sexta-feira, 10 de julho de 2026

O verão em que mamãe teve olhos verdes

 


Sinopse: Aleksy sempre recordará aquele verão que passou sozinho com sua mãe em um vilarejo francês, mesmo muitos anos depois. Quando ela foi buscá-lo no instituto, seu ódio, rancor de desprezo por ela o impediam de sequer imaginar que poderia ser um verão marcante, muito menos que ódio, desprezo e rancor pudessem ter outras formas. A força narrativa de Tatiana Ţîbuleac se propõe a desvelar camadas após camadas nas relações familiares, em um testemunho inusitado da hipossuficiência e relevância das relações entre mãe e filho, sem concessões a convenções ou sentimentalismos.

No mês de março/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O verão em que mamãe teve olhos verdes da escritora e jornalista romena Tatiana Ţîbuleac, uma indicação da também jornalista e escritora cearense Lorena Portela. O mimo foi um kit de lápis literários.

O famoso pintor Aleksy recebe a recomendação de seu psiquiatra de escrever sobre o último verão que passou ao lado de sua mãe. Verão em que ele estava internado em um instituto para jovens com problemas de comportamento e em troca de um carro de presente ele aceita acompanhar sua mãe em uma viagem até uma pequena vila localizada em um litoral francês.

Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido.


Inicialmente todo os ressentimentos e incompreensões de anos de abandono emocional e violência verbal estão à flor da pele, mas conforme os dias vão passando, tudo começa a mudar sutilmente através de pequenos gestos, conversas e momentos de silêncio compartilhados.

A pequena vila também influência, ao não serem turistas de passagem rápida, a dupla mãe e filho vai aos poucos se integrando a comunidade local, através de idas a feira, compras no mercado próximo, carregando um pacote alheio, onde mãos estendidas e amores podem não ser tão passageiros quantos os dias quentes e alegrias e tristezas podem ser compartilhadas.

Talvez se tivéssemos vivido de outra maneira. Se tivéssemos tentado mais e se tivéssemos fingido mais. Talvez se tivéssemos sabido antes.


Tudo em uma escrita sensível, intensa e poética sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo frágil entre filhos, pais e o tempo. 


A escrita de Tatiana Țîbuleac

Nascida na Moldávia, onde iniciou a carreira como jornalista, foi em Paris que Tatiana Țîbuleac resolveu abraçar o mundo literário e estrear na ficção com uma coletânea de contos. O reconhecimento internacional veio com os seus romances, onde se inclui O verão em que mamãe teve olhos verdes, com tradução em diversos idiomas.

Considerada uma das vozes da literatura contemporânea do Leste Europeu, sua escrita é reconhecida pelo toque poético, intenso e emocional ao explorar itens que fazem parte do cotidiano humano como memória, luto, relações familiares, trauma e culpa. E tudo isso é encontrado em O verão em que mamãe teve olhos verdes.

Uma roupa feia e barata atrai outra roupa feia e barata. Um bofetão perdoado será seguido sem falta de um murro, e uma mentira aceita irá se transformar num cemitério de verdades.


Uma narrativa em primeira pessoa, que permite acompanhar os pensamentos, as memórias, os sentimentos e as emoções de Aleksy no presente e no passado, em capítulos curtos que mesclam cotidiano, delicadeza e violência, trazendo à tona todos os conflitos internos do narrador com base na sua experiência de vida.

E apesar de não ter uma ordem cronológica cravada, a fluidez e clareza na escrita permitem diferenciar muito bem cada época, e sentir todos os efeitos psicológicos e introspectivo que o fluxo de consciência de Aleksy proporciona.


O que eu achei de O verão em que mamãe teve olhos verdes


Lindo

Triste

Poético

Impactante

Doloroso

Uma das melhores leituras do ano

O verão em que mamãe teve olhos verdes é o tipo de livro difícil de esquecer, a ironia do destino que separa e une mãe e filho pelo luto é feito de uma forma sutil, onde a mudança está na forma como Aleksy vê os olhos da mulher identificada de diferentes formas, até que a nomeação minha mãe contenha a doçura do afeto.

À minha passagem, em vez de pegadas, ficavam apenas pequenos sulcos cheios de nada, e as pessoas nem mesmo percebiam minhas pegadas, pois não é possível perceber o invisível.


Todo o abandono sentido por Aleksy vem do reflexo da dor sentida por esta mãe ao perder sua filha caçula. A reclusão desta mulher que precisa conviver sem um pedaço de si gera raiva e violência no outro pedaço que ficou e perdeu dois afetos de uma só vez. O que mostra o quanto a morte de alguém querido pode ser difícil de superar, a ponto de criar abismos entre os que ficam.

E por isso achei curioso que é a proximidade da morte da mãe que acaba criando uma ponte para o perdão entre os dois, permitindo pequenas trocas e diálogos em histórias que muitas vezes parecem até irreais. E não, isso não é um spoiler, pois a revelação da doença que conta os seus dias é feita no início da narrativa.

Que não morresse agora. Que não morresse assim. Que não morresse, se possível. Não de imediato.


Os personagens secundários também enriquecem a obra, como a avó que não deixou tudo ruir, como Karim o comerciante do pequeno vilarejo que pode tanto vender comida fora do prazo de validade quanto buscar ajuda próxima quando necessário. E claro a jovem Moura, que mostra o lado tímido do jovem e é uma influência na suavização de sua personalidade.

Um ponto interessante também é o uso da arte, aqui através da pintura e da escrita, para libertar os monstros internos que devoram o narrador. Sendo uma forma de expurgar tudo o que o consome e assim permitir uma forma de desabafo do que está preso e em uma simples conversa não consegue ser explicado.

Porque as pessoas são doentes e degeneradas, e sabem disso, mas, por medo, fingem ser boas e sãs. E porque assim é mais fácil.


Uma leitura que consegue ser bonita e dolorosa ao espelhar de forma muito realistas as relações humanas, onde o julgamento do próprio narrador me lembrou como leitora como muitas vezes não sabemos ou simplesmente não enxergamos a história toda antes de apontar os nossos dedos.

Ficando assim a sugestão deste livro que pode mexer com sentimentos, talvez despertar gatilhos e lembrar que em meio a relações conflituosas há quem mereça uma segunda chance e quem mereça a distância eterna.


O verão em que mamãe teve olhos verdes
Vara în care mama a avut ochii verzi
Tatiana Țîbuleac
Tradução: Fernando Klabin
TAG - Mundaréu
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2017

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