domingo, 23 de dezembro de 2012

E mais um ano passou...


Para os fãs dos livros que acompanham o blog ou eventualmente venha parar por aqui, desejo que Papai Noel lhes traga uma noite tão especial quando aquele livro escolhido para morar no seu coração.
Que ele lhe traga tempo para se dedicarem a novas histórias, e quem sabe, deixar embaixo da árvore mais livros inesquecíveis.

Um Feliz Natal a todos.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Os Crimes do Mosaico

O leitor está em Florença. O ano é 1300. A cidade é comandada por um grupo de priores. Mas quando ocorre um assassinato brutal em uma obra, a guarda principal opta me chamar um deles pelo seu conhecimento: o poeta Dante Alighieri.
A vítima é um mosaicista chamado Ambrogio, conhecido por diversos trabalhos. Morto em seu local de trabalho, com seus próprios materiais, tudo leva a crer que o motivo é o seu trabalho atual, um estranho mosaico inacabado.
Essa é a cena inicial do thriller de Giulio Leoni, que ao transformar Dante em um detetive, leva o leitor pelas ruas de Florença em busca da chave para desvendar esse grande mistério, que envolve um grupo de homens de diferentes áreas dispostos a criarem uma universidade da cidade, uma dançarina que transpira sexualidade e segredo, levando o poeta a esquecer por alguns momentos sua Beatrice, além de grandes debates sobre o mundo e Deus.
Em paralelo, homens do papa Bonifácio chegam a Florença com a intenção de domina-la, fazendo com que Dante precise dividir os seus pensamentos entre a busca pelo assassino e evitar que homens em busca do poder absoluto tomem a sua cidade.
Na história Dante é grosseiro, amargurado e endividado. O seu saber muitas vezes o faz humilhar aqueles que julga ignorante, como o chefe da guarda. Como não conheço o suficiente da história do poeta e político, apenas que ele realmente enfrentou o papa Bonifácio e por isso acabou exilado, morrendo sem nunca mais pisar em sua amada cidade, ficou a dúvida se esse era o perfil real ou apenas uma pitada para tornar o personagem da ficção mais interessante.
Os Crimes do Mosaico é um livro bem escrito, que pode levar o leitor a pensar sobre diversos aspectos e ao mesmo tempo leva-lo a conhecer um pouco da antiga Florença. Mas ao mesmo tempo ele não me prendeu. Gostei da história, mas não fiquei com aquela vontade de ler novamente ou curiosa por outro livro do escritor. Não sei se foi o período escolhido pela leitura, mas o fato é que me despeço da última página sem dor.

Os Crimes do Mosaico
Giulio Leoni
Tradução Gian Bruno Grosso
Editora Planeta
2004 – 379 páginas

domingo, 18 de novembro de 2012

Água para Elefantes


Jacob Jankowski não sabe se tem 90 ou 93 anos. Ele mora em uma casa de repouso para idosos, não gosta da comida e prefere usar o seu andador a cadeira de rodas. A chegada de um circo deixa todos em polvorosa, mas é quando McGuinty, outro idoso, afirma que costumava levar água para os elefantes que ele fica furioso, chamando-o de mentiroso.
 
A soma dos fatos o faz recordar sua juventude, mais precisamente o período em que perdeu os seus pais em um acidente de carro e descobre que eles estavam endividados para pagarem sua faculdade de veterinária. Confuso, ele abandona os exames finais e acaba fugindo em um trem, o trem dos Irmãos Benzini, o Maior Espetáculo da Terra.
 
Sara Grued divide a sua narrativa em duas partes. Se de um lado temos o velho Jacob, saudoso de sua esposa e esquecido pelos filhos, do outro temos um mundo agitado e nem sempre colorido, onde o leitor é apresentado a Marlena, uma jovem bonita que encanta o coração do jovem Jacob, mas é um desejo proibido, por estar casada com August, um homem temperamental, que alterna o seu humor constantemente, sendo sorridente em um momento e violento em outro.
 
Também temos Tio Al, dono do circo, que paga os seus funcionários quando tem vontade, corre o país recolhendo os restos de circos falidos e atira seus empregados do trem em movimento quando quer reduzir custos.
 
Entre os personagens pitorescos temos Camel e Walter, o primeiro responsável por colocar Jacob no circo, o segundo é obrigado a dividir o dormitório com aquele jovem estranho. E claro, Rosie, a grande elefante que só atende ordens em polonês.
 
Romance, drama e comédia se misturam de forma simples e graciosa nesta história bonita e rápida de ler. Existe uma naturalidade nos fatos que nos permite entrar na rotina dos personagens e dividir sentimento com eles.
 
Um livro sobre juventude e velhice, escolhas, amores e amizades. Uma boa pedida para o verão que está chegando.
 
Uma última observação: Não vi o filme, mas mesmo conhecendo os atores, meus personagens são bem diferentes na minha imaginação.

 
Água para Elefantes (Water for Elephants)
Sara Grued
Tradução: Anna Olga de Barros Barreto
Editora Arqueiro
2006 – 272 páginas

domingo, 4 de novembro de 2012

Trilogia Princesa


Ao contrário do que o título possa insinuar os livros de Jean P. Sasson não são uma narrativa sobre contos de fada ou um romance onde o amor é o grande vencedor. Os livros Princesa, As Filhas da Princesa e Princesa Sultana nos contam uma realidade muito distante dos brasileiros: os das mulheres árabes.
Sultana é uma princesa saudita, pertencente à família real da casa de Al Saud, que entregou os seus diários a escritora americana. Seu nome é mantido sob sigilo, pois a revelação da sua identidade a condenariam, assim como a sua família.
Logo na introdução do primeiro livro ela explica a diferença entre filhos e filhas. O fato de um menino ser tratado como Deus, e um homem ter várias esposas até que uma gere o que ele deseja, o medo constante da esposa que deu luz ao primogênito.
Sultana nunca aceitou o seu papel. Desde cedo provocava o irmão, em um mundo onde a mulher não possui o direito de se expressar. Mas também teve sorte, pois sua mãe conseguiu educar suas filhas e mesmo sendo rebelde, seu pai fez um casamento com um homem jovem e que a permitia falar. Ao contrário de sua irmã Sara, que sonhava em estudar arte na Itália e virou a terceira esposa de um homem de 62 anos, tentando o suicídio menos de dois meses após a cerimônia.
Ter que esconder o rosto, não poder estudar, não poder dirigir, violência física e sexual, religião. Jovens mulheres ousadas que abordam bonitos estrangeiros para quebrarem a monotonia e encontram a morte. Compras no exterior e a inveja da liberdade das mulheres estrangeiras. Necessidade de lutar pelo respeito. Depressão. Inutilidade. Uma pequena solução que pode se tornar a grande solução em um mundo de humilhações.

Nos três livros acompanhamos Sultana da infância até a sua maturidade, todas as situações que ela vê. Em muitos momentos é possível sentir o sofrimento. Tristeza. Horror. O desejo que tudo fosse ficção e não uma história real.
Uma trilogia para todos os que prezam a liberdade e o ser humano. Que nos faz ter o desejo de lutar por maior igualdade e não entender como muitos governos podem apoiar esses ditadores, trocando o respeito ao próximo pelo petróleo.
Princesa - A história Real da vida das mulheres árabes por trás de seus negros véus
Tradução Regina Amarante
247 páginas
As Filhas da Princesa - As revelações íntimas de uma mulher saudita sobre sexo, amor, casamento - e o destino de suas belas filhas - por trás dos véus
Tradução Yara A. Moreira
240 páginas
Princesa Sultana - Sua vida, sua luta
Tradução Therezinha Monteiro Deutsch e Sylvio Deutsch
303 páginas
Autora Jean P. Sasson
Editora Best Seller


sábado, 27 de outubro de 2012

Nada Dura Para Sempre


Médicos, mafiosos e advogados se misturam neste romance escrito em 1994 por Sidney Sheldon. A mocinha neste romance é Paige Tayler, uma médica que está sentada em um tribunal sob acusação de ter assassinado um paciente por um milhão de dólares.
 
Ligada a Paige estão suas amigas Kate Hunter e Betty Lou Taft, únicas mulheres em um grande grupo de residentes no ano de 1990 em um hospital de São Francisco. Se as primeiras impressões não são exatamente as mais certas, o laço que irá se formar entre as três é indiscutível.
 
Se Paige cresceu junto à cruz vermelha e abraçou a medicina por amor. Kate precisou muito para superar o preconceito de sua cor e ser aceita em uma universidade. Betty Lou sonhava em ser enfermeira, mas foi obrigada pela família a ser médica, adotando métodos poucos ortodoxos para superar os obstáculos da faculdade e no próprio exercício da profissão.
 
Família, amores, conquistas, apostas, lágrimas, perseguições, morte, ironia e redenção. Como um bom romance de Sheldon, nada disso falta. A história é fácil de ler, mas nem por isso leve, pois as personagens estão longe de serem perfeitas em relação a itens como moral, ética e auto-estima. Mesmo assim, é difícil não sofrer junto com elas.
 
Um livro para ler nas férias e relaxar nas mãos de um dos mestres dos best-sellers.

Nada Dura Para Sempre
Sidney Sheldon
Record
Tradução: Pinheiro de Lemos
366 páginas

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Traição Mortal


Dizem que na guerra e no amor vale tudo. No caso do décimo segundo livro da série mortal, homens que operam com negócios ilegais resolvem optar em contratar um assassino de aluguel conhecido como Sly Yost para eliminar os que atravancam o seu caminho.

Yost possui uma assinatura nas suas mortes: espancamento, estupro e um fio de prata, independente do sexo. Procurado por muitos, inclusive pelo FBI, resolve atacar os funcionários de Roarke, o que faz com que ele caia na mira da tenente Eve Dallas.

Nesta história Eve irá encontrar dois inimigos, o tempo, já que o assassino possui um cronograma curto para suas execuções e a inveja, já que em uma semana ela evolui mais do que os órgãos federais e internacionais, e muitos agentes irão querer levar a glória de capturar um dos homens mais procurados.

Para dar um toque de leveza, os ataques de ciúmes e McNab e Peabody geram situações engraçadas, assim como a terrível esteticista Trina, a única mulher capaz de provocar medo em Eve.

Em cena, um amigo antigo de Roarke, Mick, que irá revelar um pouco das peripécias dos dois em um passado não tão distante.

Amizade e dinheiro estão no centro dessa história sangrenta, onde os detalhes de cada morte podem provocar arrepios até no leitor mais desatento.

Traição Mortal
Nora Roberts
Tradução: Renato Motta
Bertrand Brasil
420 páginas.

sábado, 13 de outubro de 2012

A Batalha do Apocalipse


O fim do mundo começou no sétimo dia. Quando Yahwed foi descansar e deixou os humanos aos cuidados dos seus arcanjos. Mas na história de Eduardo Spohr, não apenas Lúcifer inveja os homens, mas também os seus irmãos, como o príncipe dos Anjos, Miguel.
 
Entre as tentativas de eliminar com a vida na terra, onde é citado o dilúvio – aqui uma obra de Miguel e não do criador-, um pequeno grupo de anjos guerreiros se revoltam contra as ordens, sob o comando do general Ablon. Mas como os arcanjos são poderosos, eles se tornam renegados, expulsos do céu e condenados a viver na terra.
 
No céu, a luta pelo poder faz com que Lúcifer entre em batalha com Miguel, e Gabriel assuma a responsabilidade de proteger Cristo de seus irmãos. Enquanto o diabo é expulso, os renegados são caçados na terra.
 
 
Entre fugas e andanças, Ablon, o general dos renegados, vê seus seguidores morrerem e descobre o amor em uma humana, a feiticeira necromante Shamira, que possui o dom de utilizar a energia dos mortos para permanecer jovem durante vários séculos.
 
 
Mas ao final do sétimo dia é também a hora do apocalipse. E neste momento, Ablon terá que realizar muitas escolhas e descobrir em quem irá ou não confiar. Enquanto os anjos se preparam para a grande guerra dos arcanjos, para saber com quem ficará o poder, Ablon escuta tanto do demônio quanto de Gabriel propostas de aliança. Em paralelo, a terceira guerra mundial explodiu, e Nova York já desapareceu.
 
 
A Batalha do Apocalipse é uma história fantástica bem interessante. Tem a ironia de Deus estar dormindo enquanto a humanidade sofre várias tentativas de aniquilação por parte do seu principal arcanjo. Uma nova visão sobre o surgimento de Cristo, que me lembrou a ousadia de Dan Brown em O Código da Vinci, mas pela diferença de escrita, não gera nenhum protesto entre os mais religiosos. A filosofia sobre o nosso livre arbítrio, como uma lembrança de que muitas vezes colocamos no destino a responsabilidade por algo que foi de nossa própria escolha.

Por outro lado, considero exagero do José Louzeiro, que escreve a sua opinião nas orelhas do livro, comparar a história com o estilo de J.R.R. Tolkien, autor da trilogia Senhor dos Anéis. Pois em alguns momentos, Spohr exagera no inverossímil, podendo deixar o leitor mais exigente um pouco incomodado, atrapalhando assim o ritmo de leitura da história.
 
Enfim, uma história interessante, com mocinhos e bandidos, amores e ciúmes, coragem, fé e redenção. Uma boa leitura para quem gosta de história fantástica, anjos e sangue.

A Batalha do Apocalipse – Da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo
Eduardo Spohr
Editora Versus
586 páginas

domingo, 7 de outubro de 2012

O Príncipe Sapo e Outras Histórias


Na semana do dia da criança, escolhi os Contos de Grimm Volume 2, onde são reunidas 24 histórias, algumas adaptadas e outras que podem ser uma verdadeira novidade para o leitor.

Em “A Gata Borralheira” encontramos uma versão um pouco mais sangrenta, já que as irmãs cortam pedaços dos pés para que os mesmos entrem no sapatinho de cristal. Já “O Príncipe Sapo”, conto título deste livro, apresenta um típico final feliz.

Como de costume, nas histórias iremos encontrar bonitas princesas, bruxas, pobreza e riqueza. Também há distorção de moral, sentimento de vingança e muitos símbolos para quem gosta de analisa-los.

Um exemplo é “A Luz Azul”, onde um anão mágico se torna a salvação para um soldado dispensado sem um tostão e sua máquina de matar. Ou em “Abibe”, onde o personagem título coloca a esposa para morrer em seu lugar para se salvar.

“Pele-de-asno” pode chocar um leitor mais desavisado, ao mesmo tempo sinalizar um problema bastante antigo, se lembrarmos que Jacob e Wilhelm Grimm começaram a publicar em 1812.

Um livro para recordar a época do Era uma vez em um tom nem tão inocente assim e indicado mais para os pais do que para os filhos.


Contos de Grimm Volume 2 – O Príncipe Sapo e Outras Histórias
Irmãos Grimm
Tradução: Zaida Maldonado
L&PM Pocket
204 páginas

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

As Mulheres do Embaixador


Na primeira página a autora já avisa “As mulheres do embaixador podem estar em Londres, Paris, Berlim, Washington ou Moscou. Mas, quando menos espera, você as encontra num castelo da Cornualha – o reino de Arthur e de sua infiel Guinevere, o reino onde o rei Mark enviara Tristão em busca de sua noiva Isolda para ser traído por ambos”.

Geraldine e Ginny são as mulheres que irão nos conduzir por uma jornada familiar, onde tudo começa em novembro de 1930, em que as duas, grávidas, se encontram em um parque e ali nasce uma amizade com um verdadeiro laço de irmãs.

A segunda guerra irá confina-las junto com os seus filhos em um castelo, e assim encontrarem Livy, a pequena filha da empregada, que por obra do destino, acaba se juntando a família.

A figura masculina de grande força é Andrew McClintock, patriarca de um grande império e sogro de Ginny. Mas conforme o novelo vai se desenrolando, notamos que a manivela da história é Harry, o diplomata onipresente que interfere no destino de quase todos os personagens, menos da sonhadora Chris, a jovem menina rica que se perde em Hollywood.

Passando pela segunda guerra mundial, a coroação da rainha da Inglaterra e a espionagem entre americanos e soviéticos, estão histórias de amor, conquista, traição e superação.

Catherine Gaskin faz o leitor acompanhar nascimentos e mortes, milagres e tragédias. A força de cada escolha que pode nos emocionar ou nos entristecer junto com os que ficam. Compartilhar segredos que os personagens do livro nunca irão descobrir.

Com uma narrativa fluida, é impossível não se apaixonar por essa história ou sentir saudade quando se chega a última página. A promessa feita na contracapa não é uma mentira, depois de ler essa história, é impossível esquecer.
 
As Mulheres do Embaixador
Catherine Gaskin
Tradução Aulyde Soares Rodrigues
Editora Record
1985 - 535 páginas

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Cinquenta Tons de Cinza

Ao contrário do que li em alguns lugares, 50 tons só tem em comum com Crepúsculo a narrativa em primeira pessoa da personagem. Se a história de amor entre o vampiro e a humana resgata valores já esquecidos, misturado com lendas urbanas, e releitura dos hábitos de um dos mais charmosos seres das trevas, em 50 tons temos sexo com pincelada de personagens com problemas psicológicos.

Anastácia Steele se acha feia e com opinião, mas sempre cede aos outros, mesmo contra a vontade. Christian Grey é um milionário, que teve a sorte de ser adotado por uma família amorosa e de posses, mas que quase se tornou errante até encontrar quem o dominasse na adolescência e o tornar um obcecado por controle.

Hoje, ele é um dominador, com direito a contrato de o que deverá ser realizado ou não, de obrigações, direitos e deveres. E quando Anastásia vai entrevista-lo, substituindo uma amiga doente, ao ouvi-la dizer ‘sim, senhor’, resolve persegui-la, pois acredita que ela é uma legitima submissa.

É claro que os dois se apaixonam, mas para dar uma quebra entre as cenas eróticas, pequenas discussões precisam surgir, sejam pessoalmente ou via e-mail, para servirem de gancho para os demais livros. De um lado, Anastácia tenta se convencer de que gosta de apanhar e quem sabe em breve estará cantando Hanky Panky, de outro, aos poucos, o passado do milionário bonitão vai se revelando e ele acaba dando mais a ela do que a todas as outras submissas que passaram pelo seu quarto da dor.

Não tenho uma opinião específica sobre o livro, se o início é chato e os diálogos adolescentes (embora os personagens estejam na segunda fase dos vinte), as cenas de sexo são quentes e sensuais, e sim, se o livro faz sucesso, me parece que a razão são elas. Talvez a discussão seja o quanto se cede por amor, ou o que uma baixa auto-estima pode causar, ou talvez seja simplesmente um pornô feminino que atingiu o estrelato.

A verdade é que a leitura pode ser 8, 40 ou 80. Pode-se desistir da leitura. Pode-se ter boas idéias e parar no primeiro livro. Ou quem sabe se envolver nesta pseudo-história de amor e devorar toda a trilogia. Como dizia aquela velha senhora comendo um velho queijo: é uma questão de gosto.

Cinqueta tons de cinza
E L James

Tradução: Adalgisa Campos da Silva

Editora Intrínseca
2012 – 480 páginas

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Julgamento Mortal


Um policial disfarçado, uma boate de strip-tease, um distintivo banhado de sangue. Um assassino solitário decidido a fazer justiça, eliminando aqueles que não cumprem o seu papel. E mais uma vez a tenente Eve Dallas se vê entre o pessoal e o profissional.

No décimo primeiro livro da série mortal, Nora Roberts coloca a sua personagem em frente a uma rede de corrupção, onde vários policiais foram comprados por um bandido poderoso, que por coincidência, foi sócio no passado em negócios não muito honestos de Roarke, o marido tudo de bom de Eve.

Este é responsável pelo conflito interno de Dallas, que ao tentar esconder uma informação de Roarke, acaba enfrentando uma briga em casa relacionada à confiança e proteção, e a questão sobre ser válido ou não mentir por amor?

As cenas calientes estão reduzidas, em compensação o contato de Eve com Ricker faz com que mais uma cena do seu passado seja revelada, em um quebra-cabeça que está longe de começar.

Personagens como Mavis e Peabody aparecem menos, e ao contrário do aviso da contracapa, este é um dos poucos livres da série cujo leitor consegue ler independente dos demais, pois é o que menos possui referencia a episódios anteriores.

Leitura obrigatória para os viciados nesta série policial. Para quem ainda não conhece, aconselho começar por Nudez Mortal, livro que nos apresenta ao casal protagonista.

domingo, 19 de agosto de 2012

O Prisioneiro do Céu


A decisão de Fermín e Bernada se casarem traz o passado de volta, entrelaçando novamente o escritor David Martín e os Sempere. Em O Prisioneiro do Céu, Carlos Ruiz Zafón une as histórias de dois de seus livros: A Sombra do Vento e O Jogo do Anjo.

Novamente o leitor é levado pelas ruas de Barcelona, atiçando a curiosidade de conhecer mais a fundo esta cidade espanhola (fato acentuado logo de início, ao se deparar com um mapa da mesma). Os três homens da Sempere e Filhos continuam despertando a simpatia do leitor. Assim como as revelações do passado cortam o coração de Daniel e de quem as lê.

Iniciamos em dezembro de 1957, é véspera de natal, a Sempere precisa vender mais livros para que pai e filho paguem as suas contas. Fermín está com a data do casamento marcada e a cada dia mais magro, demonstrando tristeza no olhar. Mas é um estranho comprador, que compra uma edição rara de O Conte de Montecristo, o responsável por abrir a porta para o coração de Fermín, a morte de Isabella e o desejo de vingança em Daniel.

A escrita de Zafón continua rápida e cativante. Por outro lado, em comparação aos outros dois livros, O Prisioneiro do Céu, pra mim, deixou algo faltando. A aura de mistério e literatura parece enfraquecida. Várias questões parecem estar em aberto, tornando o terceiro livro uma espécie de ponte para uma quarta história que eu não sei se irá existir.

Mesmo assim, é um livro que não se pode deixar de ler. E como a ordem dos títulos não afeta o entendimento (apenas atiçam a curiosidade), fica claro que eles fazem parte de um quebra-cabeça. Resta aos fãs descobrirem se a frase “Acabou de começar” é realmente uma promessa.

O Prisioneiro do Céu Carlos Ruiz Zafón Tradução: Eliana Aguiar Editora Suma das Letras 2011 - 249 páginas

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cinema e Loucura

O que Brás Cubas e Íris podem ter em comum, assim como Bem Sanderson e Gwen Cummings? E que tal John Nash e Jerry Fletcher? Talvez Jack, Prot e Jack Torrance?

Talvez alguém responda: todos são personagens de filmes. Sim, está correto. Mas conforme os professores J. Landeira-Fernandez e Elie Cheniaux, eles são exemplos de diversos transtornos, como é registrado em seu livro Cinema e Loucura Conhecendo os Transtornos Mentas Através dos Filmes.

O título não mente, usando o comportamento de figuras como Telly (de Kids), Maggie (Em seu lugar), Raymond Babbitt (Rain Man), Scarlett O’Hara (E o vento levou) e Hannibal Lecter (O silêncio dos inocentes), é possível, mesmo para o leitor que não tem nenhuma formação em psicologia, compreenda melhor vários comportamentos e sintomas.

Apesar dos conceitos, a escrita é clara e cativante, eu, que sou leiga, não achei o livro em nenhum momento chato ou entediante. O único perigo é começar a enquadrar as pessoas dentro dos transtornos, o que pode ser uma brincadeira divertida ou até apavorante, conforme o diagnóstico.

Também é possível compreender o porquê do fascínio que algumas pessoas (sejam da ficção ou da vida real), mesmo possuindo caráter duvidoso, podem nos fazer acreditar nelas e muitas vezes torcer ou até mesmo ajudar.

Não fiz uma pesquisa para verificar como o livro foi recebido no meio da psiquiatria, mas para quem é de fora, a leitura pode trazer um conhecimento para quem gosta do assunto, ou se interessa por cinema ou simplesmente para leitores que buscam ler um pouco de tudo.

Cinema e Loucura Conhecendo os transtornos mentais através dos filmes
J. Landeira-Fernandez, Elie Cheniaux
Editora Artmed
2010 – 287 páginas

terça-feira, 31 de julho de 2012

Queda de Gigantes

No dia 22 de junho de 1911, o jovem Billy Williams completava treze anos e sofre um trote dos mineradores, ficando o dia inteiro no escuro, mas tranqüilo por sentir a presença de Jesus.


Em janeiro de 1914 o conde Fitzherberth recebe o casal real. Casado com uma princesa russa, vive um tórrido romance com a sua emprega, enquanto sua irmã conhece um diplomata alemão.

Nos Estados Unidos, o jovem Gus Dewar é assessor do presidente, acompanhando com admiração um homem contraditório, que defende a paz, mas não a igualdade entre as raças.

Encontramos na Rússia os irmãos Peshkov, que quando crianças assistiram a mãe ser morta por soldados. Sonhando em partir para os Estados Unidos, um é trabalhador e justo, o outro é um boa vida que não pensa nas consequências.

De janeiro de 1914 a janeiro de 1924, Ken Follet nos guia através dos seus personagens, no primeiro livro da trilogia do século, pelos egos de nobres e governantes que levaram o mundo a primeira guerra mundial e a morte de milhares de jovens inocentes, pela batalha pelo voto feminino na Grã-Bretanha e o crescimento do partido dos trabalhadores. A queda da monarquia da Rússia e a liderança de Lênin.

Interligando a vida dos personagens, é possível rir, sofrer e refletir de quem forma o desejo de sangue de poucos pode mudar a vida de muitos, trazendo pobreza, fome e desespero para os honestos e oportunidades para os que se julgam espertos e gostam de levar vantagem.

Um livro maravilhoso, que mistura fatos reais e ficção, de forma que amarram o leitor em suas novecentas e dez páginas. E ao fechar, o leitor irá desejar ardentemente iniciar a leitura do segundo volume.

Queda de Gigantes
Trilogia O Século
Ken Follet
Editora Sextante
2010 – 910 páginas

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A cura de Schopenhauer


Irvin D. Yalom é um psiquiatra que já escreveu vários livros sobre psicoterapia, como o clássico Teoria e Prática da Psicoterapia em Grupo, e que se arriscou a escrever best-sellers cujo assunto é: psiquiatria. Atingiu grande sucesso com Quando Nietzsche chorou e, na mesma linha, publicou Mentiras no Divã e A cura de Schopenhauer.

A cura de Schopenhauer, de 2005, é uma história sobre morte, vida, terapia em grupo e, obviamente, Schopenhauer. Mas o ponto de partida é a descoberta de um psiquiatra sobre o seu prazo de validade: a descoberta de um melanoma e do seu tempo de vida provoca inicialmente ações na sua vida privada, e, mais tarde, isso vai invocar novas reações no seu grupo de terapia.

Ao descrever as sessões de um grupo de terapia, verifica-se que, por mais diversos sejam os motivos que levam as pessoas até a ele: problemas no casamento, com os homens, baixa estima, todos giram em torno de uma questão: relacionamentos. Paralelo a isso vem uma pequena biografia do filósofo Arthur Schopenhauer, um homem que pregou solidão e sofrimento em seus livros, buscava fama embora a negasse, e ironicamente só atingiu o sucesso ao escrever Parerga e Paralipomena, obra em que o autor, conforme Yalom “abrandou o pessimismo, diminuiu as lamentações e deu conselhos sensatos de como viver”.

Irvin. D. Yelom tem o mérito de descrever filosofia e psiquiatria para leigos. É fácil acompanhar a dinâmica da terapia de grupo, principalmente como o psicanalista o coordena, a sua forma de selecionar as questões que irão fazer as pessoas se revelarem ou se inflamarem. Ao mesmo tempo, as frases filosóficas que aparecem na trama entram em um contexto óbvio para o leitor, tendo como âncora um personagem que age como um espelho de Schopenhauer. Quando isso não é possível, um dos personagens se encarrega de explicar o significado.

A questão das frases filosóficas ou até os diálogos da terapia de grupo podem dar ares de auto-ajuda ao livro, como: As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidos e, na falta das grandes, até o menos desgosto nos atormenta e na frase de Cícero Qualquer um pode ser completamente feliz, se depender apenas de si e tiver em si mesmo tudo o que chamar de seu.

Exceto pelas frases e a biografia de Schopenhauer, os vários problemas relatados pelos personagens e a visão humanizada do psiquiatra (que por ser médico, muitas vezes é visto de outra forma por seus pacientes), dão uma sensação de “dejávu” para quem já leu, por exemplo, Mentiras no Divã, pois os problemas da humanidade parecem não se alterar muito, além da descrição física, situação financeira e local onde moram.

Para os leitores que se interessam por psiquiatria e relacionamentos, as obras do autor são um prato cheio e podem oferecer idéias aos que buscam livros não técnicos da área. Para quem já leu outro tipo do assunto e não tem intenção de continuar a ver mais do mesmo ou está se sentindo incomodado com as reclamações de vizinhos, amigos, colegas ou parentes, a sensação pode ser a mesma citada pelo psiquiatra da A cura de Schopenhauer sobre seus alunos: “Lembrava que, anos antes, quando dava aulas de terapia de grupo, os alunos iniciantes reclamavam do tédio de observar pacientes falando durante noventa minutos nas sessões”. Esse é um risco que o leitor deverá correr, de se sentir emocionado com as histórias do grupo de terapia ou de sentir tédio com os problemas de cada um, já que no mundo real, se confronta com muitos Philips, Pams e Bonnies.

Yalom, Irvin D. – A cura de Schopenhauer – Ediouro – Rio de Janeiro, 2006.

domingo, 15 de julho de 2012

Enquanto água


Com 18 contos, Altair Martins distribui o seu livro em 4 fases. Ao iniciar “da margem futura”, é como se o leitor chegasse à beira do litoral gaúcho e plantasse os seus pés bem perto do mar. A cor achocolatada não lhe revela nada, até a água dar a primeira lambida nos dedos e os arrepios surgirem.

Conforme se termina uma história e começa outra, nota-se que o repuxo do mar já lhe toma parte das pernas, indo subindo rapidamente, na mesma velocidade com que as páginas são devoradas.

Quando o sentimento de total sufocamento chega, já é tarde, você já está no meio da escuridão do mar. Se debate, suplica por ar, mas não consegue. Em choque, abre a boca para gritar por socorro, mas este gesto só serve para que a água termine de lhe dominar. Ao finalizar a leitura, é possível ao leitor voltar a respirar, não contendo o instintivo ato de verificar se os cabelos estão secos, pois o sentimento de ter sido engolido pela água ainda é forte.

Todas as histórias causam algum tipo de impacto, são visões hora realistas, ora ilusórias, mas nenhuma brincalhona. Muitas vezes cruel, a sequência dos contos proporciona um peso no peito e uma secura na garganta. Você deseja e ao mesmo tempo se sente amedrontado pela água.

Para os leitores, um único aviso, não espere final feliz. De resto, deixe-se levar pelas palavras do autor.

enquanto água
Altair Martins
Editora Record
2011 - 151 Páginas

domingo, 8 de julho de 2012

Pequena Abelha

Na contra-capa é dito o seguinte:

Não queremos lhe contar o que acontece neste livro. É realmente uma história especial, e não queremos estraga-la. Ainda assim, você precisa saber algo para se interessar, por isso vamos dizer apenas o seguinte:

Esta é a história de duas mulheres cujas vidas se chocam num dia fadítico. Então uma delas precisa tomar uma decisão terrível, daquelas que, esperamos, você nunca tenha de enfrentar. Dois anos mais tarde, elas se reencontram. E tudo começa...

Depois de ler este livro, você vai querer comenta-lo com seus amigos. Quando o fizer, por favor, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como esta narrativa se desenrola.”.

Eis o meu primeiro desafio: como fazer a resenha sem quebrar esta promessa silenciosa que Chris Cleave nos pede tão delicadamente? Difícil. Usar os adjetivos que estão distribuídos pela capa também não acrescentaria muito.

Quem sabe poderia dizer que a foto interna com o menino fantasiado de Batman não está ali à toa. Mas logo nas primeiras páginas você irá compreender.

Penso então estar liberada para falar que sua narrativa ocorre em primeira pessoa, alternando as vozes. Que cada página contém uma revelação, como se fosse um paciente que fez uma cirurgia plástica no rosto, e conforme as ataduras lhe são retiradas, consegue-se descobrir o resultado daquilo que nos deixa tão curiosos.

No meu caso, a curiosidade foi substituída por várias emoções, como angústia, comoção, pena, tristeza e impotência. Não sei se poderia estar escrevendo isso sem desobedecer Cleave, mas definitivamente não estamos falando em uma história feliz.

Se eu recomendo a leitura? SIM. O livro é bem escrito, a história é envolvente e sai do lugar comum. É sobre diferenças e igualdades, alegrias e tristezas, perdas e descobertas. É um livro para quem tem tudo e vive reclamando da vida. É um livro para quem não tem nada e não se mexe para melhorar. É um livro para quem luta e para quem não precisa mover um dedo. Para corajosos e covardes. É um livro pra mim, pra você, para todos nós, que podemos fazer alguma diferença.

Pequena Abelha
Chris Cleave
Tradução de Maria Luiza Newlands
Editora Intrínseca
272 páginas

domingo, 1 de julho de 2012

A Alma Imoral

O livro de Nilton Bonder, um rabino reconhecido como pensador nas áreas de humanismo, filosofia e espiritualidade, promete mudar o conceito que o leitor tem sobre a alma e a traição, mas infelizmente ele não me prendeu nem para terminar a leitura.

Citando Darwin, retornando aos tempos de Adão e Eva, fazendo a ligação entre as palavras traição e tradição e o projeto Genoma Humano (que me fez lembrar do livro Símbolo Perdido), o autor utiliza diversas bases para dizer que toda alma traí, seja de forma sutil ou não, seja a si mesmo ou aos outros.

Mas eu, particularmente, achei cansativo. Provavelmente por não ter uma alma tão aberta no que se refere à traição. Acredito piamente que não vale a pena enganar o outro e muito menos a si mesmo, pois uma hora ou outra a verdade irá lhe atropelar, deixando a alma em pedaços e incapaz até mesmo de qualquer imoralidade.

Parei a leitura na página 50, no dia em que li uma crônica do David Coimbra em que ele dizia não perder tempo com livros que não o agradasse. Isso fez com que eu me livrasse do peso da obrigatoriedade em finalizar esta leitura, traindo assim, sem culpa, o meu objetivo de ler todos os livros até o final. O que me fez pensar que Nilton Bonder tem certa razão.

A Alma Imoral
Nilton Bonder
Editora Rocco
135 páginas

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Doidas e Santas

De 2 de outubro de 2005 à 13 de julho de 2008 é possível relembrar filmes, fatos políticos, livros, peças e notícias pelos olhos da cronista e romancista Martha Medeiros.

Doidas e Santas é uma coletânea de crônicas publicadas em jornais, sites e livros. Algumas, como a Mulher Banana, tiveram um sentimento de reencontro, já que eu ainda me recordava do texto lido na Zero Hora (ao qual confesso, ser uma delas).

Como li mais da metade do livro em uma manhã, enquanto o Brasil jogava com a Dinamarca, observei que alguns assuntos se repetem, como a morte e a velhice. O aproveitar e se aceitar estavam latentes em diferentes dias, meses e anos. O amor também está lá. Não na sua forma romântica, mais fantasiosa, mas na forma do dia-a-dia, onde a relação, o companheirismo e a troca são mais importantes que corpos definidos ou ter o carro do ano.

Certos textos marcam bem a época (como o que se refere ao adesivo de mais 4 anos de governo Lula não) e outros que serão atuais mesmo daqui a cinqüenta anos como o que incentiva realizar uma limpeza física em casa e praticar a arte do desapego.

Posso dizer que essa coletânea é uma mistura de dicas, história e revisão de sentimentos. E também uma forma de conhecer melhor a própria autora, já que mais de noventa por cento dos textos referem-se a experiências pessoais, em alguns casos, parecendo um bate-papo em uma mesa de bar.

Este foi o primeiro livro do gênero que li, e por conhecer muitos dos textos, não consegui formar uma opinião específica, mas a experiência foi no mínimo interessante.

Doidas e Santas
Martha Medeiros
L&PM Editores
2008 – 231 páginas

terça-feira, 1 de maio de 2012

Múltipla Escolha


No esforço de realizar tarefas que talvez nem nos digam respeito, tememos olhar em torno e constatar que muita coisa falhou. Se falharmos, quem haverá de nos desculpar, de nos aceitar, onde nos encaixaremos, neste universo de exitosos, bem-sucedidos, ricos e belos? Pois não se permite o erro, o fracasso, nesse ambiente perfeito.

E enfim encontrei todas as palavras que estavam entaladas na minha garganta.

Me deparei com os meus pensamentos distribuídos entre 189 páginas.

Deitada em um divã literário, me peguei repensando a vida, minhas ações, atitudes e o próprio futuro.

Esse foi o efeito do livro da autora Lya Luft em mim. Onde a verdade é jogada na cara, de forma sincera e simples. É um ensaio sobre o nosso cotidiano, sobre o que a sociedade foi, é e está se encaminhando para ser. Da nossa compulsão em comprar tudo, apenas para ter. A necessidade de aparecer. De ser igual aos outros, ou então se sentir inferior por não estar dentro do padrão.

Política e religião. O desrespeito dos pequenos, a falta de cuidado com os idosos, a crueldade que vem dos nossos próprios governantes. Uma motivação extra para a discriminação chamada cotas.

A insegurança diante da tecnologia, onde, usando as palavras da autora, o assustador se banaliza. Tudo acessível em um clique, tudo distante quando enfrentamos a pressão.

Não foram raras as vezes que fechei o livro e fiquei repensando sobre o que havia lido. Sentimentos esquecidos foram relembrados, em alguns momentos me peguei acreditando ser de uma década passada, em outras, apenas mais uma imitadora neste mundo padronizado.

Um livro sem meio termo. Eu particularmente amei. Imagino que quem discorde, pode odiar. Mas não importa, leitor nenhum vai sair insensível a leitura.

Múltipla escolha
Lya Luft
Record
2010 - 189 páginas 

terça-feira, 27 de março de 2012

A Camareira

Lynn Zapatek retorna para o seu apartamento depois de um tempo internada em uma clínica. Logo consegue o emprego de camareira no hotel Éden e monta uma rotina em que cada dia tem uma atividade específica, como todas a quintas ligar para a mãe e todas as terças ficar embaixo da cama de um hóspede.

Acompanhando os sons da vida alheia, ela preenche o próprio vazio de uma vida sem sentido, pois fica nítido que a personagem não tem objetivo nenhum. O que provoca olhares atravessados de suas colegas de trabalho, já que ela não se interessa por folgas ou férias. Sua relação com a mãe é fria e superficial, se evitam, como se o peso do contato fosse impossível de carregar, talvez por, ironicamente, serem tão semelhantes.

A grande mudança ocorre justamente em uma terça, quando ela acompanha o desempenho da garota de programa Chiara. Num ato de ousadia, rouba o cartão de contato deixado para o cliente e marca um encontro. A partir dali, ela vive em um mundo de ansiedade, medo e sonhos.

Markus Orths escreve de forma direta, ágil e envolvente. Ao colocar o leitor na mente perturbada de sua personagem, este pode se sentir tão pressionado e ansioso quanto a própria. É possível sentir o cheiro da poeira, ouvir o som da tv, os sussurros e até mesmo os silêncios.

No meu caso, a leitura provocava estranhamento e pontos de interrogações. Lynn ficou me devendo algumas respostas, mas nada imperdoável, já que nós mesmos nem sempre procuramos nos lugares certos.

A Camareira - Markus Orths - Tradução Mário Luiz Frungillo - 2010 – 136 páginas - L&PM

terça-feira, 20 de março de 2012

Coisas Frágeis

Ao pensar nos nove contos de Neil Gaiman a primeira palavra que me vem à mente é: estranho. Mesmo passados alguns dias após o término da leitura, ainda não sei se gosto ou desgosto.

A escrita é rápida, algumas vezes subentendidas, outras escandalosamente diretas. Mas uma coisa é certa: não é leitura para quem gosta de histórias bonitinhas, mas também não chega a surpreender fãs de contos fantásticos em algumas de suas histórias.

Meu conto favorito foi “A Vez de Outubro”, ao relatar a decisão do filho caçula ao se sentir inferior aos seus irmãos mais velhos. O que parecia uma birra de pré-adolescente, mostra o quanto às comparações podem influenciar nos caminhos de quem não tem força para lutar contra.

A ironia, na minha opinião, ficou no conto “O Pássaro-do-Sol”, onde o desejo pelo diferente parece uma maldição que atinge gerações das mesmas famílias. Já o “Monarca do Vale” coloca ação, mitologia e uma certa lição de moral.

Categorizei como viagem total o conto “Como Conversar com Garotas em Festas”, cujo conto me vez lembrar o filme “O Ataque dos Tomates Assassinos” devido ao vazio que senti durante a leitura.

No sentido de despertar a curiosidade, ficou “O Problema de Susan”, que me vez desejar ler As Crônicas de Nárnia, já que só vi os filmes, e a indignação do autor foi tamanha que o fez escrever uma história sobre uma das personagens principais.

E um conto que eu realmente não gostei foi “Um Estudo em Esmeralda” na qual o propósito era escrever algo que misturasse Sherlock Holmes e H.P. Lovecraft, mas na minha opinião ficou parecendo uma imitação barata do estilo Holmes.

Não vou entrar em detalhes nos demais contos, pois estes resumem o meu sentimento geral de gostar e desgostar. Se alguém leu e amou, não se ofenda, pois livros são como aquele velho queijo degustado por aquela velha senhora: uma questão de gosto.

Coisas Frágeis
Neil Gaiman
Tradução: Michele Aguiar Vartuli
Editora Conrad
2010
205 Páginas

segunda-feira, 12 de março de 2012

O Dia do Curinga


Quando finalizei a leitura de O Mundo de Sofia, achei o final um tanto estranho, quebrando a magia que o mundo filosófico havia criado no decorrer das páginas. E isto me fez não sentir vontade de ler outros livros do autor Jostein Gaarder.

Por ironia do destino, no mês de março de 2012, o clube de leitura que participo escolheu justamente um livro deste autor: “O Dia do Curinga”.

Hans-Thomas vive na Noruega com o seu pai, um colecionador de curingas, sua mãe saiu de casa com o pretexto de se encontrar e não retornou mais. 8 anos depois, uma revista de moda grega muda essa calma e eles vão busca-la em Atenas. A longa viagem é iniciada de carro, e entre vários caminhos, o menino acaba se deparando com um padeiro e um pão doce, que guarda um segredo dentro: um pequeno livro que só pode ser lido com o uso de uma lupa. Neste momento a viagem é dividida entre conversas com o pai e a leitura escondida da história do naufrago que encontrou a bebida púrpura e previsões para um futuro que incluía o próprio Hans.

As cartas de baralho fazem a divisão dos módulos e capítulos da história, que mistura filosofia, perdas, relações familiares e por que não alcoolismo. Essa combinação pode permitir há alguns criação de teorias, encantamento com o mundo criado na ilha e observações sobre o comportamento humano. Para outros, pode se tornar uma história chata, onde o autor parecia beber tanto quando o pai de Hans-Thomas antes de escrever cada página.

Curioso para saber em qual dos grupos estou? Pois irei deixar este ponto de interrogação. Quem ler os dois livros vai matar essa charada facilmente, ou vocês esperam soluções rápidas de quem, entre todas as cartas do baralho, se identifica mais com a figura do curinga do que qualquer outra?

O Dia do Curinga
Jostein Gaarder
Tradução: João Azenha Jr.
Companhia das Letras
2001

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Cidade de Ladrões


Roteirista de heróis mutantes é convidado a escrever um ensaio autobiográfico. Por não achar a própria vida interessante, resolve insistir para que os seus avós lhe descrevam como foi o período em que viveram em Leningrado, em pleno período do cerco da segunda guerra mundial. E o avô, sempre tão quieto, aceita e resolve narrar os acontecimentos que marcaram sua vida naquele período.

Neste momento o leitor irá acompanhar Lev Beniov e todas as suas aventuras após ser pego retirando objetos de um paraquedista alemão. Para salvar sua vida, ele e Kolya, um soldado acusado de ser desertor, precisam encontrar uma dúzia de ovos para o bolo de casamento da filha de um oficial.

Lev, judeu e filho de um escritor assassinado por ser considerado contra o sistema, acaba assistindo todos os horrores da guerra, escapando, junto com Kolya, de canibais e assassinos, encontrando meninas prostituídas, prédios destruídos e muitas vezes a dor da perda.

Mas Lev também encontra a coragem, acompanha guerrilheiros e se depara com o que considera o amor da sua vida.

Cidade de Ladrões conta uma semana da vida de Lev e Kolya, narrado em primeira pessoa por Lev. Dois estranhos que se tornam grandes amigos, e que fazem o leitor sorrir e ficar triste.

Um livro que mistura leveza com cenas pesadas. Uma leitura rápida, que me fez caminhar na neve, sentir vontade de ler O sabujo no pátio e falar poucas e boas para um certo oficial russo.

* Cidade de Ladrões - David Benioff - Tradução: Álvaro Hattnher - Alfaguara - 290 páginas

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

As Muralhas de Jericó


Josué Guimarães transformou em livro as memórias de sua viagem a União Soviética e China nos anos 50, quando junto com um grupo de jornalistas brasileiros, foi convidado a conhecer o que havia atrás da cortina de ferro, em um período onde a divisão capitalismo x socialismo era muito forte, assim como o domínio norte-americano sobre o Brasil.

Rico em detalhes, o livro mostra as diferenças de opinião de uma época, mitos e interesses comerciais se misturam em cada deslocamento. A diferença de tratamento, o jeitinho brasileiro, o frio, a surpresa, a chuva. É impossível não lembrar das aulas de histórias e comparar com outras leituras.

Essa comparação se tornou mais forte no que se refere à China, enquanto Josué Guimarães listava vários itens positivos, minha mente recordava trechos do livro Adeus, China, onde encontrei algumas discrepâncias no que é relatado pela biografia e pelo autor. Neste momento, me passou pela mente se, como convidados, eles não estiveram interagindo dentro de um teatro.

Isso é algo que não tenho como saber, mas posso dizer que para os fãs de história, e para quem gosta de uma narrativa leve, As Muralhas de Jericó é uma ótima pedida.

*As Muralhas de Jericó – Memórias de Viagem: União Soviética e China nos Anos 50 - Josué Guimarães – L&PM – 2001

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Capitães da Areia



Os capitães são crianças quando veem um carrossel ou lembram de suas mães ao receberem o carinho de Dora, uma menina-moça cheia de maturidade e coragem, que é levada junto ao bando empurrada pela morte. Sem-perna é criança quando se depara com uma mãe de coração despedaçado, que o abraça, o veste e o ama como o menino que só ela enxerga. Pedro é criança quando escuta as histórias sobre o seu pai e a sua imaginação voa por não saber exatamente pelo que ele lutava.

Os capitães são adultos quando roubam, estupram e trapaceiam. Quando quase todo o grupo ignora as lágrimas de uma menina. Quando se arriscam para salvar uma imagem de um dos seus orixás. Quando atacam outros grupos. Quando listam suas regras e aplicam os seus castigos. João Grande é adulto quando defende Dora, colocando os seus princípios acima do grupo. Professor é adulto quando a dor de um amor morto o faz partir e usufruir o seu maior dom.

Jorge Amado é mestre ao levar o leitor às ruas da Bahia, vivendo junto aos meninos de rua, tornando-os íntimos, mas nem sempre amigos. Os cheiros, as dores, o ódio estão latentes nas páginas, e por isso é difícil muitas vezes lembrar que os Capitães da Areia são meninos e não homens. A reação de quem ler vai depender da própria experiência de vida. É possível sentir pena, é possível se sentir indiferente, é possível se aborrecer e pensar no por que a polícia não prende (nem na literatura) esses delinquentes.

É possível chorar. Imaginar o medo de quem os vê. Também é possível analisar como uma história de 1937 pode ser tão atual.

Este foi o primeiro livro que li de Jorge Amado, e fiquei positivamente impressionada com a sua escrita, pelo menos com essa história, que é apaixonante e real. Agora entendo a razão de sua fama e por que tantas de suas obras se tornam novelas, séries e filmes, pois ele é rico em detalhes e enlaces. Um autor que nenhum brasileiro pode deixar de ler, mesmo que seja apenas um livro.


*Capitães da Areia - Jorge Amado - Editora Record - 1937 - 231 páginas

** Versões atuais sairam pela Companhia das Letras

domingo, 1 de janeiro de 2012

Marcada








Marcada é o primeiro livro da série House of Night escrito pela autora P.C. Cast e sua filha Kristin Cast. Conta a história de Zoe Redbird, uma adolescente que foi “marcada”, o que significa que após um período em transformação irá virar uma vampira. Ela terá de abandonar sua vida pregressa para habitar a Morada da Noite. Em meio à rotina noturna de sua nova escola/lar, conhece as pessoas que se tornarão seus melhores amigos – Steve Rae, Erin, Shaunee, Damien e Eric, e se vê dotada de poderes que nem imaginava serem possíveis.

Neste mundo de vampiros novatos é que se passa a empolgante e adolescente história de Marcada.  Como introdução à série, certamente deve ser o livro mais fraco. Não cativa instantaneamente por conta da comparação com séries como Crepúsculo (inevitável, apesar de Marcada ser sem dúvida mais voltada ao público adolescente que a série de Meyer). Mas, mostra personalidade  e é um bom começo para uma coleção que tem tudo para entrar no hall de livros “febre do momento”.

Marcada trás Zoe, trás a adolescencia com suas impulsivas decisões e importantes amizades, trás valores, trás sedução – e vampiros não existem sem este quesito, trás o misticismo nos arabescos, nos rituais e, claro, nos poderes concedidos pela deusa da noite. 

Os vampiros são muitos pela literatura a fora mas, o que importa não é o que melhor os retrata ou quem copiou o que de quem. O que importa é as diferenças e igualdades dos mundos descritos, é a criatividade na relação entre o que já existe e o que pode ser inventado sem ser chato. E definitivamente, Marcada não é um livro chato. Tem nele o envolvimento que nos leva a querer ler mais e mais. 


CAST, P.c.; CAST, Kristin. Marcada. São Paulo: Novo Século, 2009. 328 p. (House f Night).