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terça-feira, 27 de maio de 2025

O perigo de estar lúcida


Sinopse: Com base na sua experiência pessoal e na leitura de inúmeros livros sobre psicologia, neurociência, literatura e memórias de grandes escritores, pensadores e artistas, Rosa Montero oferece aqui um estudo fascinante sobre as ligações entre criatividade e instabilidade mental. E o faz compartilhando curiosidades surpreendentes sobre como nosso cérebro funciona na hora de criar, decompondo todos os aspectos que influenciam a criação e reunindo-os diante dos olhos do leitor enquanto escreve ― como uma investigadora pronta para combinar peças avulsas para solucionar um caso misterioso. Ensaio e ficção andam de mãos dadas nessa exploração das conexões entre o criar e a loucura. 



Em A Louca da Casa, a escritora espanhola Rosa Monteiro já havia listado aos leitores o conjunto de ingredientes que levam um autor a conquistar a mente de quem vira suas páginas de forma a não largar o livro até chegar à última página.

Em O perigo de estar lúcida ela explora ainda mais a relação um tanto complexa entre a criatividade e a instabilidade mental. E exemplos de escritores famosos com seus fins nada felizes não faltam para nos fazer refletir sobre este sofrimento.

Isso é algo que acontece com frequência: você vai crescendo e um belo dia descobre que aquilo que acreditava firmemente na infância era uma falácia ou uma bobagem.


Sofrimento que pode servir de inspiração artística, ou que busca através da escrita um alívio para as dores pessoais que atormentam o dono das palavras.

Ao utilizar a sua própria vivência compartilhando suas crises de pânico, ela consegue equilibrar as explicações teóricas sobre fatores químicos e situacionais com os sentimentos de quem sentiu na pele. Em um texto que fala de criatividade, envelhecimento, funcionamento do cérebro, escolhas e tempestades.

Os fantasmas de um escritor são aqueles temas ou detalhes que se repetem constantemente em seus livros sem que, de modo geral, ele ou ela tenha consciência disso.


Ao falar sobre a tempestade perfeita, que pode resultar em um surto de criatividade ou em um último ato, ela aproxima a todos que de alguma forma convivem com isso ao mesmo tempo que dá luz a um assunto em que nem todos aceitam conversar pelo preconceito que ainda existe.

O único porém é que o livro pode fornecer alguns gatilhos para quem talvez esteja mais sensível no momento. E mesmo a autora solicitando que se aguente um pouco mais e espere a tempestade passar, talvez nestes casos, a leitura também deve ser deixada para um momento em que os pensamentos intrusivos não tragam ideias que possam nos ferir naquele momento.


A escrita de Rosa Monteiro

A espanhola Rosa Monteiro estudou jornalismo e psicologia, e com suas obras que abrangem desde romances, passando por ensaios, crônicas e literatura infantojuvenil. O que tornou a escritora uma das mais influentes jornalistas e escritoras contemporâneas da Espanha.

Seus livros tem por característica uma narrativa introspectiva, as vezes feministas, frequentemente autobiográfica, e sempre muito sensível, tornando-a envolvente para os leitores.

Se você realmente acha que não sente nada, isso significaria que não ama ninguém. E, se não ama, será que você não é o maior impostor do universo?


E é essa mistura junto com os temas morte, memória, loucura, vida, morte  e arte que são encontradas nas páginas de O perigo de estar lúcida.

Ao misturar relatos de sua própria vida, ficção e um pouco da vida de grandes nomes da literatura como Sylvia Plath, Virginia Woolf e Janet Frame de uma forma direta, simples e sensível, sua escrita nos leva a encarar de frente os desafios psicológicos enfrentados enquanto a arte segue sendo criada por mentes inquietas.

Se você tirasse o córtex cerebral da cabeça e o passasse a ferro, ele poderia chegar a medir meio metro quadrado.


Nos levando a várias reflexões sobre o funcionamento complexo da mente humana, passagem do tempo e sobre o ato de viver.


O que eu achei de O perigo de estar lúcida

Logo no primeiro parágrafo sou remetida para uma memória de infância. Rosa Monteiro tinha um objeto em casa que a mãe precisava esconder para ela dormir. Nas inúmeras casas que eu morei, havia o rosto de um chinês pendurado cujos olhos, independentemente de onde eu estava, pareciam estar me observando. Toda vez que eu ficava sozinha, tirava o objeto e deixava de rosto virado para o sofá, para ter paz.

Seguindo a leitura, parecia estar andando em um caminho aparentemente inocente, criatividade, cérebro que funciona diferente e então o sombrio. As várias vidas que se foram por não conseguirem esperar a tempestade perfeita passar.

Mesmo o romance mais experimenta e desconexo tem um começo e um fim, e domestica de algum modo essa algazarra absurda em que vivemos.


Internações, sofrimentos, obsessões, mulheres subjugadas. Não há ninguém para salvar pessoas de cérebro inquieto? Cujas vozes parecem narrar histórias, teorias e até mesmo pesadelos grande parte do dia? Ninguém para ver os sinais?

E embora eu tenha achado o livro muito semelhante ao Louca da casa, a ponto de precisar dar uma pausa por um breve momento estar achando a leitura enfadonha. Ao final me dei conta que é um livro que mexeu com o meu íntimo. Viver, morrer, envelhecer, sonhar, ter medo da loucura, da depressão ou de simplesmente adoecer. 

Não consigo me enxergar na minha idade real. Não entendo como cheguei a isso. 


Tudo muito próximo neste nosso mundo bastante insano, que parece testar o nosso limite em diversas situações e áreas. Onde resistência e resiliência podem ser exigidas todos os dias até te levar a lágrimas de exaustão.

Exigindo uma coragem extra para a tempestade perfeita passar. Exigindo uma proteção nos olhos para buscar uma luz em meio a escuridão. Exigindo sensibilidade para encontrar uma mão de apoio próxima que perceba sinais e te ajude a esperar por mais um dia. Exigindo uma respirada mais funda ao se dar conta de quanto tempo passou.

Não importa o quão maluco você pareça: sempre há um punhado de gente no mundo que sente, pensa e age como você.


Motivo pelo qual eu gosto tanto da escrita da Rosa Monteiro, ela consegue ao contar as histórias de grandes nomes da literatura mostrar a humanidade de sentimentos tão complexos da nossa mente. Sem julgamentos, somente com fatos e uma gentileza com aqueles que mereciam um abraço.

Ficando a indicação para quem gosta de livros que tratam de temas psicológicos, sobre a arte da escrita, sobre autores de renome, ou que simplesmente gostam de ler.


O Perigo de estar lúcida
El peligro de estar cuerda
Rosa Montero
Tradução: Mariana Sanchez
todavia
2023 - 270 páginas
Primeira publicação em 2022

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Inteligência Socioemocional



E se as crianças tivessem uma aula semanal de como administrar suas emoções? Saber como reagir perante a timidez, as frustações ou fatos tão diferentes do cotidiano?

No livro Inteligência Socioemocional – A Formação de Mentes Brilhantes o psiquiatra Augusto Cury nos apresenta a Escola da Inteligência, programa cujo foco é na educação da emoção e no desenvolvimento da inteligência.

Parece simples, não? Mas a verdade é que no decorrer das poucas páginas que apresentam o programa nos deparamos com uma realidade diária; que vai da expansão da tristeza, angústia e solidão, passando pelo próprio bullying e a falta de qualidade de vida.

Qual o motivo por não conseguirmos ouvir e dialogar com quem não tem a mesma opinião? O que nos leva a deixar que a nossa mente seja tomada de pensamentos negativos? Por que não sabemos esperar?

A ideia do programa conforme o livro é justamente educar a mente desde pequeno para que os futuros adultos saibam gerenciar as suas emoções e assim terem controle de sua própria história sem que sejam levados por impulsos que mais atrapalham do que ajudam.

Também são abordados temas como ansiedade, depressão, suicídio e a síndrome do pensamento acelerado (que pode ser um forte candidato a mal do século) e possui como sintomas ansiedade, irritabilidade, impaciência, dificuldade de lidar com o cotidiano, relação problemática com a comida entre outros. 

Entre as formas de administrar e proteger as emoções estão o desenvolvimento de solidariedade, empatia e ser livre para sentir. Tudo através de ferramentas aplicadas durantes as aulas por profissionais especializados.

Sim, entre as páginas há muita propaganda do próprio autor, que cita outros livros escritos por ele e cita suas descobertas de uma forma que deixa o marketing pessoal bem claro. Mas isso não impede o leitor (ou mais especificamente os pais neste caso) de detectarem situações do cotidiano descritas nas páginas.

Em um mundo em que as pessoas parecem estar ficando tão irracionais quanto os próprios animais, transferindo cada vez mais a sua selvageria para palavras e atos, confesso ter achado muito interessante a possibilidade das escolas formarem uma geração melhor, mais consciente e humana.

Ganhei o livro de uma escola ao qual fui conhecer, já que como mãe estou na fase de escolha da escola grande. Para quem se interessou, existe muita informação na internet. Eu ainda não me decidi, mas confesso que talvez isto seja um diferencial na minha escolha. E decidi compartilhar com outros pais que talvez busquem algo diferente para a educação dos seus filhos.

Inteligência Socioemocional
A Formação de Mentes Brilhantes
Augusto Cury
EI – escola de inteligência
138 páginas

domingo, 24 de outubro de 2010

Fadas no Divã

Apesar do subtítulo “Psicanálise nas Histórias Infantis”, o livro dos autores Diana Lichtenstein Corso e Mário Corso pode ser degustado por profissionais de todas as áreas.

Como não tenho habilitação na área de psicanálise, me atrevo comentar como sendo uma leitora voraz, iniciada no mundo das letras por alguns dos seres mágicos citados.

Dividido em duas partes: histórias clássicas e histórias contemporâneas, “Fadas no Divã” me trouxe de bônus uma correnteza de lembranças, reflexões e observações.

Nas histórias clássicas é possível conhecer a versão estendida de famosos contos de fadas (que foram “censurados” antes de virarem histórias infantis) e outras histórias igualmente interessantes, mas não conhecidas (pelo menos por mim).

Confesso que algumas observações me geraram uma certa contrariedade, pois me parecem suposições do que cada coisa pode simbolizar. Mas talvez nem os autores originais tenham pensado nisso, pois nas versões estendidas, verifica-se que temas como sexo, violência e vingança não são escondidos.

Já nas histórias contemporâneas as observações me pareceram mais palpáveis, pois refletem muito do comportamento da nossa sociedade atual.

Uma das análises que atraíram a minha atenção foi do Eeyore, o burrinho roxo e meu personagem favorito da turma do ursinho Pooh. Eeyore é definido como melancólico, alguém que tem um eterno desencontro entre suas necessidades.

Nesta segunda parte também encontramos a turma da Mônica, Harry Potter e os encantadores Mafalda, Calvin e Harold, estes últimos sendo descritos como adultos-crianças.

Para finalizar, uma história criada pela família Corso sobre Vampi, o vampiro vegetariano, onde Mário Corso revela que a história foi criada sem nenhuma intenção (o que me fez recordar a minha opinião um tanto crítica sobre a análise de contos antigos), mas que depois eles descobriram muitas coisas pessoais, entre elas, seus conflitos.

Eu poderia escrever horas sobre “Fadas no Divã”, mas apenas lendo para saber que reações e descobertas cada leitor irá ter. Pois mais do que uma psicanálise das histórias infantis, o livro é como um olho externo analisando o ser humano.