Mostrando postagens com marcador Romance. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romance. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Trópico da violência



Sinopse: Em Mayotte, ilha francesa no Oceano Índico, Moïse é um garoto com dois olhos de cores diferentes — marcado por ser um “filho do djinn”. Abandonado pelas dificuldades da migração, é adotado por Marie, uma enfermeira que o cria como se fosse seu filho, até que, na adolescência, ele se afasta, e ela morre repentinamente. Sem amparo, Moïse mergulha no mundo violento de um subúrbio conhecido como “Gaza”, onde cai sob a influência de Bruce, líder de gangue. A narrativa se desenrola de forma coral — contada por Marie, Moïse, Bruce, um policial e um educador — retratando abandono, identidade e violência juvenil em um contexto social marginalizado.



Em Outubro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora francesa Karine Tuil (Coisas humanas) o livro Trópico da violência da autora mauriciana-francesa Natacha Appanah. O mimo foi o livro ganhador do Prêmio Kindle chamado O ano do nirvana.

Marie é uma enfermeira branca francesa que se muda para a ilha francesa Mayotte após se casar com Chamsidine, um enfermeiro que nasceu na ilha.

A gravidez que não chega gera a quebra desta relação que resulta em separação, e quando ela não esperava mais nada, um bebê com olhos de cor diferente acaba em seus braços. E assim, Marie passa a ser mãe de Moïse, tentando oferecer tudo o que pode ao menino, que ao chegar na adolescência, se torna rebelde e começa a se encontrar com companhias não muito adequadas.

Têm que acreditar em mim. De onde lhes falo, as mentiras e os faz de conta não adiantam.


Mas antes que Marie possa fazer alguma coisa, ela morre devido a um aneurisma. Deixando o garoto de 13 anos perdido e sozinho. E essa solidão o empurra para "Gaza", o submundo da ilha Mayotte.

Lá ele recebe ordens de Bruce, um líder jovem que pode ser tão carismático quanto tirano com a gangue que comanda e com a população pobre que habita "Gaza".

Será que vê sua vida exposta diante dos olhos, será que se arrepende ou será que sua raiva está intacta?


Um assistente social chamado Stéphane até tenta apoiar Moïse através de velhos hábitos do jovem, mas nem ele, nem policiais como Olivier conseguem controlar a fúria que tem origem em uma realidade brutal, devido a esquecimento e abandono de uma parte da população.


A escrita de Natacha Appanah

A jornalista e escritora Natacha Appanah nasceu nas Ilhas Maurício, e sua descendência de imigrantes indianos esteve bastante presente em seus primeiros livros. Sua escrita objetiva e fluída envolve os leitores com os temas bastante fortes que costuma abordar.

Temas que normalmente a autora escreve utilizando-se de três eixos: o exílio que pode ser devido ao deslocamento ou o sentimento de não pertencer a lugar nenhum, a memória e destinos trágicos que podem vir da sociedade, da política ou da pobreza. Todos encontrados em Trópico da violência.

Estou aqui para acertar as contas. No meu bolso tenho uma faca e sei o que devo fazer.


Aliás, sua consagração veio justamente com Trópico da Violência, o livro lançado em 2016 ganhou vários prémios como o Prix Femina des Lycéens e o Prix France Télévisions.

Trópico da Violência tem uma estrutura polifônica com múltiplas vozes, possibilitando ao leitor ver cada evento por diferentes visões, incluindo de quem morreu. Sua narrativa também possui fluxo de consciência, onde as vozes dividem seus pensamentos sem filtros, tornando os sentimentos e as sensações mais reais.

Não posso ficar aqui indefinidamente. Não posso fazer nada por ele.


Tudo em uma escrita que pode ter momentos poéticos para em seguida alternar para diálogos mais secos e a descrição de situações de violência.

Tornando o livro que é relativamente curto, bastante intenso e impactante. Não sendo uma leitura de fácil esquecimento.


O que eu achei de Trópico da violência

Eu finalizei a leitura de Trópico da violência sem fôlego, como se tivesse corrido uma maratona de 5km no ritmo dos cem metros rasos.

O livro é curto, mas a história é muito intensa. A cada capítulo eu me sentia mais envolvida com os personagens, com os sentimentos alternando conforme a voz que eu encontrava.

Não tinha mais nada para fumar, mais nada para beber, mais nada para comer. Estava no chão, tinha a impressão de ter terra na boca.


Senti empatia pela busca da maternidade de Marie, um arrepio com a fase rebelde de Moïse e com Bruce senti a minha garganta sendo apertada pelas mãos da dona agonia.

Gostei também do deboche a hipocrisia, aqui na figura de Stéphane, o rapaz que sai da sua bolha para trabalhar em uma ONG como voluntário sem possuir nenhum conhecimento do que consome os que diz querer ajudar. E quando se depara com a realidade em um dos seus extremos, sente o medo percorrer a sua espinha e, como qualquer ser humano, deixa as ilusões caírem para autopreservação ao constatar que a "Gaza" que ele escolheu, pode ser tão perigosa quanto a original.

Será que ele queria me dizer alguma coisa Será que ele queria me pedir alguma coisa? E eu, o que fiz? Fugi como se tivesse visto o diabo.


E quando a violência explode, é Olivier que nos mostra os lados dos policiais comuns, suas aflições, dúvidas e tentativa de fazer o melhor dentro do pior cenário.

E a soma destes cinco personagens tão complexos com uma escrita objetiva e fluída me capturou, me fazendo torcer por melhores caminhos mesmo quando não havia uma luz no fim do túnel. 

Eu falava pouco, pensava pouco, fazia o que ele me mandava fazer porque entendi naquela semana que eu só era bom nisso.


Um livro para quem não tem medo de encarar as diferentes faces dos seres humanos, mesmo que o preço seja ter o estômago embrulhado por algumas cenas de violência. Para quem gosta de ver os diferentes lados de um mesmo lugar, onde a beleza e a monstruosidade dividem o mesmo ar. E claro, para quem gosta de ler.


Trópico da violência
Tropique de la violence
Natacha Appanah
Tradução: Lorena Figueiredo
TAG - Paris de Histórias
199 páginas - 2025
Publicado originalmente em 2016


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A era da inocência


Sinopse: Um clássico para devorar, A era da inocência é o livro que tornou a irreverente Edith Wharton a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção. A narrativa concentra as mais altas qualidades literárias da autora, que projetou um olhar crítico às entranhas de sua origem social na elite nova-iorquina do século 19. Do instigante triângulo amoroso atravessado por dinâmicas de poder e interesse, saltam questões que ressoam com leitores de todos os tempos, o dilema entre dever e desejo, os silêncios tácitos e a proteção das aparências na estrutura familiar burguesa, o papel social da mulher, a coragem de transgredi-lo e o sentido de uma existência plena.



Em setembro/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora brasileira Renata Belmonte (Mundos de uma noite só) A era da inocência da escritora norte americana Edith Wharton. O mimo foi um diário de leitura.

Na Nova York de 1870 existe uma bolha onde poucas famílias elitistas vivem em um círculo fechado, com valores tradicionais, convenções sociais e muita hipocrisia para ocultar atos e segredos.

Newland Archer é um desses aristocratas norte-americanos, um jovem advogado que namora May, também integrante de uma das famílias tradicionais, que é o retrato da beleza, inocência e tudo o que se espera de uma futura esposa.

Então a luz caiu sobre ele e, com ela, um ímpeto momentâneo de indignação.


O mundo de Archer treme com a chegada da prima de May, a Condessa Ellen Olenska, uma mulher que retorna da Europa após ousar se separar de um conde polonês que era abusivo. 

A liberdade e os desejos que ela inspira fazem com que o jovem Archer antecipe seu noivado e casamento com May. Mas o que era uma escapatória, acaba aproximando ainda mais da condessa, gerando em Archer a vontade de mudar o seu próprio mundo e se entregar em um novo relacionamento.


A escrita de Edith Wharton

A escritora e especialista em design de interiores e paisagismo Edith Wharton usou de seu privilégio para mostrar através da escrita todas as regras sociais e hipocrisia da era vitoriana e da era dourada. Ao receber uma educação que lhe deu domínio de outros idiomas além do inglês e da cultura europeia, foi impossível a jovem mulher não vivenciar conflitos entre o que o seu intelectual exigia e o que era pedido as mulheres da sociedade da elite de Nova York na época. Tendo a sua carreira reconhecida só após os seus quarentas anos.

Sua escrita é reconhecida pelas descrições detalhadas dos ambientes, o que transporta os seus leitores para cada local descrito, pela sua ironia e a complexidade psicológica de seus personagens. Entre os muitos livros publicados está o que a fez ser a primeira mulher a vencer o Prêmio Pulitzer de Ficção (1921), chamado de obra-prima a Era da inocência ou A época da inocência, foi publicado em 1920 e segue tendo uma história arrebatadora.

Todos nós temos nossa gente comum de estimação...


Por conhecer as regras do jogo, em à Era da inocência Edith Wharton utiliza uma paixão para de certa forma dissecar o funcionamento da elite de Nova York, apresentando não apenas as suas regras, mas o seu tribunal próprio, a ignorância forjada, a necessidade de manter as aparências, a covardia, as manipulações e os conflitos pessoais.

Narrado em terceira pessoa, a perspectiva está centralizada no personagem Newland Archer, cuja educação permite a escritora brincar com as diferenças entre o que se sente e pensa com o que se diz, tornando os conflitos internos tensos e aparentes apenas em gestos e comportamentos, já que palavras nunca devem ser ditas.

Sua própria exclamação "as mulheres devem ser livres... tão livres quanto nós", tocava na raiz de um problema que o mundo dele concordava em considerar inexistente. 


O fato da paixão ser apenas um recurso para demonstrar a rigidez da sociedade daquela época, existe uma lentidão nos acontecimentos, no mesmo ritmo das mudanças nos paradigmas que norteiam os personagens, em uma escrita de linguagem cuidadosa, onde cada detalhe é importante para se deixar envolver e adentrar em um mundo onde dedos não são diretamente apontados, mas os que não atendem o perfil são simplesmente julgados e excluídos.

E para quem preferir assistir ao filme primeiro, antes de entrar na história, Martin Scorsese fez a sua versão cinematográfica em 1993 com o título de A época da inocência.


O que eu achei de A era da inocência

A forma narrativa utilizada pela escritora Edith Wharton me transportou para os Estados Unidos dos anos de 1870. A riqueza dos detalhes permite ao leitor que se deixa envolver pelas páginas sentir os cheiros, as temperaturas, as texturas do que está na volta.

As personagens femininas transmitem pela sua personalidade as diferenças geracionais da época, o que envolve tradição, a bolha social e a coragem de se libertar de relacionamentos que não lhe fazem bem ou não agregam em nada.

A etiqueta exigia que ela esperasse, imóvel como um ídolo, enquanto os homens que desejavam conversar com ela se sucedessem ao seu lado.


No quesito relacionamento, a paixão fulminante de Archer ressuscita o eterno dilema do Se, e se ele não houvesse se assustado com a presença de uma mulher tão diferente? E se neste medo do desconhecido, ele não tivesse corrido tanto para antecipar o casamento com o que era seguro, mas não arrepiava sua pele nem tomava conta dos seus pensamentos?

O tipo de casamento que curiosamente segue atemporal, já que falamos de uma rotina que mata sonhos e tira vontades. Que faz engolir o orgulho a seco e aguentar humilhações com um suave sorriso no rosto. Assim como a construção de estranhas parcerias para manter as aparências dentro de um mundo fechado onde ninguém evolui.

Ele não se importava de ser irreverente em relação a Nova York, mas se incomodava ao ouvir qualquer pessoa assumir o mesmo tom,


Tornando cada personagem muito rico e complexo na forma como lidam com os seus sentimentos. Ao serem retratados de uma forma extremamente humana, seus dilemas e escolhas não possuem retorno, tornando-se parte da sua própria personalidade ao apresentar os caminhos que a porta escolhida abriu.

Ellen Olenska me conquistou pela coragem de enfrentar uma sociedade conservadora e não ceder aos seus pedidos. Ao mesmo tempo que ela transmite liberdade, ela também tem respeito pela prima May, apesar de todo o desejo que ela sente por Archer, ela consegue delimitar os próprios limites e não se prender a um amor dominado por incertezas.

Original! Nós somos tão iguais uns aos outros quanto aquelas bonecas cortadas da mesma pilha de papel.


Em relação a May, ela foi a personagem que mais me surpreendeu. Suas muitas camadas são desvendadas ao longo do livro, mostrando que ela também era forte, por mais que Archer e o leitor pensem o contrário.

Já Archer foi o personagem que me provocou um misto de sentimentos. Sendo o protagonista da história, algumas vezes me fez revirar os olhos, chamá-lo de idiota e mesmo assim, admirar a sua evolução durante a narrativa, o que me deixou de coração apertado ao chegar na última página.

A era da inocência pode agradar quem gosta de histórias de época, onde a sutileza da paixão é transmitida nos pequenos gestos com capacidade de gerar toda uma tensão em um parágrafo. Também irá agradar quem gosta de imergir nas páginas através de detalhes que te deslocam para outra época. E claro, também irá agradar aqueles que gostam de uma boa história.


A era da inocência
The age of innocence
Edith Wharton
Tradução: Isadora Sinay
TAG
316 páginas - 2025
Publicado originalmente em 1920.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Luzes do Sul




Sinopse: Depois do sucesso de A livraria mágica de Paris, O maravilhoso bistrô francês e O livro dos sonhos, Nina George nos presenteia com uma história mágica, encantadora e emocionante em Luzes do Sul, o “livro dentro do livro” A livraria mágica de Paris. Mais uma bela homenagem a livros e leitores.


No mesmo dia em que a Morte leva sua avó, a bebê Marie-Jeanne, que já era órfã de pai e mãe, toca o Amor em um momento que este está distraído. Um ato que mudara para sempre a vida da menina.

Ambientado nos anos de 1960 em Nyons no sul da França, Luzes do Sul conta a história de Marie-Jeanne Claudel, uma jovem com o poder de ver o amor literalmente, assim como as ligações das pessoas que combinam entre si, o que poderíamos talvez chamar de almas gêmeas. 

Houve anos em que duvidei de mim mesmo, do sentido e da força das minhas ações; foi aí que quase perdi as esperança.


Adotada por um comerciante e uma cozinheira, ela só irá descobrir o seu dom quando o seu pai monta uma biblioteca itinerante, chamada de Philis, cuja intenção é fazer com que livros cheguem aos moradores dos campos, que pela distância não possuem fácil acesso a biblioteca ou livrarias.

Ao ajudar o pai a percorrer diferentes caminhos e levar os livros onde até aquele momento eles não chegavam, ela irá conhecer outras pessoas, e assim, uma jornada de compartilhamento e descobertas se inicia.

O coração se parte, uma, duas vezes, repetidamente, e vocês se esforçam ao máximo para colar a xícara com cuidado, para viver as feridas, embelezá-las com esperança e lágrimas.


E ao mesmo tempo que Marie-Jeanne tenta descobrir como usar o seu dom, ela também precisa administrar as suas consequências.


A escrita de Nina George

A autora e jornalista alemã Nina George já publicou diversos romances, mistérios e também obras de não ficção. Sua obra mais conhecida é a Livraria mágica de Paris, traduzida em várias línguas, se tornou um best-seller.

Tem como característica nas suas narrativas abordar temas como amor, perda, autodescoberta e literatura. Tudo em uma escrita meio poética, meio intimista, que convida o leitor a se apaixonar pelos seus personagens e viver junto com eles cada página.

Nunca antes uma pessoa foi capaz de segurar o Amor. Muito menos me viu, meu ser, minha personalidade, meu rosto, minha forma.


No caso de Luzes do sul há um detalhe especial. Pois é o livro citado dentro da Livraria mágica de Paris e escrito com o pseudônimo de Sanary. Mas como ocorrem em outras obras de outros autores, este livro não existia na vida real.

E foi atendendo ao pedido de diversos leitores que Nina George tornou o livro real, com o nome dela como escritora, naturalmente. e tendo o Amor como o narrador onisciente da história, sendo responsável por mostrar o caminho a ser percorrido pelas páginas e as conexões.

Não são os livros o último lugar no planeta onde se encontram pessoas e épocas, paisagens e sentimentos que, de outra forma, raramente se encontrariam?


Por ser o amor, a narrativa acaba tendo um toque poético e também filosófico, já que as relações, principalmente as românticas, são bastante discutidas.

O realismo mágico também é utilizado para criar a atmosfera das conexões entre as pessoas, conexões essas que são enxergadas apenas pelo Amor e pela protagonista da história Marie-Jeanne.

A Paixão e o Medo olharam os livros em chamas, e neles havia um ar de submissão.


No geral é uma escrita bastante leve, que possibilita ao leitor refletir sobre os seus próprios sentimentos em relação as pessoas próximas e as suas atitudes.


O que eu achei de Luzes do Sul

Eu sou uma das fãs de Livraria mágica de Paris, a escrita e a história ganharam o meu coração e me fizeram procurar outros livros da autora.

Mas as Luzes do sul não me encantou tanto, o que me deixou em um primeiro momento um pouco triste, já que a minha expectativa era bastante alta.

A escrita nunca se mantém igual, ela é um reflexo da vida. Nossa escrita sofre conosco.


Narrado pelo Amor, a história começa triste e envolvente, mas com o tempo, as seções que vinham indicadas por uma mãozinha, me lembravam longas notas de rodapé.

E isso, para mim, tirou a fluidez da leitura. E mesmo quando explicava o passado, por irromper o presente muitas vezes, tornava a leitura, na minha opinião, um pouco mais arrastada, as vezes quase superficial.

Assim, os livros eram a última magia antiga: tornavam visíveis realidades ocultas.


Por outro lado, a ideia no geral é muito boa. Primeiro por tornar real o livro citado no maravilhoso A livraria mágica de Paris. Segundo, porque temos todos os tipos de amor romântico. O que não se permite expor, o jovem, o de espera, o após viver muitas coisas, e também o não amor.

Após o término, quando são incluídas partes escritas que ficaram fora da história, fiquei pensando se a narrativa não ganharia um plus a mais se outros narradores como lógica, coragem e destino não travassem discussões sobre os acontecimentos.

O brilho não fazia distinção entre quem era simpático ou antipático, bonito ou feio, bom ou mau. 


Eu finalizei a leitura com um misto de sentimentos e reflexões de como tenho lidado com o amor. E por isso deixo a recomendação aqui.


Luzes do Sul
Südlichter
Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora Record
2022 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2019


sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Os sofrimentos do jovem Werther



Sinopse: Os sofrimentos do Jovem Werther é definido como um marco na literatura alemã e mundial. Escrito em 1774, foi uma das obras que mais influenciaram os jovens do período. Marcada por uma narração densa, lírica e essencialmente psicológica, a personagem atormentada de Werther tornou-se um modelo de herói pré-romântico. A obra relata a paixão devastadora de Werther pela bela Lotte, com tom confessional e intimista, por meio de cartas, a história é comovente.



Logo de início o autor Johann Wolfgang von Goethe nos diz que coletou com afinco a história do pobre Werther, dando um ar de história real a narrativa que é quase toda contada por cartas do jovem Werther para o seu amigo Wilhelm.

Inicialmente sabemos que ele foi embora, se afastando não só do amigo e de sua mãe, como de uma jovem chamada Leonore que se apaixonou por ele, mas não era correspondida.

A maioria das pessoas trabalha a grande parte do tempo para viver, e o pouco de liberdade que lhes resta lhes aflige tanto que procuram todas as formas para se livrar dela.


Mas na nova cidade é ele, o jovem sensível e idealista, que mesmo tendo sido avisado que conheceria em um baile uma mulher que não poderia se encantar, se apaixona à primeira vista por Lotte, uma jovem bela que cuida de seus irmãos após a morte da mãe, e já comprometida com Albert. 

Aproveitando da ausência inicial de Albert, ele se torna amigo da família de Lotte, o que faz com que os seus sentimentos pela moça aumentarem e gerarem assim um embate entre a razão e a emoção, provocando assim uma grande angústia e o sofrimento indicado no título.

Portanto, aqui não se trata de alguém ser fraco ou forte, mas sim se é capaz de aguentar a dimensão da própria dor?


E tudo se intensifica ao conhecer Albert, um homem mais velho e calmo que o recebe amigavelmente, tornando a sua frustração ainda mais dolorosa.

Tornando a narrativa extremamente impactante para os jovens da época que o livro foi publicado, ao ponto que este clássico é considerado um marco do Romantismo.


A escrita de Johann Wolfgang von Goethe

J.W. Goethe foi um dos mais importantes escritores de língua alemã, sendo uma figura chave do movimento literário conhecido como Romantismo, embora sua obra abranja também o período do Iluminismo e o Classicismo de Weimar. Tendo influenciado diversos escritores e suas obras são lidas e estudadas até os dias atuais.

Em Os sofrimentos do jovem Werther o escritor optou pela narrativa em primeira pessoa através de cartas do personagem principal. Não há respostas do seu amigo Wilhelm, onde o seu retorno fica subentendido nas respostas posteriores do próprio Werther.

Todas as pessoas são decepcionadas por suas esperanças, enganadas por suas expectativas.


Com isso a escrita gira toda em torno do que Werther deseja revelar, alternando entre momentos de euforia e angustia, e como ele enxerga cada acontecimento. Deixando dúbio se a sua paixão proibida seria correspondida ou apenas um desejo seu.

E isso só é quebrado no final, quando uma narrativa em terceira pessoa compartilha com o leitor o caminho final da narrativa e o destino dos personagens.

Quantas vezes desejo rasgar o peito e esmigalhar minha cabeça, em vista do fato de que podemos ser tão pouco para alguém.


No formato, há muito sobre os sentimentos, mas também sobre os locais que ele frequenta, com bastante ênfase na natureza, como se elas pudessem refletir o estado de espírito do personagem. Há também uma mistura de proza e poesia para o compartilhamento dos pensamentos e emoções de Werther.


O que eu achei de Os sofrimentos do jovem Werther

Um livro relativamente curto, mas confesso que achei a escrita cansativa, difícil de engatar. Fiquei me perguntando se não sou uma pessoa romântica, já que a paixão platônica de Werther por Lotte, e as inúmeras descrições citando-a como perfeita me entediaram.

Mas não vamos exagerar, tive bons momentos acordada também. Achei muito interessante as diferenças de tratamento adotadas conforme a classe social das pessoas que ele interagia. Não apenas dele em relação aos outros, mas também da forma que ele era tratado por aqueles que se achavam superiores.

É esse o destino que o senhor fez para o ser humano, de só ser feliz antes de encontrar a razão, ou depois de perdê-la?


Há também críticas a burocracia do sistema governamental na forma de trabalhar, indicando que algumas coisas seguem persistindo após a passagem dos séculos.

Outra abordagem mais delicada que eu gostei é justamente a forma como foi tratada a depressão de Werther, que foi ainda mais acentuada pelo amor não respondido. A dificuldade que o personagem tem de lidar com as dores que afetam a sua alma e as frustrações normais da vida, os pedidos indiretos de ajuda que não encontram entendimento por quem lê a suas cartas, são para mim o que mais pode despertar eco nos jovens que se sentiam perdido no final dos anos de 1700, e também no tempo presente.

A cidade em si é desagradável, mas o seu entorno tem uma inexprimível beleza natural.


E teve um momento em que me indignou profundamente, quando Werther é notificado de uma tentativa de estupro realizada por uma pessoa que ele conhece, e ele começa a dissertar que a violência veio do amor não correspondido que o rapaz sente pela moça. Revelando de certa forma os seus próprios desejos.

Resumidamente achei o livro chato, mas também louco, e sim, bastante reflexivo sobre o comportamento e a mente humana. O que me faz deixar a dica de leitura para quem gosta de clássicos, de livros que abordam o lado psicológico das reações a frustrações, e claro, quem gosta de ler.


Os sofrimentos do jovem Werther
Die Leiden des jungen Werthers
J.W. Goethe
Tradução: Daniel Martineschen
TAG - Experiências Literárias
2022 - 143 páginas
Publicado originalmente em 1774


terça-feira, 1 de outubro de 2024

O labirinto dos espíritos



Sinopse: Em O labirinto dos espíritos, Zafón nos conduz ao emocionante desfecho da série que começou com A sombra do vento e impactou leitores por todo o mundo. Personagens novos e antigos povoam as páginas, se entrelaçando em uma despedida grandiosa.

O IV livro da série O cemitério dos livros esquecidos fecha essa tetralogia que mistura a história de Barcelona com uma homenagem aos escritores e livros.



Ele inicia em Madrid nos anos de 1950 e quem guia o leitor é Alicia Gris, uma jovem mulher que ainda na infância sobreviveu aos bombardeiros que arrasaram Barcelona durante a guerra e lhe deixaram dolorosas cicatrizes no corpo e na alma.

Ele fechou os olhos e, um segundo depois, emergiu na vida constatando que o simples ato de respirar era a experiência mais maravilhosa que tivera em toda a sua existência. 


Investigadora sagaz de uma equipe que trabalha nas sombras, ela recebe a missão de localizar o ministro Mauricio Valls, que desapareceu junto com o seu guarda-costas de confiança. As pistas a levam de volta para casa, isto é, Barcelona, onde ela vai se aproximar da família Sempere e reecontrar o homem que ajudou a salvar sua vida, Fermín Romero.

Na família, apesar da paz aparentemente reinar, Daniel não consegue ser totalmente feliz , o enigma de sua mãe Isabella é algo permanentemente presente em sua mente, algo que nem Bea nem Juliàn conseguem distraí-lo. E o fato de tentarem protege-lo o irrita ainda mais.

A caça, a caça de verdade, é um duelo entre iguais. A gente não sabe quem realmente é até derramar sangue.


E conforme as peças são encontradas por Alicia, mais fatos obscuros começam a vir à tona, e o conhecimento destes fatos se torna um fardo perigoso para os que carregam, recordando ao leitor o que realmente tornava a cidade sombria naquela época.

Com o retorno dos personagens dos três primeiros livros e a chegada de novos, a narrativa é um verdadeiro convite a desvendar em definitivo os enigmas tão bem distribuídos por Zafón, com suas alegrias e tristezas, podendo emocionar os fãs da série.


A escrita de Carlos Ruiz Zafón

Nascido em Barcelona, Carlos Ruiz Zafón foi um renomado escritor e roteirista. Conhecido por sua habilidade em misturar elementos de mistério e romance em suas obras de ficção gótica, ele ganhou destaque internacional justamente com seu romance A Sombra do Vento (2001), livro que abre a série O cemitério dos livros esquecidos.

Zafón faleceu em 2020 - o que aperta o meu coração até os dias de hoje, já que ele está na minha lista de autores favoritos -  e seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas, tendo vendido milhares de exemplares pelo mundo.

Uma lenda é uma mentira concebida para explicar uma verdade universal. Os lugares onde a mentira e a miragem envenenam a terra são particularmente férteis para o seu cultivo.


Especificamente sobre O labirinto dos espíritos, o escritor optou por uma narrativa em terceira pessoa, o que permite ao leitor uma visão ampla e detalhada dos personagens e da trama, além de sempre especificar em cada nova parte a cidade e o ano que os fatos estão ocorrendo. 

O livro é interligado com os outros volumes da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas como ocorre nos anteriores, é possível ler o mesmo de forma independente, mesmo eu considerando isso um pecado já que além dos personagens, são os detalhes que fortalecem os laços entre os quatro livros.

Acho surpreendente como sempre procuramos no presente ou no futuro as respostas que estão no passado.


Como ocorreu nos três livros anteriores da série, a narrativa fluída de Zafón se destaca pela sua riqueza descritiva e pela construção de uma atmosfera densa e envolvente, que faz o leitor caminhar por uma Barcelona sombria.

E isto é complementado ao alternar diferentes tempos e pontos de vista, permitindo que a história se desdobre de maneira complexa ao mesmo tempo que se aprofunda nos personagens principais, revelando aos poucos todos os segredos e mistérios que foram guardados ao longo dos quatro livros da trama.

Você decide se quer viver ou apodrecer pouco a pouco, como deixou acontecer com tantos inocentes.


Além disso a intertextualidade e as referências literárias utilizadas ao longo da história são marcantes, refletindo a paixão do escritor espanhol pela literatura e encantando a todos que se entregam a leitura desta série.

Tudo isso utilizando uma linguagem fluída, que convida virar mais uma página, ler mais um capítulo e se apaixonar pela série.


O que eu achei de O labirinto dos espíritos

Foi emocionante realizar a leitura de O labirinto dos espíritos, uma história que homenageia os escritores e os livros, fechando de forma redonda esta série que tanto adoro e fiquei com vontade de reler ao fechar a contracapa.

Como nos três primeiros livros, nos deparamos com a força da literatura em um período que escureceu a hoje iluminada Barcelona, tendo como base a história de um país e todas as injustiças que ocorreram durante a época retratada.

Antes de sair ainda deu uma última conferida no espelho do saguão e se aprovou. Você partiria o próprio coração, pensou. Se tivesse um.


Tornando o livro ao mesmo tempo maravilhoso e doloroso, pois enquanto reforça a importância da literatura, nos lembra da destruição que uma ditadura faz não apenas nos livros, mas também na vida das pessoas, principalmente das crianças atingidas diretamente, cujas vidas são alteradas de forma definitiva.

Gostei da ampliação de locais que a narrativa trouxe, incluindo Madrid e Paris no caminho de alguns personagens. E já me peguei pensando em retornar as cidades só para fazer o roteiro de O labirinto dos espíritos. Pois sim, eu fiquei tão fã de A sombra do vento que quando fui a cidade de Barcelona passei por diversos dos pontos citados no livro, incluindo a rua onde fica a Livraria Sempere.

Você não mente para as pessoas; elas sozinhas se mentem. Um bom mentiroso dá aos bobos o que eles querem ouvir. Esse é o segredo.


E amei que apesar dos livros se completarem de tal forma que não possuem uma ordem certa , O labirinto dos espíritos fecha todas as pontas que os três primeiros deixaram ao longo do caminho, não deixando o leitor com perguntas, tudo de uma forma natural e fluída.

Aliás, para quem já leu os livros da série, uma dica, o Epílogo de O prisioneiro do Céu é um gancho para O Labirinto dos Espíritos.

As pessoas são como marionetes ou brinquedos de corda, todas têm um mecanismo oculto que permite manipular seus fios e fazê-las ir na direção que se deseja.


Então sim, eu indico, recomendo e saliento: quem ama literatura, quem ama livros, precisa entrar neste Cemitério. A chance de você se apaixonar pela escrita do Zafón e se apegar a família Sempere é muito grande.


O labirinto dos espíritos
El Laberinto de los Espíritus
Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Ari Roitman e Paulina Watcht
SUMA
2017 - 679 páginas
Primeira versão publicada originalmente em 2016


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

A árvore mais triste o mundo



Sinopse: Neste romance arrebatador, Mariana Salomão Carrara — vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2023 — se reafirma como uma das escritoras mais talentosas da novíssima literatura brasileira. O centro da trama de A ÁRVORE MAIS SOZINHA DO MUNDO é ocupado por Guerlinda e Carlos, casal que vive com os filhos em uma pequena roça no Sul do Brasil e se dedica ao cultivo do tabaco. Na dura época da colheita, a mãe de Guerlinda é chamada para ajudar nos trabalhos, e sua chegada transforma os já desgastados contornos da rotina familiar.

No mês de julho/2024 a TAG completou uma década de história, e como de costume, foi a curadora na sua edição de aniversário. O livro escolhido para comemoração foi A árvore mais triste o mundo da escritora paulista Mariana Salomão Carrara. E o mimo foi super especial: uma coletânea inédita de contos de Franz Kafka.



O casal Guerlinda e Carlos vivem seus dias dedicados exclusivamente ao plantio de tabaco em uma cidade no interior do Rio Grande do Sul.

Contam com a ajuda integral da filha mais velha Alice, uma adolescente que não completou os estudos, e que no pouco tempo livre alimenta suas redes sociais e sonha em ganhar uma competição de beleza.

Excecionalmente, porém, gosto de dizer que reflito muito, reflito tudo, mas reflito muito sobre esta família, que é a família que eu tenho hoje e é a que posso refletir.


Maria, a filha do meio, ainda divide o seu tempo entre frequentar a escola e trabalhar na lavoura. A menina e sonha poder estudar mais para conseguir dar uma vida melhor a família.

Já Pedro, o caçula, é ainda um bebê que aprendeu cedo a importância de ser não tranquilo e quieto e não atrapalhar os pais.

Lavam os pratos em silêncio, que no fim de contas é o mais contagioso que há aqui, o silêncio, passa depressa de uns para os outros.


O casal precisa administrar os efeitos colaterais dos venenos utilizados em suas folhas de tabaco, as dividas enormes que não param de ser geradas pela empresa que compra o resultado da lavoura, a rebeldia da filha adolescente e a falta de dinheiro até para o básico.

Gerando a necessidade de solicitar a ajuda da mãe de Guerlinda no período da colheita, trazendo um novo olhar sobre a apatia de Carlos e as relações familiares.


A escrita de Mariana Salomão Carrara

Dividindo-se entre a defensoria pública e o mundo literário, a autora Mariana Salomão Carrara possui contos, poesias e romances publicados, sendo o último o objeto desta resenha.

Em A árvore mais triste o mundo a escritora separa a história em duas partes e utiliza-se de quatro narradores: a árvore que fica no pátio em frente à casa, o espelho português que fica na sala da família, uma roupa de proteção utilizada para passar o veneno nas plantas e a caminhonete rural da família.

No final sua vida seria melhor sem um espelho, mesmo tão linda, seria mais tranquilo ser como nós da natureza, a flor não sabe de si.


Cada um deles possui uma linguagem própria, e sua visão pessoal de cada integrante da família e de suas reações em relação a situações que eles enfrentam, narrando não apenas o presente como o passado, tudo em primeira pessoa. 

O espelho tem o sotaque e alguns termos da sua origem portuguesa, é o que compartilha os segredos da casa e muitas vezes imagina o que os moradores estão pensando. A caminhonete rural me lembrou o personagem Mate do filme carros pela forma de falar. Já a árvore me fez recordar o maravilhoso livro A ilha das árvores perdidas pela sua conexão com os humanos. E a roupa, com menor participação, é a mais neutra em relação a família, ficando mais focada no efeito que causa na pessoa que a está vestindo.

Mas os humanos me parece que têm uma coisa obscura, que é saber o que é certo, o que é melhor, mas fazer o contrário.


Uma curiosidade é a origem que deu a ideia para a escrita desta história: uma reportagem sobre a epidemia de suicídios em regiões produtoras de tabaco localizadas no sul do Brasil, citando entre as hipóteses os defensivos agrícolas e os grandes endividamentos enfrentados pelas famílias. 

Situação que agora ecoa entre as páginas e convida os leitores a mergulharem em um cenário tenso e complexo desconhecido por todos, deixando claro que os malefícios do tabaco não são exclusivos dos consumidores, mas que a produção de suas folhas também cobra um preço injusto para quem aceita ser fornecedor da matéria-prima.


O que eu achei de A árvore mais triste o mundo

Eu gostei de como a narrativa de A árvore mais triste o mundo foi construída. Na primeira parte temos o ciclo do plantio, onde narradores e personagens são apresentados, assim como a rotina extenuante e os sonhos, principalmente das meninas, como uma preparação para a segunda parte, onde o cansaço e as dívidas passam a gritar, assim como os sinais de depressão de Carlos.

E essa evolução bastante desesperançosa da história permite sentir e sofrer com a família, já subjugada a pobreza pelas empresas compradoras das folhas de tabaco.

Temos um impostor de olhos vazios, que além de tudo agora deixa as cabras livres para destruírem o tabaco com as suas tropelias.


Ao mesmo tempo se identifica facilmente a origem de como eles caíram na armadilha destas empresas, já que o casal não finalizou a escola e não raro assinam documentos enviados pela empresa sem entender na totalidade os efeitos. Deixando explícito a falta de escrúpulos das empresas, aumentando o meu desprezo por este produto que não tem absolutamente nada de bom.

Então não, não é um livro feliz, mas um livro que expõe uma realidade e nos coloca para acompanhar através de inusitados narradores que me provocaram diferentes sentimentos durante a leitura. 

Eles sabem tanto de amor. Era melhor saberem menos, assim acabavam logo comigo.


Como o livro se passa no RS, confesso que sendo gaúcha senti falta de alguns termos mais regionais, já que achei a forma de falar mais parecida com o interior do Paraná e de São Paulo, mas passada as primeiras páginas, este ligeiro incômodo foi passando, me permitindo mergulhar na leitura.

E assim deixo a dica para quem gosta de histórias inspiradas em fatos reais, de livros que compartilham realidades brasileiras, para quem não quer uma história leve e para os tradicionais ratinhos de biblioteca.


A árvore mais triste o mundo
Mariana Salomão Carrara
TAG - Todavia
2024 - 205 páginas


segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Disque T para titias



Sinopse: Um assassinato (acidental). Um casamento com dois mil convidados. Três gerações de uma família sino-indonésia nos Estados Unidos. E as tias mais intrometidas do mundo prontas para salvar o dia.

A mãe de Meddelin Chan deseja que a filha arrume um namorado, sem saber que a moça não esqueceu o grande amor que havia conhecido na universidade, e nunca apresentado para a família. 

Para resolver a questão, ela se cadastra em um aplicativo de encontros e se passando pela filha, marca um encontro as cegas. Mas a confusão com o idioma inglês faz com que as conversas não sejam nada inocentes. Quando a verdadeira Meddy é convencida a conhecer o pretendente, é assediada, e na tentativa de se defender, um acidente automotivo ocorre.

Mas a maldição não apenas as encontrou, como sofreu uma mutação. Em vez de matar os homens da família, fez com que eles as abandonassem, o que é muito pior.


Mas ao invés de chamar a polícia ou levar o cara para um hospital, ela liga para a mãe, que por consequência chama as suas tias. E assim as cinco que possuem a tarefa de organizar um grande casamento em um resort no dia seguinte, ganham a tarefa extra de se livrar de um corpo.

Mas ao chegar no local do casamento, ela se depara com o seu grande amor e um grupo de padrinhos e madrinhas um tanto agitados, tornando o seu dia longe de fácil.

Há barulho em todo canto, uma cacofonia de mandarim e cantonês.


Com isso uma sequência de cenas que vão do romântico, passando pelo total absurdo com pitadas engraçadinhas recheiam as páginas em um livro leve e de fácil leitura.


A escrita de Jesse Q. Sutanto

A escritora indonésia Jesse Q. Sutanto já informa nas páginas iniciais que o livro é uma carta de amor para a família dela, e conta brevemente a história de imigração que iniciou com os seus avós saindo da China e foi o princípio de uma confusão de idiomas de uma família trilíngue, representada pela personagem principal, sua mãe e suas tias no decorrer da história. 

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora nos coloca no olhar da personagem principal Maddelin Chain, ou simplesmente Meddy. Dividido em três partes, na primeira parte há um vai e vem entre passado e presente, até se estabelecer somente no tempo presente nos demais.

Ele abre aquele sorriso, aquele que quase faz seus olhos se fecharem. Aquele que me dá vontade de vomitar.


Usando de base um fato absurdo, Jesse Q. Sutanto compartilha através da sua história os laços familiares, sentimento de culpa que influenciavam nas decisões da personagem, o tratamento dado aos imigrantes, as diferenças culturais dando com pessoas externas ou dentro de casa, entre outros assuntos abordados.

E na sequência que mistura cenas que ficam entre o sem noção e absurdo com toque cômico, tornando o livro leve e fácil de percorrer suas páginas.


O que eu achei de Disque T para titias

Disque T para titias é uma comédia romântica com uma base inusitada, sendo que a parte do romance fica com a personagem principal Meddy reencontrando o seu ex-namorado e a comédia por conta da mãe e das tias. Do uso dos emojis as situações mais sem noção, existem momentos que é quase impossível não rir.

No geral achei um livro leve e despretensioso. Tem um momento de reflexão como quando aborda o preconceito por imigrantes (vocês são todos iguais), até chegar nos dilemas de quem deseja buscar a própria independência e ao mesmo tempo vive sob as asas da proteção familiar. Pois as vezes é mais fácil seguir ordens, mesmo tendo que conviver com a necessidade de aprovação constante. 

Minha mente está entrando em curto-circuito, tentando pensar em uma solução no meio dessa bagunça.


Além disso tem a utilização de estereótipos como o delegado típico de filmes americanos e o próprio noivo, ao qual o plot twist me pareceu meio estranho, mas nada tão estranho para se dizer que seria impossível de acontecer.

Mas definitivamente para mim as grandes estrelas são as mulheres da vida de Meddy, que se por um lado sentem saudades da presença próxima dos filhos, seguiram seu rumo após o divórcio e tocam seus próprios negócios com sucesso, sendo independentes financeiramente. 

Amo a minha mãe, mas também quero ter uma vida independente. Estremeço só de pensar nisso; parece muito uma traição.

Resumindo: um livro que combina com verão, férias, e para dar aquele descanso na mente entre leituras mais pesadas.


Disque T para titias
Dial A for Aunties
Jesse Q. Sutanto
Tradução: Luciana Dias e Maria Carmelita Dias
intrínseca
2022 - 347 páginas

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Tudo é rio



Sinopse: Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira. Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso. A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui – ora intensa, ora mais branda – de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.

Lucy era uma menina mimada pelos pais, desde pequena dominava e manipulava a todos, principalmente os adultos. Com a morte prematura de seus progenitores, se vê como uma gata borralheira vivendo com a tia e sua família. Até que no início da adolescência encontra a profissão que lhe dará independência e permitirá receber todos os elogios que sua beleza exige: resolve ser prostituta.

Venâncio é um homem amargurado. Teve uma infância difícil junto ao seu pai, que era machista e violento. Violência que encontra eco em Venâncio quando este encontra o amor e é correspondido. Dominado por um ciúme que cega, ele vive em eterno tormento e procura eventualmente os serviços do prostibulo próximo.


Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.


Dalva vem de uma família amorosa que fornece apoio aos seus filhos. A mãe é uma apaziguadora natural, que permite aos filhos viverem as consequências das suas escolhas. O pai trata a todos com carinho e tenta proteger a todos. Com os amigos sempre a volta, Dalva tem uma leveza e uma alegria, até se apaixonar por Venâncio.

E são os encontros e desencontros deste triângulo que está longe de ser amoroso que irão desaguar nas páginas de Tudo é Rio, um livro rápido e intenso de ler.


A escrita de Carla Madeira

A autora brasileira Carla Madeira utiliza a linguagem em terceira pessoa no seu Tudo é Rio. Os capítulos são curtos - um tem apenas uma palavra - e diretos, dando um ritmo rápido e intenso de leitura.

As informações e os personagens vão entrando aos poucos. Havendo um vai e vem do passado e presente para entender não só o crescimento e amadurecimento dos personagens, como os acontecimentos que os levaram até ali. E quanto mais você os conhece, mais fácil ou difícil fica de entender as escolhas do trio.


O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidade que cabem na ciência.


O rio aqui é uma metáfora justamente para este vai e vem. Em alguns momentos ele é mais profundo, outras mais raso, podendo ganhar rapidez nas descidas e um pouco de calma nas leves subidas, o que também permitiria lhe dar o nome de Tudo é Montanha Russa.


O que eu achei de Tudo é Rio

A primeira coisa é que educadamente discordo da escritora gaúcha Martha Medeiros que o chama de uma obra-prima. O livro é bom, mas como todo livro de estreia as referências gritam e sempre vai haver aquela questão que poderia ser melhor trabalhada.

Vou começar com a personagem Lucy, cujo início da história parece uma mistura de Cinderela e Bruna Surfistinha. A menina mimada pelos pais que se sente a gata borralheira ao ficar órfã e ter que morar com a tia, o tio e as duas primas. Sem conseguir manipular a tia, usa sua sexualidade natural para atender os desejos do seu ego e narcisismo. Pois sim, Lucy sente a necessidade de ser adorada, e as suas atitudes que podem parecer confiança e empoderamento para alguns me passou justamente o sentimento contrário, de uma pessoa insegura, carente e perdida.

Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desespero, nada por vir.

Já Venâncio é um homem atormentado pelas consequências de suas ações, ao qual frequentemente tenta terceirizar a sua culpa para a figura paterna. Em seu semblante o sofrimento pela esposa, que ama de forma desmedida, não o perdoar, transformando-o em uma espécie de zumbi. Curiosamente é essa postura de morto-vivo que encanta a prostituta Lucy, cuja obsessão por Venâncio só aumenta conforme ele a esnoba. Mas ao contrário de Lucy não achei a dor de Venâncio charmosa ou digna de pena, no mínimo caso de internação.

Deixei para o fim a personagem mais complexa na minha humilde opinião: Dalva. A personagem que despertou quase todas as minhas reações durante a leitura. A única que eu gostaria de estar dentro da mente para compreender seus atos. Como seguir morando com um homem que cometeu uma das ações mais imperdoáveis que um ser humano pode cometer? Sim, sua distância física e seu silêncio maltratam Venâncio, o homem que foi de seu grande amor a algoz. Mas porque optar por sobreviver e não recomeçar em outro lugar, longe de quem te entristece? Qual o motivo de não buscar segurança para viver novamente de forma plena? Amor doentio? Vingança?

Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe.


Enfim, Dalva foi a razão por eu finalizar o livro com raiva e achar que o triângulo seriam candidatos perfeitos para habitar algum sanatório, ou quem sabe a Casa Verde de O Alienista?

Como extra falo sobre Francisca e Aurora. Duas figuras com participações mais pontuais que despertam interesse pelas suas próprias histórias e suas formas de lidarem com diferentes fatos. Francisca se doa as pessoas, sua história de vida toca em meio à loucura dos três personagens principais. Já Aurora é aquela pessoa que transmite tranquilidade e otimismo, dando espaço aos filhos para cometerem seus acertos e erros. O que torna mais complicado de entender o comportamento de Dalva.

O imperdoável, o rompimento irreversível. Nada a ser dito. Uma espécie de morte.

Mas só o fato de despertar inúmeras reações, já fez a leitura valer, e sim, é um livro que pode provocar vários debates sobre as relações humanas e sociais, desde o machismo, passando por relações que ultrapassam a definição de amor, perdas, perdão entre outras pautas que você pode encontrar.

Ficando a dica para os leitores do blog que curtem conflitos familiares, cenas apimentadas e claro, adoram ler.


Tudo é rio
Carla Madeira
Editora Record
2023 - 209
Edição original de 2014.


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

A melhor história está por vir


Sinopse: Um furacão acaba de passar pela vida da professora espanhola Blanca Perea: o que parecia um casamento feliz de vinte anos termina bruscamente quando seu marido lhe abandona por uma mulher mais jovem, e logo ela é avisada de que, além da nova união, o novo casal também espera um filho. Incapaz de continuar vivendo do mesmo jeito enquanto seu coração está despedaçado, ela aceita uma proposta de emprego nos Estados Unidos para organizar os arquivos esquecidos do falecido professor Andrés Fontana. mais do que um recomeço, é a chance de Blanca se reencontrar, descobrir o que existe dentro de si e reconstruir sua felicidade. O trabalho, que no começo parece simples, se mostra cada vez mais suspeito e, entre documentos e novos colegas, como o charmoso Daniel Carter e o rígido diretor Luis Zárate, Blanca começa a perceber que algumas coisas não são esquecidas por acaso.

Escrito pela espanhola María Dueñas, a mesma autora de O Tempo Entre Costura, o título dado para a versão brasileira definitivamente não representa a narrativa. O título original de Misión Olvido representa muito melhor essa história que na verdade é três, já que podemos dizer que o livro é composto de três personagens principais.

Blanca Perea é uma professora universitária, na casa dos quarenta anos, com dois filhos iniciando a vida adulta, tentando administrar um divórcio recente após uma vida se colocando em segundo lugar para evolução profissional do marido. 

De qualquer maneira, antevia que meu trabalho não seria nem estimulante nem enriquecedor, mas, por ora, bastava-me ter conseguido, graças a ele, fugir da minha realidade com a pressa que do diabo fugindo da cruz. 


Precisando de um tempo, ela pede ajuda para uma transferência temporária. Entre as bolsas ainda disponíveis os destinos são Lituânia, Portugal e Estados Unidos. Em um primeiro momento ela cogita Portugal, onde ela estaria longe e perto ao mesmo tempo.

Enquanto decide o seu destino ela recebe mais uma notícia bomba, seu marido vai ser pai novamente, agora de uma menina. A menina que ele lhe negou tentar mesmo após inúmeros pedidos. E na necessidade de se afastar ainda mais, ela decide colocar um oceano de distância e pega uma bolsa na Califórnia.

Aquela pequena mudança de planos no calendário desviou irremediavelmente seu destino: por conta dos maus passes da história, nunca voltou.


O objeto da sua pesquisa é o professor espanhol Andrés Fontana, falecido em 1969, teve toda a sua documentação esquecida e armazenada de forma desorganizada em um porão da universidade.

Inicialmente o trabalho é feito de forma mecânica, mas logo a história que os inúmeros papeis escondem atraem a atenção de Blanca, fazendo com que ela dê a devida atenção ao homem que saiu da pobreza na Espanha e nunca mais voltou a ver os seus devido à guerra mundial e a ditadura que assolou o seu país.

Nessas circunstâncias, decidi comemorar a data, talvez para provar a mim mesma que a vida, apesar de tudo, seguia em frente.


Mas além da sua própria história, há os papeis falando das missões jesuíticas em território americano que despertam a atenção em outras pessoas. Principalmente as que lutam pela não instalação de um shopping em um agradável ponto da cidade de Santa Cecília.

Como o professor e escritor Daniel Carter, que além de estar na defesa do local foi um aluno orientado pelo próprio Andrés, tendo vivido as suas próprias aventuras na Espanha, as quais mudaram a sua vida para sempre.


A escrita de María Dueñas


A autora mescla narrativa em primeira e terceira pessoa, conforme o personagem escolhido para o capítulo. Por se tratar muito mais de passado do que presente, aos poucos ela vai nos revelando o cotidiano de Blanca, o caminho percorrido por Andrés e o motivo pelo interesse de Daniel nas missões tão pesquisadas pelo seu mestre.

E apesar da sinopse dar um ar de suspense, o mesmo não se reflete na escrita. Não há perigos físicos, apenas os mentais quando os personagens são obrigados a enfrentar os próprios fantasmas. Seja Blanca tendo que superar a própria mágoa com o fim de um relacionamento ao qual ela tanto se doou, seja Daniel tendo que abrir a sua própria caixa de pandora.

Uma vida que, de repente, quase de um dia para o outro, havia exigido que me reinventasse e começasse a dar voltas incertas.


Os personagens secundários complementam a história, como Rebecca que já passou pela mesma situação de Blanca e se torna sua primeira amiga nos Estados Unidos, a funcionária da universidade Fanny que foi recomendada por Andrés e vive com uma mãe amargurada, dona Antonia que recebe os jovens estudantes tão bem em sua casa na Espanha, a irmã de Blanca que quer ver fogo no parquinho e o diretor bonitão.

Como cenário há guerra, ditatura espanhola e os efeitos em sua sociedade enquanto os personagens vão construindo o que Blanca só irá descobrir anos depois, quando organizar os papeis de Andrés.


O que eu achei de A melhor história está por vir


Eu gostei muito do início da narrativa, a sequência de fatos que fazem Blanca trocar a Espanha pelos Estados Unidos para fugir de suas tristezas já mexeram comigo. Afinal, quantas pessoas já não desejaram pelo menos uma vez na vida deixar todos os problemas para trás e recomeçar do zero sem a sombra do passado? Mesmo que por um curto período de tempo.

E o livro captou de vez a minha atenção quando a vida do professor André Fontana passa a ser contada, aliás, o primeiro ponto negativo na leitura para mim foi parar de explorar a vida do personagem, que se apresentou tão rico e teve a sua narrativa interrompida do nada para entrar um terceiro personagem.

Mas atingir certa idade tem seu lado positivo. Você perde algumas coisas pelo caminho, mas ganha outras também. Aprende a ver o mundo de outra maneira, por exemplo, desenvolve sentimentos estranhos.


E quando a história passa a ser do Daniel Carter meu ritmo de leitura passou a diminuir, apesar de instigar a procura por uma conexão que vá além do fato de ele ser um aluno do Andrés enviado para a Espanha, tendo contato com pessoas do passado do professor, senti falta de mais exploração disso.

E não só dos contatos como do escritor que ele vai pesquisar, pois aqui, dando um spoiler - pule o parágrafo se não quiser nenhum - acaba sendo uma história de amor de início proibida que dá um toque de comédia na narrativa quando ganha apoio da missão americana em solo espanhol, mas ao mesmo tempo cansa um pouco, devido a pausa total que dá no restante da história.

Dizem que a compaixão é um sintoma de maturidade emocional; não é uma obrigação moral nem um sentimento que nasce da reflexão. 


O que me fez achar o tempo presente parecer um tanto superficial, ficando um tanto corrido e pouco explorado e as demais histórias com a sensação de que havia muito mais para ser explorado.

Mas no geral eu gostei, achei super interessante a questão das missões jesuíticas, que eu não tinha conhecimento nenhum, e me fez recordar as que temos no sul do Brasil e nos países vizinhos.

Ficando a dica para quem ficou curioso, gosta da escrita da autora, curte narrativas com fundo histórico ou simplesmente para quem gosta de ler.


A melhor história está por vir
Misión Olvido
María Dueñas
Tradução: Sandra Martha Dolinsky
Planeta - 352 páginas
Originalmente publicado em 2012


terça-feira, 29 de agosto de 2023

A Mulher do Século



Sinopse: Mame Dennis é uma mulher sofisticada e extravagante que, no final dos anos 1920, vive com ousadia e alheia ao que os outros pensam. Porém, quando seu irmão morre, ela se torna a guardiã legal do jovem sobrinho, o educado Patrick. Apesar do choque de temperamentos, pouco a pouco eles desenvolvem uma relação de carinho e amizade, enfrentando juntos não apenas as convenções sociais, mas também a Grande Depressão norte-americana.

No mês de Junho/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora italiana Ilaria Gaspari A Mulher do Século, do escritor americano Patrick Dennis/Edward Everett Tanner III. O mimo foi um jogo de cartas.

Em um dia de chuva o Patrick adulto se depara com uma antiga edição da revista Digest e um artigo escrito por um famoso escritor, que trata da personagem mais inesquecível que ele teria conhecido. Mas já nas primeiras linhas do texto o narrador tem despertado suas memórias com a pessoa mais inesquecível que surgiu em sua vida: tia Mame.

Personagem mais inesquecível? Faça-me o favor, esse escritor não faz a menor ideia do que está falando!


Tudo começa quando Patrick tinha 10 anos, órfã de mãe, o pai faz um testamento informando quem cuidara do menino e quem administrará suas finanças. Há uma série de condições, como o filho ser criado como protestante e ser enviado para escolas conservadoras.

A morte paterna não tarda a chegar e Patrick acompanhando pela empregada da família se vê arrumando as malas e indo para Nova York. Mas ao ir para a casa da tia então desconhecida, um novo mundo se abre para o menino, que passa a viver diferentes aventuras com uma mulher realmente a frente do seu tempo.

Mas Tia Mame não era de admitir derrotas. Existia nela um certo espírito insolente, típico de uma escoteira tagarela.


De escolas experimentais, passando pelo crash da bolsa que tornou milionários em pobres em poucos dias, casamento, ida para a universidade, guerra mundial, entre outros eventos, o narrador personagem traz além de uma comparação com a personagem inesquecível da revista a sua visão de por que sua tia é a mais única entre todas.

Tudo com uma ironia e excentricidade que podem arrancar boas gargalhadas e obrigar o leitor a concordar que tia Mame é sim uma personagem inesquecível.


A escrita de Patrick Dennis


A primeira pegadinha de A Mulher do Século está no nome do autor, que sim, é o mesmo do narrador personagem e um dos vários pseudônimos do autor norte-americano Edward Everett Tanner III, que foi um dos autores mais vendidos da metade do século 20 e chegou a ter três de seus livros de uma só vez na lista dos mais vendidos do New York Times.

Em A Mulher do Século a narrativa utilizada é em primeira pessoa, sendo o relato das memórias de Patrick Dennis em relação a várias etapas da sua vida, do final da infância até a vida adulta, sempre com a presença de sua Tia Mame.

Quando a Grande Depressão a atingiu, ela se jogou em muito mais carreiras do que a Personagem Inesquecível e, de um jeito ou de outro, ela também conseguiu nos salvar.


A escrita é uma mistura de ironia, deboche, drama e comédia. Gerando um livro leve e engraçado, ao mesmo tempo que crítico e reflexivo. Pois ele relata não apenas os momentos históricos das épocas vividas pelos personagens (como o crash da bolsa, a segunda grande guerra, a conquista da autonomia feminina, conflitos entre o norte e sul dos EUA, entre outros assuntos abordados) como também o estilo de vida da alta classe nova iorquina. 

Outro ponto interessante no livro é a sua divisão, ele é dividido em dez capítulos longos, mas muito redondos com início, meio e fim da memória contada. Se fosse transformado em uma minissérie, os capítulos já estariam previamente distribuídos. Aliás, a escrita de A Mulher do Século tem bem o estilo cinematográfico, sendo muito fácil ao leitor visualizar as cenas e entrar em sintonia com os diálogos.

Ela nunca revelava sua idade exata e, em um documento oficial, uma vez, escreveu "acima de vinte e um", o que ninguém pareceu se importar de questionar."


Aliás, A Mulher do Século já foi adaptado para o cinema - um dos filmes está disponível no Youtube para quem ficou curioso - como também peça teatral em um musical da Broadway.



O que eu achei de A Mulher do Século


Eu adorei a mistura de humor e crítica encarnada por uma mulher muito à frente do seu tempo - inclusive do nosso atual. Tia Mame é uma personagem que encanta e enlouquece as pessoas a sua volta, seja com o seu estilo de encarar a vida, seja pelo toque de sorte combinado com suas escolhas.

Em cada capítulo uma surpresa que podia ter um toque surreal, sem noção, superação ou tudo junto misturado. Em paralelo é muito bonita a forma como a tia e o sobrinho se conectam, apesar de personalidades tão diferentes, criando laços definitivos.

A carreira literária de Tia Mame surgiu mais como uma espécie de terapia, para tirá-la da depressão na qual ela havia mergulhado ao se tornar viúva.


Dei muita risada com a escola diferentona escolhida pela tia Mame para Patrick na infância e o desespero do Sr. Babcock - administrador da herança do menino - ao conhecer o local. O momento sogra sendo sogra se unindo a ex do filho Burnside, para separa-lo de Tia Mame me garantiram gargalhadas pelas situações inusitadas.

Mas também tive meu momento de agonia em um capítulo que Tia Mame resolve adotar órfãos de guerra e achei o capítulo das irmãs fantasmas - não, não tem fantasma na história, mas apelidei assim pelas irmãs andarem sempre de branco - o mais fraco. Mas não desnecessário, pois ele tem motivo para estar ali.

Quer dizer, existem certas coisas que você faz do jeito certo ou é melhor você nem fazer.


No geral eu adorei, me diverti e achei a leitura extremamente agradável. Me apaixonei pela Tia Mame, o que me faz recomendar e muito a leitura.


A Mulher do Século
Auntie Mame
Patrick Dennis / Edward Everett Tanner III
Tradução: Davi Boaventura
TAG - Dublinense
Edição 2023 - 352 páginas
Publicado originalmente em 1955

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A boneca de Kokoschka



Sinopse: Em uma Dresden devastada pelos bombardeios, Bonifaz Vogel esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. A partir daí, vão entrando em cena diversos personagens, incluindo Mathias Popa, autor de A boneca de Kokoschka, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka e da sua boneca, feita à imagem e semelhança da sua amada. E dessa singular galeria de vidas, Afonso Cruz compõe um irônico e magistral jogo de matrioskas, no qual a realidade se confunde com a ficção e cada história é ressignificada pelo olhar do outro.

Em meio a segunda guerra mundial, o jovem Isaac Dresner corre desesperadamente para salvar a sua vida. É na loja de pássaros onde seu pai havia construído uma cave que ele encontra a salvação ao se esconder no local. Um dia, passa a falar de seu esconderijo com Bonifaz Vogel, o dono do local, que curiosamente obedece a voz sem dono, gerando uma curiosa relação.

Com o fim da guerra, Isaak apesar de ser o mais jovem, adota Bonifaz, ao grupo se une Tsilia, que os encontrou por acaso na rua após fugir do local onde morava. Mudam de país para se reconstruir através da pintura e de uma livraria. E é o encanto de Isaak pelos livros que o faz cruzar com o escritor Mathias Popa.

Sabia que aquilo acontecia dentro da sua cabeça, mas tinha a estranha sensação de que as palavras vinham do soalho, passando-lhe pelos pés.


E este encontro irá gerar um livro dentro de um livro, onde o foco é Adele Varga, que após a guerra contrata um investigador para descobrir os mistérios que sua avó escondida. A chave de tudo é o autor que se torna personagem na própria história e transforma tudo em um jogo de espelho, quando as semelhanças entre a realidade da ficção de Afonso Cruz começam a ser refletida na ficção de Mathias Popa, e vice-versa.

E é neste romance também que o leitor irá encontrar a explicação do título, ou melhor, toda a origem da criação da boneca de Kokoschka.


A escrita de Afonso Cruz


A boneca de Kokoschka recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura em 2012, mas este não é o único motivo pelo qual o livro do escritor português Afonso Cruz merece ser lido.

Com uma escrita que mistura agilidade, reflexões, cenas fortes, toques cômicos e lirismo, ele divide a sua boneca de Kokoschka em três partes mais o romance de Mathias Popa. Sendo a primeira parte referente a guerra, a segunda parte com as memórias de Isaac - e por tabela de Bonifaz e Tsilia - e seu encontro com Popa, o livro de Popa e a última parte onde temos um novo personagem.

As pessoas diziam que ele era estúpido e ele concordava acenando com a cabeça e passando os dedos no queixo.


Os capítulos são curtos, rápidos, as vezes fortes, outras vezes objetivos e também há momentos em que se explica um pouco mais sobre os personagens. A narrativa em sua maioria está em terceira pessoa, havendo alguns momentos nas memórias e cartas que o autor utiliza a narrativa em primeira pessoa.

O resultado é um livro envolvente que exige atenção para não se perder nos acontecimentos e reviravolta, pois se o início da história parece mais simples, no decorrer das páginas ela vai ganhar uma complexidade que não permite devaneios entre os parágrafos.

 

O que eu achei de A boneca de Kokoschka


O livro tem logo de início a cena mais emblemática para mim, Isaac Dresner brincando com um amigo vê o mesmo ser baleado na cabeça por um soldado alemão, e quando o garoto vai ao chão, a sua cabeça cai justamente no pé direito de Isaac. O peso da cena trágica o acompanhará para sempre, já que ele passa a coxear ligeiramente na perna direita, carregando eternamente os efeitos de uma guerra.

Já para o final achei surpreendente o cuidado pelos detalhes da obra de Mathias Popa, já que o livro dentro do livro é completo, com direito a capa, capítulos e apresentação do autor. E claro, o nome da editora do Isaac.

E, se o que é harmonioso e proporcional é fácil de reconhecer, donde vem essa atroz desproporção que vemos no mundo?


E apesar de ter sentido um certo estranhamento e perdido um pouco do meu ritmo de leitura quando comecei a ler o livro dentro do livro, no geral eu gostei bastante da obra.

Principalmente da primeira parte que eu achei triste e ao mesmo tempo formidável o fato do menino se comunicar pelo chão e o senhor simplesmente obedecer a aquela voz. O cuidado do menino que passou a auxiliar até nos negócios da loja e no fim da guerra se sentia pai de quem o ajudou sobreviver.

É assim o nosso destino, fazemos curvas e parábolas para que ele se cumpra com perfeição.


Pois existe muita humanidade entre os personagens, no auxilio mútuo e em suas buscas após anos de muitas perdas, e na eternização da memória através das histórias.  

Um livro que me chamou a atenção pelo resumo e não decepcionou, ficando aqui a minha recomendação de leitura.


A boneca de Kokoschka
Afonso Cruz
Editora Dublinense
Edição em Português de 2021
2010 - 288 páginas

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente



Sinopse: Mude-se para a cidade grande. Consiga um diploma. Não se apaixone. Evite os idealistas. Aprenda com um mestre. Trabalhe para si mesmo. Esteja preparado para fazer uso da violência. Faça amizade com um burocrata. Patrocine os artistas da guerra. Faça malabarismo com as dívidas. Concentre-se no essencial. Planeje uma estratégia de fuga. Qualquer semelhança deste livro com manuais de autoajuda não é mera coincidência.

No mês de Abril/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria mais uma indicação do escritor João Anzanello Carrascoza - que já havia sido o curador do ótimo A Velocidade da Luz -, que indicou um livro cuja ironia já começa no título: Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente do autor paquistanês Mohsin Hamid. O mimo foi um pacote de sal temperado da Black Flag que eu adorei, pois também curto muito cozinhar.

Em um lugar fictício, que poderia ser no Paquistão, na Índia, na África ou na América Latina, os personagens não possuem nome. É o pai, a mãe, o irmão da esposa, ou outro substantivo que substitui uma identificação formal.

Olha, um livro de autoajuda é um oximoro, a menos que você seja o autor dele.


É através do personagem principal e da nomeada menina bonita que o leitor acompanha décadas da vida dos dois. Do abandono do meio rural ainda na infância, a luta pela ascensão social durante a juventude e as oportunidades de sucesso que colocam em xeque qualquer ética na vida adulta, e uma grande história de amor que ultrapassa os anos seja próximo ou só na memória sem ser nunca esquecida ou reduzida.

Tudo acompanhado pelos conselhos com tom de autoajuda, que nada são que uma crítica a forma como ocorre o desenvolvimento em locais onde riqueza e miséria disputam espaço e recursos, onde os vencedores são conhecidos antes da queda de braço começar.


A escrita de Mohsin Hamid

Utilizando uma narrativa em segunda pessoa, o autor Mohsin Hamid transforma o leitor em seu personagem principal, usando uma linguagem que o coloca dentro da história, enquanto conta tudo o que “você” fez, viveu e viu em cada capítulo.

E é em uma zona rural você vai ver a sua avó paterna eternamente avaliando a sua mãe, assim como seus pais tendo momentos íntimos na única peça da casa. Vivenciará o êxodo rural como uma busca por uma melhor forma de se viver e encontrará na cidade o seu primeiro e grande amor, também irá ser o primeiro da sua família a conseguir ir para uma universidade e se sentira coagido por um determinado grupo. Até ter uma ideia e conseguir ir melhorando de vida nesta Ásia Emergente que nos é apresentada.

Na verdade, todos os livros, todo e qualquer livro já escrito poderia ser oferecido ao leitor como uma forma de autoajuda.


Dividido em doze capítulos cujos nomes já dão uma pista do que será abordado, o livro consegue costurar uma história de amor justamente com o crescimento das grandes cidades, onde a busca constante em fugir da miséria leva ao comodismo ou ao vale-tudo, conforme a personalidade de quem está no caminho e ao momento da vida.


O que eu achei de Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente

Como viver eternamente apaixonado pela mesma mulher na Ásia Emergente, este seria o título que eu daria, caso tivesse o poder de escolha. Pois na minha opinião este é o primeiro foco do livro: o grande amor que o personagem principal nutri pela menina bonita e ao qual é correspondido, mas vivido plenamente só em alguns momentos, entre as pausas que eles fazem na corrida por seus sonhos.

Triste? Capitalismo selvagem? Talvez sim, talvez não, mas como não dá para viver de amor, talvez esse seja o segredo de torna-lo tão forte e resistente ao tempo. Pois ao fugir da miséria, essa também não consegue corroer a relação.

Sim, a busca do amor e da riqueza têm muito em comum. Ambas têm o potencial de inspirar, motivar, entusiasmar e matar.


O segundo foco do livro é a sobrevivência em meio a pobreza. Sem usar nomes para seus personagens ou cidades, a busca constante por um crescimento financeiro poderia ser em qualquer país de terceiro mundo, incluindo o Brasil - apesar de hoje ser definido como em desenvolvimento. Pois não há uma presença forte da parte cultural ou religiosa que me tenha colocado dentro de um lugar específico.

Sobre a brincadeira com os livros de autoajuda, sou obrigada a confessar que não me ajudaram a engatar na leitura, apesar do romance não ter nem duzentas páginas. Com exceção dos capítulos iniciais e finais, ele não me conquistou. Me fazendo levar um tempo considerável para completar a leitura, já que raramente me animava a ler dois capítulos ou mais por dia.

O que vale para os livros de autoajuda vale também, inevitavelmente, para pessoas.


Isso significa que eu achei ruim? De forma alguma, achei a história de amor bonita e a forma como se tem uma visão completa da vida do personagem interessante. Mas em alguns momentos achei um pouco superficial, pois apesar do narrador falar diretamente comigo, eu não conseguia me integrar completamente na pele do personagem.

Mas no futuro penso em reler, pois muitas vezes mudamos a nossa visão com a passagem do tempo. Fora que a edição da TAG ficou belíssima, eu me apaixonei pelo kit no geral.

Muitas habilidades, como todo empreendedor de sucesso sabe, não têm como ser ensinadas na escola. Elas exigem prática. Às vezes, uma vida inteira de prática.


Ficando a dica para quem gosta de narrativas diferentes, curte um romance de formação, não resiste a histórias de amor, ou simplesmente quer ler. E se depois quiser compartilhar as suas impressões, quem sabe você tenha alguma observação que me faça mudar o olhar.


Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente
How to Get Filthy in Rising Asia
Mohsin Hamid
Tradução: Sonia Moreira
TAG - Companhia das Letras
2013 - 175 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.
Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.