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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Mama



Sinopse: conheça Mildren Peacock: mãe, durona, engraçada e combativa que vive numa pequena cidade do Michigan, nos Estados Unidos. Uma sobrevivente que vai se desdobrar para manter a família unida. Neste romance, comparado ao aclamado A cor púrpura de Alice Walker, Terry McMillan narra a vida de uma mulher negra e seus cinco filhos com honestidade e potência dignas de uma obra-prima da literatura contemporânea.

E a minha assinatura da TAG Curadoria iniciou o ano com uma indicação do escritor Itamar Vieira Junior, e assim janeiro/2023 trouxe na minha caixinha o livro Mama da norte-americana Terry McMillan. O mimo foi um planner que tem cara de caderno, já que não possui divisão nenhuma. 

Uma curiosidade neste caso é que o livro foi totalmente pela TAG, não tendo parceria com outras editoras.

Mildren tem 27 anos, cinco filhos em idade escolar, sustenta a casa e apanha do marido bêbado chamado Crook. Um tipo ciumento que não aceita que a esposa chame a atenção, mas que também não abre mão de passar algumas noites na casa da amante de longa data.

Odiava aquela casa caindo aos pedaços, odiava aquela cidade horrenda, odiava nunca ter o suficiente de nada.


Enquanto Mildren se vira atrás de dinheiro e vai ajustando a vida amorosa, Freda cuida dos irmãos mais novos enquanto segue se dedicando aos estudos, amadurecendo rapidamente para os seus dez anos.

Tudo isso no período dos anos de 1960, quando a concorrência na produção de veículos torna a vida dos moradores da fictícia Point Haven mais difícil com as frequentes demissões e a dependência da assistência social.

Não são seus filhos, desgraçado. São meus. Talvez tenham seu sangue, mas são meus.


Convidando o leitor há não só acompanhar o crescimento das cinco crianças e da agitada vida amorosa de Mildren, como também o declínio econômico de Detroit e os anseios de toda uma época.


A escrita de Terry McMillan


Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a autora Terry McMillan não precisou separar em partes ou até mesmo sinalizar no início de cada capítulo o ano e a cidade em que os Peacock estavam.

Sua escrita direta, franca, fluída faz isso sozinha. E assim assistimos pelas palavras as crianças crescerem, escolherem os seus caminhos e assim cometerem seus próprios acertos e erros. Enquanto Mildren se ver com novas indagações e sentimentos quando vê um por um deles tomarem as rédeas da própria vida.

Lavou os olhos inchados e decidiu que seria a última vez que abriria o coração de um jeito tão ansioso e generoso, só para não sentir mais como se tivesse uma ferida recém-aberta na qual algum homem havia jogado sal.


Aliás, os personagens de Terry McMillan são terrivelmente humanos em seus acertos e erros, e assim eles podem tanto irritar, quanto divertir ou sensibilizar o leitor. Tornando-os muito próximos de quem passa por suas páginas a ponto de provocar encantos e decepções. Provocando o juiz, promotor e defensor que existe dentro de cada um de nós.

E é de forma natural que a narrativa aborda assuntos como violência doméstica, alcoolismo, drogas, sexo, compulsão, depressão, pobreza, racismo, aceitação e, como já indica o título, maternidade.

Não gasta seu tempo ou seu dinheiro com coisas baratas, meu amor, porque vai acabar pagando por tudo duas vezes.


Maternidade que vai do medo da reação da mãe após determinado acontecimento, do respeitar e desafiar, de se ver enlouquecida com cinco filhos até o momento de sofrer com o ninho vazio. Uma maternidade longe dos comerciais de margarina e mais próximas das vielas que toda cidade tem.

Tudo isso em uma família que não diz eu te amo um para os outros, onde não há abraços maternos, mas há fome e superação, há tombos e a mãos para ajudar a levantar, questionando se o amor está nas palavras ou nas atitudes. 

Se um preto está tentando matar outro, os brancos nem ligam.


A escolha do fundo histórico para a história da família também torna a narrativa interessante, já que conta um pouco do que acontecia não só com a sociedade americana no período, mas também com as mudanças econômicas na indústria do país, além de abordar questões como o funcionamento da assistência social e a vida em comunidade.


O que eu achei de Mama


Mildren e Freda, mãe e a filha mais velha, foram personagens que ao mesmo tempo que me irritaram, me envolveram, com direito a torcida e vontade de entrar no livro e dar uma sacudida nas duas inúmeras vezes.

Principalmente quando elas têm tudo para se estabilizarem na vida, mas optam em ceder as suas compulsões, seja pela bebida, sejam pelas compras. Assim como a repetição de ciclos, que parecem loops eternos que ecoam de mãe para filha, me trazendo a mente a frase como os nossos pais.

Durante muito tempo me preocupei em passar pelas mudanças da vida. Então, quando vi, já tinha passado por elas.


Tornando a história as vezes familiar por lembrar aquela conhecida ou parente nem sempre distante de comportamento tão semelhante. Lembrando que algumas ações e reações as vezes independem de raça, classe social e estudo. Pois a repetição de atos maternos e paternos não são incomuns, muito pelo contrário, já que normalmente são os pais os primeiros e grandes exemplos.

E todo este conjunto fez com que a história ficasse ecoando na minha cabeça, com várias perguntas e reflexões, como o fato de até que ponto a sociedade pesa no nosso comportamento? Por que tantos não resistem em quebrar o que as vezes é tão negativamente esperado? Como não repetir ações dos nossos pais quando elas não são boas para nós? Entre tantas outras que seguem pipocando na minha mente enquanto escrevo esta resenha.

Por alguma razão, naquele momento, tudo parecia tão simples. Percebeu que tinha um monte de coisas para agradecer.


Motivo pelo qual eu naturalmente recomendo a leitura. Para que você também possa se divertir, sofrer, se irritar e ter vontade de abraçar a família Peacock.


Mama
Terry McMillan
Tradução: Petê Rissatti
TAG - Experiências Literárias
1987 - 287 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

As maravilhas



Sinopse: Neste celebrado romance de Elena Medel há duas mulheres: María, que no final dos anos 1960 deixa a sua vida pacata numa cidade de província para trabalhar em Madri; e Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos mais tarde, por razões bem diferentes. E há, claro, a mulher que as une e de quem praticamente não se fala: filha de uma e mãe de outra. As maravilhas é uma história sobre afetos, cuidados, responsabilidades e expectativas. É também, uma jornada sobre o passado recente da Espanha, do final da ditadura franquista até a explosão do feminismo, contada por duas mulheres que tampouco podem ir às manifestações, porque têm, evidentemente, de trabalhar para arranjar o seu sustento.

Recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria no mês de Novembro/22 o livro As maravilhas da escritora espanhola Elena Medel, indicação de uma outra escritora, a brasileira Giovana Madalosso. O mimo foi o que gerou mais dúvida em todos os meus anos de assinatura na TAG: uma cinta de livros.

Na cidade de Córdoba cedo María se depara com uma gravidez indesejada, sem apoio do pai da criança, tudo é ajeitado pelos pais, que a enviam para morar com os tios e trabalhar na capital espanhola, enquanto eles criam a bebê Carmen.

Vazios os da calça, também os do casaco: nem sequer um lenço de papel úmido, amassado.


Nos raros reencontros, a jovem mulher identifica que o seu bebê tem cheiro de cigarro e não o mesmo perfume agradável da criança que cuida. Se no início ela sonha em carregar a filha junto, cedo é dissuadida que isso não é possível, e ela cede, escasseando visitas e telefonemas, até a filha ser uma completa estranha.

Carmen também engravida cedo, mas ao contrário da mãe, acaba casando e formando uma família, que com o empreendedorismo do marido, gera uma vida cheia de pequenos luxos para as filhas Alicia e Eva. Até a tragédia chegar, e ela ter que se virar para sustentar suas meninas.

Durante o dia, ela cozinha, limpa, passa roupa e obedece, mas à noite se dedica à memória.


Alícia é mimada, e nem mesmo a perda a faz evoluir de sua necessidade de se sentir superior. Vontade que não é suficiente para que ela estude e busque uma vida melhor, e como a avó que desconhece, vai parar em Madrid, vivendo um dia de cada vez sem objetivo nenhum.


A escrita de Elena Medel

Utilizando uma narrativa em terceira pessoa, a escritora espanhola Elena Medel conta a história de três gerações de mulheres da mesma família no período de 1969 a 2018. O que acaba entrelaçando a vida delas aos acontecimentos históricos da Espanha, como o pós guerra civil ao qual se seguiu a ditadura Franquista, a transição espanhola após a morte do general Franco, os impactos das crises econômicas até o momento presente de avó e neta: a greve das mulheres.

Como personagem principal temos justamente avó e uma das netas, já que a mãe/filha e a outra menina - Eva - só aparecem através da visão das protagonistas.

Tudo nela as desnorteava: escrevia sem erros de ortografia, sabia de cor datas e nomes de personagens históricos, não bocejava na aula.


Ao contar a história de pessoas comuns, a autora acaba abrangendo uma diversidade de questões, que vão das diferenças sociais, passando pela maternidade, as relações familiares, mágoas, independência feminina, machismo e escolhas.

O livro tem o presente e o passado dos personagens, não há um mistério ou segredo a ser desvendado além do da própria vida, pois são elas crescendo e envelhecendo em uma brincadeira de ida e volta dos anos que a autora faz, permitindo que assim o leitor construa aos poucos o perfil e o porquê de cada personalidade.

Algumas manhãs a mulher lhe faz essa pergunta: de onde você veio? Como chegou aqui?


Personalidades bem diferentes, pois se de um lado María aceita o que lhe foi negado e aos poucos vai encontrando a si mesmo em uma evolução constante, Alicia busca pelo sexo se afirmar, presa no mesmo sonho todas as noites e parecendo nunca deixar de ser uma pré-adolescente.

Tudo em uma escrita bastante fluída, que permite um bom ritmo de leitura em uma trama bem costurada, onde há mais reflexões sobre as situações vividas do que questionamentos.


O que eu achei de As maravilhas

Gostei da forma como a história da Espanha entra como um pano de fundo para a narrativa, não há explicações sobre o período, são os diálogos, as ações, os pensamentos que nos fazem entender como cada personagem encara o momento em que está vivendo.

A maternidade, assunto que foi muito abordado nos livros enviados pela TAG este ano, aqui aborda a ausência de laços e o desejo de não vivê-la. Seja pela personagem María, convencida pelos pais da incapacidade de criar a própria filha a ponto de acabar abandonando a mesma na mão dos familiares e não desejar nem mesmo ver as fotos que registram o seu crescimento.

Tanto faz se são homens ou mulheres, jovens ou velhos: ninguém confessa sonhar com outras coisas.


Até chegarmos a Alicia, uma menina que segue sombria e vazia na vida adulta, que mesmo chegando a Madrid com mais oportunidades que a avó não abraça isso, se satisfazendo com empregos precários e não desejando laços, e com isso dizendo sabiamente não ao maior deles: a maternidade.

Mas o curioso no meu caso é que em um livro tão voltado as questões femininas, quem ganhou o meu coração é o Chico. O irmão de María apaixonado por filmes que ainda criança usa uma caixa para trabalhar em um balcão e assim ser visto. O tio de Carmen que abre a sua casa para ela quando tudo fica difícil. O familiar que está ali para quem precisar e tenta sempre ter notícias de todos. 

São os livros e os filmes que vão contar tudo para os nossos filhos, nossos netos, assim como nós sabemos através dessas obras o que aconteceu antes.


No geral eu gostei do livro, confesso que achei a história um pouco linear, tendo alguns capítulos mais tensos, mas no geral é acompanhar a vida de avó e neta. Motivo pelo qual senti falta de algo mais, talvez da visão de Carmen e Eva, para completar o quadro das três gerações.

Mas isso não o deixa menos interessante, pois como comentei, gostei da escrita e da história, e a forma natural como as relações podem trazer consigo imposições, as questões de gênero, o rompimento de alguns conceitos quando se escolhe em não assumir o papel, tornam as personagens muito ricas, complexas e interessantes.

Não se preocupe: não falo dormindo, não choramingo com o alarme do celular; acabei me acostumando.


Ficando a dica principalmente para quem gosta de livros onde se pode viver por algumas páginas na pele de outro sem ter poder de escolha ou aconselhamento.


As maravilhas
Las maravillas
Elena Medel
Tradução: Rubia Goldoni
TAG - todavia
2020 - 188 páginas

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terça-feira, 15 de novembro de 2022

Com armas sonolentas



Sinopse: A trama gira em torno de três mulheres muito diferentes, mas fortemente interligadas, que experimentam um sentimento crescente de abandono e exílio - seja geográfico, seja emocional. A viagem, por assim dizer, que cada uma delas faz poderia ser um jeito de "voltar para casa", em uma busca por sua verdadeira identidade. Neste potente romance de formação, Carola Saavedra discute o feminismo e a maternidade, assim como os mecanismos e as armas secretas do inconsciente.

No mês de agosto/2022TAG Curadoria enviou para os seus assinantes o romance Com armas sonolentas da escritora chilena radicada no Brasil Carola Saavedra. Uma indicação do escritor e professor Carlos Eduardo Pereira. O mimo foi um aparador em mdf.

Anna é uma jovem mulher em busca do sucesso como atriz. Para alcançar o seu objetivo, vale absolutamente tudo, inclusive casar com um diretor alemão que acabou de conhecer e se mudar para um país estranho. 

Mas o casamento não lhe garante um papel de imediato, nem de coadjuvante. Ela precisa estudar o idioma, mas não se esforça. E sozinha em casa, enquanto o marido segue trabalhando em outros lugares, ela vê sua vida social se reduzir, até ser surpreendida por uma gravidez inesperada.

Sempre teve uma grande facilidade de ir embora, como se o passado, tão tênue, rapidamente se dissipasse.


Maike é uma jovem estudante alemã, que surpreende os pais quando um dia resolve mudar o seu estilo de vida. Desistindo de seguir a carreira jurídica como os pais, ela opta no primeiro dia de aula em cursar português.

O novo ambiente a leva recordações do passado e a busca de um antigo amigo de infância que a esfaqueou, entre caminhadas e conversas ela começa a se questionar e descobrir o que realmente ela não quer.

Sentia que minha vida estava cheia de elipses, palavras não ditas, verdades escamoteadas, que se materializavam numa angústia, uma inquietação constante.


Quem completa o trio é a Avó, que começa menina saindo do meio da família para trabalhar como empregada doméstica na capital. Sem poder estudar e tendo apenas um dia de folga, sua distração são os filmes românticos no cinema. Sua inocência facilitam o abuso pelo filho do padrão, assim como as ameaças recebidas ao se descobrir grávida.

Uma pessoa de vida simples que se agarra aos conselhos de uma avó fantasma e sente o coração despedaçar ao ver a filha aos poucos se deslumbrar pela vida de luxo, até abandona-la sozinha no quarto sem janelas.


A escrita de Carola Saavedra

Não existe uma única narrativa entre as três personagens. Se Maike é sempre em primeira pessoa, Anna fica entre a terceira e o monólogo de uma peça. Já avó é sempre vista em terceira pessoa, onde vemos crescer, amadurecer e envelhecer em um quarto sem janela grudado a área de serviço.

E creio ser justamente a avó, a única sem nome na história quem faz com que o livro seja classificado como um romance de formação. Romance de formação é aquele que acompanha o crescimento e amadurecimento de um personagem, onde além da passagem do tempo, isto é, da infância/adolescência até a vida adulta, o psicológico é um componente importante.

será que você não entende, eles não são como nós, são feitos de outra pele, outro material, e vai ser sempre assim, será que você não vê? 


Ao usar três gerações de mulheres separadas pelas mais diferentes circunstâncias da vida, a autora Carola Saavedra mistura desigualdade social, a busca por si mesmo, abandono, ambição, laços familiares, maternidade, solidão e fantasia para contar cada vida em duas partes que ela nomeou como O Lado de fora e O Lado de dentro.

Curiosamente as figuras masculinas são todas meras coadjuvantes nas três narrativas. Temos uma rápida visão de cada uma através das personagens, mais especificamente no caso de Anna, não sabemos como eles lidam com os seus atos.


Onde habitam os seres antes de começarem a existir, onde dormem suas marcas, suas possibilidades?


Motivo pelo qual não é uma leitura para desopilar, já que ela exige atenção para entender o que está ocorrendo, ao mesmo tempo que exige da própria imaginação do leitor para fechar as lacunas que permanecem na história mesmo após fechar a última página.


O que eu achei de Com armas sonolentas

Este livro me fez recordar as pessoas que acreditam que o sangue sempre fala mais alto, o que ligaria de forma invisível as gerações de uma mesma família. Ao mesmo tempo que confirma que pode ser a única coisa em comum entre pessoas tão diferentes.

Contraditório, não? Mas aqui temos Anna, na minha opinião uma pessoa que não sabe amar nem receber amor. Alguém que para crescer profissionalmente se sujeita a tudo para atingir os seus objetivos, que na verdade se resumem a status e fama. Algo que ela se deixou deslumbrar ainda nos primeiros anos de vida, e tornou o centro de tudo.

Nada ali era simples, nada era o que parecia ser.


Maike para mim foi a parte mais sonolenta da história. Achei um pouco sem pé nem cabeça logo nas primeiras páginas da sua narrativa. Uma jovem mulher que parece mais uma menina mimada e perdida, uma rebelde procurando uma causa em uma vida um tanto sem sentido, mas com toda a proteção e cuidado dos pais.

Sua mudança de caminho e profissão surgem do nada, como se fosse uma canção da Rita Lee que começa dizendo “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer...”, só que sem saber exatamente o que quer fazer e o porquê.

Sempre lhe pareceu que havia uma dissonância entre o que desejava e o que realmente queria.


Talvez por isso a minha narrativa preferida aqui tenha sido da avó sem nome, que na minha opinião contém as partes mais interessantes e realistas da história - embora seja ela que traga a parte fantástica ao conversar com a sua avó já morta. 

Essas conversas são diálogos sobre o que fazer e suas culpas em relação a própria filha, ao qual constantemente se questiona se a permissão em deixa-la ficar com a avó-patroa e permitir um vislumbre de uma vida diferente são realmente uma boa ideia.

Acabara de completar quatorze anos quando a mãe lhe explicou que não poderia continuar morando com eles.


Confesso que mesmo passado um tempo para refletir sobre a leitura, ainda não sei se gostei ou desgostei do livro como um todo. Eu achei a primeira parte bem construída, com direito a impactos e aquela frase que te induz a seguir em frente.

Mas a segunda parte, chamada O lado de Dentro, um tanto perdida. Não pela mudança na forma da narrativa da personagem Anna, mas pela forma como foi desenvolvida. Em meio ao fantástico, entram metáforas que não conseguem preencher lacunas e dúvidas aos quais sobram para a imaginação completar com base no que se subentendeu.

Eu também não percebi o que ele havia feito num primeiro instante, não senti a dor, apenas o frio do metal na minha pele.

Só que isso não me impede de deixar a indicação aqui, pois leitura é também o momento de cada um, a bagagem literária que o leitor tem e claro, o gostar que não se discute. E talvez, ao contrário de mim, você se identifique com todas as dúvidas de Maike, entenda o comportamento de Anna e quem sabe goste tanto quanto eu da vó.

Só lendo o livro para você saber.


Com armas sonolentas
Carola Saavedra
TAG - Companhia das Letras
2018 - 267 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Greenwich Park



Sinopse: Quando Helen chega para a primeira aula do curso pré-natal, espera que seu belo marido arquiteto surja logo depois, seguido por seu charmoso irmão Rory e pela esposa dele - a naturalmente linda, e também grávida, Serena. Mas, por Rachel, Helen não esperava. A extrovertida, impetuosa e inquietante Rachel, prestes a se tornar mãe solo, que só quer ser amiga de Helen. Que só quer se aproximar de Helen, de seus amigos e de sua família. Que só quer saber tudo sobre eles. Cada um de seus segredos.

No mês de junho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o livro Greenwich Park da autora inglesa Katherine Faulkner. O mimo foi um marcador de página em formato de pingente.

Helen vive em uma bolha onde idealiza a própria vida. Casada com um arquiteto, mora na casa que foi de seus pais, uma mansão vitoriana próxima ao Greenwich Park, na cidade de Londres.

Mas você precisa saber a verdade, mesmo que, depois de todo esse tempo, ainda se recuse a ouvir.


O marido é sócio do seu irmão Rory, que herdou a empresa de arquitetura de seu pai. Sua cunhada Serena também está grávida, e assim ela imagina que todos gostariam de participar juntos do curso de gestantes. Mas nenhum dos três aparecem, e com todos os demais casais completos, lhe resta como companhia a jovem Raquel, igualmente sozinha no curso, mas expansiva e falante, ela é exatamente o oposto de Helen.

Aos poucos ela vai aparecendo em todos os lugares que Helen está, e em sua solidão, a jovem gestante sem nenhum instinto maternal se torna uma distração que a faz rir e esquecer por alguns momentos os próprios medos.

Eu sei que ele estaria aqui se pudesse, que está arrasado por me deixar na mão. Que essa reunião de última hora foi um simples inconveniente.


Mas o que era divertido se torna mais intenso, e quando Helen pisca, Rachel invadiu não só a sua vida, mas de todos da sua pequena bolha. Só que ao contrário do que você possa imaginar, não estamos falando de um suspense no estilo Stalker, e sim de um quebra-cabeça muito mais complexo do que se imagina no início da leitura.


A escrita de Katherine Faulkner

Logo de cara o leitor se depara com um depois e uma carta ao qual não se identifica a autoria, apenas que ela foi escrita com o desejo de revelar a verdade do remetente e que a destinatária deste desabafo é Helen.

Em seguida retrocedemos no tempo, onde as partes da história são identificadas em semanas, as semanas de gestação de Helen, e alguns finalizam com uma rápida narrativa em terceira pessoa. Nos demais capítulos temos narrativas em primeira pessoa das seguintes personagens: além da própria Helen, contam a história Serena e Katie, esta última é a melhor amiga de Helen e uma espécie de namorada do considerado irmão ovelha negra da mesma.

Tentei marcar encontros, mas de alguma forma eles nunca parecem caber muito bem na agenda das pessoas.


Entre as figuras femininas principais, a única que não é narradora é Rachel, mantendo a sua personalidade e seus reais interesses um verdadeiro mistério para os leitores.

Já na narrativa de Helen a autora, que se inspirou justamente quando realizava um curso pré-natal para escrever sua trama, aborda o lado solitário da maternidade. Os colegas de trabalho que não se interessam em marcar um café, o marido que não tem tempo para acompanha-la no curso. Uma mulher sem nenhuma rede de apoio, sem ter ninguém de confiança para desabafar.

Não sei por que ela insiste em falar disso sem parar, por que parece ter muito mias importância para ela do que para nós.


Além das mudanças físicas que as mulheres passam, o que pode ou não ser consumido - e só quem já engravidou sabe a lista enorme de cuidados neste ponto, incluindo também a questão das perdas gestacionais. 

Mas não pense que só se fala em maternidade não, tem depressão - que não é a pós parto -, pessoas que enganam as outras para viverem de aparências, falta de escrúpulo, a forma como o estupro é lidado quando envolve pessoas de diferentes classes sociais, e traição, porque neste mundo encantado, não poderia faltar este toque com os machos escrotos que compõe a trama.

As pessoas estão ocupadas, ocupadas demais para mim, pelo menos. Já fui esquecida.


Tudo isso junto e misturado em uma escrita fluída e envolvente, que transformam Greenwich Park em um vira páginas.


O que eu achei do livro...

Gostei muito da narrativa da escritora Katherine Faulkner. As peças do quebra-cabeça são bem espalhadas pelos capítulos, não existe informação em vão, sendo necessário para o leitor detetive se manter atento as reações de cada personagem e as situações passadas citadas constantemente por Helen para fazer as conexões e tentar descobrir o mistério antes de chegar ao fim.

Eu particularmente discordo da revista da TAG quando chamam Helen de ingênua. Sim, ela é solitária. Mas também é invejosa. Pois existe um misto de inveja e admiração em relação a Serena, ao qual ela tenta imitar como se assim fosse ter um pouco da luz que ela vislumbra na outra. 

Tudo naquele ambiente está começando a me incomodar: o carpete estampado, horroroso e de má qualidade, as tomadas imundas, o cheiro de mofo, a poeira no parapeito das janelas.


E é isso que a cega, a faz se proteger em uma bolha de perfeição facilmente removível para quem vem de fora. E aqui entra Rachel, a personagem que você não sabe ao longo da narrativa se é ingênua, malandra, golpista ou muito mais do que aparenta ser.

E assim deixo a dica para quem gosta de um bom mistério, um legítimo vira página que irá fazer a sua mente formar diferentes teorias.


Greenwich Park
Katherine Faulkner
Tradução: Marina Vargas
TAG - Record
2021 - 417 páginas

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terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Influencer


Sinopse: Narrado sob a perspectiva de três vozes nada confiáveis, o romance de Ellery Lloyd ― pseudônimo do casal britânico Paul Vlitos e Collette Lyons ― prende a atenção do leitor até a última página. Há uma diabólica conspiração em curso, pontos de vista diferentes para os mesmos fatos e, claro, mágoas que não podem ser resolvidas. Ao explorar o lado sombrio do universo dos influenciadores e os perigos da hiperexposição da vida privada, A influencer surpreende ao demonstrar nossa necessidade quase desesperada de sermos vistos e validados nas redes sociais e questiona até onde somos capazes de ir em busca de likes.

No mês de Maio/2022 recebi da minha assinatura da intrínsecos o livro A influencer, thriller de estreia dos escritores ingleses Collette Lyons e Paul Vlitos, que utilizam o pseudônimo Ellery Lloyd para transformar dois em um. Os mimos foram uma fita salva-celular e um porta-cartão.

 Emmy Jackson era uma editora de moda, namorava um escritor de relativo sucesso e nem sabia se um dia seria mãe. Mas em meio as mudanças editoriais da era digital ela precisava se reinventar. Seguindo a sugestão da sua agente ela passa a investir nos próximos grandes mercados. E quando se descobriu grávida, ela se tornou uma Instamãe, mas não qualquer uma, a @mama_semfiltro possui milhares de seguidores e transformou isso em profissão. 

Já faz um tempo, em todo caso, que sinto como se estivesse vendo um filme da minha vida se desenrolar diante dos meus olhos.


Dan, o marido, de autor celebrado se torna uma sombra de Emily. Enquanto tenta escrever um segundo romance, demonstra se sentir incomodado em administrar a vida artificial que parece invadir a vida real da família, gerando dúvida se com ele a esposa é sincera ou apenas mente, engana e manipula como faz com os demais.

Mas ter um perfil de sucesso exige esforço de todos – inclusive das crianças -, principalmente quando este se torna a sua principal fonte de renda. É necessário dar atenção aos seguidores, postar fotos com quem lhe impulsiona, dar entrevistas, se renovar, dar ares de naturalidade para produtos patrocinados, e sempre ter resposta a todas as perguntas, mesmo quando você não tem ideia ou nunca passou por determinada situação. 

Mas, afinal, quem pode falar de verdade que as coisas aconteceram exatamente como tinham imaginado?


E enquanto Emily se preocupa com haters e trolls, risco de cancelamento, formas de expandir o seu negócio e crise conjugal, uma de suas respostas aleatórias terá consequências.

Estas consequências tem um único início, uma personagem em busca de vingança por um retorno de Emily que se tornou fatal para alguém que ela amava. E a vingança neste caso exige um planejamento frio e calculado.


A escrita de Ellery Lloyd

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, os autores Collette Lyons e Paul Vlitos utilizam três narradores para contarem a história, sendo um sem nome e sem número de capítulo.

Logo no Prólogo sabemos que Emily se encontra em uma situação delicada, de extremo perigo, para a seguir retornar seis semanas no tempo e acompanhar o dia a dia de Emmy e Dan.

Minha mulher, é muito fácil de se identificar com ela. As pessoas gostam dela. De pessoas como ela.


Emmy é muito convincente em contar sua história, mas é justamente Dan que coloca aquela pulga atrás da orelha sobre os atos da esposa. O que é real? O que é deliberado? Qual o preço que Emily está disposta a pagar para atingir suas ambições?

Tudo isso em um ambiente que utiliza a face real de maternidade, com todas as suas dúvidas, os grupos de mães, das lágrimas e desafios, transformando isso em marketing, separando os acontecimentos em dias cinzentos e dias coloridos.

Pensei que, de algum modo, se eu visse você, ajudaria. Me ajudaria a te odiar menos. Me ajudaria a deixar a raiva ir embora.


Quem dá a tensão a tudo isso é justamente o terceiro narrador, a princípio sem nome, que pouco a pouco vai revelando acontecimentos passados até compartilhar os seus planos no presente. O que faz com que a cada personagem que se aproxime da família um possível vingador nos olhos do leitor.


O que eu achei...

Confesso que me surpreendi positivamente com o livro, achei que seria algo bobo e comecei a ler sem pretensão nenhuma. Mas não, por trás do suspense há uma grande crítica a exposição extrema, as mentiras inventadas para ganhar mais likes, os personagens devidamente desenhados para encantar o público.

Em relação aos personagens, nenhum dos três narradores conseguiram ganhar a minha empatia. Achei a postura do casal um tanto nojenta, e fiquei com muita pena das crianças, que são os mais vulneráveis neste paraíso instangrável criado pelos pais e equipe do perfil.

É para esse momento que programo meus posts, aparentemente pensados na hora e improvisados, mas na verdade pré-fotografados e já escritos.


Pois para ele absolutamente tudo vira negócio, por mais dor que isso possa provocar, por mais traumas que isso traga aos seus próprios filhos, beirando o absurdo. Ao mesmo tempo que serve de alerta para quem é viciado em redes sociais: não é porque você admira alguém que deve levar todas as opiniões e conselhos de um influencer ao pé da letra. Existem profissionais muito mais qualificados para ajudar em diferentes situações.

Em relação ao personagem que busca vingança, senti e compreendi a sua dor conforme ela era revelada, mas não consegui aceitar a forma como se buscou ameniza-la. A perda acrescida da necessidade de vingança a destroem por dentro, tornando claro o quando precisa de ajuda.

Com um pouco de pesquisa, você percebe que a rede social proporciona um entendimento muito simples daquilo com que as pessoas em todo mundo se identificam.


Em contra partida, gostei da forma como abordaram a maternidade, das relações pessoais, passando pelas imperfeições até o fato de que não, nem tudo é tão drástico assim. embora quando você tem uma média de duas horas de sono por dia acredite que é.

A escrita fluída e a tensão que vai crescendo junto com a passagem do tempo convidam o leitor, como em todo bom suspense, a virar mais uma página e ser surpreendido pelos acontecimentos. Com direito a frio no estômago conforme me aproximava do desfecho.

Tenho total ciência de que cada decisão que tomo agora, cada decisão incorreta, está me custando tempo. 


Ficando a recomendação para quem curte um bom suspense, e sim, as seis semanas irão passar voando. E se você gostar da dica, deixa um like, só para entrar no clima.


A Influencer
People Like Her
Ellery Lloyd
Tradução: Luciana Dias e Maria Carmelita Dias
intrínseca
2021 - 304 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro - era pago integralmente pela autora. 

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Casas Vazias



Sinopse: Uma criança desaparece em plena luz do dia. De um lado desse vazio brutal, o instante de desatenção de uma mulher que nunca quis ser mãe. Do outro, uma mulher que deseja ser mãe a ponto de cometer um ato desesperado. Entre esses dois pontos de vista, acompanhamos uma narrativa que ecoa as diversas formas de maternidade, das impostas às almejadas, do seu papel social à sua natureza primordial, em uma trama visceral e inquietante.

No mês de Maio/2022 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Casas Vazias da escritora mexicana Brenda Navarro, indicação do também escritor e editor Emilio Fraia. O mimo foi um acesso de 60 dias a uma plataforma de streaming - ao qual eu não usei devido a obrigatoriedade de informar dados de pagamento antecipadamente - e um pacote de pipoca de caramelo e flor de sal muito bom da Mais Pura.


A História

Entre o aventureiro e o que oferece uma vida estável, uma mulher que não deseja ter filhos opta pelo segundo. Em sua vida de classe média no México, casada com um europeu de pele branca, ela tem algumas regalias. Com o tempo ela resolve engravidar, e quando está prestes a dar à luz sua cunhada é assassinada pelo marido, fazendo com que ela se torne repentinamente mãe de dois. 

Daniel desapareceu três meses, dois dias e oito horas depois do seu aniversário. Tinha três anos. Era meu filho.


Na rotina do dia-a-dia ela volta a sentir vontade de retornar para a vida descompromissada e assim retorna aos braços do aventureiro, agora um amante com data marcada para partir em definitivo. O medo de perder aquele alívio em seu cotidiano a faz se distrair em uma tarde no parque. É no celular, em uma conversa com ele, que toda a sua atenção está focada, enquanto outra mulher, encantada pela beleza do seu filho, um menino de três anos, o leva.

A raptora vive na área pobre do México, esforçada, é o tipo de mulher que se vira nos trinta trabalhando e juntando dinheiro, a ponto de conquistar a própria casa e não dever para ninguém, muito pelo contrário. O homem com quem ela mora não quer lhe dar a tão sonhada filha, sendo um dos fatores que a faz se encantar pelo belo menino, e passa ver nele a possibilidade de construir uma família feliz.

O que foi que aconteceu? Vi pouco. E, embora eu tenha andado entre as pessoas, gritando o nome dele repetidas vezes, meu ouvido ficou surdo.


Mas a maternidade repentina vira tanto a sua vida de cabeça para baixo quanto da mãe consumida pela culpa da criança perdida.


A escrita de Brenda Navarro

Duas narradoras, dois pontos de vista em primeira pessoa, em comum uma criança de três anos. O lado B da maternidade na figura do pequeno Daniel/Leonel. 

As duas mulheres não possuem nome, assim como toda mulher que encara o desafio da maternidade, que deixa de ser alguém e passa a ser a mãe da(o) fulana(o). Aqui temos a mãe de Daniel e a raptora que mudou o seu nome para Leonel. Em comum, os desafios de criar uma criança e as culpas e dores que envolvem a maternidade.

Não ser vida, não ser fonte, não deixar que o mito da maternidade se estendesse em mim.


Um recurso que a autora Brenda Navarro utilizou que eu achei muito interessante é a diferença de tempo nas narrativas. A mãe navega entre algumas lembranças do passado, ao mesmo tempo que o seu presente alcança o futuro muito mais rapidamente. Sendo ela sempre a primeira a falar nas três partes da história.

Quem vive o presente mais lentamente, nos respondendo parte das dúvidas que surgiram com a mãe, é justamente a raptora, complementando a visão de quem está de fora, enquanto as personagens seguem tateando, ou quem sabe nos enganando.

Todos nós queremos o futuro, porque é uma promessa de que, em algum momento, você ficará livre da estupidez.


Mas além da maternidade em si, temos uma pincelada da paternidade ausente, pois os seus companheiros são homens que não desejam participar dos desafios cotidianos que é criar e educar uma criança, que se esquivam em qualquer dificuldade. Naturalmente no segundo caso o seu parceiro não tinha conhecimento da loucura que a sua companheira iria cometer. Mas também não existe amor suficiente para apoia-la nisso.

E como estamos falando de maternidade, estamos falando de mulheres. Relacionamento mãe e filha, mulher e homem, parcerias e também o extremo, com violência física, sexual e psicológica.

Pensei que tinha que dar tempo pra ele pra gente se conhecer, não se cria uma família da noite pro dia.


Tudo em uma escrita direta, fluída, envolvente que captura facilmente o leitor ao mesmo tempo que lhe revira o estômago.


O que eu achei

Casas Vazias é um livro forte, de leitura agoniante, que instiga a virar mais uma página em busca de notícias felizes ao mesmo tempo que abre um leque de teorias para os leitores. 

E embora eu tenha gostado muito do livro, não vejo ele como um espelho completo da maternidade, afirmação que li e achei muito generalizada. Diria que é um lado B aterrorizante, com os piores cenários que uma mãe pode ter que encarar. 

Se você quer ser mãe, vai ser boa mãe, mesmo que o menino seja tapado, me disse.


Pois a verdade é que a maternidade, como todas as escolhas nesta vida, possui suas belezas e desafios, mas acima de tudo, principalmente para a mulher, uma mudança completa de vida acompanhada de muita responsabilidade. Tornando a leitura quase que obrigatória para quem não deseja se atirar na piscina gelada, mas as vezes pensa em ceder às pressões externas.

Afinal, ter um filho não é igual a ter um animal de estimação, e o peso disso não é algo que todas querem assumir. Em Casas Vazias a personagem que faz a mãe é um retrato fiel disso. Pois a criança só ganha importância para ela quando desaparece, fazendo com que qualquer sentimento de alívio por poder retornar a vida de antes seja soterrado pela culpa.

E eu olhava pra casa, que, mesmo pequenininha, mesmo não muito bonita, mesmo avariada, era a minha casa, a minha casa.


Culpa esta que torna a todos na história muito humanos, falíveis, reais para quem mergulha no íntimo de quem tem um filho desaparecido em uma cidade onde a polícia não parece preocupada em procurar.

Um livro difícil de ler não pela complexidade da escrita, cuja narrativa é extremamente fluída, mas pela força dos acontecimentos que deixam a boca seca e a garganta apertada. Mas que ao final deixam o leitor ao mesmo tempo perplexo e satisfeito de ter lido uma ótima história.


Casas Vazias
Casas vacías
Brenda Navarro
Tradução: Livia Deorsola
TAG - Dublinense
2018 - 192 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.


Para quem já finalizou a leitura, é impossível não ter ficado com vários questionamentos sobre a história, embora ela inegavelmente seja redondinha: com começo, meio e fim. Até porque todos os personagens serem muito complexos e haver o forte elemento do sequestro de uma criança.

Vou começar pela mãe de Daniel/Leonel. No decorrer da leitura fica claro que ela fez uma escolha, o amante era um velho conhecido ao qual ela abandonou para montar uma vida estruturada com Fran, o marido espanhol. Mas também ficava claro o seu desejo de não ter filhos, até que um dia ela mudou de ideia. A razão? Não é explicada.

Eu sou a vítima, minha vida é mesmo uma grande merda pra acharem que eu sou a malvada.


Aliás o passado da mãe, ao contrário da raptora, é muito pouco explorado. Não fica claro se ela sempre foi o tipo de pessoa que se deixa levar, já que no casamento todas as decisões são tomadas pelo marido. Incluindo o fato de resolver adotar a sobrinha e tira-la do seu país de origem e de perto dos avós, fazendo com que ela tivesse que administrar não apenas um recém-nascido, mas a sobrinha que virou filha.

Há também a dúvida se ela possui alguma família, já que nenhuma rede de apoio aparece no antes e muito menos depois, citando apenas o afastamento dos amigos. O marido sim, tem família, mas esta se encontra distante e não parece se envolver com o sumiço da criança.

Eu estava mesmo sozinha e sentia que não podia mais falar e era como se meu humor estivesse ficando antiquado.


Tem a questão do autismo do menino, algo que eles demoraram a detectar e foi identificado rapidamente pela raptora. Um sinal do quanto a criança não era olhada? Ou aquele desejo dos pais de quererem um "filho perfeito" e não aceitarem nada diferente? Será essa a causa do distanciamento do marido em relação a criança?

Aliás, seria Fran realmente distante? Observa-se que os anos passam e a mãe de Daniel definha em meio a sujeiras e lembranças. Consumida pela culpa, ou talvez uma depressão pós parto que só foi acentuada, ela vive em volta do próprio umbigo. E mesmo assim ele não a abandona, como poderia se esperar. Será também culpa? Ou a personagem nos engana sobre este homem que a fez ter o desejo de ter um filho?

Por que os chamam desaparecidos e não se atrevem a chamá-los de mortos? Porque os mortos somos os que os procuramos, eles continuarão sempre, sempre vivos.


Não poderia deixar de citar Nagore, a menina cujo pedaço do nome é uma das poucas coisas que o menino consegue falar. Testemunha de um crime horrível, ela é uma menina amorosa, que recebeu amor da sua família, e se vê em meio ao caos de morar com os tios.

Mesmo arrancada do seu país, a menina segue carinhosa, principalmente com o menino. E nos poucos diálogos se vê como é difícil para ela a vida junto ao casal que está em pedaços.

O que foi feito daquele menino que nasceu do meu ventre e o que foi feito de mim?


E por fim, o que houve com o menino? Existem uma sequência de cenas e diálogos que dão a entender que esta criança sofreu horrores, já que o plost twist é a raptora ter o menino raptado. Existem alguns elos de ligação entre a visita ao necrotério e os sapatos do menino entregues a raptora. Que só no fim entende o desespero que causou na mãe do menino.

Eu tenho a minha própria teoria sobre o final, mas apesar da zona ser de spoiler, vou optar em não descrever, pois mesmo sendo ficção, é doloroso demais colocar em palavras, algo que nem a autora parece ter tido coragem de transmitir de forma clara.


sexta-feira, 8 de julho de 2022

Os Abismos



Sinopse: Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas e rodeado por precipícios físicos e metafóricos. O ambiente, exuberante e bem-cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente que está em conflito com os caminhos escolhidos e impostos para a própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm a previsibilidade do cotidiano.

No mês de março/2022 recebi pela minha assinatura da intrínsecos o romance vencedor do Prêmio Alfaguara 2021 Os Abismos, livro da escritora colombiana Pilar Quintana. O mimo foi um poster e 5 imãs de mulheres latinos americanas.


A história

Em um grande apartamento, que muitas vezes parece uma floresta, moram a Claudia mãe, a Claudia filha e o pai e marido Jorge. 

A Cláudia mãe sonhava em sua juventude em cursar direito, sonho devido enterrado por seu pai. Após ficar órfã, com grande apoio da mãe, acabou casando com um homem bem mais velho e sendo sustentada por ele. E embora tenha o desejo de oferecer uma educação bem diferente da que recebeu para a sua filha, passa os seus dias na cama lendo revistas de celebridades, dando uma atenção maior para as que tiveram um desfecho trágico, como Grace Kelly.

Havia tantas plantas no apartamento, que nós o chamávamos de a selva.


Ela passa a se sentir mais alegre quando sua cunhada Amelia aparece do nada casada com um homem mais jovem. Gonzalo é vendedor de roupas masculinas, bonito, de corpo definido, e não demora em trocar olhares com ela, enquanto Jorge se dedica quase integralmente ao supermercado, negócio que possibilita a boa vida de todos.

Com a descoberta do caso, Cláudia se entrega nos braços da depressão, o que é acentuado pelo suicídio de uma amiga próxima. O que gera uma mudança de local e uma nova visão para Claudia filha do que é vida e morte, e entre a preocupação e a curiosidade, novos instintos irão aflorar nesta criança de oito anos.


A escrita de Pilar Quintana

Utilizando a narrativa em primeira pessoa quem nos conta os abismos familiares é a menina Claudia de apenas oito anos. A visão infantil exibe o lado mais cruel de uma casa sem amor, onde é comentado que a menina era a bebê mais feia da maternidade, ou é pedido que a mesma se afaste quando esta apenas deseja dar carinho.

Dividido em quatro partes, ela marca mudanças na vida da família, sejam elas grandes ou que exigem atenção. Lá estão a tristeza, o abandono, a depressão e a solidão. O conjunto disto tudo resulta em abismos não só na paisagem, mas entre as pessoas que moram na mesma casa.

Minha mãe sempre estava em casa. Ela não queria ser como a minha avó. A vida inteira me disse isso.


Tudo em um círculo vicioso que faz a menina, ainda tão jovem, ter uma série de preocupações com os pais, ao mesmo tempo que entre as tantas tragédias ouvidas, passa a se interessar ora com medo, ora com curiosidade, pela morte. Levando o leitor mais sensível a uma agonia permanente sobre os atos de todos da família.


O que eu achei do livro...

A escrita fluída e rápida de Pilar Quintana capturou a minha atenção logo nas primeiras páginas, assim como a base do romance. Pois apesar de termos uma narradora criança, a pauta é séria e exige mais do que cuidado e atenção.

Escondida embaixo de sonhos destruídos e uma falta de vontade de fazer qualquer coisa, existe a depressão, que somada ao alcoolismo, pode passar uma falta impressão de apenas uma pessoa que não quer nada com nada. Fica evidente desde as páginas iniciais como a mãe precisa de tratamento para que isso não afete ainda mais a filha no futuro.

Você precisa ficar em cima de mim o tempo todo?!


Achei muito curioso a escolha do mesmo nome para mãe e filha, embora seja comum entre meninos no Brasil, em ambos os casos me faz pensar em algo que oscila entre o ego e a própria continuidade, como se fosse uma forma de se imortalizar. Ao mesmo tempo existe uma dificuldade grande da mãe em compartilhar tempo e atenção com a filha, como se em muitos casos a menina fosse mais um estorvo do que uma maternidade desejada.

É uma leitura que prende do início ao fim, possibilitando ler de forma rápida, no meu caso, pelo menos, os ganchos de um capítulo para o outro me incentivavam a sempre virar mais uma página, para saber o que vai acontecer, já que eu passei a história inteira com um sentimento de desastre iminente.

Saiu roxa. Horrorosa. Colocaram ela no meu peito e eu, tremendo e chorando, pensei: meu esforço foi para isto?


Um alerta importante, por se tratar de depressão, o livro possuí vários gatilhos em relação a suicídio, então se você se sente mais sensível ao tema no momento, talvez a recomendação seja colocar na famosa lista de compras futuras, até estar mais confortável em relação ao assunto.

Se não for o caso, fica a dica para quem gosta de livros que mexem com o psicológico, que colocam as escolhas femininas na roda, que querem conhecer mais escritoras latinas-americanas, ou que simplesmente querem ler.


Os Abismos
Los abismos
Pilar Quintana
Tradução: Elisa Menezes
Intrínseca
2021 - 272 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.


Divagando com Spoiler

Esta parte aqui é para quem já leu o livro e quer saber um pouco mais da opinião de quem já finalizou a leitura. Então se você não gosta de saber nenhum detalhe a mais, não siga a leitura. Caso contrário, fique à vontade para descobrir quais foram os ecos que a leitura me deixou após eu fechar a última página.

É interessante como a tensão do livro cresce sutilmente, quebrando percepções e me fazendo rever opiniões sutilmente. Se tudo começa com a descrição cuidadosa do apartamento lotado de plantas até um final totalmente aberto, que me fez ficar remoendo o que aconteceria com mãe e filha.

Baixinha, magrinha, moreninha, conforme minha mãe dizia que ela era quando criança, mas igualzinha ao meu pai. Uma menina feia.


Confesso que inicialmente achei que Cláudia mãe era apenas uma madame preguiçosa, do tipo que nada precisa fazer e não se esforça o mínimo para mexer o mindinho, situação cômoda proporcionada pelo marido, que trabalha feito louco todos os dias da semana, o que explica um pouco da sua falta de atenção com o que acontece dentro de casa.

Esta opinião de certa forma foi fortalecida pelo caso com Gonzalo, pois ela do dia para a noite ganhou vida, passou a levar a filha em passeios para possibilitar os encontros com o amante. Até que tudo foi descoberto e acabou.

Quem é que no meio da noite, de pijama e sem sapato, ia ter a ideia de sair em um bote inflável para dar um passeio pelo mar escuro e revolto?


Se por um lado a tia Amélia mantém o carinho pelo irmão e pela sobrinha, ela se distância da família, enquanto Cláudia filha espera para saber se os pais irão se separar. E aqui Claudia mãe começa a mostrar os sinais da depressão, ao ficar em um quarto escuro, passar a beber mais e se desligar de tudo e a palavra suicídio passa a ser uma decorrência ao longo dos capítulos.

E foi isso que eu achei interessante, conforme novas histórias de mulheres que optam em acabar com tudo encerrando a própria vida se tornam comum, eu esperava, com a mudança de mãe e filha para um lugar recheado de abismos, que Claudia mãe fizesse uma loucura.

Ficar embaixo da cascata era como gritar em uma terra solitária, em um deserto frio, em um páramo.


Mas o que me quebrou foi a Claudia filha jogando a sua boneca preferida no precipício, como se a criança fizesse um teste sobre o que poderia acontecer se ela mesma optasse por aquele caminho, que no início causava apreensão e agora parece seduzi-la.

O episódio parece fazer os pais acordarem e por um breve período direcionarem a devida atenção a filha, mas logo tudo retorna ao normal, já que nem para a mãe e muito menos para a filha é buscado uma avaliação ou iniciado algum tratamento.

Os pezinhos para cima, a cabeça para baixo e os cabelos espalhados, longos e movendo-se como asas.


Ficando realmente para a imaginação até onde as duas iriam em relação ao fascínio que a morte despertava em ambas, principalmente no que se refere a menina, cujas cobranças estéticas já ocorriam de forma nem sempre muito sutil, enquanto tudo ao seu redor era desprovido de apoio.

terça-feira, 11 de maio de 2021

O Sol Mais Brilhante



Sinopse: Leona, uma antropóloga americana, dá à luz em um remoto vilarejo massai no interior do Quênia e precisa decidir se quer ou não ser mãe. Jane, a solitária esposa de um funcionário da embaixada dos Estados Unidos, segue seu marido para os trópicos e vê como a vida pode ser frágil no continente africano. Simi, uma mulher massai estéril, precisa confrontar sua infertilidade em uma sociedade em que as mulheres são valorizadas apenas pelo seu papel como reprodutoras. Em uma obra singular, essas três mulheres tão diferentes entre si enfrentam a maternidade, encaram tragédias e amadurecem diante das dificuldades não somente do cenário subsaariano, mas da existência humana.

Enviado em Maio/20 pela TAG Inéditos, o livro da escritora americana Adrienne Benson une o tema maternidade com o local de infância da autora como fundo, tendo como resultado um livro de escrita fluída e delicada.

Leona cresceu nos Estados Unidos, teve parte de sua vida marcada pelas visitas ao seu quarto pelo seu pai e a cegueira auto imposta de sua mãe. Para fugir dos dois, ela se torna antropóloga e assim se muda para a África, onde vai morar em uma manyatta, em meio a vida selvagem do Quênia.


Era o grito dela, percebeu, embora não tivesse sentido a boca abrir ou a reverberação do ar.


Mas em busca de um banho descente e uma cama confortável, ela decide passar um final de semana em Narok, onde acaba conhecendo um homem e num raro momento em que baixa sua guarda, ela acaba grávida.

Leona não tem nada de maternal, então é com felicidade que ela acaba entregando logo após o nascimento de sua filha a responsabilidade de cuidar do seu bebê para Simi, que assume com alegria e alívio.


Sem a opção de outros pastos, essa cultura poderia desaparecer tão rápido e fácil quanto os rios e córregos da região.


Simi é uma mulher que graças a sua mãe iniciou os seus estudos, sendo a única mulher no vilarejo onde Leona está que conhece algumas palavras da língua inglesa. Infelizmente seu pai impediu o sonho de sua mãe para que ela avançasse mais, e assim Simi segue o mesmo destino de todas, se tornando a terceira esposa do filho do ancião da aldeia.

Mas Simi se revela infértil, e mesmo com todos os rituais, não consegue dar à luz ao seu próprio filho. O que a faz temer por ser expulsa do local, já que poderia ser considerada malfadada e assim trazer maldições para a sua aldeia.


Porém, do mesmo jeito que a luz do dia sucede-se à escuridão da noite, a escuridão também dá lugar à luz do dia.


Completando o trio temos Jane, que de certa forma também foge da família, sentindo o peso da culpa por não ter sido a irmã responsável que a mãe desejara tantas vezes lhe pedir antes de sua morte. No Quênia ela vai trabalhar na proteção dos elefantes, mas ao ter que enfrentar a violência dos que desejam sacrificar os animais, ela acaba conhecendo Paul.

Ao se casar, ela passa a seguir o marido e desistindo da vida profissional. Se inicialmente ela se sente vazia, a gravidez e mais tarde a filha passam a dar sentidos aos seus dias.


Lá, todas as mães estavam afinadas com o conceito de uma negligência benéfica.


Através destas três mulheres, cujos destinos acabam se cruzando, Adrienne Benson descreve diferentes sentimentos e situações relacionadas a maternidade, das alegrias as tristezas, da alienação parental a proteção, das dúvidas ao amor imenso.

A história é dividida em três partes, sendo que a primeira é a mais longa e também um pouco mais arrastada. Ganhando ritmo na segunda parte, quando as filhas das três protagonistas dão o tom da narrativa, preparando o leitor para o desfecho na terceira parte.


Os corpos caíram um a um, encolhidos sobre si mesmos, em poças de sangue que se espalharam na areia e foram absorvidas por ela.


Achei que o projeto gráfico de certa forma pode enganar um pouco o leitor, apesar da história ser no Quênia e ter algumas descrições da vida da comunidade, a presença de Simi é menor do que as duas personagens americanas. O que me faz pensar que a história poderia ser em qualquer lugar, já que ela trata das diferentes facetas da maternidade.

Por outro lado, eu estaria sendo injusta se não citasse como o amor da escritora pulsa ao descrever os lugares da sua infância, nos levando pelas estradas de terra, nos deixando nas margens do rio ou embaixo de uma enorme árvore.


Costumava desejar que aquilo tudo nunca tinha acontecido e que crescera em uma  família onde todos sorriam uns para os outros, conversaram, uma família que não fosse marcada pela ausência.


Um livro que iniciei a leitura empurrando as páginas e terminei emocionada. O que me fez reforçar a crença que uma história pode te capturar muito além da página cinquenta.


O Sol Mais Brilhante
The Brightest Sun
Adrenne Benson
Tradução: Elisa Nazarian
TAG - Harper Collins
2018 - 320 páginas

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