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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.

No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Maria Altamira

 


Sinopse: Em 1970, um terremoto provoca o soterramento da cidade de Yungay, no Peru. Uma das poucas sobreviventes é Alelí, jovem que perde os pais, os irmãos, o namorado e a filha. Em choque, parte sem rumo, percorrendo vários países da América do Sul. Numa das paradas, conhece Manuel Juruna, que se encanta com ela e a leva para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, Pará. Alelí quase encontra a paz na nova vida: quando está prestes a dar à luz um filho de Manuel, ele é encontrado morto, vítima de um pistoleiro contratado por madeireiros da região. Convencida de que traz má sorte a quem ama, Alelí abandona a recém-nascida, que recebe o nome de Maria Altamira. O destino unirá mãe e filha, mulheres fortes e tão marcadas pela destruição? 

No mês de fevereiro/26 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Andréa Fátima dos Santos, que assina os seus livros como Andréa Del Fuego. A autora de A pediatra e Os Malaquias recomentou o livro de outra escritora brasileira, Maria Altamira da goiana Maria José Silveira. O mimo foram marcadores magnéticos.

Na pequena cidade de Yungay, no Peru, a jovem Alelí recusa a sua filha pequena uma ida ao circo para encontrar o rapaz que conquistou o seu coração. Enquanto aguarda em um ponto alto da cidade, assiste tudo e todos que realmente importam desaparecer devido a um terremoto. Ironicamente, as crianças que foram ao circo naquele dia, sobreviveram.

Perdeu todos os quilos que porventura algum dia teve. Seus dentes amoleceram nas gengivas. Era um fiapo de gente cambaleando pelos cantos do acampamento improvisado.


Com uma culpa que lhe corroí a mente e a alma, Alelí acaba saindo sem rumo pelos países da América Latina, sobrevivendo através de empregos temporários, sem se importar com a violência sofrida ao longo da estrada por quem não se preocupa em machucar um outro ser humano para suprir o que chama de necessidade.

Sua consciência começa a retornar quando conhece Manuel, que a leva para morar com ele em sua aldeia no Xingu. Homem de alma forte, que luta pelas tribos que moram próximas ao rio, se vê emboscado no momento que Alelí está grávida dele, fazendo com que ela volte ao modo sobrevivência e dê a sua filha para outra mulher, com medo que a menina seja amaldiçoada pelo simples fato de viver próximo a ela.

Era um objeto movido por uma força alheia, como o banco em que se sentava, o prato de comida que recebia, o manto onde se deitava.


Neste momento o romance se divide em dois, e o leitor passa a acompanhar não apenas a trajetória de Alelí, mas também sua filha, que dá título ao livro, Maria Altamira, e alguns dos acontecimentos que afetaram o Brasil nas últimas décadas.


A escrita de Maria José Silveira

Nascida em Goiás, Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Conhecida por incluir história, aspectos sociais e políticos em seus romances, ela viveu exilada no Peru durante a ditadura brasileira.

As memórias deste exílio junto com a sua experiência em expedições a Amazônia serviram de base para a escrita de Maria Altamira para traçar um paralelo sobre duas grandes tragédias: o terremoto andino e a destruição causada pela Usina de Belo Monte.

Com a música aprendera algumas coisas, inclusive a levar um canivete afiado na cintura, o primeiro objeto que tivera vontade de ter, além do charango.


Utilizando um narrador em terceira pessoa, quando a história passa a acompanhar o percurso de duas personagens separadas, é aplicado o recurso de páginas de cores diferentes para a mãe, tornando mais fácil para o leitor a identificação sobre quem ele está lendo naquele momento.

Uma outra característica é que a voz do narrador não é neutra, em uma escrita muito direta, frequentemente ela emite opiniões sobre o que está acontecendo naquele momento na história.


O que eu achei de Maria Altamira

Quantas vezes uma pessoa pode ser quebrada e ainda sim prosseguir o seu caminho? Essa foi a pergunta que Alelí me trouxe constantemente durante a leitura. Uma mãe que carrega uma culpa cujo peso entorpece, fazendo com que ela desapegue de tudo, inclusive de si mesma.

E foi ela que roubou toda a minha atenção durante a leitura, e mesmo havendo fatos que em alguns momentos espelhavam a vida de mãe e filha, e em outros mostravam como em situações que possuíam semelhanças, em suas decisões elas optavam por caminhos diferentes, foi a história de Alelí que manteve a minha atenção.

Cidades onde os sofrimentos se acumulavam de tal maneira que era impossível suportá-los. Cidades sem paisagens, sem campos, sem alma. E agora sem filhos.


Sua resiliência em seguir respirando, os diferentes lugares e pessoas com os quais se deparou ao longo de sua trajetória, me levaram refletir não apenas sobre o impacto de um desastre, da estrutura que falha ao atender as suas vítimas, a violência de homens que impõe a sua força a uma mulher, o poder e o dinheiro acima de pequenas comunidades, mas também sobre como uma ideia concebida de forma torta pode gerar ainda mais dor, mais separação e mais uma quebra na alma.

Confesso que a personagem título, Maria Altamira, não chamou tanto a minha atenção. Embora tenha um enfoque grande em causas sociais e ambientais, havia algo na construção dela que me incomodou. Como uma pessoa que em um primeiro encontro não simpatizamos e conhece-la um pouco mais não resolvesse a situação.

O que acontecia com as pessoas? Por que eram tão ruins, tão desprezíveis, tão desmerecedoras?


Mas no geral gostei da narrativa, os personagens secundários permitem uma visão ainda mais ampla das escolhas da sociedade em decisões que podem causar um impacto enorme mais tarde, como foi o caso da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que se por um lado ofereceu emprego com melhores salários, por outro causou um colapso ambiental e inviabilizou a vida de comunidades indígenas e ribeirinhas, além de aumentar e muito a violência na cidade, mudando a rotina dos seus antigos habitantes.

Quase como um lembrete que sim, deve haver progresso e inovação, mas o preço disso não teve ser a destruição do nosso meio ambiente e muito menos das pessoas e espécies que dele dependem.

E por isso batia os pés, e por isso dançava, e por isso cantava. A vida é como é. É isso aqui. É agora.


Ficando a dica deste livro que é sim triste, mas que também proporciona questionamentos e reflexões tão necessárias após estarmos sofrendo tantos desastres devido a interferência excessiva da mão do homem no mundo que serve de nosso lar.


Maria Altamira
Maria José Silveira
TAG - Instante
2026 - 279 páginas
Publicado originalmente em 2020



sexta-feira, 19 de junho de 2026

Venham e juntem-se a mim



Sinopse: Em Venham e juntem-se a mim, publicado originalmente em 1974, Maya Angelou continua a narrativa iniciada em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, aprofundando o retrato de uma vida marcada pela busca de identidade, liberdade e dignidade. Nesta segunda parte de sua série autobiográfica, a autora — uma das vozes mais influentes da literatura americana do século XX — reconstrói o período de sua juventude, entre os dezessete e os dezenove anos, quando tenta encontrar seu lugar em um mundo que lhe oferece poucas opções, mas exige força, coragem e reinvenção constante. Ambientado no pós-guerra dos EUA, o livro também funciona como um retrato social de uma época: os anos 1940 e 1950, quando a população negra começava a reivindicar espaço em um país ainda profundamente dividido. 

Em janeiro/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Venham e juntem-se a mim da escritora Maya Angelou. A continuação de Eu sei por que o pássaro canta na gaiola foi uma indicação da própria TAG em uma parceria com a editora que trouxe o título. O mimo foi o tradicional planner.

Segundo volume da autobiografia de Maya Angelou, iniciado em Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, começa imediatamente após o fim do primeiro volume, mas pode ser lido de forma independente.

Eu merecia parabéns por ter, definitivamente, a família mais cruel, fria e louca do mundo.


Em Venham e juntem-se a mim Maya Angelou narra a sua trajetória no final da adolescência, entre os seus 17 e 19 anos no final dos anos de 1940, início da década de 1950, quando todo mundo ainda sentia os respingos do final da segunda guerra mundial.

No caso da jovem Maya, sua guerra era outra, grávida após um encontro casual com um cara que não possuía laços, ela precisa não apenas se encontrar emocionalmente como precisa arrumar uma forma de se sustentar e ser independente, enquanto coloca seu filho Guy no mundo.

A vida, segundo a minha dedução, era uma série de opostos: preto/branco, alto/baixo, morte/vida, riqueza/pobreza, amor/ódio, felicidade/tristeza, sem meio-termo.


E nesta busca ela irá percorrer diversas cidades como São Francisco, enquanto exerce as mais diversas profissões como cozinheira, garçonete, dançarina, ajudante em bicos e até mesmo em uma das profissões mais antigas do mundo.

Além disso, ela consegue se apaixonar pelos piores tipos que encontra no caminho, em relações passageiras marcadas pela instabilidade e superficialidade, mostrando sua vulnerabilidade adolescente enquanto busca por afeto e segurança emocional.

A capacidade da minha mãe de se divertir era enorme, e sua fúria, lendária. Ela nunca estimulava a violência, mas era conhecida por não se desviar nem um centímetro do caminho para seu progresso.


Tudo relatado de forma direta, mostrando as relações sociais da época, ao mesmo tempo que não esconde os próprios erros, nem idealiza nada do que viveu.


A escrita de Maya Angelou

Em Venham e junte-se a mim a escritora norte-americana Maya Angelou usa uma linguagem muito direta, ela é franca em expor seus erros e as experiências que aceitou ser submetida.

Tudo é narrado em primeira pessoa de forma direta, não existe desculpas ou maiores explicações, sendo centralizados nos relatos de uma vida de uma jovem com muitas dúvidas, poucas certezas e inúmeras dificuldades, que parte são do meio que vive e parte são criadas por ela mesma.

Homens pensam que as mulheres detêm a chave para a felicidade, pois supostamente elas têm o direito de concordar e/ou discordar.


Não há poesia no que relata, são situações encadeadas durante um período que ela busca independência, sobrevivência e encontrar a si mesmo, somada a uma maternidade que chegou na hora errada.

Desafiando ao leitor não apenas a acompanhar a sua evolução como não julgar os seus atos, enquanto permite ao mesmo fazer um paralelo com a realidade atual, que convenhamos, não mudou tanto assim para as mães solo jovens de baixa renda.


O que eu achei de Venham e juntem-se a mim

Eu adorei o primeiro volume da autobiografia de Maya Angelou intitulado Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, o que gerou uma grande expectativa pra mim quando vi que o volume dois seria enviado, o que sempre é um problema.

Pois o primeiro volume havia me impactado muito e o segundo, apesar de bom, não me envolveu da mesma forma. A escrita segue fluída, e o segundo volume é mais curto, mas o foco excessivo em relacionamentos amorosos não atraiu muito a minha atenção.

A pessoa solitária por natureza não procura consolo no amor, mas aceita as variáveis como parte do processo.


Pois sim, nos dois anos que marcam o final da adolescência, Maya Angelou está bastante focada na busca constante em se relacionar com alguém. Em encontrar, usando uma expressão que achei curiosa e engraçada, alguém que vale o dente da frente.

Só que essa busca constante parece tirar todos os filtros dela, e os homens com os quais ela escolhe se relacionar, não valem nem um dente siso. Resultando em uma jovem que se sujeita a qualquer coisa para manter a pessoa atual ao seu lado. Além disso, a cada término, ela parecia conhecer um pior do que o anterior, me fazendo ter vontade de sacudir a criatura inúmeras vezes.

Sorriam fingindo aceitação da subserviência abjeta, e nas noites de sábado compravam a bebida mais cara para afogar a mentira. 


O que me fez pensar se a troca constante de profissões e cidades não eram mais uma desorientação de uma jovem sem apoio emocional do que uma busca pela independência, visto a variedade de profissões lícitas e ilícitas que ela experimentou no período de dois anos.

Essa desorientação também ficou claro pra mim no retorno a cidade de sua avó, pois mesmo uma jovem que viveu em cidades grandes, ela é facilmente manipulada pelos grupos locais, não percebendo o deboche e se colocando em situações de perigo.

Os sacrifícios nos garantiram a vitória, e agora viriam os bons tempos.


Em relação à maternidade, ela não existe. O bebê fica rolando de mão em mão não apenas para a mãe trabalhar, mas principalmente para namorar. O que ela faz por LD, um dos homens que ela se envolve, por exemplo, eu não a vi fazer em momento nenhum pelo filho no período relatado no livro.  

Não sendo exatamente chocante, já que temos o relato de uma jovem tendo um filho antes do tempo, sem ter as condições financeiras e emocionais para isso. Algo que vamos encontrar nos dias de hoje entre as mães adolescentes e solos, que, por desorientação com cuidados preventivos ou relacionamentos abusivos, se tornam responsáveis por outra vida quando ainda precisam ter quem se responsabilize por elas.

Fiquei uma semana no emprego e odiava tanto o salário que o gastei todinho na tarde em que me demiti.


Outro fator neste quesito é a questão da replicação, sua mãe também não era do tipo presente, o que normaliza para a jovem o tipo de relação que ela tinha com o seu filho.

O segundo volume também é mais curto se comparado ao primeiro, e eu particularmente achei a leitura mais fácil, já que no anterior muitas vezes eu precisei parar para respirar, o que não foi o caso aqui.

Mas mesmo não me impactando como no livro anterior, no geral eu gostei de Venham e juntem-se a mim, ficando a dica para quem quiser conhecer mais desta mulher multifacetada que viveu intensamente e contribuiu de diversas formas pelo que acreditava.


Venham e juntem-se a mim
Gather together my name
Maya Angelou
Tradução: Regina Lyra
TAG - Editora Nova Fronteira
2025 - 256 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.



No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A era da inocência


Sinopse: Um clássico para devorar, A era da inocência é o livro que tornou a irreverente Edith Wharton a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção. A narrativa concentra as mais altas qualidades literárias da autora, que projetou um olhar crítico às entranhas de sua origem social na elite nova-iorquina do século 19. Do instigante triângulo amoroso atravessado por dinâmicas de poder e interesse, saltam questões que ressoam com leitores de todos os tempos, o dilema entre dever e desejo, os silêncios tácitos e a proteção das aparências na estrutura familiar burguesa, o papel social da mulher, a coragem de transgredi-lo e o sentido de uma existência plena.



Em setembro/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora brasileira Renata Belmonte (Mundos de uma noite só) A era da inocência da escritora norte americana Edith Wharton. O mimo foi um diário de leitura.

Na Nova York de 1870 existe uma bolha onde poucas famílias elitistas vivem em um círculo fechado, com valores tradicionais, convenções sociais e muita hipocrisia para ocultar atos e segredos.

Newland Archer é um desses aristocratas norte-americanos, um jovem advogado que namora May, também integrante de uma das famílias tradicionais, que é o retrato da beleza, inocência e tudo o que se espera de uma futura esposa.

Então a luz caiu sobre ele e, com ela, um ímpeto momentâneo de indignação.


O mundo de Archer treme com a chegada da prima de May, a Condessa Ellen Olenska, uma mulher que retorna da Europa após ousar se separar de um conde polonês que era abusivo. 

A liberdade e os desejos que ela inspira fazem com que o jovem Archer antecipe seu noivado e casamento com May. Mas o que era uma escapatória, acaba aproximando ainda mais da condessa, gerando em Archer a vontade de mudar o seu próprio mundo e se entregar em um novo relacionamento.


A escrita de Edith Wharton

A escritora e especialista em design de interiores e paisagismo Edith Wharton usou de seu privilégio para mostrar através da escrita todas as regras sociais e hipocrisia da era vitoriana e da era dourada. Ao receber uma educação que lhe deu domínio de outros idiomas além do inglês e da cultura europeia, foi impossível a jovem mulher não vivenciar conflitos entre o que o seu intelectual exigia e o que era pedido as mulheres da sociedade da elite de Nova York na época. Tendo a sua carreira reconhecida só após os seus quarentas anos.

Sua escrita é reconhecida pelas descrições detalhadas dos ambientes, o que transporta os seus leitores para cada local descrito, pela sua ironia e a complexidade psicológica de seus personagens. Entre os muitos livros publicados está o que a fez ser a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção (1921), chamado de obra-prima a Era da inocência ou A época da inocência, foi publicado em 1920 e segue tendo uma história arrebatadora.

Todos nós temos nossa gente comum de estimação...


Por conhecer as regras do jogo, em à Era da inocência Edith Wharton utiliza uma paixão para de certa forma dissecar o funcionamento da elite de Nova York, apresentando não apenas as suas regras, mas o seu tribunal próprio, a ignorância forjada, a necessidade de manter as aparências, a covardia, as manipulações e os conflitos pessoais.

Narrado em terceira pessoa, a perspectiva está centralizada no personagem Newland Archer, cuja educação permite a escritora brincar com as diferenças entre o que se sente e pensa com o que se diz, tornando os conflitos internos tensos e aparentes apenas em gestos e comportamentos, já que palavras nunca devem ser ditas.

Sua própria exclamação "as mulheres devem ser livres... tão livres quanto nós", tocava na raiz de um problema que o mundo dele concordava em considerar inexistente. 


O fato da paixão ser apenas um recurso para demonstrar a rigidez da sociedade daquela época, existe uma lentidão nos acontecimentos, no mesmo ritmo das mudanças nos paradigmas que norteiam os personagens, em uma escrita de linguagem cuidadosa, onde cada detalhe é importante para se deixar envolver e adentrar em um mundo onde dedos não são diretamente apontados, mas os que não atendem o perfil são simplesmente julgados e excluídos.

E para quem preferir assistir ao filme primeiro, antes de entrar na história, Martin Scorsese fez a sua versão cinematográfica em 1993 com o título de A época da inocência.


O que eu achei de A era da inocência

A forma narrativa utilizada pela escritora Edith Wharton me transportou para os Estados Unidos dos anos de 1870. A riqueza dos detalhes permite ao leitor que se deixa envolver pelas páginas sentir os cheiros, as temperaturas, as texturas do que está na volta.

As personagens femininas transmitem pela sua personalidade as diferenças geracionais da época, o que envolve tradição, a bolha social e a coragem de se libertar de relacionamentos que não lhe fazem bem ou não agregam em nada.

A etiqueta exigia que ela esperasse, imóvel como um ídolo, enquanto os homens que desejavam conversar com ela se sucedessem ao seu lado.


No quesito relacionamento, a paixão fulminante de Archer ressuscita o eterno dilema do Se, e se ele não houvesse se assustado com a presença de uma mulher tão diferente? E se neste medo do desconhecido, ele não tivesse corrido tanto para antecipar o casamento com o que era seguro, mas não arrepiava sua pele nem tomava conta dos seus pensamentos?

O tipo de casamento que curiosamente segue atemporal, já que falamos de uma rotina que mata sonhos e tira vontades. Que faz engolir o orgulho a seco e aguentar humilhações com um suave sorriso no rosto. Assim como a construção de estranhas parcerias para manter as aparências dentro de um mundo fechado onde ninguém evolui.

Ele não se importava de ser irreverente em relação a Nova York, mas se incomodava ao ouvir qualquer pessoa assumir o mesmo tom,


Tornando cada personagem muito rico e complexo na forma como lidam com os seus sentimentos. Ao serem retratados de uma forma extremamente humana, seus dilemas e escolhas não possuem retorno, tornando-se parte da sua própria personalidade ao apresentar os caminhos que a porta escolhida abriu.

Ellen Olenska me conquistou pela coragem de enfrentar uma sociedade conservadora e não ceder aos seus pedidos. Ao mesmo tempo que ela transmite liberdade, ela também tem respeito pela prima May, apesar de todo o desejo que ela sente por Archer, ela consegue delimitar os próprios limites e não se prender a um amor dominado por incertezas.

Original! Nós somos tão iguais uns aos outros quanto aquelas bonecas cortadas da mesma pilha de papel.


Em relação a May, ela foi a personagem que mais me surpreendeu. Suas muitas camadas são desvendadas ao longo do livro, mostrando que ela também era forte, por mais que Archer e o leitor pensem o contrário.

Já Archer foi o personagem que me provocou um misto de sentimentos. Sendo o protagonista da história, algumas vezes me fez revirar os olhos, chamá-lo de idiota e mesmo assim, admirar a sua evolução durante a narrativa, o que me deixou de coração apertado ao chegar na última página.

A era da inocência pode agradar quem gosta de histórias de época, onde a sutileza da paixão é transmitida nos pequenos gestos com capacidade de gerar toda uma tensão em um parágrafo. Também irá agradar quem gosta de imergir nas páginas através de detalhes que te deslocam para outra época. E claro, também irá agradar aqueles que gostam de uma boa história.


A era da inocência
The age of innocence
Edith Wharton
Tradução: Isadora Sinay
TAG
316 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1920.


domingo, 30 de novembro de 2025

Do amor e outros demônios


Sinopse: Durante a inspeção das criptas de um convento em Cartagena das Índias, na Colômbia, é encontrado o túmulo de uma jovem com cabelos que ainda crescem mesmo após a morte. A descoberta remete à história de Sierva María, filha de um marquês decadente, criada entre escravizados africanos e profundamente marcada por crenças e rituais sincréticos. Após ser mordida por um cão com raiva, a menina é enviada a um convento, onde é considerada possuída por demônios. Lá, conhece o jovem padre Cayetano Delaura, designado para exorcizá-la. No entanto, o que se desenvolve entre eles é uma paixão intensa, proibida e trágica, que confronta fé, desejo e as instituições da época.


No mês de agosto/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora Socorro Acioli (Oração para desaparecer) Do amor e outros demônios do consagrado escritor colombiano Gabriel García Márquez. O mimo foi um chaveiro com a frase "Ler abre portas".

Na Colômbia colonial do século XVIII, uma menina de doze anos é vítima, como outras pessoas que circulavam nas ruas no mesmo momento, de um cachorro raivoso.

Chamada de Sierva María, menina é negligenciada pelos pais, o marquês Ygnacio sua esposa viciada Bernarda. Criada pelos escravos, possui um comportamento diferente do esperado pelas pessoas de sua classe social.

Devia mesmo estar muito inquieto para fazer a pergunta à esposa, e ela muito aliviada de sua bile para lhe responder sem um sarcasmo.


O que faz com que o seu pai passe a temer que ela esteja infectada pela raiva, e após realizar consultas com médicos e religiosos, interna a menina no Convento de Santa Clara, onde é mantida isolada enquanto aguarda suas sessões de exorcismo.

Mas o padre que deveria livra-la de todo mal, acaba tendo uma paixão obcecada ela menina, colocando em questão as suas próprias crenças conforme vai conquistando a atenção de Sierva.


A escrita de Gabriel García Márquez

Não é chover no molhado dizer que Gabo, ou o escritor colombiano Gabriel García Márquez, dispensa apresentações. Afinal, é um dos autores mais importantes e conhecidos do século XX, sendo um exponente do realismo mágico na literatura latino-americana.

Ganhador do Nobel de Literatura em 1982, o seu livro Cem anos de solidão virou recentemente série e é, além de uma das suas obras mais famosas, uma narrativa inesquecível que conta gerações de uma família em uma cidade fictícia.

Não eram poucos nem banais os casos de raiva na história da cidade.


No romance Do amor e outros demônios Gabo utiliza o realismo mágico de uma forma mais ambígua, onde o leitor não sabe se o escritor está utilizando elementos sobrenaturais ou se o psicológico dos personagens, somado ao seu ambiente social, explica o que está acontecendo.

A forma narrativa utilizada é a em terceira pessoa, o que permite ao leitor ter acesso a todos os personagens envolvidos, e ter uma visão mais ampla da história que mistura colonialismo, religião, laços familiares, amor, opressões, sonhos e punições.

Acreditava que a menina se sentia bem, e parecia-lhe impossível que uma coisa tão grave tivesse acontecido sem seu conhecimento,


Em Do amor e outros demônios o autor vai buscar para sua narrativa de realismo mágico a combinação de um evento vivido quando o autor era um jovem repórter, quando ao acompanhar a exumação dos restos mortais de uma jovem, a mesma ainda possuía uma cabeleira entre 16 e 22 metros de comprimento em tom de cobre intenso com uma história contada por sua avó sobre a filha de um marquês que precisou ser trancada em um convento pelo seu comportamento.

Inspirado em uma história real que Gabo cobriu durante o seu período como jornalista somada a uma lenda que sua avó lhe contava, a fusão com a ficção permitiu criar uma narrativa com toque de magia, crítica e tragédia.


O que eu achei de Do amor e outros demônios

Este é o terceiro livro que eu leio do Gabriel García Márquez. Comecei logo com Cem anos de solidão, que segue sendo o meu favorito, depois embarquei em Memórias das minhas putas tristes que me deixou desconfortável e agora embarquei em Do amor e outros demônios.

Da mesma forma que ocorre em Memórias, temos um gatilho aqui se analisado com o olhar da nossa época atual, que é o relacionamento de uma pré-adolescente, Sierva María tem 12 anos, com o Padre Cayetano Delaura, que tem 36 anos.

A primeira coisa que fez foi devolver à menina o quarto de dormir de sua avó marquesa, de onde fora tirada para dormir com os escravos.


Como mãe de menina eu precisei ser relembrada do contexto histórico. Estamos falando do período colonial e da inquisição, isto é, século XVIII, onde era comum o casamento com meninas desta idade.

Resolvida esta questão, assim como o realismo mágico é sutil, o amor também é difícil de ser encontrado. Pois não achei que a relação de Sierva e Cayetano fosse de amor, existe um desequilíbrio muito grande de liberdade, já que estamos falando de uma paixão entre exorcista e quem será exorcizado.

O coração da menina batia aos saltos enlouquecidos, e a pele soltou um orvalho lívido e glacial, com um recôndito cheiro de cebola.


Além disso, ao ficar presa, a menina acaba tendo poucas interações, podendo facilmente se apegar a quem lhe dê atenção. Já o padre tem velhas questões não resolvidas que vem à tona com a presença da menina, o que cria uma crise não só para a igreja, mas em tudo o que ele acredita.

Somado a isso, Sierva não é criada com amor nem dentro de casa, já que a menina vive com os escravos. Então a sua forma de agir, só notada após ela ser mordida por um cachorro raivoso, não vem de demônios, e sim do que ela vê, é ensinada e repete.

A cidade estupefata interpretou a tragédia como a deflagração da cólera divina por alguma falta inconfessável.


O comportamento dos pais também não é exemplar. Um casamento de fachada, onde a mãe, Bernada, buscava riqueza com o Marquês Dom Ygnacio, e encontrou a decadência. Ambos negligenciam a filha, pois enquanto a esposa se dedica aos próprios vícios, o marido vive em apatia, conservando um mínimo de respeito entre os seus pares apenas por causa do seu título. Enfim, puro suco de hipocrisia.

Tornando a leitura muito mais de relações tortas e crítica a sociedade de um período histórico, que geram situações e resultados muito mais absurdos do que qualquer realismo mágico, mostrando mais uma vez que a loucura de unir aparências e crenças já foi muito pior do que nos dias de hoje, e não, não deve voltar.

A mãe a odiou desde que lhe deu de mamar pela única vez e se negou a tê-la consigo com medo de matá-la.


E por estes motivos sim, eu gostei da leitura. Não superou Cem anos de solidão na minha preferência, mas é um livro de leitura envolvente e fluída, relativamente curto de ler, que mistura na dose certa momentos leves, podendo ser cômicos conforme o senso de humor do leitor, com questões de reflexão e surpresa.

Ficando a dica para todos que gostam de um bom livro.

Do amor e outros demônios
Del amor y otros demonios
Gabriel García Márquez
Tradução: Moacir Werneck de Castro
TAG - Record
191 páginas - 2025
Primeira publicação originalmente no ano de 1994


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O desabamento


Sinopse: Fruto do primeiro casamento de sua mãe, o irmão de Louis é o mais velho dos cinco filhos. Logo nas primeiras linhas deste romance, que é considerado um dos mais sombrios do autor, o narrador afirma não ter sentido nada ao saber da morte do irmão. “Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo”, diz, a determinada altura. É tomando essa distância ― física e afetiva ― que o narrador esmiúça a existência de seu irmão, entrevistando pessoas próximas de seu convívio, como uma professora e algumas ex-companheiras, e relembrando momentos decisivos da relação fraternal. Para reconstruir esse personagem, o narrador se vale das ciências sociais, da literatura, da psicologia e da memória, resultando em um romance único e inesquecível, de força e sensibilidade inigualáveis.



No mês de Julho/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da própria TAG, que estava de aniversário: o livro do escritor francês Édouard Louis chamado O desabamento. O mimo foi um livro extra de poesias do chileno Pablo Neruda.

O romance de auto ficção O desabamento tem o próprio autor Édouard Louis como narrador da morte precoce do seu irmão mais velhos aos 38 anos, causada pelo seu alcoolismo, vícios e o conjunto de violência e fugas acumuladas em seu curto período de vida.

Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer.


Ao tentar reconstruir a história de vida do irmão, o autor precisa lidar com os seus próprios fragmentos de memória que o farão retornar a infância e adolescência em uma vila operária no norte da França, em um ambiente que combina pobreza e violência familiar e social.

Outro recurso utilizado é através de depoimentos e conversas com mulheres próximas do irmão, que entram como um fator a mais para analisar não só o que levou o seu irmão mais velho para um caminho de autodestruição, como das suas próprias feridas nesta relação que combina amor e desprezo.


A escrita de Édouard Louis

Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, o escritor e sociólogo francês Édouard Louis ficou conhecido por usar a sua história familiar para escrever romances de auto ficção.

Em seus romances temas como classe social, homofobia, pobreza, violência, busca por ascensão social e naturalmente, laços familiares são componentes frequentes em suas narrativas.

Ele disse que ia aprender uma nova profissão, com técnicas muito especificas, um saber que não é qualquer um que aprende, mas que ele, ele aprenderia.


O desabamento lançado recentemente faz parte de uma sequência de livros iniciados pelo seu primeiro romance "O Fim de Eddy", que conta a sua história, passando por narrativas que abordam também a figura da sua mãe e do seu pai.

Por ser auto ficção, a narrativa utilizada em O desabamento é em primeira pessoa, os capítulos são curtos e alguns questionamentos internos aparecem com frequência em alguns capítulos, lembrando um fluxo de consciência.

Meu irmão morreu. Eu resolvia essa frase na cabeça.


Também é utilizado a ênfase em determinadas frases, que além de serem a única informação, podem se repetir por mais de uma página, como uma forma de compartilhar o que martela na cabeça do escritor também na do leitor.


O que eu achei de O desabamento

Não são raras as vezes que junto com a morte são enterradas (ou queimadas) todas as dores e mágoas que a pessoa provocou em vida. 

Só que existem exceções, e em O desabamento o autor, na minha opinião, parece revisitar estas memórias para de certa forma entender a dor que permaneceu, apesar do irmão não poder mais feri-lo.

Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo: uma noite, nossos corpos se aproximaram por circunstâncias alheias á nossa vontade, e então entendi quem ele era, e o odiei.


E ao se recordar das mágoas, inevitavelmente também vem as boas lembranças, tornando tudo ainda mais confuso para quem não apenas busca o ombro dos amigos para saber se está correto, como divide toda essa carga psicológica nas páginas de um livro, dividindo com quem se deparar com ela.

No geral, eu achei a leitura boa, não havia lido nada do Édouard Louis antes, e em alguns momentos me solidarizei com a sua dor, pois outra coisa que desaparece com os mortos pelos quais os nossos sentimentos são controversos, são as respostas do por que não ser aceito? por que ser alvo de determinadas agressões? Entre tantos outros porquês que talvez só irão desaparecer com o tempo.

Será que escrevo porque essa dor faria com que eu me sentisse normal, um irmão como todos os outros irmãos, que chora a morte do outro?


Não achei ótimo pelo fato de em alguns momentos acha-lo repetitivo, o que também é natural, pois ao colocar todo o foco no que já foi, a mente tende a andar em círculos, o que é facilmente identificado no decorrer das páginas.

Por outro lado, esta repetição me fez pensar se existe culpa por não conseguir se livrar de toda a dor provocada. De não ser como muitas pessoas e só divulgar o que houve de bom, santificando quem muitas vezes nos infernizou. Tornando o livro também um desabafo de quem ficou e não sabe mais o que fazer com a carga emocional nuca resolvida.

Às vezes tenho a impressão de que a história do meu irmão é a história de uma Ferida lançada no mundo e sempre reaberta.


Já me disseram que o livro se torna ainda mais claro se for lido o primeiro romance do autor, O Fim de Eddy. E confesso que isso me despertou a curiosidade, para ver se terei os mesmos sentimentos em relação ao Desabamento, ou se o meu entendimento se ampliaria.

Ficando a dica para quem gosta de auto ficção, narrativas que envolvem conflitos familiares, ou que procura um livro rápido para ler.


O desabamento
L'effondrement
Édouard Louis
Tradução: Marília Scalzo
TAG - Todavia
2025 - 165 páginas
Publicado originalmente em, 2024

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Corregidora



Sinopse: Ambientado entre o fim dos anos 1940 e 1970, Corregidora conta a história da personagem Ursa Corregidora, mulher negra, cantora de blues, no Kentucky. Ao mesmo tempo que busca conquistar espaços para desenvolver sua carreira e viver de sua arte, Ursa atravessa relacionamentos tumultuados e ocasionalmente violentos. Em uma das agressões sofridas, passa por uma histerectomia e precisa lidar com a frustração e a angústia por não ser capaz de atender ao apelo de suas antepassadas para “dar à luz novas gerações”, o que seria fundamental para continuar a tradição oral que evitaria o apagamento da realidade da vida sob a escravatura.



No mês de junho/25 recebi da minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor Jeferson Tenório: Corregidora da escritora norte-americana Gayl Jones. O mimo foi doce e saboroso, pois vieram mini alfajores da Odara que eu adoro.

Após uma violenta briga com o marido, Ursa Corregidora não apenas sofre um aborto como passa por uma histerectomia devido à gravidade dos danos sofridos. Fazendo com que ela não possa gerar descendentes e assim repassar a história dos seus antepassados, conforme foi tão pedido por sua avó.

Passado que atende por um homem chamado Corregidora e tem como profissão ser traficantes de escravos no Brasil. Um português que assombrou a vida de sua bisavó e avó, cuja memória dos atos interferem até hoje em Ursa e em sua mãe.

Eu dizia que não cantava apenas pra me sustentar. Dizia que cantava porque era algo que devia fazer, mas ele nunca entenderia isso.


Afetando suas amizades, relações familiares e também as amorosas. Onde os traumas e a dor parecem aprisionar a personagem principal em um clico vicioso eterno.

E é esta mistura de escravidão, violência contra a mulher e transmissão da história familiar que irão conduzir o leitor ao ritmo do blues no decorrer das páginas.


A escrita de Gayl Jones

A autora norte-americana Gayl Jones é conhecida como uma das figuras centrais na literatura afro-americana é conhecida pelo seu trabalho como escritora, poetisa e professora universitária.

Corregidora é justamente o seu primeiro romance, publicado em 1975 e editado por Toni Morrison (O olho mais azul), e já apresenta o estilo literário pelo qual ela seria conhecida, com a exploração de temas como violência, loucura e opressão sofrido pelas mulheres negras.

O velho Corregidora, um português que reproduzia escravizados e era cafetão.


Durante suas pós-graduações surgiu o interesse pelo Brasil, o que se reflete no livro Corregidora e em um livro recente chamado Quilombo dos Palmares.

No geral sua escrita é bastante direta, em Corregidora a autora utiliza muito o recurso dos diálogos, o que pode exigir mais atenção do leitor para não se perder sobre quem está dizendo o que.

Agora não é hora de se agarrar a nada. Qualquer mulher se agarra a qualquer coisa. Por medo. 


Pela metade da história, há mais parágrafos descritivos, amenizando assim o cansaço inicial de acompanhar todas as discussões, e também reduzindo assim possíveis desentendimentos sobre o que está ocorrendo na narrativa.


O que eu achei de Corregidora

Corregidora foi um livro que me causou vários estranhamentos. Começando pela citação da escravidão no Brasil, que em um primeiro momento eu achei que fosse uma mudança na tradução e depois descobri que havia sido realmente uma escolha da autora.

Só que essa brasilidade acabou me gerando o tempo todo a dúvida: como é que a avó dela foi parar nos Estados Unidos em um pós escravidão, se eram tão pobres? Confesso que este ponto mais me atrapalhou do que acrescentou, me parecendo que o uso da escravidão americana seria mais adequada, ou esta parte da história também poderia ser contada.

Era como se eu quisesse que vissem o que ele tinha feito, que ouvissem. Todos aqueles sentimentos tristes.


O segundo estranhamento foi em relação as relações do círculo social da personagem principal, o que de certa forma demonstra que sofrer e ser empático não são características que necessariamente andam juntas. Principalmente o seu comportamento em relação a amiga que a ajudou, e depois ela se afastou por um preconceito bobo.

Também fiquei com o sentimento de que a escravidão mais trabalhada na narrativa não é primeira que nos vem à mente e citada na contracapa, mas sim do ciclo vicioso de relacionamentos abusivos e violência contra a mulher. Sendo neste ponto uma narrativa ainda muito atual, já que ainda temos muitas Ursas ao nosso redor, independente de cor e classe social.

Tenho tudo o que elas tiveram, menos os descendentes. Não posso criar descendentes.


Fazendo com que várias vezes eu me perguntasse afinal qual o motivo da personagem querer ter um filho só para repassar todos os traumas que carrega? É uma espécie de terapia não aprovada? Só passando para a próxima geração a pessoa irá se sentir mais leve?

Por outro lado, achei interessante como ela aborda as figuras femininas, seja através da competição por um mesmo homem, a forma como lidar com a própria sexualidade, as relações familiares que não garantem liberdade de comunicação.

Como se agora ele não fosse exigir as mesmas coisas. Seriam exigências diferentes. Mas ainda teria exigências.

Assim como os caminhos escolhidos pela Ursa, que a tornam próximas de tantas mulheres que não conseguem sair do lugar, que apenas acumulam situações e sonhos, sem nunca os realizar ainda nos dias de hoje.

No geral achei a narrativa de Corregidora interessante, embora longe de ser a melhor leitura feita no ano, ela propõe reflexões que podem gerar debates pós leitura, principalmente no que envolve o universo feminino, tornando uma leitura que não some da mente no dia seguinte após fechar a última página.


Corregidora
Gayl Jones
Tradução: Nina Rizzi
TAG - Instante
2025 - 175 páginas
Publicado pela primeira vez em 1975

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Se adaptar


Sinopse: “UM DIA, NUMA FAMÍLIA, NASCEU UM MENINO INADAPTADO”. Assim começa a história do menino de olhos negros que flutuam para o nada, eternamente deitado, e dos seus três irmãos. Em meio à natureza poderosa das montanhas, são as pedras do muro da velha casa da família que testemunham suas trajetórias. O amor absoluto e protetor do mais velho, a rebeldia que a do meio assume para rejeitar a dor, a chegada do mais novo que cresce à sombra das memórias. Um livro magnífico e luminoso, sobre o laço infinito entre irmãos e a inesgotável capacidade humana de se adaptar.



No mês de maio/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da editora Ana Lima Cecílio, que foi o livro Se adaptar da escritora francesa Clara Dupont-Monod. O mimo foi uma obra inédita produzida em família de Rafael Coutinho e Laerte.

No sul da França, em uma região que a natureza e as montanhas se fazem presente, uma família tem sua vida totalmente alterada após o nascimento do terceiro filho.

Um dia, numa família, nasceu um menino inadaptado. Ainda que de uma crueldade degradante, é esse termo que dá a real dimensão de um corpo mole, de um olhar móvel e vazio.


O menino que nasce com uma condição não nomeada que o impede de se movimentar e interagir com o humano, gerando sentimentos diversos em seus pais e seus dois irmãos.

E é sobre esta necessidade de se adaptar a quem nasceu inadaptado que irá gerar relações complexas e diferentes do irmão mais velho e da irmã do meio.

Há milhares de anos, temos sido as testemunhas. As crianças são sempre as esquecidas das histórias.


Tudo em meio em uma narrativa sensível, que ao mesmo tempo que nos coloca no lugar do outro, nos enche de perguntas.


A escrita de Clara Dupont-Monod

A escritora e jornalista francesa Clara Dupont-Monod é conhecida por suas críticas literárias e a escrita sensível de seus livros, que tiveram como resultado duas premiações, inclusive o Prix Femina em 2021 por Se adaptar.

Em Se adaptar ela coloca as pedras para contarem a história do menino inadaptado e seus irmãos. Dividido em três partes, o foco está totalmente nos irmãos, sendo necessário estar atento aos detalhes para perceber o impacto sofrido também pelos pais.

Muito lhe disseram que o tempo cura. Na verdade, ele o mede durante essas noites, e o tempo não cura nada, muito pelo contrário.


As mudanças naturais no local onde a família são outro ponto de atenção, servindo tanto como um anúncio do que está por vir como uma metáfora de todas as transformações que ocorrem com os personagens que começam crianças e chegam à idade adulta na narrativa.

A escrita é ao mesmo tempo delicada, poética e real. Existe uma humanidade latente em cada um dos seus personagens, provocando o leitor sobre de que forma ele se adaptaria se vivesse situação semelhante.


O que eu achei de Se adaptar

Ao contrário do que é dito, não me pareceu que eram as pedras que estavam contando a história. Só me lembrava que eram elas quando as mesmas eram nominalmente citadas. Como se faltasse algo para gerar essa conexão, dando a impressão de ser uma narrativa simples em terceira pessoa.

No geral achei a narrativa uma mistura de tristeza, resiliência e revolta com todo o peso físico, financeiro e emocional de criar uma criança que não irá interagir com o mundo conforme o esperado.

Os primeiros enfrentavam, o segundo foi se fundindo. Para ela, não sobrava nada, nenhuma energia para sustentá-la.


O resultado de tudo isso é silêncio, solidão, negação e como diz o título, adaptação. Motivo pelo qual apesar do livro ser curto, aos poucos ele foi me gerando um cansaço, principalmente quando cheguei na última parte.

Cansaço semelhante ao encontrado muitas vezes nesta visão do que se passa dentro de uma família que tem as ilusões quebradas por algo que torna o seu filho inadaptado para a vida em sociedade.

Um senso de dever as guia. Elas vão estar sempre ali, vigias na noite escura, vão se virar para não sentir nem frio nem medo.


E são os filhos que acabam representando as diferentes reações. Começando pelo irmão mais velho que abdica de tudo para dar suporte e sente a dor de forma mais latente a ponto de se fechar para o mundo. E os pais simplesmente parecem não ter tempo de ver isso.

A irmã do meio é quem se envergonha e acaba por se revoltar por não ter mais a mesma rotina de antes. Mas seus atos já conseguem atrair mais os olhares tão ocupados com as dificuldades do dia-a-dia.

Sentia que não devia ser esse o seu papel, mas sentia também que o destino gosta de bagunçar os papéis e que era preciso se adaptar.


E por fim, tem o irmão que nasce depois e por influência da própria imaginação acaba indo parar a sombra do menino inadaptado. O que me gerou mais dúvidas e curiosidade do motivo pelos pais permitirem ou não perceberem isso. Para logo em seguida me lembrar que quando se trata de seres humanos quem está de fora enxerga melhor do que quem está dentro.

No geral é um livro que mexeu com a minha empatia ao mesmo tempo que gerava questionamentos e reflexões. Motivo pelo qual deixo a dica de leitura aqui. 


Se adaptar
S'adapter
Clara Dupont-Monod
Tradução: Diego Grando
TAG - Dublinense
2025 - 160 páginas
Publicado pela primeira vez em 2021