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quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A outra volta do parafuso



Sinopse: A outra volta do parafuso conta a história da jovem filha de um pároco que, iniciando-se na carreira de professora, aceita mudar-se para a propriedade de Bly, em Essex, arredores de Londres. Seu patrão é tio e tutor de duas crianças, Flora e Miles, cujos pais morreram na Índia, e deseja que a narradora (que não é nomeada) seja a governanta da casa de Bly. Ao chegar a Essex, a jovem logo percebe que duas aparições, atribuídas a antigos criados já mortos, assombram a casa. O triunfo íntimo da protagonista, mais que desvendar o mistério de Bly, consiste em vencer o silêncio imposto pela diferença de condição social entre ela e seus pequenos alunos.

No mês de Outubro/2023 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do tradutor Caetano W. Galindo, que também fez a Apresentação do livro ao qual é realmente fã: A outra volta do parafuso do escritor americano Henry James. O mimo foi do tipo que eu adoro: uma coletânea de Contos de horror da América Latina.

Em uma véspera de Natal um grupo resolve trocar histórias ao redor da lareira. Quando Douglas resolve dizer que na noite seguinte iria compartilhar a história real escrita por uma governanta já falecida, uma mulher mais velha do que ele ao qual o encantou com sua presença e sua história.

Imagino que eu estivesse esperando, ou temendo, algo tão sombrio que o que me recebia era uma boa surpresa.


Uma moça de vinte anos cujo nome não é revelado, é contratada como governanta por um tutor, que deseja terceirizar a criação de seu casal de sobrinhos pequenos. A menina vivia em uma casa de campo na cidade de Bly, próxima a Londres - e o menino se dividia entre a escola e o lugar onde a irmã vivia.

E é para esta casa de campo que a nova governanta vai e se encanta com as crianças quase da mesma fora que se encantou com o tio. Mas a revelação da acontecimentos anteriores fazem com que ela passe a enxergar figuras misteriosas e se sentir dividida entre proteger os irmãos e achar que as crianças estão envolvidas com o mistério que os cerca.


A escrita de Henry James

O escritor norte-americano Henry James coloca o leitor dentro da mente da jovem governanta de Bly em uma narrativa em primeira pessoa. Mas já na introdução do que será contado se cria um clima de suspense, cuja manipulação psicológica irá aumentar no decorrer da leitura.

Pois a história que já gerou uma série de adaptações como Os inocentes, Os outros e a mais recente A maldição da mansão Bly, realmente mexe com a imaginação do leitor, já que a ambiguidade da narrativa abre um leque de possibilidades que podem ser interpretadas conforme as crenças de quem mergulha em suas páginas.

Se tinha me encarado de maneira tão ousada, era por sua indiscrição. A parte boa, ao fim e ao cabo, era que certamente não o veríamos mais.


O que torna A outra volta do parafuso ainda mais genial, levando em conta que a história é relativamente curta, mas com um nível de tensão e reflexão suficientes para várias discussões, que vão do abandono infantil, passando por repressão sexual, reação ao isolamento, fofocas no ambiente de trabalho, diferenças sociais, e claro, será fantasma ou será loucura?


O que eu achei de A outra volta do parafuso

Ambíguo. Já faz um tempo que eu finalizei a leitura e ainda não tenho uma certeza absoluta sobre o que realmente ocorreu no livro. Naturalmente formulei as minhas próprias teorias, mas definitivamente A outra volta do parafuso não te permite ter certezas sobre os acontecimentos.

Quando a jovem é enviada para o local isolado, em um primeiro momento ela projeta a perfeição nas crianças, a ponto de não investigar a recente expulsão do menino da escola. Logo ela cria laços com outra funcionária do local, a sra. Grose, mas como leitora, não sabia o que ela realmente dizia, concordava ou muito menos pensava.

Era uma pergunta bastante direta, mas nossas conversas não eram levianas, e a luz cinza da alvorada forçando a nossa separação conseguiu-me uma resposta.


Conforme ela enxerga os dois ex-funcionários do local, que estão mortos, surgem dúvidas de como ela sabe as características dos dois? A sra. Grose realmente confirma as descrições? Ou seriam características genéricas da época? Ficando a pergunta: estamos realmente nos deparando com fantasmas?

Mas a forma como a narrativa foi construída não me deu medo. Não achei que os momentos das aparições causassem tensão, até pela forma forte e corajosa da governanta encarar as aparições. O verdadeiro charme e suspense da leitura está nos pontos de interrogação que se espalham ao longo da trama. Não é por acaso que já foram gerados diversos filmes inspirados no livro em que cada um deu a sua própria versão.

Era o silêncio mortal de nosso longo olhar em tamanha proximidade que dava àquele horror, imenso como era, sua única nota sobrenatural.


Particularmente no que se refere a terror, o texto introdutório promete mais do que entrega. Por que o livro está mais para um suspense psicológico, onde o estilo da narrativa não permite ao leitor ter a visão dos demais personagens, enquanto a narradora tenta se vender como confiável o tempo inteiro. E o leitor fica sem saber se deve acreditar ou não. E assim temos um novo ponto de interrogação: são fantasmas ou a personagem está enlouquecendo neste lugar isolado?

Um livro para quem não deseja respostas, mas sim perguntas. Para quem não se irrita em não receber tudo pronto e gosta de criar as próprias teorias. Um livro, como disse o curador, para reler e identificar mais detalhes, para ver se as próprias conclusões se mantêm ou se alteram no decorrer do tempo.


A outra volta do parafuso
The turn of the screw
Henry James
Tradução Lígia Azevedo
TAG Experiências Literárias
2023 - 157 páginas
Publicado originalmente em 1898


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Uma tristeza infinita



Sinopse: Após o fim da Segunda Guerra Mundial, um jovem psiquiatra francês é convidado a trabalhar num isolado hospital suíço, mudando drasticamente de vida. Entretanto, nem assim ele consegue fazer as pazes com os próprios fantasmas. Por meio das conversas com os pacientes, o médico começa a explorar as fronteiras da loucura - e seus próprios limites. Em uma narrativa introspectiva e brutal, Antônio Xerxenesky nos faz encarar os traumas do passado, assim como o atávico medo do futuro.

No ano de 1952, quando o mundo, principalmente a Europa, tenta juntar os seus cacos para retornar ao ritmo de vida normal, o jovem psiquiatra Nicolas se muda junto com sua esposa Anna para uma pequena vila nas montanhas suíças.

O motivo é um hospital psiquiátrico que recebe pessoas traumatizadas com o fascismo, com os traumas da guerra e sentimento de culpa em relação ao seu papel durante todos os últimos anos. O diferencial do lugar é de tentar evitar ao máximo tratar os seus pacientes com tratamentos que mais lembram tortura, como o eletrochoque, estando de acordo com a linha de pensamento de Nicolas, que acredita no poder da psicanálise.


Enquanto a paisagem transmitia imobilidade, os ruídos apontavam para um movimento incessante.


Entre os internados que são encaminhados a Nicolas estão um homem que serviu na Normandia e fala o mínimo possível e já tentou o suicídio usando uma de suas medalhas de guerra. Já Mary vive em melancolia, rói as unhas e não consegue dormir, uma mulher que trabalhou em Los Alamos e agora sonha com as vítimas que as bombas atômicas atingiram.

Mas também Nicolas apresenta sinais de melancolia, e ao repassar os seus últimos anos nem sempre se sente à vontade. A soma de tudo faz o ambiente ficar ainda mais pesado e assim Anna arruma um emprego em Genebra, para ter um pouco de alívio e ao mesmo tempo conciliar o seu casamento.


É física. Essa tristeza. É insuportável. Não aguento mais. Eu só preciso da sua ajuda.


Os personagens

O casal Nicolas e Anna são o centro da narrativa, mas é através deles que entramos em contato com diferentes pacientes, médicos, enfermeiras e moradores da região.

E isso é o bacana, ao mesmo tempo que eles abrem a janela para discussões interessantes sobre ciência, religião, psiquiatria, melancolia, depressão, histeria e culpa, ambos são muito humanos.


Seria a melancolia também contagiosa, transmissível como o vírus da gripe?


Sendo muito fácil observar como Anna tenta equilibrar os maus momentos de Nicolas, que não são novidades em sua vida, ao mesmo tempo que busca algo que a impulsione e não o faça abandonar. Ao dedicar-se para a sua carreira, ela diretamente se dedica ao próprio relacionamento, não deixando espaço para que a melancolia também a invada.

Já Nicolas vive com sombras do passado, em alguns momentos questionando a sua sorte, por ter passado ileso durante os anos mais críticos da guerra. Assim como é curioso ele se ver nas descrições dos próprios pacientes, absorvendo e vivendo as suas próprias visões. Sendo nítido que ele também precisava de alguém profissional para conversar, já que é muito mais fácil ter uma visão de fora do que quando se está no centro dos acontecimentos.


A sua má vontade com a ciência é chocante para um suposto homem de ciência.


A escrita de Antônio Xerxenesky

Usando a narrativa em terceira pessoa Antônio Xerxenesky coloca o leitor lado a lado na vida de Nicolas, acompanhando toda a sua rotina e pensamentos sem que o mesmo se sinta distante dos personagens.

A escolha do período do inverno em um lugar distante, onde a civilização parece estar a quilômetros e os atrativos são mínimos, combinam com a alma dos pacientes, que em muitos momentos se entregam totalmente nos braços de suas próprias tristezas.


Não era absurdo pensar que nunca seriam felizes de novo daquela maneira.


Tristezas que encontram eco no psiquiatra Nicolas, cujos sentimentos e dúvidas não são estranhas para quem já se interessou pelos mistérios da mente ou para quem compartilha, seja convivendo ou vivendo, esta mistura de medo e busca constante por si mesmo.

Além disso, ele trata de uma forma muito gentil as questões éticas do pós-guerra, como aceitar ou não pessoas simpatizantes do nazismo e do fascismo, quanto há médicos judeus e outros que não conseguem se imaginar ajudando quem ajudou a matar muitas pessoas – as vezes da sua própria família - sem um pingo de humanidade.


Depois de ver a maldade humana expor seu rosto de um jeito tão escancarado, me parece quase impossível retornar a qualquer espécie de normalidade.


O que eu achei....

Eu que não conhecia o escritor, que por sinal é meu conterrâneo, gostei muito deste primeiro contato com a sua escrita, que é fluída mesmo com todo peso melancólico que as palavras carregam entre as páginas.

A melancolia está no título, na clínica, nos pacientes, na casa do Nicolas, no atalho pela floresta, no pequeno bar e as vezes parecia transpassar as páginas e apertar o meu peito, sentindo um pouco da mesma dor.


Ele era um receptáculo para ideias radicais, como todo jovem que se depara com um mentor disposto a se aproveitar da imaturidade alheia.


O que também achei interessante é que o livro traz inúmeras referências da psiquiatria, matemática, física e literatura, sem ficar pedante ou chato. Existe um fluxo natural na existência deles, principalmente nos diálogos, ao qual me peguei ora curiosa ora surpreendida com algumas das colocações.

Um livro que pode mexer com os mais sensíveis, principalmente neste período tão difícil, ao mesmo tempo que pode nos ajudar a refletir sobre o que realmente incomoda.


Por que era tão difícil se levantar, começar o dia? O que havia de tão apavorante fora daquele quarto?


Ficando a dica para quem curte ficções com psicanálise, que envolvem o pós guerra, ou que simplesmente querem ter uma visão diferente das reações causadas pela melancolia. E claro, para quem gosta de ler.


Uma tristeza infinita
Antônio Xerxenesky
Companhia das Letras
2021 - 250 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 6 de julho de 2021

O Pássaro Secreto


Sinopse: Vencedor do Prêmio Kindle 2021, O pássaro secreto, de Marília Arnaud, apresenta a história de Aglaia Negromonte. Possuída por algo que lhe rasga o peito, sua vida toma rumos inesperados quando o grande segredo do pai, a existência de uma filha fora do casamento, é relevado à família. Afinal, como seguir adiante quando toda a sua vida parece uma mentira e vai sendo, pouco a pouco, tomada por uma intrusa?

Recebi no mês de maio/21 da minha assinatura da TAG Curadoria o livro O pássaro secreto da escritora paraibana Marília Arnaud. O mimo foi um livro de contos chamado Partes de uma casa.

A personagem principal e narradora é Aglaia, filha de um ator e uma professora universitária, ela tem dois irmãos mais novos e inúmeros problemas, como bulimia e uma tendência a violência quando as coisas não estão do jeito esperado.


Talvez exista um lugar de onde não se pode mais retornar, onde a vida não pode ser restituída.


É uma menina que se descreve como gorda, que diz comer tudo o que vê, em qualquer horário, e que também vomita o que foi ingerido. O que gera a primeira dúvida em relação a  personagem, se ela realmente era gorda e sofria bullying por isso ou se ela tem distorção de imagem e afasta os demais por sua arrogância.

Arrogância por não se privar de tentar mostrar que sabe mais do que todos os colegas e professores, somente pelo fato de ter lido obras que a princípio não seriam para a sua idade. Aliás, suas longas listas de livros a tornam um tanto pedante, lembrando aqueles leitores intelectuais que torcem o nariz para determinados livros e só consideram de mesmo nível quem leu determinados clássicos. 


Gigante cego, esmagava quem se pudesse no seu caminho, quem atravessasse à sua frente.


Observa-se também que ela tem uma grande necessidade de chamar a atenção de seu pai, ao qual parece alimentar um complexo de Electra, principalmente ao cobrar reações de sua mãe em relação ao comportamento do marido, sua tristeza e perdão são considerados fraqueza pela filha mais velha.

O copo emocional da personagem transborda ao descobrir que tem uma irmã mais velha morando na França. Filha de seu pai com uma atriz francesa, a jovem ficou órfã e irá morar junto com a família. A menina é descrita como uma perfeição, parecendo centralizar todos os afetos de Aglaia, onde inclui sua amada avó e o seu amor platônico.


Diferenças eram diferenças, e pior sorte tinha quem as carregasse.


O acolhimento e afeto por todos os integrantes da família com a recém chegada desperta as atitudes mais absurdas em Aglaia, aos quais ela se refere como impulsionados por uma coisa, o pássaro secreto do título. Onde nem psiquiatras nem os remédios conseguem trazer um ponto de equilíbrio, até pelo fato de ela não ser sincera com eles.

O Pássaro Secreto de Marília Arnaud tem como curiosidade as diferentes formas como a leitura pode ser realizada. Apesar do livro possuir os capítulos sequenciados, na verdade ele pode ser lido de duas maneiras distintas, página após página ou separando os capítulos ímpares dos pares, já que apesar da personagem ser a mesma, eles não ocorrem ao mesmo tempo. 


Uma das lembranças mais nítidas que guardo da minha infância é a sensação do aconchego do seu corpo, do cheiro da sua pele, do calor da voz.


Com isso os capítulos impares são mais curtos e diretos, e os pares mais longos, onde a personagem conta todos os fatos pelo seu olhar. Aqui confesso que senti necessidade de um segundo narrador, visto que como a própria personagem se define como mentirosa, não é possível distinguir o que é verdade e o que é imaginação.

E isso é fortemente indicado pela sua identificação com o personagem Iago, da peça Otelo do escritor inglês Shakespeare, cujas características são associadas a intriga e manipulação dos que estão ao redor. Algo que a personagem não consegue em seu núcleo familiar e que me fez pensar pela reação dos seus dois irmãos mais novos - que muito pouco aparecem na história - o que ela já havia feito a eles.


Descobri que as histórias mais perturbadoras contadas em livros não são mais perturbadoras do que a realidade, com sua fome de vida e de morte.


Uma curiosidade são os nomes das três irmãs, escolhidos pelo pai, elas representam as Três Graças da mitologia Grega, sendo Tália (a irmã que chega) a que faz brotar flores, Eufrosine (a caçula) o sentido da alegria e Aglaia (a narradora) a claridade. No caso de Aglaia, o significado dá um tom a mais para ela não se identificar com o nome, já que ela tende mais a escuridão.

Para quem adora encontrar referências de outras obras, como não poderia deixar de ser com uma narradora tão ligada a livros, eles estão presente por quase toda obra, as vezes até de uma forma um tanto exagerada, na minha humilde opinião, o que algumas vezes me passou uma ideia de bengala, já que na história em si não agregava muito.


A vida me empurrou para a escuridão ou eu nasci com a escuridão dentro de mim?


Ao mesmo tempo é possível se recordar de algumas leituras no decorrer das páginas, o choro de Aglaia ao nascer me lembrou muito a personagem Tita de Como água para chocolate da escritora Laura Esquivel , ao relacionar as lágrimas como prenuncio do que enfrentaria no futuro. No caso de Tita, o futuro egoísta definido por sua mãe mais do que justificavam as lágrimas que vinham desde o ventre, já no caso de Aglaia, parece mais uma menina mimada que acaba sofrendo as consequências de seus próprios atos.

Há também uma grande referência ao adorável livro infanto-juvenil A Bolsa Amarela da escritora Lygia Bojunga, quando ela diz ter os mesmos ter desejos da personagem Raquel: ser grande, ser escritora e ser um menino. 


Deveria existir uma lei dispondo sobre o amor para todos, com igualdade de forma e quantidade.


Eu particularmente nem gostei nem desgostei da leitura. Como diz o chef Jacquin, faltou um pouco de tômpero na minha opinião. Mas é um livro de escrita fluída, que possibilita rápida leitura, ao mesmo tempo que pode ser muito interessante para quem curte ficção com base em distúrbios mentais. 


O Pássaro Secreto
Marília Arnaud
TAG Curadoria - José Olympio
2021 - 270 páginas

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terça-feira, 8 de junho de 2021

Minha Adorável Esposa



Sinopse: Um casamento sólido de quinze anos, do qual nasceram dois belos filhos. Uma boa casa e emprego estáveis. Poderia ser a descrição de milhares de casais norte-americanos, a não ser por um detalhe: esses dois matam pessoas. É assim que eles mantêm acesa a chama da atração: com noites românticas para escolher as vítimas como em um cardápio de um restaurante. Cada prato tem temperos especiais para despistar a polícia e a imprensa. E por melhor que seja a refeição, eles sempre vão querer mais.

Em junho/2020 a TAG Inéditos trouxe para os seus associados o livro Minha Adorável Esposa da escritora norte-americana Samantha Downing, cujo título é desmentido pela sinopse do livro, embora ele não seja tão óbvio como aparenta ser.

Quem nos narra a história é o marido, um personagem cujo nome verdadeiro desconhecemos. Ao cercar suas vítimas ele se apresenta como Tobias, um homem fisicamente atraente que se aproxima de cada uma através de uma mensagem de celular onde informa que é surdo.


Eu olho para a minha própria bebida e posso sentir que ela olha pra mim, querendo saber se estou tão interessado quanto ela.


Inicialmente elas sofrem um baque por não saberem como reagir, fazendo com que baixem suas guardas naturalmente, caindo na conversa do nosso narrador. O que nenhuma delas sabem é que aquele encontro não é casual, pois Millicent, a esposa, usou as redes sociais para seleciona-las.

No dia-a-dia ele é professor de tênis e ela é corretora de imóveis, possuem um casal de filhos, Rory com quatorze anos e se metendo nas primeiras encrencas e Jenna, de treze e muito estudiosa. A família mora no bairro de infância do narrador, uma área que mistura pessoas da classe média alta e os mais ricos, uma bolha segura na cidade onde vivem.


Não medi todas as opções ao meu alcance, considerando as vantagens e desvantagens, usando a lógica para definir o melhor plano de ação.


A vida deles muda quando o corpo de uma das suas vítimas é encontrado e associado a outro serial killer que assombrou a região muitos anos atrás, trazendo pânico em toda a população, inclusive em Jenna, que passa a apresentar um comportamento estranho.

Ao mesmo tempo que tentam tratar a filha, eles veem na associação uma forma de apimentar a brincadeira ao alimentar as informações de um jornalista local que cobre o caso, e assim incluindo no livro o sensacionalismo ao qual as vítimas são expostas.


Eu não compreendia na época, não podia imaginar essa possibilidade de escolher, perseguir e matar uma mulher.


O desconforto na história de Samantha Downing não está em cenas cheias de sangue ou detalhamentos de corpos, já que curiosamente os assassinatos não são o foco principal da história como é indicado na sinopse, e sim no narrador, que não passa nenhuma confiabilidade.

Ao ter apenas o olhar do marido, o leitor se divide entre os acontecimentos atuais, o de passado recente até chegar ao início do seu relacionamento com Millicent. Conforme as respostas vão surgindo e ligações são feitas, elas imediatamente ganham um ponto de interrogação: é isso mesmo ou apenas o que ele quer que a gente ache que é?


O jornal mal tinha acabado, as crianças assistiam televisão e nós ainda estávamos na mesa. Hambúrgueres vegetarianos com tomate e queijo orgânico, batata-doce frita e salada.



Embora o narrador se coloque como um participante coadjuvante dos crimes, faz também o papel de vítima, ao se apresentar como um bom pai, ao relatar a infância onde foi ignorado pelos seus pais, e o fato de ter se encontrado na ordem familiar organizado pela esposa, que também se mostra uma ótima mãe. Fazendo com que qualquer ação valha a pena para manter aquele amor, ele fará tudo para que ela nunca o abandone.

Só que todo este conjunto me fez tecer várias teorias além do que está escrito, então aqui o livro pode ter duas opções: você pode acreditar em tudo o que ele lhe diz ou você criar o seu paralelo e finalizar a leitura com vários pontos de interrogação. E aqui eu confesso, fui o segundo caso.


E eu sou a pessoa que sobe e desce as escadas, que pergunta como todo mundo está e que não toma nenhuma decisão.


No geral senti falta de um pouco de tensão, como li a sinopse, imaginei um livro mais agitado, com sequencias que causassem arrepios, e me deparei com um livro muito mais psicológico, com doses de rotina que algumas vezes te fazem esquecer que se trata de um psicopata. E por isso acho que a leitura pode cativar muito mais o leitor que busca o lado mental do que aquele que busca ação.


Minha Adorável Esposa
My lovely wife
Samantha Downing
Tradução: Hilton Lima
TAG Inéditos - Dublinense
2019 - 384 páginas

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terça-feira, 13 de abril de 2021

Os Sonhadores


Sinopse: Uma pacata cidade nos Estados Unidos é transformada por uma misteriosa doença. Seus habitantes caem aos poucos em um sono profundo, perpétuo, e os que continuam despertos precisam aprender a seguir com a vida e a sobreviver - sem saber se irão acordar no dia seguinte. 

Tenho o hábito de comprar os livros e quando os pegos para ler, não leio nem sinopse nem orelha, então imaginei pelo título que Os Sonhadores se tratava de pessoas que, ou corriam atrás de seus objetivos, ou passavam a vida vivendo apenas de sua imaginação. Que grande engano.

O livro publicado em 2019 pela escritora norte-americana Karen Thompson Walker parece ser uma prévia do que aconteceria no mundo em 2020, só que em uma escala menor.


Uma estranha névoa é vista à deriva cidade afora nessa primeira noite, a noite em que o problema começa.


Em Santa Lora, uma pequena cidade da Califórnia, uma universitária, após uma noite de festa, não acorda mais. Os médicos são chamados e ela é levada para o hospital para descobrirem o motivo pelo qual ela não sai deste sono profundo.

Os dias passam e novos casos são identificados entre universitários que habitam no mesmo andar, a universidade é evacuada e os outros moradores do andar colocados em isolamento. Mas o desconhecimento sobre o que aconteceu e a fuga dos confinados espalham o vírus do sono por toda a cidade.


Os estudantes de biologia ali presentes um dia virão a aprender este fato: certos parasitas podem distorcer o comportamento de seus hospedeiros para servir a seus próprios propósitos.


Narrado em terceira pessoa, o leitor acompanha diferentes vivencias através de alguns personagens. Começando por Mei, a universitária que tem contato com as primeiras vítimas e acaba se unindo aos voluntários para ajudar os moradores da cidade, muitos definhando sozinhos em suas casas, sem que ninguém soubesse que precisavam de ajuda médica.

Sara e Libby são duas irmãs órfãs de mãe, cujo pai há muito tempo se prepara para o apocalipse, quando o pai é infectado pelo vírus, as duas precisam amadurecer para sobreviverem sozinhas, enquanto resgatam lembranças da mãe. 


Tantos dias parecem propensos a descambar para o desastre, mas tantos tomam o rumo contrário.


Uma das personagens que mais tempo permanece adormecida é Rebecca, uma universitária que engravida pouco antes de apresentar os sintomas do vírus. Através dela o leitor vê o surgimento da vida em meio a morte e o desespero entre os que a cercam.

Ben e Annie são um casal de professores com uma recém-nascida, trocaram um apartamento em Nova York por uma casa em uma comunidade pequena em busca de qualidade de vida. Inicialmente eles não acompanham as notícias, isolados no próprio mundo, mas ao terem consciência e tentarem sair da cidade, são impedidos pelo fato da bebê ter recebido leite de uma voluntária infectada.


Por enquanto, estão vivos, mas o futuro está se distanciando deles a cada segundo, o próprio tempo se lançando com ímpeto à frente, sem eles.


Logo no início, Catherine deixa a filha em Los Angeles para avaliar se o que ocorre em Santa Lora é um distúrbio psiquiátrico, e acaba presa junto com todos os demais na cidade. É ela que conta um pouco da linha de frente dos que atendem os infectados.

Na história há uma mistura de passado e presente nos personagens bases, o que permite acompanhar mais as suas mudanças conforme os fatos iam acontecendo, impactando no futuro que está nas páginas seguintes. Eu acho que eram estas bases a reflexão principal do livro, já que ele expõe diferentes aspectos psicológicos. Mas o nosso mundo mudou, e o que poderia ser mais um romance, pode ter o seu significado alterado por quem o lê. 


Quarenta dias: o período que outrora os navios deviam esperar entrar no porto de Veneza - tempo suficiente, era a esperança deles, para que uma doença contagiosa se exaurisse.


Está tudo nas páginas, o vírus aumentando o número de vítima exponencialmente, o uso de máscara para evitar pega-lo pelo ar, a limpeza das mãos, o distanciamento de dois metros, a compra desenfreada por comida, o desespero de não poder chegar próximo as pessoas que amam, o fechamento de uma fronteira regional, a culpa por ter infectado alguém sem saber.

Então sim, a impressão que se tem é que o livro está narrando o que estamos vivendo, basta trocar o nome de vírus do sono por Covid. Pois nas páginas estão os cuidados, os negacionistas, os que infectam os outros, a morte de inocentes, a dor da perda, a alegria da cura.


O que eles sabem é que essa doença é excepcionalmente contagiosa, como o sarampo: uma pessoa pode pegar sarampo se passar por uma sala dez minutos depois de alguém infectado ter tossido lá uma única vez.


Quando comecei a ler, quase fechei as páginas e deixei para depois, para quando tudo voltar ao normal. Mas em meio a tantas semelhanças resolvi seguir em frente, em busca de um fim do vírus literário, como se ele pudesse indicar que logo logo, esta agonia que já está indo para o segundo ano, finalmente irá terminar.

Qual seria a minha opinião sobre essa leitura se não houvesse a Covid? Nunca vou saber. Minha única certeza é que os personagens não foram mais os mesmos quando o vírus enfim parou de se alastrar, assim como nós não seremos.


Os Sonhadores
The Dreamers
Karen Thompson Walker
Tradução: Renato Marques
TAG - Alfaguara
2019 - 331 páginas

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

O Sentido de um Fim



Sinopse: Tony Webster vive em Londres. Um dia, recebe uma pequena herança e o fragmento de um misterioso diário de um de seus melhores amigos, Adrian Finn, que cometeu suicídio aos 22 anos. A partir desta lembrança, Webster revisita sua juventude na Inglaterra dos anos 1960 e tenta decifrar os escritos herdados, confrontando sua própria memória, a inexata versão dos fatos e o seu papel na cadeia de eventos que resultou na morte do brilhante amigo Adrian.

O livro de junho da TAG Curadoria teve como curador o escritor Michel Laub, autor várias obras, entre elas O Diário da Queda já resenhado aqui no blog. A obra é do britânico e vencedor do Man Booker Prize Julian Barnes.

O sentido de um fim é narrado em primeira pessoa por Tony, um homem comum, já aposentado com mais de 60 anos, divorciado, pai de uma filha, que divide a sua história em duas partes. 

Este último não é algo que eu vi de verdade, mas o que você acaba lembrando nem sempre é a mesma coisa que viu.

A primeira parte vai do momento que Adrian se junta ao grupo de amigos de Tony até o seu suicídio, onde ao final o narrador faz um rápido resumo até os seus dias atuais. Existe uma certa superficialidade nesta etapa, que começa com o típico deboche adolescente, passando pela separação quando cada um escolhe a sua universidade, e a partir daí temos uma centralização na vida de Tony.

Do seu primeiro relacionamento amoroso, onde Veronica, sua namorada, parece apenas manipula-lo. Há uma visita à casa dos pais da moça, a apresentação da mesma aos seus amigos, e o relacionamento da ex com o seu então amigo Adrian.

Naquela época, as coisas eram mais simples: menos dinheiro, nenhum aparelho eletrônico, pouca tirania da moda, nenhuma namorada.

Tudo descrito de forma linear, ou usando o adjetivo que o próprio Tony usa para se definir: pacato. Mesmo o suicídio de Adrian é um espelho de outro que ocorre no começo da história, seguindo o ritmo definido.

Ao finalizar a primeira parte fiquei pensando se o nosso narrador tentava nos convencer de seu estilo devagar, ou era um mentiroso. Se Adrian era brilhante como ele dizia, ou fruto da santificação dos mortos, fato comum que ocorre com a maioria das pessoas que tendem a imaginar que a pessoa que se foi era muito melhor do que realmente era. Assim como a descrição de Veronica, se ela era real ou escondia resquícios de uma grande mágoa.

Algum inglês disse que o casamento é uma refeição comprida e sem graça onde servem o pudim primeiro.

A segunda parte inicia sobre Tony falando da perda da juventude, das consequências de envelhecer, da relação um tanto distante com a filha até chegar à carta de uma advogada com uma herança improvável que o leva de volta ao passado.

É neste momento que novas memórias surgem, assim como perguntas sem respostas, sendo a maior delas se Tony é realmente um homem pacato ou babaca.

Eu descobri que esta pode ser uma das diferenças entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.

O que torna interessante a segunda parte é o confronto das divergências da parte um com a parte dois, fazendo com que a memória do leitor seja tão solicitada quando a do próprio personagem.

Particularmente eu achei o livro mais ou menos, não amei, não detestei, e não criei empatia com ninguém. Mas ele pode causar paixão nos leitores que se encantam por suas analogias em relação ao tempo, a própria palavra sentido – viria de sentimento? De direção? De significado? – de impulsos sejam sexuais ou de violência que são vislumbrados momentaneamente.

Mais tarde... mais tarde há mais incertezas, mais sobreposição, mais retrocesso, mais falsas lembranças.

Recomento a leitura pelo seu depois. Pela imaginação que ela desperta no seu leitor ao permitir que ele crie teorias. Em tempos de verdades absolutas, ter o ponto de interrogação como protagonista não deixa de ser uma leitura que gera grande inquietação.

O sentido de um fim
The sense of an ending
Julian Barnes
Tradução: Léa Viveiros de Castro
TAG – ROCCO
2011 – 175 páginas