domingo, 27 de dezembro de 2009

Nosso homem em Havana

Quando o inglês Jim Wormold, um homem abandonado pela mulher que mal consegue vender seus aspiradores em Cuba e sustentar a filha adolescente, recebe a missão de virar espião da M16, começa a imaginar que encontrou a solução dos seus problemas.

Inventando diversos agentes (em alguns casos, utilizando o nome de pessoas reais com as quais não mantém nenhum contato), ele cria plantas de fábricas (que nada mais são do que desenho de peças de aspirador) e envia falsos relatórios, criando assim uma gorda poupança para a filha.

Tudo muda quando um de seus falsos agentes é assassinado e sua própria vida passa a correr risco. Mas ao mesmo tempo que corre contra o tempo, experimenta após muitos anos a paixão por uma mulher.

Misturando comédia e espionagem, Graham Greene consegue em Nosso homem em Havana divertir e interessar o leitor da primeira a última página.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Manhattan – Louca e Desvairada

Composto de duas histórias, “Jogo de espelhos” e “Um herói em Nova York”, não é um livro para filosofar, pensar ou debater, é simplesmente para relaxar.

“Jogo de espelhos” conta à história de uma atriz em ascensão, otimista e de bem com a vida, que tem como obstáculos o direito a guarda do seu sobrinho e a conquista do coração de um homem decepcionado com o amor.

Em um “Um herói em Nova York” encontramos uma bancária divorciada que cria sozinha o seu filho. Ao se mudar, se depara com o vizinho, um criador de heróis de histórias em quadrinhos. O encanto do menino Radley pelo homem bonito e criativo, somado ao fato do garoto sonhar em ter um pai de verdade (pois pais de verdade não vão embora como o seu pai biológico) tornam a segunda história particularmente interessante, pois o que poderia ser um dramalhão mexicano é apenas um reflexo do comportamento de homens que abandonam suas famílias na vida real.

Não há lágrimas nos olhos do menino, apenas uma saudade que faz o leitor sentir vontade de abraça-lo, enquanto relaxa e se emociona com as histórias de Nora Roberts.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Uma Vida Inventada

Com duas histórias ocorrendo em paralelo, é difícil saber o que é ficção e o que é autobiográfico no livro escrito por Maitê Proença. Se em um momento o narrador irá contar a história de uma menina que tem a vida totalmente alterada pelo fato do pai ter assassinado sua mãe, do outro, em primeira pessoa, a autora conta sobre diversas passagens de sua vida, citando a filha, familiares, amigos, amantes e aventuras.

Se o início é dramático, onde amor é ódio, e vida e morte são separados por uma linha tênue, no decorrer das páginas será possível identificar também alegria, ironia, maturidade e loucura. Levando a crer que se entregar a tudo o que a vida oferece, não significa acabar com as dúvidas. Nem que a beleza e a fama são garantias de um feliz para sempre.

Nesse momento, percebe-se que verdades e mentiras se misturam, podendo-se acreditar que tudo o que está descrito aconteceu, como imaginar que tudo não passa de um “Se” com “S” em maiúsculo mesmo.

Uma única coisa é certa, assim como quem lê, Maitê e suas personagens parecem estar na mesma busca diária: o dia de encontrar a si mesma.

domingo, 29 de novembro de 2009

Dublinenses

Em 15 contos, o escritor James Joyce nos permite espiar um momento na vida cotidiana dos irlandeses.

Religião, sexo, inveja e nostalgia se misturam, assim como as idades diversas. O leitor não deve esperar por surpresas ou lições de moral, apenas circunstâncias normais, onde os valores e costumes da região irão encaminhar os personagens em histórias que não possuem realmente um final, já que fica claro que muita coisa ainda deve vir.

Mesmo sendo histórias comuns, a forma da narrativa envolve o leitor, podendo fazer com que este recorde de fatos lidos ou até vividos. Pois, independente da época ou lugar, todos vivem momentos em que precisam tomar uma decisão ou são simplesmente levados por aquilo que chamamos de destino.

domingo, 22 de novembro de 2009

As Cidades Invisíveis

Passado, presente (e talvez futuro) se misturam nas descrições de diversas cidades que o viajante veneziano , Marco Pólo, faz em detalhes para o imperador dos tártaros Kublai Khan.

Impossibilitado de conhecer todos os lugares, que teoricamente, lhe pertencem, ele os descobre, invade e investiga através de um homem, que passa um longo tempo fora e depois retorna, cheio de histórias.

Cada cidade encontra-se em uma categoria, pode ser memória, desejo, símbolo, delgada, troca, olhos, nome, mortos, céu, oculta ou contínua. E desta forma, o livro é dividido, mostrando em cada parte suas semelhanças e diferenças. Embora a sensação de dejavu venha entre cidades de categorias diferentes.

O que parece descrições de ruas, acaba virando as diversas facetas do ser humano, deixando o leitor sem saber se as cidades são os espelhos de sua população ou se a população é um reflexo dos caminhos, muros e divisas de onde moram. Levando a crer que, no final das contas, as cidades nada mais são do que críticas as pessoas que estão por perto ou a própria humanidade.

O grande feito de Ítalo Calvino nesse livro é permitir que o leitor tire a sua própria conclusão. É possível criar teorias, ou apenas relacionar as cidades descritas com aquelas que vemos no cotidiano. Sendo-se livre para ver, refletir ou desacreditar.


sábado, 14 de novembro de 2009

A Linha de Sombra

Um jovem oficial resolve deixar o navio a que pertence apenas para voltar para casa. Perdido sobre o que quer realmente para sua vida, vê cair em suas mãos o objeto de desejo de qualquer homem do mar: o comando de seu próprio navio.

Quando Joseph Conrad torna o seu protagonista capitão de um navio infestado pela doença e inexplicavelmente preso pelo mar, o autor passa a narrar as etapas (e dificuldades) do amadurecimento pessoal e profissional do rapaz.

A Linha de Sombra é uma soma de dificuldades para quem lidera uma equipe pela primeira vez, com o agravamento de não ter nenhum preparo. Qualidades naturais, dor, culpa, se misturam, fazendo surgir cicatrizes invisíveis.

Um livro curto, mas bastante envolvente, indicado principalmente para os que possuem ambição em serem líderes, pois a tripulação adoecida é muito parecida com às equipes de trabalhos da atualidade.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Blackwater

A Blackwater USA é uma empresa norte americana dedicada a um segmento que tradicionalmente é de competência do poder público. Trata-se de uma iniciativa bem sucedida por oferecer serviços inovadores, de eficiência comprovada e a preços competitivos. Até aí nada de mais, seria apenas um entre tantos exemplos da política de privatizações. O que chama atenção nesse caso é o ramo de atuação da companhia: a guerra.

Fundamentado em uma pesquisa rigorosa, o jornalista americano Jeremy Scahill traça um minucioso panorama da trajetória da Blackwater. De sua origem, como um moderno campo de treinamento para as forças armadas dos EUA, até seu estabelecimento como a mais poderosa milícia paramilitar a serviço do governo americano, ou seja, um exército mercenário. Essa história de sucesso tem como pano de fundo a ascensão do partido republicano ao governo dos EUA e a histeria provocada pelos ataques terroristas de 11 de Setembro. A invasão e conseqüente “reconstrução” do Iraque forneceriam o ambiente ideal para a prosperidade dos negócios da Blackwater. E o lucro, neste caso, está intimamente relacionado com a execução de civis – alguns, a serviço da própria empresa.

Sem ser panfletário ou maniqueísta, o texto expõem de modo claro as manipulações por trás dos bilionários contratos da empresa. Dá uma ênfase especial aos discursos e manifestações públicas dos executivos – entre eles, ex-diretores e espiões da CIA – que beiram o surrealismo em sua retórica politicamente correta, abundante em expressões como paz, solidariedade e humanismo.

Por tratar de um assunto com tantas implicações na vida de todos – para nós, latino americanos, especialmente o interesse das empresas na “guerra contra o narcotráfico” - o livro é sem dúvida um documento imprescindível para quem quer entender o tipo de mundo em que vivemos. Ao final da leitura, a impressão que fica é de que algo parece escapar sobre a compreensão da realidade, ou talvez tentemos evitar a constatação de que, cada vez mais, vidas humanas são reduzidas a simples estatísticas.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Jogo do Anjo

Carlos Ruiz Zafón nos leva novamente a Barcelona, agora em 1920, e apresenta o jovem David Martín, cuja ambição é viver da escrita e por ela acaba vivenciando o inimaginável.

O Jogo do Anjo é surpreendente. Zafón leva o leitor calmamente em uma narrativa em primeira pessoa, fazendo-o pensar que é uma nova versão de A Sombra do Vento. Mas conforme as páginas vão passando, desejos, medos e surpresas vão se apresentando.

David é um jovem escritor de livros baratos, que atendendo ao pedido de seu grande amor, acaba reescrevendo o livro de um grande e rico amigo, responsável em apoia-lo financeiramente após a morte de seu pai. Seus sentimentos tornam-se contraditórios quando o livro escrito em nome do seu amigo se torna um grande sucesso e o que possui o seu nome é rechaçado pela crítica. Nesse momento, um editor surge em sua vida, encomendando um livro misterioso que irá mudar toda a sua vida e valores.

Ao fechar o livro, é impossível desprender da história, que chega a ser surreal. O que se é capaz de fazer por dinheiro? Até que ponto mudamos por amor? O que podemos fazer para se obter a vida eterna? O que é ter fé?

Somado a isso, temos o adorável retorno à livraria Sempere e ao cemitério dos livros esquecidos, que acabam tendo parte de seus segredos revelados, enquanto David se divide entre amizade, mistério, morte e o seu único dom: a escrita.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu Guri - David Coimbra

Li “Meu Guri” do David Coimbra. Me rendi, o livro é ótimo. Digamos que eu gostaria de tê-lo escrito, mas com a visão materna. Quem sabe? Quando uma amiga me recomendou, fiz bico e disse que não gostava do que o autor escrevia. Mas tem razão quem redigiu as orelhas do livro ao dizer que o filho transformou-o e que o assunto “paternidade” passou a ser o melhor assunto do David. Eu mesma já tinha constatado isso nas crônicas “pós-parto” do autor, antes mesmo de ter minha percepção confirmada por mais alguém nas orelhas do livro.
Dá para ver que o livro foi escrito com amor de pai, recém descoberto. É cheio de pequenas histórias que vão desde o espermograma, passam pela gravidez da mulher, o nascimento e a sequência de meses de vida do gurizinho. Têm algumas narrativas de chorar de tanto rir, como aquela em que a mulher inventa de fazer um book fotográfico nua e a que ele narra sua primeira troca de fraldas. Em compensação, também dá para se emocionar com o autor descobrindo o amor pelo filho quando de seu nascimento e ao falar da avó em seus últimos dias, comparando o amor da senhora pelo autor com aquele que ele sente pelo filho: é incondicional. Ainda assim, basta um sorriso daquele pequeno ser para tudo ser recompensado.
A conclusão a que se chega é que qualquer ser humano, por mais insensível, não resiste a um bebê, não tem como não se apaixonar por um filho.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cordilheira

Anita é uma jovem e talentosa escritora. Ela acaba de levar um fora de seu namorado. Para piorar seu momento, uma de suas melhores amigas resolve se suicidar. E é neste espaço de tempo, que a escritora decide ir à Buenos Aires para o lançamento da tradução argentina de seu romance.

Ainda sob o impacto do fim do relacionamento e da perda da amiga, Anita conhece José Holden - também escritor e seu fã. A partir do momento que os protagonistas vão se conhecendo, eles vão se envolvendo - apesar de ambos relutarem. Anita quer realizar seu sonho: engravidar e regressar para o Brasil (já que não pôde ter um filho com Danilo, decide engravidar de José). E José é daqueles escritores que encarna o personagem - essa é a sua prioridade. Aliás, seus amigos- também escritores, fazem o mesmo.

Cordilheira é o terceiro romance de Daniel Galera. A obra faz parte da coleção Amores Expressos - projeto no qual autores brasileiros escrevem romances ambientados nas mais diversas cidades do mundo.






domingo, 13 de setembro de 2009

Marley & Eu

Utilizando-se de leveza e emoção, o jornalista John Grogan escreveu a biografia do seu casamento, tendo como base um simpático e trapalhão labrador. Comportamento comum nos casais atuais, Grogan e sua esposa compram um filhote para se prepararem antes de terem filhos, a partir daí, o leitor irá acompanhar, como num big brother escrito, treze anos da família do autor.

Incertezas, decisões e experiências de um jovem casal dividem espaço com destruições caninas em seu novo lar. Engraçado e relaxante, Marley & Eu utiliza-se da simplicidade para emocionar os leitores mais sensíveis. Aos insensíveis, fica a dúvida se Marley não é apenas uma forma de Grogan conquistar os seus quinze minutos de fama, já que em um dos capítulos é relatado o convite ao cão para participar de um filme, e seu dono fica sonhando em ser chamado para atuar e assim, se tornar uma celebridade (fato que se tornou concreto com o sucesso do livro).

De qualquer forma, para os que se aventurarem, preparem-se para algumas risadas e lágrimas. Para os amantes do mundo animal, existe uma grande chance de relembrar velhos amigos. Aos que possuem medo ou receio, e como eu, às vezes pensem em adquirir um bichinho para descobrir o tão falado amor canino, fica o conselho: não compre um labrador.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Por que sou gorda, mamãe? - Cíntia Moscovich


Neste livro, a escritora gaúcha, misturando drama e humor, conta sua trajetória para perder peso depois de ter acumulado vinte e dois quilos extras, ou cento e dez tabletes de manteiga, como ela mesma refere.
Procurando as causas de seu tamanho, faz um reencontro com seu passado, vivido no seio de uma família judaica de pai e mãe, onde comida não podia faltar jamais, era acompanhamento para alegria ou tristeza. As lembranças da infância da autora-personagem e de seus parentes desfilam divertidas pelos capítulos, alternados com a narrativa do sacrifício para emagrecer, considerando o histórico de comilança de uma vida inteira e a predisposição genética às formas arredondadas.
O truncado relacionamento com a mãe é abordado com humor um pouco ressentido: nenhum filho sai imune às marcas do convívio materno – seja para o bem ou para o mal. Ainda mais quando o amor de um filho nunca é suficiente para uma mãe judia, a menos que ele, dentre muitas outras exigências, telefone e a visite, no mínimo, todos os dias da semana, bem como dê mais atenção à vida da mãe judia que à sua própria.
A autora brinca com seu passado e seu presente, de forma irônica e engraçada, mas não deixa de emocionar quando fala da perda do pai e das dificuldades de lidar com a mãe.
A leitura é agradável e fluente de capa a capa, permitindo que o todo responda à pergunta que intitula o livro.

domingo, 9 de agosto de 2009

O Mundo de Sofia

Dizem que para tudo tem a sua hora, no meu caso, isso incluí alguns livros. Quando li os primeiros capítulos do chamado Romance da história da filosofia, achei a história de Jostein Gaarder um pé no saco, fechando-a e devolvendo a biblioteca, tentando não pensar naquela leitura inacabada.

Passado alguns anos, resolvi enfrenta-lo. Mas desta vez O mundo de Sofia tinha novas cores e foi com curiosidade e alegria que folheei cada página e me aproximei de Sócrates, Aristóteles, Kant, Marx, entre outros.

De forma simples, mas nem por isso fácil, Sofia e os leitores são defrontados com as perguntas mais antigas das humanidades, e o que os grandes filósofos acharam disso. Como a menina adolescente, muitas vezes é necessário reler os textos ou olhar pela janela para pensar e ouvir a resposta que vem da própria alma (mesmo que ela seja um "não sei”).

Naturalmente Sofia é muito mais esperta que os seus leitores, mas por isso mesmo ela se torna a grande porta de entrada para desbravar o mundo dos pensadores. O importante é relaxar e depois das quinhentas e poucas páginas, selecionar os seus ídolos e criar novas teorias. Afinal... somos apenas poeira em um universo que se contrai e se distende.

domingo, 2 de agosto de 2009

Gomorra

O que um contêiner com homens e mulheres chineses mortos, a roupa que a atriz Angelina Jolie usou em uma cerimônia do Oscar, mulheres ocupando cargos elevados, pessoas mortas por balas perdidas, tráfico de droga, disputa de território e corrupção tem em comum?

Não, não é o morro do Rio de Janeiro, nem um dos filmes de mafiosos distribuídos por Hollywood, apesar dos integrantes dos clãs, pertencentes ao sul da Itália, imitarem a ficção. Roberto Saviano descreve no seu livro de estréia algo que se tornou mais globalizado que o próprio capitalismo: o poder dos criminosos, nesse caso específico, a Camorra.

Gomorra não poupa detalhes. Em algumas páginas o leitor precisa realmente ter estômago, enquanto Saviano descreve as torturas ou os teste de novas drogas que são feitas em viciados. Não existe escapatória, pode ser pobre, padre, político ou arrependido, a única certeza para os que contrariam a Camorra é a morte.

A Camorra são vários clãs criminosos, chefiada na sua maioria por homens jovens que acabam reféns do seu próprio poder. Debocham da velha máfia, pois são politicamente independentes. Suas fontes de dinheiro são variadas, podem vir da venda de armas para países em guerra ou de roupas fabricadas sob medida para populares atrizes desfilarem.

Gomorra não é um romance. É um tapa na cara em um texto jornalístico narrado em primeira pessoa, onde depoimentos pessoais se misturam a investigações e histórias do passado.

Também é um banho de água fria nos que adoram uma grife e anunciam para toda imprensa que colaboram para a construção de um mundo melhor. Pois eles também contribuem, indiretamente ou por simples ignorância, para a máfia italiana.

A propósito: Gomorra é uma das cidades destruídas por Deus, conforme é descrito no Gênesis, uma cidade, como muitas na Itália e em outros locais do mundo, onde a destruição, por uma escolha, um celular ou uma palavra, se tornam banais. Onde os honestos não têm vez e apenas os imorais possuem o poder sobre a vida e a morte.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Brida - Paulo Coelho

A obra Brida pode ser caracterizada como um texto de auto-ajuda de esoterismo, pois narra a trajetória de uma jovem que procura a compreensão de si mesma através do descobrimento de conhecimentos de magia. Como os demais textos do gênero, em geral, apresenta-se como um guia, uma metodologia para a conquista do sucesso material ou realização pessoal, que no caso consubstancia-se através da história da personagem e seu crescimento pessoal, descobrindo-se como feiticeira.

O autor, utilizando-se da fórmula da auto-ajuda, aproveita-se da constante busca do ser humano por poder, status, felicidade, etc, para apresentar soluções fáceis, baseadas em uma filosofia rasa, que vai seduzir as camadas médias urbanas – principal consumidora dessa literatura.

No primeiro capítulo de Brida, já se percebem os primeiros elementos característicos do livro de auto-ajuda: o autor quer ensinar algo. Por meio da experiência da personagem na floresta escura sozinha, o autor quer mostrar que a fé pode fazer a pessoa sentir-se protegida e vencer o próprio medo. A evocação de Deus naquele momento, de trechos da bíblia que a avó da moça costumava recitar para ela, bem como de outras lembranças de sua infância fazem com que se sinta calma e vença o medo de estar sozinha na floresta à noite, tanto que consegue relaxar e adormecer. Quer o autor ensinar que as pessoas também, a exemplo de Brida, se tiverem fé em Deus, ou em algo que acreditem, vencerão seus medos.

Para ilustrar, transcreve-se o seguinte trecho, retirado da página 24: “Tinha fé. E a fé não deixaria que a floresta fosse de novo povoada por escorpiões e cobras. A fé manteria seu Anjo da Guarda acordado e velando.
Recostou-se de novo na rocha e dormiu sem perceber.”

Na medida que a personagem vai aprendendo e tirando lições dos acontecimentos é que se percebe a intenção do autor de que o leitor também tire lições. Brida é o leitor, que está sendo ensinado.

Está, também, visível, no texto, outro elemento da literatura de auto-ajuda, que é a ilusão da onipotência, isto é, promessa de apresentar algo que vai mudar a vida do leitor, que vai fazê-lo superar o que o aflige. No caso, o autor apresenta um tipo de crença, ligada à magia, que vai preencher a lacuna deixada pela religião na busca pela solução dos problemas existenciais das pessoas. Essa crença vai sendo apresentada no livro na medida em que vai se dando o aprendizado da personagem a esse respeito. Geralmente é uma solução mais fácil e imediatista ,que seduz o leitor a aceitá-la, pois responde aos seus anseios.

O autor se utiliza também da repetição, outro elemento característico da auto-ajuda, para desenvolver a história. Recorre a todo tempo às lições que Brida angariou de suas experiências de magia com o Mago e com Wicca, sua mestre, e vai acrescentando outras. Verifica-se essa retomada em vários trechos do livro, quando a personagem relembra a experiência na floresta, e associa com fatos cotidianos, dizendo que “a vida é uma noite escura” e refere-se às revelações da lua para interpretar outros fatos que lhe acontecem.

A presença de elementos do imaginário popular (crenças) como filosofia espiritual estão em todo o texto como linha norteadora. No caso, ele explora a crença de que certas pessoas possuem um determinado dom para a magia que as permite entender e interpretar o mundo de maneira diferente e aqueles que dominam o dom podem ajudar os outros que não têm.

Conforme ensina RÜDIGER , os textos de auto-ajuda utilizam-se, também, de relatos de pessoas que aplicaram as técnicas para a solução de seus problemas, atuando como modelos para os leitores, que acabam se convencendo de que, se outras pessoas conseguiram, eles também conseguirão. É uma maneira de aproximar a realidade ao leitor, para que não fique apenas absorto na teoria demonstrada. O autor apresenta a teoria e a comprova com o testemunho de alguém que teve sua vida modificada pela auto-ajuda. Os relatos podem ser místico, egoísta ou ascético.

No relato místico, o interelocutor utiliza-se dos exemplos de pessoas que encontraram a solução para seus problemas no seu “eu interior”. O remédio para os seus males reside no controle da mente e no contato com o eu superior. A felicidade e a paz de espírito requerem a superação dos desejos egoístas, encontram-se no caminho contínuo e insistente do conhecimento.

Já no relato egoísta, a exploração ordenada dos recursos interiores e do potencial humano não objetiva de maneira imediata a solução dos conflitos morais que vitimam nosso eu, mas se relaciona antes com o desejo de “fazer com que as pessoas não apenas o estimem”, mas também “realizem aquilo que você deseja”, nos vários campos da vida social.

No relato ascético, o entendimento terapêutico combina o crescimento pessoal e a prática do pensamento positivo. Determinada pessoa conta para o leitor como, através de uma atitude mental positiva, atingiu o sucesso. Partindo da máxima de que o pensamento é a forma mais potente de sugestão, relata como o subconsciente transforma um desejo ardente em realidade quando o indivíduo acredita que pode alcançá-lo, fazendo com que aja para conquistar seus objetivos. Essa experiência apresenta um elemento a mais que os relatos anteriores, consubstanciada na atitude positiva na direção do que almeja.

Na obra Brida, verifica-se a utilização de um tipo narrativa que se aproxima do relato místico. Apesar de ser uma obra de ficção, a história de Brida funciona como uma parábola, em que há espaço para a interpretação do leitor, no sentido de que busque em sua crença pessoal a solução de seus problemas.

Explica-se o sucesso da literatura de auto-ajuda pelo fato de que a própria mídia estimula a busca da realização pessoal, por meio da divulgação de novos fenômenos que propiciam o crescimento do ser humano e, então, nomenclaturas comumente relacionadas a esoterismo, pensamento positivo, etc., passam a fazer parte do dia-a-dia e a serem exploradas pelos autores.

Daí que podemos afirmar que o público-alvo dessa literatura é a classe média urbana, sedenta por resolver seus problemas por meio das “receitas de sucesso” apresentadas, especialmente por autores intitulados “magos” como é o caso de Paulo Coelho. A linguagem utilizada, como no caso de Brida, vai estar relacionada com termos e assuntos esotéricos ou do pensamento positivo. O leitor, diferentemente do self-made man do passado, que precisava trabalhar para atingir seus objetivos, será estimulado a simplesmente aplicar as técnicas esotéricas ou mentais ensinadas para obter sucesso. Basta seguir a fórmula ali indicada, e a pessoa alcançará o que almeja.

Os livros de auto-ajuda pretendem ocupar a lacuna deixada pela religião, oferecendo soluções fáceis de bem-estar. Há uma promessa, que é apresentada no texto de resolver os anseios do leitor, onde, ao final, será demosntrada “a fórmula”, “a solução” de como fazê-lo. Geralmente convencem o leitor de que a técnica já foi amplamente testada e comprovada, tornando o caminho mais fácil, pois o leitor não precisa entender como e por que ela funciona, basta acreditar nos seus efeitos para provar seus frutos.

No caso de Brida, o autor não chega a apresentar uma fórmula pronta, mas conduz o leitor à crença de que é possível resolver seus próprios problemas com sua força interior e que será feliz quando encontrar sua outra metade.

Essa “receita" de como apreender o real através da força da mente ou força interior (ao invés do trabalho, estudo, etc.) é que faz com que os livros de auto-ajuda sejam amplamente consumidos atualmente, pois em conformidade com a velocidade das transformações de um mundo globalizado, onde o imediatismo regula as relações e as pessoas não tem tempo para esperar os resultados, querem as respostas imediatas.

sábado, 11 de julho de 2009

Quem nasceu para cintilante nunca chega a francesinha- Magali Moraes

O livro é tão divertido quanto o título sugere. A leitura simples e engraçada permite uma rápida identificação de nós mulheres com as situações vivenciadas pela personagem Marcela, uma mulher comum que se pune por não ter tempo de fazer as unhas.
Como disse o Luís Augusto Fischer na apresentação do livro, é uma “crônica espichada” ou uma “novela cronicada”. Permite-nos refletir sobre o universo feminino e tudo que envolve entre a escolha de um impensável esmalte cintilante e uma chiquérrima unha à francesinha, passando por dificuldade para fazer dieta, falta de tempo para a academia, análise psicológica dos donos de cachorro de apartamento, um sutiã azul esquecido no banheiro do trabalho, as insuportáveis festas de aniversário de criança, o marido e sua saída à francesa das responsabilidades, além, é claro, da falta de tempo para fazer as unhas.
A história de Marcela é narrada com humor e leveza e prende até o final. Quando você vê, leu o livro numa assentada. Leitura de férias, anti-stress!

domingo, 24 de maio de 2009

Morte em Veneza

Thomas Mann tem como personagem principal, em um romance curto, mas nem por isso rápido, um famoso escritor chamado Gustaw Aschenbach, que após conquistar fama e prestígio, encontra-se impaciente. Sem saber o que busca, esse senhor arruma suas malas e sai em busca de um lugar que acalme seus pensamentos e aflições.

Em suas andanças, Aschenbach vai parar em Veneza, onde irá conhecer um pré-adolescente e mudar completamente seus planos. A paixão platônica pelo menino irá fazer com que Aschenbach ignore a epidemia de cólera, que afasta os turistas da cidade, enquanto segue o seu alvo em um primeiro momento com os olhos e depois com as próprias pernas.

Morte em Veneza é extremamente descritiva, detalhando todos os locais, vestes e devaneios do escritor e do seu amado. Para os que não apreciam longos detalhes, o livro pode tornar-se cansativo, fazendo com que suas poucas páginas pareçam centenas.

Mas para os fãs de clássicos e adoradores de longas descrições, Thomas Mann trás uma visão interessante de um homossexualismo e pedofilismo velado no início de 1900 em uma sociedade de classe alta. Sendo mais uma prova de que alguns dos assuntos que discutimos hoje, não são nenhuma novidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Elogio da Loucura

Elogio da Loucura foi escrito, em 1501, pelo teólogo Erasmo Desidério ou Erasmo de Rotterdam, como ficou conhecido. Na obra, Rotterdam critica os costumes de sua época, onde no decorrer da leitura, o leitor pode constatar que muito destes costumes perduram até hoje.
Segundo a própria Loucura- que é a narradora irônica em tempo integral- o homem deve muito a loucura, pois é ela que move o mundo. Ela está presente no dia-a-dia. A loucura se encontra tanto nas amizades quanto nos relacionamentos e, está inserida na sociedade. Pode-se afirmar que, também, se encontra na ciência e na filosofia. E, claro, na religião- um dos alvos principais do autor.

O livro está cheio de exemplos. A cada área que o escritor ironiza, ele cita inúmeros exemplos e situações corriqueiras, fazendo com que nós, leitores, nos identifiquemos com as situações triviais abordadas.

A prosa do autor é totalmente sarcástica, muitas vezes beirando um "humor ácido". Certamente o autor dominava o escárnio, para escrever uma obre repleta de ironia- ainda mais para a sua época. Agora, resta ao leitor ter, no mínimo, alguma afinidade com o sarcasmo, para assim ter um melhor entendimento do livro, pois apesar de ter muita coisa explícita, o livro também possui mensagens nas entrelinhas. Cabe ao autor encontrá-las.





domingo, 10 de maio de 2009

O Mago

A biografia do escritor Paulo Coelho não deixa de ser um registro da própria sociedade brasileira nas últimas décadas. Ao mesmo tempo em que Fernando Morais mostra a personalidade do escritor, ele detalha e compara os seus posicionamentos em diversas épocas do Brasil.

O comportamento dos jovens com a ditadura, a relação com as drogas e a música. O uso de textos de protesto para atingir o sucesso. A alienação completa. Nomes famosos que ainda buscavam os seus caminho e outros que viraram mito, como Raul Seixas.

O jovem Paulo Coelho passou por colégios rígidos e sanatórios. Seus pais, como os outros da época, desejavam para o seu filho uma profissão tradicional. Pressão e narcóticos levaram o perdido Paulo a surtos e uma vida de vagabundagem extrema.

Claro que existe muita coisa escondida, mas as relatadas são muito fortes, como o desejo de Paulo de ser um grande escritor (algo despertado cedo e sufocado por seus pais) assim como sua insegurança. Uma personalidade interessante e conflitante, já que ele pode ser gentil e generoso, mas também pode ser arrogante e sem caráter.

Algumas vezes o leitor pode ler um capítulo e achar que ele era doidão, no seguinte verificar que ele era muito doidão e lá pelas tantas achar que ele é um baita de um filho da puta. O Mago não permite que se feche um capítulo sem que se tenha alguma opinião sobre o seu personagem.

Paulo Coelho contrariou os bancos da faculdade, que afirmam ser necessário ler os grandes autores para escrever boas obras. Balela. O escritor chegou a ler 75 livros por ano, entre eles muitos clássicos, e isso não fez nenhum de seus livros ser considerado uma obra-prima (muito pelo contrário, e o pau constante que ele leva dos críticos não ficou de fora da sua biografia – o que não deixa de ser uma resposta para os mesmos).

Aliás, O Mago mostra também o funcionamento do dinheiro e do poder na literatura, onde generais podem impedir um acesso a ABL (Academia Brasileira de Letras) ou as esperanças de constar em um testamento podem tornar alguém imortal (o fato de Paulo Coelho não ter filhos consta como um ponto positivo para sua eleição). Contratos milionários, pequenas vinganças, desafetos e mudanças temperam o mundo real das letras assim como personagens memoráveis recheiam livros.

A biografia descreve o óbvio: Paulo Coelho se tornou o grande nome brasileiro no mundo das letras. Não adianta os intelectuais brasileiros virarem a cara, nem descarta-lo de comitivas de escritores brasileiros. Ele sempre está nos eventos mais importantes, e convidado por aqueles que realmente detém o poder. Além disso, a sempre uma legião de fãs o esperando, seja na Rússia, Alemanha ou qualquer outro lugar do mundo.

Se o seu sucesso é devido à força do pensamento, satanismo ou santos, nunca saberemos, e isso nem mesmo a sua biografia irá esclarecer. Mas que em O Mago, Paulo Coelho dá uma lição de persistência e quebra paradigmas, isso ninguém pode negar.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Onde andará Dulce Veiga?

Nesse romance de Caio Fernando Abreu, o narrador é o próprio protagonista que procura por Dulce Veiga, uma cantora da década de sessenta, que desaparecera misteriosamente. O leitor embarca com o narrador nessa busca frenética, vinte anos depois do desaparecimento da cantora, que vira uma fixação para o protagonista, revelando-se uma procura por ele mesmo, mais do que isso, confunde-se com a do próprio autor.
A narrativa começa demonstrando a apatia do personagem principal perante a vida, mesmo tendo conseguido um emprego como jornalista, que poderia tirá-lo do marasmo e da falta de dinheiro. No decorrer da trama, entende-se a razão daquele torpor: uma paixão intensa por outro homem, Pedro, que apareceu e desapareceu de sua vida misteriosamente, deixando-o desnorteado, tira-lhe o prazer e o gosto de viver. O homossexualismo, caracterizado em muitos contos de Caio Fernando Abreu, transpassa toda a obra, bem como o medo da AIDS, que aterroriza o jornalista e a roqueira Márcia, que não têm coragem de procurar um médico quando caroços sintomáticas da doença começam a aparecer no pescoço e outras partes do corpo. A dúvida em saber se seriam ou não soro positivo atormenta os personagens e faz pensar se não seria reflexo do mesmo tormento que assolava o autor e que ele deixa transparecer no romance. Há, ainda, o fantasma de Igor, namorado da roqueira Márcia, que teria morrido de AIDS, retratando a realidade difícil da perda de pessoas, na época, vítimas da enfermidade, quando ainda não se sabia direito o que era essa doença.
O romance foi escrito entre 1985 e 1990. Daí explica-se o tema da ditadura, também recorrente, pois ainda presentes seus efeitos, remetendo os leitores a um período em que as pessoas desapareciam por questões políticas, dando a entender que Dulce Veiga teria sumido por se envolver com pessoas ligadas a assuntos contrários aos interesses de quem estava no poder na época.
Outras questões também são tratadas pelo autor, como a violência urbana, as drogas, o desencanto com o movimento das “diretas já”, que não atingiu seu objetivo.
Embora haja uma seqüência cronológica - cada capítulo tem o nome de um dia da semana –, há vários flashbacks, pois o narrador lembra de vários fatos do passado, dele com Pedro e de quando teria entrevistado Dulce Veiga. Não deixa de ser um tempo psicológico, pois o romance em muitos momentos é intimista, há o pensamento do personagem, e esse não é linear, não corre de acordo com andamento cronológico dos fatos.
O narrador está completamente confuso e perdido na vida, e, por isso deixa transparecer várias ambigüidades: mostra-se inseguro para lidar com seu homossexualismo ou heterossexualismo (não sabe se gosta de homem ou mulher); a busca por Dulce Veiga se confunde com a própria busca por si mesmo. Há uma tentativa do personagem desesperada de se encontrar e por isso ele começa a enxergar Dulce Veiga em vários locais, como uma alucinação, que ele segue como um louco, numa alusão à perseguição da compreensão que ele visa a atingir sobre o seu eu.
Ao final, o encontro com Dulce Veiga revela um eu egoísta, que abandona tudo para buscar a si mesmo. No caso, Dulce Veiga deixou de lado a filha pequena, o marido, os amigos, a própria carreira, como se, para encontrar a si mesma, fosse necessário renunciar a todo o resto. As pessoas sofrem sua ausência - principalmente a filha Márcia, mas também os fãs e o amante Saul, que enlouquece – porém ela parece não se importar, porque ela própria está feliz, em um lugar distante, e isso lhe basta.
As semelhanças com a vida do autor não são por acaso, visto que ele vivia uma situação de conflito, pela descoberta da AIDS e toda a angústia e sofrimento pela incerteza e percepção da efemeridade da vida que isso acarreta. Talvez o desaparecimento de Dulce Veiga significasse o seu próprio desaparecimento precoce em virtude da AIDS, onde deixaria tudo e todos para trás, porém com a recompensa (ou esperança?) de ir para um lugar melhor, onde dor e medo não existiriam, apenas a felicidade alcançada pela compreensão do significado da própria existência.


domingo, 26 de abril de 2009

Renegado

Esse livro é a história de amor entre o ex-merceário e atual chefe de polícia da cidade de Jacobsville, Cash Grier, e da modelo/atriz Tippy Moore, jovem que foi estuprada pelo padrasto e que pagou cinqüenta mil dólares para ter a guarda do irmão mais novo.

O ponto inicial é o encontro dos dois na época de natal. Onde Tippy seduz Cash e engravida. Cash retorna ao Texas e Tippy, as filmagens de um filme. Em uma cena, ela cai e perde o filho. Cash só fica sabendo da gravidez pelos tablóides sensacionalistas, e passa a odiar a ex-amante, achando que o abordo foi proposital, já que sua ex-esposa já havia tirado um filho seu.

O padrasto de Tippy seqüestra o seu irmão, sem dinheiro, essa pede ajuda a Cash que se nega ouvi-la. Sua única saída para salvar o irmão é trocar de lugar com ele. Solto, o irmão consegue avisar Cash, que salva a mocinha, mas ela está bastante ferida e magoada.

Achou que estava no fim? Não. O detalhe é que já temos todo esse dramalhão e não estamos nem na metade do livro. Renegado se puxa nas tragédias, mas possui vários fios soltos. Percebe-se que existem histórias anteriores, mas na página dois não são listados livros publicados anteriormente pela escritora, e sim outras obras da editora.

Aliás, na página dois encontram-se os primeiros problemas de ortografia e descuido com o livro (que pode chegar a custar mais de quarenta reais) onde o romance Volta ao Lar vira Vota ao Lar.

Quando aos fios soltos, é necessário investigar os romances de banca, pois Renegado pertence a uma série chamada “Homens do Texas”, publicadas pela própria editora nesse segmento. O que ocorreu é que várias leitoras, fãs dos romances de Diana Palmer, enviaram inúmeros pedidos solicitando a história de Cash Grier (que aparecia em diversas histórias da série) e a editora Harlequin Books aproveitou o filão e lançou como best-seller em livrarias, só que esqueceu de colocar um aviso para os outros leitores que não a acompanhavam.

Renegado pode ser uma excelente opção para quem curte um dramalhão mexicano e está disposto a procurar os demais livros da série para entender que tipo de paixão Crash teve por outra personagem, ou o que Tippy aprontou na primeira vez que esteve em Jacobsville, caso contrário, é recomendável que se mantenha distância do mesmo.

domingo, 12 de abril de 2009

Breve Romance de Sonho

Deixando um pouco de lado os livros que estão nas vitrines das livrarias, fui buscar no ano de 1926 uma obra de Arthur Schnitzler, que por acaso serviu de inspiração ao diretor Stanley Kubrick para filmar “De Olhos bem Fechados” em 1999 (ao qual confesso, não assisti).

Em um romance curto, o leitor irá conhecer a história do jovem casal Albertine e Fridolin, que após retornarem de um baile, comentam situações de teor sexual. Os relatos de Albertine, somados a um sonho que ela tem um dia depois, irão provocar em Fridolin o desejo de se vingar, fazendo sua mente buscar constantemente uma fórmula para isso, ao mesmo tempo em que a julga e evita o próprio lar.

Mas Schnitzler vai além disso, pois ele consegue em Breve Romance de Sonho descrever o homem na típica situação “se eu fizesse tudo diferente”. O desejo de fugir da rotina, viver um outro personagem em um local onde se é totalmente desconhecido, sem o risco de todos os apontarem ou manchar sua vida de profissional respeitável.

Mas o que é um tema comum e recorrente até mesmo na novela da Globo, em Breve Romance de Sonho tem outro significado: o das possibilidades não realizáveis. A separação de fantasia e realidade pelo próprio destino. Ser impedido por uma mão invisível de quebrar as regras.

Apesar de aparentemente irracional, não é difícil entender Fridolin, nem de rir ou refletir sobre as palavras de Schnitzler. Pois loucura e razão são separadas por uma linha muito tênue.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O menino do pijama listrado

O irlandês John Boyne é autor de seis romances. O menino do pijama listrado, venceu dois Irish Book Awards e foi finalista do British Book Award. Os livros de Boyne já foram traduzidos para mais de trinta idiomas.

O protagonista da obra O menino do pijama listrado chama-se Bruno. O garoto tem 9 anos e desde que deixou Berlim, juntamente com a sua família, e passou a residir num lugar praticamente deserto, tem como passatempo fazer explorações nos arredores de sua nova casa. E é numa dessas explorações que o guri conhece Shmuel. Não demora muito para que eles fiquem amigos.

Bruno é um menino ingênuo - como a maioria da sua idade. Curioso e cheio de dúvidas, dificilmente ele obtém as verdadeiras respostas. A história se passa na II Guerra Mundial.

Talvez por ser um livro direcionado ao público infanto-juvenil, a narrativa é um pouco cansativa, devido a algumas repetições.
Em 2008, o livro foi transformado em filme pela Miramax.

Na obra, Bruno - apesar de ingênuo, não somente contesta como agride seu pai. Já no filme, o menino se mostra obediente, chegando algumas vezes a ser submisso.
Nestas adaptações para o cinema, geralmente a obra literária é melhor. Mas há exceções. E esta, é uma delas.




domingo, 29 de março de 2009

O Ladrão de Arte

Adquiri O ladrão de arte por acaso, peguei na prateleira, li o seu resumo e achei interessante, já que o livro se tratava do roubo de artes escrito por um estudioso da área. Muitos anos antes havia lido “Se houver amanhã” de Sidney Sheldon, que possuía uma temática parecida, cuja heroína era uma ladra, tornando impossível não me questionar: como seria essa história nas mãos de um profissional, como Noah Charney?

Mas o livro de estréia de Charney é superficial. O autor apresenta diversos personagens conforme os roubos vão acontecendo, sem entrar em maiores detalhes. Algumas vezes, eles parecem estar dando aula sobre a história da arte (parte mais interessante na minha humilde opinião) e os porquês da indiferença das pessoas ao ser noticiado o roubo de um quadro ou escultura.

Existe a tentativa de envolver o leitor em uma teia em que roubos tão diferentes parecem estar relacionados, mas em alguns capítulos O ladrão de artes chega ser chato, e mesmo sendo um livro investigativo, não instiga o leitor a virar as páginas furiosamente para saciar a sua curiosidade. Nem o faz ficar pensando na história, após ter finalizado a leitura e ido dormir.

A soma de tudo faz o grande final passar desapercebido, pois em nenhum momento se criou intimidade suficiente com a história para separar os bonzinhos e os suspeitos. É um exemplo de livro em que a idéia é muito boa, mas que falta algo para torna-lo mais profundo e interessante.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Alienante Alienista

Não há quem tenha passado pelo ensino médio ou pré-vestibular sem ao menos ouvir falar da obra O Alienista. Publicada em 1882, conta a história do homem que encerra em um hospício boa parte da população de uma cidade. Seu autor, Machado de Assis, além de ser um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, romancista, contista, poeta, dramaturgo, cronista e crítico literário. Dentre suas obras mais famosas estão os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba.

Considerada uma novela por alguns e um conto mais longo por outros – possui quase 50 páginas – , O Alienista, cujo personagem justifica seus excessos como um bem para o futuro da ciência, seria uma crítica ao cientificismo do século XIX. Os treze capítulos abordam um a um as peripécias do Dr. Simão Bacamarte ao classificar os habitantes de Itaguaí em sãos e loucos. No decorrer da história, muda consistentemente de critérios para avaliar a condição mental das pessoas, chegando a internar até mesmo sua esposa no hospício conhecido como Casa Verde.

Situações inusitadas surgem para mostrar características psicológicas de personagens condizentes com a realidade de qualquer leitor. A mulher que presta atenção na forma de se vestir das amigas, o senhor que gosta de se expo à janela de sua mansão, os vereadores que decretam que nem um deles poderá ser internado na Casa Verde e até mesmo o estranho personagem do Dr. Bacamarte que mesmo fazendo coisas absurdas e causando uma revolução, ainda tem a estima do povo.

Com um texto envolvente e um tanto cômico, Machado de Assis leva os leitores ao encontro de um estilo culto e acessível. Com esta história tão curiosa e narrada de forma rápida e ao mesmo tempo bem detalhada, não é difícil perceber porque o meio acadêmico dá tanto valor a esta obra.


domingo, 1 de março de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira

Decidi ler Ensaio após assistir sua versão para o cinema. O filme de Fernando Meirelles me fez sair da sala impactada, mas por mais que ele tente ser fiel, não consegue transmitir a confusão de sentimentos que José Saramago me fez sentir meses depois a cada virada de página.

Eu poderia dar diversas interpretações, dizendo que o livro é uma provocação sobre o que o homem pode fazer em situações de caos, ou simplesmente, por saber que ninguém está olhando. Afirmar que é um livro crítico ao governo, que se livra dos indesejados em qualquer lugar, sem perceber que o mesmo mal irá lhe afligir cedo ou tarde. Ou que trata sobre a covardia humana, onde a maioria se encolhe ao que fala mais alto. Talvez acreditar que se trate do machismo (que exige o sacrifício feminino) e do orgulho que esse possui (onde a mulher do outro pode ir, mas a minha não). Ou resumir em uma loucura total, onde o caos e situações bizarras se misturam.

Mas não. Ensaio não possui definição e nem um resumo apropriado, pois ele depende inteiramente da visão (ou falta) do leitor. É ele quem precisa mergulhar nessa história fantástica e identificar o que lhe atrai, tirando assim a venda sobre os próprios olhos.

Pois ao terminar a leitura, essa foi a minha conclusão: Ensaio sobre a cegueira trata unicamente da alma do ser humano, que apesar de enxergar o sinal de trânsito todo dia, permanece tateando na vida, o que me faz definir tudo em uma única frase: Cegos somos, e cegos continuaremos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O livro do riso e do esquecimento

Fugindo um pouco do procedimento básico destes posts, de ler o livro, contar a síntese e apreciar, eu vou colocar aqui um trecho da obra "O livro do riso e do esquecimento", de Milan Kundera, que acabo de ler (o terceiro dele que já li, todos maravilhosos).

"Aquele que escreve livros é tudo (um universo único para si mesmo e para todos os outros) ou nada. E porque nunca será dado a ninguém ser tudo, nós todos que escrevemos livros não somos nada. Somos desconhecidos, ciumentos, azedos, e desejamos a morte do outro. Nisso somos todos iguais: Banaka, Bibi, eu e Goethe.

A irresistível proliferação da grafomania entre os políticos, os motoristas de táxi, as parturientes, os amantes, os assassinos, os ladrões, as prostitutas, os prefeitos, os médicos e os doentes me demonstra que todo homem sem exceção traz em si sua potencialidade de escritor, de modo que toda a espécie humana poderia com todo direito sair na rua e gritar: Somos todos escritores!

Pois cada um de nós sofre com a idéia de desaparecer, sem ser ouvido e notado, num universo indiferente, e por isso quer, enquanto é tempo, transformar a si mesmo em seu próprio universo de palavras.

Quando o dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais."

Que as palavras de Kundera falem por si, a todos nós. E, se puderem, não deixem de ler o livro.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Outro Lado de Mim

Sidney Sheldon é um dos autores mais traduzidos no mundo. Conhecido por títulos como “A ira dos anjos” e “Se houver amanhã”, teve como última publicação um livro de memórias com o sugestivo nome de O Outro Lado de Mim, uma clara referência ao seu primeiro romance de sucesso “O outro lado da meia-noite”.

O outro lado de mim começa com um Sidney de dezessete anos planejando o seu suicídio. Diagnosticado como portador da psicose maníaco-depressivo, passou a vida inteira oscilando entre euforia e tristeza. Somado aos sucessos e desastres de seus textos, o próprio autor comparou sua vida a um elevador.

Infelizmente, para por ai. Seu livro de memórias é superficial ao relatar os seus sentimentos, parecendo mais um resumo do dia-a-dia dos estúdios de Hollywood e das peças da Broadway, apimentados com comentários sobre a vida pessoal de alguns famosos (como Marilyn Monroe e Frank Sinatra).

Sheldon compara suas duas carreiras, afirmando que um romancista é mais valorizado que um roteirista. Pois todos sabem os atores de um filme/seriado/novela, mas dificilmente lembrarão de quem o escreveu. Ler O outro lado de mim é ler as críticas recebidas por cada roteiro escrito por Sheldon, saber qual ator participou, quem estava começando, quem já era uma estrela, quem comandava o mundo do cinema, como se comportavam. Enfim, parte da memória do próprio cinema americano.

Com base nisso, pode-se dizer que o livro de Sheldon nada mais é, que um tributo aos roteiristas, que esperam o telefone tocar, ganham dinheiro quando um roteiro faz sucesso e a carta de demissão quando a crítica é negativa. Mostrar quem nunca é visto por alguém que ainda será lembrado por muito tempo.

No que se refere à literatura, ficam as últimas páginas e o prazer que ela lhe proporcionou. Como o próprio Sidney Sheldon definiu “O romancista é o elenco, o produtor e o diretor. O romancista é livre para criar mundos inteiros, para voltar no tempo, para dar a seus personagens exércitos, criados, mansões. O único limite é a imaginação”.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Homem Comum

Philip Roth - premiado por diversas de suas obras como Pastoral Americana(1997), em que ganhou o Pulizer Prize, a National Medal of Arts(1998) e a mais alta premiação da American Academy of Arts and Letters, a Gold Medal for Fiction (2002); e Complô contra a América, que foi premiado como o melhor romance histórico de tema americano, pela Society of American Historians em 2005 - recebeu mais três premiações, desta vez por O Homem Comum: o PEN Nabokov Award (2006), o PEN Saul Below Award (2007) e o PEN Faulkner Award.
Na obra, O HOMEM COMUM, deste renomado autor da literatura americana, encontramos uma profunda e tocante reflexão sobre a vida e a luta pela sobrevivência, construída partir das memórias do personagem sem nome, um homem comum, que tantas vezes enfrentou a morte.
Na retomada das lembranças passadas, por meio de um exercício mental do personagem, que faz um balanço da própria vida e das dificuldades que enfrentou, o autor nos leva pensar sobre questões que podem acometer a todos nós. Isso se dá, por exemplo, quando ele discorre sobre os problemas cardíacos do personagem principal ou de saúde dos seus vizinhos de condomínio, a dificuldade de envelhecer e não mais conseguir fazer o que fazia antes, os laços construídos ao longo da vida, para depois morrer doente e sozinho.
Utilizando-se de uma narrativa retrospectiva, que foca diversas passagens da vida do personagem, para frente e para trás, como o movimento de uma câmera, permite-nos viajar nas mesmas preocupações e anseios que acometem o protagonista, na luta pela sobrevivência, após já estar aposentado e morando sozinho, em um condomínio de aposentados: a solidão, o medo da morte, o arrependimento por erros cometidos, a angústia e a culpa por achar que é tarde demais para corrigi-los.
O leitor vê-se plenamente familiarizado com os conflitos psicológicos e físicos enfrentados pelos idosos, caracterizados pela luta contra a dor, a doença e o próprio corpo, que não acompanha seus desejos e a juventude de seus cérebros, o que pode causar grande desconforto, dada a percepção da própria finitude. O horror do personagem de ver morrer os amigos, também de idade, à sua volta, faz com que se questione quando será a sua vez e traduz todo o emaranhado de sentimentos e dúvidas quanto a vontade de viver e o preço a pagar, quando não se tem saúde. Lutar por mais um dia ou resignar-se?
Uma história que emociona, pelo realismo de suas cenas. Até os mais jovens vêem-se forçados a fazer um balanço de suas vidas, refletindo sobre o seu próprio processo de envelhecimento e morte e o de seus pais. Chega-se a certeza de que ninguém está preparado para envelhecer, muito menos para morrer. Quando isso acontece, abandona-se tudo sem resolver. Mal entendidos ficam sem esclarecimentos; brigas, sem reconciliação; e o doloroso arrependimento, de parte dos que sobram, por não ter corrigido os erros no tempo certo. Somos obrigados a deixar tudo como está, arrumado ou de pernas para o ar, não dá tempo de fazer as malas. A única coisa que levamos são os laços que formamos com as pessoas, por meio das quais poderemos ou não nos perpetuar.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Sombra do Vento

Primeira ficção adulta do escritor Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento tornou-se uma agradável surpresa, finalista de prêmios literários espanhóis e traduzido para onze idiomas, é considerado uma mistura de Alexandre Dumas, Edgar Allan Poe e Victor Hugo.

Como base para a sua história, Zafón utiliza-se da santíssima trindade da literatura (o autor – a obra – o leitor), e conforme os anos transcorrem, o suspense, a comédia, o drama e o policial vão se mesclando, assim como o narrador vai mudando, permitindo ao leitor uma visão completa quando cada personagem se revela. Isso exige atenção redobrada para acompanhar o crescimento de Daniel, pois ao mesmo tempo em que a curiosidade é instigada através de muitas pistas, no final, irá se perceber que nem todas eram verdadeiras.

A história começa em 1945, na cidade de Barcelona, quando Daniel, no seu aniversário de onze anos, acorda atormentado por não lembrar do rosto de sua falecida mãe. O pai, dono de um sebo, leva o filho ao misterioso e fascinante Cemitério dos Livros Esquecidos. Caminhando pelo labirinto de suas prateleiras, Daniel encontra um livro chamado A Sombra do Vento, ao qual leva para casa e não resiste em iniciar a leitura.

Preso a história, Daniel não consegue esquece-la mesmo após a última página. Desejando ler mais, ele sai em busca de outros títulos do então desconhecido Julián Carax, e dados sobre a vida do próprio autor. Conforme Daniel vai obtendo informações, sua vida passa a ser um espelho, refletindo no seu dia-a-dia o conturbado passado de Carax.

Entre a decepção do primeiro amor e o aparecimento de um homem misterioso, que queima todos os livros de Carax, personalidades interessantes e cheias de mistérios, além de um policial violento, irão entrar e interferir na vida do jovem Daniel, fazendo com que sentimentos como a amizade, culpa e covardia, aflijam o coração do rapaz.

Andando de bonde, caminhando pelas ruas sombrias de Barcelona ou entrando em antigas mansões, o leitor ficará preso em A Sombra do Vento assim como Daniel ficou no exemplar encontrado entre milhares de outros livros. No caso dos ratos de biblioteca, esses poderão ver sua paixão refletida em muitos personagens, cujo mundo das letras é parte fundamental de suas vidas.

A melhor descrição para a história vem do próprio Daniel, que resume o seu A Sombra do Vento assim: À medida que avançava, a estrutura do relato fez-me lembrar daquelas bonecas russas que contém em si mesmas inúmeras miniaturas. Passo a passo, a narrativa se estilhaçava em mil histórias, como se o relato penetrasse em uma galeria de espelhos, e sua identidade produzisse dezenas de reflexos díspares e ao mesmo tempo um só.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O Amor Esquece de Começar

Fabrício Carpinejar dispensa apresentações. Dispensa porque usa uma linguagem única. Ou quase. O estilo de escrita usado por Carpinejar, já era usado pelos mestres: Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira.

Nacionalmente reconhecido, o poeta, Fabrício optou por, também, escrever outro gênero: crônicas. E se deu bem. Em O Amor Esquece de Começar - sua estréia na prosa, o lírico está inserido na prosa com uma significância magistral. Cada crônica presente na obra foi redigida por um indivíduo que presta atenção em tudo a sua volta: desde as situações mais banais do dia-a-dia até as que exigem um olhar mais apurado, ou seja, crítico.

O padrão estético usado por Fabrício Carpinejar é sutil e irônico mas, ao mesmo tempo, pode-se afirmar que há humor na sua prosa. Um humor leve, assim como as crônicas de Antônio Maria. "Solidão não é prejudicial à saúde", "Leveza" e "Deixe-me dançar a sua vida" são apenas algumas das crônicas onde se percebe o talento nato de Carpinejar com a escrita. O leitor só precisa se permitir duas coisas: ser levado pela sensibilidade e emoção a flor da pele que certamente estarão mais expostos após a leitura desta obra singular. Até os leitores menos nostálgicos irão se render.