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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

O chamado de Cthulhu e outros contos



Sinopse: O Chamado de Cthulhu é um conto do norte-americano H.P. Lovecraft que logo se tornou um clássico do terror. Foi escrito em 1926 e publicado pela primeira vez na revista estadunidense Weird Tales em fevereiro de 1928. Cthulhu é um deus que nas primeiras páginas do conto aparece como um ídolo de argila quase indescritível, possuindo um culto multimilenar dedicado a trazê-lo de volta, o seu retorno desencadearia o fim da humanidade. Neste livro, encontramos esse clássico e mais nove contos consagrados do autor na literatura de terror.

Há alguns anos atrás me foi indicado ler o autor H.P Lovecraft com a justificativa que ele seria um dos mestres dos livros de terror e mistério. Para tirar a prova, aproveitei um cupom que ganhei para usar em uma livraria online e comprei O chamado de Cthulhu e outros contos, para ter uma amostra do trabalho do autor.



No livro encontrei dez contos, aos quais irei fazer um breve resumo abaixo:

Dagon: Um marinho viciado em morfina compartilha a sua história após sobreviver a um naufrágio e chegar a um lugar desconhecido. A fragilidade do personagem coloca um ponto de interrogação se tudo é real ou alucinações de alguém que está perdendo a razão.


Estou escrevendo isto sob considerável esforço mental, uma vez que hoje à noite não existirei mais.


Nyarlathotep: parte dos mitos que constroem Cthulhu, o conto apresenta uma criatura que sai do Egito e vaga pela Terra. Um ser ambíguo e aterrorizante, capaz de causar a loucura e o caos ao poder assumir diversas formas e manipular a mente de quem encontra pelo caminho.

A cidade sem nome: um explorador se desloca para uma cidade cercada de lendas em um dos desertos da Arábia. Com uma atmosfera que se altera conforme o horário, ele encontra uma arquitetura macabra, símbolos estranhos e templos subterrâneos que o convidam a esquecer todos os cuidados.

Quando cheguei à cidade sem nome, vi que era um lugar amaldiçoado.


Azathoth: um conto curto que conta a história de um homem que viaja atrás dos sonhos perdidos.

O cão: dois amigos compartilham um hobby atípico: violar tumbas antigas em busca de artefatos. Em uma de suas expedições eles encontram uma escultura de jade em forma de um cão com asas. Ao carregar o objeto com eles, eventos misteriosos e aterrorizantes passam a assombra-los.

Não se trata de um sonho - nem mesmo, receio, loucura -, pois já me aconteceu muita coisa para eu ter essas dúvidas apaziguadoras.


O Festival: convocado por familiares para participar de um antigo festival, o personagem/narrador retorna a sua cidade natal. Mas o que deveria ser um retorno às origens acaba se tornando uma experiência bem diferente da imaginada.

O Chamado de Cthulhu: após a morte de um tio-avô o professor Francis Wayland Thurston se depara com a história de um estranho ídolo de argila, que teria relação com um antigo culto dedicado a uma criatura monstruosa que teria vindo das estrelas: Cthulhu. Conforme se aprofunda nas investigações, ele descobre não só uma conexão psíquica entre algumas pessoas e a entidade, como que o retorno de tal criatura significaria o fim da humanidade.

A coisa mais gratificante do mundo, creio, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todos os seus conteúdos.


A Cor Vinda do Espaço: um meteoro cai em uma fazenda localizada a oeste da cidade de Arkham e uma estranha cor começa a surgir no local do impacto. Sua queda não gera nenhum dano momentâneo, mas com a passagem dos dias uma terrível transformação ocorre na localidade conforme a estranha coloração passa a corroer tudo o que toca.

História do Necronomicon: pequeno conto que conta a origem do livro fictício citado em diversos contos de H.P. Lovecraft, onde o autor Abdul Alhazred, conhecido como "o Árabe Louco" teria descrito uma série de feitiços e rituais para invocar entidades antigas e poderosas, como Cthulhu.

São figuras tão caladas e furtivas que ele se sente de certa forma confrontado com coisas proibidas, com as quais seria melhor não ter nenhuma relação.


O Horror de Dunwich: Dunwich é uma pequena cidade de Massachusetts onde a estranha família Whateley, que combina cultos antigos e casamento endogâmicos, mora. Mas todas as atenções se voltam para eles quando nasce Wilbur Whateley, um menino que cresce em uma velocidade espantosa e apresenta características que lembram animais e conforme cresce cria uma obsessão por livros antigos, em particular o Necronomicon.


A escrita de H.P. Lovecraft

O escritor norte-americano Howard Phillips Lovecraft, popularmente conhecido como H.P. Lovecraft, é considerado como o autor que revolucionou no século XX o gênero de terror, principalmente no que denominamos terror psicológico e cósmico.

Além da psicologia, o escritor que teve uma infância marcada pela solidão, mistura ficção científica, fantasia em histórias obscuras que podem perturbar os leitores nesta mescla de insanidade e criaturas que não se sabe se vem do cosmo ou de universos paralelos.

Não lembro com precisão quando começou, mas já faz meses. A tensão geral estava horrível.


E foi isso que gerou o Mito de Cthulhu, onde vários contos compartilham o terror cósmico dos impactos do despertar de uma criatura antiga e poderosa que afetaria a Terra como um todo. Não à toa, existe mais de um livro de contos do autor publicado com o mesmo título: O chamado de Cthulhu e outros contos

Em O chamado de Cthulhu e outros contos que eu li existe aquele misto de terror, mistério e dúvida. Ao utilizar a narrativa em primeira pessoa com personagens que ou não confiáveis ou se colocam em situações que podem alterar a sua percepção, o autor mexe com o sentimento de ética e empatia do leitor, pois é imaginação ou eles são realmente vítimas de algo que chamaríamos de sobrenatural?

Sobre o nome e a residência desse homem pouco se escreveu, pois serviam apenas para o mundo da vigília, embora se diga que eram ambos obscuros.


Ao mesmo tempo ele nos carrega para civilizações perdidas, onde o antigo e o avanço tecnológico se misturam, mas habitadas por forças malévolas, ligadas aos muitos mistérios que ainda hoje tentamos desvendar.

Isso é acentuado pelo conjunto de contos que forma os mitos de Cthulhu, onde entidades cósmicas são capazes de causarem horrores que a humanidade não possui preparo e muito menos compressão para enfrentar.


O que eu achei de O chamado de Cthulhu e outros contos

A sensação que eu tive lendo este livro de contos era de estar subindo uma montanha, a cada história o terror aumentava, e não raro, também o número de páginas para imergir em um mundo onde os horrores estão completamente conectados por um livro fictício e por uma criatura.

Várias vezes me peguei lembrando da série Alienígenas do passado, onde cidades antigas e cheias de lendas são mostradas e suas construções questionadas sobre se realmente usaram mão de obra humana ou se seres do espaço o construíram.

Parecia haver ali uma umidade indefinida e opressiva, e me espantei com o fato de o fogo não estar aceso.


Mas nos contos de H.P. Lovecraft eles não constroem nada, e não estão vindo do espaço em uma espaçonave. O mais perigoso está dormindo em águas profundas, e os demais parecem vir atender chamados de rituais ou através de portais escondidos em várias partes da Terra.

Motivo pelo qual não raro é fácil duvidar da história do narrador, pois em algumas situações enfrentadas por eles não seria difícil confundir com alucinações ou pesadelos. 

Não é um lugar bom para a imaginação e não traz sonhos repousantes à noite.


Em outros casos está mais escancarado, embora não haja uma comprovação total da lenda, existem fatos para deixar as orelhas em pé e os pelos dos braços arrepiados.

O que tornou o universo de H.P. Lovecraft aprovado por mim, uma fã do gênero, que só agora conheci o mestre e deixo a dica para quem também curte este misto de terror, psicologia e mistério.


O chamado de Cthulhu e outros contos
H.P. Lovecraft
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Editora Nova Fronteira
2023 - 200 páginas
Contos publicados originalmente no final dos anos de 1800

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Contos de Horror da América Latina



Sinopse: coletânea de clássicos do horror de autores da América Latina organizados por Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner que foi enviada aos sócios da TAG no mês de outubro/2023.

Na apresentação do livro com dez contos de autores consagrados e bem conhecidos pelos fãs do gênero, os que chegam espiando pela fechadura são apresentados as diversas qualificações que este realismo latino américa costuma ser apresentado ao grande público: mágico, fantástico e maravilhoso.

Mas não o maravilhoso de belo, com cenas românticas, laços afetuosos, frases motivacionais para colar com o post it. Maravilhoso em seu horror mais humano, pois não estamos falando de vampiros, lobisomens ou seres geneticamente modificados. Mas do que há de mais podre dentro de um ser humano. O que pode tornar a cara mais angelical, o pior monstro encontrado.

Como o sol, o calor e a calma ambiente, também o pai abre seu coração à natureza


Quem abre a coletânea é o escritor uruguaio Horácio Quiroga com O Filho, onde em um dia quente uma criança sai para caçar e não retorna na hora combinada com o seu pai.

A escritora carioca Júlia Lopes de Almeida nos apresenta Os porcos, onde o pai ao saber que a filha estava grávida lhe dá uma surra e promete dar seu neto de alimento aos porcos.

O caso não era novo, nem a espantou, e que ele havia de cumprir a promessa, sabia-o bem.


O também carioca Lima Barreto vem com O cemitério, e uma sequência de pensamentos de um narrador que caminha pelo local.

O argentino Leopoldo Lugones nos conta sobre O homem morto, onde um homem circula por um vilarejo sendo denominado pela população como louco por um único motivo: ele acredita estar morto.

Chegara havia vários meses, sem querer informar sua procedência, e pedindo encarecida e desesperadamente que o considerassem falecido.


Já o maranhense Humberto de Campos narra O juramento feito por um senhor há trinta anos atrás ao se desiludir de amor.

A argentina Juana Manuela Gorriti com o seu Ervas e alfinetes coloca em discussão as crenças em superstições, mais especificamente as maldições, versus a ciência, após a experiência vivenciada por um médico.

Todos desejavam admirar, ou mesmo provar, os efeitos desse poder misterioso, do qual apenas tinham ouvido falar, e que preocupava os ânimos com um sentimento que misturava curiosidade e terror.


E como os autores cariocas dominam o livro de contos, quem segue é João do Rio contando uma história de carnaval em O bebê de tarlatana rosa.

Subindo a América temos o autor mexicano José Juan Tablada e o seu De além-túmulo sobre um encontro há muito esperado na madrugada.

Ao longo das ruas, úmido e frio, arrastava-se um vento de inverno que açoitava o vidro dos lampiões e fazia bruxulear os acendedores de gás.


E como não poderia faltar um dos maiores nomes da literatura brasileira, Machado de Assis vem com A causa secreta e a relação de três personagens cujos boatos percorreram o bairro.

Quem fecha é quem abriu este pequeno mundo de arrepios e calafrios. Sim, Horário Quiroga encerra a coletânea com A galinha degolada, conto que eu já havia lido a quinze anos atrás, e mesmo conhecendo, me provocaram um nó na garganta na releitura.


O que eu achei de Contos de Horror da América Latina

A coletânea possui dez contos curtos que abordam diferente situações dentro do cotidiano dos seus personagens, o que torna a leitura bastante diversificada, não dando ao leitor a sensação de mais do mesmo.

Dos contos que tem o toque do fantástico, passando pelos que parecem história de bêbado e as que me arrepiam só de relembrar por serem muito realizadas e nada impossíveis de acontecer no mundo real.

Em todo o seu aspecto sujo e desvalido, notava-se a absoluta falta de um mínimo cuidado materno.


Em comum todos despertam a curiosidade, o que torna o livro aquele curinga que você pode levar para qualquer lugar e por alguns minutos acessar um mundo paralelo um tanto sombrio.

No geral gostei bastante, como é normal, alguns contos eu amei e outros eu achei meio bobinhos, mas juntos eles conseguiram me dar a dose certa de terror.

Em verdade, o que se passou foi de tal natureza que para fazê-lo entender é preciso remontar à origem da situação.


Ficando a dica para quem gosta do gênero, tem curiosidade em conhecer e claro, para os ratinhos de biblioteca.


Contos de Horror da América Latina
Vários autores
Organização: Kailaine Eduarda da Rosa e Laura Viola Hübner
Tradução: Laura Jahn Scotte
TAG
2023 - 143 páginas

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A outra volta do parafuso



Sinopse: A outra volta do parafuso conta a história da jovem filha de um pároco que, iniciando-se na carreira de professora, aceita mudar-se para a propriedade de Bly, em Essex, arredores de Londres. Seu patrão é tio e tutor de duas crianças, Flora e Miles, cujos pais morreram na Índia, e deseja que a narradora (que não é nomeada) seja a governanta da casa de Bly. Ao chegar a Essex, a jovem logo percebe que duas aparições, atribuídas a antigos criados já mortos, assombram a casa. O triunfo íntimo da protagonista, mais que desvendar o mistério de Bly, consiste em vencer o silêncio imposto pela diferença de condição social entre ela e seus pequenos alunos.

No mês de Outubro/2023 eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do tradutor Caetano W. Galindo, que também fez a Apresentação do livro ao qual é realmente fã: A outra volta do parafuso do escritor americano Henry James. O mimo foi do tipo que eu adoro: uma coletânea de Contos de horror da América Latina.

Em uma véspera de Natal um grupo resolve trocar histórias ao redor da lareira. Quando Douglas resolve dizer que na noite seguinte iria compartilhar a história real escrita por uma governanta já falecida, uma mulher mais velha do que ele ao qual o encantou com sua presença e sua história.

Imagino que eu estivesse esperando, ou temendo, algo tão sombrio que o que me recebia era uma boa surpresa.


Uma moça de vinte anos cujo nome não é revelado, é contratada como governanta por um tutor, que deseja terceirizar a criação de seu casal de sobrinhos pequenos. A menina vivia em uma casa de campo na cidade de Bly, próxima a Londres - e o menino se dividia entre a escola e o lugar onde a irmã vivia.

E é para esta casa de campo que a nova governanta vai e se encanta com as crianças quase da mesma fora que se encantou com o tio. Mas a revelação da acontecimentos anteriores fazem com que ela passe a enxergar figuras misteriosas e se sentir dividida entre proteger os irmãos e achar que as crianças estão envolvidas com o mistério que os cerca.


A escrita de Henry James

O escritor norte-americano Henry James coloca o leitor dentro da mente da jovem governanta de Bly em uma narrativa em primeira pessoa. Mas já na introdução do que será contado se cria um clima de suspense, cuja manipulação psicológica irá aumentar no decorrer da leitura.

Pois a história que já gerou uma série de adaptações como Os inocentes, Os outros e a mais recente A maldição da mansão Bly, realmente mexe com a imaginação do leitor, já que a ambiguidade da narrativa abre um leque de possibilidades que podem ser interpretadas conforme as crenças de quem mergulha em suas páginas.

Se tinha me encarado de maneira tão ousada, era por sua indiscrição. A parte boa, ao fim e ao cabo, era que certamente não o veríamos mais.


O que torna A outra volta do parafuso ainda mais genial, levando em conta que a história é relativamente curta, mas com um nível de tensão e reflexão suficientes para várias discussões, que vão do abandono infantil, passando por repressão sexual, reação ao isolamento, fofocas no ambiente de trabalho, diferenças sociais, e claro, será fantasma ou será loucura?


O que eu achei de A outra volta do parafuso

Ambíguo. Já faz um tempo que eu finalizei a leitura e ainda não tenho uma certeza absoluta sobre o que realmente ocorreu no livro. Naturalmente formulei as minhas próprias teorias, mas definitivamente A outra volta do parafuso não te permite ter certezas sobre os acontecimentos.

Quando a jovem é enviada para o local isolado, em um primeiro momento ela projeta a perfeição nas crianças, a ponto de não investigar a recente expulsão do menino da escola. Logo ela cria laços com outra funcionária do local, a sra. Grose, mas como leitora, não sabia o que ela realmente dizia, concordava ou muito menos pensava.

Era uma pergunta bastante direta, mas nossas conversas não eram levianas, e a luz cinza da alvorada forçando a nossa separação conseguiu-me uma resposta.


Conforme ela enxerga os dois ex-funcionários do local, que estão mortos, surgem dúvidas de como ela sabe as características dos dois? A sra. Grose realmente confirma as descrições? Ou seriam características genéricas da época? Ficando a pergunta: estamos realmente nos deparando com fantasmas?

Mas a forma como a narrativa foi construída não me deu medo. Não achei que os momentos das aparições causassem tensão, até pela forma forte e corajosa da governanta encarar as aparições. O verdadeiro charme e suspense da leitura está nos pontos de interrogação que se espalham ao longo da trama. Não é por acaso que já foram gerados diversos filmes inspirados no livro em que cada um deu a sua própria versão.

Era o silêncio mortal de nosso longo olhar em tamanha proximidade que dava àquele horror, imenso como era, sua única nota sobrenatural.


Particularmente no que se refere a terror, o texto introdutório promete mais do que entrega. Por que o livro está mais para um suspense psicológico, onde o estilo da narrativa não permite ao leitor ter a visão dos demais personagens, enquanto a narradora tenta se vender como confiável o tempo inteiro. E o leitor fica sem saber se deve acreditar ou não. E assim temos um novo ponto de interrogação: são fantasmas ou a personagem está enlouquecendo neste lugar isolado?

Um livro para quem não deseja respostas, mas sim perguntas. Para quem não se irrita em não receber tudo pronto e gosta de criar as próprias teorias. Um livro, como disse o curador, para reler e identificar mais detalhes, para ver se as próprias conclusões se mantêm ou se alteram no decorrer do tempo.


A outra volta do parafuso
The turn of the screw
Henry James
Tradução Lígia Azevedo
TAG Experiências Literárias
2023 - 157 páginas
Publicado originalmente em 1898


terça-feira, 12 de outubro de 2021

Carrossel Sombrio e outras histórias



Sinopse: Uma odisseia sobre a complexidade da mente humana, um livro hipnótico e inquietante. Cada um dos seus treze contos - dois deles escritos em parceria com Stephen King - explora as facetas de nossos segredos mais aterrorizantes, nossas vulnerabilidades mais profundas e nossos medos mais primordiais, consolidando Joe Hill como uma das mais poderosas vozes da literatura de suspense atual.

Enviado em julho/20 para associados da TAG Inéditos, Carrossel Sombrio é um livro de contos de suspense e terror escrito por Joe Hill, nome artístico utilizado por Joseph Hillström King, que é filho do mestre do terror Stephen King.

E é justamente sobre esta filiação e a escolha de um pseudônimo que são explicadas na introdução Quem é o seu pai? onde ele conta histórias da infância, a relação familiar, as primeiras escritas, as publicações, o abrir as portas sozinho sem utilizar o nome dos pais.

Após vem os treze contos que compõe o livro, sendo dois em parceria com Stephen King, aos quais vou repassar um a um para quem ficou curioso sobre o livro, mas sem spoiler, para não estragar as surpresas de quem entrar neste carrossel.

Alta Velocidade é o conto que faz o carrossel começar a rodar, e é o primeiro da parceria Hill e King. Aqui a relação conturbada de pai e filho atinge o seu ápice após o grupo de motoqueiros que lideram serem perseguidos por um caminhão.


Sabe, só porque eu sou seu pai, não significa que preciso gostar de você.


Para quem achou a história conhecida, ela é inspirada em um dos filmes que fizeram parte da vida dos dois chamado Encurralado, e foi escrito originalmente para uma antologia que homenageava o criador da história original Richard Matheson. O que significa que temos muita correria e perseguição, tornando a leitura bem dinâmica.

O segundo conto é quem dá o título ao livro, Carrossel Sombrio leva o leitor a acompanhar um grupo de jovens com atitudes inconsequentes. Na noite em que eles estão se despedindo para iniciar o caminho da vida adulta, eventos que misturam realidade e fantasia irão afetar suas vidas para sempre. 


Os dois me levaram a fazer coisas das quais me arrependi no momento, mas que foram um prazer lembrar mais tarde.


Este é o conto em que Hill acha mais parecido com o estilo do pai, ao ponto que o sobrenome dos irmãos da história serem uma homenagem a um dos personagens do livro Campo de batalha. É o tipo de história que você fica se perguntando o que realmente está acontecendo.

Estação Wolverton me lembrou a conhecida frase do filósofo inglês Thomas Hobbes em que diz que O homem é o lobo do homem. No conto que poderia muito bem ser uma analogia ao que ocorre no mundo dos negócios, onde sempre pode aparecer um mais forte para eliminar a sua concorrência, um frio homem de negócios se vê dentro de um trem inglês lotado de lobos vestidos como humanos.


A empresa operava da seguinte maneira: eles descobriram uma cafeteria de bairro que estava indo bem e abriam uma loja do outro lado da rua.


O conto foi escrito durante uma viagem do autor pelo Reino Unido, onde percorreu o país de trem, e uma das paradas pela qual passou foi a Wolverhampton, o que gerou a brincadeira com a semelhança com a palavra Wolf, que é lobo em inglês. Eu, particularmente achei um dos contos mais fracos.

Já em Às margens prateadas do lago Champlain crianças encontram uma enorme criatura ao lado de um lago, inicialmente confundido com uma enorme pedra, o ser que parece morto vira objeto de curiosidade delas, que tentam a todo custo chamar um adulto para certificar a sua descoberta e quem sabe ajuda-las a ganhar uma recompensa.


Ela levou o caleidoscópio até o olho, contando com seus poderes especiais para penetrar na névoa e revelar onde a escuna afundara.


Em uma história inspirada em uma viagem de infância, onde o autor viajou para a Escócia na expectativa de ver o monstro do lago Ness, ele tem a inocência do primeiro amor misturada com um momento de falta de atenção materna. O conjunto me deu particularmente uma agonia, pois como estamos falando de contos de terror, se cria a tensão do que exatamente irá acontecer.

Claramente inspirado em várias fantasias infantis, Fauno nos apresenta um grupo de caçadores atrás de um leão. Quando um milionário salva o filho do responsável pelo grupo da morte certa, é convidado a participar de uma expedição muito especial, onde passando por uma porta específica, poderá matar criaturas únicas.


O leão estava demorando para encontrar o cheiro, mas ele já era idoso, um avô.


Em uma mistura de Alice no País das Maravilhas e Nárnia, uma porta em uma casa antiga de tempos em tempos revela um lugar mágico, com fadas, elfos e outras criaturas que pareciam existir somente no imaginário. Só que quem encontrou este mundo aqui não era uma criança, mas um homem que resolve cobrar 250 mil dólares por pessoa que queira participar da expedição.

O conto que eu mais gostei foi Devoluções Atrasadas, e imagino que não tenha um leitor que não se identifique com ela, já que se trata da última leitura após a morte. Aqui uma biblioteca móvel retorna no tempo e seu atendente recebe a devolução de livros que nunca haviam sido entregues devido a morte de seus portadores, e acaba dando a dica de uma última leitura para eles.


Ambos temiam deixar o filho único com o fardo de cuidar dos pais por anos a fio e decidiram agir antes que o poder de escolha lhes fosse tirado.


Além de achar muito bonito, fiquei imaginando que se ela existisse, seria o meu paraíso, pois já me peguei pensando em como a vida é curta para ler tudo o que desejo.

Em Tudo que me importa é você temos uma menina mimada que no dia que completa dezesseis anos está triste por ter que cancelar todos os seus planos devido ao desemprego recente de seu pai. Seu dia muda quando precisando de ajuda para chegar em casa ela resolve usar um robô identificado como um amigo movido a fichas, que por uma hora só se importa com a pessoa que inseriu o valor.


Acho que a maior parte dos empregos talvez seja isso: ser uma vítima de aluguel.


Em um futuro bem mais tecnológico, onde os bens de consumo mudaram, mas não o perfil de quem os ostenta, o conto é muito mais uma mistura de filosofia e drama sem que isso o desqualifique para participar da trama. Embora seja assustador pensar que por mais que a tecnologia avance, o ser humano não melhora em nada nem na ficção.

O que acontece na cabeça de uma pessoa após ter participado de uma guerra? É o tema abordado em Impressão Digital, que nos apresenta Mal, dispensada a oito meses de sua missão no Iraque, ela convive com alguns arrependimentos e se sente ameaçada após receber uma impressão digital pelo correio.


Continuou indo em frente até ficar sem fôlego e o céu parecer girar, como se fosse o teto de um carrossel.


Ao abordar a transformação de soldados em torturadores durante a guerra e o impacto que isso tem principalmente entre os mais jovens, o conto aborda um diferente tipo de terror, os dos danos que situações extremas causam e a dificuldade de viver em normalidade após ações que nada tem de humanas.

Em O diabo na escada a primeira coisa que chama a atenção é a forma: o texto está distribuído de forma que simulam a imagem de uma escada, com degraus ora mais largos, ora mais próximos, permitindo o leitor caminhar junto com o narrador por Positano, na bela Itália.

No conto há uma lenda local, onde se você seguir descendo por uma escadaria e abrir o portão que separa o mundo dos humanos, irá encontrar o inferno.


Por anos meu pai teve um burro para carregar as pedras. Depois que o bicho caiu morto, ele teve a mim, seu rebento.


Um jovem sonha em uma vida melhor e é apaixonado pela prima. E em um ato de ciúmes ele acaba cruzando esta linha tão assustadora para o seu pai. A forma da escrita e o ambiente te instigam a ler a história rapidamente, lembrando aquelas histórias antigas contadas e recontadas tantas vezes.

Sabe aquelas histórias malucas que poderiam ser muito bem reais? Eis ela em Twittando no circo dos mortos. Uma família em férias viajando pelas estradas secundárias dos Estados Unidos e sua filha adolescente entediada narrando tudo pela sua conta do twitter.


Quer saber o que está acontecendo? Estou gritando por dentro.


É o típico terror usando assuntos da moda e do cotidiano, sendo ao mesmo tempo muito louco e interessante, porque é muito fácil imaginar a situação bizarra no mundo real. Ah, e poderia facilmente ter uma versão Stories do Instagram.

Em Mães nos deparamos com uma mãe tentando fugir de uma comunidade com o seu filho, com a morte materna, o menino cultiva a saudade cercado de pessoas com pensamentos distorcidos. Com uma sequência de acontecimentos que vão envolvendo o leitor e deixando em dúvida o limite da realidade e da fantasia.


Cerais com açúcar refinado e conservantes não são permitidos na casa dos McCourt - os conservantes nos cereais açucarados são famosos por causar autismo e homossexualidade.


Além do conto ser muito bom, ele se torna apavorante por ver muitas pessoas nos dias de hoje terem ideias distorcidas como os personagens da história. É louco ver como as pessoas aderem aos conceitos mais sem noção, prejudicando a si e aos outros.

Um casal de irmãos gêmeos percorre as estradas secundárias dos Estados Unidos em Campo do Medo. Ao passar por um grande campo escutam um grito de criança pedindo socorro e param para ajudar, sem saber que estão caindo em uma armadilha.

Este conto também foi escrito em parceria com Stephen King e virou um longa-metragem adaptado na Netflix - pelo trailer já vi que a história não é exatamente igual, mas que a princípio conserva a base.


Ele queria silêncio em vez de ouvir o rádio, então pode-se dizer que a culpa foi dele. Ela queria ar fresco em vez do ar-condicionado, então pode-se dizer que a culpa foi dela.


Também gostei muito da tensão da história, dos pequenos detalhes que passam despercebidos pelos personagens, e conclui que de fato se um dia viajar de carro pelas estradas americanas, vou procurar ficar apenas nas estradas principais.

Você está liberado é o conto que fecha este carrossel. Aqui a narrativa é distribuída em diferentes visões para contar toda a agonia dos passageiros e tripulantes em um voo viajando pelo espaço aéreo americano após receberem a notícia de um ataque a uma base da força aérea.


Recebi uma mensagem da nossa equipe de solo e, depois de refletir sobre ela, parece adequado compartilhá-la com vocês.


Entre fragmentos de personalidades misturadas a detalhes do seu passado, os diferentes passageiros conseguem passar toda a tensão e medo quando aos poucos as notícias vão aparecendo e fica claro para todos a situação que estão enfrentando. É uma história que arrepia, pois não é algo inverossímil, sendo muito fácil se sentar em uma das poltronas e sentir a aflição que atinge os personagens. 

De bônus o autor nos conta no final todas as suas inspirações para cada história, que podem ser outro escritor ou uma viagem de férias.

Eu particularmente gostei muito da mistura de estilos que Joe Hill optou para compor a sua coletânea, começando pela narrativa ao qual cada conto tem a sua, não parecendo mais do mesmo, até as histórias em si, que vão do terror raiz ao psicológico.

Aliás, sempre acreditei que a base de um bom terror está no psicológico de seus personagens e no que ele faz no do leitor. Algo que os contos de Carrossel Sombrio atendem muito bem.

Naturalmente se você não for fã do gênero pode não curtir, aliás, este é um dos livros mais massacrados entre os associados da TAG Inéditos. Mas para quem gosta, irá comprovar o ditado que a fruta nunca cai longe do pé.

Então neste mês de Halloween fica a minha dica de diversão para quem curte um bom terror, aquele misto de suspense e tensão e aquela eterna dúvida onde a linha tênue sobre o que é realidade e o que é imaginação dos personagens. 


Carrossel Sombrio e Outras Histórias
Full Throttle
Joe Hill
Tradução: André Gordirro
TAG - Harper Collins
2019 - 480 páginas

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terça-feira, 13 de julho de 2021

Nossa Parte de Noite


Sinopse: Gaspar é o filho que o pai tenta, em uma cruzada solitária, resguardar do destino que lhe é designado. A mãe do garoto morreu em circunstâncias obscuras, em um suposto acidente. Ele, assim como o pai, recebeu o chamado para ser médium em uma sociedade secreta, a Ordem, que se relaciona com a Escuridão em busca de vida eterna, sacrificando o presente em rituais atrozes. Para tais rituais, é imprescindível a presença de um médium, mas o destino desses detentores de poderes especiais é cruel, já que o desgaste físico e mental é rápido e implacável. As origens da Ordem, comandada pela família da mãe de Gaspar, remontam a séculos, quando o conhecimento da Escuridão foi trazido da África para a Inglaterra e dali se estendeu à Argentina.

No mês de maio/21 recebi da minha assinatura da intrínsecos o livro de realismo fantástico Nossa Parte de Noite da escritora da escritora argentina Mariana Enriquez, título que ganhou o Premio Herralde, premiação importantíssima para a literatura em língua espanhola.

Juan é um homem bonito, sua aparência que atrai olhares esconde a sua fragilidade cardíaca e o seu dom em ser o oráculo da escuridão. O dom, que parece mais uma maldição, o fez ser afastado da sua família de origem ainda criança, quando o cirurgião cardíaco Dr. Bradford, que pertence a uma ordem muito antiga, o identificou como médium, induzindo aos seus pais entregar o então menino Juan para ele.


Outros meninos teriam também esse sono tão superficial, tão alerta?


Ao conviver com a rica família dos Bradford, o menino é testado e usado para atender aos desejos dos superiores da ordem. É quando conhece Rosário, a filha de uma das mulheres mais influentes do grupo, os dois crescem juntos e acabam formando uma família.

Ao identificar cedo que o filho apresenta o mesmo potencial que o pai, tanto Juan quanto Rosário decidem que ele precisa ser protegido da família materna, buscando apoio entre pessoas de confiança. Desejo que é fortalecido após o estranho acidente que custou a vida de Rosário, espírito que Juan busca incansavelmente e nunca encontra.


O que se escondia ao fim do corredor estava assustado e não era perigoso, mas era antigo e, como tudo o que é muito velho, era voraz, infeliz e invejoso.


E nesta queda de braço entre o médium e os poderosos, o leitor é levado a acompanhar os acontecimentos políticos e sociais na Argentina durante os anos de 1960 a 1997, onde os atos humanos são tão ou até mais assustadores que os sobrenaturais apresentados no livro.

Mariana Enriquez divide o seu mundo de escuridão em seis partes, em um vai e vem entre o passado, onde o leitor começa a encontrar as peças que vão fechar o quebra cabeça. Utilizando a narrativa em terceira pessoa, a história gira em torno de Juan, Gaspar e Rosário, trazendo não só visões adultas, mas também infantis e do final da adolescência. Ainda há dois capítulos que acompanham o olhar de outros personagens, para nos fazer compreender melhor a crença na escuridão e o risco de se deparar com ela sem os devidos cuidados.


A demonologia cristã podia funcionar em outros espaços, mas nunca com tanta eficácia como nos lugares consagrados.


Identificado como terror, Nossa Parte de Noite muitas vezes me pareceu ser uma espécie de metáfora para os anos de ditadura na Argentina, com pessoas de todas as idades sendo tiradas de suas famílias, tendo os seus corpos torturados e por fim largados em qualquer lugar. Somado a isso, há o outro tipo de poder, o das diferenças sociais, sendo bem forte a linha que separa os que dependem e os que possuem o poder.

Pois sim, o livro é uma grande crítica as questões sociais e políticas. A Ordem da Escuridão é só uma base para ilustrar as diferenças de classes, os desaparecidos, o que se pode fazer pelo poder, em como atender a sua vaidade custe o que custar, principalmente quando se acredita que não é a sua vida que está em risco.


Depois viu como os Iniciados não conseguiam deixar de levantar os braços e tocar a Escuridão, que comia dedos, mãos.


Ele também vai abordar as questões sexuais, seja pelo fato de utilizar o sexo como forma de canalizar energia para rituais, até os tempos atuais onde escancara os preconceitos, a escolha de parceiros até a chegada da Aids, doença que ainda era sentença de morte nos anos 90. Aqui vi algumas semelhanças nos caminhos escolhidos entre o personagem Pablo e o César do livro Gostaria que você estivesse aqui, mostrando que a realidade no país vizinho não era diferente da nossa.

O livro também é uma espécie de roadtrip, visto que as viagens pelas estradas argentinas, as caminhadas pelas pequenas e grandes cidades, e até mesmo a passagem de parte dos personagens por Londres, nos leva mentalmente sair das páginas e se sentir realmente vendo o que é narrado.


Os crimes da ditadura eram muito úteis para a Ordem, forneciam corpos, álibis e correntes de dor e medo, emoções que eram úteis para manipular.


Eu adoro o estilo realismo fantástico, e sim, devorei o livro muito mais rápido do que imaginei. Pois ele me instigava a confirmar teorias, ao mesmo tempo que se desejava entender que fim aquela queda de braço teria. 

Na história ninguém é 100% bom, todos, sem exceção, possuem um lado sombrio. Motivo pelo qual a ambição e o desejo de imortalidade afetam a todos. Existem os que carregam culpas e são corroídos por elas, existem os sem opção, e tem os que amam tudo o que está ocorrendo, em uma troca constante de quem manipula quem. 


Andava com as mãos esticadas e, se percebia que estavam muito quietos, os tateava para confirmar qual deles estava vivo e qual tinha morrido.


O resultado disso é um livro bastante pesado, que pode levar o leitor mais sensível a temer a própria escuridão que o rodeia. Não é fácil se livrar de seus ecos mesmo após finalizar a leitura, já que a sua fantasia nem sempre é tão fora da realidade, o que torna toda a opressão e os misticismos apresentados ainda mais intenso.

Eu gostei bastante do livro, e acho que para quem curte o gênero é uma ótima opção de leitura, ao qual recomendo sem medo de ser xingada. Só não vale me culpar se depois só querer dormir de luz acessa.


Nossa Parte de Noite
Nuestra parte de noche
Mariana Enriquez
Tradução: Elisa Menezes
intrínseca
2019 - 542 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado é pago integralmente pela autora.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Vitorianas Macabras


Sinopse: Vitorianas Macabras é uma poderosa antologia que presta homenagem a todas as mulheres da Era Vitoriana que abriram novos caminhos na arte. Estas treze escritoras livres e transgressoras ecoam suas vozes ao longo das décadas e suas histórias assustadoras ressaltam  beleza do Horror em todas as suas formas.

O segundo livro lido da linha Macabra da Editora Darkside simplesmente ganhou o meu coração, e já abro o post dizendo: leia, vale muito a pena. Relembrando que o primeiro foi o Antologia Macabra, já resenhado aqui no blog.

Mais do que contos, é uma aula de história e uma amostra do talento das mulheres em contos atemporais, que causam arrepios, reflexões e até mesmo lembranças das histórias de fantasmas que ouvimos na infância.

A organização e tradução da Marcia Heloisa proporcionam um verdadeiro presente para o leitor. Primeiro porque antes de tudo ela nos faz um resumo, situando o que é considerado o período vitoriano, quem era a rainha Vitória e qual a influência desta mulher em escritas após o seu período no poder.

Com isso é possível ter um pouco mais da compreensão da época em que essas escritoras nasceram e cresceram, e como uma era de crenças e aspectos mais sombrios, onde incluímos figuras como Jack, O estripador, geraram ótimos contos de suspense e terror.

Cada conto contém uma apresentação da escritora, onde sabemos seu ano de nascimento e morte, número de livros escritos, um pouco de sua vida e uma fotografia. A seguir listo um a um, prepare-se, que são vários.


A Porta Sinistra - Charlotte Riddell

Narrado em primeira pessoa, um homem conta uma história vivida em sua juventude, quando na necessidade de conseguir dinheiro para pagar as contas de sua família, aceita o emprego de tentar manter uma porta fechada na casa de um homem milionário. 


Existem pessoas que não acreditam em fantasmas. A bem da verdade, existem pessoas que não acreditam em nada.


O Mistério do Elevador - Louisa Baldwin

Um ex-soldado do exército conta o motivo pelo qual ele e um colega abandonaram bons empregos em um hotel em Londres, após uma noite misteriosa.


Soldados são educados e eficientes e, depois dos marinheiros, são os favoritos do público.


Mortos em Mármore - Edith Nesbit

Homem conta a trágica história vivida junto com a sua esposa ao alugar um chalé em uma região que teria sido amaldiçoada, ao qual teve que pagar um preço alto por não acreditar nas lendas que lhe contaram.


Hoje em dia, exige-se uma "explicação racional" para que uma crença seja considerada possível.


A Prece - Violet Hunt

Quando uma esposa recebe a notícia de que o amor da sua vida está morto, ela se agarra a ele e reza desesperadamente pelo seu retorno. Mas ao ter o seu pedido atendido, sua vida muda completamente.


A esposa soltara um grito de gelar o sangue dos presentes e depois se atirara na cama sobre o marido morto.


O Coche Fantasma - Amelia B. Edwards

Um jovem recém-casado se perde durante a caça às perdizes, caminhando a esmo, ele conseguira a muito custo informação para retornar aos braços da esposa. Mas o frio irá atrapalhar a sua jornada para encontrar o transporte apropriado.


Tenho minha opinião formada sobre os assuntos e, podendo me fiar no testemunho dos meus próprios sentidos, prefiro ser guiado por eles.


Napoleão e o Espectro - Charlotte Brontë

Napoleão se prepara para dormir, mas antes que possa fechar os olhos, os gemidos de um espectro o alertam, fazendo ele seguir o espírito.


A ameaça não produziu mais do que uma rápida risada sarcástica seguida de um silêncio absoluto.


O Conto da Velha Ama - Elizabeth Gaskell

Uma ama que acompanha gerações da mesma família conta para as crianças os acontecimentos que ela viveu junto com a mãe dos pequenos em uma antiga mansão, quando a menina se tornou órfã.


Eu era apenas uma menina na escola do vilarejo quando, um dia, sua avó entrou e perguntou para a professora se havia alguma aluna que daria uma boa ama.


A Sombra da Morte - Mary Elizabeth Braddon

Em uma casa com fama de maldita, onde ninguém quer ficar próximo após o anoitecer, casal de empregados buscam uma órfã de outra região para trabalhar no local, acomodando a menina em um quarto que suga sua vitalidade.


E existem ou não provas, eu não sei, mas os moradores da região acreditam nisso piamente, tanto quanto creem nos evangelhos.


A Janela da Biblioteca - Margaret Oliphant

Uma adolescente passa as férias na casa da tia, quando escuta os amigos da mesma discutindo se uma janela da biblioteca que fica em frente à casa é verdadeira ou apenas uma pintura. A partir daquele momento, a janela vira uma obsessão para a jovem, que não sabe se suas visões são verdadeiras ou não.


No início, eu não fazia a menor ideia do quanto já se especulara sobre aquela janela.


A Verdade, Somente a Verdade, Nada mais do que a Verdade - Rhoda Broughton

Narrado através de troca de cartas, Elizabeth encontra a casa perfeita para a amiga Cecilia em Londres, mas não pode ficar na cidade para recebe-la. Por correspondência, descobre que a beleza esconde dor e tristeza.


Quando pus os pés na casa, achei que tinha entrado por engano em um pedaço do céu.


A Maldição da Morta - H.D. Everett

Jovem viúvo explica ao amigo dos tempos de escola os motivos de continuar seguindo as regras da sua falecida esposa dentro de casa e pelo qual não pode se casar novamente, se mantendo em uma tensa solidão.


Talvez, após tantos anos de casado, tivesse passado a depender de uma mulher que cuidasse dele.

 

Amor Dure - Vernon Lee

Narrado em ordem cronológica conhecemos um jovem historiador que ganha uma bolsa de pesquisa na Itália. Em suas pesquisas nos arquivos sobre a história da Urbania, ele se depara com Medea da Carpi, uma mulher belíssima, cujo poder remete a outras figuras poderosas como Bianca Cappello e Lucrécia Bórgia. 

Quanto mais o historiador descobre, mais obcecado por esta mulher, já morta, ele se torna, a ponto de tudo em sua vida girar em torno dela. 


A história da Urbania não é de todo desprovida de romance, embora tal romance tenha sido (como sempre) desprezado por nossos pedantes eruditos.


Onde o Fogo não se Apaga - May Sinclair

Após viver algumas decepções amorosas uma mulher vive um longo romance com um homem casado, e mesmo quando a paixão acaba, descobre que o seu inferno é aturar quem não mais suporta pela eternidade.


Agora se perguntava por que, se o mandara embora no dia anterior, deixara que voltasse.


Depois dos contos, há algumas páginas com curiosidades sobre a Londres do período vitoriano, como as lutas de cães e ratos, o uso do ópio, os hospícios, a imundície que o Rio Tâmisa já foi, as assassinas de bebês entre outros.

O que eu não gostei tanto na edição: nas primeiras páginas observa-se diferenças na impressão, algumas páginas saíram com a tinta mais escura, meio borrada, que dão a impressão as vezes de estarem desfocadas. Proposital para falar de uma rainha casada com um fantasma por quarenta anos ou um erro? Eis mais um mistério. 

Mas isso não conseguiu reduzir o quanto fiquei admirada com a edição, onde toda uma era é contada na visão feminina através de contos que deixam os pelos do braço arrepiados, além de abrir ainda mais a visão sobre a cidade de Londres, o que permite facilmente criar um roteiro bem diferente do tradicional.

Recomendo de olhos fechados, pois mesmo quem não curte o gênero, provavelmente irá se interessar por toda história, assim como a própria visão cultural do período.


Vitorianas Macabras
Várias autoras
Organização e Tradução: Marcia Heloisa
Macabra - Darkside
2020 - 384 páginas


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Antologia Macabra



Sinopse: Organizada por Hans-Åke Lilja — editor do Lilja’s Library, um dos principais sites do mundo dedicados às obras de Stephen King, no ar desde 1996 —, a coletânea reúne o medo e o horror de treze almas macabras selecionadas a dedo para exaltar o que há de mais sombrio na literatura.

Embora seja raro entre as resenhas do blog, eu adoro um terror, o que tornou esta antologia de contos que celebram um site dedicado justamente a um dos mestres do gênero um dos livros que eu queria ler logo em 2021.

São 12 contos escritos por 13 autores, um deles é escrito em parceria, e vão do psicológico ao terror clássico.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro conto é justamente do homenageado Stephen King. Em O Compressor de Ar Azul temos um escritor que aluga uma casa de uma mulher que logo chama a atenção pelo seu tamanho. 


"Estou sempre com a pena a postos", retrucou, rindo para disfarçar a pena que sentiu de si mesmo depois daquela resposta ridícula.


O conto possui algumas curiosidades, existe a história escrita em terceira pessoa, existem anotações que parecem ser do escritor, e existem intervenções do próprio Stephen King. Então não, você não vai saltar da cadeira nem ficar com medo de dormir à noite após ler, mas tem uma ideia de como funciona a criação de uma história.

O segundo conto é resultado da parceria entre Jack Ketchum e P.D. Cacek. Nomeado A Rede, conta a evolução de uma conversa em uma sala de bate-papo da internet entre Andrew e Cassandra. Não sabemos nada sobre eles, somente o que dizem um ao outro, até o clímax da possibilidade de se encontrarem pessoalmente.


E você está certo... às vezes a gente passa meses conversando com uma pessoa sem nunca saber muito bem quem - ou o que - ela é.


Confesso que achei o mais fraco dos doze contos, o tema é super atual, e serve mais como um alerta dos cuidados que devemos ter ao dividirmos informações privadas com estranhos.

O terceiro conto de Stewart O'Nan chama-se O Romance do Holocausto, um escritor que sobreviveu aos campos de concentração e criou uma ficção sobre o assunto. Chamado para ser entrevistado por Oprah, na narrativa em terceira pessoa o leitor pode acompanhar o paralelo entre o que foi real, o que é parte do romance, além dos sentimentos e comportamentos do personagem.


Está acostumado à vida tranquila que leva, enterrando os sentimentos pelo mundo em seus escritos.


Não há um terror trash no conto, aqui ele está no passado, em uma vida diferente do que poderia ter sido, e existe algo mais assombroso do que aquilo que não se viveu ou que se perdeu?

Bev Vincent traz o seu Aeliana no quarto conto. Uma criatura que assume tanto a forma humana quanto a de um ser que fica à espreita, esperando um assassino desovar corpos e assim ela se alimentar. Quando uma mudança ocorre em sua rotina, ela experimenta novos sentimentos.


Ela ama sair para a rua quando a lua está alta no céu, explorando o mundo enquanto procura alguma comida.


Aeliana é um misto de terror sutil e psicológico, cujo andamento da história desperta a curiosidade e até mesmo uma certa torcida em relação ao desfecho. 

No quinto conto temos Clive Barker e seu Pidgin & Theresa, um papagaio e uma tartaruga que são transformados em humanos após um anjo cometer um erro ao levar a alma de Raymond, seu dono, considerado naquele momento um santo.


Primeiro banhou o quarto sem graça com tamanho esplendor de luz beatífica que as testemunhas foram obrigadas a cobrir os olhos e recuar para o corredor encardido.


Enquanto os dois saem para descobrir o mundo em sua nova forma, Raymond passa por uma análise celestial cuidadosa, onde os seus pecados começam a ser revelados, expondo um segundo erro na ação. 

Eu achei a ideia do conto muito interessante, aqui o terror está no comportamento dos personagens, onde o real e o fictício são separados por uma linha tênue.

O sexto e mais dolorido de todos os contos, na minha opinião, é o Fim de Tudo de Brian Keene. Aqui temos um personagem que todos os dias acorda desejando o fim do mundo, as causas para o acontecimento mudam todas as manhãs, mas a dor que o faz desejar que tudo se acabe, não muda em nenhum momento.


Só existe um outro jeito de chegar lá, mas ainda sou covarde demais para ir em frente.


O terror aqui está no que muitos chamam de destino, ou de um infortúnio da vida, situações fatídicas que podem acabar com as motivações de alguém. 

A Dança do Cemitério de Richard Chizmar é o sétimo conto e nos coloca em outro tipo de terror. Aqui temos Elliott Fosse, um homem aparentemente comum, entrando em um cemitério após a meia-noite. Existe um túmulo especifico ao qual ele quer chegar, e aqui são compartilhadas memórias passadas, onde o terror passa pela psicopatia.


O céu estava sem estrelas, cobrindo o cemitério como uma enorme tenda de circo preta.


O oitavo conto nos leva para o clássico do terror, em Atraídos para o Fogo, Kevin Quigley leva o leitor a acompanhar a escapada de três meninos, que desobedecem aos seus pais, para irem em um parque de diversões novo em sua cidade. Ao chegar no local, um estranho os atraí, e que o era para ser diversão e competição de coragem vira uma busca pela sobrevivência.


"Chip, Bobby e Johnny, três rapazes robustos! Será que aguentam alguns sustos?"


É um dos contos mais longo, com direito a sentir o coração bater mais forte se você se deixa envolver facilmente pela leitura.

Seguindo na linha de parques, no nono conto chamado O Acompanhante de Ramsey Campbell o leitor é apresentado a Stone, um homem que em suas férias busca conhecer feiras. No momento ele está decepcionado, por não ter encontrado exatamente o que o guia dissera. Apesar de ser adulto, ele se sente atraído por brinquedos, e isso acaba fazendo com que procure uma velha feira e se interessar por seu trem fantasma.


Por um momento, Stone teve a impressão de estar trancado num quarto empoeirado onde os brinquedos, como nos contos infantis, adquiriam vida.


Puxando para a linha psicológica, somos levados junto a Stone por diferentes caminhos, conhecendo-o ao mesmo tempo que não temos ideia do que irá acontecer.

Como não poderia faltar, o décimo conto é o clássico O Coração Delator de Edgar Allan Poe. Um cuidador pega implicância por um dos olhos do senhor que acompanha e diz amar. Comparando a um abutre, ele começa a elaborar um plano para se livrar do homem.


A doença apurou meus sentidos, não os destruiu, não os amorteceu.


Loucura pura que me fez sentir arrepios, mesmo não sendo a primeira vez que o leio.

Já na reta final, o décimo primeiro conto tem o singelo nome de Amor de Mãe, de Brian James Freeman. Aqui temos Andrew, um filho que ama muito a sua mãe, mas não consegue dar pessoalmente os cuidados que ela necessita, o que lhe traz uma imensa aflição.


A mãe estava só, e Andrew odiava não ficar ao lado dela a cada minuto, mas estava fazendo o seu melhor.


Como um bom filho ele sai em busca de uma clínica de repouso recomendada, da espera para abrir uma vaga, ao parcelamento das taxas de internação, ele é consumido pela proximidade da morte de sua mãe.

Uma história de terror que poderia facilmente estar como notícia real em uma página de jornal.

Para fechar a Antologia Macabra, John Ajvide Lindqvist e o seu O Companheiro do Guardião. Utilizando os jogos de RPG, associado aos famosos bullyings que ocorrem nas escolas, o sobrenatural irá entrar na vida de um mestre nato quando ele brinca com as palavras.


Tinha autoridade, tinha a imaginação. E tinha linguagem.


Sendo um dos mais longos, Lindqvist nos coloca na vida de Albert, de forma que possamos conhece-lo mais intimamente do que os outros, seu egoísmo e dificuldades estão expostos, como grandezas e fraquezas de um jogo.

A edição é muito bonita, da encadernação as ilustrações, a edição da DarkSide me impressionou. A única coisa que achei um pouco incomoda foram as páginas grudadas, que fui soltando conforme evoluía na leitura, como se estivesse folheando algo muito antigo.

A antologia é uma verdadeira amostra de que o terror está além de serras elétricas e apocalipse zumbi. De maneira sútil, ele pode decorrer de uma fatalidade, impulso, lembranças, arrogância e instintos ainda não bem explicados.

Como fã tanto de histórias de terror quanto de contos, eu gostei bastante de quase todos os contos, confesso que apenas A Rede não me conquistou. Ficando a recomendação para quem compartilha o gosto comigo.

Para quem ficou curioso sobre outros títulos da linha Macabra, convido a ler a resenha das Vitorianas Macabras.

Antologia Macabra
Shining in the Dark
Diversos autores
Organização: Hans-Åke Lilja
Tradução: Paulo Raviere
DarkSide
2017 - 242 páginas