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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Diários de uma Apotecária




Sinopse: Ambientado em uma corte imperial, Diários de uma apotecária acompanha Maomao, uma jovem aprendiz de apotecária e apaixonada por venenos que, por circunstâncias inesperadas, passa a servir no palácio interno do imperador. Cheia de sardas e longe de se destacar pela beleza, leva uma vida discreta e só deseja cumprir seu tempo de serviço em paz ― até descobrir que os filhos do imperador estão morrendo e o rumor de uma maldição está se espalhando pelos corredores do palácio.

Maomao é uma jovem que cresceu no bairro das cortesãs e aprendeu desde cedo a lidar com medicamentos, ervas e venenos. Sua vida muda quando ela é sequestrada e vendida para trabalhar como serva no palácio interno do imperador. Seu plano é simples: cumprir o período de serviço de dois anos sem chamar a atenção de ninguém e, assim que possível, voltar para casa.

Esse plano começa a desmoronar quando ela toma conhecimento de que os filhos do imperador estão adoecendo. Movida pela curiosidade e pelo conhecimento que adquiriu como apotecária, Maomao investiga o que está acontecendo e acaba chamando a atenção de Jinshi, um enigmático eunuco funcionário da corte cuja beleza é tão extraordinária quanto sua capacidade de se envolver nos assuntos alheios.

Em sua volta, havia o mundo mais luxuoso e brilhante, e, ao mesmo tempo, entranhado em sedimentos impuros de uma atmosfera tóxíca.


Promovida a degustadora de alimentos da consorte Gyokuyou, a favorita do imperador, Maomao passa a circular por um ambiente em que as aparências escondem disputas de poder, rivalidades, segredos e interesses políticos.


A escrita de Natsu Hyuuga

Natsu Hyuuga, também conhecida pelo pseudônimo Hyuganatsu, é uma escritora japonesa nascida na província de Fukuoka. Ela iniciou Diários de uma Apotecária em publicações na internet no ano de 2011 e ganhou edição impressa em 2014, com ilustrações de Touko Shino.

A obra original é uma light novel, formato de romance popular no Japão que costuma combinar narrativa em prosa e ilustrações. A história também ganhou duas adaptações para mangá, com equipes criativas distintas, além de uma adaptação para anime.

Em um lugar onde somente os príncipes recebiam o direito de assumir o trono imperial, não havia motivos relevantes para se eliminar também as meninas. 


Uma das características mais interessantes da escrita de Hyuganatsu é a maneira como ela combina mistério, intriga política, conhecimentos de medicina e farmacologia, humor e relações humanas. O que faz com que muitos fãs digam que Maomao é uma mistura de Sherlock Homes e Dr. House.

Os casos investigados por Maomao funcionam como pequenas histórias dentro de uma narrativa maior. Há problemas aparentemente isolados, comportamentos suspeitos e acontecimentos que exigem observação e raciocínio. Aos poucos, porém, percebemos que as peças não estão tão separadas quanto parecem. Absolutamente nada na história de Hyuuga está ali por acaso, assim como a sua ligação pode estar no mesmo volume ou em um próximo.

A letra disforme aparentava ser um artifício de camuflagem, mas, de algum modo, sugeria ser a escrita de uma mulher.


A autora também demonstra cuidado na construção dos personagens. Suas características não se limitam àquilo que dizem ou fazem em determinada situação: suas reações, contradições, lembranças e interpretações dos acontecimentos ajudam a compor personalidades mais complexas e lhe dão humanidade, pois eles não são 100% santos ou vilões. 

Isso fica particularmente interessante no que se refere a Maomao. Seu comportamento irônico e pragmático pode dar a impressão de que ela é indiferente a tudo o que acontece ao redor. Entretanto, sua maneira de observar as pessoas e de reagir às situações revela que existe muito mais por trás dessa postura.

A própria ambientação contribui para a narrativa. O palácio não é apenas um cenário bonito para os acontecimentos: é um espaço organizado por hierarquias, privilégios e restrições, no qual a posição social de cada pessoa influencia suas possibilidades e seus destinos.


As diferenças entre a light novel, o mangá e o anime

Se você não conhece nenhum dos três e não gosta de spoiler, sugiro pular esta parte e ir direto para o que eu achei do livro, pois para comparar preciso citar os acontecimentos e isso pode quebrar um pouco a leitura.

Uma das particularidades de Diários de uma Apotecária é que a história pode ser acompanhada em diferentes formatos. E, para quem já conhece Maomao por um dos mangás e/ou pelo anime, ler a light novel proporciona uma experiência complementar e detalhada.

No Brasil, a light novel é publicada pela editora Alt com tradução direta do japonês, enquanto o mangá ilustrado por Nekokurage, com adaptação de Itsuki Nanao, é publicado pela Panini. Existe ainda outra adaptação para mangá, ilustrada por Minoji Kurata, mas não é publicada no Brasil. 

Não havia chances de uma jovem que não sabia ler e escrever se tornar uma consorte com um quarto próprio. Afinal, ser consorte também era um ofício; elas recebiam até salário.


No mangá ilustrado pela Nekokurage encontrei um traço muito cuidadoso para representar cada detalhe e os complementos nas páginas finais, que não são descritos no romance, também servem de complemento para algumas cenas.

O anime, por sua vez, leva a narrativa para a animação, com o acréscimo de recursos visuais, expressões, trilha sonora e escolhas de direção que também influenciam a maneira como percebemos os acontecimentos. O traço é mais semelhante ao da Nekokurage.


Mas existe diferença entre eles?

Sim, como ocorre em qualquer adaptação de livro para visual, na light novel há mais detalhes e uma compreensão diferente dos personagens. No primeiro volume, encontramos uma apresentação mais gradual de Maomao e das pessoas que a cercam. A narrativa dedica espaço aos pensamentos da protagonista, às suas observações e às associações que faz enquanto tenta compreender o ambiente em que foi colocada.

Também temos mais informações sobre as relações entre as personagens, como por exemplo a Gyokuyou ao palácio de Jade e sobre as damas que a acompanham.

Ainda que tivesse um sorriso delicado, de alguém que não mataria uma mosca, havia algo oculto que parecia se mover nas sombras.


Outro ponto é a amizade de Maomao com Xiaolan. As conversas, os comentários e as fofocas não acontecem de maneira tão acelerada, permitindo acompanhar melhor como essa relação se estabelece ao longo do tempo.

Sobre o casal principal, o aspecto interessante é a maneira como a narrativa apresenta as primeiras impressões de Maomao sobre Jinshi. Sua beleza é algo que ela reconhece repetidamente, mas isso não é o suficiente para que ela suspire como os demais. A protagonista tem uma maneira muito própria de interpretar as pessoas, e Jinshi não escapa de suas comparações pouco elogiosas, detalhando inclusive porque quando ela o vê pensa em determinado inseto

Na light novel também fica mais evidente o contraste entre o comportamento que Maomao demonstra e aquilo que parece preferir manter escondido. Seu pragmatismo, sua ironia e sua habilidade para se adaptar às circunstâncias convivem com uma necessidade muito forte de autopreservação. Não é que ela não entenda ou não veja, ela escolhe ignorar para não se expor.

Para quem até o momento estava na base da pirâmide hierárquica, era como se tivesse subido até mais ou menos o meio dela.


Em relação ao anime e o mangá, os acontecimentos são mais dinâmicos, puxando mais a parte cômica. Mas existem algumas diferenças que podem impactar um pouco mais em relação ao volume 1, que são cobertos pelos os quatro primeiros mangas da Nekokurage e os 12 primeiros episódios da 1 temporada.

No mangá não é abordado a cena da madeira com o fogo colorido, ao qual um eunuco procura apoio no atendimento médico por ter se ferido. Esta cena tem relação com dois momentos posteriores, sendo que em um deles foi necessário buscar uma solução alternativa para encaixar a resolução do mistério.

Outro ponto é a relação e personalidade de Maomao e Jinshi, ambos precisando de uma terapia para recuperar a autoestima.

Pequena e magra demais, era enxergada como uma criança muito jovem. As outras damas de companhia pareciam sentir muita pena daquela pobre coitada descartável.


E muito da personalidade de Maomao e suas cobranças e autoavaliações vem de seu ambiente. Sua capacidade de adaptação é impressionante, mas não deve ser confundida com uma disposição para aceitar tudo passivamente. Ela observa, calcula riscos e procura encontrar a maneira mais segura de atravessar cada situação, só que frequentemente a sua curiosidade fala mais alto do que sua vontade de permanecer invisível.

Na light novel, seus pensamentos deixam mais evidente a maneira como ela administra as próprias emoções. A ironia e o deboche funcionam como parte de sua personalidade, mas também ajudam a manter certa distância entre ela e as pessoas ao redor. Como uma jovem que cresceu em um bordel, ela se protege, pois sabe que as relações não são gratuitas e possuem grande fragilidade para quem é o mais fraco. 

Jinshi também ganha novas camadas. No romance é possível observar que ele não reconhece a sua própria inteligência e percepção, acreditando que seu único mérito é a aparência, ao qual usa para manipular as situações e pessoas a sua volta.

Já ouviu uma vez que, se ele desejasse, nem mesmo o imperador se importaria com qual gênero ele se identificava, mas esse tipo de elogio não o trazia nenhuma alegria.


Ao mesmo tempo, existe uma contradição em sua relação com Maomao: quando ela não responde ao seu charme como ele espera, Jinshi por vezes recorre a estratégias semelhantes às que outras pessoas utilizam com ele — justamente aquelas que ele próprio não aprecia.

E aí chegamos no dito episódio do mel, que no anime e no mangá, a situação ganha um tom predominantemente cômico. Na light novel, entretanto, a narrativa permite perceber com mais clareza como o acontecimento afetou Maomao.

Isso aparece especialmente no reencontro dos dois: sua primeira reação instintiva é se afastar, e Jinshi percebe que foi longe demais, o que cá entre nós é um tanto óbvio após a festa do jardim, quando ela explica o motivo das sardas.  Acrescentando uma dimensão diferente ao episódio. O humor continua existindo, mas não apaga as consequências do que aconteceu para os personagens e que sim, foi um assédio.

O cabelo de Maomao foi levantado e algo gelado tocou seu pescoço.


É um bom exemplo de como conhecer os pensamentos de Maomao pode modificar a interpretação de uma situação que, em outra mídia, parece funcionar principalmente como uma piada, principalmente entre os mais jovens. 

Confesso que esta foi a razão pela qual terminei tanto o mangá quanto o anime na época concordando com a Maomao de que o Jinshi era um cara muito chato.


Pontos de ligação com os volumes futuros

Como comentei anteriormente, absolutamente nada é incluído na história por casualidade, sendo pistas para revelações futuras ou recorrentes na história, e por este motivo listei as que mais me chamaram a atenção:

1) A autodepreciação de Jinshi e Maomao

2) No 1º encontro de Maomao com Gausho ela acha que ele é um militar

3) No episódio do sonambulismo é citado que devido aos muros altos a guarda é muito relaxada no palácio interno

4) Também no episódio do sonambulismo temos a inveja de Gyokuyou da consorte libertada para casar com o seu amor

5) A mudança de destino conforme uma mulher possui ou não relações com um imperial

6) O quanto Maomao traça uma linha em relação as diferenças sociais com as demais pessoas

7) Maomao achar Jinshi mais jovem do que ele diz ser

8) Citação de casais que morrem juntos por amor

9) Maomao pedindo para ser sentenciada com veneno caso um dia fosse acusada de algo

10) A memória para rostos do Jinshi

11) Semelhança entre Ah-Duo e Jinshi

12) A eliminação dos bebês independente do gênero

Vocês observaram mais alguma? Pode deixar nos comentários, pois adoro ver as pistas que Hyuganatsu deixa em sua história.


O que eu achei do Volume 1 de Diários de uma Apotecária

Eu conheci Diários de uma Apotecária pelo anime na Netflix, apresentado pela minha filha, que depois me emprestou os mangás. Mas foi uma determinada cena envolvendo um sapo que me fez procurar as light novels. Porque, não, Diários de uma Apotecária definitivamente não é um desenho para crianças! 

Este ano, finalmente chegou ao Brasil a tradução da light novel para o português, diretamente do japonês, e assim nasceu esta resenha, que mistura as três mídias. Simplesmente porque Maomao merece!

Nos braços, tinha cicatrizes que pareciam de maus-tratos, e ouviu dizer que ela havia sido vendida; ainda, era oficialmente contratada para provar comidas em busca de veneno.


A primeira coisa que preciso dizer é que me tornei muito fã da história conforme fui tendo conhecimento do desenrolar da trama, que sim, acho muito bem construída e coloca as mulheres no centro de tudo.

Outro ponto que me conquistou é que a obra é um grande quebra-cabeças, pois mesmo as informações que parecem pequenas quando aparecem pela primeira vez, podem ganhar outros significados conforme a história avança.

Pois ao usar um tempo passado, sem se prender exatamente a um período especifico, a autora consegue passar os desafios de ser mulher em um mundo onde tudo precisa da permissão dos homens.

Ao que parecia, seus músculos faciais estavam reagindo automaticamente nos últimos tempos e ela não conseguia se esconder mais atrás da sua máscara de indiferença como antes.


O que as torna não apenas moeda de troca, mas sem poder de decidir o próprio destino, independentemente de serem pobres ou ricas. E por isso o paralelo entre um bordel e o harém do imperador feito por Maomao não poderia ser tão acertado.

Mas a também o uso da inteligência destas mulheres para obter o poder e resistir a todas as armadilhas, pois ao prender nobres de diferentes famílias em uma mesma área, verdadeiras guerras são travadas entre chás e fofocas espalhadas.

Afinal, todas as mulheres envolvidas certamente seriam mais felizes assim. Havia coisas que era melhor não saber.


Então não ache que Diários da Apotecária é uma leitura infanto-juvenil só por ter ilustrações, pois ele realmente está muito longe disso. E sim, se você gosta de uma boa história, essa pode te conquistar. 

Motivo pelo qual deixo a dica e o convite para conhecer todos os mistérios do Império de Li e as aventuras de uma jovem cuja curiosidade e raciocínio podem te conquistar.


Diários de uma Apotecária
Kusuriya no hitorigoto
Hyuganatsu
Tradução: Jéssica Maki Kimura
Alt
2026 - 278 páginas
Publicado originalmente em 2014


terça-feira, 28 de julho de 2020

Sul da fronteira, oeste do sol



Sinopse: Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz o papel de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa começo. Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são. Nos seus tempos de menino faz amizade com Shimamoto, também ela filha única e menina brilhante na escola, com quem reparte interesses pela leitura e pela música. Juntos, têm por hábito escutar a coleção de discos do pai dela. Mas o destino faz com que os dois companheiros de escola sejam obrigados a separar-se. Os anos passam, Hajime segue a sua vida. A lembrança de Shimamoto, porém, permanece viva, tanto como aquilo que poderia ter sido como aquilo que não foi. 


O livro de julho da TAG Curadoria sempre tem algo de especial, pois é a edição de aniversário da empresa. Sem curador, a obra Sul da Fronteira, oeste do Sol é um livro inédito no Brasil do escritor japonês Haruki Murakami. O projeto gráfico ficou muito bonito e a história é uma mistura interessante de simplicidade com profundidade.

Hajime nasceu em um Japão pós-guerra, filho único, vive em um subúrbio de classe média e se sente incomodado com os adjetivos dados aos filhos únicos, em uma época que a norma era cada casal ter entre dois ou três filhos. Filhos únicos eram raros, e por isso sua conexão com uma menina chamada Shimamoto foi muito fácil, pois ela também era filha única.

Naquele mundo, reinava a inabalável crença de que os filhos únicos são crianças mimadas pelos pais, franzinas e terrivelmente egoístas.

Logo descobriram vários gostos em comum, inclusive pela música, quando se encontravam na casa de Shimamoto era hábito escutarem os Lp's do seu pai, um deles era o de Nat King Cole, que tem uma faixa chamada "South of the Border", e assim a música que fala sobre a fronteira com o México teve os seus horizontes ampliados e se tornou a primeira parte do nome deste livro.

Mas Hajime precisou se mudar de cidade e escola, e embora a distância entre eles não fosse grande, ele achava que não seria mais bem aceito na casa do seu primeiro amor e as visitas foram se tornando escassas até não acontecerem mais. Seguindo o fluxo da adolescência ele acabou fazendo novos amigos e com o tempo a sua primeira namorada, chamada Izumi. Essa relação será caracterizada por descobertas e mágoas.

E acho que mantive, por muito tempo, um pedaço do meu coração vazio, destinado especialmente para ela.

Estas duas meninas acabam ocupando a sua mente anos depois, com quase quarenta anos, casado e com duas filhas, Hajime parece ter a vida perfeita, mas um vazio que o faz querer outro tipo de vida, e essa angústia que aflige o mundo interior irá trazer a segunda referência do título: "oeste do sol" se refere à histeria siberiana provocada pela paisagem desértica.

A história de Haruki Murakami é narrada em primeira pessoa, a escrita é fluída e muito rápida, tornando a leitura  muito fácil, mas nem por isso simples. Principalmente quando uma linha tênue parece separar a realidade da fantasia.

Que fora uma espécie de fenômeno físico, magnético, e que eu sequer sentira que a estava traindo.

Através de seus personagens muitos questionamentos surgem, do que escolhemos para fazer em nossas vidas, oportunidades, machismo, o papel da mulher, desejo de viver e vontade de morrer. E por isso sua leitura se torna profunda, e o leitor precisa mergulhar para perceber além da superfície.

Um exemplo é o comportamento machista do personagem, que sente dificuldade em dar voz as mulheres de sua vida. Aqui é necessário lembrar que estamos lendo sobre uma cultura diferente, em uma época distante, onde as mulheres caminhavam atrás de seus maridos. Não estou defendendo o personagem, que em alguns momentos não é um exemplo de simpatia, mas sinalizando que aqui, mais do que nunca, precisamos abrir a mente e lembrar que não estamos lendo sobre os dias atuais.

Repeti muitas vezes o mesmo processo: criar uma teoria e depois desistir dela.

Sobre ter empatia com o personagem, se Hajime for colocado em um tribunal virtual dos tempos atuais, ele será massacrado. Mas o personagem de Haruki Murakami é extremamente humano em seus questionamentos existenciais, e não, isso não o torna bom e muito menos justifica o seu egoísmo, mas em alguns momentos ele pode criar alguma identificação com o leitor, trazendo uma memória de infância, os primeiros amores, um emprego que não levava a nada, até mesmo a vontade de jogar tudo para o alto e recomeçar uma vida totalmente diferente.

A mistura destes sentimentos está simbolizada em paisagens aos quais Hajime compartilha enquanto conta a sua história, podendo ser um deserto como sinônimo de sua eterna solidão. Ou através da água, que marca presença no nome da primeira namorada Izumi, cujo significado é "nascente de água", através da chuva que marca as cenas de espera, ou através dos rios em movimento.

O vazio continuava sendo apenas um vazio.

E são estes questionamentos que trazem as maiores dúvidas sobre o que é realidade e o que é fantasia na vida de Hajime, em uma espécie de jogo, Murakami coloca elementos nas situações em que muitas vezes eu não sabia se era para dizer sim, isto está acontecendo, ou não, você está na versão literária japonesa do filme O Clube da Luta.

Como extra na leitura, há muitas referências musicais para quem curte montar uma playlist enquanto lê, há também referências cinematográficas e biográficas, já que Murakami e sua esposa Yoko tiveram um bar de jazz chamado Peter Cat.

Eu, que nunca havia lido nada de Murakami, adorei a história e o estilo de escrita. Uma leitura que ficou ecoando na minha cabeça mesmo após concluir a última página, onde exerci a liberdade de responder por conta própria os pontos de interrogação que ficaram.

Sul da fronteira, oeste do sol
Kokkyo no Minami, Taiyo no Nishi
Haruki Murakami
Tradução: Rita Kohl
TAG Curadoria - Alfaguara
1992 - 229 páginas

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Eu sou um gato



Sinpse: Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar.

Publicado em forma de série em uma revista, os onze capítulos desta obra narram toda a inteligência, consciência, comportamento humano e intelectualidade do início do século XX em terras japonesas (embora sirva perfeitamente para os nossos dias atuais) na visão de um gato sem humildade nenhuma, cujo amo é definido pela sua imbecilidade.

Contam que por vezes esses humanos denominados estudantes nos agarram à força para nos comer fritos. 

Logo na nota dos editores podemos observar a primeira curiosidade do livro, o nome do autor é um pseudônimo, seu sobrenome, Soseki, em chinês significa incômodo/estorvo. O que parece descrever o seu sentimento por vários dos personagens da história, e talvez como ele mesmo se sentisse, já que a sua vida não pode ser categorizada como fácil.

Como escrevi no primeiro parágrafo, quem conta esta história de forma irônica, debochada e às vezes um tanto preguiçosa é um gato. Um gato sem nome. Um gato abandonado que ainda filhotinho achou uma casa e o seu amo. No local às vezes é pisado, às vezes vira saco de pancada, e assim ele acabou sendo apenas um bicho que por ali ficou, circulando entre as casas da vizinhança, ampliando a narrativa para além da área central.

Minha inteligência é indubitavelmente superior à dele, estou certo disso, mas não me comparo a ele quando se trata de força física e coragem.

O seu amo é o professor Kushami, casado com uma mulher sem estudos e submissa, com filhas pequenas e uma empregada. Além deles, amigos e ex-alunos frequentam a casa, onde há discussões que vão da literatura, passando por fatos históricos, até conversas simples do cotidiano. Um dos mais divertidos é Meitei, com uma mente mirabolante, suas histórias misturam realidade e fantasia de uma forma um tanto engraçada. 

Um dos eventos principais da história está na chegada da família Kaneda e um suposto interesse de Kangestu – um ex-aluno de Kushami e um doutorando que passa polindo bolas de vidro – em se casar com a filha do empresário. Como o comportamento da Sra. Kaneda não é exatamente simpático ao questionar Kushami sobre o pretendente, somado ao desprezo que o professor sente por homens de negócio como o marido da mulher em questão, logo o nariz da senhora vira o assunto principal das conversas, estas escutadas por vizinhos que levam as fofocas quentinhas aos interessados, que insultados acabam provocando situações ainda mais ridículas na história.

Em um mundo onde há humanos que se vangloriam de terem sido cobiçados por alguém que era apenas estrábico, semelhante engano não é nada de se espantar, e eu continuei a receber calmamente suas carícias. 

O livro é cheio de observações de rodapé, sejam para listar autores ou fatos históricos aos quais os pseudo-intelectuais estão discutindo. E o engraçado de tudo, é que em muitos momentos o professor Kushami me passa o sentimento de ser o alter ego de Soseki, pelas semelhanças físicas assinaladas nas mesmas notas.

E mesmo sendo uma crítica à sociedade japonesa da época, muita das frases são mais atuais do que nunca, como uma parte que me chamou especialmente a atenção e assim diz: “Só pensamos em nós mesmos, ao irmos dormir, aos nos levantarmos, em todas as ocasiões reverenciamos nosso eu. Por isso, as ações e palavras se tornaram artificiais, impacientes e asfixiantes.” . Confesso que fiquei tentando imaginar o que Soseki escreveria se estivesse vivendo os dias de hoje.

Um livro para ler com calma e como um gato se aconchegar em um lugar macio para se perder em reflexões.


Eu sou um gato
Wagahai wa neko de aru
Natsume Soseki
Tradução Jefferson José Teixeira
Estação Liberdade
1905 – 486 páginas

sábado, 28 de julho de 2018

Voragem



Sinopse: Escrito originalmente em forma de fascículos entre 1928 e 1930 para uma revista japonesa, Voragem é um dos romances mais aclamados de Junichiro Tanizaki. No centro da trama está Sonoko Kakiuchi, uma jovem casada que frequenta um curso de arte. Nas aulas, ela conhece Mitsuko, uma colega de beleza estonteante por quem se vê perdidamente apaixonada. Sem conseguir frear seu desejo arrebatador, Sonoko se aproxima em uma pretensa relação de amizade e forja um contato cada vez mais íntimo, despertando rumores ao seu redor. Mitsuko, por sua vez, éimplacável e não tarda a enredar sua amante em uma trama de chantagens. Voragem é uma obra-prima sobre amor e traição, verdades e mentiras, perversão e ciúmes. 

Quando um turbilhão de emoções nos atropela não raro queremos coloca-la no papel. Assim começa Voragem, com a personagem Sonoko explicando o seu desejo em transformar um incidente em romance, mas não se sentir capaz em redigir, e por isso ela o pede para uma pessoa que chama de Sensei.

Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado do seu tempo...

Junto com sensei o leitor irá descobrir que ela é casada, mas não fiel, já teve um amante masculino, mas a desestruturação de tudo veio quando ela se encantou pela colega da escola de artes Mitsuko. A aproximação das duas ocorre devido ao boato de que as duas teriam uma relação homossexual, que com o tempo elas tornam verdadeiro.

O relacionamento é movido a mentiras, manipulações, ciúmes, domínio, promessas de suicídio, em um relacionamento mais pautado pela loucura do que pela paixão, chegando a beirar o absurdo em determinadas situações.  E talvez seja isso que me tenha feito achar o livro bom, embora ao pensar nele a primeira coisa que me venha a mente é mucho loko, mas não o suficiente para reler.

Sagrado por sagrado, a nudez de uma virgem também é.

Durante a leitura criei uma grande dúvida sobre a “verdade” da história contada. Como se Sonoko houvesse invertido os papéis para justificar a própria vida ou quem sabe se livrar da responsabilidade que os incidentes narrados poderiam lhe trazer, acrescentando uma dose de exagero como se tudo não passasse de um grande teatro. Em suas justificativas os culpados, os ruins sempre são os outros, quando a verdade se aproxima ela chora com os olhos, mas jamais com a alma.

Voragem é fácil e rápido de ler. Narrado em primeira pessoa a escrita é fluída apesar de todo peso psicológico dos personagens. Há muitas facetas em cada um, e mesmo os que possuem um papel menor são relevantes. Mais do que nunca a história está nos detalhes, no jogo de palavras, no que cada um não diz.

Você não está escondendo nada de mim, está, maninha?

A leitura de Voragem vale a pena quando você vê um tema ainda tabu como o homossexualismo feminino sendo tratado na literatura japonesa dos anos 1930. E ela desperta a curiosidade quando se observa as notas do autor, gerando a dúvida se Tanizaki é um personagem em seu próprio livro.

Mas ele cansa quando o jogo obsessivo entre Sonoko e Mitsuko beira a inverossimilhança. Quando a palavra maninha é repetida de tal forma a ponto de você não suporta-la mais. Tornando a leitura tão torturante quanto o relacionamento das personagens, como se o autor quisesse que o leitor entrasse na mesma loucura da sua ficção.

Voragem
Manji
Junichiro Tanizaki
Tradução Leiko Gotoda
TAG – Companhia das Letras
1931 – 240 páginas

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