segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O problema dos três corpos



Sinopse: China, final dos anos 1960. Enquanto o país inteiro está sendo devastado pela violência da Revolução Cultural, um pequeno grupo de astrofísicos, militares e engenheiros começa um projeto ultrassecreto envolvendo ondas sonoras e seres extraterrestres. Uma decisão tomada por um desses cientistas mudará para sempre o destino da humanidade e, cinquenta anos depois, uma civilização alienígena à beira do colapso planeja uma invasão. O problema dos três corpos é uma crônica da marcha humana em direção aos confins do universo. Uma clássica história de ficção científica, no melhor estilo de Arthur C. Clarke. Um jogo envolvente em que a humanidade tem tudo a perder.

Em plena Revolução Cultural Chinesa a jovem Ye Wenjie vê o pai ser assassinado por não renegar conceitos básicos da Física, como a teoria da relatividade de Albert Einstein. Sua mãe, também da área, se torna submissa ao novo sistema e sua irmã se torna membro da guarda vermelha.

Enviada para um campo de trabalho forçado, ela é envolvida em uma situação perigosa por um jornalista que lhe atribuiu falsas acusações para se salvar. Mas graças ao seu conhecimento avançado em astrofísica, ela é transferida para a Base Costa Vermelha a pedido de dois oficiais, um local para entrar e não sair mais.

Em comparação com os homens e as mulheres experientes da primeira geração, os novos rebeldes eram uma matilha de lobos andando sobre carvão em brasa, mais insanos que a insanidade.


Neste local há uma enorme antena parabólica, e é através dela que uma desiludida Ye Wenjie irá conseguir contato com Trisolaris, o sistema solar com três sóis que orbitam entre si de forma a transformar a vida no planeta de mesmo nome em um verdadeiro caos.

Ao pular para a época atual, o mundo enfrenta uma crise nunca vista no mundo científico, intelectuais importantes estão morrendo sem explicação e seus projetos estão sendo parados, gerando atrasos em diversas áreas.

E assim, sob a fúria das motosserras, vastos oceanos de floresta se transformaram em penhascos estéreis e colinas desmatadas.


É quando o engenheiro de nanomateriais Wang Miao começa a ver uma contagem regressiva que ninguém mais enxerga. Com medo do que pode significar, ele começa uma corrida com a ajuda do detetive Shi Qiang para entender o que está acontecendo e tentar entender o seu papel em tudo.


A escrita de Liu Cixin

Graduado em engenharia hidrelétrica, o chinês Liu Cixin começou a escrever quando ainda atuava em sua área de formação, sua paixão pelos clássicos ocidentais da ficção científica tornou-se inspiração para o seu gênero literário escolhido.

Como escritor ele venceu por oito anos consecutivo o prêmio literário chinês Galaxy Award e foi o primeiro autor asiático a vencer o Prêmio Hugo de Melhor Romance.

É possível que a relação entre a humanidade e o mal seja semelhante à relação entre o oceano e um iceberg que flutua em sua superfície?


Sua escrita utiliza tantos conceitos reais de tecnologia, física quântica, astrofísica e mecânica como uma visão histórica, cultural e filosófica da China.

Tudo plenamente encontrado no primeiro volume da trilogia O problema dos três corpos, que dá o mesmo nome ao livro.

Todas as provas apontam para uma única conclusão: a física nunca existiu nem jamais existirá.


Ao ter cientistas como personagens, as explicações dadas não são banais, ali estão os conceitos e lógicas estudados pelos profissionais das áreas de uma forma que o leitor entenda.

No primeiro volume o autor também optou por uma estrutura não linear, onde os capítulos podem se alternar entre passado e presente para que se descubra com detalhes o que levou a Terra ao seu momento atual.

Será que a estabilidade e a ordem do mundo não passam de um equilíbrio dinâmico temporário em um canto do universo, um redemoinho efêmero em uma corrente caótica?


Dando a ficção científica um toque de suspense, com investigações, suposições e mistérios revelados.

Somado a isso há todo uma base histórica que coloca os personagens em um ambiente tenso cujos traumas são levados até o presente. Além disso, no presente, temos um olhar não ocidental em relação aos eventos globais que se apresentam, dando uma outra perspectiva dos acontecimentos se comparado a outros livros de ficção científica.

A cidade, adormecida, ainda estava muito iluminada. A contagem pairava no meio desse cenário grandioso, como uma legenda em uma tela de cinema.


O autor também utiliza o recurso de um jogo virtual para apresentar o mundo de Trisolaris, onde os humanos participantes do jogo utilizam nome de figuras famosas como Galileu, Newton e Copérnico.

Tornando a história rica em detalhes e convidativa para seguir a leitura no segundo volume.


O que eu achei de O problema dos três corpos

Eu adorei. No momento que escrevo esta resenha, só falta o último volume para terminar a trilogia.

Meu primeiro contato foi com a série da Netflix, que eu já havia achado boa, mas cai na velha frase "o livro é melhor" após a leitura.

E não apenas porque a série resume o livro, e eu entendo que talvez todos os conceitos pudessem soar um tanto tediosos para o público, mas o que mais me pegou foi substituir o local (China) por um grupo de cinco jovens cientistas que moram em Londres.

O sol? Como é que o sol pode nos dizer a hora? Estamos no meio de uma Era Caótica.


Pois um dos grandes charmes do livro é justamente a influência histórica e cultural que irão gerar um problema global. Embora ele não se aprofunde em questões existenciais dos personagens, o que eu vi foi como cada evento foi impulsionando os atos dos envolvidos ao longo das décadas.

E embora o coletivo se sobreponha ao individual, a ironia aqui é que a ação de um único ser humano pode gerar efeitos para os habilitantes de dois planetas.

O céu inteiro piscava, como se o universo não passasse de uma lamparina trêmula ao vento.


Outro ponto que o livro ganha da série: Trisolaris. Existe um distanciamento maior na série, mas no livro não apenas o jogo dos 3 corpos é muito mais explorado, como também tive mais acesso aos habitantes deste planeta e suas diferenças.

Um ponto que pode pegar os leitores é justamente a parte dos conceitos, que são explicados de forma simples ao longo da narrativa. Eu sou da área de exatas e adorei relembrar ou conhecer novos, achei a forma como eles se encaixam na história muito bem construído.

Mas o objetivo principal é desorientar os cientistas até que vocês pensem que são ainda mais ignorantes do que as pessoas comuns.


Mas isso exige uma tranquilidade na leitura, não é uma leitura para ser feita de forma dinâmica, por tudo se conectar. As informações não são em vão, mas de certa forma tornam a narrativa um pouco mais lenta, principalmente para quem espera um ritmo mais frenético como da série.

Ao mesmo tempo é tudo muito verossímil, as discussões na ONU, as conversas entre vizinhos, o planejamento para um futuro que já estava ameaçado pelas atitudes humanas, mas precisou de uma interferência extraterrestre para finalmente ser olhado.

Tornando o sucesso da obra mais do que justificável e convidativa para quem gosta de ficção científica, de narrativas definitivamente embasadas, de históricas com uma base cultural forte, e naturalmente para quem gosta de ler. Ficando a dica para vocês.


O problema dos três corpos
The three body problem
Cixin Liu
Tradução: Leonardo Alves
Suma
2016 - 316 páginas
Publicado originalmente em 2006

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