Mostrando postagens com marcador Guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As montanhas cantam


Sinopse: As montanhas cantam é centrada na família Trần. Tendo como pano de fundo a Guerra do Vietnã, a narrativa é marcada pelos acontecimentos que atravessaram o núcleo familiar - desde a avó Diêu Lan, até a neta Huong. É um romance vívido que escancara os custos humanos da guerra, do ponto de vista do próprio povo vietnamita. Ao mesmo tempo, o livro nos mostra o poder e os efeitos da esperança.



Nos anos de 1970 a jovem Hương se vê sozinha com avó na cidade de Hanói tentando sobreviver ao medo dos bombardeios e de perder seus pais e tios que estão entre os combatentes da Guerra do Vietnã.

A luta cotidiana para comer, trabalhar e estudar desperta as memórias da avó da garota, Diêu Lan, que durante os anos de 1940 e 1950 viu a sua família ascender com trabalho árduo e respeito como proprietários de terra para depois entrarem em um verdadeiro inferno de escolhas durante a reforma agrária do país.

Minha avó costumava me dizer que, quando nossos ancestrais morrem, eles não desaparecem simplesmente, mas continuam cuidando de nós.


Os dois acontecimentos acabam se fundindo, trazendo à tona feridas nunca cicatrizadas, diferenças de opinião e escolhas de caminho que não possuem volta. 

Medo, amor, coragem, vergonha se entrelaçam em uma família que luta para ver o sol a cada dia e mostram o antes, durante e o depois de um evento tão traumático chamado guerra.


A escrita de Nguyễn Phan QuếMai

Nascida em uma pequena vila no Delta do Rio Mekong no Vietnã, Nguyễn Phan QuếMai é também poeta e tradutora. Para escrever o seu primeiro romance As Montanhas Cantam, optou pelo idioma inglês para contar uma mistura de ficção e fatos inspirados em suas próprias experiências durante a infância.

Reconhecida como embaixadora cultural, ela compartilha com o ocidente de forma bastante emocional os acontecimentos históricos de seu país. Seja usando metáforas, seja através de provérbios populares e o próprio vocabulário, onde ela opta em utilizar a escrita original para os nomes, apesar do texto em inglês.

Um ruído trovejante se aproxima. Explosões ecoam de longe. Agarro-me aos ombros de vovó com mãos suadas, enterrando o rosto em seu corpo.


Ela também se utiliza de diferença geracional para dar duas visões de resiliência em tempos difíceis, e da compaixão para narrar uma história sem mocinhos ou vilões, mas de uma família que segue se levantando a cada queda, que busca sobreviver em meio a perdas, traumas e todos os desafios que se apresentam ao longo da jornada.

Uma curiosidade é que a autora optou por publicar em inglês para minimizar o risco de mudanças no seu texto durante as traduções. Tentando preservar toda a cultura e impacto emocional que a obra apresenta o máximo possível.


O que eu achei de As montanhas cantam

A combinação de governo que divide a sua população colocando uns contra os outros com uma guerra envolvendo exércitos estrangeiros pode ser a fórmula perfeita para destruir famílias que querem apenas trabalhar, correr atrás dos seus sonhos e educar os seus filhos.

No caso dos personagens de As montanhas cantam, eles surpreendem por conseguirem manter a resiliência em buscar uma saída após secar cada lágrima. Principalmente a avó, uma mulher muito inteligente e forte, que não perde a humanidade mesmo quando é vítima de injustiças.

Você sabia que naquela época os dentes pretos eram considerados essenciais para as mulheres? Aquelas com dentes brancos eram consideradas indecentes.


Eu achei o livro sensível e dolorido. Foi impossível para mim não ficar pensando naquela mãe que precisa distribuir os seus filhos em casas estranhas para que não fossem mortos por causa de mentiras. Assim como na menina que espera pacientemente a recuperação de uma mãe ferida na alma e por um pai que nunca retorna. 

O coração também apertou, seja pelas mortes injustas, seja pela alma que se sente suja, seja pelo primeiro amor que nasce em meio a muitos contrastes, assim como pelo perdão após toda a maldade.

Ao nosso redor, homens, mulheres e crianças, com roupas rasgadas e rostos fantasmagóricos faziam a mesma coisa, enchendo o olho do inferno com os escombros de suas casas. 


Tudo com uma escrita fluída e envolvente, que ao mesmo tempo que te torna um membro invisível acompanhando a família, compartilha de forma natural a cultura vietnamita. Além disso, Hương é uma narradora que consegue colocar delicadeza em meio a toda dor, tanto nas histórias passadas de sua avó, quanto no seu presente, mostrando que mesmo após tantas tragédias, é preciso coragem para não desistir.

Além é claro da parte histórica, que aborda tanto a divisão do Vietnã como o lado dos vietnamitas em uma guerra que durou em torno de vinte anos, tendo oito anos mais violentos. Lembrando-me mais uma vez que nenhuma disputa armada vale o sofrimento de pessoas inocentes.

Esperávamos que a guerra acabasse, mas ela continuou. Se vovó estava triste e com medo, nunca me deixou ver isso de novo.


Ficando a dica para quem gosta de histórias com fatos históricos, narrativas familiares, romances que nos lembram do inesperado, quem busca autores de outros países, e claro, quem gosta de ler.


As montanhas cantam
The mountains sing
Nguyễn Phan QuếMai
Tradução: Felipe Ficher e Petê Rissatti
TAG
335 páginas 2023
Pulicado originalmente em 2020

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Verônica e os pinguins



Sinopse: Verônica McCreedy leva uma vida solitária. Aos 85 anos, ela começa a se perguntar para quem deixará sua enorme fortuna. Até que, após ver um documentário sobre um centro de estudos de pinguins na Antártica, resolve passar uma temporada do outro lado do mundo - um local congelante e isolado, que muitos considerariam inóspito. Diante das descobertas de um parente vivo, das novas amizades feitas, do desenterro de traumas passados e dos pinguins que precisam de ajuda, Verônica terá que decidir se ainda há tempo para abrir seu coração e criar laços antes que seja tarde demais.

No mês de Fevereiro/22 recebi pela minha assinatura da TAG Inéditos o sensível e divertido Verônica e os pinguins da autora inglesa Hazel Prior. O mimo foi um canudo de inox, o que combina com uma das temáticas levantadas no livro, que é das mudanças climáticas globais.

Verônica mora em uma bela casa na Escócia, solitária, tem a auxiliar Eileen que não só cuida da casa como da própria Sra. McCreedy, que muitas vezes deixa a dúvida se ela está apresentando lapsos de memória ou se é chata mesmo.

Os espelhos são muito honestos. Existe um limite para o que uma mulher pode suportar.


Com a proximidade do aniversário ela se depara com uma caixa que lhe desperta várias memórias e a preocupação de quem irá herdar os seus bens após a morte. É quando ela contrata uma agência de investigação e descobre a existência do seu neto Patrick.

Mas o rapaz não é nada do que ela gostaria ou esperaria de um neto, trabalhando somente um dia na semana, vivendo de ajuda do governo e cultivando dois vasos de maconha na janela.

A esta altura, deveria estar acostumada com essas repugnantes imperfeições físicas, mas ainda me exaspero ao me ver deste jeito.


Então Verônica lembra do programa sobre pinguins que ela tanto gosta de assistir, e do apresentador informando que o centro de pesquisa precisa de dinheiro para se manter. É quando ela decide ir pessoalmente até a Ilha Locket na Antártica ver se o trabalho realizado merece se tornar seu herdeiro.

O que irá mudar não só a rotina da pequena equipe como os do que estão a quilômetros de distância, trazendo revelações para ela e todos a sua volta. 


Os personagens

O núcleo de Verônica e os pinguins inicialmente é pequeno, mas ao retornar ao passado vamos encontrar vários personagens que Verônica encontrou no seu caminho, assim como as pequenas participações do núcleo de Patrick.

Verônica não só é a personagem do título como a principal, se inicialmente ela pode ser facilmente taxada de uma senhora bastante chata, um tanto arrogante e muito teimosa, conforme o passado é revelado, vemos uma menina que sobreviveu a guerra e a tudo o que lhe foi roubado. 

Fiz o que foi preciso para sobreviver. Se isso fez de mim uma pessoa dura ou cáustica, que seja. Sou o que sou.


Nada o que Verônica tem caiu de mão beijada em suas mãos, e foi graças a esta personalidade forte, que não baixou a cabeça para nenhuma dificuldade, que possibilitou cada conquista material, embora nada disso tenha aliviado as perdas emocionais.

Patrick é o neto até então desconhecido, rapaz que ficou órfão cedo e agora segue sendo levado pela vida, sem responsabilidades, sem objetivos, inicialmente desleixado, sendo um homem de corpo, mas mentalmente um menino que não cresceu.

Minha vida. Um enorme, doloroso, inexplicável, desperdício sem sentido.


Sua consciência começa a ter noção da realidade ao ler os diários pessoais enviados pela avó. Ao descobrir mais de suas próprias origens e das desventuras da mulher que se tornaria a sua avó, um amadurecimento começa a surgir.

Eileen é o braço direito de Verônica, quem atende suas ideias malucas, envia e-mails, pede notícias, se preocupa com o bem estar ao mesmo tempo que é curiosa sobre o que acontece.

A vida é um equilíbrio entre o que você solta e o que você guarda. No meu caso, trata-se muito mais de guardar. Guardar é a única maneira de aguentar firme.


Já na Antártica temos a equipe do projeto dos pinguins. Um trio de diferentes personalidades que em um primeiro momento tentam a todo custo impedir que uma senhora já idosa vá para o alojamento, cuja estrutura é simples e sem grandes confortos, mas que depois incorpora Verônica na própria rotina. 

Naturalmente nem todos aceitam tão bem, se por um lado Terry cuida de Verônica e relata seus primeiros contatos no blog que mantém, Mike parece estar sempre emburrado com sua presença, enquanto Dietrich mantém o equilíbrio de tudo.

Eu devia estar cheia de remorso e humildade, mas não estava. Sentia-me desafiadora.


E como não poderia faltar, os pinguins são personagens a parte, com ênfase para Pip, que inevitavelmente te faz ter vontade de conhecer um bebê pinguim mais de perto.


A escrita de Hazel Prior

Para contar a história de Verônica a autora Hazel Prior mescla diferentes narrativas, da primeira pessoa com narrativa direta, como é o caso utilizado com a personagem principal para contar o agora, o uso de um diário para detalhar o passado para os leitores e para o próprio neto.

Aliás Patrick também faz a narrativa em primeira pessoa, compartilhando com o leitor o seu ponto de vista sobre ser órfão e lá pelas tantas ser encontrado por uma avó desconhecida que não tem nada de ar maternal.

Dentro do meu peito está acontecendo algo estranho. Uma friagem, como uma imensa montanha de gelo começa a se mexer.


Completando a narrativa temos O Blog dos Pinguins, onde Terry se comunica de forma direta com os seus seguidores, explicando fatos da rotina destas adoráveis aves marinhas, além de compartilhar muitas curiosidades sobre eles. Nos lembrando em meio ao romance da importância da nossa casa chamada Terra e de como devemos preservar o meio ambiente para o bem de todas as espécies que aqui habitam.


O que eu achei...

No começo eu não dei nada pela história, achei que Verônica era uma mulher muito chata e que a narrativa seria muito tediosa. Mas sai de baixo que lá vem cuspe.

Conforme a história foi sendo aprofundada, a escrita de Hazel Prior me envolveu e eu me vi admirando e sentindo o coração apertado pela Verônica do passado e do presente, a menina que se viu só em plena segunda guerra mundial e a senhora que guardava de certa forma a sua alma em uma caixa.

As lágrimas vêm quando a pessoa foi forte demais por tempo demais.


Ao mesmo tempo a história questiona o quanto as perdas e vivências podem afetar as nossas relações e soterrar características da nossa personalidade de diferentes maneiras. E o mais importante, o que pode quebrar todas estas barreiras?

No caso de Verônica e Patrick, avó e neto, são os pinguins. No caso dos leitores, caberá a eles após finalizar a leitura descobrir se tem algum bloco de gelo a ser quebrado para poder viver mais livremente.


Verônica e os pinguins
Away with the Penguins
Hazel Prior
Tradução: Elisa Nazarian
TAG - Gutenberg
2022 - 347 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu o mimo do mês.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sonhos em tempo de guerra


Sinopse: Em Sonhos em tempo de guerra, uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea africana registra com delicadeza um passado que ainda tem muito a dizer ao presente. Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em uma região rural do Quênia, e cresceu sob o impacto da Segunda Guerra Mundial nas colônias britânicas. No cotidiano da família formada por seu pai, as quatro esposas - a terceira delas sua mãe - e os muitos irmãos, Ngũgĩ localiza as origens do futuro narrador: histórias contadas ao redor do fogo e uma sede insaciável de aprendizado após o primeiro contato com a escola.


No mês de agosto/21 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor brasileiro Jeferson Tenório o primeiro livro do projeto autobiográfico do escritor, pensador e professor queniano Ngũgĩ wa Thiong'o chamado Sonhos em tempo de guerra. O mimo foi um jogo para formar palavras, que já foi para as mãos da minha filha - e cá entre nós, uma ótima forma de estudar a escrita das palavras.

Ngũgĩ wa Thiong'o nasceu em 1938 em um país que ainda era colônia britânica. Quinto filho de sua mãe, e um dos vinte quatro de seu pai, vivia circulando entre as cinco cabanas posicionadas em forma de círculo, onde cada uma pertencia a uma das esposas e a principal era do seu pai.


Minha mãe era muito boa em fazer aparecer uma refeição por dia, mas quando se tem fome, é melhor encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para afastar a mente das lembranças de comida.


A convivência familiar era de muitas histórias e contrastes de personalidade. O pai começa como um homem rico para a comunidade e reservado, de pouco contato com seus numerosos filhos, mas por ações dos colonizadores vê suas conquistas escaparem por seus dedos, mudando sua forma de lidar com os familiares ao se entregar a bebida. Já as mulheres sempre foram muito agitadas, fazendo rodas para compartilhar lendas e fatos passados, cozinhando e tratando com afeto todas as crianças que circulam pelo local, vivendo em uma harmonia talvez inesperada para tantas esposas.

Sua mãe sempre incentivou os estudos, algo que os seus irmãos mais velhos não deram sequência. Uma das melhores frases da história vem dela, que sempre perguntava ao filho quando este lhe falava dos seus aprendizados, provas e conquistas: "Foi o melhor que você conseguiu fazer?", mas não em tom de cobrança, e sim se ele havia se esforçado para aquilo. O resultado é um menino que adora aprender e sempre está buscando o seu melhor nas situações mais adversas. 


As esposas de meu pai, ou nossas mães, como as chamávamos, revezavam-se para levar comida à sua cabana.


É ela também a responsável por uma mudança na vida do garoto, quando após um episódio de violência doméstica decide retornar para a casa do próprio pai. O avô materno, ao qual o garoto herdou o nome,  acaba se tornando uma referência masculina, fazendo com que Ngũgĩ sinta muito orgulho de virar seu escriba particular e ter permissão para compartilhar de sua mesa.

E é acompanhando o crescimento do menino Ngũgĩ que o leitor entender como os quenianos viraram soldados para defender a Inglaterra durante a segunda mundial, os riscos que eles corriam por fazer fronteira com territórios pertencentes a Mussolini e as diferenças na distribuição de recompensa quando tudo terminou.


Todos, os professores, os estudantes, parecem esplêndidos em sua estranheza.


Assim como conhecer a Revolta dos Mau Mau, conflito presente em grande parte da sua adolescência, durante os anos de 1952 e 1960 que lutava pela independência do Quênia, citando personagens históricas do país como Jomo Kenyatta, que foi referência do grupo e o primeiro presidente do Quênia.

Neste ponto temos o irmão mais velho por parte de mãe largando a carpintaria para se juntar a luta pela independência, o Bom Wallace é uma referência forte ao menino Ngũgĩ, pois ele também frequentou a escola e apoia o garoto no aprendizado, demonstrando sentir orgulho ao dar importância a todas as etapas e conquistas do irmão mais novo.


A crença em si mesmo é mais importante do que intermináveis temores acerca do que os outros pensam de você.


Narrado em primeira pessoa, o escritor Ngũgĩ wa Thiong'o compartilha em Sonhos em tempo de guerra as primeiras memórias da infância até a sua entrada no ensino médio. Entre pequenos acontecimentos familiares, que vão de brincadeiras, comidas, o primeiro uniforme e os homens que admirava, passando por momentos históricos do período.

Para o leitor pode ser bastante perturbador ver a necessidade que os colonizadores tinham de se adonar dos bens das famílias, em uma enorme falta de respeito com os povos que ali estavam quando eles chegaram. Ao mesmo tempo se entende há não compreensão que estes novos habitantes sentiram em relação à cultura, como o costume da circuncisão, algo que ainda hoje é muito discutido, principalmente a feminina. Embora isso não justifique a tentativa de apagar toda a história de vários povos, como ocorreu em quase todos os países colonizados.


Uma conversão bem-sucedida era medida a partir de quão rápida, profunda e completamente alguém se despojava de sua cultura e adotava novas práticas e valores.


Também me chamaram a atenção a busca por manter as próprias tradições por meio da escola, onde o autor frequenta tanto a estrutura organizada pelos missionários quanto as criadas pelos quenianos que completaram os seus estudos. Contando os leitores as diferenças encontradas nas duas formas de ensino, que vai das disciplinas - com ênfase especial para o ensino da língua inglesa-  até o aspecto comportamental que inclui as atividades extracurriculares. 

Eu gostei do livro, mas confesso que apesar de eu adorar livros históricos, confesso que a forma como ela foi abordada na narrativa pesou um pouco na fluidez da leitura. Não, não estou dizendo que é ruim, mas existe nitidamente uma pausa para explicar o contexto histórico, dando uma sensação de explicação de sala de aula - como ele é professor, talvez isso explique o estilo -, quebrando muitas vezes o fluxo narrativo nesta troca de visão pessoal, contexto histórico e retorno as memórias.


Talvez sejam os mitos, tanto quanto os fatos, que mantenham os sonhos vivos mesmo em tempo de guerra.


E apesar do livro ser o primeiro de uma série autobiográfica o seu final não exige obrigatoriamente a leitura em sequência do próximo livro, já que ele fecha de forma redonda. Ficando a opção de procurar os demais para quem quer saber como Ngũgĩ wa Thiong'o e sua família, em paralelo com o próprio Quênia, seguiram durante os seus próximos anos e conquistaram a sua independência, e no que este marco influenciou a vida deles.

Ficando a dica de leitura para quem gosta de biografias, de fatos históricos ou anda na busca de livros que permitam conhecer melhor o continente africano.


Sonhos em tempo de Guerra - Memórias de Infância
Dreams in a time of war: A childhood memoir
Ngũgĩ wa Thiong'o
Tradução: Fábio Bonillo e Elton Mesquita
TAG - Biblioteca Azul
2010 - 248 páginas

Ficou interessado em assinar a TAG? Indique o meu código de amigo ANDJ8CMF e ganhe 30% de desconto na primeira caixinha e eu ganho o mimo do mês.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

as últimas testemunhas



Sinopse: Zina Kossiak tinha oito anos quando a Segunda Guerra Mundial assolou a antiga União Soviética, e foi uma das muitas entrevistadas pela jornalista biolorrussa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do prêmio Nobel de literatura de 2015. Ela conversou com vários sobreviventes que eram crianças durante a guerra e presenciaram horrores que nenhum ser humano jamais deveria experimentar. Os relatos francos desses indivíduos, adultos à época das entrevistas, mas nunca antes ouvidos, são a matéria dolorosa e potente deste livro colossal.


"Não gosto de lembrar...Não gosto. Em suma: não gosto..."

O livro de Svetlana Aleksiévitch foi o mais difícil de resenhar até hoje. As palavras viraram vozes e ainda soam em meus ouvidos. Sua tristeza, dolorosamente real, parece ter passado das páginas para os meus dedos e entrado na corrente sanguínea, deixando o coração apertado mesmo após virar a última página. 

"Eu já tenho 51 anos, tenho os meus filhos. Mesmo assim, eu quero a mamãe..."

As últimas testemunhas são entrevistas com sobreviventes da segunda guerra mundial feitas pela escritora e jornalista nascida em Stanislav, que ganhou o Nobel de literatura em 2015. Assim como ela, eles viviam na antiga União Soviética, com a diferença que eles viram os alemães invadirem suas cidades, suas casas e suas almas.

"Uma vez, na rua, encontrei um homem que parecia o papai. Passei muito tempo andando atrás dele. É que eu não vi o papai morto..."

O que estes relatos possuem de diferentes? O fato de durante este período eles serem crianças. São lembranças de sua não infância. De um dia acordar cheio de expectativa e de repente ver a brincadeira guerra se tornar real. Ou de quem nasceu no pós-guerra, como Svetlana, e mesmo assim teve a vida marcada por fatos não cicatrizados por seus sobreviventes.

"Tenho medo da felicidade. Sempre acho que logo mais ela vai acabar."

Para tornar a presença da autora invisível, as respostas se tornam relatos de tamanhos variáveis, conforme a dor de cada um permite lembrar e falar. Remexer no passado para estes adultos que tiveram uma etapa da vida pulada é mais do que difícil, muitos jamais assimilaram as perdas. As idades são variadas, assim como as experiências durante e após o período da segunda grande guerra. Podendo ser um fato isolado, ou do primeiro ao último dia de um período que deve ter parecido eterno.

"Não entendo o que são pessoas desconhecidas, porque eu e meu irmão crescemos entre pessoas desconhecidas."

Em comum a perda de um estilo de vida, o amadurecimento precoce, a fome, a proximidade da morte. O tipo de realidade difícil de imaginar para quem está na segurança de sua casa. 

"Boris de fato era nosso, porque haviam matado a mãe e o pai dele, e queriam jogá-lo no gueto."

Muitos relatos são semelhantes, pois as cidades de origem são as mesmas, parecendo que apenas os nomes mudaram. O que acentua a verdade do que é descrito, não há distorções, apenas páginas e páginas gritando que sim, todo aquele horror é real.

"Quando eu conto, mordo a mão até sangrar para não chorar..."

Para quem lê fica a falta de explicação para soldados perderem a sua humanidade e agirem como monstros. O uso da violência de forma gratuita, desproporcional e totalmente desnecessária. Seguido de um choque por saber que muitas pessoas ainda vivem isso, em guerras que damos pouca atenção por estarem distante de nós.

"Como morreu, se hoje não atiraram?"

E quando os soldados não os encontravam, uma outra guerra, esta invisível, aparecia para atormentar. Eram as doenças que se aproveitavam da fragilidade dos pequenos que passavam fome, frio e carência. 

"Vi o que não deve ser visto... O que o ser humano não deve ser."

Os que tiveram sorte ainda conseguiam ficar com a sua família, mas muitos ficaram sem rumo, sendo amparados por desconhecidos ou cedo virando voluntários de uma guerra que nem eles entendiam.

"Como sobrevivi se morri cem vezes?"

Complementando os relatos estão as fotos. Crianças em campos de concentração. Crianças sentadas em destroços. Deixando ainda mais nítido o recado de quem são as maiores vítimas de toda essa loucura.

"Na aldeia não sobrou nenhuma criança. Não havia com quem brincar na rua..."

Um livro para nos tirar dos eixos, que deveria ser leitura obrigatória em todos os exércitos, e nos faz pensar no que a falta de compaixão pode nos transformar.

"No inverno às vezes deslizávamos sobre os cadáveres alemães congelados, eles ainda ficaram muito tempo nos arredores da cidade."

As frases em itálico fazem parte de alguns dos relatos descritos no livro, raramente eu faço isso, mas desta vez se fez necessário para reforçar a força destas histórias.

As últimas testemunhas
crianças na segunda guerra mundial
Svetlana Aleksiévitch
Tradução: Cecília Rosas
TAG – Companhia das Letras
2013 – 317 páginas

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cidade de Ladrões


Roteirista de heróis mutantes é convidado a escrever um ensaio autobiográfico. Por não achar a própria vida interessante, resolve insistir para que os seus avós lhe descrevam como foi o período em que viveram em Leningrado, em pleno período do cerco da segunda guerra mundial. E o avô, sempre tão quieto, aceita e resolve narrar os acontecimentos que marcaram sua vida naquele período.

Neste momento o leitor irá acompanhar Lev Beniov e todas as suas aventuras após ser pego retirando objetos de um paraquedista alemão. Para salvar sua vida, ele e Kolya, um soldado acusado de ser desertor, precisam encontrar uma dúzia de ovos para o bolo de casamento da filha de um oficial.

Lev, judeu e filho de um escritor assassinado por ser considerado contra o sistema, acaba assistindo todos os horrores da guerra, escapando, junto com Kolya, de canibais e assassinos, encontrando meninas prostituídas, prédios destruídos e muitas vezes a dor da perda.

Mas Lev também encontra a coragem, acompanha guerrilheiros e se depara com o que considera o amor da sua vida.

Cidade de Ladrões conta uma semana da vida de Lev e Kolya, narrado em primeira pessoa por Lev. Dois estranhos que se tornam grandes amigos, e que fazem o leitor sorrir e ficar triste.

Um livro que mistura leveza com cenas pesadas. Uma leitura rápida, que me fez caminhar na neve, sentir vontade de ler O sabujo no pátio e falar poucas e boas para um certo oficial russo.

* Cidade de Ladrões - David Benioff - Tradução: Álvaro Hattnher - Alfaguara - 290 páginas