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sexta-feira, 23 de junho de 2023

Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1



Sinopse: A África é o berço da civilização e essa seleção de contos celebra sua cultura e influência, tão ricas e diversificadas quanto o próprio continente. Na África setentrional, as histórias de sultões e seres mágicos deixam entrever a influência moura; nas verdejantes florestas do Congo, sociedades de animais cuja inteligência sobrepuja à do ser humano; nas ilhas orientais, as alegorias morais das antigas civilizações tribais. Contos folclóricos africanos reúne histórias coletadas por exploradores, governantes e missionários europeus, em sua maioria contadas diretamente pelos nativos. São narrativas transmitidas verbalmente, de geração em geração, por provavelmente centenas de anos. Os contos revelam o folclore, crenças e códigos de ética africanos. Curiosamente, essa mitologia pré-colonização encontra ecos em muitas outras ao redor do mundo.

Encontrei Contos Folclóricos Africanos entre os ebooks gratuitos, disponibilizado para o público geral, na Amazon. E como gosto de edições de bilingues para me ajudar a estudar inglês já aproveitei para baixar.

De rápida leitura, o conjunto me lembrou um pouco as 1001 noites com as próprias histórias regionais que temos no Brasil, já que as histórias misturam a cultura africana com contos fantásticos, ao trazer animais falantes ou incidentes que se repetem muitas vezes.

Não se pode confiar nos filhos de Adão. O que querem de mim?


Por derivarem da narrativa oral, demonstrando que são histórias carregadas a muitos anos, passando pelas diversas mudanças no mundo, então sim, haverá momentos de machismos e situações que nos tempos atuais são estranhas. Mas nem por isso menos importante de se conhecer, já que só aprendendo com o passado se terá um presente e um futuro melhor.

Mas chega de bla bla bla e vamos ao breve resumo dos contos.


O filho do médico e o rei das cobras 

Um rapaz órfão de pai é incentivado pela mãe a procurar uma profissão, sem conseguir se encontrar nos primeiros ofícios, ele busca saber a profissão do pai, que era médico.

Mas antes que encontre os livros para entender a atividade, é chamado pelos vizinhos para cortar lenha durante uma semana, onde ele é enganado e abandonado.

Quando estiver em sua cidade, não tome banho com muitas pessoas.


Para sobreviver acaba buscando um caminho, e é nele que encontrará o rei das cobras.


O Macaco, a cobra e o leão

Uma viúva passa dificuldades financeiras para sustentar o filho na aldeia que moram. Conforme ele cresce, opta em seguir a profissão do pai de caçador e espalhar armadilhas na floresta próxima.

Mas com o passar do tempo, o menino descobre que pegar um animal não é tão rápido e fácil assim, até prender um macaco. Mas invés de matar, ele acaba aceitando o trato de salva-lo para um dia ser salvo também.

Nunca ajude homem nenhum, pois ele se voltará contra você na primeira oportunidade.


E o mesmo ocorre com uma cobra e um leão, e todos, sem exceção, após libertos lhe recomendam nunca ajudar um homem. Até que um dia um homem fica preso a sua armadilha.


Os pretendentes da princesa gorila

O primeiro fato interessante neste conto é que ele se inspira na chegada do rum na África, aqui chamado de nova água. Ao mesmo tempo que justificaria o motivo pelo qual o bando de micos vive nas árvores e não mais no chão.

Fez uma única e vã tentativa. Foi embora com o rabo baixo, rastejando de vergonha.


Na história a linda filha do Rei Gorila chegou na idade em que deve se casar, e o rei avisa a todas as tribos e impõe uma regra: o seu futuro genro precisava beber um barril inteiro da nova água. Uma tarefa nada fácil.


Ga'so, o professor

Aqui temos um homem que ensinava as crianças a ler debaixo de uma cabaceira e morreu ao ser atingido por um fruto enquanto preparava a sua aula.

Vejam só! Não é capaz de dizer uma palavra sequer para se defender.


Quando os alunos o encontram são tomados pela tristeza e pelo desejo de encontrar o assassino, que tem como suspeitos o vento sul, uma parede de barro, um rato, entre outros que eles vão encontrando ao longo de sua investigação um tanto violenta.


Por que os bodes são animais domésticos

Outra história que aborda porque um animal mudou o seu destino original. Aqui um bode vive em uma aldeia com sua mãe quando anuncia que tem uma poção que o torna invencível.

Que vergonha um animal desse tamanho derrotar um de nossa espécie.


Logo a notícia se espalha e chegam os seus desafiantes, mas nem todos irão aceitar perder a luta com facilidade, e a floresta passa a ser extremamente insegura.


O leopardo de pele lisa

Em um reino, a filha favorita de um rei ganhou o direito de escolher o próprio marido. 

Vejam que homem lindo! Que belo rosto e que porte!


Os pretendentes precisam atender a um único pré-requisito: não ter nenhuma mancha na pele. E assim ela auditava cada um que a pedisse em casamento, dispensando ao encontrar qualquer pinta mínima ou cicatriz.

O desafio chegou até o mundo animal, onde poções o ajudavam a se transformar na forma humana. Mas a escolha da difícil princesa foi sábia?


O tambor mágico

Outro conto que explica a mudança de localização dos animais, neste caso os cágados que vivem somente na água.

Em mundo que humanos e animais viviam em harmonia, cágados e leopardos ocupam uma mesma rua.

Usavam-no de maneira tão excessiva que o instrumento se aborreceu e, exaurido, não produzia mais nenhuma comida.


Mas a região sofre com a escassez de comida, fazendo com que seus habitantes começassem a morrer de fome.

Na busca por alimento, o Cágado irá se aventurar por outros lugares, mas o que ele irá encontrar mudara a vida da sua espécie para sempre.


Por que o sol e a lua vivem no céu

Neste conto o sol e a lua eram casados e viviam na Terra. O sol era um grande amigo da água e sempre a visitava, mas a água nunca retribuía as suas visitas, alegando que a sua casa era pequena para todo o seu povo.

Se você quer que eu o visite, construa uma grande aldeia. Terá que ser realmente imensa. Meu povo é numeroso e ocupamos muito espaço.

E assim o sol começou a construir uma aldeia realmente grande para receber a sua amiga  e toda a sua família, que ao término da obra, aceitou o seu convite.

O que o casal não imaginava era que a amiga era demasiada espaçosa.


O que eu achei de Contos Folclóricos Africanos

A leitura rápida em estilo de fábula serve tanto para conhecer histórias de outras culturas, ao mesmo tempo que foi possível observar como brasileira os contos do nosso país que revelam semelhanças com as trazidas pelos navios.

Também é interessante como as histórias possuem pontos em comum, como iniciarem com uma viúva e um bebê, onde a mulher precisa criar sozinha o filho e o menino ao crescer resolver seguir a profissão do pai para tirá-los da pobreza.

Outro ponto que me chamou a atenção é que ao mesmo tempo que temos muitas vezes famílias e tribos representadas por animais, é possível ver que nada mais são do que alegorias das famílias e sociedade humana, tornando tudo muito interessante.

Como eu gosto de contos, achei muito bacana tanto para relaxar quando para estudar. Ficando a dica, já que a sua distribuição é gratuita.


Contos Folclóricos Africanos - Vol. 1
Elphinstone Dayrell, George Bateman, Robert Hamill Nassau
Tradução: Gabriel Naldi
SESC - mojo ong


terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Sejamos todos feministas



Sinopse: A autora deste livro, Chimamanda Ngozi Adichie, é escritora e feminista. Mas, afinal, o que é ser feminista? Quando ouviu essa palavra pela primeira vez, Chimamanda ainda era criança e morava na Nigéria, país em que nasceu. Desde então, ela pensou muito sobre o termo ― e sobre os direitos das mulheres no mundo. Anos mais tarde, ela compartilhou suas reflexões sobre igualdade a todos, homens e mulheres, e você as encontra neste livro. E agora é a sua vez de refletir sobre o assunto também!

O que é ser Feminista? Conforme o dicionário é relativo ou pertencente ao feminismo. E não raro se tem uma visão distorcida do seu significado, algumas vezes acompanhado de deboche, outras com uma expressão de medo, como se o feminismo fosse algo perigoso.

Por este motivo gostei muito do rápido, objetivo, direto e bem escrito Sejamos todos feministas da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, cuja leitura pode ser realizada tanto por pré-adolescentes quanto adultos de todas as idades.

"Sabe de uma coisa? Você é feminista!" Não era um elogio.


O livro, que é curtinho, é uma versão modificada de uma palestra dada pela autora no TEDxEuston em 2012, cujo foco era a África. Decidida a tocar em um assunto ao qual ela acredita ser necessário ter mais diálogo, acabou encontrando bons ouvidos na plateia. E essa boa aceitação trouxe as palavras daquele dia para um livro.

E por ser baseado em uma palestra, Sejamos todos feministas é totalmente baseado nas experiências pessoais de Chimamanda Ngozi Adichie. Da primeira vez que foi chamada de feminista aos quatorze anos, e não de forma elogiosa.

Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.


Do conselho que recebeu de um jornalista - Homem - de nunca se intitular feminista, já que estas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Uma frase que parece do período medieval, mas é de 2003.

Ou uma professora universitária nigeriana afirmar para a escritora que o feminismo não fazia parte da cultura africana, e que a escritora havia sido corrompida pelos livros ocidentais.

Tanto um homem como uma mulher podem ser inteligentes, inovadores, criativos. Nós evoluímos. Mas nossas ideias de gênero ainda deixam a desejar.


E naturalmente temos os exemplos práticos, como quando a escritora tirou a nota mais alta de sua turma escolar, mas não foi escolhida para ser monitora pela professora por ser menina.

Ou quando ela deu uma gorjeta para um rapaz que ajudou a estacionar o carro, mas quem recebeu o agradecimento foi o amigo homem que estava junto.

Perdemos muito tempo ensinando as meninas a se preocupar com o que os meninos pensam delas. Mas o oposto não acontece.


Ir sozinha em bares em Lagos, na Nigéria? Fora de cogitação, é necessário ter um homem acompanhando ou não entra no recinto.

Assim como questionamentos óbvios, como pode 52% da população mundial ser feminina e a maior parte dos cargos serem ocupados por homens? Por que pessoas de gêneros diferentes ocupando exatamente o mesmo cargo possuem diferenças salariais?

O modo como criamos nossos filhos homens é nocivo: nossa definição de masculinidade é muito estreita.


No cotidiano, o fato de muitas vezes os garçons darem a sua atenção ao homem, como se ele tivesse o poder de decisão sobre as escolhas da mulher. O fato de homens acharem que mulheres não podem expressar a sua raiva. Ou de muitas vezes assistirem um homem emitirem a mesma opinião ou ideia depois de uma mulher já há ter pronunciado, mas são eles os elogiados.

Naturalmente no Brasil as mulheres não possuem tantas restrições quanto as que vivem na Nigéria, mas não é difícil identificar pontos em comum. 

Ensinamos que, nos relacionamentos, é a mulher quem deve abrir mão das coisas.


E não estamos falando em odiar homens, queimar sutiã, ou deixar de se depilar. E sim de ter as opiniões levadas em conta, de sermos respeitadas em todos os lugares, de ocuparmos o nosso lugar no mundo.

E assim concordo muito com a autora quando ela cita a criação dos filhos, principalmente os meninos, já que muitas mulheres reproduzem em casa o machismo nas atitudes e nas falas, ensinando desde cedo que a mulher é uma cidadã de segunda classe, que um homem não pode ter fraquezas, sendo sempre fortes.

Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero.


O que leva à conclusão de que não apenas mulheres devem ser feministas, mas também os homens, de todas as idades. Pois só assim irá se conquistar uma igualdade não só nos ambientes de trabalho, mas de respeito em qualquer esquina que uma mulher desejar ir.

Sejamos todos feministas para assim se ter um mundo melhor, e só por esta razão o livro da Chimamanda merece mais do que a sua leitura, mas a sua atenção e a empatia de se colocar no lugar de cada mulher.


Sejamos todos feministas
Chimamanda Ngozi Adichie
Tradução: Christina Baum
Companhia das Letras
2014 - 87 páginas


terça-feira, 1 de novembro de 2022

À beira-mar



Sinopse: Do vencedor do prêmio Nobel de literatura de 2021, uma história arrebatadora de amor e traição protagonizada por dois homens que dividem um turbulento passado em comum.

No mês de Julho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro à beira-mar, do escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah. A indicação foi da própria TAG, que completou oito anos e enviou uma edição ainda mais caprichada para cantar parabéns junto com os seus assinantes. O mimo foi o livro Os sofrimentos do jovem Werther, primeiro romance do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Saleh Omar chega ao Gatwick Airport na Inglaterra como um refugiado em busca de asilo. Ao contrário de muitos que fazem o mesmo caminho, ele já não é jovem, o que surpreende todas as pessoas que ele encontra pelo caminho.

Estava acostumado com funcionários que fulminam e cospem em você pela menor das faltas, que brincavam com você e o humilhavam pelo puro prazer de brandir sua sagrada autoridade.


Sua esperança consiste no fato do governo britânico conceder asilo a qualquer um que diga estar sofrendo risco de morte. Seguindo as orientações recebidas ainda na sua terra natal, ele finge não saber falar inglês, pronunciando apenas as palavras Refugiado e Asilo. E assim ele escuta todo o monólogo preconceituoso do policial que o atende – ironicamente um descendente de refugiados da Romênia-, para no final ter que aceitar de boca fechada o policial roubar o seu ud-al-qamari, um objeto de inúmeras lembranças.

Quem lhe presta assistência é Raquel Howard, a conselheira jurídica de uma organização de refugiados. É ela que o encaminha para as primeiras moradias - de um centro de refugiado, passando pela casa de uma senhora que ganha para recebe-los até ter um espaço só seu -, e faz visitas para acompanhar a sua adaptação. Por inicialmente fingir não falar inglês, Raquel providencia um interprete: Ismail Latif Mahmud.

Mas o mundo todo já havia pagado pelos valores da Europa, mesmo se durante boa parte do tempo tivesse pagado repetidas vezes sem usufruir deles.


Latif, assim como Omar, é um fugitivo de Zanzibar. Mas sua fuga ocorreu há muito mais anos, quando fugiu da Alemanha Oriental, ao qual foi enviado para estudar. Só que o país de origem não é a única coisa em comum entre os dois, pois como o destino gosta de brincar, é hora de retornar a um passado que nenhum dos dois esqueceu.

Um acontecimento em comum os une, não só como memória, mas como fator determinante para que estejam novamente frente-a-frente, ambos fugitivos, ambos marcados por inúmeras tristezas.

Agora nos continham, um incômodo casual e sem valor que precisava ser mantido sob vigilância.


O encontro destes dois homens irá desenterrar velhas lembranças, e enquanto eles enfrentam os próprios fantasmas, o leitor descobre não só sobre as suas vidas, como toda a cultura e mudança política do seu lugar de origem.


A escrita de Abdulrazak Gurnah

À beira-mar possui dois narradores: Saleh Omar e Latif, que contam a sua história sob o seu ponto de vista, o que em muitos momentos servem para complementar ou deixar em dúvida o leitor em relação ao comportamento e caráter de um dos personagens.

Assim como o mar, o autor Abdulrazak Gurnah convida página a página a mergulhar mais fundo na história, com momentos de calmaria, outros de contradição, de alegria e também muita dor. 

Ninguém capaz realmente de me ver, gente sofrendo a pressão de seu próprio trabalho e conhecendo incontáveis histórias e descrições de mendigos como eu.


Da religião mulçumana com suas regras, passando pela mulher casada que se utiliza do sexo para obter vantagem e vingança de homens poderosos, o homossexualismo conhecido, mas não escancarado. Até chegar as regras de um país que muda conforme quem está no poder, trazendo a população muitas incertezas.

Por explorar a história dos dois muito além da superfície, e por sabermos como ele estão no presente, é um livro que explora muito da memória, não só dos homens que compartilham as suas experiências pessoais, mas de um país inteiro.

Esta é a casa em que vivo, pensei, uma linguagem que late e me menospreza atrás de cada esquina.


E por isso mesmo também de escolhas e caminhos escolhidos, sobre como cada palavra ou atitude podem mudar um destino. Ao qual pode determinar inclusive a solidão por vontade própria.


O que eu achei de à beira-mar

Eu gostei muito da narrativa do escritor Abdulrazak Gurnah. Se no momento presente temos dois narradores ainda vivendo as perdas de um passado e tentando recomeçar do zero em um lugar totalmente novo. O antes é recheado de dúvidas, trapaças, mesquinharias e muita vingança.

Vingança que ganha ainda mais espaço quando entra a parte da história política de Zanzibar, uma ilha pequenina da África que viveu uma revolta sangrenta em 1964, com prisões arbitrárias, assassinatos e perseguições. O que motivou pessoas como o próprio autor a fugirem para o Reino Unido e recomeçarem.

Houve tanta crueldade em sua vida que hesito em julgá-lo com severidade, mas era negligente.


Motivo pelo qual Abdulrazak Gurnah pode narrar com propriedade de quem sentiu na pele o tratamento recebido pelos exilados, em como é abandonar tudo o que você conhece para recomeçar em um local novo, onde nem todos os habitantes desejam a sua presença.

Ficando assim a minha recomendação para quem gosta de livros mergulhados em memórias, com recomeços após perder tudo, e em que a história é construída com base em acontecimentos e vivencias reais. 


à beira-mar
By the Sea
Abdulrazak Gurnah
Tradução: Jorio Dauster
TAG Curadoria - Companhia das Letras
2001 - 365 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Menino Mamba-Negra



Sinopse: ÁDEN, IÉMEN, 1935. Uma cidade vibrante, viva, cheia de perigos ocultos. E lar de Jama, um garoto de dez anos que se vê sozinho no mundo após a morte inesperada de sua mãe. Para chegar na Somália, terra natal de seus ancestrais nômades, o menino cruza o Mar Vermelho. A guerra está no horizonte e as forças fascistas italianas que controlam parte da África Oriental estão se preparando para a batalha, mas Jama não pode descansar até descobrir se o pai, ausente de sua vida desde que ele era bebê, está vivo em algum lugar. Assim começa uma jornada épica que levará Jama ao norte através de Djibouti, Eritreia e Sudão, países devastados pela guerra, até chegar ao Egito. De lá, a bordo de um navio transportando refugiados judeus recém-libertos dos campos de concentração, o garoto segue através dos mares para a Grã- -Bretanha. Esta história da longa caminhada de um garoto em busca de liberdade também é a história de como a Segunda Guerra Mundial afetou a África e seu povo; uma história sobre sentir-se deslocado e, no fim, encontrar-se novamente.

Em novembro/21 foi o mês temático das caixinhas da TAG, onde os assinantes receberam afronarrativas. Pela minha assinatura da TAG Inéditos eu recebi Menino Mamba-Negra da escritora Nadifa Mohamed - nascida em Hargeisa, Somália - que usou a ficção para contar um pouco das aventuras do próprio pai.

Quando Ambaro estava grávida, aos dezessete anos, ela acabava se separando da caravana devido a sua lentidão. Um dia, cansada demais para seguir caminhando, sentou em uma velha árvore, e enquanto sua respiração normalizava, sentiu algo em suas costas, seguindo em direção ao umbigo. O que parecia ser uma mão se revelou uma mamba enorme, cobra venenosa e muito rápida, que se enrolou em torno da sua barriga. Sem se mexer, Ambaro viu a cobra pousar a cabeça em sua barriga e ouvir a batidas do coração do seu bebê. Depois de um tempo juntos, a cobra simplesmente a deixou, e assim ela passou a chamar o filho de Goode, que significa mamba-negra.


Conto a você esta história para poder transformar o sangue e os ossos de meu pai - e seja qual for a mágica que a mãe dele costurou debaixo de sua pele - em história.


Mas Ambaro e seu Goode - oficialmente conhecido como Jama - tiveram que abandonar a família, indo os dois para um lado e o marido para outro em busca de recursos financeiros para uma vida melhor. Morando de favor na casa de parentes distantes, eles são constantemente constrangidos e destratados.

Por trabalhar doze horas por dia, Jama passa rolando pelas ruas do Áden, sem ir para a escola e brincando com outros meninos. Mas a morte inesperada da sua mãe é o primeiro ato para o seu caminho mudar. Se em um primeiro momento a tia-avó o resgata e o leva de volta para Hargeisa na Somalilândia, mas um novo incidente o faz sair em busca do pai.


Meninos do mercado dos mais diferentes tons, credos e línguas se reuniam na praia para brincar, tomar banho e lutar.


E assim passamos a seguir a vida de Jama de outubro de 1935 até setembro de 1947, em uma jornada por Djibouti, Eritreia, Sudão, Egito e Londres, onde é possível acompanhar a presença de soldados em território africano, os efeitos devastadores da guerra e a reconstrução quando tudo chegou ao fim.


Os Personagens

Jama é o personagem principal da história, mas isso não significa que os outros apenas orbitem ao seu redor, pois apesar de todos os percalços, ele teve vários anjos em sua vida.

Mas é através das suas lembranças que conhecemos o amor de Ambaro e Guure, os pais de Jama, cujos perfis eram muito diferentes dos seus clã, a ponto de Ambaro desafiar a família para se casar com Guure.


Me perdoe, meu bebê serpente, e não viva a vida que eu vivi, você merece coisa melhor.


Já Abdi e Shidani são tio e sobrinho com pouca diferença de idade, crianças que se aventuram nas ruas de Áden com Jama e mais tarde o reencontro em um acampamento militar. Dupla que ganhou o meu coração e o deixou pesado na inútil luta nas montanhas de Eritreia.

Entre os que ajudam, compartilhando um pouco de sua história, estão Jinnow, Idea e Amina, Jibreel e Lorenzo, entre outros, alguns bons, outros que não são exatamente flor que se cheire, mas que de certa forma permitiram a sobrevivência ao longo caminho do menino que vira homem em meio aos obstáculos.


Nenhuma pessoa morre de verdade enquanto há outras que se recordam dela, que têm afeto por ela.


Há também outros personagens de presença marcante que não irei nomear justamente para não estragar a expectativa de leitura, pois mesmo para os mais curiosos é necessário deixar alguns elementos surpresas.

Mas o fato é que ninguém aparece à toa, todos representam um povo, uma determinada situação, um momento da história, enriquecendo ainda mais o relato. Seja por um capítulo ou aparecendo e desaparecendo conforme o vento levava Jama.


A narrativa de Natifa Mohamed

Natifa Mohamed não é somente a escritora, mas também a narradora da história que nos conta, ou como ela diz o griô do seu pai. E com razão, pois a autora a colocou no papel para contar ao mundo as aventuras e desventuras não só do pai-herói, mas também das comunidades que ele percorreu.

Não um herói de espada e capa, ou romântico que arranca suspiro das donzelas. Mas de um menino que sobrevive à miséria, a violência, a humilhação, as perdas afetivas, e mesmo assim segue em busca dos sonhos, do destino dourado prometido e tantas vezes repetido pela sua mãe.


O ar exalava uma corrupção, um aroma misturado de sordidez, suor e fezes de cabra.


E o seu olhar é gentil e poético, as vezes terno em meio a dor. Pois onde a fome e morte se unem o sofrimento pulsa mais forte que as batidas do coração.

Ao mesmo tempo ela nos dá uma visão dos costumes, da existência de hierarquia mesmo entre os mais pobres, a divisão em clãs, as crenças, alguns rituais, as festas e as comidas.


À sua frente, havia as maiores montanhas e colinas que já vira, subindo além das nuvens.


Somado a isso temos uma forte crítica ao colonialismo europeu no continente africano, assim como uma visão forte do comportamento dos vencedores após a guerra com os colonizados e as vítimas do regime nazista.


O que eu achei

Eu gostei muito do livro, me senti viajando junto com Jama pelas estradas, o frio na espinha em cada situação complicada, mesmo sabendo desde o início que ele iria sobreviver, afinal Natifa nos revela logo de início que é o pai quem lhe conta as histórias.

Também achei ele bem escrito, fluído, do tipo que desperta a curiosidade em saber como ele se livrou de determinada enrascada, o que aconteceu após algum incidente, o que Jama havia feito a seguir. 


Queria encostar na barba por fazer do pai, traçar o único rosto que tinha semelhança com o seu.


E talvez por isso a única coisa que me incomodou foi o final, pois como a história termina em 1947 e pelos agradecimentos e local de nascimento da própria autora é possível ver que outras mudanças aconteceram na vida de Goode, o que me deixou com o sentimento de que deveria haver uma continuação.

Fiz uma pesquisa rápida e a princípio não encontrei, mas se alguém souber, por favor, deixe o título nos comentários.


Achava tudo interessante agora, fascismo, comunismo, anarquismo, só conseguia confiar no que era claramente idiota.


E como não poderia deixar de ser, eu naturalmente recomendo a leitura. Com certeza irá agradar quem quer saber mais sobre a África, para quem gosta de uma aventura baseada em histórias reais, para quem fica mais esperançoso ao ler superações, para quem gosta de acompanhar relatos extremamente humanos.

Menino Mamba.Negra
Black Mamba Boy
Nadifa Mohamed
Tradução: Marina Della Valle
TAG - Tordesilhas
2010 - 284 páginas

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sonhos em tempo de guerra


Sinopse: Em Sonhos em tempo de guerra, uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea africana registra com delicadeza um passado que ainda tem muito a dizer ao presente. Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em uma região rural do Quênia, e cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. No cotidiano da família formada por seu pai, as quatro esposas - a terceira delas sua mãe - e os muitos irmãos, Ngũgĩ localiza as origens do futuro narrador: histórias contadas ao redor do fogo e uma sede insaciável de aprendizado após o primeiro contato com a escola.


No mês de agosto/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor brasileiro Jeferson Tenório o primeiro livro do projeto autobiográfico do escritor, pensador e professor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o chamado Sonhos em tempo de guerra. O mimo foi um jogo para formar palavras, que já foi para as mãos da minha filha - e cá entre nós, uma ótima forma de estudar a escrita das palavras.

Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em 1938 em um país que ainda era colônia britânica. Quinto filho de sua mãe, e um dos vinte quatro de seu pai, vivia circulando entre as cinco cabanas posicionadas em forma de círculo, onde cada uma pertencia a uma das esposas e a principal era do seu pai.


Minha mãe era muito boa em fazer aparecer uma refeição por dia, mas quando se tem fome, é melhor encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para afastar a mente das lembranças de comida.


A convivência familiar era de muitas histórias e contrastes de personalidade. O pai começa como um homem rico para a comunidade e reservado, de pouco contato com seus numerosos filhos, mas por ações dos colonizadores vê suas conquistas escaparem por seus dedos, mudando sua forma de lidar com os familiares ao se entregar a bebida. Já as mulheres sempre foram muito agitadas, fazendo rodas para compartilhar lendas e fatos passados, cozinhando e tratando com afeto todas as crianças que circulam pelo local, vivendo em uma harmonia talvez inesperada para tantas esposas.

Sua mãe sempre incentivou os estudos, algo que os seus irmãos mais velhos não deram sequência. Uma das melhores frases da história vem dela, que sempre perguntava ao filho quando este lhe falava dos seus aprendizados, provas e conquistas: "Foi o melhor que você conseguiu fazer?", mas não em tom de cobrança, e sim se ele havia se esforçado para aquilo. O resultado é um menino que adora aprender e sempre está buscando o seu melhor nas situações mais adversas. 


As esposas de meu pai, ou nossas mães, como as chamávamos, revezavam-se para levar comida à sua cabana.


É ela também a responsável por uma mudança na vida do garoto, quando após um episódio de violência doméstica decide retornar para a casa do próprio pai. O avô materno, ao qual o garoto herdou o nome,  acaba se tornando uma referência masculina, fazendo com que Ngũgĩ sinta muito orgulho de virar seu escriba particular e ter permissão para compartilhar de sua mesa.

E é acompanhando o crescimento do menino Ngũgĩ que o leitor entender como os quenianos viraram soldados para defender a Inglaterra durante a segunda mundial, os riscos que eles corriam por fazer fronteira com territórios pertencentes a Mussolini e as diferenças na distribuição de recompensa quando tudo terminou.


Todos, os professores, os estudantes, parecem esplêndidos em sua estranheza.


Assim como conhecer a Revolta dos Mau Mau, conflito presente em grande parte da sua adolescência, durante os anos de 1952 e 1960 que lutava pela independência do Quênia, citando personagens históricas do país como Jomo Kenyatta, que foi referência do grupo e o primeiro presidente do Quênia.

Neste ponto temos o irmão mais velho por parte de mãe largando a carpintaria para se juntar a luta pela independência, o Bom Wallace é uma referência forte ao menino Ngũgĩ, pois ele também frequentou a escola e apoia o garoto no aprendizado, demonstrando sentir orgulho ao dar importância a todas as etapas e conquistas do irmão mais novo.


A crença em si mesmo é mais importante do que intermináveis temores acerca do que os outros pensam de você.


Narrado em primeira pessoa, o escritor Ngũgĩ wa Thiong'o compartilha em Sonhos em tempo de guerra as primeiras memórias da infância até a sua entrada no ensino médio. Entre pequenos acontecimentos familiares, que vão de brincadeiras, comidas, o primeiro uniforme e os homens que admirava, passando por momentos históricos do período.

Para o leitor pode ser bastante perturbador ver a necessidade que os colonizadores tinham de se adonar dos bens das famílias, em uma enorme falta de respeito com os povos que ali estavam quando eles chegaram. Ao mesmo tempo se entende há não compreensão que estes novos habitantes sentiram em relação à cultura, como o costume da circuncisão, algo que ainda hoje é muito discutido, principalmente a feminina. Embora isso não justifique a tentativa de apagar toda a história de vários povos, como ocorreu em quase todos os países colonizados.


Uma conversão bem-sucedida era medida a partir de quão rápida, profunda e completamente alguém se despojava de sua cultura e adotava novas práticas e valores.


Também me chamaram a atenção a busca por manter as próprias tradições por meio da escola, onde o autor frequenta tanto a estrutura organizada pelos missionários quanto as criadas pelos quenianos que completaram os seus estudos. Contando os leitores as diferenças encontradas nas duas formas de ensino, que vai das disciplinas - com ênfase especial para o ensino da língua inglesa-  até o aspecto comportamental que inclui as atividades extracurriculares. 

Eu gostei do livro, mas confesso que apesar de eu adorar livros históricos, confesso que a forma como ela foi abordada na narrativa pesou um pouco na fluidez da leitura. Não, não estou dizendo que é ruim, mas existe nitidamente uma pausa para explicar o contexto histórico, dando uma sensação de explicação de sala de aula - como ele é professor, talvez isso explique o estilo -, quebrando muitas vezes o fluxo narrativo nesta troca de visão pessoal, contexto histórico e retorno as memórias.


Talvez sejam os mitos, tanto quanto os fatos, que mantenham os sonhos vivos mesmo em tempo de guerra.


E apesar do livro ser o primeiro de uma série autobiográfica o seu final não exige obrigatoriamente a leitura em sequência do próximo livro, já que ele fecha de forma redonda. Ficando a opção de procurar os demais para quem quer saber como Ngũgĩ wa Thiong'o e sua família, em paralelo com o próprio Quênia, seguiram durante os seus próximos anos e conquistaram a sua independência, e no que este marco influenciou a vida deles.

Ficando a dica de leitura para quem gosta de biografias, de fatos históricos ou anda na busca de livros que permitam conhecer melhor o continente africano.


Sonhos em tempo de Guerra - Memórias de Infância
Dreams in a time of war: A childhood memoir
Ngũgĩ wa Thiong'o
Tradução: Fábio Bonillo e Elton Mesquita
TAG - Biblioteca Azul
2010 - 248 páginas

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terça-feira, 31 de agosto de 2021

O Mapeador de Ausências


Sinopse: Diogo Santiago é um respeitado intelectual moçambicano. Poeta e professor universitário em Maputo, ele volta pela primeira vez em anos à Beira, sua cidade natal, às vésperas do ciclone que a arrasou em 2019. Não se trata apenas de um regresso a certo lugar, mas também ao passado longínquo de sua infância e juventude, quando Moçambique ainda era colônia portuguesa. Entre os vivos e os mortos, Santiago revisitará os personagens que fizeram parte de sua história.

No mês de julho a TAG completou sete anos, e como celebração, eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o envio do livro inédito do escritor moçambicano Mia Couto, que traz em O Mapeador de Ausência, não apenas a grafia vigente no português de Moçambique como alguns de seus fatos históricos. Recebi como mimo uma ecobag do Edgar Allan Poe. Sim, estou com uma coleção de ecobags da TAG, qualquer dia envio um e-mail para enviar em um tamanho maior para usar nas compras de mercado.

Em 2019 o poeta Diogo Santiago recebe um convite para retornar à Beira, sua cidade natal, onde é recebido com honrarias. Entre os lugares de infância, muitas memórias da infância, principalmente da figura do seu pai, um poeta e jornalista pertencente a um grupo de resistência aos portugueses, vão preenchendo os seus pensamentos.


Escrevo a dedicatória, torno-me numa espécie de autor póstumo


Existe uma melancolia no seu espírito, e conforme é dito por ele, essa viagem também é uma recomendação médica, como se os lugares tão conhecidos pudessem responder perguntas a tantos anos feitas, assim como matar um pouco da saudade que o acompanha.

As ausências são acentuadas ao conhecer Liana Campos, sua mestre de cerimônia e neta do inspetor Óscar Campos da PIDE  – sigla para Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia salazarista do ditador português António de Oliveira Salazar - que prendeu o seu pai, o poeta Adriano Santiago, durante a guerra de libertação de Portugal, época que Moçambique ainda pertencia ao país europeu. 


A poesia não é um gênero literário, é um idioma anterior a todas as palavras.


Ela lhe entrega vários papéis que estavam com a PIDE e foram guardados por Campos que são relacionados a Adriano, incluindo cartas, diários pessoais e relatórios, o que faz com que ambos circulem por cidades próximas. 

Em comum, ambos possuem uma busca pendente. Ela está atrás da história de Almalinda – também chamada Ermelinda – sua mãe já falecida que se tornou uma figura do imaginário local., Já Diogo quer saber se o primo Sandro Santiago ainda está vivo, jovem considerado doente pela família por apresentar um comportamento afeminado, que sumiu durante o período que servia ao exército português. 


Levo esse livro ao rosto, aspiro o aroma do papel, cheiro o tempo como fazem as mulheres com a roupa dos ausentes.


Em uma corrida contra o relógio tudo precisa ser feito de forma rápida, pois um ciclone está para chegar, mas eles são atingidos antes pelos ventos das lembranças, e ao se deparar com o passado, eles podem finalmente enfrentar sentimentos que os corroem no presente.

Eu sou suspeita para resenhar qualquer livro do escritor Mia Couto, já que sou uma apaixonada pela sua escrita, e como ocorreu em outros livros dele, como A menina sem palavras, O Mapeador de Ausências me encantou.


Um milagre chamado internet. É uma seita com mais seguidores que qualquer religião. E já tem fanáticos...


Alternando a narrativa em primeira pessoa de Diogo com os documentos que ele lê, vamos acompanhando pouco a pouco, de forma poética mesmo nos momentos mais difíceis, dos títulos de cada capítulo, as frases de abertura, os documentos colocados nem sempre em ordem cronológica, as pequenas "brincadeiras" com a memória, enfim, absolutamente tudo tornam a imersão na história mais completa e profunda.

Além disso temos um conjunto de personagens incríveis, como a mãe de Diogo, Virgínia Santiago, que convive com uma sogra difícil, um marido infiel e com a cabeça nas nuvens, e mesmo assim não perde a simpatia com os outros.


Vai falando de si mesmo, sempre de olhos fechados, como se lhe custasse suportar a luz do dia.

A família Fungai também nos complementa e muito a história, como a forte Maniara que nomeia em praça pública os mortos, e seu filho Benedito, que de empregado da família Santiago assumiu o seu papel político, e em pequenos diálogos mostra que mesmo entre as famílias mais engajadas havia invisibilidade.

Somado a isso há o toque de autobiografia e realidade, conforme indicado na nota de abertura do autor, que nos informa que a ficção foi inspirada em pessoas - como o próprio autor do Mia Couto -, episódios - como o massacre cometido pelas tropas portuguesas descritas no livro - e lugares reais, como a própria Beira, cidade natal do escritor. Fazendo o leitor viajar entre o período atual e a década de 1970.


Aprendi que os homens de grandes ideais são, muitas vezes, pessoas de poucas ideias.


Na minha visão o livro explora muito bem os laços que construímos ou não com pessoas e locais, assim como situações da nossa própria história que queremos lembrar, que queremos esquecer ou que muitas vezes mudamos para dar um toque especial em nossas memórias. 

Também nos deparamos com as semelhanças e diferenças dos senhores da guerra com aqueles que combatem, hora espelho, hora contraste, temos um toque de humanidade em meio ao desumano, como se separando os que mandam dos que são mandados. E mesmo entre os que combatem encontramos os que impedem a liberdade, podam entre os seus o direito de fazer suas próprias escolhas, obrigando a se adequar ao que é considerado correto.


Alguém disse que a esperança alimenta multidões. Pois eu digo: o desespero cria exércitos alucinados.


Um livro que decidi ler com calma, e me via espantada ao final de cada dia o quanto de páginas já passadas, ao qual encerrei com um misto de satisfação e tristeza por ter chegado ao fim.

E para quem ficou com vontade de ler, leitura que mais do que recomendo, e não é associado da TAG, a boa notícia é que a Companhia das Letras já está preparando o lançamento da edição que irá para livrarias. Então coloca na tua lista de desejos e já fica de olho.

O Mapeador de Ausências
Mia Couto
TAG - Companhia das Letras
2020 - 293 páginas

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terça-feira, 25 de maio de 2021

A garota que não se calou



Sinopse: A garota que não se calou conta a história de Adunni, uma jovem que, mesmo tendo crescido em uma vila rural nigeriana, almeja por estudar e ser ouvida. Após ser vendida pelo pai para ser a terceira esposa de um homem ansioso para que ela lhe dê um herdeiro, Adunni foge, buscando transpor os obstáculos da pobreza, do machismo e de uma sociedade arcaica. Corajosa, Adunni vai contra todos aqueles que dizem que ela não pode sonhar.

No mês de abril a TAG Inéditos enviou para os associados a inspiradora história A garota que não se calou, da escritora nigeriana Abi Daré. Como mimo, um pequeno copo de vidro, eu recebi A Hora da Saideira da Clarice Lispector, uma referência a conhecida obra A Hora da Estrela, já resenhado por aqui.


Pra dizer a verdade, o dia que eu parei de ir pra escola e o dia que minha mãe morreu são os piores da minha vida.


A mãe de Adunni sempre incentivou a filha a estudar, dizendo que esta é a forma de tornar sua voz mais alta e se fazer ouvir pelas pessoas ao seu redor. Antes de morrer, ela faz o marido prometer que não irá casar a menina de quatorze anos e seguirá pagando os estudos da filha, para que ela tenha um futuro diferente das outras meninas que a cercam.

Mas o pai de Adunni não cumpri a promessa. Em meio à pobreza extrema, ele opta em ficar com os dois filhos meninos e em troca do dote da filha aceita o pedido de casamento de Morufu, um homem mais velho que trabalha como motorista de táxi da aldeia onde eles moram.


Eu não quero chorar na frente desse homem. Eu nunca, nunca quero mostrar para ele nenhum sentimento meu.


Morufu já possui duas esposas, e com elas só teve filhas mulheres, e assim ele consome a relação sem dó e piedade com essa menina-criança, em busca do filho homem. Enquanto se adapta a uma rotina longe dos estudos, Adunni acaba se envolvendo em uma situação perigosa, que a faz fugir e assim romper os laços com a família.

Levada para trabalhar como empregada doméstica em Lagos, o que no início parecia salvação, vira servidão. Mas Adunni nunca desiste do seu sonho, e entre as diferentes situações que ela enfrenta, é isso que a mantém em pé, mantendo a esperança dela e de quem lê as suas palavras.


Pra que fazer do mundo um lugar grande, triste e silencioso porque todas as crianças não têm voz?


A escrita Abi Daré nos presenteia com um livro forte e ao mesmo delicado sobre a importância da educação, o papel das mulheres em todas as idades, e o forte machismo em todas as classes sociais da Nigéria, onde a mulher, por mais sucesso que tenha, não possui os mesmos direito dos homens.

Sua forma narrativa pode causar um estranhamento inicial, como ela utiliza primeira pessoa, nos colocando dentro da mente de Adunni, nós a lemos com todos os erros de linguagem, já que ela não teve uma educação completa. 


Eu sei o significado de abandonar. Eu sei que significa que é quando alguém te deixa sozinha. Que é quando você não tem utilidade pra pessoa. Um desperdício desperdiçado.


No meu caso, o efeito deste estilo de narrativa foi uma leitura foi mais lenta, pois o meu cérebro insistia em corrigir as palavras. Ao mesmo tempo tornou Adunni muito real para mim, pois não teria como uma menina que frequentou poucos anos na escola narrasse de forma perfeita, deixando apenas para os diálogos a diferença de linguagem.

Reais também são as suas descrições, que despertam os sentidos como se por um momento eu estivesse dentro do corpo fictício de Adunni, sentindo os cheiros, tendo a mesma visão, a mesma sensação ao toque e até um milésimo do eco da sua dor.


Você sou eu. Eu sou você. Nossas patroas são diferentes, mas elas são iguais.


Como efeito colateral, esta menina que não tem vergonha de perguntar, que muitas vezes coloca em voz alta questionamentos que são verdadeiros dedos na ferida, nos impulsiona a novos questionamentos sobre o mundo que nos cerca, principalmente quando quem o lê é uma mulher.

Pois os questionamentos de Adunni são globais entre todas as mulheres, e não possuem resposta, já que eles são o olhar do absurdo, do machismo, de uma estrutura que ainda não foi quebrada, mostrando que há ainda muito a conquistar em relação a respeito e igualdade.


Quero perguntar, gritar, por que as mulheres na Nigéria estão sofrendo por tudo muito mais que os homens?


Finalizei a leitura achando a história muito bonita, sendo um sopro de esperança mesmo em meio a tanta violência. Ao unir os ensinamentos de uma mãe forte e com uma visão diferente sobre a criação de sua filha com a importância de não desistir, e somar a isso o apoio de pessoas que são verdadeiros anjos com o aspecto cultural de um país, o resultado foi de uma leitura que ficou ecoando mesmo após fechar a última página.

Por isso ouso dizer que A garota que não se calou é o tipo de livro que a leitura se torna essencial pra refletir sobre temas bases para a criação de nossas meninas.


A garota que não se calou
The girl with the louding voice
Abi Daré
Tradução: Nina Rizzi
TAG - Verus Editora
2020 - 352 páginas

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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Moisés Negro

 


Sinopse: Nos anos 1970, o pequeno Moisés desenvolve as artes da sobrevivência num orfanato na República do Congo. Apelidado de Pimentinha, o menino vai amadurecer e flertar com a loucura entre órfãos, ladrões, prostitutas e outros excluídos de um país chacoalhado por uma revolução comunista.

A TAG Curadoria fechou o ano de 2020 tendo uma indicação de um dos meus escritores favoritos: Mia Couto. Em uma edição belíssima, fui apresentada a Alain Mabanckou e seu Moisés Negro, ou Pimentinha no título original. O mimo foi um livro com três contos de F. Scott Fitzgerald.


Papai Moupelo era um personagem à parte, sem dúvida um dos que mais me marcaram durante os anos que passei nesse orfanato.


Moisés passou toda a sua infância no orfanato de Loango, onde recebeu do padre ao qual as crianças chamavam de Papai Moupelo o nome de "Demos graças a Deus, o Moisés negro nasceu na terra dos ancestrais".  Mas um dia o padre não aparece mais, as crianças esperam e esperam, até o diretor anunciar mudanças: agora eles fazem parte dos pioneiros da revolução socialista do Congo.

O menino junto com o seu amigo Bonaventure veem a sua rotina mudar pouco a pouco, até a chegada dos gêmeos, meninos violentos que impõe o medo entre eles. Mas ironicamente um ato de defesa ao amigo faz com que Moisés acabe criando laços com eles, a ponto de abandonar tudo e se atirar no desconhecido ao fugir do orfanato.


Ao despejar pimenta em pó na comida dos gêmeos, eu sabia que isso podia me custar um olho.


E assim vamos junto com ele descobrir Pointe-Noire, os assaltos no Mercadão, a disputa de comando, a hierarquia de poder dentro de um grupo. O sentimento de encontrar um lar ocorre em uma caminhada aleatória, quando o agora jovem Moisés conhece Mamãe Fiat 500, dona de uma casa onde ela e suas meninas atendem diferentes clientes, e é justamente esta relação que irá gerar a segunda mudança de chave na vida deste personagem.

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Moisés, a história é dividida em quatro partes, passando da infância até os seus dias atuais, quando ele está com cerca de quarenta anos. Confesso que achei a primeira parte arrastada, as vezes até mesmo chata, embora curiosamente interessante, já que é possível ver o impacto na vida das crianças com a mudança do regime político.


Você quis salvar esse animal, te forçaram a cozinhá-lo, você se acostumou com a cara dele, e isso está te consumindo...


Na segunda parte, quando Moisés me levou junto com ele pelo submundo de Pointe-Noire o ritmo começou a acelerar. A individualidade dos mais fortes, que subjugam o seu grupo, o encontro de uma espécie de lar, até a virada de chave que há na história que me ganhou de vez. 

E isso é muito legal, pois conforme a mente do personagem passa por alterações, o ritmo da narrativa também muda, me convidando a virar uma página a mais, até o desfecho que realmente me surpreendeu.


Como se não bastasse, na época de lua cheia, sobretudo nos anos bissextos, eu queria a todo custo ver o umbigo de uma mulher de policial.


Relacionando com outros livros lidos, ao ler sobre diferentes países da África observa-se toda a riqueza e diferença cultural, no meu caso eu desconhecia a existência de dois países com o nome de Congo. Um é a República Democrática do Congo, ex-Zaire cuja a população é citada no livro, e a ex-colônia francesa República do Congo, onde a história acontece. 

Assim como a juventude do grupo lembra um pouco a narrativa de Jorge Amado no ótimo Capitães de Areia, que também nos conta sobre meninos que sobrevivem pelas ruas cometendo crimes, associação feita por vários leitores além de mim.


Pressenti que ele estava me enganando quando parou de sorrir e começou a me olhar como se eu viesse de outro planeta.


Então sim, gostei da escrita, da história, do que aprendi, e recomendo para quem gosta de viajar para outros lugares através dos livros, de conhecer outros povos ou simplesmente de viver histórias diferentes da sua realidade.


Moisés Negro
Petit Piment
Alain Mabanckou
Tradução: Paula Souza Dias Nogueira
TAG - Malê
2015 - 223

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Nascido do Crime



Sinopse: A história impressionante, inspiradora e divertida da infância e juventude de um dos maiores comediantes da atualidade, ambientada durante os anos finais do apartheid e os dias tumultuosos de liberdade que se seguiram. Como as peças de um quebra-cabeça, as histórias de vida de Trevor Noah formam o retrato de um mundo em desordem, onde os atos mais banais eram considerados crime se você não tivesse a cor certa.

Conforme a Lei da Moralidade de 1927, na África do Sul era proibido a junção carnal ilícita entre europeus e nativos. Trevor Noah é resultado do crime cometido por Patricia Noah, que é negra, juntamente com o suíço/alemão Robert, que é branco. Ambos pais do menino em pleno regime de apartheid.

Em uma escrita fluída, o comediante, apresentador, ator e sim, escritor, conta a história da sua infância, ao mesmo tempo que explica a divisão racial, as diferentes tribos e como isso enfraquece um povo. Além disso aborda de forma direta as relações do dia-a-dia, a forma como foi criado e até as diferenças de surra entre as que ele levava e a de seus primos.


Basta segregar as pessoas em grupos e fazê-las se odiar para tornar possível o controle de todos.


Dividido em três partes, logo de início somos apresentados a devoção cristã da sua mãe, que durante boa parte da sua infância o fez passar o domingo inteiro dentro de igrejas, mais precisamente três, uma com perfil racial misto, outra de brancos e uma de negros. A África do Sul, assim como o Brasil, adotou, de livre e obrigada vontade, a religião de seus colonizadores. 

A seguir vamos descobrir sobre o seu nascimento, o que permaneceu a cultura original mesmo após a colonização - como o fato dos negros sul-africanos associarem gato a bruxaria, a forma de distribuição dos grupos pela tonalidade de cor onde chineses são considerados negros e japoneses brancos, e como ele transitava enquanto tentava descobrir com quais grupos mais se identificava. Além do fato de que em casa não podia brincar na rua, para que o governo não descobrisse que era resultado de um crime e assim o separasse de sua mãe.


O apartheid era um Estado policial, um sistema de vigilância e de leis criadas para manter a população negra sob total controle.


Na adolescência Trevor nos apresenta a área pobre da África do Sul, dos bailes a pirataria, a corrupção, o fracasso dos primeiros amores e a prisão. A diferença de ensino conforme a classe, e o fato de sua mãe investir em sua educação. Também aborda a violência doméstica, o descaso da polícia quando o marido bate na esposa, o sentimento de para onde ir quando o machismo impede um homem de aceitar o filho da própria mulher. Motivo que levaram a sua mãe a ensina-lo sobre ser homem e ser mulher.


Ser um homem não depende do que você tem, mas de quem você é. Para ser um homem, a sua mulher não precisa ser inferior a você.


Durante a leitura muitas vezes me senti sentada em algum lugar ouvindo as suas histórias, que em alguns momentos se assemelham a contos, já que possuem início, meio e fim, embora elas se alimentem com nomes e situações com ligações tanto em fatos passados quanto nos futuros que ainda vamos ler. A narrativa cria uma grande proximidade com Trevor e as pessoas as suas voltas, o que faz com que se compartilhe impressões e questionamentos no decorrer das páginas.


Adotamos a religião de nossos colonizadores, mas a maioria também se agarrava aos costumes ancestrais, só para garantir.


Não foram raras as vezes que eu gargalhei, que me choquei, ou simplesmente li mais um capítulo para saber as consequências de determinado ato. Ao mesmo tempo que acelerar a leitura era reduzir o tempo junto a história.

Sim, Trevor foi um menino bastante espoleta, e um adolescente que se virou em diferentes situações, e isso torna ainda mais grandioso o fato dele deixar tanta pobreza para trás, o que muito também vem da força de caráter de sua mãe, ao qual o livro é dedicado e por quem aprendi a ter um grande carinho, a ponto de ficar curiosa de como ela está.


Muitos homens crescem sem a presença do pai e passam a vida com a falsa impressão de quem é o pai deles e de como um pai deve ser.


Um livro que mistura história pessoal e de um país, que fala de racismo, laços familiares e oportunidades. Com uma escrita que te permite aprender, se divertir e se emocionar. Um livro para ler, curtir e depois recomendar.


Nascido do Crime
Histórias da minha infância na África do Sul
Born a Crime
Trevor Noah
Tradução: Fernanda de Castro Daniel
TAG - Verus Editora
2016 - 334 páginas

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Tudo de bom vai acontecer



Sinopse: Essa é a história de Enitan: uma jovem nascida na Nigéria dos anos 1960 e que atinge a maioridade em uma cultura que ainda insiste na submissão feminina. Enitan rejeita os sistemas familiar e político até ser confrontada com o único desejo precioso demais para perder em nome da liberdade pessoal: seu desejo por um filho. Tudo de bom vai acontecer evoca as visões e culturas da África, ao mesmo tempo que conta uma história sábia e universal sobre amor, amizade, preconceito, sobrevivência, política e o custo de lealdades divididas.

O livro de setembro/2020 da TAG Curadoria trouxe uma indicação da escritora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, que indicou o livro Tudo de bom vai acontecer da também nigeriana Sefi Atta. O mimo foi um colorido quebra-cabeça que traz a pintura Freedom school da artista visual Synthia Saint James.

A história tem início em 1971 quando Enitan está com onze anos, naquela fase que se é meio criança, meio pré-adolescente. Ela possui uma grande admiração pelo pai, um advogado que dá uma vida de conforto para a sua família, e de estranhamento com a mãe, que se entregou a religião após a perda do filho caçula. Em um dia de tédio acaba conhecendo a menina da casa vizinha, pertencente a uma família a qual a mãe não desejava que ela não tivesse contato. Mas Sheri chama a atenção de Enitan e ali nasce uma amizade.

Nada, nada deteria minha mãe, dizia ele, até ela ter destruído tudo na nossa casa por causa daquela igreja dela.

Seguimos para 1975, Enitan e Sheri trocam cartas enquanto passam maior parte do ano morando em suas escolas. Em um colégio interno de meninas, Enitan vive em um ambiente em que todas se ajudam mutuamente para sobreviver, suas origens eram  diversas, assim como suas religiões e culturas. Mas é nas férias que ela vive um momento que irá marcar sua vida e direcionar o destino de Sheri.

Pulam-se dez anos, e Enitan estuda em uma universidade londrina, tornando-se advogada como o pai. Golpes seguem ocorrendo na Nigéria, mas isso não influencia tanto em sua vida quanto as relações amorosas. Em um primeiro momento é na Inglaterra que ela quer ficar, mas o frio e o tratamento recebido a empurram de volta para o lar paterno.

Meninas más eram estupradas. Nós todas sabíamos disso.

Muitas de suas opiniões e conceitos vão mudar na década de noventa, quando a política a atinge pessoalmente, seu ciclo de amizade se abre e em uma situação de tensão ela acaba conhecendo a situação de outras mulheres, e o seu mundo é subitamente ampliado com novas revelações, tanto pessoais quando do seu país.

Como vocês podem observar no resumo, o livro não é dividido por partes, mas por anos, acompanhamos a vida de Enitan de  1971 a 1995, sendo expectadores do seu crescimento de menina a uma mulher madura. Não há capítulos, apenas um espaço em branco maior que separa um momento de outro.

Nossas mães eram maravilhosas. Nos protegiam das verdades sobre nossos pais, permaneciam em casamentos ruins para nos propiciar uma chance.

Sefi Atta nos apresenta a visão de uma nigeriana classe média, em uma Lagos com seus prédios e condomínios suburbanos, muito distante daquela imagem padrão que os estrangeiros possuem, como se toda a África fosse igual ao comercial do Médicos Sem Fronteiras.

Através da mãe de Enitan, é pautada a questão religiosa, que tem um misto de cultural, com suas vestes e crenças, com a questão do dinheiro, quando o dízimo não é só pedido como exigido.

Se desejasse, podia bater na mulher, expulsá-la de casa, com ou sem os filhos, e deixá-la sem nada.

Há o machismo e a questão de os homens poderem se casar com mais de uma mulher, estupro, o fato de a esposa pedir permissão para a tomada de suas decisões. Assim como subjugar a capacidade pelo gênero, algo que ocorre tanto de estranhos como em família. E este fato não se concentra apenas entre os homens, já que muitas mulheres encontram justificativas para apontar ou emitir a sua opinião em relação ao estilo de vida da próxima.

Também é abordado a maternidade, embora não com o enfoque que é dado na sinopse. Sim, em dado momento Enitan deseja ser mãe, mas a grande questão é verdadeiramente abordada na relação mãe x filha, onde só na idade adulta ela passa a enxergar realmente por tudo que sua mãe passou, enquanto desmistifica a aura de perfeição atribuída ao pai.

O mundo da publicidade talvez não soubesse quem éramos, mas nós comprávamos os produtos destinados a outros mercados sempre que chegavam ao nosso país e quando viajávamos para o exterior.

A amizade entre mulheres também é algo forte na história, não só entre Sheri e Enitan, mas também com outras personagens que entram ao longo da história e vão criando uma rede de apoio. Na dica do livro, a TAG havia referenciado as personagens de Amiga Genial como comparativo, mas ouso dizer que aqui a única semelhança está na amizade de longa data. Em Tudo de bom vai acontecer não há disputas, não há inveja, e sim questionamentos naturais de pessoas que se querem bem, que dão força a outra quando esta precisa.

E por fim a questão política. Entre governos civis e militares, a Nigéria vive em uma constante ditadura, o quanto cada cidadão é afetado irá variar conforme ele está disposto a se manifestar. Pessoas são presas, pessoas somem, e seus familiares não sabem de nada.

Desde o início foi responsabilidade do povo, da pessoa física, lutar pela pátria e se agarrar àquilo.

Um livro sobre um país distante, de terceiro mundo como o Brasil, onde as diferenças de tratamento entre homens e mulheres são grandes, e cuja visão é ampliada após o final da leitura. Uma história que é mais do que distração, mas a possibilidade de conhecer outra cultura.


Tudo de bom vai acontecer
Everything Good Will Come
Sefi Atta
Tradução: Vera Whately
TAG - Editora Record
2012 - 367 páginas


Outros livros sobre a África com resenhas aqui no blog:

Adeus, Gana
O Mundo se despedaça
Tempo de Migrar para o Norte
As alegrias da maternidade
A menina sem palavras
Antes de nascer o mundo
Pequena Abelha


sábado, 7 de março de 2020

Adeus, Gana



Sinopse: Adeus, Gana é ao mesmo tempo o retrato de uma a família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter.
Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Acra, capital de Gana, está morto.
A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás.
Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional.

No mês de janeiro a TAG Curadoria enviou aos seus associados à indicação do escritor José Eduardo Agualusa: o livro de estreia da escritora Taiye Selasi, ainda inédito no Brasil. Para auxiliar o leitor logo no início uma lista de palavras com pronúncia, significado e origem – que se dividem entre Gana e Nigéria – e a árvore genealógica da família, para auxiliar nos momentos em que não se sabe mais de quem está se falando.

Em um domingo, antes do amanhecer, Kweku morre descalço.

Dividido em três partes: Partido, Partida e Partir, como é informado na sinopse, tudo começa com uma morte. E está é a primeira frase do livro. Inicialmente simples, mas cujo significado só é entendido no virar das páginas.

Para eles, não dar nomes era lógico, até admirável, um jeito de manter distância da existência assim como da morte.

Kweku nasceu na parte pobre de Gana, com esforço foi para os Estados Unidos e se tornou um reconhecido cirurgião. Casado com Folasadé, é pai de quatro filhos. Como todo imigrante, busca o seu american life, até o dia em que uma patrona da pesquisa científica, e doadora do hospital onde ele trabalhava, chega com um apêndice estourado e já sem chance de sobrevivência. A família exige a cabeça do responsável, e a de Kweku é entregue. Ele luta tentando ser readmito, mas ao se ver totalmente sem chances, não aguenta a pressão e foge de todos, deixando a família sem patriarca e sem dinheiro.

Esses pensamentos viriam depois – e por muitos anos depois, quando ele tentaria esquecer-se do fedor úmido da morte fresca.

Sozinha com os filhos, quem não aguenta a pressão é Folasadé, que acaba separando os filhos pensando na questão financeira e educacional, mas com consequências que irão deixar marcas para sempre em cada um.

Porque a mãe sempre tem que ser superior.

Adeus, Gana mistura em sua história várias situações, do racismo, dos complexos físicos como peso e cabelo, da vergonha, dos traumas, do silêncio entre os que deviam ser próximos, perdas, solidão, heróis, decepção, pressão e falta de amor.

Um médico que fracassou em prevenir a própria morte.

Pois ao contrário do que firma a sinopse, o que parece faltar nesta família que já era desestruturada quando todos moravam juntos, é justamente o amor condicional. Dilemas pessoais sempre imperam nas decisões, com o individual se sobrepondo ao conjunto. No que acabam sendo ciclos que se repetem a cada geração.

Ela estava brincando de sexo, mas não sabia nada de amor.

Mas isso não desabona a história, pelo contrário, o livro é tenso, triste e questionador. E mais do que um livro sobre uma família africana, ele é um livro sobre seres humanos e questões mais do que globais. E justamente por cada personagem carregar alguma situação tão típica dos últimos tempos, fica difícil não se enxergar em alguns casos.

A insularidade peculiar dos banheiros, um conforto.

Narrado em terceira pessoa, a história é como uma cebola, conforme você via removendo as camadas, cada personagem vai revelando o passado, como que preparando a todos – onde incluo o leitor – para o momento presente.

O único motivo para um relacionamento é interpretar, em miniatura, todo o drama da vida e da morte.

O livro não é de leitura fácil, justamente por sua carga emocional e também pela sua forma de escrita. Utilizando do recurso do discurso indireto, o leitor precisa ter uma atenção extra para não se perder entre o que diz o narrador ou um pensamento do personagem do momento ou diálogos que surgem.

E um fator que prejudica ainda mais a leitura na nossa versão portuguesa é a falta de uma revisão e tradução cuidadosa. E isso sim foi um verdadeiro pecado com esta edição. Da sensação em alguns momentos de terem colocado o original no Google Translate a palavras digitadas como o “depoi\” da página 304 da minha edição, fazem o coração do leitor mais sensível doer.

Indico o livro? Sim. Mas para ler em português se faz necessário uma edição com revisão aprimorada, Adeus, Gana e o leitor merecem.

Adeus, Gana
Gana Must Go
Taiye Selasi
TAG Curadoria – Editora Planeta
2013 – 367 páginas

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O Mundo se Despedaça



Sinopse: Um dos livros mais importantes da literatura africana do século XX, O mundo se despedaça conta a história do guerreiro Okonkwo, da etnia ibo, estabelecida no sudeste da Nigéria. Okonkwo, um dos principais opositores dos missionários brancos, precisa encarar a desintegração da vida tribal e de tudo o que conhecia até então.

Publicado originalmente em 1958, dois anos antes da independência da Nigéria, o romance de estreia de Chinua Achebe foi traduzido para mais de quarenta idiomas e consolidou o autor como um dos mais notáveis de sua geração.

Em seu primeiro livro, o autor Chinua Achebe descreve uma cultura que conhece bem, pois a sua família pertence à etnia Igbo, que na África é um dos maiores – e mais tradicionais – grupos étnicos. Além disso, Achebe é considerado o pai da literatura nigeriana, justamente por resgatar a visão das tribos em um mundo acostumado a ler a visão dos colonizadores.

O livro de outubro da TAG Curadoria tem como curador o escritor Alberto Mussa e é dividido em três partes, nos treze primeiros capítulos o leitor vive a rotina do personagem principal chamado Okonkwo em sua aldeia paterna, local onde ele vive com suas três esposas.

Qualquer pessoa que conhecesse a luta implacável que travara contra a miséria e o infortúnio não poderia dizer que ele apenas tivera sorte.

Okonkwo é um guerreiro e um trabalhador, reconhecido pela sua aldeia, mas também é machista e truculento. Um homem atormentado pela imagem do pai, a quem considerava um fraco.

Enfim, um ser humano como outro qualquer, com suas qualidades e defeitos. E é através dele e de sua família que acompanhamos a cultura da aldeia Umuófia, seus rituais, festas, julgamentos e crença. E justamente neste momento o leitor mais sensível pode se chocar ao se deparar com recém-nascidos jogados na mata para morrer, ou com o destino do jovem Ikemefuna.

Os mais velhos e as eminências da aldeia sentaram-se em seus próprios tamboretes, levados até ali por seus filhos menores ou por seus escravos.

Mas Okonkwo comete um crime, que a tribo considera do tipo feminino, quando não há intenção de realiza-lo, sua sentença são sete anos fora do clã, e com isso ele e toda a família se mudam para a aldeia da família da sua mãe.

A parte 2 da história nos apresenta Mbanta, e aqui o leitor pode perceber as diferenças culturais de um clã para o outro, assim como a complexidade deste personagem tão rígido em seus conceitos, que parece não ter espaço nenhum para a gratidão.

E neste contexto entra o ótimo diálogo com o seu tio Uchendu, onde é realizado um paralelo da relação dos filhos com o pai e com a mãe, onde a figura feminina não parece ter um papel tão desimportante quanto na primeira aldeia.

A vida de um homem, desde o nascimento até a morte, era uma série de ritos de transição que o aproximavam cada vez mais de seus antepassados.

Mas é quando um de seus filhos Nwoye, ao qual o personagem classifica como degenerado e efeminado, resolve se juntar a igreja dos recém-chegados ingleses que o leitor é preparado para chegar a terceira parte: a colonização da África.

Era verdade que eles andavam salvando os gêmeos atirados no mato; porém nunca os traziam à aldeia.

Inicialmente os clãs vivem sem problemas com o homem branco, ao destinar-lhe o lugar que consideram amaldiçoados, eles imaginam que logo ele se vá. Mas como bem sabemos, não é isto que acontece. O choque de cultura e valores é inevitável, e as consequências aqui são descritas pelo olhar dos que foram invadidos.

O mais interessante de O mundo se despedaça é que ele não julga ninguém, nem os clãs, nem os colonizadores. É como ler um documentário que te faz ficar imerso em uma cultura completamente diferente da que se conhece.

Para melhor aproveitamento é necessário exercer a empatia, pois estamos falando de outros hábitos, e não raro é fácil apontar o dedo e questionar os costumes de um lugar e época ao qual estamos muito longes de conhecer.

Um livro que eu realmente achei interessante, e recomendo para quem gosta de conhecer mundos diferentes. A narrativa em terceira pessoa é bastante fácil, e no caso da edição da TAG há um glossário no final.

Minha única sugestão é deixar a introdução do Alberto da Costa e Silva para depois da leitura, ela me pareceu mais clara após finalizar a história. E para quem quiser saber mais sobre a literatura nigeriana, outro livro muito bom que ocorre já com os estrangeiros vivendo entre os povos em grandes cidades é o Alegrias da Maternidade.


O Mundo se despedaça
Things Fall Apart
Chinua Achebe
Tradução: Vera Queiroz da Costa e Silva
TAG Curadoria – Companhia das Letras
1958 – 236 páginas