quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Vivendo as experiências literárias da TAG


Primeiro um esclarecimento: este post não é patrocinado, é o relato de alguém que fez a assinatura, paga todos os meses e está gostando muito.

Um dia, no ano de 2016 eu vi uma propaganda sobre receber um livro surpresa, a empresa era TAG e tinha como slogan fornecer experiências literárias. Adorei a ideia de um escritor indicar para os leitores um título da sua preferência, e ali começamos um namoro. Li reportagens, olhei os títulos, avaliei os valores e pensei, pensei, até julho de 2017, quando aproveitei uma promoção que dava 50% de desconto no primeiro mês.

Meu primeiro livro foi um exclusivo elaborado para comemorar o aniversário da TAG, onde contos clássicos eram revistos por escritores contemporâneos sob o título de Uns e Outros Contos Espelhados.

O teste foram de dois meses, quando resolvi assinar a versão anual. E todos os lidos até agora vocês irão encontrar as resenhas no blog (Ragtime, A Louca da Casa, As Alegrias da Maternidade, As Três Marias, A Praça do Diamante, Retorno a Brideshead). Respeitando as regras deste clube, só publico após terminar o mês, quando todos os leitores já estão com os seus livros na mão (as entregas ocorrem até o dia 20 de cada mês).

De forma geral, todos os livros fogem do óbvio, sendo que em menos de um ano recebi três livros que não estão à venda em livrarias e outros que talvez eu não escolhesse só de olhar.

Do Brasil, passando pelos Estados Unidos, Nigéria, Barcelona, Inglaterra e pelos desertos próximos a Meca, os livros estão me levando em uma viagem ao mundo, descobrindo histórias e autores, e comprovando que sim, é realmente uma experiência literária.

Somado a isso tem o cuidado e delicadeza dessa experiência, o livro da curadoria é capa dura, com marcador personalizado da obra. Acompanha uma revista que fala do curador, da obra e do autor, dá dicas de livros semelhantes, uma opinião de outro leitor e a dica do próximo livro. E sempre tem um mimo, já recebi objeto decorativo, baralho, calendário. Impossível não sentir borboletas no estômago ao receber a caixinha.

O atendimento é sempre rápido e gentil. Uma das obras (Quase Memórias) eu já possuía e consegui realizar a troca por outro título (A Louca da Casa) muito facilmente.

Agora eles estão criando outra modalidade, mais barata, em que trarão best-sellers em primeira mão, isto é, os assinantes irão ter acesso antes do grande público. Será aberto primeiro para os assinantes atuais (ainda estou fazendo as contas para ver se consigo embarcar nesta, pelo menos para teste), mas existe um cadastro para os interessados serem avisados do início.

Fora do livro, existe interação via facebook e app próprio entre os assinantes. Entro eventualmente, gosto da parte onde se registra comentários sobre os livros lidos. E uma vez por mês é organizado um encontro para discutir a obra do mês anterior, onde um mediador coloca na pauta coisas como particularidades, contextos e estética literária.

Curtiu a ideia?
Se quiser assinar e me ajudar a comprar mais livros, pode usar o meu código de indicação: ANDJ8CMF.

Para conhecer um pouco mais da Tag, clique aqui.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Meia-Noite em Bhopal


Em uma madrugada de muitas festas no ano de 1984 uma nuvem de gás tóxica escapa de uma gigante americana fabricante de pesticidas na cidade de Bhopal, na Índia. O resultado: mais de trinta mil mortos. O primeiro problema deste livro: não estamos falando de ficção.

Para relatar uma das maiores tragédias mundiais da indústria química os autores Dominique Lapierre e Javier Moro retrocedem no tempo, e através de pessoas reais nos contam o que existe atrás da tragédia: cultura, pobreza, exploração. Afinal, quanto vale a vida de um cidadão do terceiro mundo que vive em uma favela?

Logo de início seremos apresentados a uma Padmini criança, moradora de uma aldeia indiana que aos 8 anos de idade, junto com os seus irmãos caçulas, precisa trabalhar para ter o que comer em casa. Aqui temos o retrato de crianças sem infância, sem estudo e expostas a insegurança de uma fábrica.

Como ocorre em muitas famílias, com as pragas que devoram as plantações e a falta de alimentos para os animais, eles partem rumo a Bophal e ali tem o seu quadrado demarcado no Orya Bastí, um bairro de favelas.

Em paralelo o leitor é informado sobre os pesticidas, seus males, os níveis de segurança que as fábricas devem ter, a visão dos grandes executivos, a estratégia comercial, o uso do terceiro mundo de forma exploratória.

A imprensa aqui também está representada, no caso pelo repórter Rajkumar Keswani que passou avisando da tragédia que a fabrica poderia causar, mas cujos textos foram ignorados.

Os capítulos intercalam o lado das vítimas e dos seus assassinos, a esperança que a bonita fábrica proporciona arrepia ao leitor por saber qual será o fim da história, mas não das pessoas pela qual se acostuma a conviver pelas páginas.

O livro é triste, dolorido e infelizmente real. Ao mesmo tempo ele possui um colorido, uma simpatia ao mostrar culturas diversas em um lugar só. É um livro para repensar o que aceitamos em nossas terras, sobre o quanto o marketing pode esconder verdadeiros monstros, mas também sobre heroísmo e ignorância, sobre fé e empatia.

E naturalmente as eternas perguntas que perseguem situações deste tipo: E se o vento houvesse levado a fumaça para o lado rico, haveria impunidade? Se a segurança fosse realmente prioridade, haveria mortos?

Para encerrar o segundo e último problema é a edição brasileira, que reduziu o Epílogo e assim o final de alguns personagens, entre eles Padmini, a menina que acompanhamos até virar mulher. Consegui descobrir o que acontece com uma edição espanhola.

Mesmo assim vale e muito a leitura. Entre mocinhos e vilões reais, amor, esperança e lágrimas, a narrativa fluída irá te levar por um caminho sem volta para todos.

Meia-Noite em Bhopal
Era Medianoche em Bhopal
Dominique Lapierre e Javier Moro
Tradução Sandra Martha Dolinsky
Editora Planeta
2001 – 357 páginas

Spoiler:
Se você leu o livro e chegou até aqui justamente querendo saber o que houve com a Padmini, acalmo seu coração: ela e o seu marido se salvam, ela não consegue mais viver no bairro da tragédia e eles acabam fazendo o caminho contrário da sua família, plantando seu próprio alimento. O final é uma ironia da vida, pois eles recebem sementes transgênicas da Monsanto. 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O Estudante



Eu estudava no Instituto de Educação do Paraná, em Curitiba, quando uma das professoras de português pediu para que a turma lesse o livro O Estudante da autora Adelaide Carraro. Ainda lembro da cara de espanto da minha mãe, que exigiu realizar a primeira leitura, visto que só tinha conhecimento das obras adultas de Adelaide.

Roberto é um menino de 15 anos que vê a família ser consumida por uma tragédia e as primeiras páginas relatam o encontro com a escritora, quando ele busca uma forma de prosseguir em meio à dor e para ela entrega uma carta, que se torna a narrativa do livro.

Descrita como uma estória real, logo de início o leitor irá saber que Roberto teve o irmão morto pelo próprio pai. O suficiente para atiçar a curiosidade e seguir com a leitura. O retorno ao passado vem como uma nuvem cor-de-rosa, Renato é o menino perfeito: bonito, inteligente, amado por todos. A casa em que a família Lopes Mascarenhas vive é linda, eles são ricos e felizes. 

O grande ponto do livro, que o fez virar uma leitura obrigatória entre os jovens está em um comprimido para dor de cabeça. Das medalhas para o caixão, o livro conduz muito bem a decadência do menino de ouro quando se envolve com as drogas, a mudança da nuvem de rosa para um mundo cinza, cheia de monstros e dor. A dificuldade e demora em ver o que está acontecendo. O rompimento do diálogo. Ações inesperadas. Uma família sendo despedaçada, como muitas são todos os dias independente da classe social por um mesmo motivo: drogas.

Mesmo tendo sido escrito em 1975 o livro é um alerta, que mostra gradativamente o poder das drogas em destruir vidas. Um lembrete do antigo conselho de não aceitar nada de estranhos, ou utilizar alguma droga só porque os amigos também usam. A dificuldade dos pais verem, compreenderem e até mesmo aceitarem. E o principal, que elas não distinguem classe social, cor, idade, escolaridade... as reações, sensações e dependência são as mesmas para todos.

Fica a sugestão para os leitores jovens e seus pais. Ele pode ser a porta para conversar sobre um assunto tão espinhoso, mas necessário para que outras crianças/adolescentes não tenham o mesmo fim. 

O Estudante
Adelaide Carraro
Editora Global
1975 – 127 páginas

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Retorno a Brideshead



Quem começa a contar a sua história é o capitão do exército britânico Charles Ryder. O período é a segunda guerra mundial. O narrador não poupa detalhes, seu olhar observador lhe leva para dentro de cada lugar. Mas é quando ele retorna a Brideshead, castelo pertencente a uma rica e conhecida família do capitão, agora cedida ao uso do exército, que iremos descobrir quem ele realmente é.

As paredes da casa iram levar Charles e os leitores ao fim da sua adolescência. Órfão de mãe. Pai vivendo em um mundo próprio. Sem religião. Tem o primo Jasper como um grilo falante que aparecia de tempos em tempos quando ele vai para Oxford.

E se existe um início de tudo é em Oxford. Local onde conhece Sebastian Flyte, rapaz de família rica, que carrega um urso de pelúcia e que cativa pela simpatia. Sua personalidade é complexa, parecendo estar perdido entre os papeis de menino minado e adolescente rebelde. Algo o oprime e o deprime.

A relação entre os dois é de amor, ciúmes e de um companheirismo que resulta em isolamento. Sebastian leva Charles até o seu mundo, onde a ostentação brilha em paredes, pratos e jardins. E o medo do rapaz se concretiza quando Charles é abraçado pelos outros membros da família, como se isto o tornasse outra pessoa, um inimigo, um espião.

Chegar neste ponto é essencial, pois Charles é um artista, e de certa forma, um alter ego do escritor Evelyn Waugh (sim, é um escritor, seu nome completo é Arthur Evelyn Waugh), e isto torna o início bem cansativo até a história se desenrolar e o leitor entender o motivo do detalhe do detalhe.

Somente através da família de Sebastian vamos ver um pouco da famosa satirização de Waugh com a sociedade inglesa, ao mesmo tempo em que ele nos apresenta a sua fé na igreja católica.

Aliás, o livro me pareceu convergir muito bem com dois livros que eu havia lido. Em Retrato de Uma Mulher Desconhecida uma das filhas de Thomas More nos leva ao início do fim do poder da igreja católica sobre a monarquia britânica e a conversão dos súditos a igreja de anglicana. Aqui, anos depois, temos uma das poucas famílias tradicionais que seguiram em sua fé, vivendo com medo dos castigos por condutas inadequadas as pregadas, e buscando o perdão para sua redenção e entrada no céu após a morte.

Existe também a versão da visão burguesa da guerra dos mineiros, que e é narrada por uma das famílias da trilogia O Século do Ken Follet, e aqui não é dada importância pelos personagens, como se fosse uma bobagem qualquer.

Na história as personagens femininas são fortes, Lady Marchmain tem uma forte figura matriarcal, sua sutiliza em manipular e enxergar somente o que quer ver torna a figura amável entre os demais personagens. Julia é a versão feminina e madura de Sebastian, onde nem mesmo a frieza esconde a tristeza dos olhos. E Cordelia, a menina esperta e única que o leitor irá acompanhar da infância a fase adulta.

Livro detestado por alguns, e admirado por outros, eu diria que vale a leitura. E sim, eu gostei, apesar de não ser muito fã de livros com muitas notas de rodapé. Passado o cansaço inicial, onde parecia difícil ler várias páginas em sequencia (e seus capítulos são bastante longos), é possível se acostumar com o estilo de escrita de Waugh e ficar curioso e até mesmo indignado com alguns de seus pontos de interrogação.

Minha sugestão: Leia após um livro leve, antes de vivenciar os conflitos filosóficos, religiosos e sociais de quem passou por Brideshead.

Bônus: Existem filme e série do livro, para quem gosta de ler e assistir, fica a dica.

Retorno a Brideshead: Memórias sagradas e profanes do capitão Charles Ryder
Brideshead Revisited: The sacred e profane memories of captain Charles Ryder
Evelyn Waugh
Tradução: M. Alice Azevedo
TAG – Companhia das Letras

1945 – 390 páginas

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O Maravilhoso Bistrô Francês



O copo de Marianne está cheio.

Cheio de tristeza, cansaço, baixa autoestima, falta de amor, falta de si mesma.

O desespero é tão grande que ela sobe na Pont Neuf para se atirar nos braços da morte. Ironicamente o que parecia o fim é apenas o começo para ela descobrir quem realmente é.

Como ocorre com A Livraria Mágica de Paris, o personagem principal de Nina George não é uma mulher jovem de idade, mas se torna de espírito em suas aventuras. E é ela que nos levará até a Bretanha e suas lendas e crenças, que inclui a Fada Morgana e o mundo misterioso de Avalon (o que pode levar o leitor a recordar da série As Brumas de Avalon).

O livro é maravilhoso por mostrar uma relação sem amor, às antigas regras da sociedade que colocam a mulher em uma posição de submissão, trancando a sete chaves os seus desejos para ser aceita pelos demais. Os questionamentos de Marianne, suas idas e voltas, seus complexos, fazem qualquer mulher entender os motivos de cada uma de suas ações e confusões.

A leitura é maravilhosa por mostrar toda uma transformação de redescoberta, onde vida e morte andam em paralelo, nos lembrando de que não existe o dia de amanhã, que para ser feliz é preciso domar as rédeas do próprio destino.

Piegas? Em nenhum momento. Talvez na etapa final tenha um momento um tanto inverossímil, mas nada que diminua todo o encanto da narrativa.

Além de Marianne há histórias paralelas de todas as formas de amor, onde força e covardia dividem espaço, algumas com mais profundidade, outras de forma superficial.

Conclusão de tudo me apaixonei pela narrativa de Nina George, e a cada livro finalizado tenho vontade de pegar um avião e me perder pelo interior da França.

O Maravilhoso Bistrô Francês
Die Mondspielerin
Nina George
Tradução: Petê Rissatti
Editora Record
2011 – 279 páginas

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A Praça do Diamante



“Mas ela me fez acompanha-la querendo ou não, porque eu era assim, sofria se alguém me pedia alguma coisa e eu tinha de dizer não.”

Na primeira página do primeiro capítulo Natália descreve a sua personalidade com a simplicidade e até mesmo uma ingenuidade com a qual ela irá levar o leitor por todas as páginas do livro.

Seus sims irão selar o seu destino, e o resultado disso pode tanto entediar como encantar quem acompanha a sua história.

No meu caso a personagem me cativou, vi perder sua identidade para ser a Colometa de Quimet, um homem que podia ser encantador ou cruel conforme a sua necessidade. Ser engolida pela guerra civil espanhola em um total desamparo e miséria. 

Mercè Rodoreda, assim como Raquel de Queiroz em Três Marias, empresta parte de sua biografia para a personagem. O espelhamento entre os pombos e Natália (cujo apelido Colometa significa pombinha em catalão) permitem sentir o aprisionamento da personagem em um casamento que lhe suga até a alma. Sua incapacidade de dizer Não é a chave para uma loucura que como ondas podem puxa-la ao fundo ou devolve-la de soco para a areia.

Ao mesmo tempo ela é uma mulher que está sempre buscando forças, mesmo que seja o toque em uma balança desenhada em um corrimão. Ao ver-se sem dinheiro, ela vai em busca de trabalho, e toma decisões difíceis ao se ver no limite da sobrevivência.

A Praça do Diamante não é para chorar, mas para refletir. Os perfis psicológicos ali traçados misturados com o momento histórico são narrados de forma delicada e cuidadosa, mesmo em momentos que podem provocar aflição no leitor.

A Praça do Diamante
La plaça del Diamant
Mercè Rodoreda
Tradução Luis Reyes Gil
TAG – Planeta
1965 – 253 páginas

domingo, 31 de dezembro de 2017

As Três Marias


Publicado originalmente em 1939, pela forma fluída e direta poderia ter sido lançado ontem. Em uma obra que mistura autobiografia e ficção, Rachel de Queiroz leva o leitor de volta a sua infância em um internado de freiras.

Entre imagens de santas tristes e romances franceses, três Marias, como as estrelas, se tornam amigas. Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são tão diferentes e tão parecidas, como sempre são as melhores amigas.

A questão familiar é forte, todas são órfãs de certa forma. Maria da Glória perdeu os pais, vive sonhando e é a mais sensível, bonita, é a que possui a história mais romantizada por não se fazer tão presente.

Maria José viu o pai abandonar a mãe por outra e deixa-las junto com os irmãos a própria sorte. Leva a religião católica a sério, é quem mais julga e se assusta, sendo o oposto da última Maria, e embora estejam sempre juntas, também não se sabe exatamente o que ocorre em seu coração.

Maria Augusta ou Guta é uma mulher moderna em uma época de guerras e sociedade mais rígida no interior. Órfã de mãe, não se sente a vontade com a madrasta e irmãos. Existe nela uma tristeza só amenizada pela ânsia de conhecer o mundo. Sim, aqui temos Raquel, a autora, colocando sua personalidade questionadora em uma menina que se torna mulher no decorrer das páginas. É nela que a história está toda centralizada.

Um livro para todas as idades, que leva o leitor a refletir sobre os próprios caminhos enquanto acompanha as três Marias traçando os seus. 

Para quem ler a edição da TAG há três adicionais: uma carta aberta de Heloisa Buarque de Hollanda e as críticas literárias de Elvia Bezerra e Mário de Andrade.

As Três Marias
Rachel de Queiroz
Edição TAG – José Olympio
1939 – 223 páginas