sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974