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quinta-feira, 20 de março de 2025

Os Malaquias


Sinopse: Após perderem os pais, os irmãos Nico, Júlia e Antônio veem-se diante de nova realidade. O mais velho, ainda criança, passa a trabalhar na fazenda de um poderoso da região; a menina, por sua beleza, é adotada e levada para outra cidade; o caçula, um garoto que não cresce, é acolhido pelas freiras do orfanato. Romance de estreia de Andréa del Fuego, Os Malaquias recebeu em 2011 uma das mais prestigiosas honrarias da literatura, o prêmio José Saramago. Um tributo fascinante à memória, à família, à vida e à humanidade de cada um de nós.



No mês de dezembro recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Os Malaquias, da autora brasileira Andréa Del Fuego. A indicação foi da escritora e roteirista Morgana Kretzmann. E o mimo foi um calendário, já tradicional do mês.

Na comunidade de Serra Morena um raio atinge a casa dos Malaquias, levando a morte os pais de três crianças: Nico, Júlia e Antônio. 

Debaixo da construção a terra, de carga negativa, recebeu o raio positivo de uma nuvem vertical.


Da mesma forma que dividem os bens da família, as pessoas próximas também dividem as crianças. Nico, mais velho e mais forte, vira empregado em uma fazenda.

Os dois mais novos são enviados para um orfanato de feiras e Júlia logo é adotada por uma mulher que parece levar uma vida próspera.

Deixou que a garganta inflamasse até o limite possível, assim ele não trabalharia debaixo do sol.


Enquanto isso, Antônio, que não cresce, segue sua vida no orfanado, fazendo duas travessuras e sendo cuidado pelas freiras.

Mostrando o destino de cada um dos irmãos, a autora aborda assuntos relevantes, ao mesmo tempo que coloca o fantástico para quebrar toda a crueldade e dureza que eles encontram ao longo do caminho.


A escrita de Andréa Del Fuego

Os Malaquias é o primeiro romance da escritora e psicóloga Andréa del Fuego. Nascida em São Paulo sua escrita contemporânea costuma explorar as complexidades do ser humano.

Algo facilmente identificado em Os Malaquias, cuja a mistura do fantástico com uma escrita que se alterna em diferentes tempos e perspectivas conforme o personagem que recebe o foco.

As irmãs francesas estavam em missão católica na pequena cidade, gostavam de crianças enquanto elas cresciam e repetiam ensinamentos.


Pois ao abordar a história dos três irmãos, a história está em constante movimento, seja relatando fatos que estão ocorrendo, seja através de monólogos internos, o que permite ao leitor viver um pouco das emoções sentidas pelos personagens.

Tornando a narrativa envolvente, de forma que desperta a continuar a ler mais uma página, enquanto se tenta refletir sobre os assuntos abordados e diferenciar o que é real e o que é imaginação.


O que eu achei de Os Malaquias 

Ao misturar assuntos que podem mexer com o psicológico do leitor com o fantástico, Os Malaquias já atraiu a minha atenção desde as primeiras páginas.

Logo de cara ela aborda a perda que vai além das figuras de referência como o pai e a mãe, mas de tudo o que é sinônimo de segurança para as crianças, que é a própria casa e convivência com os irmãos. Existe uma crueldade por demais realistas nos bens materiais buscados por pessoas próximas e o abandono total dos três.

No quartinho ainda havia um guarda-roupa, um rádio de pilha e atrás da porta uma tábua de passar roupa.


Para a seguir chegarmos no trabalho infantil, dois dos irmãos são colocados para realizarem trabalhos braçais, sem que haja interesse pela educação deles. Sendo que em um dos casos a hipocrisia pode despertar um sentimento de raiva em quem está lendo. Ironicamente, o mais bem cuidado é o que fica no orfanato.

Há também a questão ambiental, quando uma hidrelétrica coloca parte da comunidade embaixo da água, temos um retrato não só de como o fato afeta as pessoas diretamente atingidas, mas também o aspecto econômico e o primeiro contato com uma novidade chamada luz, ao qual nenhum de nós consegue viver nos dias de hoje. Aqui temos a questão do apego por quem não tem direito a opinar sobre mudanças que afetam diretamente a sua vida, e o custo que isso pode ter para quem tenta resistir.

A casa dos Malaquias não ficou sozinha, vizinhos apanharam os pertences da família.


Tudo em uma escrita muito fluída, que conseguiu me aproximar não só dos personagens como do local em si. Onde reflexões e questionamentos andaram lado a lado enquanto eu acompanhava o crescimento de Nico, Júlia e Antônio.

E ao saber que a história foi inspirada em antepassados da escritora, mais surpreendente e interessante eu achei a história, o que me fez ficar com aquela interrogação até hoje do que foi real e do que foi imaginação.

Ficando a dica para quem acompanha o blog.


Os Malaquias
Andréa del Fuego
TAG - Companhia das Letras
2024 - 182 páginas
Publicado pela primeira vez em 2010


terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Nada para ver aqui



Sinopse: Na primavera de 1995, Lilian recebe uma carta de Madison. Amigas improváveis na época da escola, elas perderam o contato ao longo dos anos, seguindo caminhos bastantes distintos. Madison, agora casada com o senador Roberts, escreve oferecendo um emprego a Lilian como babá dos enteados que estão chegando para morar na mansão do político. Com uma vida digna de zero comentários e nada a perder, Lilian aceita a oferta e, ao longo do verão, ela se surpreende com o vínculo criado com os gêmeos Bessie e Roland. Só tem um problema: ela não esperava que a situação pudesse pegar fogo...

A TAG Curadoria encerrou o ano com uma indicação da multiartista Clarice Falcão, que indicou o autor norte-americano Kevin Wilson e o seu Nada para ver aqui. Como eu tenho a assinatura dos dois clubes da TAG, meu mimo foi um livro extra, para quem só tinha a curadoria, recebeu um calendário 2022.

Lilian era uma criança inteligente e graças aos seus esforços conseguiu uma bolsa de estudo para uma escola particular, onde meninas ricas eram enviadas para serem preparadas para o futuro. É neste local que ela conhece Madison, ao qual forma uma estranha amizade, e vê o seu sonho de uma vida melhor ser destruído quando sua mãe aceita dinheiro do pai de uma aluna para que a culpa pelas drogas encontradas no quarto da filha seja assumida por Lilian.


Eu esporadicamente namorava pessoas que não me mereciam mas pensavam que mereciam.


Sem nunca se recuperar por esta perda, a única lembrança que fica do período são as cartas de Madison que ela recebe de tempos em tempos. Enquanto a amiga entra para a política e acaba se casando com o candidato ao senado ao qual prestava apoio, Lilian leva uma vida bem mais ou menos e segue morando na casa da mãe.

Mas um dia ela recebe uma carta diferente, um pedido de visita que esconde o verdadeiro interesse do rico casal: cuidar dos filhos de Roberts após o falecimento da sua ex-esposa. E o que parecia um trabalho normal, ganha um toque de realismo fantástico quando ela é informada que os gêmeos literalmente pegam fogo.


Eu ia finalmente, depois de vinte e oito anos, experimentar coisas do jeito que eram planejadas para ser.


Os personagens

Lilian é a personagem principal desta história, uma mulher que não se recuperou da agressão sofrida ainda na juventude, não dando utilidade nenhuma para toda a sua inteligência. Sozinha, sem afeto materno e pai desconhecido, é muito fácil ela se apaixonar por Madison, que acaba utilizando isso para manipula-la.

Madison é o estereótipo físico do padrão tão cultuado, dos cabelos sempre cuidados, passando pelo corpo em forma e as roupas cuidadosamente escolhidas. Como o marido ela respira política, trocando o antigo sonho de ser presidente para alavancar a carreira do companheiro.


Muitas vezes quando penso que estou sendo autossuficiente, na verdade, só estou aprendendo a viver sem as coisas de que preciso.


Já o senador Jasper Roberts está muito próximo de ocupar o cargo de secretário de estado dos EUA, e para isso não irá poupar esforços, como esconder os próprios filhos do casamento anterior, para que a sua imagem não seja questionada.

Já os três filhos de Jasper são muito diferentes. O casal de gêmeos Bessie e Roland além de possuírem o dom de pegar fogo e não se machucarem precisam lidar com o abandono, já que ninguém da família - pai, avós maternos - querem lhe dedicar atenção. Já seu meio-irmão Timothy, filho de Jasper com Madison, demostra um comportamento sempre correto, carregando a imagem de um adulto em um corpo de menino pequeno, mas com todo o amor da mãe.


Eles eram como eu, sem amor e fodidos, e eu me certificaria de que tivessem tudo o que precisassem.


Completando o grupo estão dois empregados da casa, Carl é o faz-tudo para solucionar os problemas que possam envolver a família e o apoio no trabalho de Lilian para atender os gêmeos. Já Mary é a cozinheira que tudo sabe, tudo vê, mas pouco fala. 


A escrita de Kevin Wilson

O autor Kevin Wilson optou pela narrativa em primeira pessoa para contar a sua história, colocando o leitor dentro da mente de Lilian, e assim conhecendo os seus sentimentos, suas opiniões, seus lamentos e dúvidas.

Com uma escrita bastante fluída, ele transfere o leitor para a primavera de 1995 e nos faz um panorama de como seria conviver dia a dia com duas crianças que entram em combustão e ensina-las a controlar o fenômeno, enquanto as próprias pessoas em volta administram seus sentimentos.


Nós éramos um mundo à parte, mesmo que eu soubesse que era temporário.


Apesar de incluir algumas partes cômicas, o livro no geral não está longe de ser engraçado, pois apesar do inusitado fato das crianças pegarem fogo, o tema principal me pareceu o abandono parental. Ao qual ele trabalha muito bem ao incluir o fogo como o elemento que reflete o estado de espírito das crianças.

Outros elementos por ele trabalhados na obra estão o próprio jogo de aparências na política americana e as diferenças sociais, onde a visão do dinheiro compra tudo é aplicado de forma um tanto abundante e infelizmente certeira.


Se seus corpos eram invulneráveis ao fogo, o que havia dentro deles?


O que eu achei...

Eu particularmente achei a leitura bastante incômoda durante a maior parte do tempo, não pela escrita, mas pelo comportamento dos personagens. Não foram raras as vezes que eu tinha vontade de sacudir a Lilian, de lhe dizer que ela deveria parar de se achar um fracasso e usar a sua inteligência para encontrar um caminho, já que ela é nitidamente perdida na vida.

Também me senti incomodada com a maneira como os gêmeos não eram cuidados, com o fato de o dinheiro vencer facilmente e esconder muito bem aquilo que os ricos e poderosos não permitem mostrar.


Se você fosse rico e homem, parecia mesmo que era só seguir certo número de passos e era possível fazer qualquer coisa que quisesse.


Mas apesar de todo o incômodo, eu gostei da história, achei interessante a forma utilizada para questionar o estilo de vida da elite americana. 

Ficando a dica para quem gosta de um realismo fantástico, de histórias que envolvam comportamento humano, ou para quem quer uma literatura quente para os dias de verão.


Nada para ver aqui
Nothing to see here
Kevin Wilson
Tradução: Natalia Borges Polesso
TAG - Harper Collins
2019 - 255 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

O dia em que Selma sonhou com um ocapi

 


Sinopse: Todos os habitantes da pequena Westerwald, uma cidadezinha no interior da Alemanha, sabem que Selma tem um dom muito especial: quando ela sonha com um ocapi, é sinal de que alguém está prestes a morrer.

Selma já havia sonhado três vezes com um ocapi - um bicho com pernas de zebra, ancas de tapir, torso vermelho-ferrugem de girafa, olhos de cervo e orelhas de rato - e em todas as vezes alguém morreu. Assim toda a comunidade ficou em polvorosa por vinte quatro horas, alguns com medo e outros prontos para se despedir, já que eles estavam certos que alguém iria morrer, mas não se sabia quem.

Bastava alguém lhe dizer duas coisas que não tinham qualquer relação entre si para ele criar uma analogia.

Cartas cheias de sempre e nunca foram escritas, revelando verdades e segredos até então impronunciáveis, lotando a caixa de correspondência da cidade. Quando as vinte e quatro horas passaram, estavam todos vivos, e correram para buscar as declarações feitas em um momento de despedida, sepultando os pensamentos revelados antes da hora. Mas naquela vez a morte chegou com atraso, e leva quem eles menos esperavam. 

A história, dividida em três partes, é narrada por Luise, neta de Selma. E pela história acompanhamos a sua infância, início da vida adulta e o período dos seus trinta anos. Através dela conhecemos as histórias da pequena comunidade, começando com Selma, que ficou viúva muito cedo e está sempre atenda a todos. 

Evidentemente eu não sabia que não haveria um amanhã para comprar sapatos na capital.

Também conhecemos os pais de Louise, sua mãe é dona de uma floricultura e vive pensando se deve se separar ou não, questão que fica mais forte quando o seu marido, filho de Selma, resolve sair pelo mundo sozinho para conhecer diferentes culturas, aparecendo lá de vez enquanto, criando um abismo na relação.

Entre os amigos de Selma, há o oculista, que é apaixonado por ela e já iniciou várias cartas se declarando, mas nunca finalizou e muito menos entregou alguma. Tem também Elsbeth e suas soluções para os diferentes males, além de Palm que no momento de maior dor trocou a garrafa por uma bíblia. E por fim a triste Marlies, uma moça que passa os dias em casa de calcinha e pulôver e só sabe reclamar.

Selma sempre achava um transtorno excessivo pedir ajuda.

E por fim, o amor da vida de Luise, que entre tantos personagens comuns e ao mesmo tempo peculiares, não poderia ser algo que muitos chamariam de normal, sendo um monge que vive no Japão, ao qual ela troca cartas semanalmente.

A escritora alemã Mariana Leky utiliza-se do realismo fantástico para aproximar os seus leitores desta pequena comunidade, onde as relações são movidas pelo afeto, prevalecendo com o outro muito mais a gentileza e a preocupação do que qualquer outro sentimento mesquinho.

De todo modo, eu havia colocado um pé na fresta da porta.

Através de seus personagens ela nos conta uma história sobre a rotina de uma pequena comunidade, onde há perdas, mortes, dor, saudades, mas também muita vida e amor. E os eventos extraordinários só servem para fortalezes os laços dos que ali tudo compartilham, ensinam e aprendem.

Por algum motivo, que eu ainda não consegui decifrar, a história me causou um estranhamento bom. A minha leitura não foi rápida, pois eu tinha a impressão de ser transportada para dentro do livro, e me via pensando, respondendo e realizando novas perguntas aos personagens.

Durante muito tempo ninguém tinha pisado naquele lugar. Tanto tempo que o lugar no chão nem sabia o que era isso.

Quando terminei a última página, fiquei com saudades de todos. Cheguei a pensar em escrever uma carta usando o mesmo endereço do monge Frederik para ter notícia da comunidade. Mas concluí que era hora de me despedir em definitivo, antes que começasse a sonhar com ocapi ou a derrubar coisas também.


O dia em que Selma sonhou com um ocapi
Was man von hier aus sehen kann
Mariana Leky
Tradução: Claudia Abeling
TAG - Editora Planeta
2017 - 315 páginas

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O Sonho dos Heróis



Sinopse: Em 1927, o jovem Emílio Gauna ganha uma aposta e decide gastar todo o dinheiro com os amigos em um alucinante Carnaval portenho. Ao perceber que pouco se recorda do que aconteceu na noite anterior, o personagem fica refém da sua obsessão por descobrir a verdade sobre os acontecimentos e as pessoas presentes, mas, sobretudo: quem é aquela mulher misteriosa com quem dançou no baile de máscaras?

O sonho dos heróis foi o livro do mês de abril da TAG Curadoria, uma indicação do escritor Javier Cercas (autor de A Velocidade da Luz já resenhado aqui no blog), que foi escrito pelo argentino Adolfo Bioy Casares, que junto com Jorge Luis Borges foi um dos responsáveis por consolidar o estilo Realismo Fantástico. O mimo foi um copo de plástico com a temática da história: o Carnaval de 1927.

O destino é uma útil invenção dos homens.

Casares nos conta a história como se estivéssemos em uma roda de amigos, e entre os detalhes de uma Buenos Aires que ele conhecia muito bem, estão os eventos de uma história cíclica, pois ela inicia e termina em um carnaval.

Sua escrita torna tudo muito vivo, pois os detalhes de cada ambiente transportam o leitor para o local, podendo ser avaliada a beleza ou feiura, e às vezes quase sentindo o cheiro.

Os levantes, infelizmente, naquela época de egoísmo, eram tarefa para um homem sozinho.

A história ocorre entre os anos de 1927 e 1930, possibilitando dentro do cotidiano dos personagens ver o impacto da recessão de 1929 e a decadência que a Argentina sofreu com o aumento da pobreza e vários lugares fechados.

O personagem principal é Emilio Gauna, um jovem do interior cheio de ideias pré-concebidas, um jeito meio egoísta e que parece ter a necessidade de provar a sua coragem. Sua vida sofre uma mudança quando ganha a aposta de uma corrida de cavalos.

Os jogadores disputavam o direito de subir ao trono, ou seja, de ocupar o posto principal e de ser considerado o primeiro dos heróis.

Sem pensar em aplicar o dinheiro em algo para o futuro, ele resolve levar os seus novos amigos para uma grande festa de carnaval, entre eles o doutor Valerga, considerado um exemplo de homem para todos do grupo.

Após três dias acordou em uma cama estranha, sentindo os efeitos de uma bebedeira que não lhe deixava com os pensamentos claros em sua mente. Ficando apenas a sensação de algo fantástico e uma estranha necessidade de saber como tudo havia conhecido. Na memória apenas alguns flash e uma mulher mascarada.

O que eu vou contar é tão estranho que se eu não explicar tudo com muita clareza não vão me entender nem acreditar em mim.

Conforme os dias voltam ao normal, novos personagens surgem como Serafín Taboada, um bruxo conhecido pelo seu poder de adivinhação e que parece possuir uma necessidade de proteger Gauna. E sua filha Clara, uma mulher forte de diferentes facetas, ao qual Gauna passa a nutrir sentimentos conflituosos ao ver a paixão domina-lo.

Mas ao mesmo tempo em que ele parece dono do seu destino, por vezes transparece a impressão de que o rapaz nada mais é do que uma marionete sendo guiada por aqueles que o cercam. 

Talvez eu tenha imaginado dois amores. Agora vejo que só houve um em minha vida.

Um livro que permite diferentes leituras, tanto da história da Argentina e de seu povo, como a questão de se desafiar o destino e se deparar com o fantástico, até o leitor mais racional que pode entender tudo como uma grande metáfora para o amadurecimento de um homem.

A única coisa certa é que ao fechar o livro você não irá se sentir indiferente aos eventos que o norteiam mesmo para quem não se sente perdidamente apaixonado pela obra como eu.

O Sonho dos Heróis
Adolfo Bioy Casares
Tradução: Josely Vianna Baptista
TAG – Biblioteca Azul
1940 – 207 páginas

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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

O Jogo do Anjo



Sinopse: Barcelona, anos 20. David Martín, jovem escritor caído em desgraça, recebe uma oferta irrecusável. Andreas Corelli, homem tão amável quanto misterioso, lhe encomenda um livro capaz de impactar o rumo da História. Para David, estão em jogo sua saúde e uma fortuna em dinheiro. E, possivelmente, muito mais do que isso... Em O Jogo do Anjo, Carlos Ruiz Zafón retorna à cidade do Cemitério dos Livros Esquecidos e guia seus leitores através de um labirinto de segredos onde o amor pelos livros, a paixão e a amizade se misturam. 


Carlos Ruiz Zafón nos leva novamente a Barcelona, agora em 1920, e apresenta o jovem David Martín, cuja ambição é viver da escrita e por ela acaba vivenciando o inimaginável. 

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história.

O Jogo do Anjo é surpreendente. Zafón leva o leitor calmamente em uma narrativa em primeira pessoa, fazendo-o pensar que é uma nova versão de A Sombra do Vento. Mas conforme as páginas vão passando, novos desejos, medos e surpresas vão se apresentando, mostrando claramente ser uma peça diferente de um mesmo quebra-cabeça. 

David é um jovem escritor de livros baratos, que atendendo ao pedido de seu grande amor, acaba reescrevendo o livro de um grande e rico amigo, responsável em apoia-lo financeiramente após a morte de seu pai. 

Lá aprendi que nessa vida quase tudo se esquece, a começar pelos cheiros, e que, se eu aspirava a alguma coisa nesse mundo, era não morrer num lugar como aquele.

Seus sentimentos tornam-se contraditórios quando o livro escrito em nome do seu amigo se torna um grande sucesso e o que possui o seu nome é rechaçado pela crítica. Nesse momento, um editor surge em sua vida, encomendando um livro misterioso que irá mudar toda a sua vida e valores. 

Ao fechar o livro, é impossível desprender da história, que chega a ser surreal. O que se é capaz de fazer por dinheiro? Até que ponto mudamos por amor? O que podemos fazer para se obter a vida eterna? O que é ter fé? 

Preferi não perguntar como podia saber que me encontraria naquele lugar, se eu mesmo não sabia onde estava.

Somado a isso, temos o adorável retorno à livraria Sempere e ao cemitério dos livros esquecidos, que acabam tendo parte de seus segredos revelados, enquanto David se divide entre amizade, mistério, morte e o seu único dom: a escrita.

Mais uma narrativa fantástica de Zafón, que se tornou um dos meus escritores favoritos, o que me faz recomendar a leitura de seus livros sempre.

O Jogo do Anjo
El Juego del Ángel
Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Eliana Aguiar
Editora Suma
2008 - 410 páginas