sexta-feira, 20 de março de 2026

O segredo final


Sinopse: Robert Langdon, respeitado professor de Simbologia, vai a Praga para assistir a uma palestra revolucionária de Katherine Solomon – uma proeminente cientista e intelectual com quem ele recentemente iniciou um relacionamento. Katherine está prestes a publicar um livro explosivo que contém descobertas espantosas sobre a natureza da consciência humana e que ameaça desestabilizar séculos de crença estabelecida. Quando um assassinato brutal transforma a viagem em caos e Katherine desaparece junto com o manuscrito de seu livro, Langdon se vê na mira de uma poderosa organização e perseguido por um adversário assustador saído da mitologia mais antiga de Praga. À medida que a trama se estende até Londres e Nova York, Langdon tenta desesperadamente encontrar Katherine – e desvendar o que está acontecendo. Em uma corrida eletrizante pelos mundos opostos da ciência futurista e das tradições místicas, ele descobre a verdade chocante sobre um projeto secreto que mudará para sempre o que a humanidade sabe sobre a mente humana.

O sexto livro da série protagonizada pelo simbologista de Harvard Robert Langdon levou sete anos entre escrita e pesquisa. Como nos demais livros, O segredo Final é um thriller que combina mistério intelectual, perseguições e reflexões sobre a mente humana, onde o foco está principalmente em consciência e identidade.

Desta vez o local escolhido é a histórica e enigmática cidade de Praga, onde Langdon vai acompanhar sua namorada Katherine Solomon em um evento que ela é uma palestrante convidada. Katherine  é uma cientista conhecida por suas pesquisas inovadoras sobre a consciência humana e que promete revelar em seu livro uma visão diferente de como compreendemos a mente e a relação entre ciência e espiritualidade.

Eu sou uma neurocientista, garantiu si mesma. Estou em pleno gozo das minhas faculdades mentais. 


Só que quando Langdon está entre os participantes, nada ocorre de maneira simples, e logo ele está envolvido em um mistério que novamente irá trazer símbolos ocultos e referências filosóficas em um verdadeiro tour pela cidade de Praga, enquanto as certezas de quem é confiável ou não se perdem no caminho, já que as descobertas relatadas no livro impactam em pessoas muito mais poderosas que Langdon ou Katherine poderiam imaginar.


A escrita de Dan Brown

O autor norte-americano Dan Brown cresceu em meio ao ambiente acadêmico, e se a música e a sala de aula não se tornaram a sua profissão, como escritor ele obteve reconhecimento mundial com O código da Vinci, livro que apresentou aos leitores o personagem Robert Langdon e mais tarde se tornou filme.

Sua escrita se caracteriza principalmente por trazer temas complexos de forma envolvente, seus thrillers sempre misturam um assunto acadêmico, perseguição, cidades cheias de história, mistério e assassinato. Tudo em uma escrita com várias reviravoltas e explicações que tornam o tema de fácil entendimento para o leitor.

Desde a aurora dos tempos, nós buscamos respostas para os mistérios persistentes da mente humana... a natureza da consciência e da alma.


Em O Segredo final isso não é diferente, e o tema pode ser tão provocativo quanto os descendentes de Jesus Cristo, já que aqui abordamos uma teoria que envolve consciência e vida após a morte. 

Começando pelo fato de que logo no início o leitor é avisado do que é realidade no livro, e não, não é pouca coisa, já que o livro irá apresentar para os mais desavisados, como eu, a existência da ciência noética, que realiza o estudo da consciência humana.

Ele já estava acostumado a essa reação dos desconhecidos. Ela o fazia lembrar que tinha uma forma física, mesmo ninguém conseguindo ver o que ele era de verdade.


E mais uma vez temos a questão religiosa, onde os símbolos religiosos se entrelaçam com os estudos da consciência e porque não dizer, da própria alma.

Tornando uma narrativa que te leva facilmente para o google para saber mais ou servindo como apenas um livro relaxante para testar se algumas das teorias imaginadas ao longo da leitura estará certa.


O que eu achei de O Segredo Final

Eu gosto muito destes livros que parecem um quebra-cabeça, e sou fã do estilo do Dan Brown que sempre usa de tema algo que mexe com a minha curiosidade e me faz ter vontade de viajar para cada cidade que ele envia o Robert Langdon. 

Mas que O Segredo Final não me prendeu tanto assim no seu início. E neste caso foi bom que eu não desisto fácil de um livro.

Certa vez ele havia se pegado igualmente sozinho no Louvre com a Mona Lisa, mas em circunstâncias bem menos agradáveis do que as de agora.


Confesso que tirando bem o início, quando o caos começa e nem Langdon e nem o leitor sabem o que está acontecendo, eu achei a leitura um tanto arrastada até a página cem, quando os ganchos começaram a estimular a minha curiosidade. 

O que eu achei arrastado neste início foi a apresentação de diversos personagens em sequência, parecendo mais centrado na entrada deles do que no desenvolvimento da narrativa em si.  Mas como eu queria saber o que levou a CIA realizar uma movimentação tão grande para que um livro não fosse publicado, eu segui adiante, e sim, na metade final, junto com as explicações, o livro ganhou força para mim.

Sua consciência não é uma criação do seu cérebro. Na realidade, a sua consciência nem sequer está localizada dentro da sua cabeça.


Como em outros livros do autor, há a questão ciência versus religião, aqui é a existência ou não de vida após a morte quando associado a localização da nossa consciência. Um assunto que sim, está sendo debatido cientificamente e daria um novo sentido não só a morte como também a doenças como epilepsia e múltiplas personalidades.

Um ponto interessante em O segredo final é que Katherine não é uma simples coadjuvante na história, a mulher que conhece o professor Langdon há anos é também uma protagonista ao mostrar um outro tipo de cientista, o que estimula vários debates entre os dois e me deixou curiosa em saber se ela será um personagem permanente na série.

A maioria dos livros publicados chegava e partia sem deixar rastro, mas uns poucos ativavam a mente dos leitores e se transformavam em best-sellers.


Aliás, achei que neste livro existem menos enigmas e mais discussões sobre o provar e o acreditar dentro da ciência. No quesito curiosidade tem o resgate da disputa EUA versus Rússia, uma brincadeira com o logotipo de uma famosa rede de cafés e uma homenagem ao próprio editor, que de certa forma virou personagem do livro mostrando o lado editorial.

No geral eu gostei, mesmo não tendo achado o mais empolgante dos livros de Dan Brown, o tema abordado despertou e muito a minha atenção, fazendo a leitura valer a pena e me gerando questionamentos até hoje, principalmente no que se relaciona a doenças que afetam a memória.

O rabino batizou sua criação de golem, "matéria-prima" em hebraico: uma referência ao barro com o qual o monstro fora criado.

Um livro para quem gosta de realizar pesquisas durante e depois da leitura, que gosta de descobrir curiosidades acadêmicas, científicas e de simbologia, para quem curte desvendar mistérios, para quem não se importa de encarar leituras longas e para quem gosta é de ler o que tiver em mãos.


O Segredo Final
The secret of secrets
Dan Brown
Tradução Fernanda Abreu
Arqueiro
2025 - 560 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 13 de março de 2026

A hipótese do amor



Sinopse: Quando um relacionamento falso entre cientistas encontra a irresistível força da atração, as teorias de uma mulher sobre o amor, cuidadosamente calculadas, são postas à prova. Olive Smith, uma estudante de doutoramento em Biologia, não acredita em namoros duradouros. Após terminar o relacionamento com Jeremy, percebe que a sua melhor amiga, Anh, gosta dele e decide juntá-los. Para a convencer de que não se importa e de que está feliz e a namorar, Olive precisa de o provar, mas, pressionada, entra em pânico e resolve beijar o primeiro homem que vê: Adam Carlsen, um jovem professor de outro departamento. Olive acaba por ficar chocada ao perceber que este tirano do laboratório da Universidade de Stanford, conhecido por deixar os estudantes em lágrimas, aceita manter a farsa e fingir que é, realmente, seu namorado.



Para convencer sua melhor amiga Anh de que ela pode se relacionar com o seu ex-namorado, a cientista e doutoranda Olive Smith inventa que está em um relacionamento. Pressionada para apresentar o novo parceiro, ela acaba beijando o primeiro homem que aparece no corretor da universidade e assim acaba sendo vista por Anh.

O problema é que este homem é Adam Carlsen, um professor conhecido por tornar a vida dos doutorandos um verdadeiro inferno e depois de ser agarrado por Olive a lembra das regras sobre assédio.

Ela estava bem ciente de que se comprometer a encarar alguns anos trabalhando oitenta horas por semana, sendo mal paga e desvalorizada, talvez não fosse bom para sua saúde mental.


Mas após boatos de que o professor estaria analisando uma possível troca de universidade, Stanford opta por bloquear o seu financiamento de pesquisa. Gerando a Adam a necessidade de mostrar para a universidade que possui vínculos com o local e não está pensando em ir embora. E assim surge um acordo para que eles representem na frente de todos terem um relacionamento amoroso.

Proporcionando assim uma leitura que mescla risadas, romance e reflexões dos desafios que as mulheres ainda enfrentam, aqui representadas pela ciência e o mundo acadêmico.


A escrita de Ali Hazelwood

A autora italiana e doutora em neurociência utiliza o pseudônimo Ali Hazelwood para escrever romances protagonizado por mulheres que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Sua carreira na escrita começou com outro pseudônimo Ever so Halo, que ela utilizava para escrever fanfics com os personagens de Star Wars. A boa recepção destas histórias de fãs transformou as fics em romances publicados e um deles é justamente A hipótese do amor, que se tornou um fenômeno no TikTok.

Aquele beijo estava parecendo uma cabeçada meio desengonçada, e ela foi ficando ansiosa, achando que não ia conseguir levar a coisa toda adiante.


Seu estilo se caracteriza por comédias românticas em ambientes acadêmicos ou de pesquisa científica. Suas protagonistas são mulheres fortes que precisam superar o machismo e a desvalorização entre os pares de sexo oposto.

Ela se utiliza de alguns temas recorrentes, como "enemies to lovers" e namoros de mentirinha que acabam em relacionamentos românticos.

Era a única mulher na sala, basicamente sozinha num mar de homens brancos que já conversavam sobre barcos, qualquer jogo com bola que tinha passado na Tv na noite anterior e os melhores lugares para viajar de carro.


Sua escrita é bastante fluída e leve, com um ritmo que convida a virar mais uma página enquanto se envolve com as tensões e cenas um pouco mais apimentadas dos personagens. Com uma narrativa em terceira pessoa, o foco está todo na personagem principal Olive, incluindo os seus pensamentos.


O que eu achei de A hipótese do amor

Encontrei a indicação do livro por acaso, como uma leitura leve para distrair a cabeça. Como havia lido uma sequência de livros mais reflexivos e tensos, acabei comprando A hipótese do amor para realmente relaxar.

E sim, o livro é leve, com aqueles clichês de comédia romântica que eu adoro, em uma escrita que realmente me envolveu, já que o término de um capítulo já me despertava a vontade de ler o próximo.

Havia algo especial no jeito com que ele falava. Talvez fosse um sotaque, talvez apenas uma característica de sua voz.


Como uma profissional da área de tecnologia, onde não raro convivo mais com colegas do sexo masculino do que com o do feminino, não foi difícil lembrar de algumas situações de quando iniciei na profissão, em que a capacidade das mulheres ainda levantava dúvidas e sobrancelhas. Algo que felizmente tenho me deparado cada vez menos, embora saiba que a luta não só pelo espaço profissional, mas também de locais livres de assédio indesejado está longe de terminar.

E essa é uma reflexão interessante no livro, as dúvidas, a necessidade de se superar, o medo de ser uma impostora apresentados pela protagonista Olive Smith é ainda muito recorrente entre as mulheres. Pois existe uma autocobrança forte onde não basta ser boa, precisamos sempre sermos ótimas em tudo o que nos propomos, o que gera um stress maior.

Precisava de um laboratório melhor se quisesse produzir conhecimento científico decente. Equipamentos melhores. Reagentes melhores. Culturas de bactérias melhores. Tudo melhor.


Pois estamos sempre precisando provar que temos capacidade de estar ali, que temos direito a ocupar aquele espaço, que merecemos ser reconhecidas pelo nosso desempenho.

Mostrando que mesmo na leveza é possível gerar reflexões importantes, principalmente em um mês que temos o Dia Internacional da Mulher, onde o 8 de março nos lembra do que já conquistamos e de tudo o que ainda precisamos lutar para abranger ainda mais mulheres.

Porque nem por milhões de dólares em fundos de pesquisa valeria a pena ter uma garota aleatória que você nem conhece direito sentada no seu colo no auditório mais lotado da história dos auditórios lotados.


Sobre o par romântico. o Dr. Adam Carlsen não foge do estereótipo de gatão, e apesar da postura inicialmente fechada, foi me conquistando junto com a Olive, tornando um casal fácil de torcer para um happy end.

Também há amizade com Anh e Malcolm, amigos leais que apoiam Olive. Sendo Anh a responsável direta por colocar Olive nas situações mais diversas e, mais importante, ser a causa do início do falso namoro. A interação entre os personagens é muito legal e divertida, trazendo aqueles pequenos grandes dramas e histórias engraçadas que se vive durante o período acadêmico.

Só sei que você sabe não ser um babaca e não entendo por que é tão diferente comigo.


No geral adorei a leitura, mas confesso que apesar de adorar a escrita, não me aventurei a comprar outro livro da autora, com medo de encontrar mais do mesmo. Então se alguém já leu outro título e achar que vale a pena, pode me recomendar aqui nos comentários.

E eu deixo de dica A hipótese do amor, lembrando que é um livro 18+ devido a descrição de dois capítulos do livro, que pode conquistar os corações de quem adora um romance fofo, curte mulheres fortes em histórias leves ou quem quer um vira página para relaxar.


A hipótese do amor
The Love Hypothesis
Ali Hazelwood
Tradução: Thaís Britto
2022 - 336 páginas
Publicado originalmente em 2021


sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915