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sexta-feira, 13 de março de 2026

A hipótese do amor



Sinopse: Quando um relacionamento falso entre cientistas encontra a irresistível força da atração, as teorias de uma mulher sobre o amor, cuidadosamente calculadas, são postas à prova. Olive Smith, uma estudante de doutoramento em Biologia, não acredita em namoros duradouros. Após terminar o relacionamento com Jeremy, percebe que a sua melhor amiga, Anh, gosta dele e decide juntá-los. Para a convencer de que não se importa e de que está feliz e a namorar, Olive precisa de o provar, mas, pressionada, entra em pânico e resolve beijar o primeiro homem que vê: Adam Carlsen, um jovem professor de outro departamento. Olive acaba por ficar chocada ao perceber que este tirano do laboratório da Universidade de Stanford, conhecido por deixar os estudantes em lágrimas, aceita manter a farsa e fingir que é, realmente, seu namorado.



Para convencer sua melhor amiga Anh de que ela pode se relacionar com o seu ex-namorado, a cientista e doutoranda Olive Smith inventa que está em um relacionamento. Pressionada para apresentar o novo parceiro, ela acaba beijando o primeiro homem que aparece no corretor da universidade e assim acaba sendo vista por Anh.

O problema é que este homem é Adam Carlsen, um professor conhecido por tornar a vida dos doutorandos um verdadeiro inferno e depois de ser agarrado por Olive a lembra das regras sobre assédio.

Ela estava bem ciente de que se comprometer a encarar alguns anos trabalhando oitenta horas por semana, sendo mal paga e desvalorizada, talvez não fosse bom para sua saúde mental.


Mas após boatos de que o professor estaria analisando uma possível troca de universidade, Stanford opta por bloquear o seu financiamento de pesquisa. Gerando a Adam a necessidade de mostrar para a universidade que possui vínculos com o local e não está pensando em ir embora. E assim surge um acordo para que eles representem na frente de todos terem um relacionamento amoroso.

Proporcionando assim uma leitura que mescla risadas, romance e reflexões dos desafios que as mulheres ainda enfrentam, aqui representadas pela ciência e o mundo acadêmico.


A escrita de Ali Hazelwood

A autora italiana e doutora em neurociência utiliza o pseudônimo Ali Hazelwood para escrever romances protagonizado por mulheres que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática).

Sua carreira na escrita começou com outro pseudônimo Ever so Halo, que ela utilizava para escrever fanfics com os personagens de Star Wars. A boa recepção destas histórias de fãs transformou as fics em romances publicados e um deles é justamente A hipótese do amor, que se tornou um fenômeno no TikTok.

Aquele beijo estava parecendo uma cabeçada meio desengonçada, e ela foi ficando ansiosa, achando que não ia conseguir levar a coisa toda adiante.


Seu estilo se caracteriza por comédias românticas em ambientes acadêmicos ou de pesquisa científica. Suas protagonistas são mulheres fortes que precisam superar o machismo e a desvalorização entre os pares de sexo oposto.

Ela se utiliza de alguns temas recorrentes, como "enemies to lovers" e namoros de mentirinha que acabam em relacionamentos românticos.

Era a única mulher na sala, basicamente sozinha num mar de homens brancos que já conversavam sobre barcos, qualquer jogo com bola que tinha passado na Tv na noite anterior e os melhores lugares para viajar de carro.


Sua escrita é bastante fluída e leve, com um ritmo que convida a virar mais uma página enquanto se envolve com as tensões e cenas um pouco mais apimentadas dos personagens. Com uma narrativa em terceira pessoa, o foco está todo na personagem principal Olive, incluindo os seus pensamentos.


O que eu achei de A hipótese do amor

Encontrei a indicação do livro por acaso, como uma leitura leve para distrair a cabeça. Como havia lido uma sequência de livros mais reflexivos e tensos, acabei comprando A hipótese do amor para realmente relaxar.

E sim, o livro é leve, com aqueles clichês de comédia romântica que eu adoro, em uma escrita que realmente me envolveu, já que o término de um capítulo já me despertava a vontade de ler o próximo.

Havia algo especial no jeito com que ele falava. Talvez fosse um sotaque, talvez apenas uma característica de sua voz.


Como uma profissional da área de tecnologia, onde não raro convivo mais com colegas do sexo masculino do que com o do feminino, não foi difícil lembrar de algumas situações de quando iniciei na profissão, em que a capacidade das mulheres ainda levantava dúvidas e sobrancelhas. Algo que felizmente tenho me deparado cada vez menos, embora saiba que a luta não só pelo espaço profissional, mas também de locais livres de assédio indesejado está longe de terminar.

E essa é uma reflexão interessante no livro, as dúvidas, a necessidade de se superar, o medo de ser uma impostora apresentados pela protagonista Olive Smith é ainda muito recorrente entre as mulheres. Pois existe uma autocobrança forte onde não basta ser boa, precisamos sempre sermos ótimas em tudo o que nos propomos, o que gera um stress maior.

Precisava de um laboratório melhor se quisesse produzir conhecimento científico decente. Equipamentos melhores. Reagentes melhores. Culturas de bactérias melhores. Tudo melhor.


Pois estamos sempre precisando provar que temos capacidade de estar ali, que temos direito a ocupar aquele espaço, que merecemos ser reconhecidas pelo nosso desempenho.

Mostrando que mesmo na leveza é possível gerar reflexões importantes, principalmente em um mês que temos o Dia Internacional da Mulher, onde o 8 de março nos lembra do que já conquistamos e de tudo o que ainda precisamos lutar para abranger ainda mais mulheres.

Porque nem por milhões de dólares em fundos de pesquisa valeria a pena ter uma garota aleatória que você nem conhece direito sentada no seu colo no auditório mais lotado da história dos auditórios lotados.


Sobre o par romântico. o Dr. Adam Carlsen não foge do estereótipo de gatão, e apesar da postura inicialmente fechada, foi me conquistando junto com a Olive, tornando um casal fácil de torcer para um happy end.

Também há amizade com Anh e Malcolm, amigos leais que apoiam Olive. Sendo Anh a responsável direta por colocar Olive nas situações mais diversas e, mais importante, ser a causa do início do falso namoro. A interação entre os personagens é muito legal e divertida, trazendo aqueles pequenos grandes dramas e histórias engraçadas que se vive durante o período acadêmico.

Só sei que você sabe não ser um babaca e não entendo por que é tão diferente comigo.


No geral adorei a leitura, mas confesso que apesar de adorar a escrita, não me aventurei a comprar outro livro da autora, com medo de encontrar mais do mesmo. Então se alguém já leu outro título e achar que vale a pena, pode me recomendar aqui nos comentários.

E eu deixo de dica A hipótese do amor, lembrando que é um livro 18+ devido a descrição de dois capítulos do livro, que pode conquistar os corações de quem adora um romance fofo, curte mulheres fortes em histórias leves ou quem quer um vira página para relaxar.


A hipótese do amor
The Love Hypothesis
Ali Hazelwood
Tradução: Thaís Britto
2022 - 336 páginas
Publicado originalmente em 2021


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Línguas



Sinopse: Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina se arrisca dançando no parapeito da sacada. Apaixonado, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como duelos sangrentos e até mesmo falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó — que nutre por ele uma adoração desmesurada. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Seguindo uma teia de transformações, Línguas conta a história desses três personagens com destinos que ficam inextricavelmente unidos para sempre.

No mês de agosto/24 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da atriz Maria Bopp o livro Línguas do escritor italiano Domenico Starnone. O mimo foi um caderno pequenino para anotações.



Mimi devia ter oito ou nove anos de idade quando, após ouvir a fábula de Orfeu, passou a buscar nas redondezas de casa em Nápoles a fossa dos mortos. O motivo era resgatar a menina que foi o seu primeiro amor.

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos.


Sem saber o seu nome, ele a chamava de milanesa, já que o seu amigo Lello dizia que ela havia vindo de Milão, norte da Itália onde não se usava dialetos, e sim o italiano. A paixão à primeira vista foi quando viu a menina dançar na sacada do apartamento à frente do seu. 

O encanto gerou duelo entre os amigos e uma eterna lembrança em Mimi, que cresce com a sombra de milanesa em seus relacionamentos. Assim como sua avó, que após a perda do marido, vive como uma espécie de empregada da filha e seus poucos sorrisos e gentileza são reservados ao seu neto favorito Mimi.

Só falava sem freios com ela, que com os outros era muda que nem eu: guardava as palavras na cabeça e as usava no máximo comigo.


Mas é na vida adulta que Mimi irá estudar a própria língua, e começar a entender o poder que ela exerce não apenas na cultura de um povo, mas também em sua autoestima e memórias.


A escrita de Domenico Starnone

O professor e jornalista Domenico Starnone publicou seu primeiro livro aos 42 anos e hoje é considerado um dos autores contemporâneos mais importante da Itália. Seus livros tem como característica a escrita elegante e a profundidade psicológica de seus personagens.

Em Línguas o autor Domenico Starnone convida o leitor a conhecer um pouco da sua cidade - Nápoles - e de sua própria infância, já que a narrativa possui um toque de autobiografia.

Era de domínio público que, quando fazia sol, eu a espiava abobalhado da janela ou passava muito tempo em frente ao portão dela.


Starnone utiliza-se principalmente de três bases para costurar sua história. Começando pela família aqui representada pela avó, figura com a qual os diálogos ocorrem tanto na infância quanto na vida adulta.

A segunda base é a paixão idealizada e impossível pela milanesa, um amor platônico infantil que beira a obsessão. 

Havia décadas não esperava mais nada da vida, nem sequer um docinho, mas a partir de mim ela começoulogo a extrair doçuras de todo tipo.


Completando a pirâmide, está o amigo Lello, o garoto que embarca na imaginação de Mimi ao mesmo tempo que é um rival em todas as disputas.

E são estas três bases que propiciam o escritor discutir sobre a linguagem, não só como forma de escrita, mas também como forma de construir a própria identidade e até mesmo diferença social. Tendo referências fortes ao dialeto local de Nápoles, ao qual Mimi sempre compara ao italiano falado no norte da Itália, aqui representado por Milão.

Eu nem lhe agradeci, eram gentilezas contadas, ela mesma não saberia evitá-las.


E como ele fala em identidade, seria impossível não entrar as memórias, principalmente de sua avó, que perdeu o marido ainda jovem, e como um espelho do neto, vive deste amor do passado, cujas histórias ganham novas versões e ganham em Mimi um espectador atento.

Tudo em uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem mistura os próprios sentimentos com a linguagem, as vezes de forma mais técnica, as vezes de forma poética, e na maioria das vezes em um estilo mais fluído, em um livro curto e relativamente rápido de ler.


O que eu achei de Línguas

Na minha humilde opinião a avó é a grande personagem da história. Seja sendo a criada da família da própria filha, seja contando suas histórias e influenciando a imaginação do neto favorito. O fato é que ela inicialmente não é tão velha - está na casa dos cinquenta anos - mas a beleza do passado foi substituída pela tristeza e até uma certa apatia.

O que me fez pensar muitas vezes como foi a sua história? Como ela conseguiu sozinha e jovem criar duas crianças pequenas? E por que ela aceita ser uma sombra na própria família?

Entretanto, não tinha dia em que eu não desejasse caminhar por uma estradinha solitária e, sem nenhum motivo evidente, dar socos e pontapés no ar, me abandonando ao choro nem que fosse por um minuto.


Sobre o Mimi, a verdade é que cada vez que ele falava milanesa, no lugar de imaginar Milão, minha mente era assombrada por um belo bife à milanesa, o que me provocou certa fome durante a leitura.

E sua vergonha da avó, assim como a não retribuição de tanto amor, já que avó inclusive assumia a culpa por suas artes infantis, me apertavam o coração, não havia um beijo, nem um muito obrigado. Seria típico de criança, se ele não conseguisse expressar tamanho sentimento pela menina da janela a frente.

Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidade.


Menina cuja morte - e isso não é spoiler, já que é revelado na primeira página -, se tornou uma assombração em sua vida, quase como um ponto de referência para os seus relacionamentos românticos.

Em relação a parte da língua, questão da grafia e suas mudanças ao longo dos anos, possuem toda uma explicação, que pode ser um ponto de atenção ou curiosidade para quem gosta do estudo da linguagem, confesso que não me chamaram tanto a atenção.

O momento, na memória, é ocupado apenas pela fotografia, um retângulo de papelão amarronzado com numerosas marcas de rachaduras brancas na imagem.


Exceto que me fizeram pensar que o tema principal da história é na verdade a morte. Temos a morte do amor - seja o vivido, seja o platônico -, a morte de alguns termos da linguagem, a morte de relações, a morte da infância, a morte do nosso eu de ontem. Nem mesmo a memória consegue a imortalidade, já que a mesma também vai se apagando aos poucos.

Confesso que no geral achei a leitura mais ou menos, algumas vezes achei bobinha, outras vezes um pouco enfadonha e em alguns momentos me envolvi. Mas se não fosse o bife à milanesa que criou uma associação permanente, talvez o livro caísse no esquecimento.

Era como se eu perdesse as pernas, senti que elas estavam indo e me deixando apenas o tronco e a cabeça.


Mas isso não significa que a experiência será igual para você, pois o que desencanta alguns apaixona a outros. Então você gosta de histórias que acompanham da infância a vida adulta, primeiros amores inesquecíveis, o que envolve linguagem, narrativas que envolvem memórias, talvez a leitura tenha outro significado pra ti.

Ficando a dica para quem quiser se aventurar e voltar aqui para deixar a sua opinião nos comentários.


Línguas
Vita mortale e immortale ella bambina di Milano
Domenico Starnone
Tradução: Maurício Santana Dias
TAG - todavia
2024 - 141 páginas
Publicado originalmente em 2021

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Dias de Abandono


Sinopse: Depois de quinze anos de casamento, Olga é abandonada por Mario. Presa ao cotidiano estilhaçado com dois filhos, um cachorro e nenhum emprego, ela se recusa a assumir o papel de poverella (a "pobre mulher abandonada"). Essa opção a projeta num turbilhão de obsessões, angústias e ímpetos violentos, capazes de afastar Olga do fato de que as derrotas precisam ser assumidas para que a vida possa enfim seguir adiante.

Olga queria escrever, possuía ideias firmes sobre a independência da mulher. Mas um dia conheceu Mário, se casou, teve um casal de filhos, um cachorro que ela não queria, e passou a procrastinar os seus planos. Um belo dia, após o almoço, Mario comunica a Olga que queria se separar, não era culpa dela, nem das crianças, mas ele estava confuso e cansado. 

Eu o conhecia bem, sabia que era um homem de sentimentos tranquilos, a casa e os nossos rituais familiares eram para ele indispensáveis.

Em um primeiro momento Olga fica em choque, após refletir e lembrar de outras vezes que Mario fez a mesma coisa, passa a esperar o seu retorno. A cada visita aos filhos, ela é extremamente educada com ele, esperando pelo dia em que o marido irá permanecer. Afinal, já superaram outras situações, e Olga sabe que Mario precisa deles.

Só que no dia em que ela percebe que não haverá volta, afinal o confuso possui outra mulher. A chave vira na cabeça de Olga e ela entra em uma espécie de surto. Olga passa a brigar com todos os conhecidos, deixa de se cuidar fisicamente, passa a ignorar os filhos, adota um palavreado chulo e começa a criar um paralelo com uma vizinha de infância, que foi se tornando vazia após ser abandonada pelo marido.

Você não pode me deixar aqui tendo esperança, quando na verdade você já decidiu tudo.

A comparação amplia a depressão de Olga, pois ela sempre julgou a mulher fraca por se entregar de tal forma, lembrando a todos que nunca sabemos quando as nossas palavras podem retornar afiadas para o nosso peito. Mas isso em um primeiro momento não lhe ajuda a sair de um caminho que só a destrói. 

O comportamento dos filhos é dividido entre o apoio e o deboche, conforme eles querem chamar a atenção da mãe, que parece cada dia mais distante, deixando ambos abandonados em uma casa onde as contas não são pagas, a mãe grita histericamente e muitas vezes simplesmente esquece deles. 

Hoje à noite o seu pai vem, temos que fazer tudo para que ele não vá mais embora.

Em um livro relativamente curto, Elena Ferrante se utiliza da narrativa em primeira pessoa para nos colocar no turbilhão que se torna a cabeça de Olga. Das memórias de infância, repassando pela relação com a mãe, até o que ela abriu mão para que o marido evoluísse enquanto ela permanecia como dona de casa. Sua obsessão em ter o marido de volta a levam quase a loucura, pois o amor já foi esquecido e o que permanece é o orgulho ferido pelo abandono.

O livro também aborda o fato de desconhecermos as pessoas mesmo após muitos anos dividindo o mesmo teto, conceitos arcaicos que se tornam mais fortes do que opiniões, assim como o dia D que define se você se entrega ou luta para recomeçar e se reencontrar.

Não é fácil passar da tranquila felicidade do passeio sentimental à desordem, a desconexão do mundo.

Como todos os livros de Elena, a leitura é fluída e impactante. Dias de abandono é particularmente pesado, enclausurando o leitor junto com os personagens no apartamento, e por mais que você queira fechar o livro para espairecer, você não encontra as chaves que irão te libertar, suspirando com o fim do peso somente após a última página.

Dias de Abandono
I giorni dell'abbandono
Elena Ferrante
Tradução: Francesca Cricelli
Biblioteca Azul
2013 - 183 páginas

Outros livros de Elena Ferrante resenhados no Blog
A vida mentirosa dos adultos
Amiga Genial
História do novo sobrenome
História de Quem foge e de Quem fica
História da Menina Perdida


segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Afirma Pereira


Sinopse: Um momento trágico da história da Europa: crescem o salazarismo português e o fascismo italiano; a Espanha era cenário de uma violenta guerra civil. Um relato preciso que evoca momentos cruciais da vida de um protagonista que se dedica a não ser herói de nada. Pereira, jornalista apagado responsável pela página cultural de uma reduzida gazeta vespertina, protagoniza solidão, sonhos, a consciência de viver e de optar, ou talvez de não optar. Tão humano, se afirma Pereira sempre às margens do precipício.

O livro de agosto da TAG Curadoria foi indicado pela escritora Jhumpa Lahiri, ao qual já resenhei o livro Intérprete de Males aqui no Blog. Afirma Pereira é do escritor italiano Antonio Tabuchi, que assim como Jhumpa também escreve em um segundo idioma.

A história ocorre em Agosto, em pleno verão Europeu. A cidade é Lisboa e o ano 1938. Pereira é um jornalista formado na universidade de Coimbra, viúvo, perdeu sua esposa para a tuberculose e nunca mais se envolveu com nenhuma outra mulher. Durante 30 anos escreveu nas páginas policiais, mas atualmente é o diretor e único responsável pela página cultural de um jornal católico.

Era vinte e cinco de julho de mil novecentos e trinta e oito, e Lisboa cintilava no azul de uma brisa atlântica, afirma Pereira.

A página cultural é publicada todos os sábados, e ali ele coloca a tradução de contos franceses do século XIX e sobre escritores famosos falecidos. Fora isso, as suas preocupações são resumidas a sua alimentação, o seu problema cardíaco e a conversar com a esposa.

Tudo muda ao ler um artigo sobre a morte do recém formado Monteiro Rossi. Pereira que tinha uma fixação sobre não acreditar na ressureição da carne vê no rapaz um possível estagiário para auxilia-lo a antecipar os necrológicos para os grandes escritores da época, afinal, em tempos de guerra, elas poderiam ocorrer a qualquer momento. 

Porque nós fazemos um jornal livre e independente, e não queremos nos meter com política.

Rossi aceita o trabalho, mas ao contrário de contribuir com artigos, o rapaz junto com uma moça chamada Marta acaba abrindo os olhos de Pereira para o mundo presente, e ao acordar, suas ideias sobre a realidade começam a ser questionadas.

Suas dúvidas o levam a se internar em uma clínica para cuidar mais de sua saúde, é quando conhece o Doutor Cardoso, que lhe explica a sua teoria sobre não termos uma única alma, mas uma confederação de almas e um eu hegemônico, que no caso de Pereira quer vir a tona, deixando de viver o passado para recomeçar no presente.

Então me explique tudo, implorou Pereira, porque eu gostaria de fazer minhas escolhas, mas não estou bem informado.

Esta teoria leva o leitor a outro personagem, o Padre António, que após uma discussão sobre a alma ser única ou não, acaba explicando o problema do clero basco e a questão de apoio a república e a repressão da ditadura espanhola de Franco. A soma de tudo é que permitira Pereira decidir sobre como deseja conduzir a sua vida.

Afirma Pereira tem o próprio escritor como narrador, misturando um personagem que passou a visita-lo com um jornalista que ele conhecia, surgiu a figura de Pereira, que lhe conta suas desventuras em um mês muito quente, em um país que fica na Europa e não se sente parte dela, e sobre uma ditadura que passa despercebida aos mais desligados. Por isso a nota do autor, que foi publicada no Il Gazzettino em 1994 é uma espécie de complemento e preparação do que irá vir.

eu não sou companheiro de ninguém, vivo sozinho e gosto de estar sozinho, o meu único companheiro sou eu mesmo.

Confesso que inicialmente o uso numeroso do termo Afirma me irritou, e julguei precipitadamente que o livro fosse ser muito chato. Errei feio. Conforme Pereira foi desvendando o que havia por trás da cortina de boas notícias de Lisboa, as referências históricas e literárias, assim como os jovens que passam a orbitar em volta deste homem tão agarrado ao passado, o livro ganha um ritmo que me agarrou como leitora.

Afirma Pereira é um livro ao mesmo tempo intenso e rápido de ler. Os fatos provocam a necessidade de ir devorando as páginas, ao mesmo tempo que a curiosidade impulsiona para descobrir as respostas junto com Pereira. Conforme a tensão pelo perigo vai tomando conta da história, até ela termina de forma arrebatadora e surpreendente.

Dizem que vivemos numa ditadura, respondeu o garçom, e que a polícia tortura as pessoas.

Uma recomendação é necessária para quem irá se aventurar nestas páginas, faça-o de estômago cheio. Pereira é um homem bom de garfo, entre omeletes, peixes, limonada e vinho branco, seus diálogos ocorrem quase que na totalidade durante as suas refeições. A ponto que a TAG incluiu na revista que acompanha o livro as receitas degustadas ao longo da história. Aliás, a produção gráfica do livro está de parabéns, tanto a Lisboa na luva quanto os limões na capa complementaram a experiência.

Finalizei a leitura batendo palmas para Tabucchi e com saudades do Pereira. E como não poderia deixar de ser, recomendando a leitura para todos de uma Lisboa que poderia ser qualquer cidade, em qualquer época, se nunca olharmos além de nossas próprias janelas.

Afirma Pereira
Antonio Tabucchi
Tradução: Roberta Barni
TAG - Estação Liberdade
1994 - 157 páginas

terça-feira, 14 de julho de 2020

Todos os nossos ontens



Sinopse: A intriga centra-se em torno de duas famílias da burguesia italiana, que são apanhadas pela guerra, e relata as interferências dos conflitos internacionais nos comportamentos e relações humanas. Os passos da vida naturalmente associados à alegria, como o casamento e a maternidade, tornam-se mais trágicos que a própria morte. Os sentimentos de amor, ódio ou amizade são afetados. Mas também os gestos mais simples, automáticos, como abrir uma porta, usar um vestido, apanhar um comboio, adquirem sentidos inesperados e dramáticos.

O livro de junho da TAG Curadoria foi indicação do escritor Andrés Barba. A autora Natalia Ginzburg é uma das escritoras nas quais Elena Ferrante, um dos grandes nomes da literatura atual, se inspirou ao descrever o lado mais realista do cotidiano italiano.

Escrevia há muito tempo, deixara de ser advogado para poder escrevê-lo.

Logo de início somos apresentados a família de Anna, quatro filhos, pai viúvo e a senhora Maria, que havia viajado pelo mundo com a avó paterna e agora tomava conta da casa. Da mãe, que morreu após o parto da caçula, nada sabemos além da existência da foto na parede. Na frente, uma casa mais luxuosa, onde um empresário vivia com os três filhos e a esposa.

Queriam derrubar os fascistas, começar a revolução.

O pai de Anna tem pavor de Mussolini, do rei e dos fascistas, e ocupa os dias do filho mais velho, chamado Ippolito, escrevendo o seu livro de memórias. Quando o verão chega, querendo ou não, todos devem acompanhar o patriarca até as Amarenas.

Os quatro irmãos diferem bastante entre si. O filho mais velho é silencioso, já a irmã gosta mesmo é de namorar, o outro irmão parece não querer nada com nada e Anna vive acomodada em uma espécie de preguiçoso abandono.

Sempre que a beijava, seu rosto perdia qualquer traço de desprezo e de arrogância.

A rotina da família começa a mudar justamente com a morte do pai e a proximidade da guerra, que acaba formando laços entre os filhos das duas casas. Quando a mesma estoura, as famílias vão viver diferentes realidades, e quem irá nos fornecer notícias de todos é Anna.

O livro é narrado por uma terceira pessoa que acompanha todas as escolhas da jovem Anna, uma menina que vive por conta, em uma família onde todos parecem cuidar apenas de si. O impacto com a chegada da guerra gera diferentes reações em cada um, entre o medo e o desejo de pegar em armas, cada um dos irmãos opta por seguir o seu próprio caminho e enfrentar ou não os seus medos.

Procuravam também na memória as palavras que dissera. Mas havia dito tão poucas palavras.

A história é dividida em duas partes, onde temos o Norte com suas cidades destruídas e rebeliões, e o Sul, onde temos camponeses sendo saqueados e controlados, vivendo com medo de soldados alemães. Em comum na Itália inteira está a fome, a destruição e o envio de homens para lutar.

A forma de escrita de Natalia Ginzburg me transportava para uma cozinha, onde uma nona fazia pão em um fogão a lenha e me contava a antiga história dos moradores das casas que ficavam no fim da rua. As vezes em frases longas, de perder o fôlego, outras de forma objetiva e com impacto.

Nunca lhe passara pela cabeça desejar um filho, mas visto que tinha um sobrando aceitava-o.

São anos na vida de pessoas comuns, únicas em suas personalidades e sonhos, com defeitos e qualidades, tentando sobreviver em uma situação extrema chamada guerra. Existe solidão, perda, fome, morte, vida, frio, dúvidas e reflexões. Há também atos que podem ser considerados covardes, heroicos, de generosidade e até mesmo de avareza. É o ser humano vendo a rotina de seu cotidiano ser quebrado, para depois os cacos serem juntados pelos que sobraram.

Ao final da leitura fui tomada de diferentes sentimentos, uma mistura de vazio e tristeza por tudo o que os personagens da história passaram. Uma reflexão de quantos viveram isso, em diferentes condições, e quanto de força foi preciso para recomeçar sem deixar que os fantasmas continuassem a assombrar. Uma dor que começou individual e se tornou coletiva, e jamais pode ser esquecida para que não se repita. 

Todos os nossos ontens
Tutti i nostri ieri
Natalia Ginzburg
Tradução: Maria Betânia Amoroso
TAG - Companhia das Letras
1952 - 327 páginas

quarta-feira, 8 de julho de 2020

A Vida Mentirosa dos Adultos



Sinopse: Em aguardado romance inédito após o sucesso da Tetralogia Napolitana, autora narra os conflitos da adolescência em uma cidade dividida As mudanças no rosto de Giovanna anunciam o início da adolescência e não passam despercebidas em casa. Dois anos antes de abandonar a família e o confortável apartamento no centro de Nápoles, Andrea não se dá conta do que sentencia quando sussurra para a esposa que a filha é muito feia. Essa feiura estética, mas que também indica uma possível falha de caráter, recai sobre Giovanna como uma herança indesejável de Vittoria, a irmã há muito renegada por Andrea. Aos doze anos, a menina vê um rosto no espelho e, embora não compreenda a fundo o peso daquela comparação, sente que algo está irremediavelmente à beira de um abismo. O amor e a proteção oferecidos pelo lar são as primeiras estruturas a desmoronar quando Giovanna decide conhecer a mulher que pode encarnar seu futuro. Os encontros com a tia são o ponto de partida para o embate com inúmeras questões existenciais — é possível pertencer a algum lugar em uma Nápoles de contrastes entre o cinza industrial e sua sociedade rica e instruída? Ou transcender os erros e pecados cada vez mais aparentes de pais outrora perfeitos? Como sobreviver ao despertar do desejo? Ao longo dos anos acompanhamos os percalços da transição da infância protegida de Giovanna a uma adolescência exposta às complexidades daqueles que a cercam, evocando também a possibilidade de levar a vida adulta como nenhuma outra mulher fizera até então. Um romance extraordinário sobre transições, paixões e descobertas.

Com a Covid-19 e o isolamento social, acabei tomando coragem para assinar mais um clube de livros: o da Intrínsecos. E foi com muita felicidade que descobri que o primeiro livro que eu receberia era justamente o novo título da Elena Ferrante, escritora pelo qual me encantei após lera tetralogia napolitana (se você ainda não leu, o meu conselho é leia!). 

Uma família perfeita. Os pais se amam e são companheiros. A filha é obediente, estudiosa e tem no pai a figura de um herói. Mas um dia a borboleta bate as suas asas e tudo se transforma não somente na casa de Giovanna, mas também a sua volta.

O bater de asas aqui é quando Andrea, pai de Giovanna, após saber pela esposa que a filha havia tirado notas ruins afirmou: Não tem a ver com a adolescência: está ficando a cara de Vittoria. Escondida escutando a conversa, ela espera pela defesa da mãe, que não vem.

Nascemos bem-feitas e não devemos desperdiçar isso.

Vittoria é a irmã de seu pai, que assim como os demais parentes paternos é uma desconhecida para Giovanna. A única coisa que ela sabe sobre a tia é o fato da mesma ser sinônimo de feiura e maldade para o seu pai. Em um primeiro momento os sentimentos foram de medo e asco, justamente pelas reações que seus pais tinham em consideração a Vittoria.

Giovanna que já não estava confortável com o início da adolescência, como a menstruação que lhe transmitia a sensação de sujeira, sentiu uma dor muito grande com a comparação, mas como era natural, logo veio a curiosidade e até mesmo um certo desespero em saber como era o rosto da tia.

Ainda hoje tenho curiosidade de saber como nosso cérebro elabora estratégias e as executa sem revela-las a si mesmo.

Da busca por fotografias até o encontro cara a cara com a mulher foi um passo, saindo da redoma da classe média napolitana ela conheceu o subúrbio e o dialeto. Ao mesmo tempo que passa a conviver mais com a tia, ela também se isola dos colegas escola. E logo Vittoria faz com que tudo em sua casa mude, fazendo com que verdades sejam reveladas e suas crenças questionadas.

E sim, a tia Vittoria aqui é o segundo personagem desta história, apesar de não sabermos o que ela realmente pensa. Entre bons e maus conselhos, ela sem querer amplia a visão até então limitada que a sua sobrinha tinha da vida. Com uma personalidade forte e dominadora, sua índole não é muito diferente do pai de Giovanna, com a diferença que o segundo se afastou da vida da periferia.

Se a blasfêmia me permite um pequeno avanço que for, eu blasfemo.

Narrado em primeira pessoa e dividido em sete partes, A Vida Mentirosa dos Adultos trata tanto das mudanças de uma menina em mulher, do estilo de se vestir, o reconhecimento da sexualidade, seus questionamentos sobre religiosidade, as amizades, o primeiro amor até a desmistificação dos adultos que a cercam. No caso de Giovanna, mais do que perder o olhar de herói para os pais, as revelações sobre os mesmos são desagradáveis. Entre a mágoa e o amor, os laços são modificados, e ela precisa descobrir quem é.

Mas apesar da juventude da nossa narradora, não pense que o livro é para adolescentes, pois a leitura é bastante reflexiva. Começando pelo posicionamento das mulheres da história, temos mães, esposas, amigas, viúvas e amantes. A devoção das mulheres adultas pelos homens é bem curiosa, um amor que resiste as mentiras, e norteiam o seu modo de vida.

E certamente também me treinou, queria que eu fosse como ele, até eu decepcioná-lo.

Da mesma forma a relação dos homens com as mulheres, que vão do respeito a violência física, do olhar lascivo de um homem mais velho para o corpo de uma jovem, do rapaz que bate na namorada por se sentir pressionado, ao fato de que todos são infiéis.

A escrita de Elena Ferrante é fluída, tornando o livro fácil e rápido de ler. A história possui um bom ritmo, do tipo que algumas vezes você se pega pensando por que raios Giovanna está tendo determinado comportamento, ao mesmo tempo que em outros tem vontade de lhe dizer que é normal sentir tantas incertezas. 

Eu não estudo, sou reprovada e sou uma vadia.

Entre as leitoras femininas, não é difícil se identificar com um ou mais momentos da personagem, seja na mudança de opinião em relação aos adultos, seja as situações vividas em uma fase nem sempre tão fácil chamada adolescência.

Sobre a edição da Intrínsecos, gostei bastante. O livro em capa dura veio na cor rosa, o tamanho das letras assim como a distribuição do texto na página facilita que o leitor tenha como foco somente a história. De mimo mais uma ecobag para a minha coleção. Aprovei, fiz o plano anual para formar a minha opinião definitiva, então agora vocês terão resenhas de dois clubes de livros no blog. Lembrando que nenhum é patrocinado, ambos são pagos na totalidade pela leitora aqui.

A vida mentirosa dos adultos
La vita bugiarda degli adulti
Elena Ferrante
Tradução: Marcello Lino
Editora Intrínseca
2019 – 429 páginas

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

O Deserto dos Tártaros



Sinopse: Feliz por escapar da monotonia da academia militar, o jovem tenente Giovanni Drogo recebe com alegria a missão no forte Bastiani - para ele, a primeira etapa de uma carreira gloriosa. Embora não pretendesse ficar por muito tempo, o oficial de repente se dá conta de que os anos se passaram enquanto, quase sem perceber, ele e seus companheiros alimentavam a expectativa de uma invasão estrangeira que nunca acontece. A espera pelo inimigo transforma-se na espera por uma razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade. Publicado originalmente em 1940, O deserto dos tártaros marcou a consagração de Dino Buzzati entre os grandes escritores italianos e foi eleito pela crítica especializada um dos melhores livros do século XX.

Em outubro de 2018, o escritor Alejandro Zambra indicou para a TAG Curadoria um dos livros que mais mexeram comigo entre todas as leituras: O deserto dos tártaros do italiano Dino Buzzati.

Não é difícil se identificar com Giovani Drogo. Seu perfil reflete um ou vários dos comportamentos humanos de uma forma atemporal e metafórico. É o tipo de livro que poderia ganhar uma versão com análise psíquica, como ocorre com os contos antigos em Fadas no Divã.

Era aquele o dia esperado há anos, o começo de sua verdadeira vida.

Temos a escolha errada e o desejo que uma mudança a torne correta. Onde o forte militar Bastiani aparentemente representa fisicamente o desejo de sucesso e glória na profissão, para depois se tornar símbolo de todo o desgaste de quem fica parado enquanto o mundo segue a girar.

Nos deparamos com a desmotivação e o aceitar a rotina com o desleixo da juventude de quem não amadurece. Como uma antiga canção todo dia é igual: horário para levantar, horário para realizar as tarefas, até o futuro se tornar um horizonte sem perspectiva e a velhice chegar sem que se perceba.

Se precisasse ficar ali em cima por anos a fio, e naquele quarto, naquela cama solitária, devesse consumir sua juventude?

O tempo é um personagem onipresente quando os dias passam de forma rápida e enfadonha, sem momentos inesquecíveis para recordar, sem momentos que tornem os dias diferentes um do outro. O não viver enquanto se respira. Eu tenho tempo, eu sou jovem, amanhã eu faço quando o amanhã já chegou.

A questão do sentido da atividade executada, quando todo o brilho inicial se evapora e a utilidade é questionada, onde as ações são realizadas no automático. Eventualmente se busca algo para quebrar a monotonia, e quando as visões demonstram não ser verdadeira, só resta retornar a rotina com um tédio ainda maior.

O Natal já se dissolvia na distância, também o novo ano viera, trazendo aos homens, por alguns instantes, estranhas esperanças.

Mudando o olhar, o não fazer nada para mudar a realidade que faz o tempo escorrer pode ser uma forma de driblar a morte, personagem que aparece em alguns momentos, seja de forma estúpida, seja grandiosa ou até sutilmente. Como antigas histórias em que os personagens até tentam se esconder desta senhora, mas que mesmo disfarçados são levados junto a ela.  

Só que o perigo para o leitor está ao fechar a última página. Mesmo os mais incautos podem cair em uma reflexão pessoal, onde é impossível não olhar para o próprio passado e para a sua rotina, trazendo a tona perguntas que nem sempre estamos dispostos a enfrentar, e muito menos a responder. 

Nenhuma criatura, há muitos e muitos anos - a não ser algum corvo ou cobra -, aventurava-se por aquelas plagas.

Uma leitura cujos sentimentos estão muito mais relacionados com a forma como vivemos do que com o destino do personagem, já que na teoria todos queremos obter um tipo de realização.

Ironicamente a narrativa em terceira pessoa consegue ser leve, descrevendo os detalhes de forma a colocar o leitor dentro das paredes do forte sem ser cansativa. Os companheiros de Drogo podem ser semelhantes aos teus colegas e vizinhos.

Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo ao ritmo dos dias de sempre.

E para completar, o que tudo indica a história nada mais seria do que um retrato da insatisfação do próprio autor com o seu trabalho em um jornal, local ao qual esteve ligado até morrer. Então não, o livro não é sobre armas ou a vida militar, mas sobre a nossa guerra diária em lutar por aquilo que realmente queremos viver.

Será o livro a chave para abandonarmos o nosso forte Bastiani e lutarmos por nossos sonhos ao invés de esperar os nossos tártaros? Eis uma pergunta que cada um deverá responder.

O Deserto dos Tártaros
Il deserto dei tartai
Dino Buzzati
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
TAG – Editora Nova Fronteira
1940 – 206 páginas


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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

História da Menina Perdida



Sinopse: No último volume da série napolitana, Lenu e Lina caminham da maturidade para a velhice. Nesse percurso temos o resultado dos anos de embate que acompanhamos durante toda a tetralogia. Não houve nem haverá redenção. A violência do bairro, a dificuldade das relações familiares e da maternidade, a ausência do amor continuam em História da menina perdida. O relato da amizade tóxica de Lenu e Lina, que nos engole como um buraco negro, encerra do modo como prevíamos desde o primeiro livro: uma verdadeira obra de arte do nosso tempo.

Elena Ferrante encerra a sua série napolitana com o quarto romance intitulado História da Menina Perdida. Como em todos os volumes, o título nada mais é que uma referência a uma importante situação da narrativa.

Demorei um pouco mais de um mês para ler suas 476 páginas. Não, o livro não é tedioso. Não, o livro não é difícil. A verdade é que encerrar os laços com Lenu e Lila não foi fácil. Era como se eu fosse uma amiga invisível que nada podia fazer pelas duas, e após devorar três volumes ficava o medo de tudo evaporar como a própria Lila.

Ela procurou quase imediatamente entrar mais uma vez à força em minha vida, e eu a ignorei, a tolerei, a suportei.

Outro ponto para esta leitura bem mais lenta foi à releitura de passagens, como se tentando entender se era isso mesmo. Ou ao ver a Itália de ontem como um espelho do Brasil de hoje, talvez com um desalento ainda mais agudo, e uma memória igualmente curta. 

O crescimento, escolhas, amadurecimento e rumos de Lila e Lenu serviram de pano de fundo para descrever Nápoles e a própria Itália. De um bairro pobre pós-guerra, passando pela camorra, o uso dos computadores, intelectuais, sindicalistas, socialistas, terroristas, operação mãos-limpas, ataque às torres gêmeas, tudo descrito pelo olhar de duas mulheres tão diferentes, tão problemáticas, tão únicas, como todas são.

Falei de como tinha observado em minha mãe e nas outras mulheres, desde menina, os aspectos mais humilhantes da vida familiar, da maternidade, da sujeição aos homens.

A série napolitana não é um romance simples, ela é feminista sem ser extremista, ela é política sem ter partido, ela é violenta sem pingar litros de sangue, ela é honestidade e mentira, superação e inferiorização, perdas e ganhos, vida e morte.

Como uma ficha de orelhão antigo, a cada volume as engrenagens vão se encaixando devagarinho. Em dados momentos nos envolvemos tanto nesta amizade - ora considerada destrutiva, ora irmandade - que não nos damos conta do seu ambiente, até ele vir como uma bofetada e muitas vezes espelhar a nossa realidade.

Houve um deslocamento entre a pessoa que eu esperava encontrar e a que de fato topei em minha frente.

História da Menina Perdida narra o envelhecimento das personagens e as consequências das escolhas realizadas no terceiro livro. E o inesperado retorno para casa, sacramentando a volta do convívio das duas. Culpa e maternidade também acompanham esta última etapa, onde os papeis de mãe e filha vão se alternando. E mesmo tantos anos depois elas parecem manter os mesmos comportamentos: Lenu tentando se firmar e Lila sempre se transformando.

O último volume é o fim de muitas coisas para as duas, e também de descobertas e desilusões para Lenu. Suas dúvidas, fraquezas e complexos a tornam mais próximas do leitor, que acabam admirando Lila junto com ela. 

Querer bem corre paralelo a querer mal, e eu não consigo, não consigo me condensar em torno de nenhuma boa vontade.

Aliás, se Lila muitas vezes parece fazer mal a Lenu, por outro fica claro que a primeira é combustível da segunda mesmo quando esta agora se depara com a velhice no espelho. Se Lila muitas vezes derruba Lenu, ela também a levanta, em uma relação de extremos e segredos.

E a curiosidade sobre um livro que contasse a versão de Lila às vezes parece irresistível. Mas no mesmo momento a ideia parece inaceitável. Ao quebrar sua aura de mistério, que sentimentos vamos ter por ela?

Em geral aqueles momentos de hostilidade eram manifestos, mas às vezes também pressionavam sob uma aparência de disponibilidade e de afeto.

É uma série que ainda quero reler, talvez quando o gosto de saudade aliviar, ou quem sabe quando na cidade das personagens voltar. Apenas sei que Lila seria uma excelente guia para conhecer realmente a cidade de Nápoles.

História da Menina Perdida
Storia della bambina
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Editora Globo – Biblioteca Azul
2014 – 476 páginas


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

História de Quem Foge e de Quem Fica - Série Napolitana



Atenção para quem não leu os dois primeiros volumes: há spoiler.

Sinopse: No terceiro volume da série napolitana, Lenu e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequencia angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Comecei a ler a série napolitana por curiosidade, gostei muito dos dois primeiros livros, mas fui realmente capturada no seu terceiro volume. E como um quebra-cabeça que está perto do final, consegui compreender a maestria de Elena Ferrante em trazer todo o universo feminino sendo representado por duas personagens tão ricas e similares as mulheres de qualquer época.

Elena começa falando do sucesso do seu livro, o primeiro encontro com Nino após a separação dele e de Lila, e a descoberta que seus amores e filhos pipocam sem que ele dê muita importância a eles.

Significava acima de tudo que no outono, ou no máximo no início do próximo ano, nós nos casaríamos e eu deixaria Nápoles.

Com o casamento marcado com um jovem professor de família influente, Elena retorna para casa e é chamada as pressas para cuidar de Lila, momento que vamos descobrir todo o sofrimento que ela passou após abandonar o marido e ser abandonada pelo amante. A beleza perdida em uma fábrica, a inteligência sempre afiada.

Se Elena move mundos e fundos para ajudar Lila, sua recompensa são olhares irônicos, comentários humilhantes e uma tentativa de lhe dar pouca importância por aqueles que já estimou. Nem Lila a defende, apesar de estar sendo salva pela amiga. Enquanto Elena foge determinada do local do seu passado, Lila volta para o bairro para um novo recomeço.

Lila notou como era fácil distinguir entre os rostos dos estudantes e os dos trabalhadores, a desenvoltura dos líderes e o balbucio dos gregários.

E é justamente após este encontro que tudo parece dar errado a Elena. Ao casar com um homem machista, tradicional e fraco perante outros homens, Pietro a trata como um ser inferior, não respeitando nem suas opiniões ou inteligência, subjugando-a como uma mulher de respostas prontas, mas sem conteúdo.

O pano de fundo é uma Itália em rebuliço, fascistas, terroristas, protesto de universitários e operários, e a Camorra ganhando força na cidade de Nápoles. Uma hora ou outra todos se vendem, todos tem o seu preço. E a morte não poupa lado.

E para quebrar minha cara você foi pedir autorização a meu marido?

Outro tema muito bem abordado é a maternidade, se no segundo livro temos uma Lila que tenta estimular o filho ao máximo, agora temos uma Elena que tenta administrar a culpa, vê toda a sua vida mudar, dando a visão mais realista de ser mãe. 

Há também o início do uso de tecnologias, que geram empregos com maiores rendimentos, e os movimentos feministas, que começam a questionar relacionamentos e empoderamento muito antes da palavra virar moda.

E por uns segundos tive a impressão de que Lila não me reconhecesse, mas visse diante de si um espírito que se aproveitava de sua fraqueza.

E para fechar um final que te faz ficar com vontade de iniciar o quarto volume quase que imediatamente, que pode provocar diferentes sentimentos nos leitores. A dúvida entre o despertar e a loucura persiste em minha mente. Assim como o medo de que não haverá final feliz para nenhuma das duas. De onde elas vêm, por mais que se afastem de tudo e de todos, isto não parece possível.

História de Quem Foge e de Quem Fica
Storia di chi fugge e di chi resta
Série Napolitana
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Biblioteca Azul – Editora Globo
2013 – 415 páginas

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

História do novo sobrenome



Atenção: Esta resenha possuí spoiller, pois é difícil escrever sobre uma continuação sem citar algo do livro anterior, neste caso A Amiga Genial.

Sinopse: Neste segundo romance da chamada série napolitana, veremos suas duas protagonistas, Lila e Elena, crescerem, e com elas todas as dores e as delícias de sua juventude em meio a um mundo repleto de caminhos que se abrem enquanto portas se fecham - se a sabedoria, o crescimento e o amor são possibilidades, eles ocorrem em um cenário limitado por uma disposição social por vezes cruel. Neste maravilhoso romance de formação de duas meninas, certamente o leitor vai se surpreender ainda mais com as possibilidades do universo de Elena Ferrante - esse mundo árido, tenso, delicado, profundo e, sobretudo, humano.

O que Marcello Solara estava fazendo com os sapatos desenhados por Lila? A cena final do primeiro livro é a charada respondida no segundo: nada é como parece ser. No final da adolescência tudo muda conforme as nossas escolhas, e no caso de Lila e Elena, conforme os caminhos escolhidos mesmo em uma época onde as mulheres não possuíam tanto direito assim de ditar o seu.
Quando me pediu para jurar que nunca abriria aquela caixa, por motivo nenhum, jurei.
Lila se vende, literalmente, em um primeiro momento ao conforto e ao dinheiro. Seu castelo se revela de vidro ainda na festa de casamento, quando Stefano se mostra mais parecido com o pai do que se imaginava. A Sra. Carracci não é fácil, e nela temos a face mais fria de Lila. Sim, ela é inteligente. Sim, ela é manipuladora. Sim, ela usa a sua beleza. Mas também sofre pela falta de oportunidade de estudar, por tanto potencial não aproveitado. E assim ela agrada e humilha Elena, tentando mostrar toda a sua superioridade quando na verdade provavelmente ela trocaria tudo para estar no lugar da sua amiga. 

Esforçada e inteligente, com uma autoestima que precisa ser trabalhada com urgência, Elena supera as suas próprias expectativas, e mesmo quando incorpora Lila para espantar os seus medos, fica nítido que ela tem coragem para muito mais do que ela mesma imagina. Seu sentimento de inferioridade ainda lhe prejudica, lhe cega, e para acabar com isso só se afastando de todos. Aquele bairro, aquela família, aqueles amigos não são para ela. Eles a sufocam. Eles são sabem como lidar com ela. Ao mesmo tempo, ela é a esperança de uma presença feminina que não deixe que outro sobrenome assine suas conquistas.
Durante todo o tempo, mesmo quando falou da própria violência, valeu-se de um dialeto cheio de sentimentos, sem defesas, como o de certas canções.
As amigas se tornam contrapontos. Lila é a esposa que apanha, grita, controla e se submete. Elena é a estudiosa, cujo esforço vai abrindo mais portas do que o previsto. E o empurrão final para isto ocorre nas férias de verão, em que Lila paga para Elena lhe acompanhar, e esta sem imaginar o que aconteceria sugere a praia onde sabe que irá encontrar a presença de seu antigo amor: Nino. E estes dia de sol irão mexer com o que eles tem de melhor e pior.

Em paralelo, mas com menor ênfase, estão a ida de Enzo e Antônio para a guerra. Entre as meninas traições, fofocas e intrigas rolam soltas em um retrato claro da falta de unidade feminina para se defender dos desmandos machistas que se tornaram padrão dentro do seu meio. E o mais assustador, o fato da personagem Melina se tornar um espelho de algumas das mais novas quando estas descobrem a paixão.
Não sentia vergonha dela, jurei, mas escondi que temia me envergonhar.
O fato é que cada um entrará na vida adulta colhendo o resultado de suas escolhas anteriores. E na escrita fluída de Elena Ferrante é isto que faz desejar ler o terceiro volume da série.

Sobre a narrativa, no primeiro livro senti falta da versão da Lila para os fatos. Ela é uma personagem riquíssima, que desperta sentimentos conflitantes para quem convive com ela na ficção e para quem acompanha através da leitura. No segundo livro a autora usa um recurso para aliviar um pequeno percentual desta curiosidade, embora ainda insuficiente para mim.

História do Novo Sobrenome
Série Napolitana – Segundo Volume
Storia del nuovo cognome
Elena Ferrante
Tradução Maurício Santana Dias
Biblioteca Azul – Editora Globo
2011 – 471 páginas


Outros livros de Elena Ferrante resenhados no Blog:
A vida mentirosa dos adultos
Amiga Genial
História de Quem foge e de Quem fica
História da Menina Perdida

Dias de Abandono


terça-feira, 24 de julho de 2018

A Amiga Genial



Primeiro volume de quatro da série napolitana, A Amiga Genial me apresentou a Elena Ferrante, que por si só possui uma história a parte, visto que é o pseudônimo de uma escritora italiana que nunca se mostrou e fez gerar várias teorias de quem é a autora misteriosa.

Voltando ao livro, logo nas páginas iniciais ele ganha um subtítulo: infância, adolescência. Há também uma lista dos personagens, que pode auxiliar quem costuma se perder entre tantos nomes. E finalmente é hora de entrar na vida de Raffaella Cerullo e Elena Greco, ou simplesmente Lila e Lenu.

Sem preâmbulos o livro começa com uma Elena adulta atendendo a uma ligação do filho de Lila, para saber se a amiga tinha conhecimento do paradeiro da mãe que havia desaparecido. Isto irrita Elena, que trás a tona todo um histórico de competição e resolve escrever a história das duas.

Narrado em primeira pessoa, a voz de Elena faz o leitor retornar no tempo, para o dia em que as duas se aproximaram. Em uma leitura que começa devagar e aos poucos acelera, lembrando exatamente a passagem da infância para adolescência, onde na primeira parecêssemos ter todo o tempo do mundo e na segunda à urgência de tudo para ontem.

Nas páginas estão o machismo e a violência, perfis de moradores e alunos, relações familiares, pobreza, e acima de tudo uma amizade entre duas meninas. Lila é inteligente ao natural, corajosa, ávida por livros, tem dom para escrever, e sofre fisicamente as consequências de desafiar e responder quando acredita que o outro lado está errado. Lenu é esforçada, cheia de dúvidas e complexos, vive entre competir com Lila e ser levada por sua mão a enfrentar situações que sozinha nunca encararia.

Uma é o combustível da outra, e não sendo elas são as melhores amigas uma da outra. Não sendo por não haver intimidade total, a inveja está nas duas por oportunidades que pipocam em um momento para uma e em outro para a outra. Não parece haver felicidade sincera em relação ao que elas consideram conquistas. Existem escolhas, existem conselhos, até elas começarem a amadurecer, assim como a sua amizade.

Dos bancos escolares, passando pelos primeiros amores e espinhas, o sonho de ser rica e uma visão além do próprio bairro, A Amiga Genial encanta pela sinceridade e simplicidade. Ao mesmo tempo em que pode trazer na memória as nossas lembranças de infância, aquela amiga genial que por n motivos se perdeu contato.

Completando temos o cenário de uma Nápoles nos anos 1950 que ainda não superou totalmente as consequências da última guerra mundial, onde em meio à pobreza os camorristas são respeitados e a agressão é gratuita.

Enfim, um livro que eu gostei tanto que já comprei os três volumes faltantes.

A Amiga Genial
Infância, Adolescência
Elena Ferrante
Primeiro Romance Série Napolitana
Editora Globo – Biblioteca Azul
Tradução Maurício Santana Dias
2011 – 331 páginas

Outros livros de Elena Ferrante resenhados no Blog:

domingo, 22 de novembro de 2009

As Cidades Invisíveis


Sinopse: Neste fabuloso trabalho, a narração fica por conta do famoso viajante veneziano Marco Polo, e o ouvinte é Kublai Khan, o velho e imperador dos tártaros. À medida que Marco Polo começa a descrever as cidades que supostamente visitou - com nomes de mulheres sedutoras, Diomira, Isidora, Dorotéia, Zaíra e tantas outras -, elas parecem joias, tais como manuscritos medievais. Gradativamente, as histórias circundam elementos do mundo moderno, e suas imagens começam a ganhar cor, conforme os olhos do viajante se movem no tempo e no espaço. No fim, o imperador é levado a acreditar em cidades que ainda não existem, mas que existirão no futuro.

Passado, presente (e talvez futuro) se misturam nas descrições de diversas cidades que o viajante veneziano , Marco Polo, faz em detalhes para o imperador dos tártaros Kublai Khan. ele os descobre, invade e investiga através de um homem, que passa um longo tempo fora e depois retorna, cheio de histórias. 

O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade.

Cada cidade encontra-se em uma categoria, pode ser memória, desejo, símbolo, delgada, troca, olhos, nome, mortos, céu, oculta ou contínua. E desta forma, o livro é dividido, mostrando em cada parte suas semelhanças e diferenças. 

Aquela manhã em Dorotéia senti que não havia bem que não pudesse esperar da vida.

Embora a sensação de dejavu venha entre cidades de categorias diferentes. O que parece descrições de ruas, acaba virando as diversas facetas do ser humano, deixando o leitor sem saber se as cidades são os espelhos de sua população ou se a população é um reflexo dos caminhos, muros e divisas de onde moram. Levando a crer que, no final das contas, as cidades nada mais são do que críticas as pessoas que estão por perto ou a própria humanidade.

Retornou de países igualmente distantes e tudo o que tem a dizer são os pensamentos que ocorrem a quem toma a brisa noturna na porta de casa.

Utilizando-se de pessoas reais para escrever a sua ficção, em capítulos curtos, quando utiliza a narrativa em primeira pessoa, é como se estivéssemos junto com o imperador tártaro escutando as histórias e viajando junto com Marco Polo em suas descrições.

Deste modo a cidade repete uma vida idêntica deslocando-se para cima e para baixo em seu tabuleiro vazio.

Quando muda para terceira pessoa, acompanhamos os diálogos entre os dois, onde em um primeiro momento Kublai Khan questiona a falta de dados de valor, como minas e preços vantajosos, enquanto Marco Polo segue firme em sua argumentação movida a sentimentos.

Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em que direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?

O grande feito do escritor Ítalo Calvino nesse livro é permitir que o leitor tire a sua própria conclusão. É possível criar teorias, ou apenas relacionar as cidades descritas com aquelas que vemos no cotidiano. Sendo-se livre para ver, refletir ou desacreditar nesta mistura de fantástico e indefinível.

As Cidades Invisíveis
Le città invisibili
Italo Calvino
Tradução: Diogo Mainardi
RBS Publicações
1972 - 158 páginas

domingo, 2 de agosto de 2009

Gomorra


Sinopse: As mercadorias "frescas", logo que nascem - objetos de plástico, roupas de grife, videogames, relógios -, desembarcam diariamente no porto de Nápoles para serem armazenadas e escondidas em prédios propositalmente esvaziados de tudo. Já as mercadorias "mortas", vindas de toda a Itália e de boa parte da Europa, sob a forma de resíduos químicos, material tóxico e até mesmo cadáveres e esqueletos humanos, são clandestinamente "despejadas" nas terras da região da Campânia. E lá contaminam, dentre toda a população, os próprios boss da Camorra, que constroem, sobre aqueles terrenos, suas mansões luxuosas e nababescamente absurdas - datchas russas, villas hollywoodianas, verdadeiras catedrais de cimento ornadas com os mais preciosos mármores -, que não servem somente para demonstrar a conquista do poder, mas também para revelar utopias delirantes, pulsões messiânicas e obscurantismo milenares.

O que um contêiner com homens e mulheres chineses mortos, a roupa que a atriz Angelina Jolie usou em uma cerimônia do Oscar, mulheres ocupando cargos elevados, pessoas mortas por balas perdidas, o IVA - Imposto Sobre Valor Agregado, tráfico de droga, disputa de território e corrupção tem em comum? 

Não, não é o morro do Rio de Janeiro, nem um dos filmes de mafiosos distribuídos por Hollywood, apesar dos integrantes dos clãs, pertencentes ao sul da Itália, imitarem a ficção. 

Suas portas mal fechadas se abriram bruscamente e dezenas de corpos começaram a cair.

Roberto Saviano descreve no seu livro de estreia algo que se tornou mais globalizado que o próprio capitalismo: o poder dos criminosos, nesse caso específico, a Camorra. 

Não é uma ficção, o jornalista se infiltrou na máfia napolitana para entender o que ela é, o seu modo de operação, seus tentáculos pelo mundo e as consequências disso.

Na tevê, Angelina Jolie pisava a passarela da noite do Oscar, vestindo um terno de seda branca, belíssimo. Aquela roupa tinha sido costurada por Pasquale numa fábrica clandestina de Arzano.
O primeiro lugar que somos apresentados é justamente ao porto de Nápoles, é neste ponto que chegam milhares de containers, com produtos de todos os tipos, e também os registros e as classificações para cobrança de impostos, onde o caro para o consumidor pode ser extremamente barato para a alfândega, até o descarregamento de mercadoria clandestina.

Na sequencia vamos para o funeral de um rapaz de quinze anos morto por policiais ao assaltar casais com arma de brinquedo, para depois ser apresentados para os estranhos leilões realizados pelas grandes grifes. E assim, página a página, vamos descobrindo mais e mais de como o sistema de uma organização realmente impressionante funciona.

Afinal, um império não se divide com um aberto de mão, mas cortando-se uma delas com um cutelo.

Gomorra não poupa detalhes. Em algumas páginas o leitor precisa realmente ter estômago, enquanto Saviano descreve as torturas ou os teste de novas drogas que são feitas em viciados. Não existe escapatória, pode ser pobre, padre, político ou arrependido, a única certeza para os que contrariam a Camorra é a morte. 

A Camorra são vários clãs criminosos, chefiada na sua maioria por homens jovens que acabam reféns do seu próprio poder. Debocham da velha máfia, pois são politicamente independentes. Suas fontes de dinheiro são variadas, podem vir da venda de armas para países em guerra ou de roupas fabricadas sob medida para populares atrizes desfilarem. 

Na guerra já não é possível ter relações de amor, ligações, relacionamentos, pois tudo pode se tornar um elemento de fraqueza.

Gomorra não é um romance. É um tapa na cara em um texto jornalístico narrado em primeira pessoa, onde depoimentos pessoais se misturam a investigações e histórias do passado. 

A narrativa de Saviano é forte, sua escrita tem fluidez e detalhes que nos fazem não só compartilhar o seu olhar, como sentir os acontecimentos. Desde a primeira página, quando o manobreiro conta num misto de pavor e incredulidade sobre os corpos com crachás pendurados no pescoço que caiam de um contêiner, o estômago aperta como um aviso, o que vem a seguir não é brincadeira.

Ser atingido na cabeça evita tremer de medo, mijar ou soltar fedor do interior dos buracos na barriga. 

Também é um banho de água fria nos que adoram uma grife e anunciam para toda imprensa que colaboram para a construção de um mundo melhor. Pois eles também contribuem, indiretamente ou por simples ignorância, para a máfia italiana. 

A propósito: Gomorra é uma das cidades destruídas por Deus, conforme é descrito no Gênesis, uma cidade, como muitas na Itália e em outros locais do mundo, onde a destruição, por uma escolha, um celular ou uma palavra, se tornam banais. Onde os honestos não têm vez e apenas os imorais possuem o poder sobre a vida e a morte.

São rapazes, mortes falantes, mortos vivos, mortos que se movem... Belos ou não, te pegam e te mantam, mas a vida já está mesmo perdida...

Um livro para quem quer entender mais o que consome, para quem leu a Série Napolitana da Elena Ferrante e quer saber mais, um livro para compreender como as organizações criminosas funcionam e são mais resistentes que qualquer governo. Um livro que eu simplesmente recomendo a leitura.

Gomorra
Roberto Saviano
Tradução: Elaine Niccolai
Bertrand Brasil
2006 - 349 páginas