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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sinopse de amor e guerra


Sinopse: Theobald e Bluma estão fadados a ficar juntos desde que vieram ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito. Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro — o mais famoso da História —, adiando a promessa do primeiro beijo. Este romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no destino individual de dois amantes uma pergunta universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

No mês de junho/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Sinopse de Amor e Guerra do escritor português Afonso Cruz. A indicação foi da criadora do projeto "Vá Ler um Livro" Tatiany Leite. E o mimo foram imãs de geladeira no tema cinema brasileiro.

As famílias de Theobald Thomas e Bluma Baumann são amigas, fazendo com que os dois cresçam juntos. Temporariamente separados na adolescência pela diferença de idade — Bluma é mais velha e acaba despertando mais cedo a curiosidade por assuntos que vão além das brincadeiras da infância —, eles se reencontram na livraria do tio de Theobald. É ali que a amizade de infância começa, lentamente, a se transformar em amor.

A normalidade é de papel e estraga-se quando se manuseia, rasga-se, desfaz-se.


Um amor construído através dos livros, das histórias e dos poemas que Theobald decora para impressionar a moça que acredita, profundamente, estar destinada a ele. Quando o afeto finalmente é correspondido, Bluma passa a ocupar um lugar ainda mais importante na vida de Theobald, e os dois começam a construir uma relação em que literatura e sentimento caminham lado a lado.

Uma história que teria tudo para ser um bonito romance, quase uma comédia romântica, se não fosse por um pequeno detalhe: eles vivem na Alemanha do pós-guerra. Mais precisamente em Berlim, uma cidade que se viu dividida de um dia para o outro, em pleno verão de 1961.

Quem ama encontra o amado em tudo, um ser infinito que se revela em todos os pormenores, uma visão profana do trabalho ascético, do místico ou do santo.


Famílias, amigos e amores que até então faziam parte da mesma cidade passam a não poder mais se encontrar. Uma barreira física, criada por uma divisão política, passa a produzir consequências pessoais e profundas na vida daqueles que ficaram separados por ela — e, para alguns, a distância imposta pelo muro faz surgir a necessidade de buscar medidas cada vez mais extremas para voltar a estar perto de quem amam.

Inspirado em uma história real, Sinopse de amor e guerra integra a coleção Geografias, sendo o segundo romance de Afonso Cruz publicado nessa coleção, depois de Princípio de Karenina, que se passa no Vietnã.

Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca...


Mais do que relembrar o impacto que as divisões políticas podem causar na vida de pessoas comuns, o romance transforma a história de Theobald e Bluma em uma reflexão sobre espera, liberdade, limites e sobre até onde alguém estaria disposto a ir para viver um amor.


A escrita de Afonso Cruz

O português Afonso é um artista multidisciplinar: escritor, ilustrador, músico e cineasta, tendo trabalhado durante mais de uma década com cinema de animação. Também é integrante da banda The Soaked Lamb e, entre suas muitas atividades, produz a própria cerveja artesanal. 

Iniciou a sua carreira literária no final dos anos 2000, e desde então tem apresentado uma obra bastante diversificada, que passa por romances, contos, ensaios, teatro, literatura infantil e juvenil, livros ilustrados e até uma curiosa “enciclopédia” de história universal inteiramente inventada. 

Poderiam o ódio, a guerra, o rancor, a desumanidade surgir de um amor imenso?


Seus livros já foram publicados em mais de vinte idiomas e receberam diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka já resenhado aqui no blog e primeiro livro que eu li do autor.

Esse perfil diversificado está em suas obras, na maneira como constrói imagens, associa ideias e trabalha o ritmo das narrativas. Em uma entrevista, o próprio autor afirmou que não vê suas diferentes atividades artísticas como áreas hierarquizadas, mas como formas distintas de criação.

O fruto proibido não nos foi mostrado para que não o comêssemos, foi-nos mostrado para que transgredíssemos.


Em Sinopse de amor e guerra, essa característica aparece em uma narrativa aparentemente simples, mas construída sobre diferentes camadas. A história de Theobald e Bluma é atravessada pela literatura, pela memória e pela História, enquanto Afonso Cruz transforma o Muro de Berlim em algo que ultrapassa sua existência física. 

Com uma escrita delicada, reflexiva e muitas vezes carregada de imagens e associações, o autor conduz uma história de amor que também fala sobre separação, liberdade, escolhas e as marcas deixadas pelo tempo.


O que eu achei de Sinopse de amor e guerra

Um livro curto, de escrita fluida e envolvente, que torna a leitura fácil e rápida, mas nem por isso pouco reflexiva.

Existe a doçura do primeiro amor, o encantamento pelo sentimento correspondido, a dor da separação por motivos que parecem absurdos, parecendo mais uma ficção do que realidade. E existe também a juventude, que exige recomeços para um coração que ainda não foi desocupado.

E então Theobald nos questiona, sem frescuras ou indiretas: qual é o limite do amor? O que podemos fazer por aqueles que amamos? Foi nesse momento que me veio à cabeça uma música do Bryan Adams, [Everything I Do] I Do It for You.

O ser excepcional não passa de uma pessoa normal que, em certas circunstâncias, se porta de maneira esquisita.


Como leitora, porém, fui além do amor romântico e comecei a pensar na situação que realmente aconteceu com tantas famílias. O que fazer quando já não podemos mais ver alguém que amamos? Como lidar com as incertezas de que a vida de quem ficou do outro lado do muro pode ser pior do que a nossa?

Não é à toa que tantas pessoas se arriscaram em tentativas de fuga da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental, cavando túneis, atravessando o rio Spree a nado ou encontrando outras formas extremamente arriscadas de ultrapassar a barreira. São histórias que parecem verdadeiros pesadelos, mas que aconteceram de fato e chegaram ao conhecimento de Afonso Cruz por diferentes relatos.

E, curiosamente, foi uma história contada pelo próprio pai do escritor — sobre um casal separado pelo muro — que inspirou Sinopse de amor e guerra.

Há uma melodia estranha no retrato, vestígios de uma canção que se imiscuem na imagem e a impregnam.


Um livro que instiga o leitor ao trazer os conflitos provocados por muros que podem ser tanto físicos quanto psicológicos, principalmente quando quem entra na narrativa consegue sair do papel de juiz para vestir a pele dos personagens e tentar enxergar o mundo a partir das circunstâncias em que eles estão inseridos.

Além disso, Sinopse de amor e guerra possui bons personagens secundários, como o tio de Theobald, dono da livraria e uma presença importante ao longo das diferentes fases da vida do sobrinho.

Os pais olham para os filhos e dizem: deu um salto. Quer isto dizer que sentimos que, num período curto, houve uma progressão unusitada.


Um livro sensível e complexo, que nos desafia a pensar até onde iríamos por amor — e o que estaríamos dispostos a fazer quando uma barreira criada por outros decide o destino das nossas vidas.

Ficando aqui a minha recomendação de leitura, para quem gosta de ficção com base histórica, para quem quer uma história de amor diferente ou simplesmente por quem é apaixonado por livros.


Sinopse de amor e guerra
Afonso Cruz
TAG - Dublinense
2026 - 160 páginas
Publicado originalmente em 2021

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Dakota Blues



Sinopse: Romance de formação que percorre a história recente do Brasil, Dakota Blues recupera canções, artistas e filmes que marcaram uma geração e exalta os principais momentos da juventude através de sua narradora Alice, uma jovem ao mesmo tempo ensimesmada e em fuga de si. Para escapar dos lutos e frustrações que parecem persegui-la, Alice viaja para Nova York, onde encontra uma nova paixão, novos amigos, uma nova Alice. A última década do milênio promete transformações. É quando surge Antônio, quem dá tom e letra ao melancólico blues de Alice. Um sofisticado quebra-cabeça, cujas peças só se encaixarão por completo ao final.



No mês de dezembro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Dakota Blues da escritora paulista Simone Az. A indicação foi da escritora curitibana Giovana Madalosso. O mimo foi o já tradicional calendário para o próximo ano, isto é, 2026, e tem como temática lugares onde se pode ler.

Desde cedo Alice tem contato com a morte. Seja as reais como a perda de animais de estimação e o falecimento do próprio pai, sejam simbólicas, como um amor que chega ao fim ou um irmão que se mantém a distância.

Em dez anos quantas coisas acontecem? Países entram e saem de guerras em nome da fé, do petróleo ou de um pedaço de terra.


E estas perdas vão mostrar a evolução e crescimento de uma personagem que nos levara pelo Brasil e os Estados Unidos dos anos de 1968 até o início da década de 1990.

Acompanhando não apenas a saída da infância até a idade adulta, como muito dos fatos históricos da época, da ditadura, passando pelo assassinato de John Lennon, a chegada do plano real até o aspecto cultural com as músicas da época.

Havia algo de esquisito na minha família. As outras famílias pareciam mais felizes, mais bonitas, mais carinhosas. A minha não.


Em paralelo com a história que conta a formação de Alice estão alguns momentos de seu próprio casamento com Antônio, que só vão ter as pontas juntadas no final da narrativa.

Gerando um livro leve, que conta um pouquinho do mundo e toda uma visão subjetiva de cada pessoa que gerou algum impacto na vida da protagonista.


A escrita de Simone Az

Dakota Blues é o romance de estreia da escritora paulistana Simone Az, ao qual ela levou nove anos para escrever.

O livro possui quatro partes, e uma espécie de divisão narrativa, onde na maior parte do tempo tendo uma parte que conta desde a infância da personagem, que começa com dez anos, e são identificadas com número e título. E outra parte menor, sem identificação e bem mais curta onde compartilha o relacionamento com Antônio. Em ambos os casos a narrativa é em primeira pessoa.

Uma semana. Essa é a vida dela. Apenas sete dias pra percorrer três gerações: da borboleta-neta pra borboleta-avó.


Para compor o cenário a escritora utilizou a cena cultural brasileira e americana, havendo inúmeras referências históricas e musicais. Tudo de forma sutil, já que o foco maior deste romance de formação são os efeitos das perdas na personagem principal e em suas relações.

A escrita é fluída, e apesar de ter a morte sempre presente, a narrativa é leve, tornando a leitura bastante fácil de ser acompanhada.


O que eu achei de Dakota Blues

Como um romance de formação, Dakota Blues me permitiu como leitora a evolução da personagem Alice após cada perda, mudança física e conflitos com os quais se deparou.

E nestas perdas não se fala apenas de morte, mas também de amigos e amores que entram e saem da vida da protagonista. Alguns sendo apoios essenciais, outros parecendo mais obstáculos já que além de não agregarem em nada, ainda a deixam mais confusas. E em obstáculo eu listo os amores de Alice, cujo dedo para escolher parceiros não é exatamente dos melhores.

Deus levou seu pai, ela repetiu com uma voz meio grave, meio rouca.


Falando em amigos, não são apenas os conflitos de Alice que estão listados, mas de quem a acompanha na jornada também. E como qualquer ser humano, eles não são perfeitos, e algumas de suas decisões me provocavam emocionalmente e racionalmente tanto quanto a personagem da história.

E falando neles, três foram os meus preferidos ao longo da leitura: tia Otília, Junior do Dez e Nando. Sendo a tia Otília e o Nando os personagens que mais me cativaram na narrativa e que mais pontos de interrogação e sentimentos conflituosos me provocaram por suas escolhas.

Com o tempo essa calma começou a me irritar, apesar de nunca deixar de me atrair.


O que não me impactou na história foi o paralelo com a história do Brasil, por não achar que isso influenciou nas decisões da personagem, mesmo a questão da AIDS, talvez por ter lido Gostaria que você estivesse aqui  que trata bem não só da epidemia de AIDS como da cena musical carioca nos anos oitenta, e ser um livro que ainda não saiu da minha memória, tornando-se uma espécie de referência. Me passando a impressão de que o único fato realmente simbólico aqui é o edifício Dakota, no qual Alice é obcecada.

Como o livro tem muitas mortes, chegou uma hora que elas não me impactavam mais, eu só pensava quem vai morrer neste capítulo. Então se as primeiras provocavam um impacto emocional, as últimas acabaram sendo apenas mais uma em uma longa lista. E aqui vai um alerta de gatilho: as mortes ocorrem de diferentes maneiras, inclusive provocadas pelos próprios personagens. Se você está em um momento sensível, deixe esta leitura para outra hora.

O mundo não era meu. E se isso não era outra morte, outra amígdala perdida, nem sei o que era.


E o que eu não gostei do livro: a forma como ele foi finalizado. Não houve apenas uma mudança de narrativa - que passou a ser em terceira pessoa - mas é uma lista estilo retrospectiva de final de ano do Globo Repórter. Sendo uma parte corrida do que aconteceu com a personagem no seu futuro próximo, passando uma primeira impressão - para mim - de ter cansado da história e não ter dedicado a mesma atenção para o seu fim.

Mas ao mesmo tempo que eu não gostei, me fez formular uma teoria, de que o narrador de Dakota Blues nunca foi Alice. Só não posso explicar o motivo, pois estaria dando um spoiler que poderia atrapalhar a leitura de quem se interessou. E se isso fosse confirmado, o fim passaria a fazer todo o sentido para mim.

Eu tinha uma insegurança profunda e aparentemente irremovível, a certeza de que era uma impostora e que, se abrisse a boca, iriam descobrir minha ignorância e inadequação.


Ficando a dica para quem gosta de literatura brasileira, de livros que misturam ficção, fatos históricos e cena cultural, e claro, quem gosta de ler.


Dakota Blues
Simone Az
TAG - Companhia das Letras
2025 - 237 páginas
Publicado originalmente em 2025



 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As montanhas cantam


Sinopse: As montanhas cantam é centrada na família Trần. Tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã, a narrativa é marcada pelos acontecimentos que atravessaram o núcleo familiar - desde a avó Diêu Lan, até a neta Huong. É um romance vívido que escancara os custos humanos da guerra, do ponto de vista do próprio povo vietnamita. Ao mesmo tempo, o livro nos mostra o poder e os efeitos da esperança.



Nos anos de 1970 a jovem Hương se vê sozinha com avó na cidade de Hanói tentando sobreviver ao medo dos bombardeios e de perder seus pais e tios que estão entre os combatentes da Guerra do Vietnã.

A luta cotidiana para comer, trabalhar e estudar desperta as memórias da avó da garota, Diêu Lan, que durante os anos de 1940 e 1950 viu a sua família ascender com trabalho árduo e respeito como proprietários de terra para depois entrarem em um verdadeiro inferno de escolhas durante a reforma agrária do país.

Minha avó costumava me dizer que, quando nossos ancestrais morrem, eles não desaparecem simplesmente, mas continuam cuidando de nós.


Os dois acontecimentos acabam se fundindo, trazendo à tona feridas nunca cicatrizadas, diferenças de opinião e escolhas de caminho que não possuem volta. 

Medo, amor, coragem, vergonha se entrelaçam em uma família que luta para ver o sol a cada dia e mostram o antes, durante e o depois de um evento tão traumático chamado guerra.


A escrita de Nguyễn Phan QuếMai

Nascida em uma pequena vila no Delta do Rio Mekong no Vietnã, Nguyễn Phan QuếMai é também poeta e tradutora. Para escrever o seu primeiro romance As Montanhas Cantam, optou pelo idioma inglês para contar uma mistura de ficção e fatos inspirados em suas próprias experiências durante a infância.

Reconhecida como embaixadora cultural, ela compartilha com o ocidente de forma bastante emocional os acontecimentos históricos de seu país. Seja usando metáforas, seja através de provérbios populares e o próprio vocabulário, onde ela opta em utilizar a escrita original para os nomes, apesar do texto em inglês.

Um ruído trovejante se aproxima. Explosões ecoam de longe. Agarro-me aos ombros de vovó com mãos suadas, enterrando o rosto em seu corpo.


Ela também se utiliza de diferença geracional para dar duas visões de resiliência em tempos difíceis, e da compaixão para narrar uma história sem mocinhos ou vilões, mas de uma família que segue se levantando a cada queda, que busca sobreviver em meio a perdas, traumas e todos os desafios que se apresentam ao longo da jornada.

Uma curiosidade é que a autora optou por publicar em inglês para minimizar o risco de mudanças no seu texto durante as traduções. Tentando preservar toda a cultura e impacto emocional que a obra apresenta o máximo possível.


O que eu achei de As montanhas cantam

A combinação de governo que divide a sua população colocando uns contra os outros com uma guerra envolvendo exércitos estrangeiros pode ser a fórmula perfeita para destruir famílias que querem apenas trabalhar, correr atrás dos seus sonhos e educar os seus filhos.

No caso dos personagens de As montanhas cantam, eles surpreendem por conseguirem manter a resiliência em buscar uma saída após secar cada lágrima. Principalmente a avó, uma mulher muito inteligente e forte, que não perde a humanidade mesmo quando é vítima de injustiças.

Você sabia que naquela época os dentes pretos eram considerados essenciais para as mulheres? Aquelas com dentes brancos eram consideradas indecentes.


Eu achei o livro sensível e dolorido. Foi impossível para mim não ficar pensando naquela mãe que precisa distribuir os seus filhos em casas estranhas para que não fossem mortos por causa de mentiras. Assim como na menina que espera pacientemente a recuperação de uma mãe ferida na alma e por um pai que nunca retorna. 

O coração também apertou, seja pelas mortes injustas, seja pela alma que se sente suja, seja pelo primeiro amor que nasce em meio a muitos contrastes, assim como pelo perdão após toda a maldade.

Ao nosso redor, homens, mulheres e crianças, com roupas rasgadas e rostos fantasmagóricos faziam a mesma coisa, enchendo o olho do inferno com os escombros de suas casas. 


Tudo com uma escrita fluída e envolvente, que ao mesmo tempo que te torna um membro invisível acompanhando a família, compartilha de forma natural a cultura vietnamita. Além disso, Hương é uma narradora que consegue colocar delicadeza em meio a toda dor, tanto nas histórias passadas de sua avó, quanto no seu presente, mostrando que mesmo após tantas tragédias, é preciso coragem para não desistir.

Além é claro da parte histórica, que aborda tanto a divisão do Vietnã como o lado dos vietnamitas em uma guerra que durou em torno de vinte anos, tendo oito anos mais violentos. Lembrando-me mais uma vez que nenhuma disputa armada vale o sofrimento de pessoas inocentes.

Esperávamos que a guerra acabasse, mas ela continuou. Se vovó estava triste e com medo, nunca me deixou ver isso de novo.


Ficando a dica para quem gosta de histórias com fatos históricos, narrativas familiares, romances que nos lembram do inesperado, quem busca autores de outros países, e claro, quem gosta de ler.


As montanhas cantam
The mountains sing
Nguyễn Phan QuếMai
Tradução: Felipe Ficher e Petê Rissatti
TAG
335 páginas 2023
Pulicado originalmente em 2020

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O Amante



Sinopse: Prêmio Goncourt em 1984, com mais de 2 milhões e meio de exemplares vendidos apenas na França, este romance autobiográfico acompanha a tumultuada história de amor entre uma jovem francesa e um rico comerciante chinês na Indochina pré-guerra. Com uma prosa intimista e certeira, Duras evoca a vida nas margens de Saigon nos últimos dias do império colonial da França e relembra não só sua experiência, mas também os relacionamentos que separaram sua família e que, prematuramente, gravaram em seu rosto as marcas implacáveis da maturidade.



Na Indochina francesa, uma adolescente de 15 anos órfã de pai mora com a mãe e dois irmãos. Filha de colonos franceses pobre, ela conhece em uma travessia de balsa sobre o rio Mekong um jovem com o qual terá um relacionamento intenso que envolve benefícios financeiros.

Filho de um rico empresário chinês, o homem de 27 anos, mesmo sendo mais velho, acaba sofrendo psicologicamente dos mesmos problemas que a menina, no que envolve tabus raciais e morais dos anos de 1920.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.


O que a empurra precocemente para esta relação é a sua família desestruturada, com um irmão extremamente violento e uma mãe que o defende, ao mesmo tempo que possui uma busca constante por dinheiro.

Um livro sobre memórias e traumas transferidos para as páginas em um romance curto, cuja densidade se alterna, e virou um filme não aprovado pela autora.


A escrita de Marguerite Duras

Considerada uma das escritoras mais importantes da literatura francesa do século XX, a autora Marguerite Duras nasceu na Indochina e no final de sua adolescência retornou a França para estudar.

Sua escrita tem por característica ser fragmentada, conseguindo ser emocionalmente contida e ao mesmo tempo profundamente sensível. O que fez com que fosse uma das figuras-chaves do movimento literário "Nouveau Roman" (Novo Romance francês) que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960.

A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha.


E este rompimento com as formas tradicionais de narrativa é encontrado em O Amante, sua obra mais conhecida que venceu o prestigiado prêmio de literatura francesa Goncourt.

O Amante é uma mistura de ficção com autobiografia, tendo como base a sua infância na Indochina e o caso amoroso que teve na adolescência com um homem mais velho.

Tudo começou assim assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à "experiência".


A narrativa é semelhante a um fluxo de consciência, com presente, passado e futuro dividindo o mesmo espaço sem ordem cronológica nem capítulos definidos. Como alguém que se senta no divã e conforme vai puxando o novelo de lã que é a sua vida, começa a trazer memórias, reflexões e pensamentos.

Dando um tom introspectivo na narrativa em primeira pessoa, onde nem tudo é explicito e não raro há situações que ficam mais na sugestão no que no detalhamento para o leitor.


O que eu achei de O Amante

Esta foi a segunda vez que leio o livro de Marguerite Duras. Havia recebido o livro em capa dura em uma coletânea de clássicos que o jornal do meu estado vendeu tempos atrás.

E acabei relendo por causa do encontro com outros assinantes da TAG Curadoria, já que a obra foi o livro de abril, ao qual pulei para não ficar com dois livros iguais.

Sei que não são as roupas que fazem a mulher mais ou menos bela nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos adornos.


Quando abri o livro já não tinha lembranças de sua narrativa, apenas a famosa base de que era o caso de amor de uma adolescente com um homem mais velho.

Ao reler, me deparei com uma família desestruturada, que apesar da pobreza tem empregados, da mãe que cobra postura da filha, mas permite que ela chegue em qualquer horário na escola após os encontros com o amante. De um irmão mais velho que inspira medo nos que convivem com ele e deixa para a mãe pagar as dívidas dos seus vícios.

Resta aquela menina que começa a crescer e que talvez um dia venha a saber como trazer dinheiro para casa.


Também é uma narrativa que expõe a colonização, onde a cor da pele ou o dinheiro não impede que ocorra racismo ou preconceito.

E por fim é um livro bem psicológico, pois não foram raras as vezes que me vinha o jargão "fale-me mais sobre isso" durante a leitura. Ficando a dúvida se era ficção, algo que deveria ficar subentendido ou traumas que não conseguem ser revelados.

Sente subitamente uma angústia até então apenas pressentida, uma fadiga, a luz apagando-se levemente no rio.


Mas apesar de todas as suposições, de ser um livro bem curto, eu segui não gostando.

A mistura de pedofilia e prostituição foi algo que me incomodou ainda mais nesta segunda leitura. Pois o relacionamento não é iniciado por amor, paixão ou uma atração física na minha opinião, mas pelo que o dinheiro dele poderia proporcionar.

Quer a apanhem, quer a levem, quer a maltratem, quer a corrompam, eles não devem saber mais nada.


Também me peguei achando que se o nome do livro fosse O irmão mais velho, combinaria mais. Pois o amante é uma figura secundária em meio a todos os conflitos que as relações familiares causaram em todas as etapas da vida da narradora, sendo uma ferida ainda não curada mesmo após tantos anos.

Sendo o amante apenas mais um a acelerar o seu sentimento de envelhecimento precoce, de mudança na imagem que via no espelho ainda tão jovem. Me parecendo o resultado de quem se sentia usada por todos ao redor sem nunca ter sido realmente amada.

Ele lamenta o que ocorreu comigo, digo-lhe que não deve, que não devo ser motivo de lamentação, ninguém deve, exceto minha mãe.


E apesar de tanta complexidade, em muitos momentos ela me pareceu superficial. Como se a narradora tivesse uma borda a ser respeitada, e justamente ao respeitar estes limites, ela não me ganhou como leitora.

Pois o vai e vem de tempos e lembranças me parecia mais um disfarce para não explorar o que era realmente importante para a menina frágil e a mulher já idosa que manteve tudo muito vivo em sua memória.

Só que esta é a minha leitura, a sua pode ser completamente diferente, e assim deixo a indicação deste clássico para que você possa tirar suas próprias conclusões.


O Amante
L'amant
Marguerite Duras
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
2003 - 95 páginas
Publicado originalmente em 1984



sexta-feira, 20 de junho de 2025

Farda, fardão, camisola de dormir



Sinopse: Quando o Estado Novo de Getúlio Vargas ainda flerta com o eixo nazifascista, a morte súbita e prematura do poeta Antônio Bruno abre uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Quem prontamente se candidata é o coronel Sampaio Pereira, chefe da repressão política do regime e simpatizante do nazismo. Alarmados com a possibilidade de ver um inimigo da cultura ocupar a cadeira do boêmio, sedutor e gaiato Bruno, alguns veteranos acadêmicos articulam a anticandidatura de outro militar, de oposição, o general reformado Waldomiro Moreira. Segue-se então uma memorável e imprevisível campanha eleitoral na Academia. 



No Rio de Janeiro de 1940 o poeta Antônio Bruno não suporta as aflições que a bela cidade de Paris vem sofrendo devido a segunda guerra mundial e sofre um infarte fulminante.

O boêmio além de deixar várias mulheres as lágrimas, coloca uma batata quente na mão dos integrantes da ABL - Academia Brasileira de Letras: a escolha do sucessor para ocupar a sua cadeira em plena ditadura de Getúlio Vargas.

Esta fábula conta como dois velhos literatos, acadêmicos e liberais, partiram em guerra contra o nazismo, a ditadura e a prepotência.


O complicador parte de outro integrante da ABL, o acadêmico Lisandro Leite, deseja integrar o STF, e para isso vira padrinho do coronel Agnaldo Sampaio Pereira, chefe da repressão política do Estado Novo, sob a justificativa que uma cadeira pertence aos militares e a tradição havia sido quebrada com a escolha do poeta.

Para combater o simpatizante nazifascista, dois outros integrantes, o romancista Afrânio Portela e o ensaísta Evandro Nunes dos Santos, vão atrás de um militar menos perigoso, o general da reserva Waldomiro Moreira, para ser o oponente na eleição, e que já tentava uma vaga na Academia Fluminense de Letras.

Haverá sentimentos mais onipotente, a dominar o coração dos homens, do que a vaidade?


Misturando nesta narrativa bem-humorada com toque de "fábula para acender uma esperança" história do Brasil e bastidores das eleições da ABL, Farda, fardão, camisola de dormir é para relaxar e sorrir com a crítica irônica de Jorge Amado não só ao país, mas também ao ambiente que ele mesmo frequentou.


A escrita de Jorge Amado

Um escritor que dispensa apresentações, acho que isso cabe muito bem a Jorge Amado, o escritor baiano traduzido para diferentes idiomas, cujos livros viraram novelas e filmes.

Em seus livros encontramos personagens cativantes, pitadas de humor, drama e crítica social. E Farda, fardão, camisola de dormir não foge disso.

Tinham de derrotá-lo, fosse como fosse, para provar que ainda existe decência neste país, que a Academia se mantém independente e digna.


A história começa já pelo título, já que a farda representa os militares e a repressão dos anos de 1940, o fardão o traje caro de gala dos imortais da ABL e a camisola de dormir o poema do personagem que morre para dar início a toda essa bagunça.

O ano de lançamento do livro também é simbólica, publicado em 1979 em plena Ditadura militar acaba provocando no leitor de hoje a realizar um paralelo entre duas épocas um tanto sombrias da nossa história.

Todos temos dois lados, um bom, um ruim. Pior do que um robô, o senhor é um homem pela metade, torturador de presos.


Ao mesmo tempo que mexe com uma das áreas do mundo intelectual, ao qual ele mesmo passou a fazer parte em 1961, revelando como ocorre a eleição para imortal na ABL, com suas visitas, etiquetas, presentes e conversas para ganhar a simpatia de quem pertence ao seleto grupo.

Misturando realidade e ficção em uma narrativa em terceira pessoa bastante fluída, com alguns plots que despertam ainda mais a vontade do leitor de descobrir quem será o eleito a ocupar a cadeira do poeta boêmio.


O que eu achei de Farda, fardão, camisola de dormir

Confesso que este é apenas o segundo livro que leio de Jorge Amado. O primeiro foi Capitães de areia, ao qual gostei muito, e por indicação da minha mãe, comprei Farda, Fardão, camisola de dormir.

Achei divertida a mistura de sátira e história encontrada na narrativa, também gostei de ver o funcionamento da ABL na candidatura de seus imortais.

Os livros sobram por toda parte: amontoados no chão, em cima das cadeiras, abertos na pesada mesa de trabalho.


A politicagem de tratamento, visitas, presentes e interesses tanto dos que apoiam como os que não se agradam, me passaram o sentimento de que a obra produzida pelo candidato não se encontra em primeiro plano.

O que fica muito bem disfarçado pelo perfil dos dois candidatos que eles tiveram que aceitar de livre e obrigada vontade. E que dão todo o toque humorístico na narrativa.

Penosa, deprimente, desgastante, a campanha eleitora aproximava-se do fim da primeira etapa: os dois meses durante os quais os candidatos podiam se inscrever.


As mulheres são figuras importantes na história também, utilizando influência e poder de sedução para que a cadeira do seu amado poeta não seja ocupada por alguém que foge completamente do que ele defendia.

E ao falar de liberdade e censura, assuntos que nunca saem de moda, Jorge Amado me levou como leitora a dar uma volta ao passado com reflexões e riso.

Para quem iniciara a campanha sem opositor e com promessa de eleição unânime, o panorama da batalha se revelou flutuante e nebuloso.


No geral achei a escrita bastante fluída, o que faz com que a leitura seja rápida. Confesso que até o final da segunda parte me peguei perguntando se seria só aquela disputada entre os dois candidatos, mas a virada de chave é sensacional, o que me deu mais curiosidade de seguir na segunda parte.

E a curiosidade aqui é que ele se inspirou em uma votação real para criar uma narrativa cheia de intrigas, planos e reviravoltas. Uma homenagem com toque de crítica ao seu próprio meio.

Se não fossem as eleições, quem haveria de ligar para um velho como eu, embaixador aposentado, cobrando do Itamaraty uma miséria por mês, em moeda fraca? Ninguém, meu caro.


Eu já quero ler outros títulos dele, e deixo este como sugestão para quem quer um livro para se divertir, ao mesmo tempo que reflete sobre vários assuntos.


Farda, fardão, camisola de dormir
Jorge Amado
Companhia das Letras
2009 - 259 páginas
Publicado originalmente em 1979


quinta-feira, 1 de maio de 2025

Nadando no escuro




Sinopse: Em meio a um cenário político conturbado, Ludwik conhece Janusz em um acampamento agrícola. A amizade, a princípio inocente, logo cede espaço a um romance voraz às escuras. Cercados pela isolada beleza da natureza e livres das restrições sociais, eles se apaixonam. Mas, longe daquele cenário idílico, na repressão da sociedade comunista e ultraconservadora de Varsóvia, o amor dos dois é mais do que proibido — é impossível. Do intoxicante primeiro amor até a dor de amadurecer, Tomasz Jedrowski criou uma inesquecível e instigante história que explora liberdade e amor em todas as suas formas.

No mês de fevereiro/25 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor cearense Stenio Gardel (autor do maravilhoso A palavra que resta) o livro Nadando no escuro do escritor alemão Tomasz Jedrowski. O mimo foi um par de sachês da Tea Shop (adoro).



Em um formato que lembra uma carta, um Ludwik que mora em Nova York relembra diferentes momentos da sua vida na Polônia dos anos de 1980. Do primeiro amor por um menino judeu cuja família um dia desaparece, as reuniões misteriosas da mãe e da avó fechadas em um quarto, até a exposição de risco em um local público quando tenta entender a sua sexualidade.

Talvez fossem os fantasmas desses sons, varridos pelo vento e carregados sobre o oceano para bater à porta de minha consciência.
 

Esta carta é para Janek, um rapaz que conheceu em um acampamento de trabalho agrícola, onde o livro O quarto de Giovani faz a ponte entre os dois para viverem um romance intenso e secreto.

Secreto por não ser aceito pelo regime político a ponto de gerar perseguições e interrogatórios, e por ser algo que pode atrapalhar os planos ambiciosos de Janek de se enturmar com os ricos e poderosos, aos quais caiu nas graças.

Como é que, sendo uma criança, se cria laços com outra criança? Talvez seja simplesmente por meio de interesses em comum.
 

Enquanto Janek segue passo a passo o seu plano, Ludwik sonha em sair do país ao mesmo tempo que se depara com as dificuldades de quem não possui pessoas de referência para quebrar barreiras básicas como seguir com os seus estudos.

Um livro sobre amor, descobertas e opressão em um regime que não aceita protestos nem dá liberdade para que as pessoas façam suas próprias escolhas pessoais.

 

A escrita de Tomasz Jedrowski

Filho de pais poloneses, o escritor Tomasz Jedrowski nasceu na Alemanha e hoje mora na França. Nadando no escuro é o seu primeiro romance do autor, traduzido para mais de dez idiomas, a obra ganhou o Prêmio Polari de literatura LGBTQ+.

Narrado em primeira pessoa pelo personagem principal Ludwik Glowacki, Nadando no escuro permite ao leitor ter acesso aos pensamentos, memórias, sentimentos e reflexões de Ludwik.

Você nunca comparecia a aulas ou palestras, nunca precisou. Portanto, poderíamos muito bem nunca ter nos encontrado.
 

Se dividindo entre o tempo presente, onde ele vive a desejada liberdade, e o passado, onde as pessoas que amou e/ou cruzaram o seu caminho ficaram trazendo assim também os impactos da sua história nos dias de hoje, criando uma atmosfera que mistura o peso das escolhas com nostalgia.

 

O que eu achei de Nadando no escuro

Eu achei a escrita de Tomasz Jedrowski extremamente delicada e sensível. O amadurecimento e evolução do personagem Ludwik, que mesmo em meio a mágoa e as dificuldades, consegue manter os seus princípios, me encantou.

Além de ter que se adaptar as mudanças naturais, o personagem tem a preocupação a mais de viver em um país que o partido que governa decide o que é bom para a população e quem são os merecedores de uma vida diferenciada, o que já torna tudo difícil. Mas quando isso ganha um nível de preconceito absurdo, é preciso realmente ter coragem para romper as amarras e tentar seguir em frente.

Eu me sentia como um passarinho liberto da gaiola, assustado e exultante com o vazio diante de mim.
 

O que faz com que Nadando no escuro consiga ser múltiplo, pois se ele é um livro sobre autodescoberta e culpa pelo que se sente, a narrativa também é uma bonita história de amor e uma crítica ferrenha ao modelo socialista implantado na Polonia no pós segunda guerra mundial.

Colocando nas páginas não só a pobreza que a maior parte da população tem que se sujeitar, como os meios que precisam ser utilizados para quem quer mais do que sobreviver. Aqui muito bem representado pelo personagem Janek.

Tentei dizer que não significava nada, que não era real. E, ainda assim, eu já não conseguia mais olhar para você sem me sentir completamente drenado de quaisquer forças.
 

Nos fazendo lembrar que não existem sistemas perfeitos, mas que a liberdade de ser e escolher, desde que não faça mal ao próximo, deve sempre prevalecer.

E assim deixo a dica de um romance delicado e sensível, cujo peso e a força está nas escolhas e situações enfrentadas pelos personagens.

 

Nadando no escuro
Swimming in the dark
Tomasz Jedrowski
Tradução: Luiza Marcondes
TAG - astral cultural
2025 - 237 páginas
Primeira publicação em 2020

 

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Era uma vez em Hollywood


Sinopse: A aguardada estreia de Quentin Tarantino na literatura é uma leitura de fôlego, com ritmo de humor e recheada de pérolas sobre a era de ouro do cinema. Em Era uma vez em Hollywood, Tarantino oferece uma vasta gama de detalhes que ampliam o universo dos personagens, criando desfechos inovadores, novos cenários e diferentes possibilidades para o filme vencedor de duas categorias do Oscar 2020 — uma delas, a de Melhor Ator Coadjuvante para Brad Pitt (Cliff Booth).



Rick Dalton já foi muito famoso por protagonizar uma série de faroeste para a TV, mas o seu ego o fez acreditar que conseguiria papeis muito melhores, e na Hollywood dos anos de 1960 ele é um ator em declínio que precisa da ajuda de um agente especializado para sair das participações especiais, o que pode significar fazer filmes em qualquer lugar.

Quem o acompanha é Cliff Booth, amigo, funcionário e dublê de Rick quando este consegue colocá-lo nos filmes. Ex-combatente de guerra, foi de herói da nação para um sujeito que nem sempre avalia bem as suas ações, além de ser suspeito de um crime que não o torna bem-vindo a todos os lugares.

Continue interpretando o saco de pancada para todo novato arrogante que surgir na emissora, e isso vai surtir um efeito psicológico na maneira como a audiência enxerga você.


Ambos acompanham a chegada de seus novos vizinhos, a bela e jovem atriz Sharon Tate e o famoso diretor de o Bebê de Rosemary Roman Polanski. Tate se divide entre a emoção de ver o seu rosto nos cartazes dos cinemas e os inúmeros eventos que é obrigada a comparecer junto com o marido.

No caminho dos dois também passam Charles Manson e seus seguidores, trazendo a memória um dos eventos que ajudaram a marcar a transição da era de ouro do cinema americano para uma série de mudanças.

Por outro lado, quando assistia a filmes estrangeiros, via nos atores um grau de autenticidade que simplesmente não existia no cinema de Hollywood.


Tudo no melhor estilo Tarantino, onde ficção e realidade se misturam, sem poupar o leitor de ironia, humor e crítica.


A escrita de Quentin Tarantino

O cineasta, roteirista, produtor, ator e sim, escritor norte-americano Quentin Tarantino é conhecido por seus filmes que misturam violência, cultura pop, diálogos recheados de críticas, ironias e verdades diretas, além é claro de humor negro.

E tudo isso se encontra no primeiro livro de Tarantino, baseado no filme roteirizado pelo próprio. Com a liberdade que só a escrita dá, ele se utiliza de uma narrativa não linear, onde é possível ter no presente vislumbres do passado e também do futuro, seja através de longos diálogos ou de fluxos de pensamentos dos personagens.

E ele gostou dela também, e não só porque ela era bonita. Ela era muito inteligente também - isso ficou evidente apenas com uma conversa casual.


Por ser um livro baseado nos anos de ouro de Hollywood, as páginas são recheadas de referências dos anos 1960, seja pelo de atores e filmes, seja através das músicas, dos locais e dos próprios acontecimentos.

Como em seus filmes, temos diálogos e detalhes que levam o leitor para junto dos personagens, tornando a narrativa tão vibrante e empolgante quanto os seus filmes, tornando a leitura das quase seiscentas páginas muito mais rápidas que alguns livros com menos de duzentas.


O que eu achei de Era uma vez em Hollywood

Ao pegar o livro com quase seiscentas páginas, jurava que ia levar uns três meses para ler o livro por completo, e já me preparava para intercalar com as leituras do grupo que faço parte.

Doce ilusão. A escrita de Tarantino é como seus filmes, difícil de abandonar. Cada capítulo convidava para ler mais um, em uma leitura que consegue não apenas levar para uma época que só ouvi falar, como me encantar com Sharon Tate e sentir calafrios com a trupe de hippies que deu fim ao seu sonho, mesmo o livro não descrevendo o terrível crime. 

A parte ruim de vomitar em si mesmo ao acordar de manhã é que você se sente um porco nojento e um patético derrotado.


A dupla Rick Dalton e Cliff Booth também facilitaram muito a minha vida, se Dalton me levou para dentro dos cenários cinematográficos ao mesmo tempo que mostra um lado muito humano ao ter que se adaptar as dificuldades atuais. Booth já tem uma dualidade e uma frieza que remetem as cenas mais violentas dos filmes de Tarantino.

E o detalhe de tudo é que não havia assistido ao filme, e após postar no Instagram do blog as leituras do mês de março, recebi uma pergunta justamente perguntando a relação dos dois. A curiosidade aumentou, eu segurei a publicação da resenha e fui procurar o filme.

É um dever do ator se esforçar para atingir cem por cento de eficácia. Naturalmente, nunca conseguimos chegar lá, mas essa busca é o que importa.


Depois de assistir ao filme, eu digo que os dois se complementam. Existem coisas no filme que não tem no livro e vice-versa, tornando as duas formas de arte interligadas, já que se por um lado o livro explica muito mais os personagens, por outro o filme dá toda a referência visual. E o final de ambos é diferente. E ambos muito bons.

No filme eu senti muita falta de maior participação da personagem Trudi/Mirabella, cujas cenas com Rick Dalton mostram todo o trabalho e esforço de ser um bom ator/atriz. 

Você está agindo como se eu fosse acordar amanhã de manhã e ir para uma escolinha. Eu vou trabalhar com você.


E achei curioso que como alguns detalhes são mais explorados no livro, como a política de recepção do ator principal de uma série aos atores convidados, estratégias utilizadas por diretores para provocar diferentes reações e o preconceito com o que é feito fora de uma bolha.

Então coloque a pipoca na panela, prepare o seu chá e faça uma sessão dupla pela tela e pelas páginas para retornar pelo olhar de Tarantino a Hollywood dos anos de 1960. Existe grandes chances de você gostar.


Era uma vez em Hollywood
Once upon a time in Hollywood
Quentin Tarantino
Tradução: André Czarnobai
intrínseca
2021 - 560 páginas
Primeira edição publicada em 2020

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A voz que ninguém escutou



Sinopse: A voz que ninguém escutou é a de Maria que decide fugir da miséria e violência levando dois filhos para a capital na esperança do tão desejado emprego. É a voz de Inácio, um menino sequestrado e escravizado por um fazendeiro inescrupuloso, em busca de uma família para si. É a voz de Inês, a filha da empregada doméstica que sobrevive nos fundos da mansão de um poderoso banqueiro vivenciando cotidianamente as diferenças de classe, sonhando com um Brasil mais justo. É a voz de Vânia uma jornalista que acaba de assistir à tragédia de sua mãe e após uma grande revelação tenta reconstruir sua história ao mesmo tempo em que encontra novas formas de amar. É a voz deste que escreve estas palavras. É a voz de um país que esqueceu de lembrar do passado.

No mês de setembro/2024 a TAG não foi curadoria e enviou o vencedor do prêmio kinder de literatura de 2024 chamado A voz que ninguém escutou do escritor carioca Renan Silva. O mimo chamado de kit biblioteca era composto de pequenas fichas destacáveis e post-its.



Não suportando mais viver uma relação abusiva e uma vida de miséria, Maria decide abandonar o marido e os filhos mais velhos, fugindo com os dois mais novos, Inês e Inácio, para a cidade do Rio de Janeiro.

No caminho uma ida ao banheiro lhe custa caro, já que o motorista do transporte clandestino ao qual ela está viajando vende Inácio para um fazendeiro que explora crianças, levando-o para longe, antes que a mãe tenha tempo de resgatá-lo.

Sirene rodopiando como carrossel. Sons de alerta e um eco interminável.


No Rio de Janeiro Maria encontra um emprego como empregada doméstica em uma casa de família rica, onde Inês irá conviver com as diferenças sociais ao mesmo tempo que terá oportunidade de estudar, e fazer uma sólida amizade com a filha do casal.

Tudo em um Brasil que vive a construção de Brasília e o início da ditadura militar, onde o resultado de tudo cabe em uma ambulância em 2005 em que Vânia, uma jornalista, leva a mãe Inês em estado grave para o hospital.


A escrita de Renan Silva

A voz que ninguém escutou é o primeiro livro do historiador Renan Silva. Na narrativa foi optado em utilizar na maior parte do tempo a voz em terceira pessoa, mas em alguns momentos surge a voz em primeira também, ambas para acompanhar quatro personagens: Maria, Inês, Inácio e Vânia. Todos membros da mesma família.

O livro acompanha a vida destas pessoas de 1945 a 2005, dividido em duas partes, a primeira aborda trabalho escravo, sequestro de crianças, violência familiar, poliamor, assédio sexual, questões lgbt, exploração de trabalho doméstico, diferenças sociais, construção de Brasília, ditadura entre outros assuntos.

Os filhos foram concebidos com pouco tempo de espera entre um e outro. A exceção era justamente aquela que agora vinha ao mundo.


Na segunda parte temos uma mistura de tempo mais próximo ao presente com o passado, já que Vânia começa a investigar o que levou a mãe em um ato tão extremo e acaba se dividindo em entender o passado da mãe e a busca de sua própria identidade, ao mesmo tempo que sua vida parece ser uma espécie de espelho da vida da mãe.

A quantidade de assuntos abordados seria o suficiente para criar uma saga familiar, mas por estar tudo compactado em quase trezentas páginas, pode levar o leitor a dois sentimentos. Agradando aquele que gosta de ler versões resumidas, e por outro lado angustiando o que deseja uma história mais arredondada.


O que eu achei de A voz que ninguém escutou

Para quem assiste o programa Masterchef do Brasil, a frase "menos é mais" utilizada pelo Fogaça para opinar sobre os pratos de alguns participantes, consegue resumir o sentimento que tive ao ler este livro.

E aqui faltou aquele editor amigo para dizer vamos focar mais nisso, quem sabe no lugar de colocar mais personagens vamos trabalhar mais esta cena? Que tal melhorarmos a passagem de tempo e tiramos a parte dos 50 tons de ditadura, já que as cenas de sexo parecem um Ctrl c + Ctrl v e o seu detalhamento não acrescenta em nada a história?

O menino percebeu o silêncio absoluto que reinava no interior da carroceria do caminhão. Tinha pelo menos mais cinco crianças além dele.


Pois na minha opinião a ideia do livro é muito boa, e seu início é envolvente e estimula a curiosidade, mas a narrativa vai decrescendo, a ponto que a primeira parte é muito melhor que a segunda. Sendo um daqueles casos em que a execução deixa e muito a desejar. 

Assim como a parte gráfica, que faz os leitores imaginar que os integrantes da família são negros, mas na descrição de Vânia ela é uma mulher branca. Falha de continuidade ou de quem elaborou a capa? Eis uma das perguntas que ficaram após a finalização do livro.

Às vezes, fantasiava invadir a biblioteca, gritar com o patrão, chamá-lo de lixo, ameaçar ir até a polícia.


Uma coisa que me incomodou muito na leitura é que ela parecia didática, não havendo uma narração da cena para que eu visualizasse o que estava acontecendo, mas um parágrafo explicando resumidamente os acontecimentos.

O que torna tudo muito rápido, e em alguns momentos, inverossímil, como a sequência em que Vânia busca os papeis da prisão da mãe no período da ditadura.

Os brasileiros começaram a se acostumar com a possibilidade de escolher livremente o presidente. Já era a quarta vez após o Estado Novo.


Outro ponto foi a mistura de eventos dos anos 80 e 90, como por exemplo acontecimentos do período Sarney (remarcação mais do que diária dos preços) que é citada na era Collor - que ficaria muito mais forte se tivesse sido relacionado ao ato mais traumático do seu governo: o confisco das poupanças. Tudo em um parágrafo que mistura presidentes, Senna, Mamonas e Sílvio Santos.

O livro cita o diário de Inês, mas a narrativa se perde na forma como a história é conduzida, parecendo um resumo do resumo feito pela filha Vânia, que talvez fosse um personagem que não precisaria estar ali.

Os ideólogos da nova capital pensavam que as diversas classes sociais poderiam viver em conjunto, em superquadras nas Asas Norte e Sul. Na prática, isso não ocorreu.


Em compensação nada é dito sobre os outros filhos de Maria, assim como um período de tempo de Maria, Inês e Inácio e termina de forma fraca, sem maiores impactos. Então sim, as páginas gastas com Vânia poderiam ter sido ocupadas principalmente como Inês e Inácio.

O que me fez finalizar a leitura com a ideia de que a mesma precisava ser refinada, tanto nas vozes utilizadas como no foco. Pois perde-se páginas em sequências que não acrescentam nada e se passa voando pelas que poderiam tornar a história mais rica.

O andar cada vez mais curvado e as constantes reclamações de dores nas costas também eram as marcas de vinte anos de trabalho ininterruptos.


Fazendo uma contrapartida, já que não, eu não gostei da escrita do livro, a minha mãe já gostou, pois como cita jovem guarda e outros momentos da época de 60 e 70, fez com que ela buscasse as próprias memórias daquele período, que ao contrário dos personagens, são lembranças felizes. Um poder especial que os livros possuem de resgatar nossa própria história pessoal enquanto acompanhamos outras.

Como livro é igual a gosto, e cada um tem o seu, e naturalmente pode haver outros leitores que assim como a minha mãe possam gostar da narrativa, fica a dica de um livro brasileiro que aborda a história de uma família nordestina em meio a um dos períodos mais tumultuados da história do Brasil.


A voz que ninguém escutou
Renan Silva
TAG - José Olympio
2024 - 302 páginas

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Serafim Ponte Grande



Sinopse: Ao longo de 203 fragmentos, Oswald de Andrade toma como inspiração os procedimentos da colagem para criar uma obra radical, situada entre a ficção, as anotações, as memórias, a sátira e a poesia. Definido por Haroldo de Campos como "romance-invenção", o livro, publicado originalmente em 1933, foi recebido como escandaloso e se estabeleceu como um acontecimento singular na nossa literatura. A transformação industrial de São Paulo serve como pano de fundo para um retrato implacável das aspirações burguesas. Em meio ao moralismo, ao tédio e à infelicidade do casamento, os personagens de Serafim Ponte Grande não conseguem conter suas ambições comezinhas, sua obsessão pelo dinheiro e seus impulsos sexuais.



Serafim Ponte Preta é uma espécie de anti-herói. O protagonista que dá título ao livro é um funcionário público corrupto e desiludido, cujo estilo de vida se divide entre a busca desenfreada por dinheiro e pela insatisfação conjugal. Um homem comum que realiza uma busca desenfreada por prazeres e pela incapacidade de se adaptar às convenções sociais.

Casado com Lala, uma mulher inicialmente resignada que vive um casamento infeliz, já que ela não é uma personagem secundária só na história, como na própria vida do protagonista.

A obra de ficção em minha vida corresponde a horas livres, em que estabelecido o caos criador, minhas teorias se exercitam com pleno controle.


Já Pinto Calçudo, o secretário do anti-herói, é presença frequente nos encontros e desencontros de Serafim com políticos corruptos, amantes, amigos e inimigos, e inclusive em uma viagem que parece resgatar as viagens realizadas pelo próprio autor, Oswald de Andrade, nos anos de 1920.

Tudo ambientado de uma forma a levar os leitores de qualquer época para uma viagem ao passado, sob as perspectivas de quem só se preocupa com o seu cotidiano.


A escrita de Oswald de Andrade

O autor e pensador paulista Oswald de Andrade foi uma das personalidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Formado em direito, seguindo os ritos das famílias ricas e tradicionais, acabou direcionando-se a sai paixão que era a literatura. 

Viajante frequente para a Europa, viu seu estilo de vida mudar com a crise econômica de 1929. Gerando uma mudança não só no ritmo com que levava seu dia-a-dia, mas também na criação de Obras como Serafim Ponte Grande, que é uma crítica a sociedade tradicional do período.

O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda.


Serafim Ponte Grande pode causar um estranhamento inicial no leitor ao passar pelas suas páginas e ver que não temos um romance padrão. Motivo pelo qual a obra é considerada uma grande inovação. 

O escritor Oswald de Andrade utiliza uma mistura que inclui tanto a linguagem formal da época quanto a popular, ao mesmo tempo que relaciona citações eruditas e termos técnicos. 

Parece que Deus quer ver no primeiro dia deste ano inteiramente evoluída a minha transformação psíquica, tantas vezes ameaçada pelos acontecimentos.


Essa babel linguística mistura poemas, micro contos e capítulos inteiros, não sendo muito explicativa, embora pareça respeitar uma linha do tempo para contar as diferentes facetas da sociedade brasileira, especialmente a paulistana, do período do modernismo.

Recheado de ironia e humor, os caminhos tortos do seu protagonista levam a situações inusitadas e algumas vezes beiram ao irreal. Ao mesmo tempo ele também se utiliza da literatura como base de referência, completando a visão cultural da época.

Nada mais incômodo do que esse negócio de ter filhos sem querer.


O que torna a escrita bastante atemporal e um livro relativamente rápido de ser percorrido.


O que eu achei de Serafim Ponte Grande

No mínimo diferente. Inicialmente me pareceu uma espécie de diário, onde uma frase ou parágrafos podem definir o dia do protagonista Serafim. Na sequência uma espécie de crítica política e desilusão com a vida que se leva no Brasil.

O que me fez pensar que Serafim é muito louco como narrativa e também como personagem. Mas apesar de misturar poemas, romance e formatos diferentes, no decorrer da leitura comecei a achar chato e repetitivo.

Por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal.


Como eu li antes O Guarda-roupa modernista, em vários momentos levantei a hipótese de ser uma sátira do que o próprio autor tenha vivido em suas várias idas a Europa, fato depois confirmado por um dos autores dos textos adicionais sobre o livro. Mas sendo sincera, eu não achei graça.

E assim eu acabei fazendo um paralelo com a geração de hoje que acham os programas humorísticos das décadas de 80 e 90 enfadonhos, pois foi exatamente o que ecoou em mim ao ler as desventuras de Serafim.

Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só , brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos olhos, pelos lábios e pela boca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel!


Pensando em um aspecto histórico, imagino que o livro tenha horrorizado os mais conservadores de sua época com sua linguagem direta, utilizando um personagem que não leva absolutamente nada a sério. E sim, provocado graça anos depois, quando muitas coisas da sociedade já estavam sendo questionadas.

No geral nem gostei nem desgostei de Serafim Ponte Grande, embora tenha achado o início promissor e o final muito bem executado, a etapa das viagens foi o que quebrou o ritmo da minha leitura, já que achei a correria do personagem atrás dos rabos de saia muito repetitiva, o que acabou deixando as críticas, que tinham um contexto mais interessante, perdidas em segundo plano.

Sob as árvores soltas do verão, debaixo dos balões cativos das lanternas. A orquestra mistura falas, altifalantes, serrotes e gaitinhas.


Mas sim, ele pode ser um livro bem interessante para quem quer ter uma visão da burguesia paulista nos anos de 1920, para quem quer conhecer um dos principais participantes do movimento modernista no Brasil e para quem é curioso e gosta de ler de tudo.


Serafim Ponte Grande
Oswald de Andrade
Companhia das Letras
2022 - 223 páginas
Publicado originalmente em 1933

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O labirinto dos espíritos



Sinopse: Em O labirinto dos espíritos, Zafón nos conduz ao emocionante desfecho da série que começou com A sombra do vento e impactou leitores por todo o mundo. Personagens novos e antigos povoam as páginas, se entrelaçando em uma despedida grandiosa.

O IV livro da série O cemitério dos livros esquecidos fecha essa tetralogia que mistura a história de Barcelona com uma homenagem aos escritores e livros.



Ele inicia em Madrid nos anos de 1950 e quem guia o leitor é Alicia Gris, uma jovem mulher que ainda na infância sobreviveu aos bombardeiros que arrasaram Barcelona durante a guerra e lhe deixaram dolorosas cicatrizes no corpo e na alma.

Ele fechou os olhos e, um segundo depois, emergiu na vida constatando que o simples ato de respirar era a experiência mais maravilhosa que tivera em toda a sua existência. 


Investigadora sagaz de uma equipe que trabalha nas sombras, ela recebe a missão de localizar o ministro Mauricio Valls, que desapareceu junto com o seu guarda-costas de confiança. As pistas a levam de volta para casa, isto é, Barcelona, onde ela vai se aproximar da família Sempere e reecontrar o homem que ajudou a salvar sua vida, Fermín Romero.

Na família, apesar da paz aparentemente reinar, Daniel não consegue ser totalmente feliz , o enigma de sua mãe Isabella é algo permanentemente presente em sua mente, algo que nem Bea nem Juliàn conseguem distraí-lo. E o fato de tentarem protege-lo o irrita ainda mais.

A caça, a caça de verdade, é um duelo entre iguais. A gente não sabe quem realmente é até derramar sangue.


E conforme as peças são encontradas por Alicia, mais fatos obscuros começam a vir à tona, e o conhecimento destes fatos se torna um fardo perigoso para os que carregam, recordando ao leitor o que realmente tornava a cidade sombria naquela época.

Com o retorno dos personagens dos três primeiros livros e a chegada de novos, a narrativa é um verdadeiro convite a desvendar em definitivo os enigmas tão bem distribuídos por Zafón, com suas alegrias e tristezas, podendo emocionar os fãs da série.


A escrita de Carlos Ruiz Zafón

Nascido em Barcelona, Carlos Ruiz Zafón foi um renomado escritor e roteirista. Conhecido por sua habilidade em misturar elementos de mistério e romance em suas obras de ficção gótica, ele ganhou destaque internacional justamente com seu romance A Sombra do Vento (2001), livro que abre a série O cemitério dos livros esquecidos.

Zafón faleceu em 2020 - o que aperta o meu coração até os dias de hoje, já que ele está na minha lista de autores favoritos -  e seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas, tendo vendido milhares de exemplares pelo mundo.

Uma lenda é uma mentira concebida para explicar uma verdade universal. Os lugares onde a mentira e a miragem envenenam a terra são particularmente férteis para o seu cultivo.


Especificamente sobre O labirinto dos espíritos, o escritor optou por uma narrativa em terceira pessoa, o que permite ao leitor uma visão ampla e detalhada dos personagens e da trama, além de sempre especificar em cada nova parte a cidade e o ano que os fatos estão ocorrendo. 

O livro é interligado com os outros volumes da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, mas como ocorre nos anteriores, é possível ler o mesmo de forma independente, mesmo eu considerando isso um pecado já que além dos personagens, são os detalhes que fortalecem os laços entre os quatro livros.

Acho surpreendente como sempre procuramos no presente ou no futuro as respostas que estão no passado.


Como ocorreu nos três livros anteriores da série, a narrativa fluída de Zafón se destaca pela sua riqueza descritiva e pela construção de uma atmosfera densa e envolvente, que faz o leitor caminhar por uma Barcelona sombria.

E isto é complementado ao alternar diferentes tempos e pontos de vista, permitindo que a história se desdobre de maneira complexa ao mesmo tempo que se aprofunda nos personagens principais, revelando aos poucos todos os segredos e mistérios que foram guardados ao longo dos quatro livros da trama.

Você decide se quer viver ou apodrecer pouco a pouco, como deixou acontecer com tantos inocentes.


Além disso a intertextualidade e as referências literárias utilizadas ao longo da história são marcantes, refletindo a paixão do escritor espanhol pela literatura e encantando a todos que se entregam a leitura desta série.

Tudo isso utilizando uma linguagem fluída, que convida virar mais uma página, ler mais um capítulo e se apaixonar pela série.


O que eu achei de O labirinto dos espíritos

Foi emocionante realizar a leitura de O labirinto dos espíritos, uma história que homenageia os escritores e os livros, fechando de forma redonda esta série que tanto adoro e fiquei com vontade de reler ao fechar a contracapa.

Como nos três primeiros livros, nos deparamos com a força da literatura em um período que escureceu a hoje iluminada Barcelona, tendo como base a história de um país e todas as injustiças que ocorreram durante a época retratada.

Antes de sair ainda deu uma última conferida no espelho do saguão e se aprovou. Você partiria o próprio coração, pensou. Se tivesse um.


Tornando o livro ao mesmo tempo maravilhoso e doloroso, pois enquanto reforça a importância da literatura, nos lembra da destruição que uma ditadura faz não apenas nos livros, mas também na vida das pessoas, principalmente das crianças atingidas diretamente, cujas vidas são alteradas de forma definitiva.

Gostei da ampliação de locais que a narrativa trouxe, incluindo Madrid e Paris no caminho de alguns personagens. E já me peguei pensando em retornar as cidades só para fazer o roteiro de O labirinto dos espíritos. Pois sim, eu fiquei tão fã de A sombra do vento que quando fui a cidade de Barcelona passei por diversos dos pontos citados no livro, incluindo a rua onde fica a Livraria Sempere.

Você não mente para as pessoas; elas sozinhas se mentem. Um bom mentiroso dá aos bobos o que eles querem ouvir. Esse é o segredo.


E amei que apesar dos livros se completarem de tal forma que não possuem uma ordem certa , O labirinto dos espíritos fecha todas as pontas que os três primeiros deixaram ao longo do caminho, não deixando o leitor com perguntas, tudo de uma forma natural e fluída.

Aliás, para quem já leu os livros da série, uma dica, o Epílogo de O prisioneiro do Céu é um gancho para O Labirinto dos Espíritos.

As pessoas são como marionetes ou brinquedos de corda, todas têm um mecanismo oculto que permite manipular seus fios e fazê-las ir na direção que se deseja.


Então sim, eu indico, recomendo e saliento: quem ama literatura, quem ama livros, precisa entrar neste Cemitério. A chance de você se apaixonar pela escrita do Zafón e se apegar a família Sempere é muito grande.


O labirinto dos espíritos
El Laberinto de los Espíritus
Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Ari Roitman e Paulina Watcht
SUMA
2017 - 679 páginas
Primeira versão publicada originalmente em 2016


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Água Funda

Sinopse: Entrelaçando diferentes tempos e personagens, inserido no universo de uma comunidade rural na Serra da Mantiqueira, Ruth Guimarães construiu uma prosa ágil e fluída, permeada de ditos populares e causos marcados pela superstição e pelo fatalismo, que antecipa em certos aspectos o realismo mágico de Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. É o caso das histórias de Sinhá Carolina, dona da Fazenda Nossa Senhora dos Olhos d'Água, e do casal Joca e Curiango, trabalhadores locais, num arco temporal que vai da época da escravização até os anos 1930. Como afirma o narrador do livro: "A gente passa nesta vida como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada".



No mês de abril/2024 recebi da minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do rapper Emicida o livro Água Funda da escritora paulista Ruth Guimarães. O mimo foi um tarô literário.

Logo de início o leitor é convidado a saber como era antigamente, o que ficou igual, mas principalmente o que era diferente, e assim a primeira personagem da narrativa aparece: Sinhá Carolina.

Ter dor de barriga é uma coisa. Pensar na dor de barriga alheia é outra coisa muito diferente. Sempre parece que a dos outros dói menos.


Com a Sinhá vem o tempo da escravatura e as relações hipócritas e exploradoras dos que comandavam as terras, pois sustentar uma sociedade mimada e egoísta exige muito suor e esforço dos que devem servir.

Mas com a fazenda virando fábrica, vamos conhecer a história de Joca e da bonita Curiango, que com eles trazem as mudanças ao longo do tempo e diferentes personagens que vão completando não apenas a vida nesta sociedade, como também as diferenças sociais e crenças populares, que tão um toque de fantasia na narrativa.


A escrita de Ruth Guimarães

A escritora brasileira Ruth Guimarães nasceu em Cachoeira Paulista em junho de 1920 e nos deixou em maio de 2014. Publicou 51 livros entre contos, crônicas, traduções, ensaios folclóricos e romances, entre este último Água funda.

Em Água funda ela utiliza a narrativa em terceira pessoa. A escritora paulista nos convida a entrar em um bate-papo para compartilhar vários acontecimentos que iniciam em Vale da Paraíba, local que já proporcionou todos os desejos de uma sinhá mimada até um solo que não produz mais nada e gera decadência econômica para os que ficaram.

Os olhos deles tinham outro poder, que os de nós, pecadores não tinham. Viam mais. Criança e cachorro nunca se enganam.


O livro pulicado em 1946 tem uma escrita fluída, que entre fatos concretos e crenças dos que ali vivem, conseguem colocar o leitor em dia com os principais causos, casos e acontecimentos da comunidade local. 

Mas é também uma leitura que exige atenção, pois como em uma boa conversa em que se troca fofocas da vizinhança, os assuntos vão e voltam, o que pode provocar confusão e dúvidas em alguns momentos.

Porque o homem, por mais ignorante que seja, por mais cego, por mais bruto, gosta de ser tratado como gente.


Um livro que mistura ficção e um pouco da própria história do Brasil, mais especificamente do estado de São Paulo, ao mesmo tempo que nos apresenta uma escritora brasileira que talvez passe batido por vários leitores.


O que eu achei de Água funda

A leitura me despertou lembranças de uma querida vizinha de uma das minhas moradias anteriores que estava sempre por dentro das novidades do bairro. Isto se deve ao fato que durante a leitura inteira eu imaginei várias senhoras sentadas ao redor de uma fogueira ou apoiadas nas janelas de suas casas, todas bastante próximas, lembrando de fatos ocorridos na sua volta, com mais ênfase na vida dos personagens cujo o destino não foi tão afortunado.

Pois durante a leitura não existe um aprofundamento em relação ao envolvidos, como brincou a minha mãe: a narrativa em alguns momentos lembra mais uma água rasa.

Já morreu e isso não teve importância. Quem morre não faz falta, porque quem fica se arranja.


Mas ao mesmo tempo, até pela época em que foi escrita, é interessante a abordagem utilizada em relação as mudanças nas formas de se trabalhar, com direito a golpes que continuam a serem aplicados nos dias atuais em trabalhadores de regiões mais afastadas que recebem ofertas tentadoras, a questão das doenças mentais - outro assunto discutido e estudado nos dias de hoje -, além do declínio dos donos de escravos e as diferenças sociais que gritam com mais ou menos força, variando conforme ele se afastam da sua comunidade.

Então acredito que apesar do ar de conversa de vizinhança não aparentar ser tão profunda, a comunidade deste vale pode sim trazer excelentes reflexões não só sobre o passado, mas também sobre o presente, já que em muitas situações não há muitas evoluções nos dias de hoje.

As mágoas velhas, que a gente guardou, voltam e pegam a latejar de novo, nessas noites meio claras, meio escuras, de céu limpo.


No geral eu gostei de Água funda, a forma como a narrativa é ambientada me transportou para a roda de conversa, estimulou o meu lado curioso, e me fez ter interesse em suas crenças, estimulando uma discussão entre o meu lado que gosta de literatura fantástica e o meu lado mais cético.

Ficando a dica para quem gosta de livros que contam um pouco da história e cultura brasileira, quer ler mais livros escritos por mulheres e naturalmente, para quem simplesmente quer ler.


Água funda
Ruth Guimarães
TAG - Editora 34
2024 - 199 páginas
Publicado originalmente em 1946