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sexta-feira, 6 de março de 2026

Knulp



Sinopse: Alemanha, do fim do século XIX. um jovem Knulp vagueia de cidade em cidade e se hospeda na casa de conhecidos, que lhe dão teto, comida e algum afeto. Ele evita, no entanto, construir relações mais profundas, estabelecer laços definitivos: é um amante da liberdade. Esse modo de vida marginal levaria Hesse a preconizar: “Se pessoas talentosas e corajosas como Knulp não conseguem encontrar um lugar em seu entorno, o entorno é tão cúmplice disso quanto o próprio Knulp”. Uma declaração que põe em xeque os padrões sociais daquele tempo ― e da atualidade.



Em novembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da velejadora e escritora Tamara Klink, o livro Knulp do escritor alemão Hermann Hesse. O mimo foi um jogo chamado Iconotag.

Publicado em 1915, Knulp é um romance que contempla três histórias de diferentes fases da vida do andarilho que dá nome ao título do livro. 

Knulp é um homem simpático, respeitoso e espirituoso, que caminha pelas cidades alemãs no final do século XIX fazendo amigos e coletando histórias, partindo antes que os laços se tornem permanentes, fazendo com que se estabeleça em definitivo em qualquer lugar.

Como nunca lhe faltaram amigos, ele encontraria sem esforço uma acolhida amistosa em quase todas as cidadezinhas da redondeza.


A primeira parte é chamada de Início da primavera, quando ele se hospeda na casa de um amigo e antigo colega de escola. A narrativa evidência não apenas os contrastes das escolhas de vida, como também a hipocrisia social, o respeito e a ética. Enquanto ele anda somente com o necessário, seu amigo tem uma vida burguesa enraizada e previsível, atendendo aos requisitos dos pesos das convenções sociais.

Na segunda parte, chamada de Minhas memórias de Knulp, ele faz uma breve jornada com outro jovem. Aqui descobrimos a melancolia de Knulp e reflexões sobre a solidão de quem opta por ter o espírito livre. A narrativa acaba tendo um olhar mais introspectivo sobre as consequências das próprias escolhas e palavras.

Aprende-se todo tipo de coisa quando se viaja.


Já a terceira parte tem o nome sugestivo de O fim, onde um Knulp mais velho e com a saúde frágil resolve retornar a sua cidade natal. Antigas memórias dão uma pista das escolhas de um homem que optou em não criar rotina, acumular bens ou cultivar mais os seus laços familiares. Permitindo que o leitor, junto com Knulp, contemple sua trajetória.

De bônus tem um texto do escritor Ferréz contanto como Hermann Hesse salvou sua vida ao ser o autor do primeiro livro que ele leu, e sua relação com Knulp.


A escrita de Hermann Hesse

Filho de missionários, o escritor alemão Hermann Hesse teve desde cedo uma base moral profunda e um grande desejo de fuga, tornando-o um jovem rebelde até se encontrar na escrita. Rotulado de traidor da própria terra por se posicionar contra o nacionalismo exacerbado, acabou optando pela simplicidade em sua vida adulta, quando escolheu a Suíça como lar.

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, sua escrita mistura poesia, lirismo e psicologia. Discípulo de Carl Jung, suas narrativas são também uma exploração do "Eu", fazendo com que os pequenos detalhes que compõe suas histórias possam ser sinais de autodescoberta ao abordarem temas como individualização e conflitos internos.

Podemos observar a estupidez das pessoas, podemos rir delas ou sentir compaixão, mas é preciso deixar que sigam seu caminho.


E isso inclui as suas descrições da natureza, onde as paisagens não apenas ambientam a narrativa, como também podem refletir os sentimentos que agitam a alma de seus personagens.

E tudo isso é encontrado nas três fases da vida de Knulp através de uma escrita acessível, em que a narrativa desde o início se apresenta como um convite para o leitor se encantar e refletir sobre as buscas que todos os seres humanos de uma forma ou de outra realizam.


O que eu achei de Knulp

Eu gostei bastante de Knulp. Um livro curto, mas intenso. Que várias vezes me provocou a ler de forma mais calma para não perder as reflexões sutis que a narrativa provoca.

O andar sem rumo do personagem, totalmente desapegado do que a sociedade prega como necessário, muitas vezes vivendo da simpatia das pessoas que conquista em suas breves passagens, sem acumular bens ou status, me desafiou e provocou sobre essa eterna corrida dos ratos aos quais entramos ainda jovens e muitas vezes sem nunca alcançar o mínimo de satisfação pessoal.

Penso que o mais belo é quando, além do deleite, se pode sentir também o pesar ou o medo.


Outro ponto foi a questão da solidão, e aqui um velho ditado me veio à mente "antes só do que mal acompanhado". Knulp vive com ele mesmo, não há necessidade de companhia. Se as ideias não convergem, ele não briga, não desrespeita, não tenta obrigar o outro aceitar o seu ponto de vista. Ele apenas argumenta, e ao encontrar um muro que diverge em muito de seus valores, ele apenas dispensa. Não importando se irá ficar sozinho, o importante é seguir adiante em seu caminho.

Mas essa liberdade e desapego são garantias de satisfação? 

Essa é uma reflexão que a última parte me trouxe. Essa vontade que algumas pessoas têm de sair sem rumo, esse anseio de no desconhecido se autodescobrir às vezes pode ser também uma forma de fuga. Fuga de mágoas, fuga de traumas, fuga daquilo que não temos mais coragem de encarar e tentar uma segunda vez.

É apenas uma história de criança, mas acabou se tornando importante para mim e me incomoda há anos.


Sim, Knulp é bem filosófico sem ser cansativo, ele apenas nos provoca com suas histórias, oferece por um breve momento sua mão e compartilha diferentes situações. E ao final, ele ficou em meu coração, me lembrando que não importa se vou ou se fico, mas como lido com tudo isso.

Ficando a dica para quem gosta de histórias com toques filosóficos e psicológicos, para quem gosta de histórias envolventes, para quem gosta de livros rápidos e para quem já tem o seu prato de queijo esperando na biblioteca.


Knulp: Três histórias da vida de um andarilho
Knulp: Drei Geschichten aus dem Leben Knulps
Hermann Hesse
Tradução: Julia Bussius
TAG - Todavia
109 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1915


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Nadando no escuro




Sinopse: Em meio a um cenário político conturbado, Ludwik conhece Janusz em um acampamento agrícola. A amizade, a princípio inocente, logo cede espaço a um romance voraz às escuras. Cercados pela isolada beleza da natureza e livres das restrições sociais, eles se apaixonam. Mas, longe daquele cenário idílico, na repressão da sociedade comunista e ultraconservadora de Varsóvia, o amor dos dois é mais do que proibido — é impossível. Do intoxicante primeiro amor até a dor de amadurecer, Tomasz Jedrowski criou uma inesquecível e instigante história que explora liberdade e amor em todas as suas formas.

No mês de fevereiro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor cearense Stenio Gardel (autor do maravilhoso A palavra que resta) o livro Nadando no escuro do escritor alemão Tomasz Jedrowski. O mimo foi um par de sachês da Tea Shop (adoro).



Em um formato que lembra uma carta, um Ludwik que mora em Nova York relembra diferentes momentos da sua vida na Polônia dos anos de 1980. Do primeiro amor por um menino judeu cuja família um dia desaparece, as reuniões misteriosas da mãe e da avó fechadas em um quarto, até a exposição de risco em um local público quando tenta entender a sua sexualidade.

Talvez fossem os fantasmas desses sons, varridos pelo vento e carregados sobre o oceano para bater à porta de minha consciência.
 

Esta carta é para Janek, um rapaz que conheceu em um acampamento de trabalho agrícola, onde o livro O quarto de Giovani faz a ponte entre os dois para viverem um romance intenso e secreto.

Secreto por não ser aceito pelo regime político a ponto de gerar perseguições e interrogatórios, e por ser algo que pode atrapalhar os planos ambiciosos de Janek de se enturmar com os ricos e poderosos, aos quais caiu nas graças.

Como é que, sendo uma criança, se cria laços com outra criança? Talvez seja simplesmente por meio de interesses em comum.
 

Enquanto Janek segue passo a passo o seu plano, Ludwik sonha em sair do país ao mesmo tempo que se depara com as dificuldades de quem não possui pessoas de referência para quebrar barreiras básicas como seguir com os seus estudos.

Um livro sobre amor, descobertas e opressão em um regime que não aceita protestos nem dá liberdade para que as pessoas façam suas próprias escolhas pessoais.

 

A escrita de Tomasz Jedrowski

Filho de pais poloneses, o escritor Tomasz Jedrowski nasceu na Alemanha e hoje mora na França. Nadando no escuro é o seu primeiro romance do autor, traduzido para mais de dez idiomas, a obra ganhou o Prêmio Polari de literatura LGBTQ+.

Narrado em primeira pessoa pelo personagem principal Ludwik Glowacki, Nadando no escuro permite ao leitor ter acesso aos pensamentos, memórias, sentimentos e reflexões de Ludwik.

Você nunca comparecia a aulas ou palestras, nunca precisou. Portanto, poderíamos muito bem nunca ter nos encontrado.
 

Se dividindo entre o tempo presente, onde ele vive a desejada liberdade, e o passado, onde as pessoas que amou e/ou cruzaram o seu caminho ficaram trazendo assim também os impactos da sua história nos dias de hoje, criando uma atmosfera que mistura o peso das escolhas com nostalgia.

 

O que eu achei de Nadando no escuro

Eu achei a escrita de Tomasz Jedrowski extremamente delicada e sensível. O amadurecimento e evolução do personagem Ludwik, que mesmo em meio a mágoa e as dificuldades, consegue manter os seus princípios, me encantou.

Além de ter que se adaptar as mudanças naturais, o personagem tem a preocupação a mais de viver em um país que o partido que governa decide o que é bom para a população e quem são os merecedores de uma vida diferenciada, o que já torna tudo difícil. Mas quando isso ganha um nível de preconceito absurdo, é preciso realmente ter coragem para romper as amarras e tentar seguir em frente.

Eu me sentia como um passarinho liberto da gaiola, assustado e exultante com o vazio diante de mim.
 

O que faz com que Nadando no escuro consiga ser múltiplo, pois se ele é um livro sobre autodescoberta e culpa pelo que se sente, a narrativa também é uma bonita história de amor e uma crítica ferrenha ao modelo socialista implantado na Polonia no pós segunda guerra mundial.

Colocando nas páginas não só a pobreza que a maior parte da população tem que se sujeitar, como os meios que precisam ser utilizados para quem quer mais do que sobreviver. Aqui muito bem representado pelo personagem Janek.

Tentei dizer que não significava nada, que não era real. E, ainda assim, eu já não conseguia mais olhar para você sem me sentir completamente drenado de quaisquer forças.
 

Nos fazendo lembrar que não existem sistemas perfeitos, mas que a liberdade de ser e escolher, desde que não faça mal ao próximo, deve sempre prevalecer.

E assim deixo a dica de um romance delicado e sensível, cujo peso e a força está nas escolhas e situações enfrentadas pelos personagens.

 

Nadando no escuro
Swimming in the dark
Tomasz Jedrowski
Tradução: Luiza Marcondes
TAG - astral cultural
2025 - 237 páginas
Primeira publicação em 2020

 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Luzes do Sul




Sinopse: Depois do sucesso de A livraria mágica de Paris, O maravilhoso bistrô francês e O livro dos sonhos, Nina George nos presenteia com uma história mágica, encantadora e emocionante em Luzes do Sul, o “livro dentro do livro” A livraria mágica de Paris. Mais uma bela homenagem a livros e leitores.


No mesmo dia em que a Morte leva sua avó, a bebê Marie-Jeanne, que já era órfã de pai e mãe, toca o Amor em um momento que este está distraído. Um ato que mudara para sempre a vida da menina.

Ambientado nos anos de 1960 em Nyons no sul da França, Luzes do Sul conta a história de Marie-Jeanne Claudel, uma jovem com o poder de ver o amor literalmente, assim como as ligações das pessoas que combinam entre si, o que poderíamos talvez chamar de almas gêmeas. 

Houve anos em que duvidei de mim mesmo, do sentido e da força das minhas ações; foi aí que quase perdi as esperança.


Adotada por um comerciante e uma cozinheira, ela só irá descobrir o seu dom quando o seu pai monta uma biblioteca itinerante, chamada de Philis, cuja intenção é fazer com que livros cheguem aos moradores dos campos, que pela distância não possuem fácil acesso a biblioteca ou livrarias.

Ao ajudar o pai a percorrer diferentes caminhos e levar os livros onde até aquele momento eles não chegavam, ela irá conhecer outras pessoas, e assim, uma jornada de compartilhamento e descobertas se inicia.

O coração se parte, uma, duas vezes, repetidamente, e vocês se esforçam ao máximo para colar a xícara com cuidado, para viver as feridas, embelezá-las com esperança e lágrimas.


E ao mesmo tempo que Marie-Jeanne tenta descobrir como usar o seu dom, ela também precisa administrar as suas consequências.


A escrita de Nina George

A autora e jornalista alemã Nina George já publicou diversos romances, mistérios e também obras de não ficção. Sua obra mais conhecida é a Livraria mágica de Paris, traduzida em várias línguas, se tornou um best-seller.

Tem como característica nas suas narrativas abordar temas como amor, perda, autodescoberta e literatura. Tudo em uma escrita meio poética, meio intimista, que convida o leitor a se apaixonar pelos seus personagens e viver junto com eles cada página.

Nunca antes uma pessoa foi capaz de segurar o Amor. Muito menos me viu, meu ser, minha personalidade, meu rosto, minha forma.


No caso de Luzes do sul há um detalhe especial. Pois é o livro citado dentro da Livraria mágica de Paris e escrito com o pseudônimo de Sanary. Mas como ocorrem em outras obras de outros autores, este livro não existia na vida real.

E foi atendendo ao pedido de diversos leitores que Nina George tornou o livro real, com o nome dela como escritora, naturalmente. e tendo o Amor como o narrador onisciente da história, sendo responsável por mostrar o caminho a ser percorrido pelas páginas e as conexões.

Não são os livros o último lugar no planeta onde se encontram pessoas e épocas, paisagens e sentimentos que, de outra forma, raramente se encontrariam?


Por ser o amor, a narrativa acaba tendo um toque poético e também filosófico, já que as relações, principalmente as românticas, são bastante discutidas.

O realismo mágico também é utilizado para criar a atmosfera das conexões entre as pessoas, conexões essas que são enxergadas apenas pelo Amor e pela protagonista da história Marie-Jeanne.

A Paixão e o Medo olharam os livros em chamas, e neles havia um ar de submissão.


No geral é uma escrita bastante leve, que possibilita ao leitor refletir sobre os seus próprios sentimentos em relação as pessoas próximas e as suas atitudes.


O que eu achei de Luzes do Sul

Eu sou uma das fãs de Livraria mágica de Paris, a escrita e a história ganharam o meu coração e me fizeram procurar outros livros da autora.

Mas as Luzes do sul não me encantou tanto, o que me deixou em um primeiro momento um pouco triste, já que a minha expectativa era bastante alta.

A escrita nunca se mantém igual, ela é um reflexo da vida. Nossa escrita sofre conosco.


Narrado pelo Amor, a história começa triste e envolvente, mas com o tempo, as seções que vinham indicadas por uma mãozinha, me lembravam longas notas de rodapé.

E isso, para mim, tirou a fluidez da leitura. E mesmo quando explicava o passado, por irromper o presente muitas vezes, tornava a leitura, na minha opinião, um pouco mais arrastada, as vezes quase superficial.

Assim, os livros eram a última magia antiga: tornavam visíveis realidades ocultas.


Por outro lado, a ideia no geral é muito boa. Primeiro por tornar real o livro citado no maravilhoso A livraria mágica de Paris. Segundo, porque temos todos os tipos de amor romântico. O que não se permite expor, o jovem, o de espera, o após viver muitas coisas, e também o não amor.

Após o término, quando são incluídas partes escritas que ficaram fora da história, fiquei pensando se a narrativa não ganharia um plus a mais se outros narradores como lógica, coragem e destino não travassem discussões sobre os acontecimentos.

O brilho não fazia distinção entre quem era simpático ou antipático, bonito ou feio, bom ou mau. 


Eu finalizei a leitura com um misto de sentimentos e reflexões de como tenho lidado com o amor. E por isso deixo a recomendação aqui.


Luzes do Sul
Südlichter
Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora Record
2022 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2019


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


sexta-feira, 26 de maio de 2023

O Passeador de Livros



Sinopse: Uma fábula moderna e atemporal sobre o poder que a conexão entre pessoas e livros tem de transformar a realidade. Do alto de seus 72 anos, ainda é com bastante vigor e alegria que, todas as tardes, Carl Kollhoff sai para entregar os livros encomendados por seus clientes mais especiais. Tão fiel à tarefa quanto os ponteiros de um relógio, o livreiro da tradicional Ao Portão da Cidade percorre as pitorescas ruas da região e, como nas páginas de seus preciosos livros, observa o mundo real e seus habitantes também por uma ótica lúdica e imaginativa.

Foi em Setembro/2023, no mês em que completava quatro anos, que o Clube intrínsecos enviou a sua última caixinha. O livro escolhido para encerrar este projeto da editora intrínseca foi O Passeador de Livros do escritor alemão Carsten Henn. O mimo foi um outro livro da editora e a saudade que eu fiquei das belas edições.

Aos 71 anos Carl Kollhoff não se imagina longe do seu trabalho como vendedor de livros. Solteiro, possui a sua própria coleção em casa. Na livraria dá dica certeiras, treina funcionários e faz um serviço de entrega domiciliar para clientes que não desejam, por diferentes motivos, sair de casa.

Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho.


Vivendo entre a ficção e a realidade, ele faz uma correlação entre as pessoas que encontra e personagens literários. Então ele faz suas entregas para o sr. Fitzwilliam Darcy e a Sra. Píppi Meialonga, compra suas maças da Rainha da Branca de Neve, aceita o chá do Hércules, e assim por diante. Se perguntarem os nomes reais, ele precisa de um tempinho para ligar os personagens as pessoas.

Mas sua vida começa a mudar com a internação do seu chefe, que é substituído por sua filha, uma mulher que tem ciúmes de Carl, e o aparecimento de Schascha, uma menina esperta, órfã de mãe, que lhe dá o apelido de Passeador de livros.


A escrita de Carsten Henn

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, o escritor alemão Carsten Henn conta com muita delicadeza a relação de amor de um leitor e seus livros através da figura de Carl.

Com inúmeras referências literárias, O Passeador de Livros aborda também a questão do envelhecimento, da perda, do uso da literatura para fugir da solidão ou do próprio mundo, de relacionamentos abusivos, de mágoa e de como pequenos atos podem mudar tudo na vida de uma pessoa.

Sou como os ponteiros de um relógio. Parece triste, pois eles sempre percorrem o mesmo caminho e sempre retornam ao ponto de partida.


Pois como uma boa fábula, a jornada do herói Carl e de sua assistente Schascha narrada pelo autor Carsten Henn possui os seus obstáculos, mudanças de rumo, segredos e momentos a serem comemorados. O que faz com que a sua escrita seja leve ao mesmo tempo que instiga o leitor a saber mais sobre os personagens.


O que eu achei de O Passeador de Livros

O Passeador de Livros é o tipo de história que defino como bonitinho, sendo uma mistura de fábula e homenagem a literatura, tornando-o um bom candidato para aquela leitura tranquila de férias.

Com inúmeras referências literárias, que vão do nome dos capítulos, os apelidos dados aos moradores da cidade e os autores citados, é quase impossível não sair com um acréscimo na lista de leituras futuras com as indicações listadas.

Leio para o meu prazer egoísta, por amor às boas histórias, e não para compreender o mundo.


Sobre a história em si, achei triste a dependência do trabalho que Carl tem para dar sentido a sua vida. Assim como eu achei que a relação do Passeador com a filha do melhor amigo - e agora chefe - poderia ser melhor trabalhada. Pois ela claramente não o suporta. É só ciúmes e inveja? Ou existe algo mais?

Também achei que em alguns momentos o livro era um pouco arrastado, mas em compensação ele também é muito sensível, o que conquistou o meu coração, principalmente a Schascha, que me dava vontade de abraçar.

Não estava no clima para uma acompanhante lhe fazendo todo tipo de perguntas erradas - ou, pior ainda, de perguntas certas.


E naturalmente tudo ficou mais sensível por ser a caixa de despedida, pois ao finalizar a leitura, me vi despedindo deste clube de edições caprichadas, que me apresentaram livros que talvez eu não desse atenção ou nem visse ao rolar a página de um site ou em uma livraria. 

Ficando a dica para quem gosta de histórias leves e sensíveis que podem aquecer o seu coração.


O Passeador de Livros
Der Buchspazierer
Carsten Henn
Tradução: Kristina Michahelles
intrínseca
2020 - 208 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro/2022 - era pago integralmente pela autora. 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Frida Kahlo e as cores da vida

 


Sinopse: México, 1925: Frida quer se tornar médica, mas um terrível acidente põe fim a seu sonho. Anos mais tarde, ela se apaixona pelo grande sedutor e pintor Diego Rivera e ao lado dele mergulha de vez no cobiçado mundo das artes. Sempre assombrada por problemas de saúde e sabendo que sua felicidade poderia ser passageira, Frida se entrega à vida e descobre como trilhar o próprio caminho. Com suas roupas de cores vibrantes e postura transgressora, a artista cria uma aura particular e se torna uma das pintoras mais cultuadas de nossos tempos.

Para iniciar o ano de 2021, o livro escolhido pela TAG Inéditos para o mês de janeiro foi uma ficção baseada na vida da famosa pintora Frida Kahlo. Sob o pseudônimo de Caroline Bernard, a escritora Tania Schlie uniu o que conhecia da história desta mulher forte com o que ela imaginava . O brinde foi um planner, tendo como capa importantes escritoras femininas. 


Juntas, as duas Fridas que ela unia em si conseguiam sobreviver a tudo que viesse pela frente.


Logo de início conhecemos uma Frida menina, extremamente agitada, cheia de energia e com um sorriso no rosto. Nem mesmo a paralisia infantil consegue limitar o seu ímpeto. Logo em seguida vem o acidente, seguido da dor que a acompanharia pelo restante da vida, da decepção pelo jovem amor e do seu encontro com a arte. 

Sua recuperação, que nunca será completa, é extremamente lenta, consumindo a sua paciência e as finanças de sua família. Pintar é o que a distraí, sendo uma forma de expressar como ela se sente . Ao voltar a andar, seu antigo grupo de amigos já possuem uma realidade diferente da sua, e uma manifestação encontrada ao acaso a leva a se filiar no Partido Comunista e aos braços do pintor Diego Rivera.


A vida é bela demais, colorida demais para ser apenas suportada. Quero apreciá-la, quero sentir alegria e amor!


O relacionamento de Frida e Diego lembra uma montanha russa, altos e baixos que ao mesmo tempo beneficiam e prejudicam a arte de Frida. Beneficiam pela força de seus quadros quando ela se sente uma figurante do marido, quando sofre as maiores traições, quando se sente sozinha. Prejudicam quando ela é apenas uma sombra de Diego, seguindo e mantendo todos os seus quadros em casa, sendo apenas a sua esposa e não a grande artística que deve ser reconhecida.

A personagem Frida é uma mulher forte, que se utiliza de cores, falas fortes  e uma presença de espírito para disfarçar os seus complexos. Alguém que tem amor e saudade da sua terra natal quando se afasta, alguém que dá amor com facilidade, e que não cansa de levantar a cada queda.


Estarão unidos no amor e no afeto como o sol e a lua, mas em algum momento o ódio estará presente.


Eu nunca li nenhuma biografia da Frida, e sim, como o livro é uma ficção, desperta a curiosidade em saber mais da artista para descobrir o que levou a escritora a imaginar esta vida para ela, o que está próximo da realidade e o que é uma licença poética.

A narrativa é em terceira pessoa, sendo uma história que ocorre de maneira linear, onde o leitor acompanha da juventude até um ano antes de sua morte. Sim, Frida morreu jovem, aos 47 anos de idade sua sequência de perdas sugou suas forças, e infelizmente durante a sua nova fase, quando deixou de ser a Sra. Rivera para ser Frida Kahlo.


Serei fiel a mim mesma, à minha verdade, pois é melhor saber a verdade, mesmo que doa, do que mentir para si.


O livro pode desagradar um público mais exigente por girar em torno da relação tóxica de Frida e Diego, um amor que exige submissão da parte feminina de uma figura que se caracteriza justamente por ser um símbolo do feminismo. Como toda mulher, ela é complexa, tendo em suas atitudes uma mistura de tradicional e modernidade. 

A verdade é que a personagem Frida é muito humana, como talvez tenha sido a da vida real, e vive o amor com toda a intensidade e sofrimento que ele lhe exige, uma entrega que pode parecer doentia, mas é somente dela. E ao amar como nunca, ela tornou o sentimento sua força e ao mesmo tempo a sua fraqueza.


O que acontecia com mulheres que não tinham marido, dinheiro nem perspectiva de trabalho?


No final, a autora lista as referências biográficas por ela utilizados, além de citar a sua visita a Casa Azul, casa onde Frida nasceu e morreu, e hoje é um museu dedicado a pintora. Lugar que já deixei marcado como visita obrigatória quando tiver a oportunidade de conhecer o México.

Um livro interessante, que traz para quem desconhecia a obra da artista o seu olhar, possibilitando compreender um pouco mais dos sentimentos que pulsão na tela em forma de cor. Frida personagem e Frida real eram as próprias cores.


Frida Kahlo e as cores da vida
Frida Kahlo und die Farben des Lebens
Caroline Bernard
Tradução: Claudia Abeling
TAG Inéditos - Tordesilhas
2019 - 301 páginas

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terça-feira, 6 de outubro de 2020

O dia em que Selma sonhou com um ocapi

 


Sinopse: Todos os habitantes da pequena Westerwald, uma cidadezinha no interior da Alemanha, sabem que Selma tem um dom muito especial: quando ela sonha com um ocapi, é sinal de que alguém está prestes a morrer.

Selma já havia sonhado três vezes com um ocapi - um bicho com pernas de zebra, ancas de tapir, torso vermelho-ferrugem de girafa, olhos de cervo e orelhas de rato - e em todas as vezes alguém morreu. Assim toda a comunidade ficou em polvorosa por vinte quatro horas, alguns com medo e outros prontos para se despedir, já que eles estavam certos que alguém iria morrer, mas não se sabia quem.

Bastava alguém lhe dizer duas coisas que não tinham qualquer relação entre si para ele criar uma analogia.

Cartas cheias de sempre e nunca foram escritas, revelando verdades e segredos até então impronunciáveis, lotando a caixa de correspondência da cidade. Quando as vinte e quatro horas passaram, estavam todos vivos, e correram para buscar as declarações feitas em um momento de despedida, sepultando os pensamentos revelados antes da hora. Mas naquela vez a morte chegou com atraso, e leva quem eles menos esperavam. 

A história, dividida em três partes, é narrada por Luise, neta de Selma. E pela história acompanhamos a sua infância, início da vida adulta e o período dos seus trinta anos. Através dela conhecemos as histórias da pequena comunidade, começando com Selma, que ficou viúva muito cedo e está sempre atenda a todos. 

Evidentemente eu não sabia que não haveria um amanhã para comprar sapatos na capital.

Também conhecemos os pais de Louise, sua mãe é dona de uma floricultura e vive pensando se deve se separar ou não, questão que fica mais forte quando o seu marido, filho de Selma, resolve sair pelo mundo sozinho para conhecer diferentes culturas, aparecendo lá de vez enquanto, criando um abismo na relação.

Entre os amigos de Selma, há o oculista, que é apaixonado por ela e já iniciou várias cartas se declarando, mas nunca finalizou e muito menos entregou alguma. Tem também Elsbeth e suas soluções para os diferentes males, além de Palm que no momento de maior dor trocou a garrafa por uma bíblia. E por fim a triste Marlies, uma moça que passa os dias em casa de calcinha e pulôver e só sabe reclamar.

Selma sempre achava um transtorno excessivo pedir ajuda.

E por fim, o amor da vida de Luise, que entre tantos personagens comuns e ao mesmo tempo peculiares, não poderia ser algo que muitos chamariam de normal, sendo um monge que vive no Japão, ao qual ela troca cartas semanalmente.

A escritora alemã Mariana Leky utiliza-se do realismo fantástico para aproximar os seus leitores desta pequena comunidade, onde as relações são movidas pelo afeto, prevalecendo com o outro muito mais a gentileza e a preocupação do que qualquer outro sentimento mesquinho.

De todo modo, eu havia colocado um pé na fresta da porta.

Através de seus personagens ela nos conta uma história sobre a rotina de uma pequena comunidade, onde há perdas, mortes, dor, saudades, mas também muita vida e amor. E os eventos extraordinários só servem para fortalezes os laços dos que ali tudo compartilham, ensinam e aprendem.

Por algum motivo, que eu ainda não consegui decifrar, a história me causou um estranhamento bom. A minha leitura não foi rápida, pois eu tinha a impressão de ser transportada para dentro do livro, e me via pensando, respondendo e realizando novas perguntas aos personagens.

Durante muito tempo ninguém tinha pisado naquele lugar. Tanto tempo que o lugar no chão nem sabia o que era isso.

Quando terminei a última página, fiquei com saudades de todos. Cheguei a pensar em escrever uma carta usando o mesmo endereço do monge Frederik para ter notícia da comunidade. Mas concluí que era hora de me despedir em definitivo, antes que começasse a sonhar com ocapi ou a derrubar coisas também.


O dia em que Selma sonhou com um ocapi
Was man von hier aus sehen kann
Mariana Leky
Tradução: Claudia Abeling
TAG - Editora Planeta
2017 - 315 páginas

domingo, 24 de maio de 2009

Morte em Veneza


Sinopse: Levado por um misterioso impulso, o famoso escritor Gustav Aschenbach resolve passar alguns dias na cidade às margens do Adriático, onde encontra Tadzio, um belo adolescente que parece encarnar de forma absoluta os cânones neoclássicos que haviam impregnado toda a literatura de Gustav. E o escritor dedica-se inteiramente a esse sonho de beleza, chegando mesmo a cair no ridículo ao chamar a atenção do rapaz, num crescente paroxismo de atração perturbadora e autodestrutiva.

Thomas Mann tem como personagem principal, em um romance curto, mas nem por isso rápido, um famoso escritor chamado Gustaw Aschenbach, que após conquistar fama e prestígio, encontra-se impaciente. 

Era vontade de viajar, nada mais; mas, na verdade, irrompera como um acesso e se intensificara, atingindo o nível passional, sim, até beirar a alucinação. 

Sem saber o que busca, esse senhor arruma suas malas e sai em busca de um lugar que acalme seus pensamentos e aflições. Em suas andanças, Aschenbach vai parar em Veneza, onde irá conhecer um pré-adolescente e mudar completamente seus planos. 

A paixão platônica pelo menino irá fazer com que Aschenbach ignore a epidemia de cólera, que afasta os turistas da cidade, enquanto segue o seu alvo em um primeiro momento com os olhos e depois com as próprias pernas. 

As pessoas não sabem por que elas tornam famosa uma obra de arte.

Morte em Veneza é extremamente descritiva, detalhando todos os locais, vestes e devaneios do escritor e do seu amado, dando a sensação de estar percorrendo a cidade junto com os personagens. 

Para os que não apreciam longos detalhes, o livro pode tornar-se cansativo, fazendo com que suas poucas páginas pareçam centenas. Mas para os fãs de clássicos e adoradores de longas descrições, Thomas Mann trás uma mistura de arte, psicologia e representação plástica do ambiente que envolve a sua narrativa.

Não encontrava seus olhos, pois uma preocupação covarde forçava o pobre desnorteado a controlar receoso seu olhar.

Além disso há uma visão interessante de um homossexualismo e pedofilia velado no início de 1900 - o livro foi publicado pela primeira vez em 1912 - em uma sociedade de classe alta. Sendo mais uma prova de que alguns dos assuntos que discutimos hoje não são nenhuma novidade.

Morte em Veneza
Der Tod in Venedig
Thomas Mann
Tradução: Eloísa Ferreira Araújo Silva
RBS Publicações
1912 - 94 páginas

domingo, 12 de abril de 2009

Breve Romance de Sonho


Sinopse: Ao regressar de uma festa de máscaras, um jovem médico e sua mulher, belos, apaixonados e felizes, começam a contar episódios - não se sabe se realmente ocorridos ou se fruto da fantasia - que até então não haviam confessado um ao outro. Inicia-se assim, para ambos, quase superando a sua vontade ou consciência, uma espiral visionária feita de máscaras extremamente inquietantes, de ambientes misteriosos e secretos, de desejos reprimidos que vêm repentinamente à luz, de tensões eróticas encobertas durante muito tempo: vertigem que atinge seu auge numa noite em que a verdade das suas pulsões já não pode ser dissimulada, e que por isso mudará profundamente a vida do casal.

Deixando um pouco de lado os livros que estão nas vitrines das livrarias, fui buscar no ano de 1926 uma obra de Arthur Schnitzler, que por acaso serviu de inspiração ao diretor Stanley Kubrick para filmar “De Olhos bem Fechados” em 1999 (ao qual confesso, não assisti). 

Tinha sido o seu primeiro baile naquele ano, e, comoo Carnaval já se encerrando, haviam decidido ir.

Em um romance curto, narrado em terceira pessoa, o leitor é convidado a conhecer a história do jovem casal Albertine e Fridolin, que após retornarem de um baile, comentam situações de teor sexual. 

Os relatos de Albertine, somados a um sonho que ela tem um dia depois, irão provocar em Fridolin o desejo de se vingar, fazendo sua mente buscar constantemente uma fórmula para isso, ao mesmo tempo em que a julga e evita o próprio lar. 

E, no entanto, aquele nome soou-lhe como uma censura, ou mesmo como uma velada ameaça.

Mas Schnitzler vai além disso, pois ele consegue em Breve Romance de Sonho descrever o homem na típica situação “se eu fizesse tudo diferente”. O desejo de fugir da rotina, viver um outro personagem em um local onde se é totalmente desconhecido, sem o risco de todos os apontarem ou manchar sua vida de profissional respeitável. 

Fuja antes que seja tarde demais. E a qualquer momento pode vir a ser tarde demais.

Mas o que é um tema comum e recorrente até mesmo na novela da Globo, em Breve Romance de Sonho tem outro significado: o das possibilidades não realizáveis. A separação de fantasia e realidade pelo próprio destino. Ser impedido por uma mão invisível de quebrar as regras. Apesar de aparentemente irracional, não é difícil entender Fridolin, nem de rir ou refletir sobre as palavras de Schnitzler. Pois loucura e razão são separadas por uma linha muito tênue.

Breve Romance de Sonho
Traumnovelle
Arthur Schnitzler
Tradução: Sérgio Tellaroli
1926 - 95 páginas