Em uma madrugada de muitas festas no ano de 1984 uma nuvem de gás tóxica escapa de uma gigante americana fabricante de pesticidas na cidade de Bhopal, na Índia. O resultado: mais de trinta mil mortos. O primeiro problema deste livro: não estamos falando de ficção.
Para relatar uma das maiores tragédias mundiais da indústria química os autores Dominique Lapierre e Javier Moro retrocedem no tempo, e através de pessoas reais nos contam o que existe atrás da tragédia: cultura, pobreza, exploração. Afinal, quanto vale a vida de um cidadão do terceiro mundo que vive em uma favela?
Logo de início seremos apresentados a uma Padmini criança, moradora de uma aldeia indiana que aos 8 anos de idade, junto com os seus irmãos caçulas, precisa trabalhar para ter o que comer em casa. Aqui temos o retrato de crianças sem infância, sem estudo e expostas a insegurança de uma fábrica.
Como ocorre em muitas famílias, com as pragas que devoram as plantações e a falta de alimentos para os animais, eles partem rumo a Bophal e ali tem o seu quadrado demarcado no Orya Bastí, um bairro de favelas.
Em paralelo o leitor é informado sobre os pesticidas, seus males, os níveis de segurança que as fábricas devem ter, a visão dos grandes executivos, a estratégia comercial, o uso do terceiro mundo de forma exploratória.
A imprensa aqui também está representada, no caso pelo repórter Rajkumar Keswani que passou avisando da tragédia que a fabrica poderia causar, mas cujos textos foram ignorados.
Os capítulos intercalam o lado das vítimas e dos seus assassinos, a esperança que a bonita fábrica proporciona arrepia ao leitor por saber qual será o fim da história, mas não das pessoas pela qual se acostuma a conviver pelas páginas.
O livro é triste, dolorido e infelizmente real. Ao mesmo tempo ele possui um colorido, uma simpatia ao mostrar culturas diversas em um lugar só. É um livro para repensar o que aceitamos em nossas terras, sobre o quanto o marketing pode esconder verdadeiros monstros, mas também sobre heroísmo e ignorância, sobre fé e empatia.
E naturalmente as eternas perguntas que perseguem situações deste tipo: E se o vento houvesse levado a fumaça para o lado rico, haveria impunidade? Se a segurança fosse realmente prioridade, haveria mortos?
Para encerrar o segundo e último problema é a edição brasileira, que reduziu o Epílogo e assim o final de alguns personagens, entre eles Padmini, a menina que acompanhamos até virar mulher. Consegui descobrir o que acontece com uma edição espanhola.
Mesmo assim vale e muito a leitura. Entre mocinhos e vilões reais, amor, esperança e lágrimas, a narrativa fluída irá te levar por um caminho sem volta para todos.
Meia-Noite em Bhopal
Era Medianoche em Bhopal
Dominique Lapierre e Javier Moro
Tradução Sandra Martha Dolinsky
Editora Planeta
2001 – 357 páginas
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