Mostrando postagens com marcador Literatura Portuguesa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Portuguesa. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Sinopse de amor e guerra


Sinopse: Theobald e Bluma estão fadados a ficar juntos desde que vieram ao mundo. Os livros são o seu ponto de encontro. Mas a Berlim do pós-guerra, uma cidade enlutada e dividida, haverá de contrariar o que o destino parecia ter escrito. Numa noite de Agosto, sem aviso, o chão de Berlim é rasgado pelos alicerces de um muro — o mais famoso da História —, adiando a promessa do primeiro beijo. Este romance de Afonso Cruz parte de uma trama real em que o amor e a guerra se entrelaçam para questionar certos limites, encontrando no destino individual de dois amantes uma pergunta universal: o que seríamos capazes de fazer por paixão, que barreiras ultrapassaríamos? Pode o amor saltar muros sem que alguém se magoe?

No mês de junho/26 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Sinopse de Amor e Guerra do escritor português Afonso Cruz. A indicação foi da criadora do projeto "Vá Ler um Livro" Tatiany Leite. E o mimo foram imãs de geladeira no tema cinema brasileiro.

As famílias de Theobald Thomas e Bluma Baumann são amigas, fazendo com que os dois cresçam juntos. Temporariamente separados na adolescência pela diferença de idade — Bluma é mais velha e acaba despertando mais cedo a curiosidade por assuntos que vão além das brincadeiras da infância —, eles se reencontram na livraria do tio de Theobald. É ali que a amizade de infância começa, lentamente, a se transformar em amor.

A normalidade é de papel e estraga-se quando se manuseia, rasga-se, desfaz-se.


Um amor construído através dos livros, das histórias e dos poemas que Theobald decora para impressionar a moça que acredita, profundamente, estar destinada a ele. Quando o afeto finalmente é correspondido, Bluma passa a ocupar um lugar ainda mais importante na vida de Theobald, e os dois começam a construir uma relação em que literatura e sentimento caminham lado a lado.

Uma história que teria tudo para ser um bonito romance, quase uma comédia romântica, se não fosse por um pequeno detalhe: eles vivem na Alemanha do pós-guerra. Mais precisamente em Berlim, uma cidade que se viu dividida de um dia para o outro, em pleno verão de 1961.

Quem ama encontra o amado em tudo, um ser infinito que se revela em todos os pormenores, uma visão profana do trabalho ascético, do místico ou do santo.


Famílias, amigos e amores que até então faziam parte da mesma cidade passam a não poder mais se encontrar. Uma barreira física, criada por uma divisão política, passa a produzir consequências pessoais e profundas na vida daqueles que ficaram separados por ela — e, para alguns, a distância imposta pelo muro faz surgir a necessidade de buscar medidas cada vez mais extremas para voltar a estar perto de quem amam.

Inspirado em uma história real, Sinopse de amor e guerra integra a coleção Geografias, sendo o segundo romance de Afonso Cruz publicado nessa coleção, depois de Princípio de Karenina, que se passa no Vietnã.

Compreender o que passou e o que deveria ter sido feito é relativamente fácil, o que é difícil é imaginar todos os "ses" possíveis que o futuro nos coloca...


Mais do que relembrar o impacto que as divisões políticas podem causar na vida de pessoas comuns, o romance transforma a história de Theobald e Bluma em uma reflexão sobre espera, liberdade, limites e sobre até onde alguém estaria disposto a ir para viver um amor.


A escrita de Afonso Cruz

O português Afonso é um artista multidisciplinar: escritor, ilustrador, músico e cineasta, tendo trabalhado durante mais de uma década com cinema de animação. Também é integrante da banda The Soaked Lamb e, entre suas muitas atividades, produz a própria cerveja artesanal. 

Iniciou a sua carreira literária no final dos anos 2000, e desde então tem apresentado uma obra bastante diversificada, que passa por romances, contos, ensaios, teatro, literatura infantil e juvenil, livros ilustrados e até uma curiosa “enciclopédia” de história universal inteiramente inventada. 

Poderiam o ódio, a guerra, o rancor, a desumanidade surgir de um amor imenso?


Seus livros já foram publicados em mais de vinte idiomas e receberam diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura, pelo romance A Boneca de Kokoschka já resenhado aqui no blog e primeiro livro que eu li do autor.

Esse perfil diversificado está em suas obras, na maneira como constrói imagens, associa ideias e trabalha o ritmo das narrativas. Em uma entrevista, o próprio autor afirmou que não vê suas diferentes atividades artísticas como áreas hierarquizadas, mas como formas distintas de criação.

O fruto proibido não nos foi mostrado para que não o comêssemos, foi-nos mostrado para que transgredíssemos.


Em Sinopse de amor e guerra, essa característica aparece em uma narrativa aparentemente simples, mas construída sobre diferentes camadas. A história de Theobald e Bluma é atravessada pela literatura, pela memória e pela História, enquanto Afonso Cruz transforma o Muro de Berlim em algo que ultrapassa sua existência física. 

Com uma escrita delicada, reflexiva e muitas vezes carregada de imagens e associações, o autor conduz uma história de amor que também fala sobre separação, liberdade, escolhas e as marcas deixadas pelo tempo.


O que eu achei de Sinopse de amor e guerra

Um livro curto, de escrita fluida e envolvente, que torna a leitura fácil e rápida, mas nem por isso pouco reflexiva.

Existe a doçura do primeiro amor, o encantamento pelo sentimento correspondido, a dor da separação por motivos que parecem absurdos, parecendo mais uma ficção do que realidade. E existe também a juventude, que exige recomeços para um coração que ainda não foi desocupado.

E então Theobald nos questiona, sem frescuras ou indiretas: qual é o limite do amor? O que podemos fazer por aqueles que amamos? Foi nesse momento que me veio à cabeça uma música do Bryan Adams, [Everything I Do] I Do It for You.

O ser excepcional não passa de uma pessoa normal que, em certas circunstâncias, se porta de maneira esquisita.


Como leitora, porém, fui além do amor romântico e comecei a pensar na situação que realmente aconteceu com tantas famílias. O que fazer quando já não podemos mais ver alguém que amamos? Como lidar com as incertezas de que a vida de quem ficou do outro lado do muro pode ser pior do que a nossa?

Não é à toa que tantas pessoas se arriscaram em tentativas de fuga da Berlim Oriental para a Berlim Ocidental, cavando túneis, atravessando o rio Spree a nado ou encontrando outras formas extremamente arriscadas de ultrapassar a barreira. São histórias que parecem verdadeiros pesadelos, mas que aconteceram de fato e chegaram ao conhecimento de Afonso Cruz por diferentes relatos.

E, curiosamente, foi uma história contada pelo próprio pai do escritor — sobre um casal separado pelo muro — que inspirou Sinopse de amor e guerra.

Há uma melodia estranha no retrato, vestígios de uma canção que se imiscuem na imagem e a impregnam.


Um livro que instiga o leitor ao trazer os conflitos provocados por muros que podem ser tanto físicos quanto psicológicos, principalmente quando quem entra na narrativa consegue sair do papel de juiz para vestir a pele dos personagens e tentar enxergar o mundo a partir das circunstâncias em que eles estão inseridos.

Além disso, Sinopse de amor e guerra possui bons personagens secundários, como o tio de Theobald, dono da livraria e uma presença importante ao longo das diferentes fases da vida do sobrinho.

Os pais olham para os filhos e dizem: deu um salto. Quer isto dizer que sentimos que, num período curto, houve uma progressão unusitada.


Um livro sensível e complexo, que nos desafia a pensar até onde iríamos por amor — e o que estaríamos dispostos a fazer quando uma barreira criada por outros decide o destino das nossas vidas.

Ficando aqui a minha recomendação de leitura, para quem gosta de ficção com base histórica, para quem quer uma história de amor diferente ou simplesmente por quem é apaixonado por livros.


Sinopse de amor e guerra
Afonso Cruz
TAG - Dublinense
2026 - 160 páginas
Publicado originalmente em 2021

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A boneca de Kokoschka



Sinopse: Em uma Dresden devastada pelos bombardeios, Bonifaz Vogel esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. A partir daí, vão entrando em cena diversos personagens, incluindo Mathias Popa, autor de A boneca de Kokoschka, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka e da sua boneca, feita à imagem e semelhança da sua amada. E dessa singular galeria de vidas, Afonso Cruz compõe um irônico e magistral jogo de matrioskas, no qual a realidade se confunde com a ficção e cada história é ressignificada pelo olhar do outro.

Em meio a segunda guerra mundial, o jovem Isaac Dresner corre desesperadamente para salvar a sua vida. É na loja de pássaros onde seu pai havia construído uma cave que ele encontra a salvação ao se esconder no local. Um dia, passa a falar de seu esconderijo com Bonifaz Vogel, o dono do local, que curiosamente obedece a voz sem dono, gerando uma curiosa relação.

Com o fim da guerra, Isaak apesar de ser o mais jovem, adota Bonifaz, ao grupo se une Tsilia, que os encontrou por acaso na rua após fugir do local onde morava. Mudam de país para se reconstruir através da pintura e de uma livraria. E é o encanto de Isaak pelos livros que o faz cruzar com o escritor Mathias Popa.

Sabia que aquilo acontecia dentro da sua cabeça, mas tinha a estranha sensação de que as palavras vinham do soalho, passando-lhe pelos pés.


E este encontro irá gerar um livro dentro de um livro, onde o foco é Adele Varga, que após a guerra contrata um investigador para descobrir os mistérios que sua avó escondida. A chave de tudo é o autor que se torna personagem na própria história e transforma tudo em um jogo de espelho, quando as semelhanças entre a realidade da ficção de Afonso Cruz começam a ser refletida na ficção de Mathias Popa, e vice-versa.

E é neste romance também que o leitor irá encontrar a explicação do título, ou melhor, toda a origem da criação da boneca de Kokoschka.


A escrita de Afonso Cruz


A boneca de Kokoschka recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura em 2012, mas este não é o único motivo pelo qual o livro do escritor português Afonso Cruz merece ser lido.

Com uma escrita que mistura agilidade, reflexões, cenas fortes, toques cômicos e lirismo, ele divide a sua boneca de Kokoschka em três partes mais o romance de Mathias Popa. Sendo a primeira parte referente a guerra, a segunda parte com as memórias de Isaac - e por tabela de Bonifaz e Tsilia - e seu encontro com Popa, o livro de Popa e a última parte onde temos um novo personagem.

As pessoas diziam que ele era estúpido e ele concordava acenando com a cabeça e passando os dedos no queixo.


Os capítulos são curtos, rápidos, as vezes fortes, outras vezes objetivos e também há momentos em que se explica um pouco mais sobre os personagens. A narrativa em sua maioria está em terceira pessoa, havendo alguns momentos nas memórias e cartas que o autor utiliza a narrativa em primeira pessoa.

O resultado é um livro envolvente que exige atenção para não se perder nos acontecimentos e reviravolta, pois se o início da história parece mais simples, no decorrer das páginas ela vai ganhar uma complexidade que não permite devaneios entre os parágrafos.

 

O que eu achei de A boneca de Kokoschka


O livro tem logo de início a cena mais emblemática para mim, Isaac Dresner brincando com um amigo vê o mesmo ser baleado na cabeça por um soldado alemão, e quando o garoto vai ao chão, a sua cabeça cai justamente no pé direito de Isaac. O peso da cena trágica o acompanhará para sempre, já que ele passa a coxear ligeiramente na perna direita, carregando eternamente os efeitos de uma guerra.

Já para o final achei surpreendente o cuidado pelos detalhes da obra de Mathias Popa, já que o livro dentro do livro é completo, com direito a capa, capítulos e apresentação do autor. E claro, o nome da editora do Isaac.

E, se o que é harmonioso e proporcional é fácil de reconhecer, donde vem essa atroz desproporção que vemos no mundo?


E apesar de ter sentido um certo estranhamento e perdido um pouco do meu ritmo de leitura quando comecei a ler o livro dentro do livro, no geral eu gostei bastante da obra.

Principalmente da primeira parte que eu achei triste e ao mesmo tempo formidável o fato do menino se comunicar pelo chão e o senhor simplesmente obedecer a aquela voz. O cuidado do menino que passou a auxiliar até nos negócios da loja e no fim da guerra se sentia pai de quem o ajudou sobreviver.

É assim o nosso destino, fazemos curvas e parábolas para que ele se cumpra com perfeição.


Pois existe muita humanidade entre os personagens, no auxilio mútuo e em suas buscas após anos de muitas perdas, e na eternização da memória através das histórias.  

Um livro que me chamou a atenção pelo resumo e não decepcionou, ficando aqui a minha recomendação de leitura.


A boneca de Kokoschka
Afonso Cruz
Editora Dublinense
Edição em Português de 2021
2010 - 288 páginas

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Afirma Pereira


Sinopse: Um momento trágico da história da Europa: crescem o salazarismo português e o fascismo italiano; a Espanha era cenário de uma violenta guerra civil. Um relato preciso que evoca momentos cruciais da vida de um protagonista que se dedica a não ser herói de nada. Pereira, jornalista apagado responsável pela página cultural de uma reduzida gazeta vespertina, protagoniza solidão, sonhos, a consciência de viver e de optar, ou talvez de não optar. Tão humano, se afirma Pereira sempre às margens do precipício.

O livro de agosto da TAG Curadoria foi indicado pela escritora Jhumpa Lahiri, ao qual já resenhei o livro Intérprete de Males aqui no Blog. Afirma Pereira é do escritor italiano Antonio Tabuchi, que assim como Jhumpa também escreve em um segundo idioma.

A história ocorre em Agosto, em pleno verão Europeu. A cidade é Lisboa e o ano 1938. Pereira é um jornalista formado na universidade de Coimbra, viúvo, perdeu sua esposa para a tuberculose e nunca mais se envolveu com nenhuma outra mulher. Durante 30 anos escreveu nas páginas policiais, mas atualmente é o diretor e único responsável pela página cultural de um jornal católico.

Era vinte e cinco de julho de mil novecentos e trinta e oito, e Lisboa cintilava no azul de uma brisa atlântica, afirma Pereira.

A página cultural é publicada todos os sábados, e ali ele coloca a tradução de contos franceses do século XIX e sobre escritores famosos falecidos. Fora isso, as suas preocupações são resumidas a sua alimentação, o seu problema cardíaco e a conversar com a esposa.

Tudo muda ao ler um artigo sobre a morte do recém formado Monteiro Rossi. Pereira que tinha uma fixação sobre não acreditar na ressureição da carne vê no rapaz um possível estagiário para auxilia-lo a antecipar os necrológicos para os grandes escritores da época, afinal, em tempos de guerra, elas poderiam ocorrer a qualquer momento. 

Porque nós fazemos um jornal livre e independente, e não queremos nos meter com política.

Rossi aceita o trabalho, mas ao contrário de contribuir com artigos, o rapaz junto com uma moça chamada Marta acaba abrindo os olhos de Pereira para o mundo presente, e ao acordar, suas ideias sobre a realidade começam a ser questionadas.

Suas dúvidas o levam a se internar em uma clínica para cuidar mais de sua saúde, é quando conhece o Doutor Cardoso, que lhe explica a sua teoria sobre não termos uma única alma, mas uma confederação de almas e um eu hegemônico, que no caso de Pereira quer vir a tona, deixando de viver o passado para recomeçar no presente.

Então me explique tudo, implorou Pereira, porque eu gostaria de fazer minhas escolhas, mas não estou bem informado.

Esta teoria leva o leitor a outro personagem, o Padre António, que após uma discussão sobre a alma ser única ou não, acaba explicando o problema do clero basco e a questão de apoio a república e a repressão da ditadura espanhola de Franco. A soma de tudo é que permitira Pereira decidir sobre como deseja conduzir a sua vida.

Afirma Pereira tem o próprio escritor como narrador, misturando um personagem que passou a visita-lo com um jornalista que ele conhecia, surgiu a figura de Pereira, que lhe conta suas desventuras em um mês muito quente, em um país que fica na Europa e não se sente parte dela, e sobre uma ditadura que passa despercebida aos mais desligados. Por isso a nota do autor, que foi publicada no Il Gazzettino em 1994 é uma espécie de complemento e preparação do que irá vir.

eu não sou companheiro de ninguém, vivo sozinho e gosto de estar sozinho, o meu único companheiro sou eu mesmo.

Confesso que inicialmente o uso numeroso do termo Afirma me irritou, e julguei precipitadamente que o livro fosse ser muito chato. Errei feio. Conforme Pereira foi desvendando o que havia por trás da cortina de boas notícias de Lisboa, as referências históricas e literárias, assim como os jovens que passam a orbitar em volta deste homem tão agarrado ao passado, o livro ganha um ritmo que me agarrou como leitora.

Afirma Pereira é um livro ao mesmo tempo intenso e rápido de ler. Os fatos provocam a necessidade de ir devorando as páginas, ao mesmo tempo que a curiosidade impulsiona para descobrir as respostas junto com Pereira. Conforme a tensão pelo perigo vai tomando conta da história, até ela termina de forma arrebatadora e surpreendente.

Dizem que vivemos numa ditadura, respondeu o garçom, e que a polícia tortura as pessoas.

Uma recomendação é necessária para quem irá se aventurar nestas páginas, faça-o de estômago cheio. Pereira é um homem bom de garfo, entre omeletes, peixes, limonada e vinho branco, seus diálogos ocorrem quase que na totalidade durante as suas refeições. A ponto que a TAG incluiu na revista que acompanha o livro as receitas degustadas ao longo da história. Aliás, a produção gráfica do livro está de parabéns, tanto a Lisboa na luva quanto os limões na capa complementaram a experiência.

Finalizei a leitura batendo palmas para Tabucchi e com saudades do Pereira. E como não poderia deixar de ser, recomendando a leitura para todos de uma Lisboa que poderia ser qualquer cidade, em qualquer época, se nunca olharmos além de nossas próprias janelas.

Afirma Pereira
Antonio Tabucchi
Tradução: Roberta Barni
TAG - Estação Liberdade
1994 - 157 páginas

domingo, 29 de setembro de 2019

Autobiografia



Sinopse: Na Lisboa dos anos 1990, um jovem escritor vê seu caminho se cruzar com o de José Saramago em diversas ocasiões. Desses encontros, nasce uma história em que realidade e ficção se mesclam, num engenhoso jogo de espelhos construído habilmente por José Luís Peixoto que evidencia as possibilidades que cercam o universo da metaliteratura.

Julho é o mês de aniversário da TAG, e seus associados sempre recebem uma edição ainda mais especial. Ao completar cinco anos o que recebi foi um grande presente. Autobiografia é uma homenagem ao escritor José Saramago e a oportunidade do leitor entrar neste mundo tão estranho que se chama escrever um livro.

Temos um José que gosta de beber, jogar e que na ânsia de sua juventude ainda não conseguiu escrever o seu segundo romance. Ele é surpreendido por um convite: escrever a biografia de ninguém menos do que José Saramago. 

Preso, o seu olhar entrou em cada uma daquelas palavras, mestre de obras, avaliou-as por dentro como se fossem casas, pode viver-se aqui?

Enquanto tenta escrever a história, ele percorre Lisboa e convive com diferentes personagens que vão da própria mãe, seu senhorio Bartolomeu, a namorada Lídia, o amigo Fritz, além é claro do próprio Saramago e Pilar.

A primeira coisa a dizer é que a leitura não é fácil. Como a sinopse avisa, temos um jogo de espelhos. Peixoto parece se utilizar de sua experiência pessoal e do que conhecia do próprio Saramago para confundir o leitor em uma narrativa fantástica, que multiplica Josés e situações que vão do cotidiano ao inusitado.

Caminhando pelas ruas de Lisboa, que pode ser o centro histórico ou a periferia onde nenhum turista tira foto, assuntos como imigração e racismo são colocados na pauta, onde questões tão atuais fazem parte do encaminhamento da história, ao mesmo tempo em que leva o leitor a refletir sobre comportamentos tão familiares.

Perante a fatalidade da morte, a herança que um homem foi capaz de juntar é a sua própria existência; termina o tempo, permanece o metal.

A segunda coisa a dizer é que o livro não é uma biografia do Saramago, mas o autor está presente em suas páginas quando identificamos em alguns capítulos o ritmo e a estrutura de livros já lidos. Assim como referências e personagens de histórias hoje muito conhecidas pelos fãs deste escritor português.

O que faz com que o leitor que se entrega ao jogo de biografia tenha um desejo de ler as obras de Saramago referenciadas ao longo do texto ao finalizar a leitura. Uma curiosidade que se mistura com a necessidade de buscar pequenos tesouros ainda não descobertos.

Mas não pense que não há nada de Peixoto, pois há também a poesia e a suavidade característica do autor, o que nos leva de um mundo a outro sem nenhum aviso, exigindo ainda mais a nossa atenção.

Outra característica que deixa forte a presença de Peixoto no livro são as referências à figura paterna, que se apresenta nas mais diferentes formas, impactando fortemente na vida dos seus personagens.

Há uma condensação de potencial nas crianças, se são verdadeiramente crianças são sempre verdadeiramente livres, qualquer impensável pode nascer da sua sede.

A terceira coisa a se dizer é que a muito processo da escrita, mais precisamente do processo criativo de um escritor. Temos observações, pesquisa, nota de rodapé e frases não terminadas. Em um momento raro estamos na mente e nos dedos de quem tenta transformar pensamentos em parágrafos. É possível sentir a pressão, o envolvimento e até mesmo a frustração da quebra do ritmo.

A quarta coisa a se dizer é que temos um narrador sem nome (será o próprio Peixoto?!) que nos conta a história utilizando o português de Portugal, mas isto não deve assustar ao leitor, pois mesmo as palavras desconhecidas são de fácil entendimento no andamento da frase.  

Outro recurso utilizado é de frases do próprio Saramago sobre a literatura, sobre escrita, sobre vida. Elas complementam a experiência e nos levam a repensar outros livros escritos, e ecoam em leituras futuras.

O mundo não sente obrigação de explicar-se. Quem precisa de explicações que as procure.

Um livro sobre livros, sobre autores, sobre vidas. Um livro para pensar e gargalhar, pois sim, neste mundo de Josés há cenas para rir, sonhar e questionar. Autobiografia é para ser lido de coração e mente aberta, pois para os que amam ler ele não acaba após chegar à última página.

Autobiografia
José Luís Peixoto
TAG – Companhia das Letras
2019 – 246 páginas 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Ensaio Sobre a Lucidez



Sinopse: Numa manhã de votação que parecia como todas as outras, na capital de um país imaginário, os funcionários de uma das seções eleitorais se deparam com uma situação insólita, que mais tarde, durante as apurações, se confirmaria de maneira espantosa. Aquele não seria um pleito como tantos outros, com a tradicional divisão dos votos entre partidos da direita, do centro e da esquerda; o que se verifica é uma opção radical pelo voto em branco. Usando o símbolo máximo da democracia – o voto -, os eleitores parecem questionar profundamente o sistema de sucessão governamental em seu país.

Em 1995 a mesma população se fez presente em uma situação nada comum: todos, com exceção de uma mulher, estavam cegos, tudo o que viam era a cor branca. O livro se chama Ensaio sobre a cegueira e deu a Saramago o prêmio Nobel de literatura.

Nove anos depois, ou quatro no país imaginário, o branco retorna em forma de voto, questionando a democracia, o sistema político, a imprensa, a mediocridade, a mentira e a verdade.

Tudo começa em um dia de muita chuva, o presidente da mesa, os delegados dos partidos, secretários e demais envolvidos esperam pelos eleitores na capital de um país. Passa o tempo e ninguém aparece, ligações são feitas, a chuva é a culpada e todos aguardam. Faltando uma hora para o término a população sai às ruas e exerce o seu direito cívico. Na hora da apuração, a surpresa: mais de setenta por cento dos votos estão em branco.

A cabeça dos seres humanos nem sempre está de acordo com o mundo que vivem, há pessoas que têm dificuldade em ajustar-se á realidade dos factos, no fundo não passam de espíritos débeis e confusos que usam as palavras, às vezes habilmente, para justificar a sua cobardia

A primeira reação do governo é realizar novas eleições, para obter o mesmo resultado. E assim presidente, primeiro-ministro, ministros ficam desnorteados, e começam a colocar em prática as mais absurdas soluções para uma consequência ao qual não dão importância de investigar a causa.

Diálogos sem nexo são travados, disputas pelo poder ganham ênfase. Quem tem razão? Quem acerta? Quem erra? Ministros se demitem. Outros acumulam cargos. De quem será a glória de fazer as pessoas voltarem a si?

No vale tudo a palavra branco é banida, o direito ao voto branco é esquecido tornando o mesmo um crime, jornais são manipulados para informarem o que o governo deseja, quem são os culpados? Ninguém sabe, apenas silêncio e medo.

Felicito-o pela excelente memória, mas às ordens, de vez em quando, há que flexibilizá-las, sobretudo quando haja nisso conveniência

A falta de resultado torna uma cidade sitiada, à noite em que os políticos abandonam a capital é descrita de forma belíssima, uma crítica, um afronto, um combate em silêncio.

E é desta cidade agora sitiada que vem o link com o primeiro livro, quando o primeiro cego relaciona a mulher do médico oftalmologista aos votos em branco, pelo simples fato de ela não ter ficado cega quatro anos antes. Fatos antigos são relatados em forma de presente para quem deseja exercer maior influência.

Aprendi neste ofício que os que mandam não só não se detêm diante do que nós chamamos absurdos, como se servem deles para entorpecer as consciências e aniquilar a razão

Neste momento um comissário de policia ganha a missão de investigar, e o leitor volta a ter contato com seis personagens da história anterior, onde cinco deles seguem se apoiando em uma nova situação absurda. 

O que faz um homem que encontra a verdade, mas esta não atende os anseios de quem comanda? O que faz um homem ao ver informações serem distorcidas? Novamente os dilemas éticos na visão de um cidadão comum.

Como ocorreu no Ensaio Sobre a Cegueira, os personagens não possuem nome. É o vigia, o padeiro, o jornaleiro, o editor, o velho. Indicando que este lugar imaginário pode ser o país do leitor, e este ser um dos personagens sem perceber.

A crítica e a ironia escorrem das páginas, mesmos nos capítulos que parecem mais lentos. O que é realmente a democracia? Quais são os direitos? Quais são os deveres? Qual o papel dos políticos? Até onde se vai pelo poder? Quem é culpado? Quem é inocente? 

E assim novamente Saramago nos despeja uma leitura reflexiva, onde as peças podem não se encaixar na primeira vez. Uma leitura complementar que fecha um ciclo e nos faz pensar no nosso papel como cidadão, mas esta só será possível se nos livrarmos de opiniões pré-concebidas e avaliarmos o cotidiano em uma folha em branco.

Sobre o final: fazia tempo que eu não deseja tanto que um livro terminasse de forma diferente.

Ensaio Sobre a Lucidez
José Saramago
Companhia das Letras
2004 – 325 páginas

domingo, 1 de março de 2009

Ensaio Sobre a Cegueira


Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "Treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti.

Decidi ler Ensaio após assistir sua versão para o cinema. O filme de Fernando Meirelles me fez sair da sala impactada, mas por mais que ele tente ser fiel, não consegue transmitir a confusão de sentimentos que José Saramago me fez sentir meses depois a cada virada de página. 

Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite

Narrado em terceira pessoa, os personagens não possuem nome, são identificados por sua profissão ou alguma característica. Em meio a cegueira que se alastra, há uma exceção, a mulher do médico segue enxergando, mas mente sobre isso para acompanhar o marido. E ela verá todos os horrores desencadeados pela situação única, assim como a divisão entre opressores e oprimidos.

Eu poderia dar diversas interpretações, dizendo que o livro é uma provocação sobre o que o homem pode fazer em situações de caos, ou simplesmente, por saber que ninguém está olhando. Afirmar que é um livro crítico ao governo, que se livra dos indesejados em qualquer lugar, sem perceber que o mesmo mal irá lhe afligir cedo ou tarde. Ou que trata sobre a covardia humana, onde a maioria se encolhe ao que fala mais alto. 

A mãe não vinha com ele, não tivera a astúcia da mulher do médico, declarar que estava cegar sem o estar, é uma criatura simples, incapaz de mentir,  mesmo para seu bem. 

Talvez acreditar que se trate do machismo (que exige o sacrifício feminino) e do orgulho que esse possui (onde a mulher do outro pode ir, mas a minha não). Ou resumir em uma loucura total, onde o caos e situações bizarras se misturam. 

Mas não. Ensaio não possui definição e nem um resumo apropriado, pois ele depende inteiramente da visão (ou falta) do leitor. É ele quem precisa mergulhar nessa história fantástica e identificar o que lhe atrai, tirando assim a venda sobre os próprios olhos. 

Passada uma semana, os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. 

Pois ao terminar a leitura, essa foi a minha conclusão: Ensaio sobre a cegueira trata unicamente da alma do ser humano, que apesar de enxergar o sinal de trânsito todo dia, permanece tateando na vida, o que me faz definir tudo em uma única frase: Cegos somos, e cegos continuaremos.

E para quem gostar da leitura, fica uma dica preciosa, existe uma continuação, chamada Ensaio sobre a Lucidez, que você simplesmente não pode deixar de ler.

Ensaio sobre a cegueira
José Saramago
Companhia das Letras
1995 - 310 páginas