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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Os armários vazios


Sinopse: A sensação de isolamento é a única companhia da protagonista enquanto ela atravessa a experiência de um aborto no seu dormitório universitário. E é a presença desse sentimento que a conduz às memórias da infância, do processo solitário de se diferenciar dos pais, vizinhos e frequentadores do café-mercearia da família, onde ela já não cabia mais. 

No mês de julho/2026 a TAG Curadoria completou mais um ano de vida, e coube a aniversariante escolher o livro a ser enviado, no caso a primeira obra da escritora francesa Annie Ernaux intitulada Os armários vazios. O mimo foi outro livro: Cartas a um jovem poeta.

Denise Lesur tem vinte anos e é a primeira pessoa de sua família a chegar ao ensino superior. Filha de donos de um pequeno café-mercearia, ela cresce em um ambiente cujo olhar infantil não permite enxergar a pobreza de uma casa que nem banheiro próprio tem.

Mas isso muda quando ela é matriculada em uma escola particular. Se para muitos a educação representa uma possibilidade de transformação de sua vida, aqui ao se deparar com a realidade burguesa acaba também provocando um afastamento progressivo de suas origens. 

Rádio esportiva na cozinha, passa um avião no céu, depois de se lavar minha mãe joga a água fora.


Aquilo que antes fazia parte de seu cotidiano passa a despertar vergonha e repulsa, enquanto a jovem tenta encontrar seu lugar em um mundo no qual nem sempre se sente pertencente.

A narrativa começa em um momento de sofrimento físico e emocional, quando Denise aguarda as consequências de um aborto clandestino. A partir daí, suas lembranças conduzem o leitor pela infância, pela adolescência e pelas experiências que marcaram sua formação, revelando conflitos relacionados à família, à sexualidade, à condição feminina e às diferenças sociais.

Quando foi que comecei a ter um pavor insano de parecer com eles, meus pais... Não foi de um dia para o outro, não foi um corte grande... Os olhos abrindo... as besteiras.


Publicado originalmente em 1974, Os armários vazios foi o primeiro romance de Annie Ernaux e já apresenta questões que retornariam mais tarde em sua produção literária, sendo muito relacionado ao livro O acontecimento da autora.


A escrita de Annie Ernaux

Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na Normandia, França. Filha de comerciantes de origem popular, estudou Letras e construiu uma obra marcada pela investigação das relações entre memória, experiência individual e contexto social.

Ao longo de sua trajetória, a autora abordou temas como as diferenças de classe, as relações familiares, a sexualidade, a condição feminina e as transformações sociais. Sua escrita frequentemente parte de experiências pessoais para explorar questões que ultrapassam a história individual, aproximando literatura, memória e sociologia.

E então todas aquelas críticas, aquele escárnio, não, as coisas do meu mundo não tinham valor na escola.


Em 2022, a escritora Annie Ernaux recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, com reconhecimento à maneira como aborda as raízes, os estranhamentos e as repressões coletivas presentes na memória pessoal. Entre suas obras mais conhecidas estão O lugar, Uma mulher, Os anos e O acontecimento.

Em Os armários vazios a autora já aborda esse conjunto de questões com uma diferença: ela não narra como uma experiência pessoal, mas utiliza a personagem Denise Lesur em uma narrativa em primeira pessoa, sem utilizar capítulos, simulando o fluxo contínuo na mente de uma pessoa que não sabe se irá sobreviver as próprias ações.

Os livros, por sua vez, não me criticam por nada, a vida clara e transparente das minhas heroínas não me faz lembrar dos torrones que roubei na loja perfumada, das saias que levantei na frente do espelho, das zombarias que lancei a qualquer velho bêbado.


Possibilitando ao leitor acompanhar os pensamentos e as lembranças da personagem, que se sucedem em um fluxo que acompanha a agitação da protagonista, misturando acontecimentos, sensações, julgamentos e recordações sem a preocupação de organizar tudo de maneira linear.

A autora também utiliza o recurso das repetições para mostrar a mudança no olhar da personagem em relação ao mundo que lhe cerca. Além disso, como são memórias de uma jovem mulher de 20 anos, acabam também compartilhando as lembranças que permanecem presentes e como o significado atribuído a elas podem se transformar com o tempo.

Não falava disso para ninguém, mas na escola, ao passear na frente das lojas no centro, ao ler, eu tinha aprendido a fazer comparações. Existiam as pessoas bacanas e os outros. 


O cotidiano ocupa um lugar importante na construção da história. Os produtos vendidos no estabelecimento da família, as roupas, os cheiros, os hábitos dos clientes e as conversas aparentemente banais ajudam a compor o ambiente em que Denise cresceu. Esses elementos também revelam as diferenças entre o mundo de sua infância e aquele ao qual ela tenta pertencer.

É uma escrita que não procura suavizar os sentimentos da protagonista. A raiva, a vergonha, o desejo e o ressentimento aparecem de maneira direta, fazendo com que o leitor acompanhe seus conflitos mesmo quando suas atitudes provocam desconforto ou incompreensão.


O que achei de Os armários vazios

Os armários vazios é o tipo de livro que você termina e pode sentir vários sentimentos contraditórios em relação a escrita e a sua protagonista.

Começando pelo fato que Denise é uma personagem complexa e o seu fluxo de pensamento inicia durante um aborto clandestino. Um golpe duro para alguém que tem em sua personalidade traços como a arrogância e um sentimento de superioridade desde a infância, algo que me parece ter sido espelhado do comportamento da própria mãe em relação aos seus clientes. 

Achei muito interessante o uso do recurso da repetição para acompanhar a mudança no olhar da Denise. Quando pequena ela enxerga uma grande fartura em meio a pobreza, como se ao ter um pouco mais em relação aos que estão a sua volta gerasse um grande abismo. 

E o tio peculiar, sei muito bem o que isso significa, engraçado, mas não maluco, adequado, espirituoso, mas não pinguço que nem os meus, um tio peculiar só existe no mundo bacana.


Mas ao ser enviada para uma escola particular, a educação, os colegas pertencentes a uma classe média e os livros a levam para uma realidade muito diferente. E aqui temos a quebra da ilusão, a humilhação por diferença sociais, e todo o efeito psicológico de descobrir que não, ela não era a bolacha mais recheada do pacote.

E assim temos a vergonha, o julgamento e um círculo vicioso que a leva até o presente, quando tudo o que foi investido para ela se confirmar superior as suas origens é ameaçada por uma gravidez indesejada.

Gravidez que tem a sua origem em uma sexualidade precoce também derivada do próprio meio. E talvez o ponto que gere a maior interrogação, já que ela se deixa levar fácil pelos rapazes, como se com eles ela despisse não só as roupas, mas também toda a imagem interna que ela parece ter construído de si. 

Histórias que me espreitam, exibem meu possível futuro: casada com um canalha, gorda, cercada de moleques com bunda pra limpar.


O que me fez enxergar uma certa ironia neste ciclo da personagem: Denise é o orgulho dos pais, que fazem sacrifícios para lhe proporcionar oportunidades que eles próprios não tiveram. Entretanto, quando se vê diante de uma gravidez indesejada, ela parece reconhecer em si mesma algo que associa às jovens de seu antigo meio social, como se sua trajetória de ascensão estivesse ameaçada por aquilo que tanto desejava deixar para trás.

Confesso que não consegui sentir simpatia por Denise. Em alguns momentos, senti falta de elementos que me ajudassem a compreender melhor a relação com os pais e que justificassem a intensidade de seu desprezo por eles, o que me fez pensar se era só a pobreza ou se existem fatos que não foram revelados. Assim como suas relações amorosas, em que ela se deixar ludibriar facilmente por qualquer um, conferindo aos seus pares uma superioridade que na prática não existe.

Mas isso não significa que eu não tenha sentido empatia. Denise é jovem e está atravessando uma experiência difícil em uma época na qual as possibilidades de escolha das mulheres eram bastante limitadas, o que era ainda mais acentuado pelo contexto da pobreza. 

Um calor estranho se espalha imediatamente, como uma flor, em alguma parte baixa da barriga. Meio roxa, podre.


Algo que cá entre nós ainda ocorre entre os países considerados não desenvolvidos, como o nosso, onde uma gravidez indesejada afeta e muito a vida de uma mulher, e quando ela vive em uma situação adversa, a dificuldade é triplicada.

Não achei a leitura difícil, mas o recurso da repetição ficou, pra mim, em uma linha tênue entre o interessante para ver a mudança de olhar e o tedioso, pois o nível de detalhes em certo ponto começou a me cansar. 

O que eu gostei, e isso ocorre justamente por ser inspirado na própria vida da autora, é que a narrativa não tenta resolver as contradições da protagonista ou de oferecer respostas definitivas sobre suas escolhas. Mas sim um retorno intenso às lembranças, como se revisitar o passado fosse uma maneira de atravessar o sofrimento do presente e de dar algum sentido à própria trajetória.

Ficando a dica para quem gostam de livros com muita realidade, de narrativas que inspiram outros autores e claro, para quem gostou de O desabamento do também francês Édouard Louis, e claro para quem não pode ver um conjunto de letras que já quer sair lendo.


Os armários vazios
Les Armoires vides
Annie Ernaux
Tradução: Mariana Delfini
TAG - Fósforo
2026 - 142 páginas
Publicado originalmente em 1974


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

O desabamento


Sinopse: Fruto do primeiro casamento de sua mãe, o irmão de Louis é o mais velho dos cinco filhos. Logo nas primeiras linhas deste romance, que é considerado um dos mais sombrios do autor, o narrador afirma não ter sentido nada ao saber da morte do irmão. “Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo”, diz, a determinada altura. É tomando essa distância ― física e afetiva ― que o narrador esmiúça a existência de seu irmão, entrevistando pessoas próximas de seu convívio, como uma professora e algumas ex-companheiras, e relembrando momentos decisivos da relação fraternal. Para reconstruir esse personagem, o narrador se vale das ciências sociais, da literatura, da psicologia e da memória, resultando em um romance único e inesquecível, de força e sensibilidade inigualáveis.



No mês de Julho/2025 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da própria TAG, que estava de aniversário: o livro do escritor francês Édouard Louis chamado O desabamento. O mimo foi um livro extra de poesias do chileno Pablo Neruda.

O romance de auto ficção O desabamento tem o próprio autor Édouard Louis como narrador da morte precoce do seu irmão mais velhos aos 38 anos, causada pelo seu alcoolismo, vícios e o conjunto de violência e fugas acumuladas em seu curto período de vida.

Não senti nada quando soube que meu irmão tinha morrido; nem tristeza, nem desespero, nem alegria, nem prazer.


Ao tentar reconstruir a história de vida do irmão, o autor precisa lidar com os seus próprios fragmentos de memória que o farão retornar a infância e adolescência em uma vila operária no norte da França, em um ambiente que combina pobreza e violência familiar e social.

Outro recurso utilizado é através de depoimentos e conversas com mulheres próximas do irmão, que entram como um fator a mais para analisar não só o que levou o seu irmão mais velho para um caminho de autodestruição, como das suas próprias feridas nesta relação que combina amor e desprezo.


A escrita de Édouard Louis

Considerado uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea, o escritor e sociólogo francês Édouard Louis ficou conhecido por usar a sua história familiar para escrever romances de auto ficção.

Em seus romances temas como classe social, homofobia, pobreza, violência, busca por ascensão social e naturalmente, laços familiares são componentes frequentes em suas narrativas.

Ele disse que ia aprender uma nova profissão, com técnicas muito especificas, um saber que não é qualquer um que aprende, mas que ele, ele aprenderia.


O desabamento lançado recentemente faz parte de uma sequência de livros iniciados pelo seu primeiro romance "O Fim de Eddy", que conta a sua história, passando por narrativas que abordam também a figura da sua mãe e do seu pai.

Por ser auto ficção, a narrativa utilizada em O desabamento é em primeira pessoa, os capítulos são curtos e alguns questionamentos internos aparecem com frequência em alguns capítulos, lembrando um fluxo de consciência.

Meu irmão morreu. Eu resolvia essa frase na cabeça.


Também é utilizado a ênfase em determinadas frases, que além de serem a única informação, podem se repetir por mais de uma página, como uma forma de compartilhar o que martela na cabeça do escritor também na do leitor.


O que eu achei de O desabamento

Não são raras as vezes que junto com a morte são enterradas (ou queimadas) todas as dores e mágoas que a pessoa provocou em vida. 

Só que existem exceções, e em O desabamento o autor, na minha opinião, parece revisitar estas memórias para de certa forma entender a dor que permaneceu, apesar do irmão não poder mais feri-lo.

Aprender a conhecer meu irmão era aprender a odiá-lo: uma noite, nossos corpos se aproximaram por circunstâncias alheias á nossa vontade, e então entendi quem ele era, e o odiei.


E ao se recordar das mágoas, inevitavelmente também vem as boas lembranças, tornando tudo ainda mais confuso para quem não apenas busca o ombro dos amigos para saber se está correto, como divide toda essa carga psicológica nas páginas de um livro, dividindo com quem se deparar com ela.

No geral, eu achei a leitura boa, não havia lido nada do Édouard Louis antes, e em alguns momentos me solidarizei com a sua dor, pois outra coisa que desaparece com os mortos pelos quais os nossos sentimentos são controversos, são as respostas do por que não ser aceito? por que ser alvo de determinadas agressões? Entre tantos outros porquês que talvez só irão desaparecer com o tempo.

Será que escrevo porque essa dor faria com que eu me sentisse normal, um irmão como todos os outros irmãos, que chora a morte do outro?


Não achei ótimo pelo fato de em alguns momentos acha-lo repetitivo, o que também é natural, pois ao colocar todo o foco no que já foi, a mente tende a andar em círculos, o que é facilmente identificado no decorrer das páginas.

Por outro lado, esta repetição me fez pensar se existe culpa por não conseguir se livrar de toda a dor provocada. De não ser como muitas pessoas e só divulgar o que houve de bom, santificando quem muitas vezes nos infernizou. Tornando o livro também um desabafo de quem ficou e não sabe mais o que fazer com a carga emocional nuca resolvida.

Às vezes tenho a impressão de que a história do meu irmão é a história de uma Ferida lançada no mundo e sempre reaberta.


Já me disseram que o livro se torna ainda mais claro se for lido o primeiro romance do autor, O Fim de Eddy. E confesso que isso me despertou a curiosidade, para ver se terei os mesmos sentimentos em relação ao Desabamento, ou se o meu entendimento se ampliaria.

Ficando a dica para quem gosta de auto ficção, narrativas que envolvem conflitos familiares, ou que procura um livro rápido para ler.


O desabamento
L'effondrement
Édouard Louis
Tradução: Marília Scalzo
TAG - Todavia
2025 - 165 páginas
Publicado originalmente em, 2024

sexta-feira, 27 de junho de 2025

O Amante



Sinopse: Prêmio Goncourt em 1984, com mais de 2 milhões e meio de exemplares vendidos apenas na França, este romance autobiográfico acompanha a tumultuada história de amor entre uma jovem francesa e um rico comerciante chinês na Indochina pré-guerra. Com uma prosa intimista e certeira, Duras evoca a vida nas margens de Saigon nos últimos dias do império colonial da França e relembra não só sua experiência, mas também os relacionamentos que separaram sua família e que, prematuramente, gravaram em seu rosto as marcas implacáveis da maturidade.



Na Indochina francesa, uma adolescente de 15 anos órfã de pai mora com a mãe e dois irmãos. Filha de colonos franceses pobre, ela conhece em uma travessia de balsa sobre o rio Mekong um jovem com o qual terá um relacionamento intenso que envolve benefícios financeiros.

Filho de um rico empresário chinês, o homem de 27 anos, mesmo sendo mais velho, acaba sofrendo psicologicamente dos mesmos problemas que a menina, no que envolve tabus raciais e morais dos anos de 1920.

Muito cedo na minha vida ficou tarde demais. Quando eu tinha dezoito anos já era tarde demais.


O que a empurra precocemente para esta relação é a sua família desestruturada, com um irmão extremamente violento e uma mãe que o defende, ao mesmo tempo que possui uma busca constante por dinheiro.

Um livro sobre memórias e traumas transferidos para as páginas em um romance curto, cuja densidade se alterna, e virou um filme não aprovado pela autora.


A escrita de Marguerite Duras

Considerada uma das escritoras mais importantes da literatura francesa do século XX, a autora Marguerite Duras nasceu na Indochina e no final de sua adolescência retornou a França para estudar.

Sua escrita tem por característica ser fragmentada, conseguindo ser emocionalmente contida e ao mesmo tempo profundamente sensível. O que fez com que fosse uma das figuras-chaves do movimento literário "Nouveau Roman" (Novo Romance francês) que ocorreu nas décadas de 1950 e 1960.

A história da minha vida não existe. Ela não existe. Jamais tem um centro. Nem caminho, nem trilha.


E este rompimento com as formas tradicionais de narrativa é encontrado em O Amante, sua obra mais conhecida que venceu o prestigiado prêmio de literatura francesa Goncourt.

O Amante é uma mistura de ficção com autobiografia, tendo como base a sua infância na Indochina e o caso amoroso que teve na adolescência com um homem mais velho.

Tudo começou assim assim em minha vida, com esse rosto visionário, extenuado, as olheiras antecipando-se ao tempo, à "experiência".


A narrativa é semelhante a um fluxo de consciência, com presente, passado e futuro dividindo o mesmo espaço sem ordem cronológica nem capítulos definidos. Como alguém que se senta no divã e conforme vai puxando o novelo de lã que é a sua vida, começa a trazer memórias, reflexões e pensamentos.

Dando um tom introspectivo na narrativa em primeira pessoa, onde nem tudo é explicito e não raro há situações que ficam mais na sugestão no que no detalhamento para o leitor.


O que eu achei de O Amante

Esta foi a segunda vez que leio o livro de Marguerite Duras. Havia recebido o livro em capa dura em uma coletânea de clássicos que o jornal do meu estado vendeu tempos atrás.

E acabei relendo por causa do encontro com outros assinantes da TAG Curadoria, já que a obra foi o livro de abril, ao qual pulei para não ficar com dois livros iguais.

Sei que não são as roupas que fazem a mulher mais ou menos bela nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos adornos.


Quando abri o livro já não tinha lembranças de sua narrativa, apenas a famosa base de que era o caso de amor de uma adolescente com um homem mais velho.

Ao reler, me deparei com uma família desestruturada, que apesar da pobreza tem empregados, da mãe que cobra postura da filha, mas permite que ela chegue em qualquer horário na escola após os encontros com o amante. De um irmão mais velho que inspira medo nos que convivem com ele e deixa para a mãe pagar as dívidas dos seus vícios.

Resta aquela menina que começa a crescer e que talvez um dia venha a saber como trazer dinheiro para casa.


Também é uma narrativa que expõe a colonização, onde a cor da pele ou o dinheiro não impede que ocorra racismo ou preconceito.

E por fim é um livro bem psicológico, pois não foram raras as vezes que me vinha o jargão "fale-me mais sobre isso" durante a leitura. Ficando a dúvida se era ficção, algo que deveria ficar subentendido ou traumas que não conseguem ser revelados.

Sente subitamente uma angústia até então apenas pressentida, uma fadiga, a luz apagando-se levemente no rio.


Mas apesar de todas as suposições, de ser um livro bem curto, eu segui não gostando.

A mistura de pedofilia e prostituição foi algo que me incomodou ainda mais nesta segunda leitura. Pois o relacionamento não é iniciado por amor, paixão ou uma atração física na minha opinião, mas pelo que o dinheiro dele poderia proporcionar.

Quer a apanhem, quer a levem, quer a maltratem, quer a corrompam, eles não devem saber mais nada.


Também me peguei achando que se o nome do livro fosse O irmão mais velho, combinaria mais. Pois o amante é uma figura secundária em meio a todos os conflitos que as relações familiares causaram em todas as etapas da vida da narradora, sendo uma ferida ainda não curada mesmo após tantos anos.

Sendo o amante apenas mais um a acelerar o seu sentimento de envelhecimento precoce, de mudança na imagem que via no espelho ainda tão jovem. Me parecendo o resultado de quem se sentia usada por todos ao redor sem nunca ter sido realmente amada.

Ele lamenta o que ocorreu comigo, digo-lhe que não deve, que não devo ser motivo de lamentação, ninguém deve, exceto minha mãe.


E apesar de tanta complexidade, em muitos momentos ela me pareceu superficial. Como se a narradora tivesse uma borda a ser respeitada, e justamente ao respeitar estes limites, ela não me ganhou como leitora.

Pois o vai e vem de tempos e lembranças me parecia mais um disfarce para não explorar o que era realmente importante para a menina frágil e a mulher já idosa que manteve tudo muito vivo em sua memória.

Só que esta é a minha leitura, a sua pode ser completamente diferente, e assim deixo a indicação deste clássico para que você possa tirar suas próprias conclusões.


O Amante
L'amant
Marguerite Duras
Tradução: Aulyde Soares Rodrigues
2003 - 95 páginas
Publicado originalmente em 1984



terça-feira, 27 de maio de 2025

O perigo de estar lúcida


Sinopse: Com base na sua experiência pessoal e na leitura de inúmeros livros sobre psicologia, neurociência, literatura e memórias de grandes escritores, pensadores e artistas, Rosa Montero oferece aqui um estudo fascinante sobre as ligações entre criatividade e instabilidade mental. E o faz compartilhando curiosidades surpreendentes sobre como nosso cérebro funciona na hora de criar, decompondo todos os aspectos que influenciam a criação e reunindo-os diante dos olhos do leitor enquanto escreve ― como uma investigadora pronta para combinar peças avulsas para solucionar um caso misterioso. Ensaio e ficção andam de mãos dadas nessa exploração das conexões entre o criar e a loucura. 



Em A Louca da Casa, a escritora espanhola Rosa Monteiro já havia listado aos leitores o conjunto de ingredientes que levam um autor a conquistar a mente de quem vira suas páginas de forma a não largar o livro até chegar à última página.

Em O perigo de estar lúcida ela explora ainda mais a relação um tanto complexa entre a criatividade e a instabilidade mental. E exemplos de escritores famosos com seus fins nada felizes não faltam para nos fazer refletir sobre este sofrimento.

Isso é algo que acontece com frequência: você vai crescendo e um belo dia descobre que aquilo que acreditava firmemente na infância era uma falácia ou uma bobagem.


Sofrimento que pode servir de inspiração artística, ou que busca através da escrita um alívio para as dores pessoais que atormentam o dono das palavras.

Ao utilizar a sua própria vivência compartilhando suas crises de pânico, ela consegue equilibrar as explicações teóricas sobre fatores químicos e situacionais com os sentimentos de quem sentiu na pele. Em um texto que fala de criatividade, envelhecimento, funcionamento do cérebro, escolhas e tempestades.

Os fantasmas de um escritor são aqueles temas ou detalhes que se repetem constantemente em seus livros sem que, de modo geral, ele ou ela tenha consciência disso.


Ao falar sobre a tempestade perfeita, que pode resultar em um surto de criatividade ou em um último ato, ela aproxima a todos que de alguma forma convivem com isso ao mesmo tempo que dá luz a um assunto em que nem todos aceitam conversar pelo preconceito que ainda existe.

O único porém é que o livro pode fornecer alguns gatilhos para quem talvez esteja mais sensível no momento. E mesmo a autora solicitando que se aguente um pouco mais e espere a tempestade passar, talvez nestes casos, a leitura também deve ser deixada para um momento em que os pensamentos intrusivos não tragam ideias que possam nos ferir naquele momento.


A escrita de Rosa Monteiro

A espanhola Rosa Monteiro estudou jornalismo e psicologia, e com suas obras que abrangem desde romances, passando por ensaios, crônicas e literatura infantojuvenil. O que tornou a escritora uma das mais influentes jornalistas e escritoras contemporâneas da Espanha.

Seus livros tem por característica uma narrativa introspectiva, as vezes feministas, frequentemente autobiográfica, e sempre muito sensível, tornando-a envolvente para os leitores.

Se você realmente acha que não sente nada, isso significaria que não ama ninguém. E, se não ama, será que você não é o maior impostor do universo?


E é essa mistura junto com os temas morte, memória, loucura, vida, morte  e arte que são encontradas nas páginas de O perigo de estar lúcida.

Ao misturar relatos de sua própria vida, ficção e um pouco da vida de grandes nomes da literatura como Sylvia Plath, Virginia Woolf e Janet Frame de uma forma direta, simples e sensível, sua escrita nos leva a encarar de frente os desafios psicológicos enfrentados enquanto a arte segue sendo criada por mentes inquietas.

Se você tirasse o córtex cerebral da cabeça e o passasse a ferro, ele poderia chegar a medir meio metro quadrado.


Nos levando a várias reflexões sobre o funcionamento complexo da mente humana, passagem do tempo e sobre o ato de viver.


O que eu achei de O perigo de estar lúcida

Logo no primeiro parágrafo sou remetida para uma memória de infância. Rosa Monteiro tinha um objeto em casa que a mãe precisava esconder para ela dormir. Nas inúmeras casas que eu morei, havia o rosto de um chinês pendurado cujos olhos, independentemente de onde eu estava, pareciam estar me observando. Toda vez que eu ficava sozinha, tirava o objeto e deixava de rosto virado para o sofá, para ter paz.

Seguindo a leitura, parecia estar andando em um caminho aparentemente inocente, criatividade, cérebro que funciona diferente e então o sombrio. As várias vidas que se foram por não conseguirem esperar a tempestade perfeita passar.

Mesmo o romance mais experimenta e desconexo tem um começo e um fim, e domestica de algum modo essa algazarra absurda em que vivemos.


Internações, sofrimentos, obsessões, mulheres subjugadas. Não há ninguém para salvar pessoas de cérebro inquieto? Cujas vozes parecem narrar histórias, teorias e até mesmo pesadelos grande parte do dia? Ninguém para ver os sinais?

E embora eu tenha achado o livro muito semelhante ao Louca da casa, a ponto de precisar dar uma pausa por um breve momento estar achando a leitura enfadonha. Ao final me dei conta que é um livro que mexeu com o meu íntimo. Viver, morrer, envelhecer, sonhar, ter medo da loucura, da depressão ou de simplesmente adoecer. 

Não consigo me enxergar na minha idade real. Não entendo como cheguei a isso. 


Tudo muito próximo neste nosso mundo bastante insano, que parece testar o nosso limite em diversas situações e áreas. Onde resistência e resiliência podem ser exigidas todos os dias até te levar a lágrimas de exaustão.

Exigindo uma coragem extra para a tempestade perfeita passar. Exigindo uma proteção nos olhos para buscar uma luz em meio a escuridão. Exigindo sensibilidade para encontrar uma mão de apoio próxima que perceba sinais e te ajude a esperar por mais um dia. Exigindo uma respirada mais funda ao se dar conta de quanto tempo passou.

Não importa o quão maluco você pareça: sempre há um punhado de gente no mundo que sente, pensa e age como você.


Motivo pelo qual eu gosto tanto da escrita da Rosa Monteiro, ela consegue ao contar as histórias de grandes nomes da literatura mostrar a humanidade de sentimentos tão complexos da nossa mente. Sem julgamentos, somente com fatos e uma gentileza com aqueles que mereciam um abraço.

Ficando a indicação para quem gosta de livros que tratam de temas psicológicos, sobre a arte da escrita, sobre autores de renome, ou que simplesmente gostam de ler.


O Perigo de estar lúcida
El peligro de estar cuerda
Rosa Montero
Tradução: Mariana Sanchez
todavia
2023 - 270 páginas
Primeira publicação em 2022

segunda-feira, 7 de abril de 2025

Proclamem nas montanhas


Sinopse: Harlem, Nova York, década de 1930. John Grimes acorda no dia do seu aniversário de catorze anos e ninguém ao redor parece se lembrar da data. Apesar do entorno apático e por vezes violento, o protagonista não abandona seu otimismo. É então que ele percebe que a fé pode dar um novo rumo para a sua vida e decide mergulhar em uma profunda jornada espiritual.


A minha assinatura na TAG Curadoria em 2025 iniciou em janeiro com uma indicação do escritor brasileiro Itamar Vieira Junior, que escolheu Proclamem nas montanhas do autor norte-americano James Baldwin. Como mimo o já tradicional planner.

Proclamem nas montanhas se divide entre o presente e o passado. No tempo atual, ele cobre as 24 horas do dia do aniversário de John Grimes, onde nem todos parecem lembrar que o jovem está completando quatorze anos, enquanto ele mesmo, ao ser obrigado a ajudar na organização da igreja frequentada pela sua família, que terá uma cerimônia religiosa mais tarde, tem dúvidas quanto as próprias crenças.

Além disso há o seu irmão mais novo Roy, que com sua rebeldia e constante busca por problemas, sempre chama atenção do seu pai, Gabriel, que não esconde a preferência pelo filho, mesmo quando este faz coisas erradas.

Foi só na manhã do dia em que completou catorze anos que realmente começou a pensar nisso, e àquela altura já era tarde demais.


Nos flashbacks descobrimos a origem da família que é ao mesmo tempo muito religiosa e um tanto disfuncional, principalmente pelas atitudes do patriarca. Ao qual amores, hipocrisias e uma pitada de história é relatada por Gabriel, Elizabeth - mãe de John - que se abraçou a igreja após uma grande perda, e Florence, a irmã de Gabriel e uma mulher que é ao mesmo tempo muito independente e ressentida pela forma como foi se encaminhando a sua vida.

Tudo em um romance que explora principalmente o papel da religião nos laços familiares, nos conflitos internos, no perdão dos erros, na sexualidade e dentro da comunidade negra nos anos de 1930 nos Estados Unidos.


A escrita de James Baldwin

O norte-americano James Baldwin nasceu no Harlem em 1924, reconhecido por seus romances e ensaios, foi bastante participativo no movimento dos direitos civis, sendo considerado hoje um dos maiores escritores norte-americanos do século XX.

Através da escrita ele abordou assuntos como sexualidade, racismo, identidade, amor, injustiça social, religião e tudo o que cerca e determina a figura do ser humano.

Aquela longa estrada, sua vida, que ela seguia havia sessenta dolorosos anos, a levara por fim ao ponto de partida de sua mãe, o altar do Senhor.


E eles são a base de Proclamem nas montanhas, que além de ser o seu primeiro romance possui um toque autobiográfico, já que assim como John, James Baldwin não conheceu o pai, e seu padrasto era um membro constante da igreja, e conforme ele crescia, se distanciava das crenças.

Em relação à forma narrativa, em Proclame nas montanhas ele opta em utilizar a terceira pessoa com foco em quatro personagens. O que permite ao leitor uma visão ampliada da dinâmica familiar, assim como dos segredos e traumas que levaram os personagens até aquele dia.

Logo alguém voltaria a gritar, e as vozes recomeçariam; haveria música, e brados, e o som dos pandeiros.


Para esta última parte, o uso de flashbacks e de retorno do tempo foram fundamentais para entender principalmente os três personagens adultos, que inclusive possuem capítulos próprios para contarem um pouco da sua trajetória.

Em comum entre os quatro está a religião, que é uma mistura de quinto personagem e base do livro, já que sim, tudo se desenrola através das relações com ela, seja por conflitos espirituais, descrença ou orações e sermões.

Pensava nele agora, enquanto a cantoria e o choro prosseguiam a sua volta - e pensava o quanto o pai gostaria do neto, que era parecido com ele sob tantos aspectos.


O resultado deste conjunto é que o leitor será colocado vivenciando aquelas horas dentro da comunidade, permitindo assim que ele tenha as próprias ideias e opiniões sobre o que estava ocorrendo.


O que eu achei de Proclamem nas montanhas

Já havia ouvido falar sobre o escritor James Baldwin, mas não havia lido nada ainda. E isso me fez ter uma grande expectativa em relação ao livro que seria enviado.

Mas confesso que achei a parte do John bastante arrastada, a forma como os sermões, citações e experiências religiosas apareciam em sequência não me convidavam a ler mais uma página.

Terra balançava, transformando o espaço num vazio absoluto, levando o caos à ordem, ao equilíbrio, ao tempo.


Como a parte do John é autobiográfica, fiquei pensando se não foi isso que pesou um pouco na escrita, já que as vezes é mais fácil falar do que é ficção do que é real. Ou tenha sido uma forma do autor expurgar o que consumia sua mente a muito tempo. Enfim, minhas teorias, que de fato não tem nada. 

Em compensação os capítulos do Gabriel, da Elizabeth e da Florence eu achei muito mais interessante, a escrita também me parecia mais fluída e convidativa a entrar no passado dos três, cujas escolhas levaram todos até aquele dia.

Apavorado, começou a chorar e gemer - e esse som foi engolido, e, apesar disso, amplificado pelos ecos que enchiam a escuridão.


Também gostei da forma como Baldwin abordou o critério de algumas religiões de abraçar a todos, independente dos seus pecados, para que estes se tornem puros. Mas sem deixar de mostrar a hipocrisia dos que se intitulam escolhidos de seguirem praticando suas maldades, e achar que basta orar para tudo ser esquecido.

Na parte histórica, ele aborda no romance o fim da escravatura, a mãe de Gabriel e Florence foi uma escrava e é uma recém liberta, assim como o surgimento de grupos discriminatórios e a raiva que se sentia pelas pessoas de cor branca.

Pelo visto, não tem uma mulher neste mundo que não foi passada pra trás por um homem que não presta.


Em relação à parte familiar, ele aborda diferentes tipos de relação e seus conflitos, onde há o filho preferido, o filho abandonado, a rivalidade entre irmãos, a mágoa da mãe, o seguir caminhos que não se sente como seu.

Então sim, ele aborda inúmeros assuntos que são muito interessantes, mas infelizmente, no meu caso, o estilo narrativo não me conquistou. Mas como ele pode ganhar o seu coração, ou levar a várias reflexões - como aconteceu comigo - deixo aqui a dica.

Proclamem nas montanhas
Go tell it on the Mountain
James Baldwin
Tradução Paulo Henrique Britto
TAG - Companhia das Letras
2025 - 271 páginas
Publicado originalmente em 1953

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Serafim Ponte Grande



Sinopse: Ao longo de 203 fragmentos, Oswald de Andrade toma como inspiração os procedimentos da colagem para criar uma obra radical, situada entre a ficção, as anotações, as memórias, a sátira e a poesia. Definido por Haroldo de Campos como "romance-invenção", o livro, publicado originalmente em 1933, foi recebido como escandaloso e se estabeleceu como um acontecimento singular na nossa literatura. A transformação industrial de São Paulo serve como pano de fundo para um retrato implacável das aspirações burguesas. Em meio ao moralismo, ao tédio e à infelicidade do casamento, os personagens de Serafim Ponte Grande não conseguem conter suas ambições comezinhas, sua obsessão pelo dinheiro e seus impulsos sexuais.



Serafim Ponte Preta é uma espécie de anti-herói. O protagonista que dá título ao livro é um funcionário público corrupto e desiludido, cujo estilo de vida se divide entre a busca desenfreada por dinheiro e pela insatisfação conjugal. Um homem comum que realiza uma busca desenfreada por prazeres e pela incapacidade de se adaptar às convenções sociais.

Casado com Lala, uma mulher inicialmente resignada que vive um casamento infeliz, já que ela não é uma personagem secundária só na história, como na própria vida do protagonista.

A obra de ficção em minha vida corresponde a horas livres, em que estabelecido o caos criador, minhas teorias se exercitam com pleno controle.


Já Pinto Calçudo, o secretário do anti-herói, é presença frequente nos encontros e desencontros de Serafim com políticos corruptos, amantes, amigos e inimigos, e inclusive em uma viagem que parece resgatar as viagens realizadas pelo próprio autor, Oswald de Andrade, nos anos de 1920.

Tudo ambientado de uma forma a levar os leitores de qualquer época para uma viagem ao passado, sob as perspectivas de quem só se preocupa com o seu cotidiano.


A escrita de Oswald de Andrade

O autor e pensador paulista Oswald de Andrade foi uma das personalidades da Semana de Arte Moderna de 1922. Formado em direito, seguindo os ritos das famílias ricas e tradicionais, acabou direcionando-se a sai paixão que era a literatura. 

Viajante frequente para a Europa, viu seu estilo de vida mudar com a crise econômica de 1929. Gerando uma mudança não só no ritmo com que levava seu dia-a-dia, mas também na criação de Obras como Serafim Ponte Grande, que é uma crítica a sociedade tradicional do período.

O caminho a seguir é duro, os compromissos opostos são enormes, as taras e as hesitações maiores ainda.


Serafim Ponte Grande pode causar um estranhamento inicial no leitor ao passar pelas suas páginas e ver que não temos um romance padrão. Motivo pelo qual a obra é considerada uma grande inovação. 

O escritor Oswald de Andrade utiliza uma mistura que inclui tanto a linguagem formal da época quanto a popular, ao mesmo tempo que relaciona citações eruditas e termos técnicos. 

Parece que Deus quer ver no primeiro dia deste ano inteiramente evoluída a minha transformação psíquica, tantas vezes ameaçada pelos acontecimentos.


Essa babel linguística mistura poemas, micro contos e capítulos inteiros, não sendo muito explicativa, embora pareça respeitar uma linha do tempo para contar as diferentes facetas da sociedade brasileira, especialmente a paulistana, do período do modernismo.

Recheado de ironia e humor, os caminhos tortos do seu protagonista levam a situações inusitadas e algumas vezes beiram ao irreal. Ao mesmo tempo ele também se utiliza da literatura como base de referência, completando a visão cultural da época.

Nada mais incômodo do que esse negócio de ter filhos sem querer.


O que torna a escrita bastante atemporal e um livro relativamente rápido de ser percorrido.


O que eu achei de Serafim Ponte Grande

No mínimo diferente. Inicialmente me pareceu uma espécie de diário, onde uma frase ou parágrafos podem definir o dia do protagonista Serafim. Na sequência uma espécie de crítica política e desilusão com a vida que se leva no Brasil.

O que me fez pensar que Serafim é muito louco como narrativa e também como personagem. Mas apesar de misturar poemas, romance e formatos diferentes, no decorrer da leitura comecei a achar chato e repetitivo.

Por cem becos de ruas falam as metralhadoras na minha cidade natal.


Como eu li antes O Guarda-roupa modernista, em vários momentos levantei a hipótese de ser uma sátira do que o próprio autor tenha vivido em suas várias idas a Europa, fato depois confirmado por um dos autores dos textos adicionais sobre o livro. Mas sendo sincera, eu não achei graça.

E assim eu acabei fazendo um paralelo com a geração de hoje que acham os programas humorísticos das décadas de 80 e 90 enfadonhos, pois foi exatamente o que ecoou em mim ao ler as desventuras de Serafim.

Esta noite, mais do que nunca, sinto-me só , brava e reganhada! Só verto sorvetes de sangue pelos olhos, pelos lábios e pela boca. Nem tenho mais coragem, nem fé, nem nickel!


Pensando em um aspecto histórico, imagino que o livro tenha horrorizado os mais conservadores de sua época com sua linguagem direta, utilizando um personagem que não leva absolutamente nada a sério. E sim, provocado graça anos depois, quando muitas coisas da sociedade já estavam sendo questionadas.

No geral nem gostei nem desgostei de Serafim Ponte Grande, embora tenha achado o início promissor e o final muito bem executado, a etapa das viagens foi o que quebrou o ritmo da minha leitura, já que achei a correria do personagem atrás dos rabos de saia muito repetitiva, o que acabou deixando as críticas, que tinham um contexto mais interessante, perdidas em segundo plano.

Sob as árvores soltas do verão, debaixo dos balões cativos das lanternas. A orquestra mistura falas, altifalantes, serrotes e gaitinhas.


Mas sim, ele pode ser um livro bem interessante para quem quer ter uma visão da burguesia paulista nos anos de 1920, para quem quer conhecer um dos principais participantes do movimento modernista no Brasil e para quem é curioso e gosta de ler de tudo.


Serafim Ponte Grande
Oswald de Andrade
Companhia das Letras
2022 - 223 páginas
Publicado originalmente em 1933

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Línguas



Sinopse: Nápoles, anos do pós-guerra. Um menino passa horas na janela do apartamento fantasiando ser poeta. No prédio da frente, uma menina se arrisca dançando no parapeito da sacada. Apaixonado, um menino destemido pode se lançar a proezas extremas, como duelos sangrentos e até mesmo falar italiano (e não mais napolitano, a língua da família e da intimidade). Papel fundamental na sua vida tem a avó — que nutre por ele uma adoração desmesurada. Há também um amigo, o arrojado Lello, igualmente fascinado pela menina. Seguindo uma teia de transformações, Línguas conta a história desses três personagens com destinos que ficam inextricavelmente unidos para sempre.

No mês de agosto/24 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da atriz Maria Bopp o livro Línguas do escritor italiano Domenico Starnone. O mimo foi um caderno pequenino para anotações.



Mimi devia ter oito ou nove anos de idade quando, após ouvir a fábula de Orfeu, passou a buscar nas redondezas de casa em Nápoles a fossa dos mortos. O motivo era resgatar a menina que foi o seu primeiro amor.

Entre os oito e os nove anos de idade, decidi encontrar a fossa dos mortos.


Sem saber o seu nome, ele a chamava de milanesa, já que o seu amigo Lello dizia que ela havia vindo de Milão, norte da Itália onde não se usava dialetos, e sim o italiano. A paixão à primeira vista foi quando viu a menina dançar na sacada do apartamento à frente do seu. 

O encanto gerou duelo entre os amigos e uma eterna lembrança em Mimi, que cresce com a sombra de milanesa em seus relacionamentos. Assim como sua avó, que após a perda do marido, vive como uma espécie de empregada da filha e seus poucos sorrisos e gentileza são reservados ao seu neto favorito Mimi.

Só falava sem freios com ela, que com os outros era muda que nem eu: guardava as palavras na cabeça e as usava no máximo comigo.


Mas é na vida adulta que Mimi irá estudar a própria língua, e começar a entender o poder que ela exerce não apenas na cultura de um povo, mas também em sua autoestima e memórias.


A escrita de Domenico Starnone

O professor e jornalista Domenico Starnone publicou seu primeiro livro aos 42 anos e hoje é considerado um dos autores contemporâneos mais importante da Itália. Seus livros tem como característica a escrita elegante e a profundidade psicológica de seus personagens.

Em Línguas o autor Domenico Starnone convida o leitor a conhecer um pouco da sua cidade - Nápoles - e de sua própria infância, já que a narrativa possui um toque de autobiografia.

Era de domínio público que, quando fazia sol, eu a espiava abobalhado da janela ou passava muito tempo em frente ao portão dela.


Starnone utiliza-se principalmente de três bases para costurar sua história. Começando pela família aqui representada pela avó, figura com a qual os diálogos ocorrem tanto na infância quanto na vida adulta.

A segunda base é a paixão idealizada e impossível pela milanesa, um amor platônico infantil que beira a obsessão. 

Havia décadas não esperava mais nada da vida, nem sequer um docinho, mas a partir de mim ela começoulogo a extrair doçuras de todo tipo.


Completando a pirâmide, está o amigo Lello, o garoto que embarca na imaginação de Mimi ao mesmo tempo que é um rival em todas as disputas.

E são estas três bases que propiciam o escritor discutir sobre a linguagem, não só como forma de escrita, mas também como forma de construir a própria identidade e até mesmo diferença social. Tendo referências fortes ao dialeto local de Nápoles, ao qual Mimi sempre compara ao italiano falado no norte da Itália, aqui representado por Milão.

Eu nem lhe agradeci, eram gentilezas contadas, ela mesma não saberia evitá-las.


E como ele fala em identidade, seria impossível não entrar as memórias, principalmente de sua avó, que perdeu o marido ainda jovem, e como um espelho do neto, vive deste amor do passado, cujas histórias ganham novas versões e ganham em Mimi um espectador atento.

Tudo em uma narrativa em primeira pessoa, onde o personagem mistura os próprios sentimentos com a linguagem, as vezes de forma mais técnica, as vezes de forma poética, e na maioria das vezes em um estilo mais fluído, em um livro curto e relativamente rápido de ler.


O que eu achei de Línguas

Na minha humilde opinião a avó é a grande personagem da história. Seja sendo a criada da família da própria filha, seja contando suas histórias e influenciando a imaginação do neto favorito. O fato é que ela inicialmente não é tão velha - está na casa dos cinquenta anos - mas a beleza do passado foi substituída pela tristeza e até uma certa apatia.

O que me fez pensar muitas vezes como foi a sua história? Como ela conseguiu sozinha e jovem criar duas crianças pequenas? E por que ela aceita ser uma sombra na própria família?

Entretanto, não tinha dia em que eu não desejasse caminhar por uma estradinha solitária e, sem nenhum motivo evidente, dar socos e pontapés no ar, me abandonando ao choro nem que fosse por um minuto.


Sobre o Mimi, a verdade é que cada vez que ele falava milanesa, no lugar de imaginar Milão, minha mente era assombrada por um belo bife à milanesa, o que me provocou certa fome durante a leitura.

E sua vergonha da avó, assim como a não retribuição de tanto amor, já que avó inclusive assumia a culpa por suas artes infantis, me apertavam o coração, não havia um beijo, nem um muito obrigado. Seria típico de criança, se ele não conseguisse expressar tamanho sentimento pela menina da janela a frente.

Aprendi faz tempo que até as pessoas que nos amam se esforçam para se retirar de cena e deixar espaço às nossas manias de centralidade.


Menina cuja morte - e isso não é spoiler, já que é revelado na primeira página -, se tornou uma assombração em sua vida, quase como um ponto de referência para os seus relacionamentos românticos.

Em relação a parte da língua, questão da grafia e suas mudanças ao longo dos anos, possuem toda uma explicação, que pode ser um ponto de atenção ou curiosidade para quem gosta do estudo da linguagem, confesso que não me chamaram tanto a atenção.

O momento, na memória, é ocupado apenas pela fotografia, um retângulo de papelão amarronzado com numerosas marcas de rachaduras brancas na imagem.


Exceto que me fizeram pensar que o tema principal da história é na verdade a morte. Temos a morte do amor - seja o vivido, seja o platônico -, a morte de alguns termos da linguagem, a morte de relações, a morte da infância, a morte do nosso eu de ontem. Nem mesmo a memória consegue a imortalidade, já que a mesma também vai se apagando aos poucos.

Confesso que no geral achei a leitura mais ou menos, algumas vezes achei bobinha, outras vezes um pouco enfadonha e em alguns momentos me envolvi. Mas se não fosse o bife à milanesa que criou uma associação permanente, talvez o livro caísse no esquecimento.

Era como se eu perdesse as pernas, senti que elas estavam indo e me deixando apenas o tronco e a cabeça.


Mas isso não significa que a experiência será igual para você, pois o que desencanta alguns apaixona a outros. Então você gosta de histórias que acompanham da infância a vida adulta, primeiros amores inesquecíveis, o que envolve linguagem, narrativas que envolvem memórias, talvez a leitura tenha outro significado pra ti.

Ficando a dica para quem quiser se aventurar e voltar aqui para deixar a sua opinião nos comentários.


Línguas
Vita mortale e immortale ella bambina di Milano
Domenico Starnone
Tradução: Maurício Santana Dias
TAG - todavia
2024 - 141 páginas
Publicado originalmente em 2021

terça-feira, 26 de março de 2024

Meu pai e suas apostas



Sinopse: Meu pai e suas apostas é uma história poderosa e comovente sobre a busca pela dignidade e a luta contra adversidades intransponíveis. Louise Meriwether tece uma narrativa cativante e, com elementos autobiográficos, que oferece um registro perspicaz da experiência de viver no Harlem dos anos 1930, sob o prisma de Francie, uma corajosa garotinha de doze anos. Este livro é uma jornada tocante pelas lutas e triunfos de uma família determinada a vencer as probabilidades e encontrar seu lugar no mundo.

Minha assinatura da TAG Curadoria começou o ano enviando em janeiro/2024 a indicação da jornalista Fernanda Bastos Meu pai e suas apostas da escritora norte-americana Louise Meriwether. O mimo foi um planner, como já virou tradição nos meses de janeiro para os assinantes.

Francie tem doze anos, vive com os pais e dois irmãos mais velhos em condições bastante precária no Harlem dos anos de 1930, tempos de recessão americana, e consequência direta da grande depressão que ocorreu nos Estados Unidos em 1929.

Sonhei que um bagre grande pulou do prato e me mordeu. Madame Zora dá os números cinco e catorze para peixe.


Enquanto a menina dorme em um sofá velho, o pai sustenta a família recolhendo as apostas e esperanças da vizinhança, mas o dinheiro é insuficiente para sustentar a todos e muito menos para convencer os filhos que o único caminho para melhorar de vida é a escola.

Sua melhor amiga tem explosões de violência, única forma encontrada pela menina de se libertar de tudo o que a sufoca, tornando Francie uma de suas vítimas. A vizinhança em sua volta vive em comunidade que se ajuda trocando xícaras de açúcar pela janela e tentando em meio ao sobreviver compartilhar seu apoio para as dificuldades do cotidiano. Sorrindo e sofrendo juntos conforme os obstáculos que enfrentam.

Meu pai tinha consertado o vazamento grande, mas não havia adiantado muito e, quando chovia lá fora, pingava dentro também.


O resultado são crianças criadas juntas e por conta, já que quando todos cuidam, nenhum cuida. E nisso as meninas irão vivenciar o assédio aos seus corpos, o preconceito e o abuso social sem receber as devidas explicações, enquanto decidem se os sonhos para o futuro conseguirão se manter vivos.


A escrita de Louise Meriwether

Ao optar em utilizar uma narrativa em primeira pessoa, onde o narrador é uma menina se despedindo da infância, a escritora norte-americana Louise Meriwether consegue dar leveza e fluidez em uma história onde racismo, fome, preconceito, injustiça social imperam em suas páginas.

As duas eram mais velhas que o restante de nós porque haviam repetido bastante de ano, e todos, inclusive as professoras, tinham medo delas.


Para quem vive em uma bolha como a minha, em alguns momentos chega a ser chocante a tranquilidade de como os personagens encaram as situações, sejam ela de assédio sexual, seja da desistência de sonhos, uma normalidade que nunca deveria ser considerada normal.

O fato de conter dentro da ficção momentos de autobiografia também mexerem com a minha cabeça, pois como uma boa escritora, Louise Meriwether nos coloca nas ruas do Harlem e não raro me peguei questionando em quantas ruas brasileiras não teriam meninas e famílias vivendo exatamente as mesmas situações, por mais inaceitáveis que elas sejam.


O que eu achei de Meu pai e suas apostas

Em Meu pai e suas apostas, mais do que pobreza, temos o limite com a miséria extrema, onde a família passa fome e frio, e o simples cargo de síndico para ganhar desconto no aluguel é suficiente para que eles não tenham auxílio do governo.

Eu tentava imaginar o que a havia deixado tão malvada.


Apesar dos pais de Francie desejarem que os filhos estudem, tentando acender o desejo de eles almejarem ir para uma universidade, as situações adversas desmotivam os irmãos da personagem, como nos lembrando que dependendo da situação, é mais do que querer, as vezes não sobra nada para poder.

O livro também permite que o leitor acompanhe o declínio de uma relação afetada pela fome, o marido que não aceita que a mulher trabalhe e se sente humilhado ao ter que aceitar que ela vá buscar dinheiro na rua, pode despertar conflitos de opiniões para quem vive quase cem anos depois, principalmente ao ver o cansaço e desespero diário que a mãe de Francie precisa administrar.

Simplesmente não se devia interferir nas brigas de rua do Harlem, ainda mais entre um homem e sua mulher.


No geral eu gostei bastante do livro, embora tenha alguns problemas de revisão, isto não impediu de a leitura ser fluída e chocante. Pois existe uma naturalidade latente em situações difíceis de aceitar, como de homens que trocam pão por passarem a mão no corpo das meninas. Ou na luta diária das mulheres sem rede de apoio, fazendo o possível e o impossível para garantir cada dia da sua família.

E claro o racismo pulsante, onde a violência é aplicada para admitir o que não se fez, onde sentenças injustas são proferidas, um dia-a-dia que não permite aos jovens criarem expectativas sobre qualquer futuro.

Ele só me incomodava quando eu estava sozinha, então eu sabia que ele não nos seguiria.


Um livro que não te permite finalizar a leitura de forma indiferente, seja pelo que se viveu pelas páginas, seja pelas comparações que podemos fazer com a nossa própria realidade.

Ficando a dica para quem gosta de livros com toques autobiográficos, que abordem períodos históricos, racismos e crítica social. E claro, para quem gosta de ler.


Meu pai e suas apostas
Daddy was a number runner
Louise Meriwether
Tradução: Petê Rissatti
TAG
2023 - 189 páginas
Publicado originalmente em 1970


terça-feira, 17 de outubro de 2023

País sem chapéu



Sinopse: Depois de vinte anos de exílio na América do Norte, um escritor regressa a seu Haiti natal e enfrenta o desafio de narrar essa experiência. À maneira de um pintor primitivo, com traço firme, cores vivas e perspectiva multifacetada, conta sua perambulação por Porto Príncipe e seu cotidiano singular. A cada passo surgem pequenos quadros com personagens e situações inusitadas; reencontros que disparam lembranças; diálogos inesperados, que revelam as inquietantes novidades do aqui e agora. Em meio ao vaivém de reconhecimento e estranhamento, onde se alternam o país real e o país sonhado, o autor é convidado a realizar uma viagem ao "país sem chapéu": o reino dos mortos e dos deuses do vodu. Primeiro livro de Dany Laferrière a sair em português, País sem chapéu é também um convite a penetrar num território que tem muitos paralelos com o nosso. Com o estilo límpido e permeado de ironia, Laferriére integra-se ao time de escritores de cultura híbrida, desarraigada, que erguem sua voz acima das fronteiras e falam com toda a humanidade.

No mês de agosto eu recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor brasileiro Allan da Rosa, o livro País sem chapéu do autor haitiano Dany Laferrière. O mimo foi um pequeno quadro branco magnético e uma caneta para escrever no mesmo.

O escritor Laferrière, ou Velhos Ossos como é chamado pelos mais íntimos, retorna para casa após vinte anos, sendo recebido pela sua mãe e pela sua Tia Renée. O rapaz de vinte e poucos anos que precisou abandonar o próprio país hoje é um autor reconhecido que vive o estranhamento de se sentir estrangeiro no seu próprio país.

Há muito tempo que espero este momento: poder sentar à minha mesa de trabalho para falar do Haiti com calma, com tempo.


Pois ao viver tanto tempo longe ele não estava preparado para a superpopulação e a miséria em que vários vivem, com as superstições já esquecidas e os seus próprios conflitos internos.

Tudo em meio a reencontros e redescobertas em que não só Laferrière, mas como o próprio leitor, vai descobrindo o país real e o país sonhado tem para nos contar.

E foi isso que aconteceu também desta vez: você ligou anteontem para dizer que ia chegar hoje.


A escrita de Dany Laferrière

Em uma mistura de ficção e autobiografia, o autor haitiano Dany Laferrière nomeia o personagem-narrador com o seu nome para compartilhar o próprio retorno ao país natal, ao qual precisou abandonar durante o período da ditatura militar.

País sem chapéu faz parte de uma coletânea de dez livros intitulada autobiografia americana, o que não impede a sua leitura individualmente, já que este é o seu primeiro livro publicado no Brasil.

Aproximo a xícara fumegante do meu nariz. Toda minha infância me sobe à cabeça.


Na narrativa dividida entre País real e País sonhado, encontramos subtítulos que acompanham o passo-a-passo do seu retorno, do reencontro com a família e amigos, a investigação de fatos curiosos que atraem não só a sua atenção, como também de militares estrangeiros, e os comparativos entre a cultura canadense em que viveu nos últimos vinte anos com a já esquecida que encontra em casa.

O que permite ao leitor através do narrador acompanhar o choque cultural que vai da religião na comparação e semelhanças do vodu versus religião católica, a pobreza nos detalhes da mesa capenga, passando pela mãe que oferece a própria filha até as notícias dos zumbis e da população estudada por passar semanas sem se alimentar. 

Este calor vai acabar comigo. Meu corpo viveu tempo demais no frio do norte.


E naturalmente as conexões e os estranhamentos nos reencontros, que aborda desde a mudança de visão sobre pessoas tão próximas como revisitar antigos amores.

Tudo com uma escrita direta, sem muitos diálogos ou descrições, o que exige mais atenção aos detalhes. Tornando a leitura aparentemente simples, mas rica no aspecto cultural, o que pode provocar estranhamentos e até mesmo teorias para quem olha de fora.


O que eu achei de País sem chapéu

Um alter ego que retorna ao Haiti 20 anos depois como um autor conhecido que aparece até na tv. Mas ao retornar aos seus parece compartilhar o mesmo olhar do leitor em uma terra desconhecida para ambos. Enquanto ele vai ao reencontro de suas memórias e busca informações para a escrita do seu novo livro, acompanhamos os seus questionamentos entre o país real e o país sonhado.

Os zumbis, tão falados no decorrer da história, me pareceram uma analogia a quem perdeu tudo, inclusive a esperança, e agora apenas anda miseravelmente pela terra sem esperar nada em troca. Outro retrato forte da fome é o povo estudado por militares por passarem meses sem se alimentarem, cujo ponto de interrogação também ficou na minha cabeça: como eles sobrevivem?

Deve-se oferecer primeiro aos mortos. Aqui, servimos os mortos antes dos vivos. São nossos antepassados.


No aspecto cultural achei muito interessante o fato de que o País sem chapéu é o mundo dos mortos, porque ninguém é enterrado de chapéu. Lembrando que o Haiti é um país muito quente, e eu imagino que seja bem difícil para os vivos circular pelas suas ruas sem um na cabeça.

Outro aspecto que eu achei bastante curioso foi a forma como o povo haitiano conseguiu manter viva a sua religião apesar da imposição de adotar a igreja católica, como a transformação de santos em seus deuses, permitindo que ao orar estivessem conversando com quem eles acreditam.

O problema não é tanto a multidão. É o cheiro. Por volta de cem mil pessoas concentradas em um espaço estreito sem água corrente.


No que se refere a relações pessoais, gostei muito da forma como o autor abordou a relação entre mãe e filho. Se por um lado ela ainda faz o café da manhã que ele gostava de tomar aos vinte anos, por outro se surpreende quando ele a lembra que já está na casa dos quarenta e acha que seria melhor eles dormirem em camas separadas, ainda que no mesmo quarto.

Outro fato aqui é que a distância permite que ele também a veja como mulher ao comentar a mudança das feições dela ao flertar com outros homens, realizar negociações de transporte ou troca de dinheiro sem se amedrontar.

Antigamente, o cemitério era o único lugar seguro no Haiti. Agora a gente se pergunta se vale a pena morrer neste país.


Também gostei bastante dos ditados que abrem cada capítulo. Na edição se tem o original em créole e a sua tradução, que me permitiu encontrar desde os mais reflexivos até os mais engraçados, havendo também os sem sentido nenhum para quem, como eu, não conhecia nada da cultura.

Mas apesar de compartilhar tantas situações através do olhar do personagem, o livro me pareceu um pouco impessoal. Não conseguia sentir o coração do narrador ali e fiquei pensando se isso foi uma forma de aumentar o sentimento de estranhamento, este bem presente, de quem fica tanto tempo longe do lugar de origem.

Eles vêm aqui estudar quanto tempo o ser humano pode ficar sem comer nem beber. Mas eles não sabem que já estamos mortos. Os brancos só querem acreditar naquilo que conseguem entender.


No geral gostei de País sem chapéu, me dando uma segunda visão do Haiti, cujo meu único contato tinha sido através de outro livro, chamado Clara da Luz do Mar, que também é muito bom e se passa em outra região do país.

Ficando a recomendação para quem gosta de viajar através da leitura para outras culturas, se interessa em conhecer escritores de diferentes países, curte livros de ficção com toque autobiográfico e naturalmente quem simplesmente quer ler.


País sem chapéu
Pays sans chapeau
Dany Laferrière
Tradução Heloisa Moreira
TAG - editora 34
2023 - 224 páginas
Publicado originalmente em 1996

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.


terça-feira, 18 de outubro de 2022

K.



Sinopse: K. é a história de um pai em busca do paradeiro da filha desaparecida durante os anos de chumbo. A angústia desse pai é costurada com vagar, intercalada por vozes distintas que irrompem em meio à sua odisseia. Vozes que acompanharão, ora sofrida e comoventes, ora escabrosas e cínicas, o desfiar da trama. O leitor fica suspenso, como à beira de um abismo, incapaz de interromper a leitura, mesmo que conheça, desde as primeiras linhas, o desfecho da história.

No mês de Junho/2022 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro K. do escritor brasileiro B. Kucinski. A indicação foi da também escritora brasileira Natalia Timerman. O mimo foi uma pequena caixa em MDF para ser usada para armazenar memórias.

Eu começo esta resenha dizendo que K. é um livro bastante indicado para quem não viveu os anos de ditadura no Brasil ou que conseguiu viver durante aquele período em uma bolha. Não que ele traga a história completa de anos tão vergonhosos da nossa história, mas é uma mistura de ficção e fatos reais que podem estimular a buscar por mais informações e entender o motivo pelo qual este tipo de regime nunca deveria ser aceito.

Sempre me emociono à vista de seu nome no envelope. E me pergunto: como é possível enviar reiteradamente cartas a quem inexiste há mais de três décadas?


O escritor Bernardo Kucinski nos apresenta diferentes personagens para contar nesta auto ficção o desaparecimento de sua irmã Ana Rosa Kucinski em abril de 1974. Neste período o autor estava na Inglaterra, então quem percorre a busca pela filha desaparecida é o pai, que mescla a dura realidade de não saber o paradeiro de uma pessoa amada com as próprias lembranças.

Pois K. é um judeu polonês que ao escapar para o Brasil da segunda grande guerra ainda tenta preservar o iídiche, língua materna de milhares de judeus que desapareceu durante o holocausto. O que lhe proporciona conhecer várias pessoas, ser respeitado por algumas, mas não ser ajudado por nenhuma que por aqui viviam. Descobrindo que é entre os desconhecidos, tão perdidos em suas buscas quanto ele, que algumas peças de uma quebra-cabeça nunca resolvido serão juntadas.

Ele, que nunca blasfemava, que tolerante aceitava as pessoas como elas eram, viu-se descontrolado, praguejando.


Além do pai estão os companheiros da irmã, em sua luta política, há capturas e torturas, nem todos suportam a dor, nem todos possuem resistência para ficarem calados. O risco e a condenação existem em ambos os lados, o que permite entender quem preferiu ficar neutro durante todo o período, tornando a ignorância e alienação o melhor dos salvos condutos.

Pois em meio a uma guerra interna de um país, os atos e pensamentos acabam tendo mais semelhanças do que se imagina. Havendo uma linha tênue entre o certo e o errado, o justo e o desonesto, a busca de um ideal e a desumanização.

Há um informante entre eles, um traidor ou um agente infiltrado, alguém muito próximo a eles dois, entre os poucos que restaram.

 

Há os torturadores e seus pequenos obstáculos, como o que fazer com o cachorro de um casal sequestrado? Ou a pobre faxineira que se vê diante de um lugar imundo por uma sujeira comum. 

Os que mandam ordens de morte sem remorso, como máquinas que nada vislumbram por trás de cada alma. Ou seus engenhos com cartas e telefonemas falsos, tentando iludir familiares com relações em outros países, de que seus filhos, pais, maridos, simplesmente fugiram e se encontram vivos em outro lugar.

Além do mundo que se vê e nos acalma com seus bons-dias boas-tardes, como vai tudo bem, há um outro que não se deixa ver, um mundo de obscenidades e vilanias.


E há também referência a outras famílias, como do Marcelo Rubens Paiva, que conta a história do seu pai e a luta de sua mãe no livro Ainda estou aqui, já resenhado aqui no blog.


A escrita de B. Kucinski

Memórias. O autor Bernardo Kucinski utiliza das memórias de vivência, do que conhece, do que leu e da sua imaginação para escrever um livro direto, forte, com diferentes olhares e sem nenhuma esperança.

Desde o início sabemos que não houve final feliz, que sua irmã foi mais uma das desaparecidas politicas aos quais a família não pode nem ao menos fazer uma cerimônia de despedida, já que nem isso foi permitido pelo rabino.

Podia pagar pelos livros, mas os roubava por princípio. Expropriava-os em nome da revolução socialista, dizia aos poucos cúmplices em segredo.


É uma escrita que nos faz repetir expressões como Porque isso aconteceu? Como isso foi permitido? Onde está a humanidade desta gente? O que passa na cabeça alguém querer isso de volta? Qual o motivo de manter essa tortura psicológica mesmo passado décadas dos acontecimentos?

Não é à toa que o livro foi um dos finalistas dos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos.


O que eu achei

Creio que por tudo o que escrevi até aqui, ficou claro que K. não é um livro fácil de ler. Apesar de serem menos de duzentas páginas, é uma história pesada, que gera angústia, arrepios, e um sentimento de desespero ao imaginar o que cada família passou.

Tive também momento de indignação, como da postura da USP, local onde Ana Rosa era professora, que a demite por abandono de emprego por não constar registro de sua prisão. Na comissão, nenhuma voz se levanta, ninguém se arrisca, todos simplesmente aceitam. Mas quem pode culpa-los? Quantos leitores não fariam o mesmo para se manterem vivos?

Toda vez é assim, levanta de um pulo, toda assanhada, depois desaba, burra, não sabe que eles nunca mais vão voltar. Como é que os cachorros podem ser tão espertos e tão burros ao mesmo tempo?


E como não entender a culpa paterna, de quem por tanto tempo se dedicou aos próprios hobbies sem saber que o tempo com a filha seria cortado de maneira brutal e sem resposta? Como imaginar que o tempo dedicado a literatura o afastaria da vida da filha? Que um novo casamento poderia dar início a um abismo? E principalmente, que deveriam haver mais fotos para quem sabe alguém a reconhecesse? 

Uma leitura dolorida que vale a pena ser vivida, nem que seja para não repetirmos os mesmos erros, para entender o vazio gritado por muitos, para aprender que opiniões diferentes não devem ser silenciadas, mas viverem pacificamente de forma democrática. Um livro de memórias para nos fazer lembrar o que nunca deve ser esquecido.


K.
B. Kucinski
TAG - Companhia das Letras
2011 - 199 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

O Parque das Irmãs Magníficas



Sinopse: O romance O Parque das Irmãs Magníficas é um rito de iniciação, um conto de fadas ou uma história de terror, o retrato de uma identidade de grupo, um manifesto explosivo, uma visita guiada à imaginação da autora argentina Camila Sosa Villada. Nestas páginas convergem duas facetas da comunidade trans, as quais fascinam e repelem sociedades no mundo inteiro: a fúria travesti e a festa que há em ser travesti.

No mês de Março/22 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro O Parque das Irmãs Magníficas da autora argentina Camila Sosa Villada, indicação da escritora Amara Moira. O mimo foi uma espécie de revista que lista 30 personalidades brasileiras pertencentes à comunidade LGBTQIA+.

No Parque Sarmiento, localizado no coração da cidade de Córdoba, na Argentina, quando a lua substitui o sol, um grupo de travestis espera os seus clientes protegidas pelas árvores.

Eles chegam em seus automóveis e reduzem a velocidade para fazer a sua escolha, com um gesto chamam uma e assim ela embarca para o desconhecido. Desconhecido pois os perfis de quem está atrás do volante são dos mais diversos, do jovem ao velho, do solteiro ao casado, do pobre ao rico, do viciado ao escondido, do violento ao que apenas busca satisfazer os seus desejos.

Minha mãe, por sua vez, dizia que desde o meu nascimento precisava tomar Lexotan para dormir. Essa teria sido a razão de sua relutância, de sua passividade diante da vida do seu filho.


Este grupo orbita ao redor de Tia Encarna e é ela quem encontra em uma vala um bebê, que deixado para morrer encontra nos seus braços calor e amor. Fazendo com que todas corram em debandada para leva-lo até a casa que as acolhe, a casa de Tia Encarna.

E todo o amor que este grupo destina ao bebê reflete em seu olhar, fazendo com que recebesse o nome de O Brilho dos Olhos. Mas não se engane, caro leitor do blog, não estamos falando de uma história leve.

As porradas, acima de tudo, as porradas que o mundo nos dá, às escuras, no momento mais inesperado.


Enquanto O Brilho dos Olhos cresce, Camila nos revela o pesado dia a dia do grupo. De quem se traveste de homem durante o dia para estudar, das surras e abusos que elas enfrentam nas mãos dos clientes, da rejeição familiar que aperta no peito e segue nos ombros mesmo após ter abandonado a vida anterior.


A escrita de Camila Sosa Villada

O Parque das Irmãs Magníficas mistura a autobiografia da autora Camila Sosa Villada - que nasceu Cristian Omar na cidade de La Falda, também na Argentina -, com ficção, onde há pitadas de realismo fantástico em personagens como Maria, a muda que se torna uma mulher pássaro ou a que foi o sétimo filho e se torna lobo nas luas cheias e passa estas noites trancada em um quarto.

Em momentos assim, alguém deseja ser capaz de recordar. Em momentos assim, alguém encomenda a própria memória.


No retorno ao passado fui apresentada ao pai machista de Camila, que passou do orgulho de ter um filho homem para a vergonha do comportamento do menino que gostava de se vestir e maquiar como menina. A mãe silenciosa, que aceitava todos os desmandos do marido, e nada fez para melhorar a situação.

E o menino que se escondia em um mundo próprio através da escrita se transformou em uma autora de escrita direta, sem frescura, que usa as palavras para desnudar um universo onde a festa, o acolhimento, a solidariedade, o egoísmo, a solidão e o sofrimento se mesclam.

Tão desoladas, acres, secas, perversas, ruins, sozinhas, ladinas, bruxas, inférteis corpos de terra.


Usando a narrativa em primeira pessoa, eu me senti como se estivesse sentada em algum lugar, com uma caneca de chá, escutando as histórias de Camila, que deixou claríssimo para mim o sofrimento que é para quem tem coragem de fugir do esperado e seguir os seus anseios, pois não basta não se encontrar no próprio corpo, é quase obrigatório ser humilhado e despedaçado a cada dia por aqueles que não aceitam a tua escolha, embora possam procurar por semelhantes escondidos pela sombra da noite.


O que eu achei de O Parque das Irmãs Magníficas

Definitivamente não existe nada mais perigoso para um ser humano do que as outras pessoas ao seu redor. Ao contrário de uma arma, eles te destroem aos poucos, através do olhar, das palavras, do dedo apontado, das surras, dos castigos, das negações, das proibições.

Os raios de sol nos enfraquecem, revelam as indiscrições de nossa pele, a sombra da barba, os traços indomáveis do homem que não somos.


E por Camila ter esta escrita direta, objetiva e ao mesmo tempo fluída, os personagens por ela apresentados se tornaram muito reais para mim, a ponto de ser muito fácil ser transportada tanto para o parque quanto para a casa de Tia Encarna, de sorrir com os momentos descontraídos e de sofrer quando não se consegue entender determinadas ações, se sentindo um pouco na pele delas por 205 páginas.

Pele que lida com prostituição, a sentença de morte da Aids, violência, roubo, assassinato, suicídio, solidão, injustiça, mas também amizade, amor, apoio, sonhos e descobertas.

Eu mentia para meus clientes e mentia na universidade e mentia quando voltava para a casa dos meus pais, a quem só importava uma coisa, o sonho de todos os pais: ter um filho profissional


E por isso deixo a sugestão para quem procura livros que misturam ficção e autobiografia, para quem deseja conhecer mais da realidade das travestis, ou para quem simplesmente quer ler um bom livro e ser tocado por ele.


O Parque das Irmãs Magníficas
Las Malas
Camila Sosa Villada
Tradução: Joca Reiners Terron
TAG - TusQuets Editores
2019 - 205 páginas

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