a sair. O pedido de casamento não demorou, e ela encantada com aquele homem não viu isso inicialmente como um sacrifício.

Mas ela não estava preparada para o que aconteceria após o sim. No lugar de uma parceria cheia de amor, o que veio depois foi a prisão em castelos de luxo, casada com um homem dominador e ciumento, Hedy se tornou mais uma peça a ser mostrada por Fritz aos que lhe cercavam. 

Governantes e movimentos podem ascender e cair, mas o poder do dinheiro sempre prevalece.

Foi graças ao poder do marido que ela se viu frente-a-frente com figuras como Mussolini, mas foi ao ouvir o plano do ditador nazista que ela resolveu mudar o rumo de sua vida e rever sua origem judaica, algo que durante toda a sua vida não dera importância por viver em uma família não praticante. O resultado é a fuga para os Estados Unidos.

O sucesso em Hollywood veio rápido, mas o sentimento de culpa por não ter avisado seus compatriotas judeus dos riscos a consumiam, fazendo com que ela se dedicasse a formas de ajudar na guerra. Como ocorre em à Rede de Alice, sua genial invenção feita em parceria com o compositor George Antheilx não é aceita pelos militares, pelo motivo de ter sido projetado por uma mulher, mas os benefícios são usufruídos até hoje por todos nós.

Eu nunca era Hedy Kiesler, aspirante a inventora, pensadora curiosa e judia.

Narrado em primeira pessoa, o livro possui duas partes, a primeira trata da sua vida em Viena e a segunda após a sua fuga do país de origem. Existe um foco maior na primeira parte, quando a necessidade de sobrevivência a faz aceitar ser subjugada e sofrer violência doméstica. Já a segunda parte tem como foco a união de artistas europeus - não "existiam" judeus em Hollywood -, e em uma única invenção militar, não sendo citado as outras, como durante o seu relacionamento com Howard Hughes e sua sugestão para aperfeiçoar as asas de seus aviões.

Na edição da TAG Inéditos há no final uma nota da escritora Marie Benedict em que ela complementa a sua história, onde é incluído as tão erradas suposições sobre a incapacidade das mulheres, aos quais, a cada dia que passa, me fazem crer ser um dos motivos responsáveis pela Segunda Grande Guerra ter durado tantos anos. Após a nota, há uma entrevista com a autora, que também já escreveu sobre outras figuras femininas históricas e a sua forma de pesquisa.

A verdade passava de boca em boca, como se fôssemos os primeiros povos habitando a Terra, sujeitos a uma história apenas oral.

A escrita é bastante fluída, e o contexto histórico é bem explorado, embora eu tenha achado a parte de Viena em alguns momentos mais arrastados, e tenha sentido falta de explorar mais o lado inventora de Hedy com outros itens além da invenção militar, eu realmente gostei do livro que me permitiu conhecer as várias faces desta mulher incrível.

Um livro para quem adora cinema, história, lutas femininas e entender mais um pouco de política, preconceito, violência física e psicológica contra a mulher e escolhas que estão longe de serem as melhores.

A Única Mulher
The Only Woman in the Room
Marie Benedict
Tradução: Isadora Prospero
TAG Inéditos - Planeta
2019 - 317 páginas


sábado, 7 de março de 2020

Adeus, Gana



Sinopse: Adeus, Gana é ao mesmo tempo o retrato de uma a família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter.
Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Acra, capital de Gana, está morto.
A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás.
Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional.

No mês de janeiro a TAG Curadoria enviou aos seus associados à indicação do escritor José Eduardo Agualusa: o livro de estreia da escritora Taiye Selasi, ainda inédito no Brasil. Para auxiliar o leitor logo no início uma lista de palavras com pronúncia, significado e origem – que se dividem entre Gana e Nigéria – e a árvore genealógica da família, para auxiliar nos momentos em que não se sabe mais de quem está se falando.

Em um domingo, antes do amanhecer, Kweku morre descalço.

Dividido em três partes: Partido, Partida e Partir, como é informado na sinopse, tudo começa com uma morte. E está é a primeira frase do livro. Inicialmente simples, mas cujo significado só é entendido no virar das páginas.

Para eles, não dar nomes era lógico, até admirável, um jeito de manter distância da existência assim como da morte.

Kweku nasceu na parte pobre de Gana, com esforço foi para os Estados Unidos e se tornou um reconhecido cirurgião. Casado com Folasadé, é pai de quatro filhos. Como todo imigrante, busca o seu american life, até o dia em que uma patrona da pesquisa científica, e doadora do hospital onde ele trabalhava, chega com um apêndice estourado e já sem chance de sobrevivência. A família exige a cabeça do responsável, e a de Kweku é entregue. Ele luta tentando ser readmito, mas ao se ver totalmente sem chances, não aguenta a pressão e foge de todos, deixando a família sem patriarca e sem dinheiro.

Esses pensamentos viriam depois – e por muitos anos depois, quando ele tentaria esquecer-se do fedor úmido da morte fresca.

Sozinha com os filhos, quem não aguenta a pressão é Folasadé, que acaba separando os filhos pensando na questão financeira e educacional, mas com consequências que irão deixar marcas para sempre em cada um.

Porque a mãe sempre tem que ser superior.

Adeus, Gana mistura em sua história várias situações, do racismo, dos complexos físicos como peso e cabelo, da vergonha, dos traumas, do silêncio entre os que deviam ser próximos, perdas, solidão, heróis, decepção, pressão e falta de amor.

Um médico que fracassou em prevenir a própria morte.

Pois ao contrário do que firma a sinopse, o que parece faltar nesta família que já era desestruturada quando todos moravam juntos, é justamente o amor condicional. Dilemas pessoais sempre imperam nas decisões, com o individual se sobrepondo ao conjunto. No que acabam sendo ciclos que se repetem a cada geração.

Ela estava brincando de sexo, mas não sabia nada de amor.

Mas isso não desabona a história, pelo contrário, o livro é tenso, triste e questionador. E mais do que um livro sobre uma família africana, ele é um livro sobre seres humanos e questões mais do que globais. E justamente por cada personagem carregar alguma situação tão típica dos últimos tempos, fica difícil não se enxergar em alguns casos.

A insularidade peculiar dos banheiros, um conforto.

Narrado em terceira pessoa, a história é como uma cebola, conforme você via removendo as camadas, cada personagem vai revelando o passado, como que preparando a todos – onde incluo o leitor – para o momento presente.

O único motivo para um relacionamento é interpretar, em miniatura, todo o drama da vida e da morte.

O livro não é de leitura fácil, justamente por sua carga emocional e também pela sua forma de escrita. Utilizando do recurso do discurso indireto, o leitor precisa ter uma atenção extra para não se perder entre o que diz o narrador ou um pensamento do personagem do momento ou diálogos que surgem.

E um fator que prejudica ainda mais a leitura na nossa versão portuguesa é a falta de uma revisão e tradução cuidadosa. E isso sim foi um verdadeiro pecado com esta edição. Da sensação em alguns momentos de terem colocado o original no Google Translate a palavras digitadas como o “depoi\” da página 304 da minha edição, fazem o coração do leitor mais sensível doer.

Indico o livro? Sim. Mas para ler em português se faz necessário uma edição com revisão aprimorada, Adeus, Gana e o leitor merecem.

Adeus, Gana
Gana Must Go
Taiye Selasi
TAG Curadoria – Editora Planeta
2013 – 367 páginas

domingo, 10 de maio de 2009

O Mago

Sinopse: Fernando Moraes, o autor que ajudou a fundar a biografia como gênero literário no Brasil, volta sua verve investigativa para o personagem brasileiro que se converteu no grande mito de nossa história recente: Paulo Coelho - um escritor universal que alcançou a astronômica marca de 100 milhões de livros vendidos e a façanha de ser o autor vivo mais traduzido de todo o planeta. O Mago é a eletrizante trajetória do popstar requestado por príncipes, xeiques, rainhas e presidentes. Uma história com que nem os roteiristas mais criativos seriam capazes de sonhar.

A biografia do escritor Paulo Coelho não deixa de ser um registro da própria sociedade brasileira nas últimas décadas. Ao mesmo tempo em que Fernando Morais mostra a personalidade do escritor, ele detalha e compara os seus posicionamentos em diversas épocas do Brasil. 

O comportamento dos jovens com a ditadura, a relação com as drogas e a música. O uso de textos de protesto para atingir o sucesso. A alienação completa. Nomes famosos que ainda buscavam os seus caminho e outros que viraram mito, como Raul Seixas. 

Os aplausos parecem não ter fim. Sem conter o choro, o brasileiro agradece várias vezes, cruzando os braços no peito e fazendo uma leve inclinação para a frente.

O jovem Paulo Coelho passou por colégios rígidos e sanatórios. Seus pais, como os outros da época, desejavam para o seu filho uma profissão tradicional. Pressão e narcóticos levaram o perdido Paulo a surtos e uma vida de vagabundagem extrema. 

Claro que existe muita coisa escondida, mas as relatadas são muito fortes, como o desejo de Paulo de ser um grande escritor (algo despertado cedo e sufocado por seus pais) assim como sua insegurança. Uma personalidade interessante e conflitante, já que ele pode ser gentil e generoso, mas também pode ser arrogante e sem caráter. 

Considerando todo o seu histórico escolar, do maternal à universidade, a aprovação no exame de admissão foi o único momento de glória em sua vida estudantil.

Algumas vezes o leitor pode ler um capítulo e achar que ele era doidão, no seguinte verificar que ele era muito doidão e lá pelas tantas achar que ele é um baita de um filho da puta. O Mago não permite que se feche um capítulo sem que se tenha alguma opinião sobre o seu personagem. 

Paulo Coelho contrariou os bancos da faculdade, que afirmam ser necessário ler os grandes autores para escrever boas obras. Balela. O escritor chegou a ler 75 livros por ano, entre eles muitos clássicos, e isso não fez nenhum de seus livros ser considerado uma obra-prima (muito pelo contrário, e o pau constante que ele leva dos críticos não ficou de fora da sua biografia – o que não deixa de ser uma resposta para os mesmos). 

De repente ele se viu sozinho, trancado num hospício, com um fichário escolar debaixo do braço e um agasalho nas costas, paralisado.

Aliás, O Mago mostra também o funcionamento do dinheiro e do poder na literatura, onde generais podem impedir um acesso a ABL (Academia Brasileira de Letras) ou as esperanças de constar em um testamento podem tornar alguém imortal (o fato de Paulo Coelho não ter filhos consta como um ponto positivo para sua eleição). Contratos milionários, pequenas vinganças, desafetos e mudanças temperam o mundo real das letras assim como personagens memoráveis recheiam livros. 

A biografia descreve o óbvio: Paulo Coelho se tornou o grande nome brasileiro no mundo das letras. Não adianta os intelectuais brasileiros virarem a cara, nem descarta-lo de comitivas de escritores brasileiros. Ele sempre está nos eventos mais importantes, e convidado por aqueles que realmente detém o poder. 

Não há mais liberdade no Brasil. Meu campo está sob uma censura idiota e filha da puta.

Além disso, a sempre uma legião de fãs o esperando, seja na Rússia, Alemanha ou qualquer outro lugar do mundo. Se o seu sucesso é devido à força do pensamento, satanismo ou santos, nunca saberemos, e isso nem mesmo a sua biografia irá esclarecer. Mas que em O Mago, Paulo Coelho dá uma lição de persistência e quebra paradigmas, isso ninguém pode negar.

O Mago
Fernando Moraes
Editora Planeta
2008 - 630 páginas