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domingo, 9 de agosto de 2026

O que precisamos saber



Sinopse: Em 2119, no que restou do mundo após uma catástrofe climática, um professor de literatura parte em busca de um poema perdido de 2014. Sua obsessão não é compreendida pelos jovens: qual é a importância da literatura numa terra devastada? É um questionamento que o mestre britânico Ian McEwan nos provoca em um romance de ideias ousadas. Como a história da literatura é escrita? Em 2014, em um jantar de intelectuais, um poema supostamente brilhante é lido por Francis Blundy em homenagem à sua esposa. No entanto, nenhuma cópia do texto é encontrada, apesar de tudo no século XXI ser registrado digitalmente, de e-mails a mensagens instantâneas privadas ― um vasto material que apenas cem anos depois poderá ser acessado. O professor Thomas Metcalfe segue obcecado por encontrar o poema. A jornada de Metcalfe nos leva a reconstruir a vida antes da tragédia global até a descoberta de segredos inconfessáveis Afinal, o que pode a literatura e as artes diante do apocalipse iminente?

O livro de Abril/26 foi uma indicação da própria TAG Curadoria: a distopia do escritor inglês Ian McEwan recém lançada pela Companhia das Letras O que precisamos saber. Este foi o quarto livro enviado pelo Clube aos assinantes e o segundo que eu recebo nos meus 9 anos como assinante - o primeiro foi Na praia. O mimo foi uma coletânea de humor da América Latina.

No ano de 2014, durante o aniversário da esposa Vivien, o prestigiado autor Francis Blundy lê em um jantar com amigos e parentes intelectuais o seu poema mais brilhantemente escrito, e que nunca foi publicado, gerando todo um desejo para os que não participaram em conhecer o texto.

Com exceção das compras, pouco sabemos sobre as preparações para a noite que viria a ser conhecida como o Segundo Jantar Imortal.


O que faz a busca pelo original sobreviver não só aos anos, como ao colapso climático e a guerra nuclear. Sendo uma obsessão do professor universitário Thomas no ano de 2119.

Vivendo em uma Terra em que cidades antes tão famosas estão embaixo d'água e a população reduziu fortemente. Um mundo onde a escassez faz com que os mais jovens não tenham interesse na arte, na memória e na cultura dos seus ancestrais do século XXI, havendo inclusive um desdém por aqueles que não fizeram nada para impedir o cenário brutal.

A coroa era uma empreitada formidável. Consistia de quinze sonetos. O último verso de cada um tinha que ser repetido na primeira linha do seguinte.


Afinal, se o mundo antigamente era tão bom, por que ele não foi preservado? Por que os alertas não foram levados a sério? Por que as guerras continuavam?

Mas ao buscar todas as informações possíveis sobre o poema e as pessoas que ouviram a sua leitura, não apenas Thomas como o leitor que o acompanha irão descobrir que além da beleza, os participantes do jantar possuíam muitos segredos.

Um e-mail ou uma mensagem raramente contém tanta reflexão subjetiva interessante quanto uma bem pensada carta dos séculos XIX ou XX.


Tornando O que precisamos saber dois livros em um, onde na primeira parte será encontrada uma distopia e na segunda todos os mistérios de Vivien, a presenteada com o lendário poema.


A escrita de Ian McEwan

O renomado escritor e roteirista britânico Ian McEwan já foi chamado de macabro, ganhou o Booker Prize e tem vários de seus livros adaptados para o formato cinematográfico. Sendo considerado hoje um dos autores de língua inglesa mais importantes da literatura contemporânea.

Seus livros misturam tabus, psicologia, dilemas sociais e morais, história e por consequência a figura humana diante de tudo e de todos. E sua escrita é descrita como elegante e rigorosa, o que torna os seus livros fontes de estudo em universidades, além de já ter sido traduzido para diferentes idiomas.

Os vinhos que os convidados deles beberam eram superiores aos nossos. A comida, sem dúvida, mais deliciosa e variada, vinha do mundo inteiro. O ar que respiravam era mais puro e menos radioativo.


E esta prosa elegante e fluida é encontrada em O que precisamos saber, um livro que parece dois, ao separar a narrativa em duas partes: uma em que temos o olhar investigativo e saudosista de uma época que não viveu através de Thomas e outra que temos todos os dilemas morais com Vivien.

O autor também descreve uma distopia bastante diferente, não há invenções futuristas, aliás, não há mais nem as novas invenções, focando mais nas questões existenciais, nos impactos que a combinação guerra e mudança climática irão perpetuar no planeta e as relações com a própria história.

Haviam crescido com as consequências daquilo, ouviam os avós falar sobre aquilo. O passado era povoado por idiotas. Grande coisa.


Já na parte de Vivien o autor irá encontrar também cultura e memória, mas aqui muito mais psicológico no que se trata em relações humanas e escolhas, além de instigar o leitor a desvendar os mistérios que tanto obcecaram Thomas no futuro.


O que eu achei de O que precisamos saber

No geral eu gostei do livro, principalmente da parte da distopia. Achei muito interessante ler uma visão em que tudo o que tem nos afetado atualmente nos levar de volta para um mundo que mistura anos 80 e período medieval. Sim, os problemas com as telas acabaram, e os voos de avião também.

E os alunos de Thomas nos trazem vários questionamentos muito atuais: como um período em que evoluímos tanto tecnologicamente e culturalmente não preserva adequadamente o seu planeta? Como uma população com tantas possibilidades de ir e vir ainda se extermina através de guerras injustificáveis?

As ciências humanas estão sempre em crise. Não acredito mais que se trate de um problema institucional - faz parte da natureza da vida intelectual ou do próprio pensamento.


Sim, eu sei que desde que temos o mínimo de conhecimento do nosso mundo, é assim que vivemos. Evoluímos pouco a pouco para tornar vida mais cômoda, em paralelo seguimos com níveis enormes de desigualdade social, e no que se trata de poder, vida e moralidade nem sempre importam.

Tornando o mundo de 2119 de Ian McEwan um dos mais possíveis de todas as distopias que li até agora, o que de certa forma aumentou a minha angustia ao ver as previsões do tempo aqui no Sul.

Quanta liberdade e passividade, quanto atrevimento temoroso. Eram de uma mesquinhez brilhante, briguentos além dos limites, prontos a morrer tanto pelas boas ideias quanto pelas más.


Outro ponto que achei bacana de ser abordado é o sentimento de Thomas de ter nascido na época errada, e isso não é algo incomum, ao mesmo tempo de ser um fato bastante curioso essa idealização por tempos passados. Já que somos formados pelo que vivemos, convivemos e lemos, fiquei pensando se alguém realmente se adaptaria se caísse de paraquedas em um período diferente do que nasceu, ou se o choque de realidade seria muito diferente.

Falando em idealização, Thomas também traz um fenômeno comum em todas as épocas, a admiração profunda que se tem por pessoas que não conhecemos. Eu sempre digo que prefiro não conhecer profundamente os autores de meus livros favoritos, pois de perto ninguém é normal. E na narrativa não é diferente, e o meme expectativa x realidade se faz presente.

Aquela gente antiga compunha-se de imbecis ignorantes, miseráveis e destrutivos. Como mencionou um dos alunos mais inteligentes, sem dúvida eles poderiam ter feito algo mais do que expandir suas economias e guerrear.


Também observei espelhamentos da primeira e segunda parte nas relações humanas, principalmente nas chamadas românticas, o que mostra que em determinados aspectos a humanidade segue a mesma, independente da época.

O que me faz chegar na segunda parte, que conta a história de Vivien, a musa de Thomas, e um pouco mais dos personagens que estiveram no famoso jantar da declaração do poema. E confesso que não gostei tanto.

Eu estava sozinha. Sem ninguém com quem falar. Ninguém se importava.


O grupo apresentado seria digno de uma terapia de palco no formato do antigo Casos de família, onde a forma individualista de Vivien traz a narrativa para algo bem psicológico sobre suas ações e reações ao que ocorre ao seu redor.

Aliás, uma coisa que eu senti falta na segunda parte é que ela não aborda os pré-acontecimentos que levaram a todas as mudanças de 2119, pois estamos nas memórias de Vivien, e o foco nos acontecimentos que nortearam as suas decisões, seja elas pensadas ou tomadas pelo puro impulso.

Hoje desprezo essas histórias simplistas das terapias. É possível que nunca exista qualquer prova. Em vez disso, a pessoa escolhe a história que se ajusta melhor ou que lhe oferece mais consolo.


Tornando O que precisamos saber uma leitura diferente, que mexe com a curiosidade, levanta perguntas e gera reflexões sobre de que forma o presente irá impactar o futuro em todas as esferas. Ficando a dica para quem se interessar.


O que precisamos saber
What we can know
Ian McEwan
Tradução: Jorio Dauster
TAG - Companhia das Letras
2026 - 381 páginas
Publicado originalmente em 2025


sexta-feira, 28 de abril de 2023

Migrações



Sinopse: Deixando tudo para trás, menos seu equipamento de pesquisa, Franny Stone chega à Groenlândia com um propósito singular: seguir as últimas andorinhas-do-mar do Ártico no que pode ser sua migração final para a Antártida. Franny consegue um lugar em uma embarcação de pesca, e ela e a tripulação zarpam, viajando cada vez mais longe da costa e da segurança. Mas quando a história de Franny começa a se desenrolar - um caso de amor apaixonado, uma família ausente, um crime devastador - fica claro que ela está perseguindo mais do que apenas os pássaros. Quando os segredos obscuros de Franny a alcançam, quanto ela está disposta a arriscar por mais uma chance de redenção?

Recebi no mês de fevereiro/23 pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Migrações da escritora australiana Charlotte McConaghy. O diferencial neste caso é que não houve curador, ou melhor, a própria TAG foi a curadora, ao acreditar que o livro merecia ser lido. O mimo foi um copo plástico com canudo de 330ml com dados sortidos de diferentes escritores, o meu foi do Machado de Assis.

Em um futuro ao qual o leitor desconhece o ano, a humanidade ainda não possui colônia em Marte, mas diversas espécies de animais foram extintas. Uma grande movimentação está ocorrendo para proibir a pesca antes que os peixes desapareçam também. E é nesta Terra que a natureza está destruída que Franny Stone tenta acompanhar o que deve ser a última migração das andorinhas para a Antártida.

Os animais estão morrendo. Em breve estaremos sozinhos.


Órfã e apaixonada pelos animais, ela carrega entre vários equipamentos que monitoram as andorinhas as cartas que escreve ao marido, o professor universitário Niall Lynch, especialista em aves migratórias.

Mas para acompanhar as aves ela precisa de um barco, sem um a disposição, ela tenta carona entre os que despreza: os barcos pesqueiros. Após muitas negativas é no Saghani, que significa Corvo na língua dos indígenas do extremo norte, que ela conhece uma equipe cujos laços serão formados no decorrer da navegação.


A escrita de Charlotte McConaghy


Uma distopia que não é um suspense, mas que te empurra para a próxima para saber o que aconteceu. Assim é a narrativa em primeira pessoa da autora australiana Charlotte McConaghy.

Misturando presente e passado da personagem Franny Stone, aos poucos fui montando o quebra-cabeça que levaram a jovem mulher de trinta anos a realizar a migração com as andorinhas. No que horas parece desejo de redenção e outras de libertação, que pouco a pouco me induziu a questionar e a me surpreender.

De acordo com minha mãe, as páginas de um romance guardavam a única beleza que o mundo era capaz de oferecer.


Os tripulantes do navio pesqueiro Saghani trazem personagens secundários complexos, seja por suas origens ou ações, que começam a trazer uma nova percepção em um mundo que parece estar se acabando. Assim como a própria família de Franny, principalmente seu marido, sua sogra, sua mãe e sua tia, cujo foco é muito mais psicológico quando pensamos em suas reações, negações e aceitações.

Tudo isso em um futuro distópico não definido, onde o meio ambiente está se desintegrando, e não é difícil pensar que ele está mais perto da nossa realidade do que da ficção quando vemos espécies desaparecerem uma a uma e os recordes de queimadas em nossas florestas.


O que eu achei de Migrações


Até aonde o vai o vazio e a curiosidade podem te levar? Até aonde a tragédia e a tristeza te impulsionam a ir? Até que ponto a tua natureza fazem os teus pés remexerem em um cenário apocalíptico?

Com um presente e um passado que me prenderam a atenção mais uma protagonista com uma personalidade diferente das tradicionais, Migrações foi uma leitura que me envolveu, me entristeceu e me deu esperança.

Eu nunca estive tão exausta na minha vida, e é perfeito. Significa que eu consigo dormir.


Sendo o tipo de livro que sinto vontade de abraçar, que mexeu com os meus sentimentos não tão bem guardados, principalmente quando pensamos em perdas que já aconteceram e que ainda irão ocorrer.

E mesmo havendo alguns pontos que para mim ficaram com um ponto de interrogação, isso não afetou o fechamento completo da história. Que afinal é a história da Franny, personagem pela qual me encantei e me identifiquei em relação a sua inquietação. Afinal, para quem gosta de viajar e de natureza, impossível se imaginar estático enquanto tudo é extinto.

Milhares de espécies estão morrendo neste exato momento e sendo ignoradas. Estamos acabando com elas. Criaturas que aprenderam a sobreviver a qualquer situação, a tudo, exceto a nós.


Também gostei muito da construção dos personagens secundários. A relação de Franny com Niall é muito bonita justamente pelo amor que um tem pelo outro, assim como todos os paradigmas que envolvem a sua relação com Penny, sua sogra.

Também me encantei com a tribulação do barco, seu cotidiano em um pequeno espaço compartilhado, a união, e suas histórias pessoais, que não por acaso poderiam render um segundo livro com muito mais detalhes. 

Como eles sabem para onde ir? Por que eles voam tão longe? Por que eles são os últimos, por que esses, o que os torna mais sortudos do que os outros?


Em relação a edição da TAG, achei a parte gráfica lindíssima, as letras também são de fácil leitura, e o texto foi bem distribuído nas páginas. Tem alguns probleminhas de revisão, mas nada grave que atrapalhe a leitura.

Ficando assim a minha indicação deste livro sensível, envolvente, reflexivo tanto em relação as pessoas quanto ao meio em que vivemos. Ficando como dica extra para quem se envolve profundamente com os personagens uma caixa de lenço de papel e um edredom quentinho para não sentir tanto frio.


Migrações
Migrations
Charlotte McConaghy
Tradução: Wendy Campos
TAG - Alta Books
2020 - 343

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