Mostrando postagens com marcador Criação Literária. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criação Literária. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de março de 2024

Arte importa



Sinopse: Uma emocionante ode de Neil Gaiman à criatividade, à imaginação e ao poder transformador da arte. “O mundo sempre se ilumina quando você faz algo que não existia antes”, diz Neil Gaiman na epígrafe de Arte importa, uma reunião de quatro textos breves e inspiradores do escritor sobre o fazer artístico. Com artes de Chris Riddell, ilustrador renomado e parceiro de longa data de Gaiman, o livro explora como ler, imaginar e criar livremente podem ser elementos revolucionários capazes de mudar o mundo. Com leveza e humor, Arte importa é um livro emocionante e necessário, um apelo inspirador à imaginação e à coragem de criar diante de momentos difíceis. “Seja valente. Seja rebelde. Escolha a arte. Ela importa.”

Em um livro curto, onde ilustração e texto se conectam de forma que o leitor não imagina um sem o outro, o escritor britânico Neil Gaiman explica os motivos de porque a imaginação de cada ser humano pode mudar o mundo em quatro partes, cujos títulos já despertam a curiosidade.

 Em Crença o autor nos convoca a refletir sobre ideia, da dificuldade de eliminar uma pela sua invisibilidade, sobre não censurar os que discordam de uma ideia, desde e não permitir que isso se transforme em violência para calar os que a defendem.

 
Creio que é difícil matar uma ideia, pois ideias são invisíveis, contagiosas e se disseminam rápido.

 

Violências como o ataque terrorista ocorrido no Charlie Hebdo, onde o jornal francês e seu conteúdo viraram notícias no mundo inteiro. Se a ideia do ataque era calar, o efeito foi exatamente o contrário, disseminando aos quatro cantos do mundo.

 Porque corretas ou incorretas, o autor acredita no direito de existir de cada ideia. Conectando a sua existência a liberdade de expressão, onde as únicas saídas permitidas é o debate ou virar as costas e ignorar, sem jamais censurar.

 As ideias já se propagaram, escondendo-se atrás dos nossos olhos, espreitando nossos pensamentos.


Em Porque nosso futuro depende de bibliotecas, leituras e devaneios o autor nos lembra de um dos melhores hábitos que podemos ter: ler por prazer. A ficção, com a ajuda de bibliotecas e bibliotecários pode fazer com que qualquer pessoa se apaixone pela leitura em uma relação mais eterna que a maioria dos relacionamentos.

 E pessoas que leem são mais capazes de - atenção para o link com o primeiro texto - trocarem ideias, argumentarem com as que são contrárias, sem desejar costurar a boca de quem a pronunciou.

 O modo mais simples de criar crianças leitoras é ensiná-las a ler e mostrar como a leitura é uma atividade prazerosa.


Motivo pelo qual um livro não teria faixa etária, tendo como função despertar que as crianças busquem mais e mais livros. Alimentando assim não só a imaginação, mas a empatia que cresce quando você se solidariza com cada um dos personagens.

Em Fazendo uma cadeira entre a montagem de uma cadeira de escritório há vários devaneios entre os passos que ele precisa executar e comparações com a escrita de um livro e que tipo de instruções ele deveria ter.

Bibliotecas representam liberdade. Liberdade de ler, liberdade de expressar ideias, liberdade de se comunicar. 


Quem fecha é Faça boa arte que começa falando da relação do autor com a escola, sua necessidade de escrever e os melhores conselhos que ele não seguiu ao escolher o mundo da arte como profissão.

Seguido pelos motivos dele ter escolhido determinados caminhos, de não pensar nas dificuldades, das indecisões que vão surgindo, da necessidade de equilíbrio entre sonhos e vida real.

 E naturalmente fazer uma boa arte, pois tudo é motivo para criar uma.

 

A escrita de Neil Gaiman

Escrito em primeira pessoa, Arte Importa parece uma conversa do escritor Neil Gaiman com os leitores. Ao refletir sobre assuntos ligados a ideias, imaginação, livros e escritas, ele compartilha experiências pessoais e opiniões.

As ilustrações de Chris Riddell complementam a experiência, tornando o bate-papo quase real, como se o leitor estivesse sentado em um sofá ouvindo o autor falar e gesticular, mostrar fotografias ou simplesmente acompanhando a montagem da cadeira.

 A ficção é a mentira que nos conta a verdade. Todos nós temos a obrigação de fantasiar. Temos a obrigação de imaginar.


O que torna o livro não só rápido de ler, mas também reflexivo.

  

O que eu achei de a Arte importa

 Recebi o livro Arte Importa como mimo na minha assinatura da Intrínsecos (que não existe mais) e ficou na fila para ser encaixado entre as leituras mais densas. E foi assim que ele entrou nas leituras de verão.

Achei a leitura bastante agradável, e nesta conversa em que apenas um fala concordei e discordei de algumas opiniões. O que, como o próprio livro diz, é saudável para seguirmos evoluindo. Compartilho abaixo os dois pontos cujas questões ainda estão martelando na minha cabeça.

Fazer um livro é um pouco como fazer uma cadeira. Talvez devesse vir acompanhado de alguns avisos, como nas instruções da cadeira.  


Em Crença Neil Gaiman defendeu a liberdade ampla das ideias após um ataque covarde a sede de um jornal, eu, por outro lado, lendo após sobreviver a uma pandemia onde ideias antivacinas completamente tortas contribuíram para milhares de mortes, me peguei pensando se realmente pode ser ampla para tudo. O que fazer quando uma ideia se transforma em desinformação e passa a prejudicar os outros, tornando sua disseminação tão mortal quanto um vírus?

E se por um lado eu concordo plenamente que nenhuma ideia é justificativa para ato de violências - aliás, não existe absolutamente nada que justifique um ato de violência - por toda a experiência pós-pandemia eu sigo com uma pergunta na minha cabeça: deve ou não haver limites legais para as ideias?

Se você não sabe que é impossível, fica mais fácil fazer.  


Já no texto sobre leituras, me fez lembrar de um livro que a minha filha pediu para ler e eu disse para ela esperar um pouco mais. O autor diz não haver livro impróprio, eu como leitora concordo que os livros instigam a imaginação e o conhecimento, proporcionando uma visão do cotidiano que muitas vezes não é discutido em casa ou sala de aula.

 Mas será que realmente não devemos levar em conta a idade de uma criança ou adolescente antes de lhe dar um livro para abrir? 50 tons de cinza ou a série Game of thrones são leituras para uma criança de 10 anos? E neste ponto eu discordo e acho que sim, como tudo na vida, a tipos de leitura para cada fase, conforme o amadurecimento do ser humano que estamos criando para o mundo.

Os problemas do fracasso são problemas de desencorajamento, desencanto, necessidade. Você quer que tudo aconteça, e quer na hora, e as coisas dão errado. 


De forma geral o livro foi uma grata surpresa, ao qual combina perfeitamente com o início de ano, já que ele de certa forma nos faz repensar não só a arte, mas a própria vida e de como podemos fazer o novo ano ser melhor. Afinal, todo dia é dia para usar a imaginação, buscar a própria sorte e escolher caminhos.

 

Arte Importa - Porque sua imaginação pode mudar o mundo
Art Matters: Because your imagination can change the world
Neil Gaiman
Ilustração: Chris Riddell
Tradução: Augusto Calil, Ângelo Lessa e Editora Intrínseca
intrínseca
2021 - 112 páginas
Primeira publicação na Grã-Bretanha em 2018

 

sábado, 17 de março de 2018

Devoção



Em um livro pequeno e rápido, a compositora de uma das minhas músicas favoritas (because the night) descreve o processo de inspiração e a própria história, conectando dois autores que admira e algumas fotos em preto e branco.

Tudo começa em Nova York nos preparativos de sua viagem a Paris. É no voo que o nome da escritora francesa Simone Weil surge pela primeira vez.

Em Paris vamos caminhar com Patti pelas ruas e virtualmente dividir seus cafés, mas é no trem para Londres que ela começa a reescrever um conto em que a personagem principal é inspirada em Simone. E nestas idas e vindas, ela conta o que dispara novas ideias, o que a faz escrever, e eventuais dificuldades de se reconectar em lugares conhecidos.

Em seguida temos o conto Devoção, onde passamos a conhecer mais de perto a jovem Eugenia, a menina que a política tornou órfã, abandonada por uma tia que após quase 16 anos resolve levar a sua própria vida e a paixão pela patinação.

O relacionamento com Alexander, um homem rico e mais velho, surge de uma promessa a ser quebrada pelo sentimento de ciúmes e possessão. Ele dá e ao mesmo tempo tira tudo de Eugenia, terminando de confundir a cabeça da adolescente.

Narrativa simples e fácil de ser acompanhada, onde o foco está no que move os personagens, em um relacionamento marcado pela ausência, carência e subjugar o outro. Eu particularmente senti falta de um algo mais, visto que a personagem tem uma riqueza de conflitos, tornando o final meio óbvio.

O livro se encerra com uma visita a casa de Albert Camus em Lourmarin, onde Patti tem a experiência única de ver o espaço onde um escritor que ela admira criava as suas obras, o que irá trazer emoção e ânsia de escrever.

Devoção é bacana por mostrar parte do processo criativo, da inspiração que surge em qualquer lugar, da história resultante, uma mistura de ficção e autobiografia. Pode ser interessante para quem tem curiosidade no processo da escrita tanto como leitor como escritor.

Devoção
Devotion
Patti Smith
Tradução Caetano W. Galindo
TAG – Companhia das Letras
2017 – 124 páginas