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domingo, 30 de novembro de 2025

Do amor e outros demônios


Sinopse: Durante a inspeção das criptas de um convento em Cartagena das Índias, na Colômbia, é encontrado o túmulo de uma jovem com cabelos que ainda crescem mesmo após a morte. A descoberta remete à história de Sierva María, filha de um marquês decadente, criada entre escravizados africanos e profundamente marcada por crenças e rituais sincréticos. Após ser mordida por um cão com raiva, a menina é enviada a um convento, onde é considerada possuída por demônios. Lá, conhece o jovem padre Cayetano Delaura, designado para exorcizá-la. No entanto, o que se desenvolve entre eles é uma paixão intensa, proibida e trágica, que confronta fé, desejo e as instituições da época.


No mês de agosto/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Socorro Acioli (Oração para desaparecer) Do amor e outros demônios do consagrado escritor colombiano Gabriel García Márquez. O mimo foi um chaveiro com a frase "Ler abre portas".

Na Colômbia colonial do século XVIII, uma menina de doze anos é vítima, como outras pessoas que circulavam nas ruas no mesmo momento, de um cachorro raivoso.

Chamada de Sierva María, menina é negligenciada pelos pais, o marquês Ygnacio sua esposa viciada Bernarda. Criada pelos escravos, possui um comportamento diferente do esperado pelas pessoas de sua classe social.

Devia mesmo estar muito inquieto para fazer a pergunta à esposa, e ela muito aliviada de sua bile para lhe responder sem um sarcasmo.


O que faz com que o seu pai passe a temer que ela esteja infectada pela raiva, e após realizar consultas com médicos e religiosos, interna a menina no Convento de Santa Clara, onde é mantida isolada enquanto aguarda suas sessões de exorcismo.

Mas o padre que deveria livra-la de todo mal, acaba tendo uma paixão obcecada ela menina, colocando em questão as suas próprias crenças conforme vai conquistando a atenção de Sierva.


A escrita de Gabriel García Márquez

Não é chover no molhado dizer que Gabo, ou o escritor colombiano Gabriel García Márquez, dispensa apresentações. Afinal, é um dos autores mais importantes e conhecidos do século XX, sendo um exponente do realismo mágico na literatura latino-americana.

Ganhador do Nobel de Literatura em 1982, o seu livro Cem anos de solidão virou recentemente série e é, além de uma das suas obras mais famosas, uma narrativa inesquecível que conta gerações de uma família em uma cidade fictícia.

Não eram poucos nem banais os casos de raiva na história da cidade.


No romance Do amor e outros demônios Gabo utiliza o realismo mágico de uma forma mais ambígua, onde o leitor não sabe se o escritor está utilizando elementos sobrenaturais ou se o psicológico dos personagens, somado ao seu ambiente social, explica o que está acontecendo.

A forma narrativa utilizada é a em terceira pessoa, o que permite ao leitor ter acesso a todos os personagens envolvidos, e ter uma visão mais ampla da história que mistura colonialismo, religião, laços familiares, amor, opressões, sonhos e punições.

Acreditava que a menina se sentia bem, e parecia-lhe impossível que uma coisa tão grave tivesse acontecido sem seu conhecimento,


Em Do amor e outros demônios o autor vai buscar para sua narrativa de realismo mágico a combinação de um evento vivido quando o autor era um jovem repórter, quando ao acompanhar a exumação dos restos mortais de uma jovem, a mesma ainda possuía uma cabeleira entre 16 e 22 metros de comprimento em tom de cobre intenso com uma história contada por sua avó sobre a filha de um marquês que precisou ser trancada em um convento pelo seu comportamento.

Inspirado em uma história real que Gabo cobriu durante o seu período como jornalista somada a uma lenda que sua avó lhe contava, a fusão com a ficção permitiu criar uma narrativa com toque de magia, crítica e tragédia.


O que eu achei de Do amor e outros demônios

Este é o terceiro livro que eu leio do Gabriel García Márquez. Comecei logo com Cem anos de solidão, que segue sendo o meu favorito, depois embarquei em Memórias das minhas putas tristes que me deixou desconfortável e agora embarquei em Do amor e outros demônios.

Da mesma forma que ocorre em Memórias, temos um gatilho aqui se analisado com o olhar da nossa época atual, que é o relacionamento de uma pré-adolescente, Sierva María tem 12 anos, com o Padre Cayetano Delaura, que tem 36 anos.

A primeira coisa que fez foi devolver à menina o quarto de dormir de sua avó marquesa, de onde fora tirada para dormir com os escravos.


Como mãe de menina eu precisei ser relembrada do contexto histórico. Estamos falando do período colonial e da inquisição, isto é, século XVIII, onde era comum o casamento com meninas desta idade.

Resolvida esta questão, assim como o realismo mágico é sutil, o amor também é difícil de ser encontrado. Pois não achei que a relação de Sierva e Cayetano fosse de amor, existe um desequilíbrio muito grande de liberdade, já que estamos falando de uma paixão entre exorcista e quem será exorcizado.

O coração da menina batia aos saltos enlouquecidos, e a pele soltou um orvalho lívido e glacial, com um recôndito cheiro de cebola.


Além disso, ao ficar presa, a menina acaba tendo poucas interações, podendo facilmente se apegar a quem lhe dê atenção. Já o padre tem velhas questões não resolvidas que vem à tona com a presença da menina, o que cria uma crise não só para a igreja, mas em tudo o que ele acredita.

Somado a isso, Sierva não é criada com amor nem dentro de casa, já que a menina vive com os escravos. Então a sua forma de agir, só notada após ela ser mordida por um cachorro raivoso, não vem de demônios, e sim do que ela vê, é ensinada e repete.

A cidade estupefata interpretou a tragédia como a deflagração da cólera divina por alguma falta inconfessável.


O comportamento dos pais também não é exemplar. Um casamento de fachada, onde a mãe, Bernada, buscava riqueza com o Marquês Dom Ygnacio, e encontrou a decadência. Ambos negligenciam a filha, pois enquanto a esposa se dedica aos próprios vícios, o marido vive em apatia, conservando um mínimo de respeito entre os seus pares apenas por causa do seu título. Enfim, puro suco de hipocrisia.

Tornando a leitura muito mais de relações tortas e crítica a sociedade de um período histórico, que geram situações e resultados muito mais absurdos do que qualquer realismo mágico, mostrando mais uma vez que a loucura de unir aparências e crenças já foi muito pior do que nos dias de hoje, e não, não deve voltar.

A mãe a odiou desde que lhe deu de mamar pela única vez e se negou a tê-la consigo com medo de matá-la.


E por estes motivos sim, eu gostei da leitura. Não superou Cem anos de solidão na minha preferência, mas é um livro de leitura envolvente e fluída, relativamente curto de ler, que mistura na dose certa momentos leves, podendo ser cômicos conforme o senso de humor do leitor, com questões de reflexão e surpresa.

Ficando a dica para todos que gostam de um bom livro.

Do amor e outros demônios
Del amor y otros demonios
Gabriel García Márquez
Tradução: Moacir Werneck de Castro
TAG - Record
191 páginas - 2025
Primeira publicação originalmente no ano de 1994


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Luzes do Sul




Sinopse: Depois do sucesso de A livraria mágica de Paris, O maravilhoso bistrô francês e O livro dos sonhos, Nina George nos presenteia com uma história mágica, encantadora e emocionante em Luzes do Sul, o “livro dentro do livro” A livraria mágica de Paris. Mais uma bela homenagem a livros e leitores.


No mesmo dia em que a Morte leva sua avó, a bebê Marie-Jeanne, que já era órfã de pai e mãe, toca o Amor em um momento que este está distraído. Um ato que mudara para sempre a vida da menina.

Ambientado nos anos de 1960 em Nyons no sul da França, Luzes do Sul conta a história de Marie-Jeanne Claudel, uma jovem com o poder de ver o amor literalmente, assim como as ligações das pessoas que combinam entre si, o que poderíamos talvez chamar de almas gêmeas. 

Houve anos em que duvidei de mim mesmo, do sentido e da força das minhas ações; foi aí que quase perdi as esperança.


Adotada por um comerciante e uma cozinheira, ela só irá descobrir o seu dom quando o seu pai monta uma biblioteca itinerante, chamada de Philis, cuja intenção é fazer com que livros cheguem aos moradores dos campos, que pela distância não possuem fácil acesso a biblioteca ou livrarias.

Ao ajudar o pai a percorrer diferentes caminhos e levar os livros onde até aquele momento eles não chegavam, ela irá conhecer outras pessoas, e assim, uma jornada de compartilhamento e descobertas se inicia.

O coração se parte, uma, duas vezes, repetidamente, e vocês se esforçam ao máximo para colar a xícara com cuidado, para viver as feridas, embelezá-las com esperança e lágrimas.


E ao mesmo tempo que Marie-Jeanne tenta descobrir como usar o seu dom, ela também precisa administrar as suas consequências.


A escrita de Nina George

A autora e jornalista alemã Nina George já publicou diversos romances, mistérios e também obras de não ficção. Sua obra mais conhecida é a Livraria mágica de Paris, traduzida em várias línguas, se tornou um best-seller.

Tem como característica nas suas narrativas abordar temas como amor, perda, autodescoberta e literatura. Tudo em uma escrita meio poética, meio intimista, que convida o leitor a se apaixonar pelos seus personagens e viver junto com eles cada página.

Nunca antes uma pessoa foi capaz de segurar o Amor. Muito menos me viu, meu ser, minha personalidade, meu rosto, minha forma.


No caso de Luzes do sul há um detalhe especial. Pois é o livro citado dentro da Livraria mágica de Paris e escrito com o pseudônimo de Sanary. Mas como ocorrem em outras obras de outros autores, este livro não existia na vida real.

E foi atendendo ao pedido de diversos leitores que Nina George tornou o livro real, com o nome dela como escritora, naturalmente. e tendo o Amor como o narrador onisciente da história, sendo responsável por mostrar o caminho a ser percorrido pelas páginas e as conexões.

Não são os livros o último lugar no planeta onde se encontram pessoas e épocas, paisagens e sentimentos que, de outra forma, raramente se encontrariam?


Por ser o amor, a narrativa acaba tendo um toque poético e também filosófico, já que as relações, principalmente as românticas, são bastante discutidas.

O realismo mágico também é utilizado para criar a atmosfera das conexões entre as pessoas, conexões essas que são enxergadas apenas pelo Amor e pela protagonista da história Marie-Jeanne.

A Paixão e o Medo olharam os livros em chamas, e neles havia um ar de submissão.


No geral é uma escrita bastante leve, que possibilita ao leitor refletir sobre os seus próprios sentimentos em relação as pessoas próximas e as suas atitudes.


O que eu achei de Luzes do Sul

Eu sou uma das fãs de Livraria mágica de Paris, a escrita e a história ganharam o meu coração e me fizeram procurar outros livros da autora.

Mas as Luzes do sul não me encantou tanto, o que me deixou em um primeiro momento um pouco triste, já que a minha expectativa era bastante alta.

A escrita nunca se mantém igual, ela é um reflexo da vida. Nossa escrita sofre conosco.


Narrado pelo Amor, a história começa triste e envolvente, mas com o tempo, as seções que vinham indicadas por uma mãozinha, me lembravam longas notas de rodapé.

E isso, para mim, tirou a fluidez da leitura. E mesmo quando explicava o passado, por irromper o presente muitas vezes, tornava a leitura, na minha opinião, um pouco mais arrastada, as vezes quase superficial.

Assim, os livros eram a última magia antiga: tornavam visíveis realidades ocultas.


Por outro lado, a ideia no geral é muito boa. Primeiro por tornar real o livro citado no maravilhoso A livraria mágica de Paris. Segundo, porque temos todos os tipos de amor romântico. O que não se permite expor, o jovem, o de espera, o após viver muitas coisas, e também o não amor.

Após o término, quando são incluídas partes escritas que ficaram fora da história, fiquei pensando se a narrativa não ganharia um plus a mais se outros narradores como lógica, coragem e destino não travassem discussões sobre os acontecimentos.

O brilho não fazia distinção entre quem era simpático ou antipático, bonito ou feio, bom ou mau. 


Eu finalizei a leitura com um misto de sentimentos e reflexões de como tenho lidado com o amor. E por isso deixo a recomendação aqui.


Luzes do Sul
Südlichter
Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora Record
2022 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2019


sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Tudo é rio



Sinopse: Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira. Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso. A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui – ora intensa, ora mais branda – de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.

Lucy era uma menina mimada pelos pais, desde pequena dominava e manipulava a todos, principalmente os adultos. Com a morte prematura de seus progenitores, se vê como uma gata borralheira vivendo com a tia e sua família. Até que no início da adolescência encontra a profissão que lhe dará independência e permitirá receber todos os elogios que sua beleza exige: resolve ser prostituta.

Venâncio é um homem amargurado. Teve uma infância difícil junto ao seu pai, que era machista e violento. Violência que encontra eco em Venâncio quando este encontra o amor e é correspondido. Dominado por um ciúme que cega, ele vive em eterno tormento e procura eventualmente os serviços do prostibulo próximo.


Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.


Dalva vem de uma família amorosa que fornece apoio aos seus filhos. A mãe é uma apaziguadora natural, que permite aos filhos viverem as consequências das suas escolhas. O pai trata a todos com carinho e tenta proteger a todos. Com os amigos sempre a volta, Dalva tem uma leveza e uma alegria, até se apaixonar por Venâncio.

E são os encontros e desencontros deste triângulo que está longe de ser amoroso que irão desaguar nas páginas de Tudo é Rio, um livro rápido e intenso de ler.


A escrita de Carla Madeira

A autora brasileira Carla Madeira utiliza a linguagem em terceira pessoa no seu Tudo é Rio. Os capítulos são curtos - um tem apenas uma palavra - e diretos, dando um ritmo rápido e intenso de leitura.

As informações e os personagens vão entrando aos poucos. Havendo um vai e vem do passado e presente para entender não só o crescimento e amadurecimento dos personagens, como os acontecimentos que os levaram até ali. E quanto mais você os conhece, mais fácil ou difícil fica de entender as escolhas do trio.


O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidade que cabem na ciência.


O rio aqui é uma metáfora justamente para este vai e vem. Em alguns momentos ele é mais profundo, outras mais raso, podendo ganhar rapidez nas descidas e um pouco de calma nas leves subidas, o que também permitiria lhe dar o nome de Tudo é Montanha Russa.


O que eu achei de Tudo é Rio

A primeira coisa é que educadamente discordo da escritora gaúcha Martha Medeiros que o chama de uma obra-prima. O livro é bom, mas como todo livro de estreia as referências gritam e sempre vai haver aquela questão que poderia ser melhor trabalhada.

Vou começar com a personagem Lucy, cujo início da história parece uma mistura de Cinderela e Bruna Surfistinha. A menina mimada pelos pais que se sente a gata borralheira ao ficar órfã e ter que morar com a tia, o tio e as duas primas. Sem conseguir manipular a tia, usa sua sexualidade natural para atender os desejos do seu ego e narcisismo. Pois sim, Lucy sente a necessidade de ser adorada, e as suas atitudes que podem parecer confiança e empoderamento para alguns me passou justamente o sentimento contrário, de uma pessoa insegura, carente e perdida.

Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desespero, nada por vir.

Já Venâncio é um homem atormentado pelas consequências de suas ações, ao qual frequentemente tenta terceirizar a sua culpa para a figura paterna. Em seu semblante o sofrimento pela esposa, que ama de forma desmedida, não o perdoar, transformando-o em uma espécie de zumbi. Curiosamente é essa postura de morto-vivo que encanta a prostituta Lucy, cuja obsessão por Venâncio só aumenta conforme ele a esnoba. Mas ao contrário de Lucy não achei a dor de Venâncio charmosa ou digna de pena, no mínimo caso de internação.

Deixei para o fim a personagem mais complexa na minha humilde opinião: Dalva. A personagem que despertou quase todas as minhas reações durante a leitura. A única que eu gostaria de estar dentro da mente para compreender seus atos. Como seguir morando com um homem que cometeu uma das ações mais imperdoáveis que um ser humano pode cometer? Sim, sua distância física e seu silêncio maltratam Venâncio, o homem que foi de seu grande amor a algoz. Mas porque optar por sobreviver e não recomeçar em outro lugar, longe de quem te entristece? Qual o motivo de não buscar segurança para viver novamente de forma plena? Amor doentio? Vingança?

Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe.


Enfim, Dalva foi a razão por eu finalizar o livro com raiva e achar que o triângulo seriam candidatos perfeitos para habitar algum sanatório, ou quem sabe a Casa Verde de O Alienista?

Como extra falo sobre Francisca e Aurora. Duas figuras com participações mais pontuais que despertam interesse pelas suas próprias histórias e suas formas de lidarem com diferentes fatos. Francisca se doa as pessoas, sua história de vida toca em meio à loucura dos três personagens principais. Já Aurora é aquela pessoa que transmite tranquilidade e otimismo, dando espaço aos filhos para cometerem seus acertos e erros. O que torna mais complicado de entender o comportamento de Dalva.

O imperdoável, o rompimento irreversível. Nada a ser dito. Uma espécie de morte.

Mas só o fato de despertar inúmeras reações, já fez a leitura valer, e sim, é um livro que pode provocar vários debates sobre as relações humanas e sociais, desde o machismo, passando por relações que ultrapassam a definição de amor, perdas, perdão entre outras pautas que você pode encontrar.

Ficando a dica para os leitores do blog que curtem conflitos familiares, cenas apimentadas e claro, adoram ler.


Tudo é rio
Carla Madeira
Editora Record
2023 - 209
Edição original de 2014.


terça-feira, 8 de novembro de 2022

Greenwich Park



Sinopse: Quando Helen chega para a primeira aula do curso pré-natal, espera que seu belo marido arquiteto surja logo depois, seguido por seu charmoso irmão Rory e pela esposa dele - a naturalmente linda, e também grávida, Serena. Mas, por Rachel, Helen não esperava. A extrovertida, impetuosa e inquietante Rachel, prestes a se tornar mãe solo, que só quer ser amiga de Helen. Que só quer se aproximar de Helen, de seus amigos e de sua família. Que só quer saber tudo sobre eles. Cada um de seus segredos.

No mês de junho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Greenwich Park da autora inglesa Katherine Faulkner. O mimo foi um marcador de página em formato de pingente.

Helen vive em uma bolha onde idealiza a própria vida. Casada com um arquiteto, mora na casa que foi de seus pais, uma mansão vitoriana próxima ao Greenwich Park, na cidade de Londres.

Mas você precisa saber a verdade, mesmo que, depois de todo esse tempo, ainda se recuse a ouvir.


O marido é sócio do seu irmão Rory, que herdou a empresa de arquitetura de seu pai. Sua cunhada Serena também está grávida, e assim ela imagina que todos gostariam de participar juntos do curso de gestantes. Mas nenhum dos três aparecem, e com todos os demais casais completos, lhe resta como companhia a jovem Raquel, igualmente sozinha no curso, mas expansiva e falante, ela é exatamente o oposto de Helen.

Aos poucos ela vai aparecendo em todos os lugares que Helen está, e em sua solidão, a jovem gestante sem nenhum instinto maternal se torna uma distração que a faz rir e esquecer por alguns momentos os próprios medos.

Eu sei que ele estaria aqui se pudesse, que está arrasado por me deixar na mão. Que essa reunião de última hora foi um simples inconveniente.


Mas o que era divertido se torna mais intenso, e quando Helen pisca, Rachel invadiu não só a sua vida, mas de todos da sua pequena bolha. Só que ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de um suspense no estilo Stalker, e sim de um quebra-cabeça muito mais complexo do que se imagina no início da leitura.


A escrita de Katherine Faulkner

Logo de cara o leitor se depara com um depois e uma carta ao qual não se identifica a autoria, apenas que ela foi escrita com o desejo de revelar a verdade do remetente e que a destinatária deste desabafo é Helen.

Em seguida retrocedemos no tempo, onde as partes da história são identificadas em semanas, as semanas de gestação de Helen, e alguns finalizam com uma rápida narrativa em terceira pessoa. Nos demais capítulos temos narrativas em primeira pessoa das seguintes personagens: além da própria Helen, contam a história Serena e Katie, esta última é a melhor amiga de Helen e uma espécie de namorada do considerado irmão ovelha negra da mesma.

Tentei marcar encontros, mas de alguma forma eles nunca parecem caber muito bem na agenda das pessoas.


Entre as figuras femininas principais, a única que não é narradora é Rachel, mantendo a sua personalidade e seus reais interesses um verdadeiro mistério para os leitores.

Já na narrativa de Helen a autora, que se inspirou justamente quando realizava um curso pré-natal para escrever sua trama, aborda o lado solitário da maternidade. Os colegas de trabalho que não se interessam em marcar um café, o marido que não tem tempo para acompanha-la no curso. Uma mulher sem nenhuma rede de apoio, sem ter ninguém de confiança para desabafar.

Não sei por que ela insiste em falar disso sem parar, por que parece ter muito mias importância para ela do que para nós.


Além das mudanças físicas que as mulheres passam, o que pode ou não ser consumido - e só quem já engravidou sabe a lista enorme de cuidados neste ponto, incluindo também a questão das perdas gestacionais. 

Mas não pense que só se fala em maternidade não, tem depressão - que não é a pós parto -, pessoas que enganam as outras para viverem de aparências, falta de escrúpulo, a forma como o estupro é lidado quando envolve pessoas de diferentes classes sociais, e traição, porque neste mundo encantado, não poderia faltar este toque com os machos escrotos que compõe a trama.

As pessoas estão ocupadas, ocupadas demais para mim, pelo menos. Já fui esquecida.


Tudo isso junto e misturado em uma escrita fluída e envolvente, que transformam Greenwich Park em um vira páginas.


O que eu achei do livro...

Gostei muito da narrativa da escritora Katherine Faulkner. As peças do quebra-cabeça são bem espalhadas pelos capítulos, não existe informação em vão, sendo necessário para o leitor detetive se manter atento as reações de cada personagem e as situações passadas citadas constantemente por Helen para fazer as conexões e tentar descobrir o mistério antes de chegar ao fim.

Eu particularmente discordo da revista da TAG quando chamam Helen de ingênua. Sim, ela é solitária. Mas também é invejosa. Pois existe um misto de inveja e admiração em relação a Serena, ao qual ela tenta imitar como se assim fosse ter um pouco da luz que ela vislumbra na outra. 

Tudo naquele ambiente está começando a me incomodar: o carpete estampado, horroroso e de má qualidade, as tomadas imundas, o cheiro de mofo, a poeira no parapeito das janelas.


E é isso que a cega, a faz se proteger em uma bolha de perfeição facilmente removível para quem vem de fora. E aqui entra Rachel, a personagem que você não sabe ao longo da narrativa se é ingênua, malandra, golpista ou muito mais do que aparenta ser.

E assim deixo a dica para quem gosta de um bom mistério, um legítimo vira página que irá fazer a sua mente formar diferentes teorias.


Greenwich Park
Katherine Faulkner
Tradução: Marina Vargas
TAG - Record
2021 - 417 páginas

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terça-feira, 26 de outubro de 2021

Em Fogo Lento


Sinopse: Quando um jovem é encontrado brutalmente assassinado em seu barco em Londres, questões são levantadas a respeito de três mulheres que o conheciam. Uma jovem problemática, uma vizinha bisbilhoteira, uma tia enlutada: quando se trata de vingança, até pessoas boas são capazes de cometer atos terríveis. Por quanto tempo os segredos podem queimar em fogo lento até explodir em chamas incontroláveis?

No mês de setembro eu recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o novo livro da autora britânica Paula Hawkins chamado Em Fogo Lento. O mimo foi um chaveiro de madeira em forma de pássaro.

Foi a curiosidade que levou Miriam até o barco de Daniel sob a justificativa que o tempo para ele ficar atracado naquela área já havia expirado. O que ela não contava era que o dono estivesse esfaqueado, o que o leitor não entende é porque além de chamar a polícia ela resolve guardar um dos objetos que estavam na cena do crime.


Ela está em agonia, mas a dor perdeu a importância, eclipsada por outros sofrimentos.


A primeira suspeita é Laura, uma jovem que havia passado a noite com Daniel e já possui ficha na polícia. Quando menina ela era tinha uma inteligência considerada acima da média, mas um acidente muda todo o curso do seu caminho futuro, e hoje ela tem dificuldade para conter suas emoções, podendo agir com violência conforme a forma como é tratada.

Carla é a tia e a última parente que restou de Daniel para ser avisada, após a sua irmã Angela, que era também a mãe de seu sobrinho, ter morrido oito semanas atrás em um acidente doméstico. Seus encontros com o sobrinho eram escondidos do ex-marido e escritor de sucesso Theo, devido a um acontecimento passado que mudou suas vidas.


O que na real, é mentira, porque não aconteceu nada e, de qualquer jeito, foi ele quem começou.


Além delas temos Irene, a vizinha de Angela já idosa, ela conta com o suporte de Laura para compras básicas, e observando tudo de sua casa, ela, assim como o leitor, tenta juntar as peças com base no que vê e nos próprios instintos.

Para os policiais, cujas presenças são bem pontuais, resta descobrir provas que liguem a vítima a suspeita mais óbvia, mas conforme os personagens têm o seu passado desvendado, nada é tão claro como parecia ser.


Já sei o que você vai dizer. Não foi culpa sua. Nunca é culpa sua. Talvez não seja.


Eu já havia lido A Garota no Trem da Paula Hawkins, que também gira em torno de três mulheres, e também trabalha muito mais o psicológico de seus personagens do que o crime em si. Algo facilmente identificado no livro Em Fogo Lento, onde mais do que saber quem matou Daniel, eu queria entender o que havia acontecido com cada um dos envolvidos, que escolhas o haviam levado até aquele momento.

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, Paula Hawkins apresenta Em Fogo Lento além da narrativa principal, trechos do livro de Theo, chamado Aquela que escapou, que sim, tem relação com a história e comportamento de alguns dos personagens. A escrita fluída torna a leitura bastante fácil, e conforme os pontos chaves vão surgindo, a vontade de virar mais uma página não me abandonava.


Algumas pessoas olhavam para ela e fingiam que ela não existia, outras olhavam para ela e achavam que podiam pegar o que quisessem, imaginando que ela fosse fraca e que não faria nada a respeito.


Eu gosto bastante da escrita da autora, de como ela faz a vida dos personagens se cruzarem, de usar o psicológico para mostrar que todos tem algo de bom e de ruim, não sendo perfeitos como os próprios leitores.

Neste tipo de leitura normalmente eu faço ainda no início as minhas conexões, aos quais vou confirmando ao longo da história, e modéstia parte, eu fui bem nas minhas deduções Em Fogo Lento. 


Quando foi que eu disse que você podia encostar a mão em mim?


Entre os personagens, confesso que Irene ganhou um carinho especial da minha parte, pois ela lembrou muito uma vizinha minha, a Dona Nésia, que era bem curiosa e estava sempre de olho em tudo, aliás, graças a ela um assaltante foi afugentado do nosso pátio uma vez.

Voltando ao livro, não posso deixar de falar das personagens Laura e Miriam, que pareciam gritar por ajuda, o trauma das duas mulheres são realmente devastadores, e no caso de Laura tem o agravante de ter uma família totalmente afastada, que simplesmente abandonou a jovem, como se as sequelas do acidente a desqualificassem para qualquer afeto. 


Ela sempre reagia exageradamente ao ser esnobada; era assim que ela era, e ter consciência de algo sobre si mesma não impedia que esse algo acontecesse.


Fechando os personagens, o casal Carla e Theo apertaram o coração. Apesar de separados pela pior circunstância da vida, o amor e o carinho que um tem pelo outro é imenso, assim como os segredos que eles escondem um do outro para que não se machuquem mais.

E por se tratar de pessoas com muitas perdas, não raro eu ficava pensando se iria surgir um outro elemento para assumir a culpa, ao mesmo tempo que me recordava que algumas pessoas em situações extremas não aguentam a pressão e acabam utilizando da violência para encerrar os focos de seus tormentos.


Ainda não havia formulado a verdadeira pergunta; não tinha se permitido fazer isso.


Ficando a dica para quem gosta de um bom suspense, se empolga com o psicológico dos personagens, curte montar um quebra-cabeça ou brincar de detetive. O único risco é olhar para o título e ficar com a música fuego lento na cabeça.


Em Fogo Lento
A Slow Fire Burning
Paula Hawkins
Tradução Flavia de Lavor
TAG Inéditos - Record
2021 - 320 páginas

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O dia em que a poesia derrotou um ditador



Sinopse: Durante uma aula de filosofia em Santiago, Nico presencia seu professor ser levado pela polícia. Prisões eram frequentes no Chile de 1988. No mesmo ano, Pinochet, cedendo a pressões da comunidade internacional, anuncia um plebiscito pelo qual a população decidirá se ele continuará no governo. Adrián Bettini, um renomado publicitário, envolve-se na campanha de oposição e vê a chance de transformar a história de seu país. Com sua prosa delicada, Antonio Skármeta tece uma narrativa impactante sobre como a alegria conseguiu devolver as cores a um país silenciado.

No mês de novembro/20 a TAG Curadoria fez uma homenagem a literatura da América Latina. Tendo como curador o gaúcho, que é escritor e professor em uma das oficinas literárias que revelou vários escritores brasileiros, Luiz Antonio de Assis Brasil. Os brindes foram uma revista de passatempo literária e adesivos.

Sem dúvida meus colegas achavam que eu era um covarde e que, por puro instinto, deveria ter reagido e defendido meu velho.

A história começa na aula de filosofia, quando Nico assiste o professor Santos ser preso. Algo muito comum na rotina diária dos chilenos, não fosse um detalhe: além de professor, Santos é pai de Nico. O jovem de dezessete anos é a visão adolescente dos fatos, entre o ambiente de escola, relações amorosas, o sentimento de mortalidade e a dúvida entre obedecer às instruções do pai para se proteger ou de dar voz nos momentos em que a realidade o perturba.

A visão adulta vem do pai da namorada de Nico, Adrián Bettini é um talentoso publicitário que com o regime ditatorial não consegue mais trabalhar em sua área. Ele é surpreendido pela intimação do ministro do Interior para ir até a sede do governo do general Pinochet. Primeiro ele fica em dúvida se deve ir ou fugir, mas o encontro acaba se revelando um convite.

O senhor pode criticar nosso governo como quiser, mas não pode negar que temos uma equipe brilhante de profissionais.

Pinochet resolveu fazer um plebiscito, com a permissão de opositores nas mesas de votação e observadores internacionais, garantindo assim a lisura de todo o processo. Os eleitores devem fazer apenas uma escolha: Sim para que Pinochet permaneça na presidência ou não para que ele se afaste e eleições presidenciais sejam realizadas. E para isso, tanto o governo quanto a oposição poderão fazer propaganda na televisão.

Adrián, que é contrário ao sistema, rejeita o cargo de divulgador do governo, mas não fica de fora do processo, quando é convidado pela oposição para realizar a sua propaganda. Logo isso se mostra um grande desafio, como ganhar o voto dos chilenos em quinze minutos? Como demonstrar que a união de todos os opositores são o sinal de que algo melhor é possível?

Se forem os policiais, ou estão vindo me buscar ou querem revistara escrivaninha do papai.

Antonio Skármeta reconta com leveza um episódio real da história chilena, sobre como unir pessoas que já se acostumaram em viver em meio a opressão com aqueles que ainda possuem esperança de resgatar a dignidade para todos os cidadãos. Entre cenas cômicas e choques de realidade, o livro nos apresenta a tensão de viver sob o julgamento do governo, e mostra como um estado sem direito para os seus indivíduos pode ser cinza, mas não desencantado ao ver as cores do arco-íris.

Em uma narrativa curta, de fácil leitura, talvez o leitor mais exigente irá sentir a voz de uma mulher, ou quem sabe de alguém que vivia incauto a tudo e de uma hora para outra precisa escolher entre mudar ou continuar o caminho de sua nação. O fato é que o livro consegue, em seu formato simples, ser divertido e reflexivo.

Santiago pesa no pescoço das pessoas, e todos andam depressa e com a cabeça baixa.

Eu particularmente gostei da história, existe uma intensidade sem tensão, uma tristeza que promete um final feliz, ao mesmo tempo que nos leva a ter um outro olhar sobre os acontecimentos chilenos, suas manifestações, até nos levar aos dias atuais, relembrando aos mais velhos e revelando aos mais novos um pouco mais do passado da América Latina.

Para quem curte ler o livro e assistir ao filme, existe uma versão, com algumas diferenças, chamada NO de 2012, com o ator Gael García Bernal.


O dia em que a poesia derrotou um ditador
Los días del arco-íris
Antonio Skármeta
Tradução: Luís Carlos Cabral
TAG - Editora Record
2011 - 223

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Tudo de bom vai acontecer



Sinopse: Essa é a história de Enitan: uma jovem nascida na Nigéria dos anos 1960 e que atinge a maioridade em uma cultura que ainda insiste na submissão feminina. Enitan rejeita os sistemas familiar e político até ser confrontada com o único desejo precioso demais para perder em nome da liberdade pessoal: seu desejo por um filho. Tudo de bom vai acontecer evoca as visões e culturas da África, ao mesmo tempo que conta uma história sábia e universal sobre amor, amizade, preconceito, sobrevivência, política e o custo de lealdades divididas.

O livro de setembro/2020 da TAG Curadoria trouxe uma indicação da escritora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, que indicou o livro Tudo de bom vai acontecer da também nigeriana Sefi Atta. O mimo foi um colorido quebra-cabeça que traz a pintura Freedom school da artista visual Synthia Saint James.

A história tem início em 1971 quando Enitan está com onze anos, naquela fase que se é meio criança, meio pré-adolescente. Ela possui uma grande admiração pelo pai, um advogado que dá uma vida de conforto para a sua família, e de estranhamento com a mãe, que se entregou a religião após a perda do filho caçula. Em um dia de tédio acaba conhecendo a menina da casa vizinha, pertencente a uma família a qual a mãe não desejava que ela não tivesse contato. Mas Sheri chama a atenção de Enitan e ali nasce uma amizade.

Nada, nada deteria minha mãe, dizia ele, até ela ter destruído tudo na nossa casa por causa daquela igreja dela.

Seguimos para 1975, Enitan e Sheri trocam cartas enquanto passam maior parte do ano morando em suas escolas. Em um colégio interno de meninas, Enitan vive em um ambiente em que todas se ajudam mutuamente para sobreviver, suas origens eram  diversas, assim como suas religiões e culturas. Mas é nas férias que ela vive um momento que irá marcar sua vida e direcionar o destino de Sheri.

Pulam-se dez anos, e Enitan estuda em uma universidade londrina, tornando-se advogada como o pai. Golpes seguem ocorrendo na Nigéria, mas isso não influencia tanto em sua vida quanto as relações amorosas. Em um primeiro momento é na Inglaterra que ela quer ficar, mas o frio e o tratamento recebido a empurram de volta para o lar paterno.

Meninas más eram estupradas. Nós todas sabíamos disso.

Muitas de suas opiniões e conceitos vão mudar na década de noventa, quando a política a atinge pessoalmente, seu ciclo de amizade se abre e em uma situação de tensão ela acaba conhecendo a situação de outras mulheres, e o seu mundo é subitamente ampliado com novas revelações, tanto pessoais quando do seu país.

Como vocês podem observar no resumo, o livro não é dividido por partes, mas por anos, acompanhamos a vida de Enitan de  1971 a 1995, sendo expectadores do seu crescimento de menina a uma mulher madura. Não há capítulos, apenas um espaço em branco maior que separa um momento de outro.

Nossas mães eram maravilhosas. Nos protegiam das verdades sobre nossos pais, permaneciam em casamentos ruins para nos propiciar uma chance.

Sefi Atta nos apresenta a visão de uma nigeriana classe média, em uma Lagos com seus prédios e condomínios suburbanos, muito distante daquela imagem padrão que os estrangeiros possuem, como se toda a África fosse igual ao comercial do Médicos Sem Fronteiras.

Através da mãe de Enitan, é pautada a questão religiosa, que tem um misto de cultural, com suas vestes e crenças, com a questão do dinheiro, quando o dízimo não é só pedido como exigido.

Se desejasse, podia bater na mulher, expulsá-la de casa, com ou sem os filhos, e deixá-la sem nada.

Há o machismo e a questão de os homens poderem se casar com mais de uma mulher, estupro, o fato de a esposa pedir permissão para a tomada de suas decisões. Assim como subjugar a capacidade pelo gênero, algo que ocorre tanto de estranhos como em família. E este fato não se concentra apenas entre os homens, já que muitas mulheres encontram justificativas para apontar ou emitir a sua opinião em relação ao estilo de vida da próxima.

Também é abordado a maternidade, embora não com o enfoque que é dado na sinopse. Sim, em dado momento Enitan deseja ser mãe, mas a grande questão é verdadeiramente abordada na relação mãe x filha, onde só na idade adulta ela passa a enxergar realmente por tudo que sua mãe passou, enquanto desmistifica a aura de perfeição atribuída ao pai.

O mundo da publicidade talvez não soubesse quem éramos, mas nós comprávamos os produtos destinados a outros mercados sempre que chegavam ao nosso país e quando viajávamos para o exterior.

A amizade entre mulheres também é algo forte na história, não só entre Sheri e Enitan, mas também com outras personagens que entram ao longo da história e vão criando uma rede de apoio. Na dica do livro, a TAG havia referenciado as personagens de Amiga Genial como comparativo, mas ouso dizer que aqui a única semelhança está na amizade de longa data. Em Tudo de bom vai acontecer não há disputas, não há inveja, e sim questionamentos naturais de pessoas que se querem bem, que dão força a outra quando esta precisa.

E por fim a questão política. Entre governos civis e militares, a Nigéria vive em uma constante ditadura, o quanto cada cidadão é afetado irá variar conforme ele está disposto a se manifestar. Pessoas são presas, pessoas somem, e seus familiares não sabem de nada.

Desde o início foi responsabilidade do povo, da pessoa física, lutar pela pátria e se agarrar àquilo.

Um livro sobre um país distante, de terceiro mundo como o Brasil, onde as diferenças de tratamento entre homens e mulheres são grandes, e cuja visão é ampliada após o final da leitura. Uma história que é mais do que distração, mas a possibilidade de conhecer outra cultura.


Tudo de bom vai acontecer
Everything Good Will Come
Sefi Atta
Tradução: Vera Whately
TAG - Editora Record
2012 - 367 páginas


Outros livros sobre a África com resenhas aqui no blog:

Adeus, Gana
O Mundo se despedaça
Tempo de Migrar para o Norte
As alegrias da maternidade
A menina sem palavras
Antes de nascer o mundo
Pequena Abelha


segunda-feira, 20 de julho de 2020

Antes de Dormir



Sinopse: A memória nos define. Como seria, então, se você a perdesse toda vez que dormisse? Seu nome, sua identidade, seu passado, até mesmo as pessoas que você ama... tudo seria esquecido da noite para o dia. E a única pessoa em quem você confia talvez esteja contando apenas parte da história.

Christine tem o mesmo problema de perda de memória que a personagem Lucy do filme "Como se fosse a primeira vez". Por este motivo todos os dias quando acorda, ela não sabe onde está nem quem é o homem deitado ao seu lado.  Ben, que é o seu marido, colou fotos dos dois no banheiro, já que é o primeiro lugar que ela vai ao se levantar. E todos os dias repassa o diálogo explicando que ela sofreu um grave acidente e esquece tudo o que acontece durante o dia quando dorme. Mas isso não lhe tira a sensação de estar usando roupas de outra pessoa e de não ser a mulher que vê no espelho.

Não sei onde estou, nem como vim parar aqui.

Mas ao contrário da comédia romântica, a história já mostra para o leitor no primeiro capítulo  que ele entrou em um suspense, e que as coisas podem não ser bem o que é contado para a personagem central da história. Tudo começa após Ben sair para trabalhar, enquanto Christine tenta se ambientar o telefone toca, do outro lado quem fala é um homem que se identifica como seu médico, ao qual ela tem realizado consultas escondidas do marido.


O Dr. Nash é um neuropsicólogo que está escrevendo um artigo e busca entender o que aconteceu com a memória de Christine, através de exames e dinâmicas, que incluem desde fotos que ele encontra até lugares que ela já teria passado. Sem querer isso acaba abrindo hipóteses para além de um acidente, mas para a possibilidade de a amnésia ser na verdade o resultado de um trauma psicológico. Com isso ele lhe dá um diário, para que ela passe a escrever os detalhes do seu dia, como forma de exercício para tentar recuperar suas lembranças. E é justamente o diário quem traz o primeiro aviso que deixa todos em alerta: Não confie em Ben.

Mas nunca vi você, sinto vontade de dizer.

A narrativa de S.J. Watson está concentrada quase toda neste diário, já que temos um capítulo de início e mesmo os finais se utilizam dele para o desfecho. Dividido por datas, conforme Christine acorda todos os dias, o lê e o abastece com informações, novas imagens e perguntas surgem, fazendo com que ela e o leitor comecem a questionar tanto a história contada por seu marido quanto as próprias lembranças de Christine. Ao mesmo tempo observamos que ela já não está mais esquecendo absolutamente tudo, pequenas migalhas de lembrança em meio a escuridão.

E nisso surgem vários pontos de interrogação. Será tudo imaginação em um esforço de tentar levar uma vida normal? Já que ela é totalmente sozinha e dependente de Ben, e com exceção do médico, parece que não há ninguém que se preocupe com ela. Ou será que ela corre algum tipo de perigo, já que ela não se lembra do dia anterior?

Seu padrão de sintomas não indica que suas memórias estejam perdidas para sempre.

Antes de Dormir é bem escrito e envolvente. As formas como as pontas vão se ligando atiçam o lado de quem gosta de bancar o detetive, ao mesmo tempo que impulsionam ler mais uma página para ver o que irá acontecer. Sim, ele te obriga a ler rapidamente, pois mesmo nos intervalos de leitura você pode se pegar pensando em como completar o quebra-cabeça desta história.

E para quem gosta de ler o livro e assistir ao filme - algo que eu não fiz - ele é estrelado pela Nicole Kidman, tendo Colin Firth como Ben (eu jurava que ele era o Doutor) e Mark Strong.

Alerta de spoiller
Eu não poderia finalizar a resenha sem descrever o que mais me afetou no livro. Enquanto Christine buscava juntar as peças na sua memória, o leitor se dá conta que ela não era sozinha antes de tudo acontecer e ela não saber onde e com que está. Ela tinha profissão, tinha amigos, tinha família. Mas ela acaba largada em uma clínica, e passados alguns meses, ninguém se preocupou com a saída dela, que era uma vítima fácil devido a sua grande fragilidade. Ela não lembrava, e restava a ela apenas acreditar em quem estava ao seu lado. 

Me fazendo pensar que tudo parecia como um castigo pelo seu envolvimento extraconjugal antes da violência que levou anos da sua vida. E confesso que ao mesmo tempo que isso me incomodou, também me fizeram pensar que a história poderia ter um outro lado, sobre o abandono de quem não consegue mais acompanhar o dia-a-dia dos que são próximos.

Antes de Dormir
Before I go to sleep
S.J. Watson
Tradução Ana Maria Mesquita
Editora Record  
2011 - 398 páginas

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A filha secreta



Sinopse: A história de três mulheres e duas culturas: Kavita, uma camponesa indiana forçada a dar sua filha para adoção; Somer, a médica americana que não pode ter filhos e se torna mãe adotiva da menina; e Asha, a criança adotada que, quando adulta, parte para a Índia em busca da sua identidade. A filha secreta é uma história emocionante sobre amor e família em diferentes culturas, e sobre o quanto nossas origens são capazes de definir quem somos.

Foi nos balaios de ofertas da feira do livro de Porto Alegre que o encontrei, dei uma lida no resumo da orelha da capa e o trouxe para casa. Cinco meses depois me entreguei a delicada e ao mesmo tempo forte escrita da autora Shilpi Somaya Gowda em um tipo de história que toca o coração.

A filha secreta nos conta a história de três mulheres durante os anos de 1984 e 2009. Os dois primeiros capítulos são de perdas. Na Índia Kavita vê a sua primeira bebê ser arrancada dos seus braços simplesmente por ter nascido com o sexo errado em uma família pobre. Nos Estados Unidos, Somer vive mais um aborto. A alma de ambas chora.

Como tantas menininhas, a sua primogênita seria devolvida à terra muito antes da hora devida.

Kavita engravida novamente, Somer descobre que apesar de jovem em breve irá entrar na menopausa. E sem saber, neste momento o caminho das duas começam a se entrelaçar. O segundo bebê de Kavita é outra menina, e na ânsia de salva-la, ela se arrisca indo até Mumbai, e com a ajuda da irmã, entrega a sua filha Usha para adoção.

O meu útero está ótimo e vazio de novo. Limpo.

Sem chance de ter filhos naturais, Somer acaba aceitando a sugestão de seu marido indiano de adotar uma criança. Sua sogra auxilia um orfanato, e assim, ela é convencida a adotar uma criança indiana. Usha agora é Asha, e o seu futuro está longe da terra natal.

Como se pode comer uma coisa sem cor nem sabor?

Narrado em terceira pessoa, a história é dividida em quatro partes. Os capítulos sempre identificam em que personagem está o foco, a cidade, o país e o ano.

Somer olha a filha que em nada parece sua filha.

Inicialmente acompanhamos Kavita e Somer, suas dores e escolhas, cada uma realizando uma espécie de gestação, sendo uma literal e a outra de uma ideia. Com o crescimento de Asha, acompanhamos os seus dilemas, o desejo de conhecer a família de origem e seus conflitos. Para esta jovem mulher é necessário viver a Índia para entender o seu próprio destino.

Ele os levara para lá e cuidaria deles.

Complementando a história, eventualmente a narrativa dos maridos de Kavita e Somer e da sogra de Somer, ampliando as situações vivenciadas pelas personagens.

Você precisa confiar nele. Você precisa ser corajosa por eles.

O livro possui três temas de base: a questão da maternidade, a adoção e diferenças culturais. Na maternidade temos as dores, orgulho e superficialmente o não querer. Na adoção temos as incertezas, a busca por um apoio desconhecido em momentos de dúvida, como se os pontos de interrogação tão comuns durante a infância e adolescência ganhassem um tamanho maior por não compartilharem o mesmo sangue. E cultural por termos dois estilos de vida completamente diferentes quando em conflito, podendo virar uma barreira ainda maior quando não conseguimos entender o outro. 

Não sei de quem puxei os meus olhos exóticos, tem vontade de gritar.

Um ponto que não digo negativo, mas que eu senti falta, foi que com a inclusão da narrativa de Asha, perdeu-se muito da Somer. Muitas coisas mudam na vida dela com a chegada da filha, e esses desafios não são bem explorados. No futuro sabemos que ela, como muitas mães, precisou fazer escolhas. Sabemos também que nem sempre Asha se sente compreendida por Somer, buscando muito mais o pai, mas não existe o início destes conflitos, quando aparecem já possuem uma carga de anos.

Mesmo assim achei a história muito interessante e bonita. A narrativa é fluída e envolvente, e me senti muito próxima das personagens femininas, acompanhando as mudanças, algumas sutis outras nem tanto, no decorrer do tempo. Uma leitura que recomendo.

A Filha Secreta
Shilpi Somaya Gowda
Tradução Maria Beatriz de Medina
Editora Record
2010 – 380 páginas

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Outro Lado de Mim




Sinopse: Um dos maiores escritores de todos os tempos cunhou o famoso sobrenome ainda jovem, quando se candidatava a apresentador em um programa de calouros. Nos meados de 1930, os EUA atravessavam uma crise devastadora. Sidney, que observava o tempo passar atrás de um balcão de uma drogaria, sentia na pele os efeitos daquela atmosfera melancólica e depressiva. Sua família era obrigada a se mudar frequentemente, em busca de oportunidades de emprego. Para ele só havia uma saída. O suicídio. Uísque com soníferos. As memórias de um dos maiores escritores de todos os tempos. Detalhes até hoje inéditos, em um livro revelador e sincero. 

Sidney Sheldon é um dos autores mais traduzidos no mundo. Conhecido por títulos como “A ira dos anjos” e “Se houver amanhã”, teve como última publicação um livro de memórias com o sugestivo nome de O Outro Lado de Mim, uma clara referência ao seu primeiro romance de sucesso “O outro lado da meia-noite”. 

O outro lado de mim começa com um Sidney de dezessete anos planejando o seu suicídio. Diagnosticado como portador da psicose maníaco-depressivo, passou a vida inteira oscilando entre euforia e tristeza. Somado aos sucessos e desastres de seus textos, o próprio autor comparou sua vida a um elevador. Infelizmente, para por ai. 

Está superestimando o meu pequeno talento e vai se decepcionar. Não sou bom o bastante para trabalhar com ele.

Seu livro de memórias é superficial ao relatar os seus sentimentos, parecendo mais um resumo do dia-a-dia dos estúdios de Hollywood e das peças da Broadway, apimentados com comentários sobre a vida pessoal de alguns famosos (como Marilyn Monroe e Frank Sinatra). 

Sheldon compara suas duas carreiras, afirmando que um romancista é mais valorizado que um roteirista. Pois todos sabem os atores de um filme/seriado/novela, mas dificilmente lembrarão de quem o escreveu. 

Ia desistir de três espetáculos que contavam comigo, e partiria para muito longe, para enfrentar a morte.

Ler O outro lado de mim é ler as críticas recebidas por cada roteiro escrito por Sheldon, saber qual ator participou, quem estava começando, quem já era uma estrela, quem comandava o mundo do cinema, como se comportavam. Enfim, parte da memória do próprio cinema americano.  

Com base nisso, pode-se dizer que o livro de Sheldon nada mais é, que um tributo aos roteiristas, que esperam o telefone tocar, ganham dinheiro quando um roteiro faz sucesso e a carta de demissão quando a crítica é negativa. Mostrar quem nunca é visto por alguém que ainda será lembrado por muito tempo.

No que se refere à literatura, ficam as últimas páginas e o prazer que ela lhe proporcionou. Como o próprio Sidney Sheldon definiu O romancista é o elenco, o produtor e o diretor. O romancista é livre para criar mundos inteiros, para voltar no tempo, para dar a seus personagens exércitos, criados, mansões. O único limite é a imaginação.

De bônus, como não poderia faltar, fotos de momentos marcantes de sua história, misturando filmes, séries e momentos pessoais, assim como as memórias relatadas.

O outro lado de mim
The other side of me
Sidney Sheldon
Tradução: Ana Luiza Dantas Borges
Editora Record
2005 - 376 páginas

Livros do Sidney Sheldon resenhados no blog:
Nada dura para sempre