Sinopse: Um clássico para devorar, A era da inocência é o livro que tornou a irreverente Edith Wharton a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção. A narrativa concentra as mais altas qualidades literárias da autora, que projetou um olhar crítico às entranhas de sua origem social na elite nova-iorquina do século 19. Do instigante triângulo amoroso atravessado por dinâmicas de poder e interesse, saltam questões que ressoam com leitores de todos os tempos, o dilema entre dever e desejo, os silêncios tácitos e a proteção das aparências na estrutura familiar burguesa, o papel social da mulher, a coragem de transgredi-lo e o sentido de uma existência plena.
Em setembro/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora brasileira Renata Belmonte (Mundos de uma noite só) A era da inocência da escritora norte americana Edith Wharton. O mimo foi um diário de leitura.
Na Nova York de 1870 existe uma bolha onde poucas famílias elitistas vivem em um círculo fechado, com valores tradicionais, convenções sociais e muita hipocrisia para ocultar atos e segredos.
Newland Archer é um desses aristocratas norte-americanos, um jovem advogado que namora May, também integrante de uma das famílias tradicionais, que é o retrato da beleza, inocência e tudo o que se espera de uma futura esposa.
Então a luz caiu sobre ele e, com ela, um ímpeto momentâneo de indignação.
O mundo de Archer treme com a chegada da prima de May, a Condessa Ellen Olenska, uma mulher que retorna da Europa após ousar se separar de um conde polonês que era abusivo.
A liberdade e os desejos que ela inspira fazem com que o jovem Archer antecipe seu noivado e casamento com May. Mas o que era uma escapatória, acaba aproximando ainda mais da condessa, gerando em Archer a vontade de mudar o seu próprio mundo e se entregar em um novo relacionamento.
A escrita de Edith Wharton
A escritora e especialista em design de interiores e paisagismo Edith Wharton usou de seu privilégio para mostrar através da escrita todas as regras sociais e hipocrisia da era vitoriana e da era dourada. Ao receber uma educação que lhe deu domínio de outros idiomas além do inglês e da cultura europeia, foi impossível a jovem mulher não vivenciar conflitos entre o que o seu intelectual exigia e o que era pedido as mulheres da sociedade da elite de Nova York na época. Tendo a sua carreira reconhecida só após os seus quarentas anos.
Sua escrita é reconhecida pelas descrições detalhadas dos ambientes, o que transporta os seus leitores para cada local descrito, pela sua ironia e a complexidade psicológica de seus personagens. Entre os muitos livros publicados está o que a fez ser a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção (1921), chamado de obra-prima a Era da inocência ou A época da inocência, foi publicado em 1920 e segue tendo uma história arrebatadora.
Todos nós temos nossa gente comum de estimação...
Por conhecer as regras do jogo, em à Era da inocência Edith Wharton utiliza uma paixão para de certa forma dissecar o funcionamento da elite de Nova York, apresentando não apenas as suas regras, mas o seu tribunal próprio, a ignorância forjada, a necessidade de manter as aparências, a covardia, as manipulações e os conflitos pessoais.
Narrado em terceira pessoa, a perspectiva está centralizada no personagem Newland Archer, cuja educação permite a escritora brincar com as diferenças entre o que se sente e pensa com o que se diz, tornando os conflitos internos tensos e aparentes apenas em gestos e comportamentos, já que palavras nunca devem ser ditas.
Sua própria exclamação "as mulheres devem ser livres... tão livres quanto nós", tocava na raiz de um problema que o mundo dele concordava em considerar inexistente.
O fato da paixão ser apenas um recurso para demonstrar a rigidez da sociedade daquela época, existe uma lentidão nos acontecimentos, no mesmo ritmo das mudanças nos paradigmas que norteiam os personagens, em uma escrita de linguagem cuidadosa, onde cada detalhe é importante para se deixar envolver e adentrar em um mundo onde dedos não são diretamente apontados, mas os que não atendem o perfil são simplesmente julgados e excluídos.
E para quem preferir assistir ao filme primeiro, antes de entrar na história, Martin Scorsese fez a sua versão cinematográfica em 1993 com o título de A época da inocência.
O que eu achei de A era da inocência
A forma narrativa utilizada pela escritora Edith Wharton me transportou para os Estados Unidos dos anos de 1870. A riqueza dos detalhes permite ao leitor que se deixa envolver pelas páginas sentir os cheiros, as temperaturas, as texturas do que está na volta.
As personagens femininas transmitem pela sua personalidade as diferenças geracionais da época, o que envolve tradição, a bolha social e a coragem de se libertar de relacionamentos que não lhe fazem bem ou não agregam em nada.
A etiqueta exigia que ela esperasse, imóvel como um ídolo, enquanto os homens que desejavam conversar com ela se sucedessem ao seu lado.
No quesito relacionamento, a paixão fulminante de Archer ressuscita o eterno dilema do Se, e se ele não houvesse se assustado com a presença de uma mulher tão diferente? E se neste medo do desconhecido, ele não tivesse corrido tanto para antecipar o casamento com o que era seguro, mas não arrepiava sua pele nem tomava conta dos seus pensamentos?
O tipo de casamento que curiosamente segue atemporal, já que falamos de uma rotina que mata sonhos e tira vontades. Que faz engolir o orgulho a seco e aguentar humilhações com um suave sorriso no rosto. Assim como a construção de estranhas parcerias para manter as aparências dentro de um mundo fechado onde ninguém evolui.
Ele não se importava de ser irreverente em relação a Nova York, mas se incomodava ao ouvir qualquer pessoa assumir o mesmo tom,
Tornando cada personagem muito rico e complexo na forma como lidam com os seus sentimentos. Ao serem retratados de uma forma extremamente humana, seus dilemas e escolhas não possuem retorno, tornando-se parte da sua própria personalidade ao apresentar os caminhos que a porta escolhida abriu.
Ellen Olenska me conquistou pela coragem de enfrentar uma sociedade conservadora e não ceder aos seus pedidos. Ao mesmo tempo que ela transmite liberdade, ela também tem respeito pela prima May, apesar de todo o desejo que ela sente por Archer, ela consegue delimitar os próprios limites e não se prender a um amor dominado por incertezas.
Original! Nós somos tão iguais uns aos outros quanto aquelas bonecas cortadas da mesma pilha de papel.
Em relação a May, ela foi a personagem que mais me surpreendeu. Suas muitas camadas são desvendadas ao longo do livro, mostrando que ela também era forte, por mais que Archer e o leitor pensem o contrário.
Já Archer foi o personagem que me provocou um misto de sentimentos. Sendo o protagonista da história, algumas vezes me fez revirar os olhos, chamá-lo de idiota e mesmo assim, admirar a sua evolução durante a narrativa, o que me deixou de coração apertado ao chegar na última página.
A era da inocência pode agradar quem gosta de histórias de época, onde a sutileza da paixão é transmitida nos pequenos gestos com capacidade de gerar toda uma tensão em um parágrafo. Também irá agradar quem gosta de imergir nas páginas através de detalhes que te deslocam para outra época. E claro, também irá agradar aqueles que gostam de uma boa história.
A era da inocência
The age of innocence
Edith Wharton
Tradução: Isadora Sinay
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316 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1920.

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