sexta-feira, 17 de julho de 2026

Justiça Ancilar



Sinopse: Em um remoto planeta gelado, Breq está prestes a concluir seus planos de vingança. Ex-membro do Radch, o império que domina a galáxia, Breq era a nave Justiça de Toren – uma porta-tropas gigantesca com uma única inteligência artificial que habitava e controlava o corpo de milhares de soldados. Mas um ato de traição destruiu tudo o que Breq conhecia, e agora só lhe resta um único e frágil organismo humano para enfrentar o império.

Primeiro volume da trilogia Império Radch, a narrativa mistura ficção científica, lutas por ampliações de impérios e reflexões sobre os atos dos personagens.

Em um futuro não datado, o planeta Terra já virou história e a humanidade está espalhada pelos diferentes sistemas do universo. O que não mudou foi a sede de poder e a busca por ampliar o seu domínio.

Sentem inveja e ressentimento e culpam a nós por não permitir que elas tenham o que temos. Na verdade, se elas simplesmente trabalhassem...


E o poder está na mão da imperatriz Anaander Mianaai, que com os seus vários clones comanda o Império Radchaai. Suas naves de guerra e soldados chamados ancilares são redes complexas de inteligência artificial que conecta a todos, respondendo aos poucos realmente humanos que exercem o comando antes das invasões.

Uma destas naves é a Justiça de Toren, que após ficar em meio aos conflitos de clones da imperatriz, tem apenas a ancilar Breq como conhecedora da história. E é essa IA em corpo humano que passa a percorrer a galáxia para se vingar de Anaander Mianaai.


A escrita de Ann Leckie

A escritora norte-americana Ann Leckie foi a primeira autora a ganhar simultaneamente os prêmios Hugo, Nebula, Arthur C. Clarke, BSFA e Locus, tornando-se uma das vozes atuais da ficção científica. 

Em suas narrativas o fator tecnológico não é o foco principal, mas sim o psicológico, abordando questões como identidade, consciência e memória. Substituindo a ação e detalhes técnicos por como seus personagens se percebem, independentemente de serem humanos ou inteligências artificiais.

Quando você cresce sabendo que merece estar no topo, que as casas menores existem para servir ao destino glorioso da sua casa, você encara essas coisas como naturais. Você nasce supondo que alguém paga o custo da sua vida.


Outra característica é revelar os fatos aos poucos. Como um quebra-cabeça, cada capítulo vai ampliando o universo da história para o leitor, incluindo as interações entre personagens, suas intenções e os governos e políticas que os regem.

No caso dos livros sobre o Império Radchaai existe também uma mudança de linguagens, já que ela utiliza o pronome She (ela) para se dirigir a todos os personagens, só sendo possível identificar se é homem ou mulher quando Breq ou outro personagem contextualiza em pensamentos ou diálogos.

Informação é poder. Informação é segurança. Planos feitos com informações imperfeitas têm falhas fatais, fracassarão ou darão certo com o lançar de uma moeda.


Especificamente em Justiça Ancilar, livro que abre a trilogia, ao ter uma IA como protagonista, não há inicialmente grandes expressões de sentimento, a característica aqui são análises frias e objetivas, visando atingir o objetivo traçado por Breq. 

Há também muitos momentos de alternância entre o momento presente e os acontecimentos passados que traçaram as escolhas de Breq, que vão afunilando até o momento final da narrativa.


O que eu achei de Justiça Ancilar

Passado um tempo da leitura, pois sim, estou bem atrasada com as resenhas, eu ainda não tenho uma opinião formada sobre este livro.

Um fato que me atrapalhou bastante foi o uso do pronome feminino para todos os personagens. Entendo o recurso utilizado pela autora de querer usar o She/ela como um pronome neutro, como se cada um fosse a pessoa, mas ao contrário do inglês, no português todas as palavras acompanham o pronome. Então quando iniciava a fala sobre um personagem que era identificado como um homem, o que ocorre várias vezes, fez com que o meu cérebro passasse a corrigir o texto automaticamente durante a leitura.

Mas se todo mundo fosse considerar todas as possíveis consequências de todas as suas possíveis escolhas, ninguém se moveria um único milímetro, nem sequer ousaria respirar, por medo dos resultados.


E invés de imergir na história rapidamente, o cansaço fez com que a leitura acabasse se arrastando, levando um tempo significativo para eu acompanhar a busca de vingança de uma IA que começou a transparecer sentimentos humanos.

Motivo que pra mim é o que torna o livro interessante. Pois existe uma mudança gradual na forma de agir de Breq. E conforme fica claro que ela é uma IA que pode apresentar emoções e demonstrações de empatia muito próximas dos seres humanos, a curiosidade sobre os fatos passados foram aumentando.

Virtudes podem ser feitas para servir fim que beneficie você. Mesmo assim, elas existem e vão influenciar suas ações. Suas escolhas.


Fatos que são mesclados com o presente, o que também exige atenção para conseguir construir todo o universo de Justiça Ancilar, já que é um livro que não explica o que fez os humanos saírem da Terra, mas deixa claro que antigos hábitos de guerrear e conquistar permaneceram intactos.

Como já descrevi no estilo de escrita, também não há grandes explicações sobre a tecnologia utilizada, havendo um foco no comportamento dos personagens e as consequências de suas ações conforme a sua posição na hierarquia de poder. Tornando a narrativa psicológica e política de uma forma bastante atemporal, já que não seria difícil encontrar líderes expansionistas ao longo de nossa história como Anaander Mianaai.

Ou será que qualquer identidade é uma questão de fragmentos reunidos por uma narrativa conveniente ou útil, que em circunstâncias normais nunca se revela como uma narrativa ficcional?


Digo isso porque ela representa justamente a mentalidade de que suas ideias e os seus iguais são superiores, o que lhe dá permissão para conquistar e sacrificar qualquer um que julgue apropriado ou seja um obstáculo para que ela atinja os seus objetivos, além da centralização do poder em uma figura que se julga acima do bem e do mal. 

Conjunto que provoca reações até mesmo em uma IA criada para obedecer, e que trará perguntas que até hoje não temos resposta exata, como a ética e a moralidade em situações injustas, a compaixão e a empatia, até as mais existencialistas sobre o que realmente é ser um Humano?

Às vezes não sei por que acabo fazendo as coisas que faço. Mesmo depois de todo esse tempo, ainda é estranho para mim não saber, não ter ordens constantes a seguir.


Mas apesar de achar interessantíssimo, fiquei com o sentimento que o primeiro volume me basta. Quando li não sabia que fazia parte de uma trilogia, achava que ele tinha um final aberto, já que ele veio em um box de livros SCI-Fi que comprei há um tempo atrás (alô nicho com livros aguardando leitura, eu não esqueci de vocês), foi justamente ao pesquisar sobre a biografia da autora para escrever esta resenha que descobri que existiam mais dois.

Enquanto eu não sinto curiosidade de descobrir o que aconteceu com Breq e o império Radchaai, deixo a dica para quem curte ficção científica, gosta de personagens com psicologia complexa, não resiste a uma intriga política ou que procura uma narrativa em um estilo diferente.

E quem gostou, não gostou, leu a trilogia completa, pode comentar e dizer como foi sua relação com a história e quem sabe me convencer a dar sequência na leitura dos volumes faltantes.

Justiça Ancilar
Ancillary Justice
Ann Leckie
Tradução: Fábio Fernandes
TAG - Aleph
2023 - 376 páginas
Publicado originalmente em 2013

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.

No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017