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quinta-feira, 4 de julho de 2024

Na praia



Sinopse: "Eram jovens, educados e ambos virgens nessa noite." Assim começa a história de Edward e Florence num quarto de hotel na praia para sua noite de núpcias, em 1962. O premiado autor britânico Ian McEwan mergulha na complexa mistura de desejo e pudor que marca o grande momento dos recém-casados, entrelaçando dramas íntimos, plenos de silêncios e mensagens nas entrelinhas, com impasses históricos e culturais, em uma narrativa envolvente até o seu desfecho.

No mês de março/2024 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação do escritor gaúcho Antônio Xerxenesky, autor de livros como Uma tristeza infinita, o livro Na praia do autor inglês Ian McEwan. O mimo foi um tipo de quebra-cabeça poético, muito semelhante ao recebido no kit Uns e outros contos espelhados enviado em julho de 2017.

Edward e Florence estão sentados na sala de seu quarto, após a cerimônia de seu casamento, aguardando os garçons servirem o jantar em meio a conversas artificiais. Ao lado o quarto com uma cama de dossel os aguarda, provocando expectativas em um e angústia no outro.

Os pais dela não trataram os dele com ares de superioridade, como os dois chegaram a temer, e a mãe dele não cometeu nenhuma gafe significativa, nem sequer se esqueceu do propósito da ocasião.


Os motivos são apresentados em memórias conforme vamos acompanhando a sequência de ações e conversas de um jovem casal que acredita se amar, mas não se conhece na totalidade. E cuja falta de intimidade em situações mais tensas irão mostrar um outro lado de cada um, acentuando ainda mais a dificuldade de comunicação entre personagens que vivem na Inglaterra de 1962. 

Somado a isso, cada um com 22 anos de idade, precisam seguir seus rumos profissionais, sejam por escolha, seja pela oportunidade conveniente ao qual se precisa confirmar.

Chegara à descoberta fortuita de que mesmo o sucesso lendário trazia pouca felicidade; só inquietação redobrada e o tormento da ambição.


Tornando o romance ao mesmo tempo delicado e forte, sutil e triste ao aprofundar as relações humanas quando estas tentam se manter na tênue linha do equilíbrio.


A escrita de Ian McEwan

O escritor britânico Iam McEwan optou pela narrativa em terceira pessoa para contar a história do relacionamento do casal Edward e Florence. Transformando a lua de mel em um hotel à beira-mar o local para descascar as várias camadas de um relacionamento que deveria seguir o padrão da sociedade tradicional da época.

No presente ele vai aumentando a tensão conforme a noite parece se desenrolar e o momento de maior intimidade se aproxima, contrabalanceando com passagens do passado, permitindo ao leitor conhecer não apenas mais profundamente os personagens como o ambiente que o cerca.

O namoro deles foi uma pavana, um desdobramento solene, demarcado por protocolos nunca acordados ou ditos, apesar de geralmente cumpridos.


E neste ponto começa as diferenças sociais, familiares e de expectativa, mostrando que a distância entre os dois não está apenas na pouca comunicação.

Somado a isso existem algumas sutilezas que permitem gerar diferentes opiniões, principalmente em relação ao comportamento de Florence, no qual a causa vai da percepção do leitor em captar os pequenos detalhes.


O que eu achei de Na praia

Achei a narrativa de Na praia bastante envolvente, a escrita fluída, e de rápido leitura. Sendo muito fácil não apenas compreender, mas sentir todos os conflitos que afetam os dois.

E apesar de falar em amor, ele trata muito mais das frustrações, dos traumas, mágoas e histórias que cada pessoa leva para as suas relações. E no caso do casal protagonista, tudo se torna ainda mais grave, pois é fácil observar que eles chegam na noite de núpcias sem serem amantes e muito menos melhores amigos. 

Como costumava acontecer sempre depois que ela passava um tempo fora, seu pai despertava nela emoções conflituosas.


Embora, sendo justa, existem segredos que dependendo da gravidade, as pessoas não contam a ninguém, devido a tudo que eles podem desencadear.

Tornando a questão da comunicação uma consequência desta falta de intimidade, o que naturalmente impacta muito mais Florence do que Edward, que vai sendo levado pela maré, inclusive na escolha profissional.

A pílula era um rumor nos jornais, uma promessa ridícula, mais uma daquelas bravatas sobre a América.


Sendo na minha opinião um livro muito rico não só sobre os relacionamentos humanos, mas de como o ser humano lida com o inesperado, com feridas não curadas e rupturas dolorosas.

O projeto gráfico da TAG ficou bem bonito, ao mesmo tempo que sintoniza o leitor com o local dos protagonistas, o detalhe da luva com a simulação das conchas deram um toque especial.

Ficando a dica para os leitores do blog que gostam de livros que tratam de relacionamentos humanos, que possuem abertura para suas próprias teorias e para quem lê até bula de remédio.


Na praia
On Chesil Beach
Ian McEwan
Tradução: Bernardo Carvalho
TAG - Companhia das Letras
2023 - 137 páginas
Publicado originalmente em 2007


terça-feira, 9 de abril de 2024

Estorvo



Sinopse: A campainha insiste, o olho mágico altera o rosto atrás da porta e o narrador, preso entre o sonho e a vigília, inicia uma trajetória obsessiva na qual se depara com situações e personagens estranhamente familiares. Narrativa brilhante. Estreia do autor na literatura.

O livro de contos Anos de Chumbo não ganhou o meu coração, mas em Estorvo o cantor, compositor e escritor Chico Buarque ganhou toda a minha atenção.

Escrito no início dos anos de 1990 o livro possui uma história atemporal e de muita ação, que pode enlouquecer o leitor pela falta de detalhes explicativos ou cativa-lo a decifrar o que está acontecendo enquanto devora as páginas.

Um toque na campainha, o reconhecimento de um rosto, e o narrador leva o leitor para um vai e vem de lugares enquanto interage com a mãe, irmã e ex-mulher.

Para mim é muito cedo, fui deitar dia claro, não consigo definir aquele sujeito através do olho mágico.


Em um sitio que herdou do pai, um militar, um mundo paralelo onde ele parece estar invadindo um lugar que é dele e hoje é ocupado por figuras estranhas, onde nem ele escapa da violência que assombra o lugar.

Tudo em uma fuga que não se sabe se de alguém, do tempo ou dele mesmo.


A escrita de Chico Buarque

O autor Chico Buarque opta em Estorvo por uma narrativa em primeira pessoa que mais do que diálogos e pensamentos é uma sequência de ações que levam o personagem principal sempre aos mesmos lugares, andando em círculos em um eterno looping.

Não há muitas explicações, o leitor precisa ficar atento aos detalhes e aos diálogos com terceiros para tentar montar a sua versão do livro, e a própria vida e personalidade de quem nos guia, já que se o narrador em primeira pessoa por si só é suspeito, neste caso aqui ele prova e comprova que não é confiável.

E ter um filho, no meu cérebro, era notícia que entrava, mexia lá dentro, e não conseguia formar uma ideia.


Sem nome, a narrativa deixa claro que o Estorvo do título é o próprio personagem principal, que foi construído de forma a ser um peso morto na vida dos poucos que são obrigados a conviver com ele.

Seu olhar em cima das outras pessoas pode ser crítico ou pejorativo, levando o leitor mais inocente a acreditar que se trata de uma crítica social a burguesia. Mas calma, pois pelo seu estilo de vida não dá para saber se o tom é real ou apenas uma visão distorcida de quem só passa pela vida em um movimento cíclico e repetitivo, procurando o próprio fim e prejudicando quem lhe estende a mão.


O que eu achei de Estorvo

Na minha visão temos um filho de militar envolvido com o tráfico que vive às custas da irmã, evita o convívio com a mãe e perturba a ex-esposa de tempos em tempos. Um nem-nem na versão mais velha, um sanguessuga de mulheres.

Em sua vida circular, frequenta um sítio, sua herança de família, que foi invadido por bandidos. Lá ele apanha, leva objetos roubados, e dá informações da própria família. Foi estas visitas aqui que me fizeram deduzir que ele era um viciado em drogas, e potencialmente um traficante, e seu olhar sobre tudo tinha potencialidade de ilusório.

Não adianta ficar aqui parado. Eu não posso me esconder eternamente de um homem que não sei quem é.


Eu gostei do livro, toda a movimentação dá um ritmo cinematográfico nele, e a forma narrativa me permitiu usar a imaginação para criar uma própria versão de fatos, o que torna a leitura interessantíssima para quem tem grupo de leitura.

E por este motivo pode desagradar quem gosta de respostas, pois ao deixar margem para interpretação de quem lê, pode gerar uma finalização com mais ponto de interrogação do que ponto final.

A dor latejante me arranca da cama de manhãzinha. A porrada da véspera, eu havia esquecido e, sem querer, perdoado.


Um livro que pode agradar principalmente quem gosta de quebra-cabeças e/ou ritmo policial, e também uma ótima opção de leitura para férias ou para intercalar com livros mais densos, pois sua leitura é rápida e dinâmica.


Estorvo
Chico Buarque
Companhia das Letras
2021 - 203 páginas
Publicado originalmente em 1991


segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Disque T para titias



Sinopse: Um assassinato (acidental). Um casamento com dois mil convidados. Três gerações de uma família sino-indonésia nos Estados Unidos. E as tias mais intrometidas do mundo prontas para salvar o dia.

A mãe de Meddelin Chan deseja que a filha arrume um namorado, sem saber que a moça não esqueceu o grande amor que havia conhecido na universidade, e nunca apresentado para a família. 

Para resolver a questão, ela se cadastra em um aplicativo de encontros e se passando pela filha, marca um encontro as cegas. Mas a confusão com o idioma inglês faz com que as conversas não sejam nada inocentes. Quando a verdadeira Meddy é convencida a conhecer o pretendente, é assediada, e na tentativa de se defender, um acidente automotivo ocorre.

Mas a maldição não apenas as encontrou, como sofreu uma mutação. Em vez de matar os homens da família, fez com que eles as abandonassem, o que é muito pior.


Mas ao invés de chamar a polícia ou levar o cara para um hospital, ela liga para a mãe, que por consequência chama as suas tias. E assim as cinco que possuem a tarefa de organizar um grande casamento em um resort no dia seguinte, ganham a tarefa extra de se livrar de um corpo.

Mas ao chegar no local do casamento, ela se depara com o seu grande amor e um grupo de padrinhos e madrinhas um tanto agitados, tornando o seu dia longe de fácil.

Há barulho em todo canto, uma cacofonia de mandarim e cantonês.


Com isso uma sequência de cenas que vão do romântico, passando pelo total absurdo com pitadas engraçadinhas recheiam as páginas em um livro leve e de fácil leitura.


A escrita de Jesse Q. Sutanto

A escritora indonésia Jesse Q. Sutanto já informa nas páginas iniciais que o livro é uma carta de amor para a família dela, e conta brevemente a história de imigração que iniciou com os seus avós saindo da China e foi o princípio de uma confusão de idiomas de uma família trilíngue, representada pela personagem principal, sua mãe e suas tias no decorrer da história. 

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora nos coloca no olhar da personagem principal Maddelin Chain, ou simplesmente Meddy. Dividido em três partes, na primeira parte há um vai e vem entre passado e presente, até se estabelecer somente no tempo presente nos demais.

Ele abre aquele sorriso, aquele que quase faz seus olhos se fecharem. Aquele que me dá vontade de vomitar.


Usando de base um fato absurdo, Jesse Q. Sutanto compartilha através da sua história os laços familiares, sentimento de culpa que influenciavam nas decisões da personagem, o tratamento dado aos imigrantes, as diferenças culturais dando com pessoas externas ou dentro de casa, entre outros assuntos abordados.

E na sequência que mistura cenas que ficam entre o sem noção e absurdo com toque cômico, tornando o livro leve e fácil de percorrer suas páginas.


O que eu achei de Disque T para titias

Disque T para titias é uma comédia romântica com uma base inusitada, sendo que a parte do romance fica com a personagem principal Meddy reencontrando o seu ex-namorado e a comédia por conta da mãe e das tias. Do uso dos emojis as situações mais sem noção, existem momentos que é quase impossível não rir.

No geral achei um livro leve e despretensioso. Tem um momento de reflexão como quando aborda o preconceito por imigrantes (vocês são todos iguais), até chegar nos dilemas de quem deseja buscar a própria independência e ao mesmo tempo vive sob as asas da proteção familiar. Pois as vezes é mais fácil seguir ordens, mesmo tendo que conviver com a necessidade de aprovação constante. 

Minha mente está entrando em curto-circuito, tentando pensar em uma solução no meio dessa bagunça.


Além disso tem a utilização de estereótipos como o delegado típico de filmes americanos e o próprio noivo, ao qual o plot twist me pareceu meio estranho, mas nada tão estranho para se dizer que seria impossível de acontecer.

Mas definitivamente para mim as grandes estrelas são as mulheres da vida de Meddy, que se por um lado sentem saudades da presença próxima dos filhos, seguiram seu rumo após o divórcio e tocam seus próprios negócios com sucesso, sendo independentes financeiramente. 

Amo a minha mãe, mas também quero ter uma vida independente. Estremeço só de pensar nisso; parece muito uma traição.

Resumindo: um livro que combina com verão, férias, e para dar aquele descanso na mente entre leituras mais pesadas.


Disque T para titias
Dial A for Aunties
Jesse Q. Sutanto
Tradução: Luciana Dias e Maria Carmelita Dias
intrínseca
2022 - 347 páginas

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Tudo é rio



Sinopse: Tudo é rio é o livro de estreia de Carla Madeira. Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso. A metáfora do rio se revela por meio da narrativa que flui – ora intensa, ora mais branda – de forma ininterrupta, mas também por meio do suor, da saliva, do sangue, das lágrimas, do sêmen, e Carla faz isso sem ser apelativa, sem sentimentalismo barato, com a habilidade que só os melhores escritores possuem.

Lucy era uma menina mimada pelos pais, desde pequena dominava e manipulava a todos, principalmente os adultos. Com a morte prematura de seus progenitores, se vê como uma gata borralheira vivendo com a tia e sua família. Até que no início da adolescência encontra a profissão que lhe dará independência e permitirá receber todos os elogios que sua beleza exige: resolve ser prostituta.

Venâncio é um homem amargurado. Teve uma infância difícil junto ao seu pai, que era machista e violento. Violência que encontra eco em Venâncio quando este encontra o amor e é correspondido. Dominado por um ciúme que cega, ele vive em eterno tormento e procura eventualmente os serviços do prostibulo próximo.


Enlouquecia qualquer um que passasse pelos seus cuidados. Não tinha um que não quisesse mais.


Dalva vem de uma família amorosa que fornece apoio aos seus filhos. A mãe é uma apaziguadora natural, que permite aos filhos viverem as consequências das suas escolhas. O pai trata a todos com carinho e tenta proteger a todos. Com os amigos sempre a volta, Dalva tem uma leveza e uma alegria, até se apaixonar por Venâncio.

E são os encontros e desencontros deste triângulo que está longe de ser amoroso que irão desaguar nas páginas de Tudo é Rio, um livro rápido e intenso de ler.


A escrita de Carla Madeira

A autora brasileira Carla Madeira utiliza a linguagem em terceira pessoa no seu Tudo é Rio. Os capítulos são curtos - um tem apenas uma palavra - e diretos, dando um ritmo rápido e intenso de leitura.

As informações e os personagens vão entrando aos poucos. Havendo um vai e vem do passado e presente para entender não só o crescimento e amadurecimento dos personagens, como os acontecimentos que os levaram até ali. E quanto mais você os conhece, mais fácil ou difícil fica de entender as escolhas do trio.


O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidade que cabem na ciência.


O rio aqui é uma metáfora justamente para este vai e vem. Em alguns momentos ele é mais profundo, outras mais raso, podendo ganhar rapidez nas descidas e um pouco de calma nas leves subidas, o que também permitiria lhe dar o nome de Tudo é Montanha Russa.


O que eu achei de Tudo é Rio

A primeira coisa é que educadamente discordo da escritora gaúcha Martha Medeiros que o chama de uma obra-prima. O livro é bom, mas como todo livro de estreia as referências gritam e sempre vai haver aquela questão que poderia ser melhor trabalhada.

Vou começar com a personagem Lucy, cujo início da história parece uma mistura de Cinderela e Bruna Surfistinha. A menina mimada pelos pais que se sente a gata borralheira ao ficar órfã e ter que morar com a tia, o tio e as duas primas. Sem conseguir manipular a tia, usa sua sexualidade natural para atender os desejos do seu ego e narcisismo. Pois sim, Lucy sente a necessidade de ser adorada, e as suas atitudes que podem parecer confiança e empoderamento para alguns me passou justamente o sentimento contrário, de uma pessoa insegura, carente e perdida.

Um silêncio de caco de vidro moído esfolando o corpo por dentro. Um desespero, nada por vir.

Já Venâncio é um homem atormentado pelas consequências de suas ações, ao qual frequentemente tenta terceirizar a sua culpa para a figura paterna. Em seu semblante o sofrimento pela esposa, que ama de forma desmedida, não o perdoar, transformando-o em uma espécie de zumbi. Curiosamente é essa postura de morto-vivo que encanta a prostituta Lucy, cuja obsessão por Venâncio só aumenta conforme ele a esnoba. Mas ao contrário de Lucy não achei a dor de Venâncio charmosa ou digna de pena, no mínimo caso de internação.

Deixei para o fim a personagem mais complexa na minha humilde opinião: Dalva. A personagem que despertou quase todas as minhas reações durante a leitura. A única que eu gostaria de estar dentro da mente para compreender seus atos. Como seguir morando com um homem que cometeu uma das ações mais imperdoáveis que um ser humano pode cometer? Sim, sua distância física e seu silêncio maltratam Venâncio, o homem que foi de seu grande amor a algoz. Mas porque optar por sobreviver e não recomeçar em outro lugar, longe de quem te entristece? Qual o motivo de não buscar segurança para viver novamente de forma plena? Amor doentio? Vingança?

Em uma cidade pequena, é difícil acreditar que alguém não se dê conta de que um mundo ao redor caminha junto. O outro existe.


Enfim, Dalva foi a razão por eu finalizar o livro com raiva e achar que o triângulo seriam candidatos perfeitos para habitar algum sanatório, ou quem sabe a Casa Verde de O Alienista?

Como extra falo sobre Francisca e Aurora. Duas figuras com participações mais pontuais que despertam interesse pelas suas próprias histórias e suas formas de lidarem com diferentes fatos. Francisca se doa as pessoas, sua história de vida toca em meio à loucura dos três personagens principais. Já Aurora é aquela pessoa que transmite tranquilidade e otimismo, dando espaço aos filhos para cometerem seus acertos e erros. O que torna mais complicado de entender o comportamento de Dalva.

O imperdoável, o rompimento irreversível. Nada a ser dito. Uma espécie de morte.

Mas só o fato de despertar inúmeras reações, já fez a leitura valer, e sim, é um livro que pode provocar vários debates sobre as relações humanas e sociais, desde o machismo, passando por relações que ultrapassam a definição de amor, perdas, perdão entre outras pautas que você pode encontrar.

Ficando a dica para os leitores do blog que curtem conflitos familiares, cenas apimentadas e claro, adoram ler.


Tudo é rio
Carla Madeira
Editora Record
2023 - 209
Edição original de 2014.


terça-feira, 29 de agosto de 2023

A Mulher do Século



Sinopse: Mame Dennis é uma mulher sofisticada e extravagante que, no final dos anos 1920, vive com ousadia e alheia ao que os outros pensam. Porém, quando seu irmão morre, ela se torna a guardiã legal do jovem sobrinho, o educado Patrick. Apesar do choque de temperamentos, pouco a pouco eles desenvolvem uma relação de carinho e amizade, enfrentando juntos não apenas as convenções sociais, mas também a Grande Depressão norte-americana.

No mês de Junho/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria a indicação da escritora italiana Ilaria Gaspari A Mulher do Século, do escritor americano Patrick Dennis/Edward Everett Tanner III. O mimo foi um jogo de cartas.

Em um dia de chuva o Patrick adulto se depara com uma antiga edição da revista Digest e um artigo escrito por um famoso escritor, que trata da personagem mais inesquecível que ele teria conhecido. Mas já nas primeiras linhas do texto o narrador tem despertado suas memórias com a pessoa mais inesquecível que surgiu em sua vida: tia Mame.

Personagem mais inesquecível? Faça-me o favor, esse escritor não faz a menor ideia do que está falando!


Tudo começa quando Patrick tinha 10 anos, órfã de mãe, o pai faz um testamento informando quem cuidara do menino e quem administrará suas finanças. Há uma série de condições, como o filho ser criado como protestante e ser enviado para escolas conservadoras.

A morte paterna não tarda a chegar e Patrick acompanhando pela empregada da família se vê arrumando as malas e indo para Nova York. Mas ao ir para a casa da tia então desconhecida, um novo mundo se abre para o menino, que passa a viver diferentes aventuras com uma mulher realmente a frente do seu tempo.

Mas Tia Mame não era de admitir derrotas. Existia nela um certo espírito insolente, típico de uma escoteira tagarela.


De escolas experimentais, passando pelo crash da bolsa que tornou milionários em pobres em poucos dias, casamento, ida para a universidade, guerra mundial, entre outros eventos, o narrador personagem traz além de uma comparação com a personagem inesquecível da revista a sua visão de por que sua tia é a mais única entre todas.

Tudo com uma ironia e excentricidade que podem arrancar boas gargalhadas e obrigar o leitor a concordar que tia Mame é sim uma personagem inesquecível.


A escrita de Patrick Dennis


A primeira pegadinha de A Mulher do Século está no nome do autor, que sim, é o mesmo do narrador personagem e um dos vários pseudônimos do autor norte-americano Edward Everett Tanner III, que foi um dos autores mais vendidos da metade do século 20 e chegou a ter três de seus livros de uma só vez na lista dos mais vendidos do New York Times.

Em A Mulher do Século a narrativa utilizada é em primeira pessoa, sendo o relato das memórias de Patrick Dennis em relação a várias etapas da sua vida, do final da infância até a vida adulta, sempre com a presença de sua Tia Mame.

Quando a Grande Depressão a atingiu, ela se jogou em muito mais carreiras do que a Personagem Inesquecível e, de um jeito ou de outro, ela também conseguiu nos salvar.


A escrita é uma mistura de ironia, deboche, drama e comédia. Gerando um livro leve e engraçado, ao mesmo tempo que crítico e reflexivo. Pois ele relata não apenas os momentos históricos das épocas vividas pelos personagens (como o crash da bolsa, a segunda grande guerra, a conquista da autonomia feminina, conflitos entre o norte e sul dos EUA, entre outros assuntos abordados) como também o estilo de vida da alta classe nova iorquina. 

Outro ponto interessante no livro é a sua divisão, ele é dividido em dez capítulos longos, mas muito redondos com início, meio e fim da memória contada. Se fosse transformado em uma minissérie, os capítulos já estariam previamente distribuídos. Aliás, a escrita de A Mulher do Século tem bem o estilo cinematográfico, sendo muito fácil ao leitor visualizar as cenas e entrar em sintonia com os diálogos.

Ela nunca revelava sua idade exata e, em um documento oficial, uma vez, escreveu "acima de vinte e um", o que ninguém pareceu se importar de questionar."


Aliás, A Mulher do Século já foi adaptado para o cinema - um dos filmes está disponível no Youtube para quem ficou curioso - como também peça teatral em um musical da Broadway.



O que eu achei de A Mulher do Século


Eu adorei a mistura de humor e crítica encarnada por uma mulher muito à frente do seu tempo - inclusive do nosso atual. Tia Mame é uma personagem que encanta e enlouquece as pessoas a sua volta, seja com o seu estilo de encarar a vida, seja pelo toque de sorte combinado com suas escolhas.

Em cada capítulo uma surpresa que podia ter um toque surreal, sem noção, superação ou tudo junto misturado. Em paralelo é muito bonita a forma como a tia e o sobrinho se conectam, apesar de personalidades tão diferentes, criando laços definitivos.

A carreira literária de Tia Mame surgiu mais como uma espécie de terapia, para tirá-la da depressão na qual ela havia mergulhado ao se tornar viúva.


Dei muita risada com a escola diferentona escolhida pela tia Mame para Patrick na infância e o desespero do Sr. Babcock - administrador da herança do menino - ao conhecer o local. O momento sogra sendo sogra se unindo a ex do filho Burnside, para separa-lo de Tia Mame me garantiram gargalhadas pelas situações inusitadas.

Mas também tive meu momento de agonia em um capítulo que Tia Mame resolve adotar órfãos de guerra e achei o capítulo das irmãs fantasmas - não, não tem fantasma na história, mas apelidei assim pelas irmãs andarem sempre de branco - o mais fraco. Mas não desnecessário, pois ele tem motivo para estar ali.

Quer dizer, existem certas coisas que você faz do jeito certo ou é melhor você nem fazer.


No geral eu adorei, me diverti e achei a leitura extremamente agradável. Me apaixonei pela Tia Mame, o que me faz recomendar e muito a leitura.


A Mulher do Século
Auntie Mame
Patrick Dennis / Edward Everett Tanner III
Tradução: Davi Boaventura
TAG - Dublinense
Edição 2023 - 352 páginas
Publicado originalmente em 1955

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

A boneca de Kokoschka



Sinopse: Em uma Dresden devastada pelos bombardeios, Bonifaz Vogel esconde na sua loja de pássaros o jovem judeu Isaac Dresner. A partir daí, vão entrando em cena diversos personagens, incluindo Mathias Popa, autor de A boneca de Kokoschka, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka e da sua boneca, feita à imagem e semelhança da sua amada. E dessa singular galeria de vidas, Afonso Cruz compõe um irônico e magistral jogo de matrioskas, no qual a realidade se confunde com a ficção e cada história é ressignificada pelo olhar do outro.

Em meio a segunda guerra mundial, o jovem Isaac Dresner corre desesperadamente para salvar a sua vida. É na loja de pássaros onde seu pai havia construído uma cave que ele encontra a salvação ao se esconder no local. Um dia, passa a falar de seu esconderijo com Bonifaz Vogel, o dono do local, que curiosamente obedece a voz sem dono, gerando uma curiosa relação.

Com o fim da guerra, Isaak apesar de ser o mais jovem, adota Bonifaz, ao grupo se une Tsilia, que os encontrou por acaso na rua após fugir do local onde morava. Mudam de país para se reconstruir através da pintura e de uma livraria. E é o encanto de Isaak pelos livros que o faz cruzar com o escritor Mathias Popa.

Sabia que aquilo acontecia dentro da sua cabeça, mas tinha a estranha sensação de que as palavras vinham do soalho, passando-lhe pelos pés.


E este encontro irá gerar um livro dentro de um livro, onde o foco é Adele Varga, que após a guerra contrata um investigador para descobrir os mistérios que sua avó escondida. A chave de tudo é o autor que se torna personagem na própria história e transforma tudo em um jogo de espelho, quando as semelhanças entre a realidade da ficção de Afonso Cruz começam a ser refletida na ficção de Mathias Popa, e vice-versa.

E é neste romance também que o leitor irá encontrar a explicação do título, ou melhor, toda a origem da criação da boneca de Kokoschka.


A escrita de Afonso Cruz


A boneca de Kokoschka recebeu o Prêmio da União Europeia para a Literatura em 2012, mas este não é o único motivo pelo qual o livro do escritor português Afonso Cruz merece ser lido.

Com uma escrita que mistura agilidade, reflexões, cenas fortes, toques cômicos e lirismo, ele divide a sua boneca de Kokoschka em três partes mais o romance de Mathias Popa. Sendo a primeira parte referente a guerra, a segunda parte com as memórias de Isaac - e por tabela de Bonifaz e Tsilia - e seu encontro com Popa, o livro de Popa e a última parte onde temos um novo personagem.

As pessoas diziam que ele era estúpido e ele concordava acenando com a cabeça e passando os dedos no queixo.


Os capítulos são curtos, rápidos, as vezes fortes, outras vezes objetivos e também há momentos em que se explica um pouco mais sobre os personagens. A narrativa em sua maioria está em terceira pessoa, havendo alguns momentos nas memórias e cartas que o autor utiliza a narrativa em primeira pessoa.

O resultado é um livro envolvente que exige atenção para não se perder nos acontecimentos e reviravolta, pois se o início da história parece mais simples, no decorrer das páginas ela vai ganhar uma complexidade que não permite devaneios entre os parágrafos.

 

O que eu achei de A boneca de Kokoschka


O livro tem logo de início a cena mais emblemática para mim, Isaac Dresner brincando com um amigo vê o mesmo ser baleado na cabeça por um soldado alemão, e quando o garoto vai ao chão, a sua cabeça cai justamente no pé direito de Isaac. O peso da cena trágica o acompanhará para sempre, já que ele passa a coxear ligeiramente na perna direita, carregando eternamente os efeitos de uma guerra.

Já para o final achei surpreendente o cuidado pelos detalhes da obra de Mathias Popa, já que o livro dentro do livro é completo, com direito a capa, capítulos e apresentação do autor. E claro, o nome da editora do Isaac.

E, se o que é harmonioso e proporcional é fácil de reconhecer, donde vem essa atroz desproporção que vemos no mundo?


E apesar de ter sentido um certo estranhamento e perdido um pouco do meu ritmo de leitura quando comecei a ler o livro dentro do livro, no geral eu gostei bastante da obra.

Principalmente da primeira parte que eu achei triste e ao mesmo tempo formidável o fato do menino se comunicar pelo chão e o senhor simplesmente obedecer a aquela voz. O cuidado do menino que passou a auxiliar até nos negócios da loja e no fim da guerra se sentia pai de quem o ajudou sobreviver.

É assim o nosso destino, fazemos curvas e parábolas para que ele se cumpra com perfeição.


Pois existe muita humanidade entre os personagens, no auxilio mútuo e em suas buscas após anos de muitas perdas, e na eternização da memória através das histórias.  

Um livro que me chamou a atenção pelo resumo e não decepcionou, ficando aqui a minha recomendação de leitura.


A boneca de Kokoschka
Afonso Cruz
Editora Dublinense
Edição em Português de 2021
2010 - 288 páginas

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente



Sinopse: Mude-se para a cidade grande. Consiga um diploma. Não se apaixone. Evite os idealistas. Aprenda com um mestre. Trabalhe para si mesmo. Esteja preparado para fazer uso da violência. Faça amizade com um burocrata. Patrocine os artistas da guerra. Faça malabarismo com as dívidas. Concentre-se no essencial. Planeje uma estratégia de fuga. Qualquer semelhança deste livro com manuais de autoajuda não é mera coincidência.

No mês de Abril/2023 recebi pela minha assinatura da TAG Curadoria mais uma indicação do escritor João Anzanello Carrascoza - que já havia sido o curador do ótimo A Velocidade da Luz -, que indicou um livro cuja ironia já começa no título: Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente do autor paquistanês Mohsin Hamid. O mimo foi um pacote de sal temperado da Black Flag que eu adorei, pois também curto muito cozinhar.

Em um lugar fictício, que poderia ser no Paquistão, na Índia, na África ou na América Latina, os personagens não possuem nome. É o pai, a mãe, o irmão da esposa, ou outro substantivo que substitui uma identificação formal.

Olha, um livro de autoajuda é um oximoro, a menos que você seja o autor dele.


É através do personagem principal e da nomeada menina bonita que o leitor acompanha décadas da vida dos dois. Do abandono do meio rural ainda na infância, a luta pela ascensão social durante a juventude e as oportunidades de sucesso que colocam em xeque qualquer ética na vida adulta, e uma grande história de amor que ultrapassa os anos seja próximo ou só na memória sem ser nunca esquecida ou reduzida.

Tudo acompanhado pelos conselhos com tom de autoajuda, que nada são que uma crítica a forma como ocorre o desenvolvimento em locais onde riqueza e miséria disputam espaço e recursos, onde os vencedores são conhecidos antes da queda de braço começar.


A escrita de Mohsin Hamid

Utilizando uma narrativa em segunda pessoa, o autor Mohsin Hamid transforma o leitor em seu personagem principal, usando uma linguagem que o coloca dentro da história, enquanto conta tudo o que “você” fez, viveu e viu em cada capítulo.

E é em uma zona rural você vai ver a sua avó paterna eternamente avaliando a sua mãe, assim como seus pais tendo momentos íntimos na única peça da casa. Vivenciará o êxodo rural como uma busca por uma melhor forma de se viver e encontrará na cidade o seu primeiro e grande amor, também irá ser o primeiro da sua família a conseguir ir para uma universidade e se sentira coagido por um determinado grupo. Até ter uma ideia e conseguir ir melhorando de vida nesta Ásia Emergente que nos é apresentada.

Na verdade, todos os livros, todo e qualquer livro já escrito poderia ser oferecido ao leitor como uma forma de autoajuda.


Dividido em doze capítulos cujos nomes já dão uma pista do que será abordado, o livro consegue costurar uma história de amor justamente com o crescimento das grandes cidades, onde a busca constante em fugir da miséria leva ao comodismo ou ao vale-tudo, conforme a personalidade de quem está no caminho e ao momento da vida.


O que eu achei de Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente

Como viver eternamente apaixonado pela mesma mulher na Ásia Emergente, este seria o título que eu daria, caso tivesse o poder de escolha. Pois na minha opinião este é o primeiro foco do livro: o grande amor que o personagem principal nutri pela menina bonita e ao qual é correspondido, mas vivido plenamente só em alguns momentos, entre as pausas que eles fazem na corrida por seus sonhos.

Triste? Capitalismo selvagem? Talvez sim, talvez não, mas como não dá para viver de amor, talvez esse seja o segredo de torna-lo tão forte e resistente ao tempo. Pois ao fugir da miséria, essa também não consegue corroer a relação.

Sim, a busca do amor e da riqueza têm muito em comum. Ambas têm o potencial de inspirar, motivar, entusiasmar e matar.


O segundo foco do livro é a sobrevivência em meio a pobreza. Sem usar nomes para seus personagens ou cidades, a busca constante por um crescimento financeiro poderia ser em qualquer país de terceiro mundo, incluindo o Brasil - apesar de hoje ser definido como em desenvolvimento. Pois não há uma presença forte da parte cultural ou religiosa que me tenha colocado dentro de um lugar específico.

Sobre a brincadeira com os livros de autoajuda, sou obrigada a confessar que não me ajudaram a engatar na leitura, apesar do romance não ter nem duzentas páginas. Com exceção dos capítulos iniciais e finais, ele não me conquistou. Me fazendo levar um tempo considerável para completar a leitura, já que raramente me animava a ler dois capítulos ou mais por dia.

O que vale para os livros de autoajuda vale também, inevitavelmente, para pessoas.


Isso significa que eu achei ruim? De forma alguma, achei a história de amor bonita e a forma como se tem uma visão completa da vida do personagem interessante. Mas em alguns momentos achei um pouco superficial, pois apesar do narrador falar diretamente comigo, eu não conseguia me integrar completamente na pele do personagem.

Mas no futuro penso em reler, pois muitas vezes mudamos a nossa visão com a passagem do tempo. Fora que a edição da TAG ficou belíssima, eu me apaixonei pelo kit no geral.

Muitas habilidades, como todo empreendedor de sucesso sabe, não têm como ser ensinadas na escola. Elas exigem prática. Às vezes, uma vida inteira de prática.


Ficando a dica para quem gosta de narrativas diferentes, curte um romance de formação, não resiste a histórias de amor, ou simplesmente quer ler. E se depois quiser compartilhar as suas impressões, quem sabe você tenha alguma observação que me faça mudar o olhar.


Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente
How to Get Filthy in Rising Asia
Mohsin Hamid
Tradução: Sonia Moreira
TAG - Companhia das Letras
2013 - 175 páginas

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Assinatura integralmente paga pelo autora da resenha.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

O Passeador de Livros



Sinopse: Uma fábula moderna e atemporal sobre o poder que a conexão entre pessoas e livros tem de transformar a realidade. Do alto de seus 72 anos, ainda é com bastante vigor e alegria que, todas as tardes, Carl Kollhoff sai para entregar os livros encomendados por seus clientes mais especiais. Tão fiel à tarefa quanto os ponteiros de um relógio, o livreiro da tradicional Ao Portão da Cidade percorre as pitorescas ruas da região e, como nas páginas de seus preciosos livros, observa o mundo real e seus habitantes também por uma ótica lúdica e imaginativa.

Foi em Setembro/2023, no mês em que completava quatro anos, que o Clube intrínsecos enviou a sua última caixinha. O livro escolhido para encerrar este projeto da editora intrínseca foi O Passeador de Livros do escritor alemão Carsten Henn. O mimo foi um outro livro da editora e a saudade que eu fiquei das belas edições.

Aos 71 anos Carl Kollhoff não se imagina longe do seu trabalho como vendedor de livros. Solteiro, possui a sua própria coleção em casa. Na livraria dá dica certeiras, treina funcionários e faz um serviço de entrega domiciliar para clientes que não desejam, por diferentes motivos, sair de casa.

Dizem que os livros encontram seus leitores, mas às vezes é preciso que alguém lhes indique o caminho.


Vivendo entre a ficção e a realidade, ele faz uma correlação entre as pessoas que encontra e personagens literários. Então ele faz suas entregas para o sr. Fitzwilliam Darcy e a Sra. Píppi Meialonga, compra suas maças da Rainha da Branca de Neve, aceita o chá do Hércules, e assim por diante. Se perguntarem os nomes reais, ele precisa de um tempinho para ligar os personagens as pessoas.

Mas sua vida começa a mudar com a internação do seu chefe, que é substituído por sua filha, uma mulher que tem ciúmes de Carl, e o aparecimento de Schascha, uma menina esperta, órfã de mãe, que lhe dá o apelido de Passeador de livros.


A escrita de Carsten Henn

Utilizando a narrativa em terceira pessoa, o escritor alemão Carsten Henn conta com muita delicadeza a relação de amor de um leitor e seus livros através da figura de Carl.

Com inúmeras referências literárias, O Passeador de Livros aborda também a questão do envelhecimento, da perda, do uso da literatura para fugir da solidão ou do próprio mundo, de relacionamentos abusivos, de mágoa e de como pequenos atos podem mudar tudo na vida de uma pessoa.

Sou como os ponteiros de um relógio. Parece triste, pois eles sempre percorrem o mesmo caminho e sempre retornam ao ponto de partida.


Pois como uma boa fábula, a jornada do herói Carl e de sua assistente Schascha narrada pelo autor Carsten Henn possui os seus obstáculos, mudanças de rumo, segredos e momentos a serem comemorados. O que faz com que a sua escrita seja leve ao mesmo tempo que instiga o leitor a saber mais sobre os personagens.


O que eu achei de O Passeador de Livros

O Passeador de Livros é o tipo de história que defino como bonitinho, sendo uma mistura de fábula e homenagem a literatura, tornando-o um bom candidato para aquela leitura tranquila de férias.

Com inúmeras referências literárias, que vão do nome dos capítulos, os apelidos dados aos moradores da cidade e os autores citados, é quase impossível não sair com um acréscimo na lista de leituras futuras com as indicações listadas.

Leio para o meu prazer egoísta, por amor às boas histórias, e não para compreender o mundo.


Sobre a história em si, achei triste a dependência do trabalho que Carl tem para dar sentido a sua vida. Assim como eu achei que a relação do Passeador com a filha do melhor amigo - e agora chefe - poderia ser melhor trabalhada. Pois ela claramente não o suporta. É só ciúmes e inveja? Ou existe algo mais?

Também achei que em alguns momentos o livro era um pouco arrastado, mas em compensação ele também é muito sensível, o que conquistou o meu coração, principalmente a Schascha, que me dava vontade de abraçar.

Não estava no clima para uma acompanhante lhe fazendo todo tipo de perguntas erradas - ou, pior ainda, de perguntas certas.


E naturalmente tudo ficou mais sensível por ser a caixa de despedida, pois ao finalizar a leitura, me vi despedindo deste clube de edições caprichadas, que me apresentaram livros que talvez eu não desse atenção ou nem visse ao rolar a página de um site ou em uma livraria. 

Ficando a dica para quem gosta de histórias leves e sensíveis que podem aquecer o seu coração.


O Passeador de Livros
Der Buchspazierer
Carsten Henn
Tradução: Kristina Michahelles
intrínseca
2020 - 208 páginas

Esta resenha não é patrocinada, a assinatura do clube citado - que foi encerrado em setembro/2022 - era pago integralmente pela autora. 

terça-feira, 2 de maio de 2023

Escritores & Amantes



Sinopse: Casey Peabody chega a Massachusetts surpreendida pela morte repentina da mãe e abalada por um caso de amor recente. Sua correspondência consiste em convites de casamento e avisos finais de cobrança. Ex-prodígio do golfe, ela agora serve mesas em um restaurante e aluga um quarto minúsculo e mofado ao lado de uma garagem, onde trabalha no romance que escreve há seis anos. Quando se apaixona por dois homens muito diferentes, seu mundo se parte ainda mais. Escrito com humor, sensibilidade e inteligência, marcas registradas de King, Escritores & Amantes é um romance magnífico que explora o salto assustador e emocionante entre o fim de uma fase da vida e o início de outra.

Como não renovei a minha assinatura da TAG Inéditos, pois sim, como quase todo ser mortal tenho uma pilha de livros para colocar em dia, meu último exemplar recebido foi o de Agosto/2022. A ficção Escritores & Amantes é da escritora norte-americana Lily King e teve como mimo um conjunto de porta copos magnético.

Na cidade de Boston, final da década de 1990, A aspirante a escritora e protagonista da história Casey Peabody parece estar à deriva apenas esperando chegar ao outro lado, ao qual ela não tem a mínima ideia do que seja, desde que tenha uma relação com o livro que ela não só deseja, mas como precisa terminar.

Tem muita coisa em que não posso pensar para conseguir escrever pelas manhãs.


Alugando o depósito de um amigo do irmão, ela vive os seus dias entre procrastinar a escrita do seu livro, cujo início começou a seis anos atrás, seu emprego como garçonete em um restaurante bem movimentado, suas dívidas estudantis e seus casos amorosos. Tudo isso somado a perda recente da mãe.

É quando uma sequência de fatos a faz de aproximar de dois homens muito diferentes em idade e classe social, mas com a mesma paixão pela literatura. Ambos também carregam no olhar perdas de pessoas queridas, mas sua abertura para o novo irá depender da personalidade de cada um e de como Casey precisa de moldar para ficar ao lado deles.


A escrita de Lily King

Utilizando a narrativa em primeira pessoa, a autora Lily King coloca a sua personagem principal Casey Peabody no divã para contar aos leitores o seu cotidiano, os obstáculos que a impedem de progredir na profissão escolhida e nas idas e voltas dos seus casos amorosos. Tudo com detalhes muito fáceis de visualizar cada cena, mas sem ser exagerado a ponto de cansar.

Mas na prática os problemas de Casey e os assuntos abordados na narrativa vão muito mais além, começando pela aceitação a morte da mãe. O impacto do luto recente começa aos poucos, sendo citados entre uma ação e outra, como que para salientar a necessidade de esquecimento temporário que a personagem precisa para seguir em frente. Mas como toda dor, ela é latente e aos poucos vamos descobrindo mais sobre a mulher que foi viajar e não mais voltou.

Era forte, o que quer que houvesse entre nós, denso como ar molhado e o cheiro de todas as coisas verdes prestes a florescer.


Seguindo nos laços familiares, somos surpreendidas pelo pai, um homem que desejava tornar a filha campeã de golfe e agora parece não ter sentimento nenhum por Claire, um relacionamento muito mais marcado pela mágoa do que pelo amor.

A normalidade está com o irmão, que mesmo morando longe consegue ajuda-la, sendo arrumando um aluguel barato no quarto depósito do amigo rico, seja através de conversas.

Na sua vida inteira vai haver homens assim, penso. Parece muito a voz da minha mãe.


E naturalmente toda a dívida estudantil para se formar na área de literatura e agora trabalhar como garçonete. Um lembrete a Claire que a vida adulta começou já faz um tempo, embora muitas vezes ela parece não ter crescido.

Tudo isso tendo como base o amor a escrita, e por isso a autora nos leva para um universo de oficinas, rascunhos de textos, inspirações, organização e claro, toda a busca dentro do caminho editorial para quem deseja publicar um livro.


O que eu achei de Escritores & Amantes

Inicialmente achei o livro chato, com uma vida de desgraça pouca é bobagem, a personagem Claire parecia não ter amadurecido e viver entre o antes e depois dos seus relacionamentos sem futuro.

Mas em determinado momento parece haver uma virada de chave na escrita, e a história passou a ter fluidez para mim, tornando a leitura muito mais envolvente e interessante.

A coisa mais difícil na escrita é imergir todo dia, atravessar a membrana. A segunda coisa mais difícil é emergir.


E foi neste momento que o luto de Casey passou a ser sentido por mim, assim como a sua relação com o manuscrito que precisa ser finalizado, além do nojo ao chef de cozinha que abusa do assédio moral e os dois homens que ela parece orbitar, mas que não fazem o mínimo esforço para participar da sua vida.

Aliás, detestei o viúvo, escritor famoso, pais de dois filhos Oscar, não havia um diálogo sem machismo quando ele está em cena. Já o Silas eu não entendi exatamente para que veio na história.

Naquela semana, vou algumas vezes à biblioteca pública pesquisar sobre Cuba. Toda vez, acabo nas prateleiras de biografias lendo sobre escritores e suas mães mortas.


Motivo pelo qual achei que o título do livro não traduz o seu conteúdo, que está muito mais para as dificuldades de se viver como adulto e assumir todos os seus ônus e bônus, do que para a suavidade que o original propõe. Naturalmente essa é a minha percepção, já que o título junto com a garrafa de vinho me fez pensar em algo mais voltado para uma comédia romântica.

No resumo da ópera eu gostei, e fiquei feliz de não ter abandonado após as cinquenta primeiras páginas, motivo pelo qual recomendo a leitura para quem procura por conflitos familiares, a relação com o luto, os desafios da vida adulta e como sempre, quem simplesmente gosta de ler.


Escritores & Amantes
Writers & Lovers
Lily King
Tradução: Laura Folgueira
TAG - Tordesilhas
2020 - 301 páginas

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sexta-feira, 28 de abril de 2023

Migrações



Sinopse: Deixando tudo para trás, menos seu equipamento de pesquisa, Franny Stone chega à Groenlândia com um propósito singular: seguir as últimas andorinhas-do-mar do Ártico no que pode ser sua migração final para a Antártida. Franny consegue um lugar em uma embarcação de pesca, e ela e a tripulação zarpam, viajando cada vez mais longe da costa e da segurança. Mas quando a história de Franny começa a se desenrolar - um caso de amor apaixonado, uma família ausente, um crime devastador - fica claro que ela está perseguindo mais do que apenas os pássaros. Quando os segredos obscuros de Franny a alcançam, quanto ela está disposta a arriscar por mais uma chance de redenção?

Recebi no mês de fevereiro/23 pela minha assinatura da TAG Curadoria o livro Migrações da escritora australiana Charlotte McConaghy. O diferencial neste caso é que não houve curador, ou melhor, a própria TAG foi a curadora, ao acreditar que o livro merecia ser lido. O mimo foi um copo plástico com canudo de 330ml com dados sortidos de diferentes escritores, o meu foi do Machado de Assis.

Em um futuro ao qual o leitor desconhece o ano, a humanidade ainda não possui colônia em Marte, mas diversas espécies de animais foram extintas. Uma grande movimentação está ocorrendo para proibir a pesca antes que os peixes desapareçam também. E é nesta Terra que a natureza está destruída que Franny Stone tenta acompanhar o que deve ser a última migração das andorinhas para a Antártida.

Os animais estão morrendo. Em breve estaremos sozinhos.


Órfã e apaixonada pelos animais, ela carrega entre vários equipamentos que monitoram as andorinhas as cartas que escreve ao marido, o professor universitário Niall Lynch, especialista em aves migratórias.

Mas para acompanhar as aves ela precisa de um barco, sem um a disposição, ela tenta carona entre os que despreza: os barcos pesqueiros. Após muitas negativas é no Saghani, que significa Corvo na língua dos indígenas do extremo norte, que ela conhece uma equipe cujos laços serão formados no decorrer da navegação.


A escrita de Charlotte McConaghy


Uma distopia que não é um suspense, mas que te empurra para a próxima para saber o que aconteceu. Assim é a narrativa em primeira pessoa da autora australiana Charlotte McConaghy.

Misturando presente e passado da personagem Franny Stone, aos poucos fui montando o quebra-cabeça que levaram a jovem mulher de trinta anos a realizar a migração com as andorinhas. No que horas parece desejo de redenção e outras de libertação, que pouco a pouco me induziu a questionar e a me surpreender.

De acordo com minha mãe, as páginas de um romance guardavam a única beleza que o mundo era capaz de oferecer.


Os tripulantes do navio pesqueiro Saghani trazem personagens secundários complexos, seja por suas origens ou ações, que começam a trazer uma nova percepção em um mundo que parece estar se acabando. Assim como a própria família de Franny, principalmente seu marido, sua sogra, sua mãe e sua tia, cujo foco é muito mais psicológico quando pensamos em suas reações, negações e aceitações.

Tudo isso em um futuro distópico não definido, onde o meio ambiente está se desintegrando, e não é difícil pensar que ele está mais perto da nossa realidade do que da ficção quando vemos espécies desaparecerem uma a uma e os recordes de queimadas em nossas florestas.


O que eu achei de Migrações


Até aonde o vai o vazio e a curiosidade podem te levar? Até aonde a tragédia e a tristeza te impulsionam a ir? Até que ponto a tua natureza fazem os teus pés remexerem em um cenário apocalíptico?

Com um presente e um passado que me prenderam a atenção mais uma protagonista com uma personalidade diferente das tradicionais, Migrações foi uma leitura que me envolveu, me entristeceu e me deu esperança.

Eu nunca estive tão exausta na minha vida, e é perfeito. Significa que eu consigo dormir.


Sendo o tipo de livro que sinto vontade de abraçar, que mexeu com os meus sentimentos não tão bem guardados, principalmente quando pensamos em perdas que já aconteceram e que ainda irão ocorrer.

E mesmo havendo alguns pontos que para mim ficaram com um ponto de interrogação, isso não afetou o fechamento completo da história. Que afinal é a história da Franny, personagem pela qual me encantei e me identifiquei em relação a sua inquietação. Afinal, para quem gosta de viajar e de natureza, impossível se imaginar estático enquanto tudo é extinto.

Milhares de espécies estão morrendo neste exato momento e sendo ignoradas. Estamos acabando com elas. Criaturas que aprenderam a sobreviver a qualquer situação, a tudo, exceto a nós.


Também gostei muito da construção dos personagens secundários. A relação de Franny com Niall é muito bonita justamente pelo amor que um tem pelo outro, assim como todos os paradigmas que envolvem a sua relação com Penny, sua sogra.

Também me encantei com a tribulação do barco, seu cotidiano em um pequeno espaço compartilhado, a união, e suas histórias pessoais, que não por acaso poderiam render um segundo livro com muito mais detalhes. 

Como eles sabem para onde ir? Por que eles voam tão longe? Por que eles são os últimos, por que esses, o que os torna mais sortudos do que os outros?


Em relação a edição da TAG, achei a parte gráfica lindíssima, as letras também são de fácil leitura, e o texto foi bem distribuído nas páginas. Tem alguns probleminhas de revisão, mas nada grave que atrapalhe a leitura.

Ficando assim a minha indicação deste livro sensível, envolvente, reflexivo tanto em relação as pessoas quanto ao meio em que vivemos. Ficando como dica extra para quem se envolve profundamente com os personagens uma caixa de lenço de papel e um edredom quentinho para não sentir tanto frio.


Migrações
Migrations
Charlotte McConaghy
Tradução: Wendy Campos
TAG - Alta Books
2020 - 343

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terça-feira, 7 de março de 2023

Poeta Chileno



Sinopse: Poeta chileno é um romance sobre a poesia, sobre poetas que desprezam o romance, sobre família e paternidade, sobre os labirintos da masculinidade contemporânea e os trágicos vaivéns do amor, sobre o desejo de pertencimento e, acima de tudo, sobre o sentimento de ler e escrever em nossos dias.

No inverno de 1991 Carla e Gonzalo são adolescentes que em seu namorico vivem as primeiras descobertas que não são exatamente o esperado para Carla, gerando assim o rompimento do relacionamento.

Para externar toda a tristeza que lhe consome, Gonzalo passa a escrever muitos poemas e envia-los a sua amada, e é o amor a escrita que o leva a definir sua carreira na vida adulta.

Os pais biológicos, os pais separados, os pais da porta para fora são todos a mesma merda.

E é na vida adulta que ele reencontra Carla, que agora trabalha para a empresa da família, tem um filho chamado Vicente de seis anos e é separada de Léo, um corretor de móveis que se preocupa mais com sua coleção de carros em miniatura do que com o menino.

Com a evolução de Gonzalo nos pontos que mais deixava a desejar, os dois reatam o relacionamento e ele se torna padrasto do menino, influenciando e sendo influenciado muito mais do que ele mesmo poderia imaginar.


A escrita de Alejandro Zambra

Usando uma narrativa em terceira pessoa, o escritor chileno Alejandro Zambra conta para o leitor nesta narrativa de pouco mais de quatrocentas páginas a vida de Gonzalo, Carla, Vicente e Pru - sendo esta última não tão completa, mas sua participação não pode ser considerada coadjuvante na história.

Ambientado no Chile, o romance permite conhecer um pouco mais da sociedade chilena pós ditadura em meio ao despertar da poesia em um país onde nomes como Pablo Neruda e Gabriela Mistral tornam o mesmo uma referência no mundo literário.

E você acha mesmo que esses adultos que vivem brigando, de repente, vão resolver ficar mancomunados pra mentir para as crianças no Natal?

Tudo dentro de uma família que seria chamada de não tradicional se não fosse o fato de sua composição ser tão comum e numerosa quanto as demais. Tendo aqui como diferencial falar sobre paternidade sobre o olhar do padrasto e não do pai, uma figura que é esquecida até mesmo nos contos de fadas (afinal, é a madrasta que é sempre a vilã).

E não podemos esquecer do amor, afinal são raras as pessoas que não associam o sentimento a poesia. E aqui ele se apresenta de diferentes formas, estilos e dúvidas, afinal, no complexo processo da paixão que vira amor que vira amizade que vira ódio não existe nada que faça gerar mais perguntas que o amor.

O tempo nos encurrala. O tempo nos engorda, desenha rugas, cabelos brancos e muletas em nós.

Mas ao contrário do que um leitor desavisado possa pensar neste momento, sem nada meloso ou pedante. Pelo contrário, a escrita de Alejandro Zambra tem a mistura certa de ironia, emoção, gargalhadas e vontade de virar mais uma página para acompanhar a vida destes quatro personagens.


O que eu achei de Poeta Chileno

Eu não conhecia o autor Alejandro Zambra, recebi dois de seus livros quando o blog fez parte do Time de Leitores da Cia das Letras em 2021, e preciso dizer que adorei Poeta Chileno.

A forma leve de como ele consegue abordar diferentes assuntos ao mesmo tempo que realiza uma homenagem a poesia e aos próprios poetas chilenos através de seus encontros, diálogos, publicações simplesmente me encantou.

Dizem que isto é felicidade: nunca sentir que seria melhor estar em outro lugar, nunca sentir que seria melhor ser alguém que não você.

Sobre leveza, gostei de ele trazer diferentes visões da paternidade, que vão do avô cheio de filhos que não cuida de nenhum, do pai de Vicente que precisa de uma conversa com Gonçalo para participar mais da vida do próprio filho, até chegarmos ao olhar de quem não é o pai e sim o padrasto, aquele homem que cai de paraquedas em meio a uma família com todas as suas manias e precisa descobrir como apresentar aos outros o menino que o acompanha em todos os lugares. 

Os laços e as influências que se criam entre Gonçalo e Vicente são mais fortes do que eles mesmo querem acreditar, algo que começa na forma de se apresentar até o companheirismo dos dois na rotina do dia-a-dia. E entre os diferentes amores apresentados na narrativa, com certeza o mais bonito.

Fracassar seria, para ele, acordar de repente em meio a uma vida insossa, condenado à prisão perpétua de um trabalho miserável.

Em relação as personagens femininas, embora não sejam as protagonistas na narrativa, trazem questões importantes sobre as escolhas que precisam fazer e o papel da mulher dentro da literatura, que vai além da chilena.

Também gostei de saber mais sobre o funcionamento do próprio Chile, como a questão de todas as universidades serem pagas, dificultando e muito o acesso para quem não tem condição financeira para arcar e assim acabam impedidos de evoluir profissionalmente nas áreas desejadas.

Na poesia, você tem que jogar com tudo. Se for um bom poeta, pode escrever romances para ganhar uma graninha, porque escrever romances é mais fácil.

Somado a tudo isso os personagens são carismáticos, a escrita fluída e envolvente, não foi raro dar uma gargalhada com o desenrolar da história, assim como a divertida inserção de fotos, como de um gato para representar Oscuridad, a amada felina que tinha como concorrente de ração o próprio Vicente.

Definitivamente depois de tudo isso, acho até meio redundante dizer que sim, recomendo e muito a leitura de Poeta Chileno. Com certeza vocês não irão se arrepender.


Poeta chileno
Alejandro Zambra
Tradução: Miguel Del Castillho
Companhia das Letras
2020 - 428 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

As horas não importam mais



Sinopse: Em uma viagem de carro pela BR-290, a narradora atravessa o passado e o presente, vivendo um caleidoscópio de emoções que insistem em atormentá-la como feridas à flor da pele.

Na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul uma mulher dirigi o seu carro pela BR-290, uma das mais importantes rodovias do Estado com 726km de extensão, ligando o Brasil a Argentina.

Acompanhada de música, cigarro e memórias a primeira informação que o leitor recebe da narradora e protagonista da história é que ela tem sangue nas mãos.

Não precisava pensar muito, apenas seguir em linha reta e obedecer às placas.


Sem um nome para identifica-la, ela percorre a estrada sem contar ao leitor o seu destino, parando em diferentes pontos e encontrando o pior em cada um deles.


A escrita de Kelli Pedroso

Antes de tudo uma curiosidade, para quem acompanha o blog desde o início, o nome talvez não lhe soe estranho. A Kelli participou dos primórdios da criação do Literatura Amores e Horrores, havendo nos primeiros anos algumas resenhas suas. Com o tempo ela, como os demais, seguiram caminhos diferentes, restando a pessoa que vos escreve.

Mas voltando As horas não importam mais, a escritora utiliza mescla a forma de Road novel com narrativa intimista para se movimentar não só pela estrada, mas também pela própria alma da personagem ao escavar memórias obscuras. São duas estradas percorridas em paralelo, com pontos de intersecção que alimentam o deslocar aparentemente errante, mas que a narradora sabe de cor.

Tudo é lembrança quando não podemos estar juntas. Eu não só não lembro a data em que ela resolveu abreviar a sua vida.


Em capítulos rápidos, a narrativa intimista é direta, apenas com as informações necessárias para compreender o tipo de situação vista ou vivenciada, tornando o destino final um mero detalhe para quem embarca na jornada.

Outro diferencial no livro é que a orelha e a contracapa não trazem sinopse ou resumo da história, mas a consideração de dois outros escritores de como se sentiram em relação a leitura, são eles:Gustavo Melo Czekster e Rafael Bán Jacobsen.


O que eu achei de As horas não importam mais

Apesar de ser um livro curto, ele é bastante intenso nas sequencias de cenas. Intercalando presente e passado sem informar datas, com várias sequencias de adormecimento em um trajeto de aproximadamente 9 horas se percorrido na integra (Uruguaiana - Osório) me causaram estranheza no início.

Mas por ser um livro que foge do tradicional, onde não sabemos o nome da personagem, de onde ela vem e para onde ela vai, muito menos as suas motivações, ele abre a possibilidade de o próprio leitor criar suas teorias. E abaixo eu compartilho a minha, que pode ser completamente diferente da sua pós leitura.

Não importava a época do ano, o percurso sempre era interessante. Cada estação trazia uma mudança de panorama, não de cenário.


O sentimento que eu fiquei era que a narradora estava em uma espécie de purgatório. Suas lembranças são dolorosas, revivendo a dor não cicatrizada na alma. E parece não haver nenhuma cidade no decorrer da estrada, apenas casas espalhadas, que me fizeram questionar se poderiam ter relação com a personagem em vida.

Suas paradas são com o pior que há na espécie humana, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. Ela tenta corrigir, fazer o certo, mas a forma ou não é convencional, ou não encontra ouvidos dispostos para chegar à solução. O que curiosamente me remeteu ao clima tenso do filme Mad Max, mas no lugar do deserto, o verde dos campos e florestas que acompanham a estrada fora das áreas urbanas.

Será que no dia em que eu morrer estarei só ou acompanhada? Será que vão encontrar o meu corpo logo? Ou quando ele estiver já em decomposição?


O que também pode despertar no leitor a dúvidas se ela está realmente vivendo aquilo, ou é apenas sonhos sequenciais (outra teoria que se passou pela minha cabeça). E assim acaba-se esquecendo onde ela está, que estrada percorre e o sentindo das horas, pois como o próprio título avisa, elas não importam mais. 


As horas não importam mais
Kelli Pedroso
Editora Pergamus
2017 - 72 páginas


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Parque Industrial



Sinopse: livro de estreia de Pagu, Parque Industrial é um marco na literatura brasileira. Publicado pela primeira vez em 1933, este romance proletário trata da vida de operários no bairro paulistano do Brás. Aqui, os conflitos fabris são conjugados a dramas cotidianos e íntimos, formando uma pintura intricada da sociedade brasileira do começo do século XX.

Na década de 1930 o maior parque industrial da América do Sul ficava em São Paulo. No bairro do Brás moradores de ruas inteiras caminham em direção as fábricas. Lanches são embrulhados em papel pardo e verde enquanto as moças compartilham o perfil de homem ao qual gostariam de se casar, indo do trabalhador ao sonho de se casar com um homem rico.

Pelas cem ruas do Brás, a longa fila dos filhos naturais da sociedade.


Nas oficinas é proibido conversar, mesmo que seja para afastar o perigo. Malandro, Vagabunda são usados em uma época que não existe a mínima possibilidade de processar alguém por assédio moral.

Há os que se indignam, homens e mulheres que tentam captar a atenção de seus colegas para o fato de os operários não serem valorizados, mesmo sendo os principais responsáveis pela produção que gera a riqueza de seus donos. Partidos e sindicados começam a aparecer como solução em uma vida de muitas horas de trabalho, crianças sozinhas em casa e demissão fácil.

Que importa morrer de bala em vez de morrer de fome.


Em paralelo mulheres são enganadas, se tornam mãe solo e se veem despejadas e desempregadas. Para elas só restam trabalhar onde a vida não é nada fácil ou enlouquecer.

Há também as que conquistam o seu passe para a vida de luxo, e logo se esquecem dos que ainda possuem uma vida difícil.

O Carnaval continua. Abafa e engana a revolta dos explorados. Dos miseráveis.


Um pequeno pedaço de Brasil com muitas faces, como ocorre em todas as épocas desde 1500.


A escrita de Pagu

Pagu ou Patrícia Galvão, escreveu este livro aos 22 anos com o pseudônimo de Mara Lobo. Sua escrita é rápida, fluída e direta, sem filtros nos diálogos ou situações da época. Os capítulos não possuem números, mas títulos que dão uma dica do que será abordado.

Trazendo para o leitor do século XXI a realidade nua e crua das mulheres que trabalhavam na indústria têxtil paulistana nos primórdios do século passado.

As criancinhas da classe que paga ficam perto das mães. As indigentes preparam os filhos para a separação futura que o trabalho exige.


Por ser ela própria uma militante do Partido Comunista, muitas referências são feitas a ele entre os personagens que lutam por um meio de trabalho melhor. Mas mesmo eles eram conservadores em relação a escrita de Pagu, que escancarou a desigualdade de classes, falou de sexo, perversão e corrupção em Parque Industrial.

Mas o que era um choque na época, com o tempo tornou Parque Industrial uma amostra de o porquê ela ter se tornado um dos grandes nomes do movimento modernista, que completou cem anos em 2022.


O que eu achei de Parque Industrial

As cento e onze páginas de Parque Industrial foram rapidamente percorridas por mim. Como um retorno ao passado, consegui enxergar através do olhar de Pagu as ruas cheias e vazias, as festas, as reuniões, os confrontos nas manifestações, os amores e as decepções.

O trabalho nada fácil, as cobranças e o se ajudar. Me fazendo refletir que apesar de ainda termos situações bastante críticas, conseguimos sim evoluir muito nas questões trabalhistas e no papel da mulher.

Grupos agiram, na manifestação, cartazes rubros, amassados. A tinta borrada dos impressos pede mais pão.


Mas não, o livro não é para se conformar, mas para inspirar na busca por mais igualdade, por mais respeito e claro, mais oportunidades.

Confesso que me surpreendi com a escrita de Pagu, sua história é ao mesmo tempo fluída e reflexiva. E para quem como eu que não viveu na década de 1930, a primeira pergunta é o que tem de ficção e de realidade?

Como posso dormir sabendo que meus filhinhos sofrem fome?


E mesmo tendo alguns diálogos que levam ao panfletarismo do que a jovem Pagu acreditava na época, isso não atrapalha em nada a leitura, mesmo que você não se identifique com a posição política da escritora, pois o olhar, como o crítico Kenneth David Jackson salientou é de um "documento social e literário".

E foi justamente isso que me fez gostar do livro, este retorno a um Brasil que parecia tão distante, mas cujos ecos de sua realidade ainda ecoam nas comunidades mais pobres. Pois talvez os mais desavisados podem achar que evoluímos muito nestes quase cem anos.

A mãe fora educada na cozinha de uma casa feudal, de onde trouxera a moral, os preceitos de honra e as receitas culinárias.


Mas basta um olhar mais atento para os que se tornaram invisíveis para uma parte da sociedade para saber que entre os mais pobres os anos de 1932 é agora.

É agora porque ainda existem mães que precisam deixar os seus filhos sozinhos para atender os herdeiros das classes mais altas. É agora quando ainda existe trabalho escravo e lugares insalubres, onde se ignora a idade de quem trabalha.

Por que nascera mulata? É tão bonita! Quando se pinta, então! O diabo é a cor.


É agora quando para muitas só resta a prostituição para viver um dia de cada vez. É agora quando milhares de brasileiros passam fome enquanto escrevo estas linhas.

E não é necessário compartilhar as ideias políticas de Pagu para saber que existem situações que são inaceitáveis pela sua desumanidade. Então por todos estes motivos eu recomendo e muito a leitura.

A dor do pobre é o dinheiro.


E seguindo a dica do Geraldo Galvão Ferraz, que faz o prefácio do livro, já coloquei na minha fila de leituras futuras Serafim Ponte Grande de Oswald de Andrade, para fazer a comparação sugerida de dois livros do período do Modernismo.


Parque Industrial
Pagu
Companhia das Letras
Edição 2022
111 páginas

Esta edição faz partes dos livros recebidos pelo Time de Leitores 2021 da Companhia das Letras, cuja resenha é independente e reflete a verdadeira opinião de quem o leu.